Blogs e Colunistas

Jonathan Franzen

01/02/2012

às 13:37 \ Pelo mundo

As mais belas livrarias do mundo

Selexyz é o nome da livraria das fotos acima, diante da qual um lugar-comum como “templo dos livros” ganha uma inesperada força expressiva. Foi montada no interior de uma antiga igreja dominicana em Maastricht, na Holanda, e vem em primeiro lugar entre as 20 livrarias mais belas do mundo, segundo uma das mais inspiradoras listas que o Flavorwire já compilou. O Brasil também comparece (com a Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo).

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Se essa lista fosse um documentário, poderia ter a narração em off de Jonathan Franzen, que acaba de recitar (aqui, em inglês) no festival Hay de Cartagena, na Colômbia, a maior defesa dos livros impressos ouvida nos últimos tempos. De forma um tanto surpreendente, o autor de “Liberdade” não se referiu ao aroma inebriante da tinta no papel ou algum outro clichê do gênero. Atacou justamente aquilo que os entusiastas do meio digital mais exaltam: a aura de impermanência – ou seja, a plasticidade, a permeabilidade, a interatividade, o compartilhamento, a coautoria – do texto lido na tela.

“Talvez ninguém ligue para livros impressos daqui a cinquenta anos, mas eu ligo”, disse Franzen, um dos autores confirmados na próxima Festa Literária Internacional de Paraty. “Quando leio um livro, tenho nas mãos um objeto específico, num lugar e numa hora específicos. O fato de que, quando tiro o livro da estante, ele ainda diz a mesma coisa – isso é reconfortante. Alguém trabalhou duro para tornar a linguagem exatamente adequada, bem do jeito que queria. E tinha tanta certeza disso que mandou imprimir o texto em tinta sobre papel. Uma tela sempre dá a impressão de que podemos deletar aquilo, mudar, mover. Para uma pessoa louca por literatura como eu, não é permanente o bastante. Tudo mais na vida é fluido, mas ali está aquele texto que não muda. Ainda haverá leitores daqui a cinquenta anos que pensem assim? Que terão essa fome por algo permanente e inalterável?”

Eu diria que sim, haverá. Como também haverá livrarias que parecem catedrais. Mas isso é só um chute, claro. Em 2062 a gente conversa.

25/01/2012

às 13:14 \ Vida literária

Erico no IMS, McCarthy no Twitter, Franzen na TV

Amanhã à noite terei uma conversa íntimo-pública com Luis Fernando Verissimo sobre “Incidente em Antares”, o último romance do pai dele, diante de uma plateia de bolso no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Lançado em 1971, o divertido livro em que Erico Verissimo (foto) cutucava a ditadura no auge da repressão e flertava com o “realismo mágico” latino-americano pela via do humor rasgado – além de passar bem perto de antecipar a moda moderninha dos zumbis – já tem um pouco mais de quatro décadas, mas a comemoração do aniversário atrasou.

Fiquei tão honrado quanto surpreso ao ser convidado para o evento por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que detém o acervo do maior nome da literatura gaúcha. Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos?

Pois é, ela não sabia. O que me deixa com a sensação – nada desagradável, devo reconhecer – de ter feito algumas escolhas certas na vida. Não é só numa cidade fictícia com nome de estrela às margens do rio Uruguai que os mortos podem cruzar nosso caminho.

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Como assim? O recluso Cormac McCarthy aderiu ao Twitter? Era alarme falso, mas Margaret Atwood, tuiteira emérita, acreditou. No blog de livros do “Guardian”, Alison Flood lançou um apelo: “Permaneçam reclusos, ó ícones da literatura americana, eu imploro!”.

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Com a produção de uma série baseada em “As correções”, que terá roteiros escritos pelo próprio Jonathan Franzen, e a aquisição dos direitos de adaptação de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, a HBO entra com tudo no terreno – até aqui esnobado pela televisão – da literatura contemporânea “séria”. Boa notícia, certo? No “The Millions”, A-J Aronstein não está tão certo disso e (em inglês) especula que…

…devemos refletir sobre as implicações de sugerir [como teria feito, segundo ele, um empolgado Franzen] que as capacidades estéticas da televisão podem complementar ou mesmo suplantar as dos romances. Uma vez na vida, não perguntemos se “o romance vai sobreviver”, e sim o que significa o fato de seu futuro depender da relação com a TV – e se essa relação será produtiva a longo prazo.

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Em sua coluna de ontem no “Globo”, Pedro Doria saudou a chegada do “gratuito e trivial” iBook Author, software da Apple dedicado à edição de livros eletrônicos para iPad, no qual é simples como jamais foi acrescentar ao texto fotos, vídeos, recursos interativos etc.:

A notícia não é necessariamente boa para editoras. O filho do vizinho pode compor o livro eletrônico e submetê-lo para venda na loja da Apple sem que nenhum editor o veja. Passa por cima do intermediário. Taí um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido. Mas para fotógrafos com vontade de experimentar, designers com projetos dentro da gaveta e autores de livros infantis, a porta se abre repentinamente.

Não duvido que fotógrafos, designers e autores de literatura infantil façam a festa. Mas confesso que estarei mais atento ao que farão com a ferramenta autores de ficção literária adulta. Será o iBook Author a peça que faltava para que finalmente se ponha em curso aquela revolução pregada há alguns anos pelos entusiastas do meio eletrônico – a da explosão da arte narrativa num admirável mundo tridimensional de sons, imagens, interatividade e, bem, até mesmo palavras?

Vamos ver. Meu palpite é que, se a coisa não andar agora, não anda mais.

27/05/2011

às 13:23 \ Vida literária

O que a canonização de Franzen diz sobre a literatura atual

A revalorização da ficção como arte narrativa por excelência, em ligação direta com a tradição romanesca do século 19, parece ser o pano de fundo para o curioso fenômeno de canonização do escritor americano Jonathan Franzen, um tsunami que varreu o mundo ano passado, quando ele publicou o romance Freedom, e que agora vem inundar a costa brasileira com a previsibilidade dos maremotos a pretexto do lançamento de “Liberdade” (Companhia das Letras, tradução de Sergio Flaksman, 608 páginas, R$ 46,50).

O livro é bom? É. Maravilhoso? Longe disso. Em contraste com a maioria da humanidade, não me encantei com ele e expliquei minhas razões aqui, sob o título Freedom: Obama no conteúdo, Bush na forma, pouco depois do lançamento americano. Vejo até algo de cômico num superlativo como “o livro do século” que o sério “The Guardian” pespegou no tijolo: se o epíteto abrange o século inteiro, trata-se de uma leviandade; se a ideia é falar do século até agora, decorrido um décimo dele, o correto seria usar uma medida de tempo mais sóbria.

Fica evidente, porém, que elogios desse tamanho vão além de questões menores como coerência numérica. Méritos literários à parte, o que o hype franzeniano parece indicar, de uma perspectiva da sociologia da leitura, é uma vigorosa tomada de posição dos meios de comunicação de massa – em aparente comunhão com o público leitor, que transformou o romance em best-seller – num debate que, surdo ou estridente, vem rolando há alguns anos e que pode ser condensado em duas perguntas:

1. A literatura séria, isto é, artisticamente ambiciosa, ainda tem algo a dizer ao mundo?

2. Se tem, qual é a corrente estética mais bem aparelhada para dar conta da tarefa?

A resposta do hype franzeniano é firme:

1. Tem!

2. A ficção revivalista que retoma o legado de Tolstoi, superando tanto o sarampo das “experiências de linguagem” modernistas quanto a catapora da metalinguagem pós-modernista, que alienaram grande parte do público leitor ao longo do século 20, e investindo em histórias realistas carnudas, boas de ler, de preferência longas, com personagens esféricos situados em contextos histórico-sociais bem definidos.

Caretice, dirão alguns. Mas descartar tal postura como conservadora me parece, a esta altura da história, não só fácil como inconsistente: se pagar tributo à rica narrativa de Tolstoi – como faz Franzen explícita e imodestamente em “Liberdade” – é uma prova de conservadorismo, cultuar o espírito vanguardista da primeira metade do século 20, ideal eterno de muitos críticos, também é. Um dos problemas enfrentados pela literatura neste início de terceiro milênio é que tudo já tem uma tradição. Sendo assim, é honesto que cada um escolha a sua ascendência de modo explícito, sem fingir que está inventando a roda.

Por outro lado, antes de dar crédito aos arautos do esgotamento da literatura, convém considerar que existe uma grande diferença entre revivalismo e conservadorismo. Atualizar tradições e fazê-las dialogar com o presente – no caso de Franzen, mais no plano factual do que no da linguagem – sempre provoca novos atritos e jamais terá os mesmos efeitos do “original”. As letras vivem disso há milênios, salvas de crises sucessivas pelo fato de linguagens desgastadas existirem para que escritores de talento as revalorizem. Machado de Assis recuou mais de cem anos para retomar certos truques de Laurence Sterne e antecipar para a literatura brasileira o século 20 (e talvez o 21 também?).

Meu incômodo com o franzenismo é de outra ordem. A enfática fulanização do argumento estético que sustenta esse circo pode dar ao leitor desavisado duas impressões erradas: a de que não há outros cultores contemporâneos da boa arte narrativa e a de que o único modo de cultuá-la é aquele, de uma grandiloquência aparentada do realismo muralista, que Jonathan Franzen emprega.

Nascido em 1959, o autor de “As correções” – este sim, um livraço – pertence à boa geração americana de David Foster Wallace, Michael Chabon, Chuck Palahniuk e Jeffrey Eugenides. Cada um a seu modo, todos são grandes narradores. DFW é mais tortuoso e mergulhado na linguagem, Palahniuk e Chabon dão mais atenção à cultura pop, Eugenides é provavelmente o prosador mais fino da turma. No capítulo painelzão-social-bom-de-ler, pelo menos dois romances dessa geração – “Incríveis aventuras de Kavalier & Clay”, de Chabon, e “Middlesex”, de Eugenides – me parecem mais bem realizados do que “Liberdade”.

Feitas essas ponderações, é bacana ver um escritor sério receber tanta atenção midiática. Com um pouco de sorte, a consagração de Franzen pode contribuir – é a minha torcida pessoal, o meu partido nessa guerra – para uma revalorização crítica da arte narrativa e dos jogos de linguagem aplicados, em oposição ao conceitualismo cabeçudo e aos jogos de linguagem puros. E quem sabe para a retomada, pela tal “grande literatura”, daquelas multidões de leitores que se mudaram para as terras encantadas da fantasia, do policial, dos best-sellers de fórmula, onde ninguém pede desculpas por contar histórias irresistíveis.

04/04/2011

às 14:39 \ Vida literária

Máquinas de escrever, gaúchos, Jennifer Egan e outros links

Charmoso estudo fotográfico de uma era extinta: escritores famosos e suas máquinas de escrever. Na amostra ao lado, John Cheever em 1979, quando, diga-se de passagem, não andava nada bem – mas essa é outra história.

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No capítulo galeria de fotos, achei simpática essa que o blog Mundo Livro, do jornal “Zero Hora”, montou só com retratos de escritores… gaúchos, claro. Destaque pessoal para o olho direito de Manoela Sawitzki e para os óculos que escondem os olhos de Cláudia Tajes.

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Pelo sensacional placar de 9 a 8, o romance A visit from the goon squad, de Jennifer Egan, derrotou Freedom, de Jonathan Franzen, na final do Tournament of Books, competição mata-mata que serviu de inspiração para a Copa de Literatura Brasileira. Os dois livros são inéditos no Brasil. Resenhei o de Franzen aqui, e o de Egan me olha agora da estante com ar de cobrança.

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O poeta americano Joseph Wood escreveu um artigo ponderado – e, principalmente, sem traço de antiintelectualismo – sobre o mal que décadas de crítica literária empapuçada de teoria fizeram à poesia. E à prosa, não?

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A palavra sonhada é a crônica que publiquei ontem em minha outra coluna, a vizinha Sobre Palavras. Bem poderia ter saído aqui.

27/08/2010

às 17:57 \ Vida literária

Franzen, Bolaño e o hype literário

Faz muitas décadas que a literatura propriamente dita, artisticamente ambiciosa, não é terreno fértil para comoções de massa. É cem vezes mais fácil construir uma atmosfera de hype, o que um dia se chamou de badalação, no âmbito do cinema ou da música pop. Isso torna ainda mais interessantes os casos recentes de dois livros cercados de histeria: Freedom, do americano Jonathan Franzen, que antes mesmo de sair (será lançado terça-feira nos EUA) já vem sendo chamado de “romance do século”, e “2666”, o tijolão do chileno Roberto Bolaño, que foi unanimemente saudado como sua obra-prima e que, chegando ao Brasil com atraso há poucos meses, virou também por aqui aquele tipo raro de livro que todo mundo lê predisposto a elogiar.

Hype, palavra que os moderninhos brasileiros adotaram com um sentido intensamente positivo que está ausente do original, quer dizer em inglês publicidade excessiva e a comoção que ela provoca, exagero marqueteiro em torno de um produto e até mesmo, em casos extremos, fraude. Pode ser que falar em hype seja impróprio quando se trata de escritores tão talentosos quanto Franzen e Bolaño. Por outro lado, os dois casos de sucesso parecem ter, pelo menos em certa medida, algo daquele efeito manada que o marketing está sempre tentando disparar.

Como não li Freedom, convém deixar aberta a possibilidade de o livro ser mesmo o maior monumento da literatura desde “Ulisses” ou coisa parecida. O romance anterior de Franzen, The corrections, é sem dúvida um dos mais brilhantes que me passaram pelas mãos nos últimos anos. Mas é inevitável pensar que podemos estar diante de uma bolha inflacionária de superlativos quando se lê no “Guardian” que Freedom é “o livro do século”, um juízo bobinho que os próximos 90 anos se empenharão em desmentir, ou quando se vê a foto de Franzen na capa da revista “Time” ao lado de um título solene como “Grande romancista americano”. Diante disso, “obra-prima da ficção americana”, o elogio do “New York Times”, soa até tímido.

A consagração de “2666” não chegou tão longe, mesmo porque Bolaño não escreve em inglês, mas também foi acachapante. Neste caso, li o livro e fiquei matutando sobre os curiosos mecanismos da glória literária. “2666” consolidou internacionalmente o nome de Bolaño como o maior escritor latino-americano desde a geração do boom, mas é um romance que alterna momentos sublimes com outros francamente mal acabados, escritos a galope, como se a maior preocupação do autor fosse morrer antes de conseguir terminá-lo – o que por pouco não ocorreu. Na verdade, fiquei com a impressão de que Bolaño deixou mesmo inconcluso o trabalho: faltou revisá-lo para atingir a excelência de “Os detetives selvagens”, um romance menos ambicioso no projeto mas muito superior na execução. E que mereceu uma acolhida relativamente sóbria no Brasil, tanto da crítica quanto dos leitores – na época, seu autor ainda não tinha virado um mito.

Acho bem-vindo o hype em torno de Freedom e “2666”, nem que seja por sugerir que a literatura séria pode não ser tão culturalmente irrelevante no terceiro milênio quanto tentam nos fazer crer. Os dois casos parecem indicar que, à parte elementos imponderáveis, atingir o céu da comoção mercadológica é um feito reservado em nosso tempo a livros que tenham a ambição estratosférica – materializada de preferência em muitas centenas de páginas – de, mais que contar uma história, dar conta de um vasto painel social. É como se isso os tornasse “importantes”, dignos da atenção de um público que tem deixado a literatura séria cada vez mais fora do alcance de seu radar.


 

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