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Jorge Luis Borges

17/09/2010

às 13:51 \ Começos inesquecíveis

Os melhores começos inesquecíveis (V)

O começo in medias res – expressão cunhada pelo poeta latino Horácio e que significa “no meio das coisas, dos fatos” – é aquele em que a narrativa já se inicia com o bonde andando, no meio ou perto do fim da história, e aos poucos vai dando ao leitor as necessárias informações sobre o passado. In medias res se opõe a ab ovo (do princípio), outro termo horaciano, e é típico da grande – e há muito extinta – poesia épica. Tão antigo quanto a própria literatura, portanto. O que não o torna menos eficaz nas narrativas modernas.

A “Ilíada” de Homero começa com a Guerra de Troia perto do fim e com o herói amuado em sua tenda, recusando-se a participar do cerco dos gregos aos troianos. Aquiles, sabemos depois, brigou com o rei Agamenon quando este lhe confiscou uma cativa por quem nutria especial afeição. De tão humilhado, quer que os gregos se explodam. Isso lá é jeito de começar? Claro que é. Num bom início in medias res, a própria confusão momentânea experimentada pelo leitor, para quem o quadro geral vai se desembaçando aos poucos, contribui para sustentar sua curiosidade.

Note-se que na técnica clássica do in medias res não basta adiantar um aspecto intrigante do final nas primeiras páginas e voltar logo em seguida ao começo, para narrar então de forma linear o caminho que foi dar lá. Este é outro truque, também útil para a obtenção de certos efeitos, mas tecnicamente menos exigente. Quando se começa “no meio dos fatos” mesmo, a ideia é avançar dali para o fim, com o passado se revelando sem pressa e muitas vezes confusamente, em espasmos, por meio de flashbacks ou diálogos reconstitutivos.

Os dois exemplos a seguir fazem isso, cada um ao seu modo e os dois de forma criativa. O primeiro, aparecido em 1941, é o começo do conto O jardim de caminhos que se bifurcam, do livro “Ficções”, obra-prima de Jorge Luis Borges (tradução de Carlos Nejar). Uma pequena introdução erudita típica do autor antecede a entrada do relato do narrador principal, ao qual, num golpe de gênio, “faltam as duas páginas iniciais”:

Na página 242 da “História da Guerra Europeia”, de Liddell Hart, lê-se que uma ofensiva de treze divisões britânicas (apoiadas por mil e quatrocentas peças de artilharia) contra a linha Serre-Montauban tinha sido planejada para o dia vinte e quatro de julho de 1916 e teve de ser postergada até a manhã do dia vinte e nove. As chuvas torrenciais (anota o capitão Liddell Hart) provocaram essa delonga – nada significativa, por certo. A seguinte declaração, ditada, relida e assinada pelo doutor Yu Tsun, antigo catedrático de inglês na Hochschule de Tsingtao, lança insuspeitada luz sobre o caso. Faltam as duas páginas iniciais.

“…e pendurei o fone. Imediatamente após, reconheci a voz que havia respondido em alemão. Era a do capitão Richard Madden. Madden, no apartamento de Viktor Runeberg, significava o fim de nossos afãs e – mas isso parecia muito secundário, ou assim devia parecer-me – também de nossas vidas. Queria dizer que Runeberg tinha sido detido, ou assassinado. Antes que declinasse o sol desse dia, eu sofreria a mesma sorte.”

O segundo exemplo é, por assim dizer, o in medias res elevado à potência convulsiva de um ataque epiléptico. O início de “O jogador”, publicado por Fiodor Dostoievski em 1866 (tradução de Oscar Mendes), lança o leitor no meio de tal tumulto de nomes e histórias já começadas que se arrisca a transformar sua curiosidade em exasperação. Fica uma dúvida: será que o grande escritor russo empurrava conscientemente os limites da técnica ou apenas transferia para o texto a urgência que cercou um romance ditado para sua estenógrafa (com quem acabaria se casando logo depois) em apenas três semanas, a fim de pagar uma dívida com seu editor?

Voltava finalmente depois de uma ausência de duas semanas. Os nossos estavam havia já três dias em Rulettenburgo. Pensava que eles, Deus sabe como, me estariam esperando, mas enganava-me. O general parecia o supra-sumo da indiferença; falou-me com altivez e enviou-me à sua irmã. Saltava aos olhos que, fosse como fosse, haviam arranjado dinheiro. A mim me pareceu também que o general se esforçava muito por não me olhar. Mária Filipóvna estava muito atarefada e falou-me muito à pressa; aceitou, não obstante, o dinheiro, contou-o e escutou meu relato até o fim. À hora da refeição esperavam Miezientsov, um francês e também certo inglês; assim costumavam fazer enquanto tinham dinheiro: em seguida davam jantares à moscovita. Polina Alieksándrovna, ao ver-me, perguntou: “Vai estar ali muito tempo?” E sem esperar resposta, foi-se para não sei onde. Naturalmente, fez aquilo de propósito. Precisávamos, não obstante, ter uma explicação. Haviam-se juntado muitas coisas.

Muitas coisas, realmente.

25/08/2010

às 13:45 \ Pelo mundo

Tchecov e o conto moderno: e se a pistola não disparar?

Os 150 anos do nascimento do escritor russo Anton Tchecov (1860-1904), considerado o pai do conto moderno, motivaram uma bela edição do Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El País”. Um dos destaques é o artigo de abertura, “Pistolas e mares”, em que Luis Magrinyà reflete sobre o paradoxo que envolve aquela famosa tirada do autor – em referência ao teatro – sobre a pistola que se mostra no início da trama ter que ser disparada antes de cair o pano. Esse argumento poderoso contra a gratuidade, o mero adorno, foi em geral acatado como lei pela arte narrativa do século 20. O problema é que a frase da pistola, observa Magrinyà, acabou por obscurecer o fato de que os contos tchecovianos tiram sua maior força de elementos aparentemente desamarrados, sugestões inconclusivas que produzem um efeito duradouro na cabeça do leitor. A pistola não dispara, mas escapa de ser gratuita porque, calada, ressoa ainda mais. A conclusão do autor do artigo é, numa paráfrase livre, a de que Tchecov inventava assim o realismo que sucederia a onisciência do século 19, um espelho lacunar do que a vida tem de essencialmente amorfo e indomável, “como o mar”.

Outro atrativo da edição, este mais polêmico, é a lista dos 16 (por que 16?) “melhores contos do século 20”:

Raymond Carver: “Catedral” (1983)
James Joyce: “Os mortos” (1914)
Henry James: “A fera na selva” (1903)
Juan Rulfo: “Não ouves ladrar os cães” (1953)
Julio Cortázar: “Graffiti” (1981)
Ramón del Valle-Inclán: “O medo” (1902)
Truman Capote: “Deslumbramento” (1982)
Jorge Luis Borges: “O espelho e a máscara” (1975)
J.D. Salinger: “O homem risonho” (1953)
Francis Scott Fitzgerald: “Regresso a Babilonia” (1929)
Ingeborg Bachmann: “Problemas, problemas” (1972)
Katherine Mansfield: “A mosca” (1922)
Ring Lardner: “Campeão” (1924)
Medardo Fraile: “O álbum” (1959)
Flannery O’Connor: “A boa gente do campo” (1955)
Katherine Mansfield: “Na baía” (1921)

A lista é intessante e, como sempre, cheia de furos. Reconheço minha incapacidade de julgar, por absoluta ignorância, a propriedade de incluir nesse Olimpo a austríaca Ingeborg Bachmann e o espanhol Medardo Fraile. Mas estranho que Truman Capote e Ring Lardner sejam titulares da forte seleção americana (nada menos que sete dos 16 nomes são nativos dos EUA, embora o europeizado Henry James não caiba bem no figurino), barrando jogadores que considero indispensáveis nessa partida, como Ernest Hemingway (“Colinas como elefantes brancos”, talvez) e John Cheever (“O nadador”, quase certamente). E, para não sair do velho Império Austro-Húngaro, convocar Ingeborg Bachmann em vez de Franz Kafka (“Um artista da fome”, sem dúvida) não é meio como levar o Júlio Batista e deixar o Ganso?

Duas curiosidades: uma das herdeiras mais diretas de Tchecov, a neozelandesa Katherine Mansfield é a única que comparece com duas histórias; e o país de Maradona brilha com um par de nomes, Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, que considero acima de contestação, embora a escolha de seus contos seja duvidosa. Nesse ponto confesso que me enchi de brios nacionalistas e tentei desencavar um Machado de Assis do século 20 para meter em campo. Fracassei por muito pouco: “Missa do galo” saiu em livro em 1899, maldição! Mas, se os espanhóis podem ir de Medardo Fraile, por que não poderíamos recorrer a Guimarães Rosa (“A terceira margem do rio”) ou Clarice Lispector (“Uma galinha”)? Qualquer lista, afinal, revela mais sobre quem a faz do que sobre o mundo.

De toda forma dá o que falar, como toda lista do gênero, o que é sempre bom.

13/08/2010

às 11:36 \ Vida literária

Dez escritores brasileiros abrem o jogo da ‘má influência’

Num bom momento da Flip, Salman Rushdie disse que Jorge Luis Borges foi uma “má influência” em sua juventude. Apaixonado por “Ficções”, passou a tentar escrever daquele jeito, embora sua “inclinação natural como escritor não fosse borgiana”. Deu trabalho, segundo ele, aprender a não escrever como Borges. O Todoprosa aproveitou a deixa para perguntar por e-mail a dez escritores brasileiros quais foram suas “más influências”:

MILTON HATOUM, autor de “A cidade ilhada”: “Acho que a obra de J.L. Borges influenciou várias gerações de escritores. Lembro que na década de 70 eu também imitava Borges. Mas joguei fora esse péssimo plágio deliberado. No começo de sua carreira, todo escritor imita seus antecessores. A imitação faz parte do processo de aprendizagem de qualquer atividade humana. Borges dizia que imitava Macedonio Fernandez ‘até plagiá-lo’. Os contos de ‘História universal da infâmia’ devem muito às narrativas do francês Marcel Schwob (‘Vidas imaginárias’ e ‘A cruzada das crianças’). Acho que Salman Rushdie é um escritor marqueziano. Certa vez ele me disse que adora a obra de García Márquez. Este, por sua vez, já afirmou que lia Borges para aprender a escrever. Na infinita biblioteca do universo, todos podem ser influenciados por todos, mas um bom escritor acaba encontrando sua própria voz, com a qual inventa um mundo particular.”

CAROLA SAAVEDRA, autora de “Paisagem com dromedário”: “Minha ‘má influência’ foi sem dúvida Clarice Lispector. Comecei com ‘Perto do coração selvagem’, ainda adolescente. Aos vinte e poucos anos eu tinha lido quase toda a sua obra. Lembro do espaço enorme que esses livros ocupavam na minha estante. E tudo o que eu escrevia ficava com jeito de Clarice, por sorte eu tinha noção de que o resultado era sofrível. Um dia, peguei todos os seus livros, coloquei numa caixa, e fechei bem fechada. Só fui abri-la quase uma década mais tarde.”

CRISTOVAO TEZZA, autor de “O filho eterno”: “Eu acho que má influência é somente aquela de que você não se livra. No mais, de tudo fica um pouco, e no bom sentido. Lembro que em meu primeiro livro, nos anos 70, os contos de ‘A cidade inventada’, eu sofri um mix de influências, de Borges (inevitável) a Hermann Hesse (de ‘O jogo das contas de vidro’). Só bem lá no fundo dos contos batia um coração de escritor tentando respirar! Em outro momento, parei de ler Faulkner e Conrad, com medo de que aquela sintaxe me contaminasse para sempre. Bobagem. Foram autores que só abriram portas. Já Graciliano Ramos me influenciou (eu acho), no torneio curto da frase. Mas tem a ver com visão de mundo. A poesia de Drummond (sempre falando dos anos 70) me tomou por inteiro de tal modo que eu, como poeta, desapareci completamente. E desisti da poesia, para felicidade geral de parentes e amigos. Não era a minha linguagem. E de um momento em diante (a partir de ‘Trapo’), parei de me preocupar com influências.”

MICHEL LAUB, autor de “O gato diz adeus”: “Meus primeiros contos eram bem derivados do Rubem Fonseca. Até personagem delegado acho que tinha. Um amigo para quem mostrei esses textos disse o óbvio: que aquilo soava muito artificial, o que de alguma forma eu achava também (só não sabia ainda por quê). Superar a influência não foi tão difícil, já que ela era mais temática que de estilo, e temática é algo mais fácil de controlar. Mas demorou um pouco, claro, porque nunca é fácil jogar fora tudo o que você fez e recomeçar do zero.”

ANA PAULA MAIA, autora de “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”: “Quando li ‘O apanhador no campo de centeio’, do J.D. Salinger, fiquei tão terrivelmente influenciada que escrevi o meu primeiro romance, ‘O habitante das falhas subterrâneas’, totalmente influenciada por ele. Aquilo foi bom e terrível. Deixei de lado todas as leituras que poderiam me influenciar dessa maneira corrosiva e só voltei a elas quando encontrei o eco da minha própria voz na literatura que escrevo. Ainda é difícil me livrar de certas vozes exteriores, pois elas continuam a me rondar, mas já não aparecem de modo tão descarado nos meus textos.”

BERNARDO CARVALHO, autor de “O filho da mãe”: “Não tenho nenhum caso específico para citar. Todo grande escritor é, nesse sentido, ao mesmo tempo uma boa e uma má influência. Escritores que têm estilos muito marcantes, como Beckett, Guimarães Rosa e Thomas Bernhard, podem se transformar em armadilhas muito facilmente. Você pode adorá-los, mas também vai ter que saber se afastar deles se quiser escrever. É aquela velha história da angústia da influência.”

FLÁVIO CARNEIRO, autor de “O campeonato”: Acho que não existe má influência nesse caso, já que Salman Rushdie, ao ‘matar o pai’ Borges, certamente cresceu muito como escritor e portanto a influência acabou sendo boa no final das contas. Má seria se ele tivesse sido influenciado por um autor ruim e tivesse continuado nesse caminho. No meu caso, quando comecei a escrever, meu autor de referência era o Rubem Fonseca, como aconteceu com muitos da minha geração. Mas a minha inclinação, para usar a palavra usada por Rushdie, nunca foi a da temática urbana, da violência etc., mas a da fantasia, mais próxima do fantástico, por exemplo. Ainda leio e gosto muito do Rubem Fonseca, mas acho que ‘superei’ essa influência escrevendo um romance que é assumidamente uma reescritura de um conto dele, ‘O campeonato’. Escrevi um romance, com esse mesmo título, em que um jovem viciado em leitura de romances policiais se depara com um bando de marginais que resolve colocar em prática o que acontece ficcionalmente no conto do Rubem. Quer dizer, o conto dele entrou como mote ficcional para a escrita do meu romance, que é um policial à la Rubem Fonseca mas com um pé na fantasia, na imaginação meio delirante, que acredito ser uma marca da minha ficção. Esse romance foi escrito nos anos 90, publicado primeiramente pela Objetiva e reeditado agora, numa versão mais enxuta, pela Rocco.”

RAIMUNDO CARRERO, autor de “A minha alma é irmã de Deus”, vencedor do Prêmio São Paulo 2010: “É verdade, todo escritor tem uma má influência. Ou seja, um autor, um escritor, que mesmo sendo genial interfere de modo significativo na vida de um iniciante. No meu caso, a má influência veio – e vem – de João Guimarães Rosa. Cheguei a escrever um livro inteiro de contos – chamava-se ‘O domador de espelhos’ – que foi enviado à Editora Civilização Brasileira por um amigo consagrado, cujo nome prefiro esconder. Ênio Silveira, o editor, recusou-o, alegando exatamente isso: é uma imitação estúpida de Guimarães Rosa e nada mais. Tinha razão. Tive que esquecer o criador de ‘Grande sertão: veredas’ por muito anos. E, ainda hoje, guardo distância. Basta lê-lo numa manhã e à tarde já estou repetindo todos os seus cacoetes. Vade retro, mineiro!”

CÍNTIA MOSCOVICH, autora de “Por que sou gorda, mamãe?”: “Eu, digamos assim, ‘percebi’ a maneira de escrever literatura ao ler Clarice Lispector, e é dela, portanto, que tenho maior influência. Não digo que seja má, no sentido jocoso que Rushdie atribui à influência de Borges: é que nunca me preocupei em não escrever como Clarice. Acho que, mesmo sem essa angústia, a gente escreve um texto singular, próprio, original. Eu sabia que cedo ou tarde encontraria em mim a ‘voz interior’, o ‘estilo’, o jeito, a maneira, aquilo que era profundamente meu e que tão bem a Clarice espelhava. (Claro, se eu escrevesse como a Clarice, melhor ainda.) Agora: nós somos herdeiros de uma tradição, somos sucessores de quem veio antes de nós. Não temos como negar o que somos, quem lemos, ouvimos, assistimos. A ideia de originalidade absoluta é uma quimera. Há em nós quem veio antes de nós. Por que não?”

DANIEL GALERA, autor de “Cordilheira”: “Pensei bem antes de responder, e acho que não tenho um autor específico que possa ser citado como ‘má influência’. Houve muitos casos isolados de tentar imitar algum autor que admiro apenas para descobrir que não era possível, seja por falta de talento ou por incompatibilidade de vozes literárias, mas nenhum caso foi especialmente marcante. De forma geral, lembro de uma época em que tentei escrever contos de recorte mais fantástico, ou próximos do gênero da ficção científica, porque achava que escrever apenas narrativas realistas e contemporâneas era uma limitação a ser evitada. Isso deve ter sido lá por 2003 ou 2004, antes de começar a trabalhar no ‘Mãos de Cavalo’. Os contos resultantes dessa neurose passageira ficaram péssimos e felizmente tive a presença de espírito de nunca publicar nenhum deles. Mas seria justo dizer que nesse período sofri a dita má influência dos gêneros fantásticos, que aprecio intensamente como leitor, mas que provavelmente não sou talhado a criar. Me reconciliei com o realismo urbano/contemporâneo logo em seguida e hoje não me sinto mais forçado a sair dele para explorar minha voz literária, embora não tenha abandonado a ideia de quem sabe, um dia, escrever algo dentro de gêneros como ficção científica e policial, que adoro.”

06/08/2010

às 21:44 \ Vida literária

Salman Rushdie para cabeças e corações

E a Flip teve sua primeira mesa propriamente flípica. Ao fim da entrevista concedida por Salman Rushdie ao jornalista Silio Boccanera, agora há pouco, o público que lotou a Tenda dos Autores estava cheio de sorrisos. Ali estava, enfim, um peso-pesado da literatura mundial, o homem que ganhou recentemente o Booker dos Bookers por seu livro de estreia, “Os filhos da meia-noite”. Ali estava também um personagem político importante (ainda que à sua revelia), no cenário da relação conflituosa entre o Islã e o Ocidente. E ali estava ainda um pai fazendo o lançamento mundial do livro infanto-juvenil que escreveu para seu filho mais novo, “Luka e o fogo da vida”, com direito a uma breve – e constrangida, mas certamente terna – presença do filho no palco.

Resultado: um show redondo, do tipo que faz o público correr para os restaurantes com a cabeça excitada e o coração aquecido. No contexto da Flip, não dá para ser melhor que isso. Rushdie falou do livro que está escrevendo sobre o período em que esteve ameaçado de morte pela fatwa, criticou pesadamente o filme “Quem quer ser um milionário” e não se aborreceu sequer quando, lendo a última pergunta enviada por alguém da plateia, Boccanera lhe perguntou qual era seu segredo para, não sendo bonito nem sabendo dançar bem, conquistar tantas belas mulheres. “Se eu lhe contasse”, disse, “deixaria de ser segredo”.

Abaixo, algumas outras declarações que ajudam a explicar o sucesso da noite:

Sobre o livro que começou a escrever a respeito do período que passou escondido: “Tem que ser não-ficção. A razão disso ser interessante é que é verdade. Adiei esse livro por muito tempo porque queria escrever romances, mas sempre soube que um dia algum tipo de instinto me diria que era a hora de escrevê-lo. Tenho sessenta ou setenta páginas escritas. Sou lento. Volte a me perguntar sobre isso daqui a uns dois anos.”

Sobre a possibilidade de a experiência ter provocado nele uma mudança para melhor. “Tendo a responder que não, porque senão seria como recomendar isso aos outros. Não recomendo. Se você puder evitar ser sentenciado à morte por fanáticos religiosos, é melhor. Mas houve mudanças. Se você é um escritor de inclinação satírica, como eu, tende a olhar para as coisas de que não gosta. E de repente ficou claro para mim que eu precisava conhecer e lutar pelo que eu prezava, e não só contra o que eu não gostava. As piadas dos meus livros também ficaram melhores. Ser ameaçado de morte é bom para o humor. Mas minha visão do fundamentalismo não mudou. Sempre fui contra.”

Sobre a acusação de neoconservadorismo que lhe fez recentemente o crítico Terry Eagleton: “Há um nome para isso: mentira. Terry Eagleton vai estar aqui amanhã, pergunte a ele por que ele disse essa mentira. Passar anos lutando contra o neoconservadorismo de Bush e Cheney e de repente ser acusado de ser um aliado do neoconservadorismo de Bush e Cheney é desonesto, ofensivo e desonroso. Dizem que minha visão do Islã é simplista. Ora, o Islã é minha família. Minha visão é muito complicada. No entanto, vocês devem ter reparado que existe um problema mundial envolvendo o Islã. O que me irritou depois do 11 de setembro foi as pessoas dizerem que não, aquilo não tinha a ver com o Islã. Bom, com ioga é que não tinha! O problema é esse ambiente politicamente correto terrivel, que não permite falar certas coisas. E a função de um escritor é tentar enxergar as coisas com clareza. Se isso desagrada alguém, então desagrada.”

Sobre seu ateísmo: “Ao longo da história, o que se vê é que os deuses acabam sendo descartados. Depois que as religiões morrem, eles se tornam muito importantes para nós, deixam de ser deuses e viram mitos. Eu sinto pena dos deuses: um dia eles são poderosos e no dia seguinte aquele raio não funciona mais. É a tragedia dos deuses descartados. Mas é bom que eles morram, primeiro porque deixam de matar pessoas, e depois porque então as religiões viram narrativas, histórias.”

Sobre a influência de Borges, García Márquez e, surpreendentemente, Machado de Assis: “Acho que Borges foi uma má influência. Minha natureza como escritor não é borgiana, mas quando descobri ‘Ficções’ por acaso, sem nunca ter ouvido falar nele, em minha juventude, fiquei pirado. E cometi o erro de tentar escrever daquele jeito, quando só uma pessoa podia escrever daquele jeito. Tive que aprender a não escrever como Borges. García Márquez e toda a literatura do boom latino-americano também foram importantes. Muita gente na Índia acha muito fácil se identificar com a literatura sul-americana, não só pelo aspecto da magia mas porque são dois mundos com uma longa história de colonialismo, que se expressam na língua trazida pelo colonizador, que têm uma religiosidade forte e grandes desigualdades sociais. De Machado de Assis eu roubei uma ideia. Gosto muito do início de ‘Memórias póstumas’, quando o narrador diz que não vai explicar como faz para escrever do além-túmulo porque os detalhes são aborrecidos demais. Usei isso em ‘Luka’ para descrever a tecnologia do mundo mágico: ah, isso é complicado demais para explicar. Roubei dele. Se você tem que roubar, que seja dos bons.”


 

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