Blogs e Colunistas

Jonathan Franzen

25/04/2012

às 12:48 \ Resenha

‘A trama do casamento’: Eugenides em queda livre

O escritor americano Jeffrey Eugenides estreou em 1993 com uma obra-prima tão madura e original, o romance-novela “Virgens suicidas”, que a consagração de público e crítica atingida dez anos depois por seu segundo romance, “Middlesex”, ganhador do Pulitzer, pareceu apenas natural. Da geração de David Foster Wallace e Jonathan Franzen, Eugenides parecia destinado a figurar em posição de destaque no primeiro time da “nova geração” americana. Parecia. Mais uma década se passou e seu terceiro romance, “A trama do casamento” (que a Companhia das Letras lança mês que vem, com tradução de Caetano Galindo), é tão fraco que obriga seus admiradores, entre os quais me incluo, a repensar algumas das certezas expostas acima.

Mais (ou menos) que uma resenha, este texto vai procurar elementos para começar a lidar com essa questão triste: a queda livre qualitativa de um escritor que lançou um dos melhores livros de estreia que já cruzaram meu caminho. Primeiro convém falar um pouco de The marriage plot – que li no original, razão pela qual nada direi sobre a tradução.

Desde o título, trata-se de uma tentativa explícita de atualizar (para os anos 1980) os romances românticos que terminavam com o casamento da heroína, à moda de Jane Austen. A heroína neste caso, Madeleine Hanna, é uma jovem meio insossa que se forma em letras na Brown University e que tem como interesse justamente o estudo dos tais romances, enquanto seu coração se divide entre dois colegas.

O primeiro, de ascendência grega como o autor, é o místico e gente-boa Mitchell Grammaticus, que está à procura de Deus e que Madeleine transforma num amigo mais ou menos assexuado. O outro, com quem ela acaba por se casar, é o brilhante mas maluco Leonard Bankhead, escancaradamente moldado – com bandana, tabaco de mascar, genialidade, depressão e impulsos suicidas – em David Foster Wallace.

Haveria uma ou duas coisas a dizer, até em termos éticos, sobre essa exploração da imagem do escritor que se matou em 2008 e cuja mística, impulsionada tanto pela morbidez da cultura de massa quanto por seu brilho literário, não para de crescer. Basta observar que uma óbvia chave de leitura de “A trama do casamento” aponta para rivalidades geracionais – o alter ego do autor disputando com o avatar do colega mais talentoso os favores da fugidia glória literária encarnada pela mocinha rica e bonita – que evidenciam ainda mais o acanhamento do romance. Ah, se fosse DFW a escrevê-lo…

Esse acanhamento se manifesta em diversas frentes: personagens rasos e desinteressantes (com exceção de Bankhead, mas já vimos de onde vem seu charme), prosa realista estilisticamente banal, desenvolvimento arrastado da trama, intrigas secundárias irrelevantes e, no fim das contas, um aproveitamento superficial e sapecado do motivo literário exposto no título e sua suposta dimensão metalinguística. Na primeira parte do livro, passada no campus, a sátira da esterilidade e do ridículo reinantes nos círculos acadêmicos de teoria literária ainda faz menção de decolar, mas acaba soando meio batida – quem ainda defende tais coisas? – e, de todo modo, não demora a ser abandonada.

Em retrospecto, a luz que “A trama do casamento” joga sobre a carreira de Eugenides não poderia ser lisonjeira: até o mais vibrante “Middlesex”, um livro irregular, mas com trechos de grande dramaticidade, exige ser reavaliado com menos condescendência. Afinal, foi ali, naquele ambicioso caldeirão de estilos – fusão da saga de imigrantes gregos com uma investigação científica em tom de pesadelo sobre o hermafroditismo que ela terminou por gerar em um de seus descendentes – que Eugenides trocou o caminho literário que havia dado na magia de “Virgens suicidas” pelo que veio desembocar em “A trama do casamento”.

O estilista nabokoviano do livro de estreia era um surpreendente neo-simbolista, capaz de dizer num volume magro, com seu lirismo mórbido, coisas que nunca haviam sido ditas sobre os aspectos mais cruentos da adolescência. Por alguma razão que pode ter a ver com esgotamento artístico, mas que provavelmente se relaciona também com as expectativas de um mercado editorial marcado pelo sucesso de Jonathan Franzen, essa voz intrigante e ímpar desapareceu para dar lugar a mais um realista de carregação interessado na montagem de “painéis” espalhados por centenas de páginas. Nada contra o realismo em si, mas ele não parece ser o forte de Eugenides, que em “A trama do casamento” faz papel de sub-Franzen. Levando-se em conta que o próprio Franzen não está com essa bola toda, é bem grave.

13/04/2012

às 11:56 \ Pelo mundo

O baú de David Foster Wallace e outros links

Três anos e meio após a sua morte, David Foster Wallace (foto) se consolida como o Raul Seixas da literatura americana: os últimos achados em seu baú são um cartão postal que ele escreveu para Don DeLillo e algumas cenas ainda inéditas de The Pale King, romance inacabado publicado postumamente.

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Da mesma geração de DFW e, para todos os efeitos, tão sério quanto ele no modo de encarar a literatura, Jonathan Franzen se distingue pela absoluta ausência de autoironia. Após mais uma entrevista em que martelou seus temas preferidos – a necessidade que o ser humano tem de ler histórias literárias “complexas” como as que ele escreve e a incapacidade escrevê-las quando se tem conta no Twitter ou no Facebook – abriu a porta para que Tim Parks levantasse dúvidas interessantes sobre a tal “necessidade humana de histórias” e lhe dirigisse outras perguntas incômodas neste artigo (em inglês) no blog da “New York Review of Books”:

Naturalmente, é conveniente para um romancista pensar que, pela própria natureza de seu trabalho, está do lado do bem, provendo uma demanda urgente e geral. (…) Mas qual é a natureza dessa demanda? O que aconteceria se ela não fosse atendida? (…) E por que é tão importante não ser interrompido pelo Twitter e pelo Facebook? Serão tais interrupções piores do que uma velha ligação de telefone fixo ou o simples tumulto de amigos e parentes ao redor da sua mesa de trabalho? Recordemos que Jane Austen adorava escrever em espaços domésticos em que estava exposta a interrupções constantes.

*

Uma espécie de anti-Franzen em sua adoção alegre e imediata (oba-oba seria maldade) de novidades tecnológicas, a escritora canadense Margaret Atwood é o primeiro nome de peso a aderir a uma estranha novidade no cada vez mais estranho mercado editorial 2.0: um “clube” de audiolivros – criado pela Audible, empresa comprada há poucos anos pela Amazon – em que os escritores ganham um dólar de bônus, além dos direitos autorais, por exemplar que ajudarem a vender nas redes sociais. Um fundo de 20 milhões de dólares foi criado para este fim. “É um movimento pró-autor”, disse Atwood. Saiba mais sobre o esquema nesta reportagem do “Guardian”, em inglês.

09/03/2012

às 12:49 \ Mercado, Pelo mundo, Vida literária

Trailer de livro é um ‘conceito ridículo’: prova número 1

O Pop Literário de Sexta não viveria sem eles, mas trailers de livros partem, segundo uma boa tirada de Drew Grant na Salon, de “um conceito razoavelmente ridículo: tentar vender literatura para pessoas que prefeririam esperar pela adaptação cinematográfica”. Seja como for, o gênero está em ascensão (transparência total: eu mesmo já cometi um e dificilmente escaparei de outros) e tem até seu próprio prêmio no âmbito da anglofonia, o Moby Awards, que destaca os melhores e os piores exemplares do mercado no período de um ano.

Nem sempre é fácil distinguir uns dos outros.

Grande vencedor (sem ironia) do Moby 2011, o vídeo acima ilustra bem a observação de Grant sobre o ridículo do conceito. Feito para promover o último romance de Gary Shteyngart, já lançado no Brasil com o título “Uma história de amor real e supertriste” (Rocco, tradução de Antônio E. de Moura Filho, R$ 49,50), o trailer é quase uma superprodução. Tem participações especiais de colegas do autor – especialmente Jeffrey Eugenides, Edmund White e Jay McInerney – e até do astro hollywoodiano James Franco.

Tudo para levar à estratosfera aquele manjado mandamento, “ria de si mesmo antes que os outros o façam”, caro a todo intelectual de nariz em pé que sonha em ser abraçado pelas multidões. Shteyngart, um escritor sério, capricha no papel de palhaço. A coisa é engraçada às vezes, constrangedora na maior parte do tempo, e no fim deixa no ar um miasma de desespero vendedor.

Em mais uma volta do parafuso, Jonathan Franzen levou o Moby 2011 de Pior Desempenho de um Escritor por começar seu monótono vídeo promocional de “Liberdade” alardeando o desconforto de ter que fazer vídeos promocionais.

02/03/2012

às 11:25 \ Pelo mundo, Vida literária

Houaiss, Shakespeare e outros crimes

Envergonhado com a ação do procurador de Uberlândia contra o dicionário Houaiss, por suposto crime de racismo numa das acepções do verbete “cigano” (verbete que, por via das dúvidas, já foi tirado do ar na versão online do dicionário, tornando o caso ainda mais deprimente)? Console-se pensando no estado americano do Arizona, onde uma campanha de extremistas de direita do Tea Party contra os “estudos étnicos” na rede educacional acaba de botar na lista negra, entre outros autores, um tal de William Shakespeare.

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O escritor Michel Laub esqueceu a reverência no banco do táxi, pegou a crônica A um jovem, de Carlos Drummond de Andrade – publicada no livro “A bolsa & a vida”, de 1962 – e editou os 31 conselhos literários que o poeta dá a um certo Alípio para transformá-los num decalogozinho mais ao gosto da era digital. O resultado contém alguns toques de atualidade perfurocortante:

Se sentir propensão para o ‘gang’ literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.

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Jonathan Franzen está sendo – de novo – bombardeado por acusações
de misoginia, desta vez devido às observações no mínimo deselegantes que enfiou num ensaio sobre Edith Wharton para a “New Yorker”.

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Quem a esta altura ainda não viu a surpreendente aula-espetáculo (abaixo) dada por Rubem Fonseca – escritor famoso por ser um recluso, mas só para consumo doméstico – no evento literário português Correntes d’Escritas, em Póvoa de Varzim? O vídeo divide opiniões. Há quem torça para o autor de “Feliz ano novo” estender ao território nacional aquele humor performático de professor de cursinho, em consideração aos nativos que o consagraram. Outros adorariam vê-lo de volta à velha reclusão, desta vez para não sair mais.

29/02/2012

às 13:13 \ Resenha

‘A visita cruel do tempo’: caminho novo ou fim da linha?

Não é uma crítica à sua capacidade de envolver o leitor nos dramas dos personagens – capacidade incontestável, diga-se logo – reconhecer que, pelo menos para quem escreve, o domínio técnico é o que mais chama a atenção em “A visita cruel do tempo”, da escritora americana Jennifer Egan (Intrínseca, tradução de Fernanda Abreu, 336 páginas, R$ 29,90). É preciso ser um monstro para manter tensionada de forma tão impecável a corda de um romance – ou coleção de contos interligados, impossível decidir – em que cada segmento é narrado por uma voz mais virtuosística que a outra, avançando e recuando na cronologia para cobrir cinco décadas e tendo como sombrio motivo de fundo uma reflexão sobre os estragos provocados pela truculenta passagem do tempo na vida dos personagens e da própria cultura americana, que adquire aqui os tons crepusculares de um império que se sabe decadente.

Seria um erro tentar resumir a intrincada trama de “A visita cruel do tempo” numa resenha, mas convém situar os marcos temporais que estão em suas extremidades. O mais recuado fica nos anos 1970 em que o quarentão Lou, produtor musical de sucesso, cheirador e sedutor de menininhas, aparece ao longo de dois capítulos-contos num safári na África (provavelmente a história menos bem-sucedida do livro) e esbarrando, por meio de uma nova conquista amorosa adolescente, com uma turma de jovens punks de São Francisco, já no limiar dos 1980. Dessa galera fazem parte Bennie, destinado a se tornar discípulo de Lou e surfar a indústria musical até ser tragado pelo tsunami digital, e Scotty, um guitarrista brilhante, maluco e fracassado que se tornará um improvável ídolo dos bebês – o novo público-alvo do pop, numa piada que só pode ser chamada de genial – no futuro agridoce em que o livro termina, em algum momento depois de 2020. (Spoiler? Não, não chegamos nem perto disso.)

Entre uma ponta e outra, entre a tragédia e a comédia rasgada, a sátira de costumes e o drama psicológico, a narração se alterna entre a primeira, a terceira e até uma exibicionista – levemente gratuita, mas está valendo – segunda pessoa. Personagens vêm e vão, deixam o elenco de apoio numa história para ocupar o centro da cena em outra sem que o leitor se perca no meio do furdunço. Tão estruturante é o papel das elipses – e tão meticulosamente consciente de seus truques é o livro – que o conto-capítulo mais experimental, todo em linguagem de PowerPoint, perto do fim, só poderia ter como tema as pausas que um garoto coleciona, mede e analisa no meio de canções pop. Até que ponto se pode esticar um silêncio sem que ele deixe de ser visto como pausa para ser o fim da história? – parece perguntar Egan.

Se eu destaco o domínio técnico da autora antes de qualquer outra qualidade do livro, isso se deve ao fato de que o escopo do que ela consegue dizer com essa estrutura complicada, cheia de fios, vazios e alçapões, vai adquirindo ao longo da leitura uma amplitude crescente e espantosa de gincana, como naqueles velhos desafios televisivos de enfiar 25 pessoas num Fusca. É apropriado que, ao faturar o prêmio Pulitzer de 2011, “A visita cruel do tempo” tenha derrotado um certo “Liberdade”, de Jonathan Franzen, que também é um livro gincaneiro, mas bem menos engenhoso.

Tecnicamente, o maior trunfo de Egan é ser uma contista segura. Tão hábil em espaços pequenos quanto seus conterrâneos Raymond Carver e Amy Hempel, ela nunca abre mão do olhar afiado para dores individuais como as de Sasha, a cleptomaníaca (minha preferida), ou Dolly, a superdivulgadora nova-iorquina caída em desgraça. Só num segundo momento vem a capacidade não intrusiva de situar essa gente num agônico painel histórico, social e cultural. Não se trata, como vi sugerido por aí, de um livro obcecado por bandas, discos, estilos musicais: sem chegar a ser um tema fetichista, essa indústria funciona como microcosmo para os impactos exercidos pela marcha da tecnologia sobre vida, arte, linguagem e comunicação interpessoal.

Entre tantos fios, a questão da linguagem chega ao fim do livro em posição de destaque. Aqui, infelizmente, a boa tradução de Fernanda Abreu não consegue impedir que a experiência de ler “A visita…” em português fique muito aquém da de encará-lo no original. A radicalização das abreviações da comunicação online promovida por Egan se perde por completo: up gOs th bldg vira “lá vai o prédio subindo”, o que é difícil de defender. Mais compreensível, embora também frustrante, é a opção de traduzir o título A visit from the goon squad driblando o desafio de transpor para nossa língua a metáfora do tempo contida na gíria goon (capanga, segurança, sujeito truculento contratado para bater, intimidar e matar).

Engraçado, inteligente, sensível, ridiculamente bem escrito, “A visita…” é o melhor livro americano que leio em um bom tempo, mas deixa um travo meio esquisito. Não é fácil decidir por quê. Acredito que tenha algo a ver com certa ansiedade, aquele sorriso congelado na cara do anfitrião hiperativo, excessivamente preocupado em agradar. É como se Jennifer Egan – que andou declarando dívidas contraídas com as ditas alta e baixa culturas, com Marcel Proust, a série “Os Sopranos” e o filme “Pulp fiction” – tivesse canalizado seu inconformismo com a suposta desimportância da literatura no mundo atual para a confecção de um improvável produto pop-literário perfeito. Em seus próprios termos, funcionou brilhantemente (vai virar série da HBO!), mas é difícil dizer se sua ânsia totalizadora tem o charme de uma picada nova ou do fim do caminho.

01/02/2012

às 13:37 \ Pelo mundo

As mais belas livrarias do mundo

Selexyz é o nome da livraria das fotos acima, diante da qual um lugar-comum como “templo dos livros” ganha uma inesperada força expressiva. Foi montada no interior de uma antiga igreja dominicana em Maastricht, na Holanda, e vem em primeiro lugar entre as 20 livrarias mais belas do mundo, segundo uma das mais inspiradoras listas que o Flavorwire já compilou. O Brasil também comparece (com a Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo).

*

Se essa lista fosse um documentário, poderia ter a narração em off de Jonathan Franzen, que acaba de recitar (aqui, em inglês) no festival Hay de Cartagena, na Colômbia, a maior defesa dos livros impressos ouvida nos últimos tempos. De forma um tanto surpreendente, o autor de “Liberdade” não se referiu ao aroma inebriante da tinta no papel ou algum outro clichê do gênero. Atacou justamente aquilo que os entusiastas do meio digital mais exaltam: a aura de impermanência – ou seja, a plasticidade, a permeabilidade, a interatividade, o compartilhamento, a coautoria – do texto lido na tela.

“Talvez ninguém ligue para livros impressos daqui a cinquenta anos, mas eu ligo”, disse Franzen, um dos autores confirmados na próxima Festa Literária Internacional de Paraty. “Quando leio um livro, tenho nas mãos um objeto específico, num lugar e numa hora específicos. O fato de que, quando tiro o livro da estante, ele ainda diz a mesma coisa – isso é reconfortante. Alguém trabalhou duro para tornar a linguagem exatamente adequada, bem do jeito que queria. E tinha tanta certeza disso que mandou imprimir o texto em tinta sobre papel. Uma tela sempre dá a impressão de que podemos deletar aquilo, mudar, mover. Para uma pessoa louca por literatura como eu, não é permanente o bastante. Tudo mais na vida é fluido, mas ali está aquele texto que não muda. Ainda haverá leitores daqui a cinquenta anos que pensem assim? Que terão essa fome por algo permanente e inalterável?”

Eu diria que sim, haverá. Como também haverá livrarias que parecem catedrais. Mas isso é só um chute, claro. Em 2062 a gente conversa.

25/01/2012

às 13:14 \ Vida literária

Erico no IMS, McCarthy no Twitter, Franzen na TV

Amanhã à noite terei uma conversa íntimo-pública com Luis Fernando Verissimo sobre “Incidente em Antares”, o último romance do pai dele, diante de uma plateia de bolso no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Lançado em 1971, o divertido livro em que Erico Verissimo (foto) cutucava a ditadura no auge da repressão e flertava com o “realismo mágico” latino-americano pela via do humor rasgado – além de passar bem perto de antecipar a moda moderninha dos zumbis – já tem um pouco mais de quatro décadas, mas a comemoração do aniversário atrasou.

Fiquei tão honrado quanto surpreso ao ser convidado para o evento por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que detém o acervo do maior nome da literatura gaúcha. Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos?

Pois é, ela não sabia. O que me deixa com a sensação – nada desagradável, devo reconhecer – de ter feito algumas escolhas certas na vida. Não é só numa cidade fictícia com nome de estrela às margens do rio Uruguai que os mortos podem cruzar nosso caminho.

*

Como assim? O recluso Cormac McCarthy aderiu ao Twitter? Era alarme falso, mas Margaret Atwood, tuiteira emérita, acreditou. No blog de livros do “Guardian”, Alison Flood lançou um apelo: “Permaneçam reclusos, ó ícones da literatura americana, eu imploro!”.

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Com a produção de uma série baseada em “As correções”, que terá roteiros escritos pelo próprio Jonathan Franzen, e a aquisição dos direitos de adaptação de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, a HBO entra com tudo no terreno – até aqui esnobado pela televisão – da literatura contemporânea “séria”. Boa notícia, certo? No “The Millions”, A-J Aronstein não está tão certo disso e (em inglês) especula que…

…devemos refletir sobre as implicações de sugerir [como teria feito, segundo ele, um empolgado Franzen] que as capacidades estéticas da televisão podem complementar ou mesmo suplantar as dos romances. Uma vez na vida, não perguntemos se “o romance vai sobreviver”, e sim o que significa o fato de seu futuro depender da relação com a TV – e se essa relação será produtiva a longo prazo.

*

Em sua coluna de ontem no “Globo”, Pedro Doria saudou a chegada do “gratuito e trivial” iBook Author, software da Apple dedicado à edição de livros eletrônicos para iPad, no qual é simples como jamais foi acrescentar ao texto fotos, vídeos, recursos interativos etc.:

A notícia não é necessariamente boa para editoras. O filho do vizinho pode compor o livro eletrônico e submetê-lo para venda na loja da Apple sem que nenhum editor o veja. Passa por cima do intermediário. Taí um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido. Mas para fotógrafos com vontade de experimentar, designers com projetos dentro da gaveta e autores de livros infantis, a porta se abre repentinamente.

Não duvido que fotógrafos, designers e autores de literatura infantil façam a festa. Mas confesso que estarei mais atento ao que farão com a ferramenta autores de ficção literária adulta. Será o iBook Author a peça que faltava para que finalmente se ponha em curso aquela revolução pregada há alguns anos pelos entusiastas do meio eletrônico – a da explosão da arte narrativa num admirável mundo tridimensional de sons, imagens, interatividade e, bem, até mesmo palavras?

Vamos ver. Meu palpite é que, se a coisa não andar agora, não anda mais.

27/05/2011

às 13:23 \ Vida literária

O que a canonização de Franzen diz sobre a literatura atual

A revalorização da ficção como arte narrativa por excelência, em ligação direta com a tradição romanesca do século 19, parece ser o pano de fundo para o curioso fenômeno de canonização do escritor americano Jonathan Franzen, um tsunami que varreu o mundo ano passado, quando ele publicou o romance Freedom, e que agora vem inundar a costa brasileira com a previsibilidade dos maremotos a pretexto do lançamento de “Liberdade” (Companhia das Letras, tradução de Sergio Flaksman, 608 páginas, R$ 46,50).

O livro é bom? É. Maravilhoso? Longe disso. Em contraste com a maioria da humanidade, não me encantei com ele e expliquei minhas razões aqui, sob o título Freedom: Obama no conteúdo, Bush na forma, pouco depois do lançamento americano. Vejo até algo de cômico num superlativo como “o livro do século” que o sério “The Guardian” pespegou no tijolo: se o epíteto abrange o século inteiro, trata-se de uma leviandade; se a ideia é falar do século até agora, decorrido um décimo dele, o correto seria usar uma medida de tempo mais sóbria.

Fica evidente, porém, que elogios desse tamanho vão além de questões menores como coerência numérica. Méritos literários à parte, o que o hype franzeniano parece indicar, de uma perspectiva da sociologia da leitura, é uma vigorosa tomada de posição dos meios de comunicação de massa – em aparente comunhão com o público leitor, que transformou o romance em best-seller – num debate que, surdo ou estridente, vem rolando há alguns anos e que pode ser condensado em duas perguntas:

1. A literatura séria, isto é, artisticamente ambiciosa, ainda tem algo a dizer ao mundo?

2. Se tem, qual é a corrente estética mais bem aparelhada para dar conta da tarefa?

A resposta do hype franzeniano é firme:

1. Tem!

2. A ficção revivalista que retoma o legado de Tolstoi, superando tanto o sarampo das “experiências de linguagem” modernistas quanto a catapora da metalinguagem pós-modernista, que alienaram grande parte do público leitor ao longo do século 20, e investindo em histórias realistas carnudas, boas de ler, de preferência longas, com personagens esféricos situados em contextos histórico-sociais bem definidos.

Caretice, dirão alguns. Mas descartar tal postura como conservadora me parece, a esta altura da história, não só fácil como inconsistente: se pagar tributo à rica narrativa de Tolstoi – como faz Franzen explícita e imodestamente em “Liberdade” – é uma prova de conservadorismo, cultuar o espírito vanguardista da primeira metade do século 20, ideal eterno de muitos críticos, também é. Um dos problemas enfrentados pela literatura neste início de terceiro milênio é que tudo já tem uma tradição. Sendo assim, é honesto que cada um escolha a sua ascendência de modo explícito, sem fingir que está inventando a roda.

Por outro lado, antes de dar crédito aos arautos do esgotamento da literatura, convém considerar que existe uma grande diferença entre revivalismo e conservadorismo. Atualizar tradições e fazê-las dialogar com o presente – no caso de Franzen, mais no plano factual do que no da linguagem – sempre provoca novos atritos e jamais terá os mesmos efeitos do “original”. As letras vivem disso há milênios, salvas de crises sucessivas pelo fato de linguagens desgastadas existirem para que escritores de talento as revalorizem. Machado de Assis recuou mais de cem anos para retomar certos truques de Laurence Sterne e antecipar para a literatura brasileira o século 20 (e talvez o 21 também?).

Meu incômodo com o franzenismo é de outra ordem. A enfática fulanização do argumento estético que sustenta esse circo pode dar ao leitor desavisado duas impressões erradas: a de que não há outros cultores contemporâneos da boa arte narrativa e a de que o único modo de cultuá-la é aquele, de uma grandiloquência aparentada do realismo muralista, que Jonathan Franzen emprega.

Nascido em 1959, o autor de “As correções” – este sim, um livraço – pertence à boa geração americana de David Foster Wallace, Michael Chabon, Chuck Palahniuk e Jeffrey Eugenides. Cada um a seu modo, todos são grandes narradores. DFW é mais tortuoso e mergulhado na linguagem, Palahniuk e Chabon dão mais atenção à cultura pop, Eugenides é provavelmente o prosador mais fino da turma. No capítulo painelzão-social-bom-de-ler, pelo menos dois romances dessa geração – “Incríveis aventuras de Kavalier & Clay”, de Chabon, e “Middlesex”, de Eugenides – me parecem mais bem realizados do que “Liberdade”.

Feitas essas ponderações, é bacana ver um escritor sério receber tanta atenção midiática. Com um pouco de sorte, a consagração de Franzen pode contribuir – é a minha torcida pessoal, o meu partido nessa guerra – para uma revalorização crítica da arte narrativa e dos jogos de linguagem aplicados, em oposição ao conceitualismo cabeçudo e aos jogos de linguagem puros. E quem sabe para a retomada, pela tal “grande literatura”, daquelas multidões de leitores que se mudaram para as terras encantadas da fantasia, do policial, dos best-sellers de fórmula, onde ninguém pede desculpas por contar histórias irresistíveis.

04/04/2011

às 14:39 \ Vida literária

Máquinas de escrever, gaúchos, Jennifer Egan e outros links

Charmoso estudo fotográfico de uma era extinta: escritores famosos e suas máquinas de escrever. Na amostra ao lado, John Cheever em 1979, quando, diga-se de passagem, não andava nada bem – mas essa é outra história.

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No capítulo galeria de fotos, achei simpática essa que o blog Mundo Livro, do jornal “Zero Hora”, montou só com retratos de escritores… gaúchos, claro. Destaque pessoal para o olho direito de Manoela Sawitzki e para os óculos que escondem os olhos de Cláudia Tajes.

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Pelo sensacional placar de 9 a 8, o romance A visit from the goon squad, de Jennifer Egan, derrotou Freedom, de Jonathan Franzen, na final do Tournament of Books, competição mata-mata que serviu de inspiração para a Copa de Literatura Brasileira. Os dois livros são inéditos no Brasil. Resenhei o de Franzen aqui, e o de Egan me olha agora da estante com ar de cobrança.

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O poeta americano Joseph Wood escreveu um artigo ponderado – e, principalmente, sem traço de antiintelectualismo – sobre o mal que décadas de crítica literária empapuçada de teoria fizeram à poesia. E à prosa, não?

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A palavra sonhada é a crônica que publiquei ontem em minha outra coluna, a vizinha Sobre Palavras. Bem poderia ter saído aqui.

27/08/2010

às 17:57 \ Vida literária

Franzen, Bolaño e o hype literário

Faz muitas décadas que a literatura propriamente dita, artisticamente ambiciosa, não é terreno fértil para comoções de massa. É cem vezes mais fácil construir uma atmosfera de hype, o que um dia se chamou de badalação, no âmbito do cinema ou da música pop. Isso torna ainda mais interessantes os casos recentes de dois livros cercados de histeria: Freedom, do americano Jonathan Franzen, que antes mesmo de sair (será lançado terça-feira nos EUA) já vem sendo chamado de “romance do século”, e “2666”, o tijolão do chileno Roberto Bolaño, que foi unanimemente saudado como sua obra-prima e que, chegando ao Brasil com atraso há poucos meses, virou também por aqui aquele tipo raro de livro que todo mundo lê predisposto a elogiar.

Hype, palavra que os moderninhos brasileiros adotaram com um sentido intensamente positivo que está ausente do original, quer dizer em inglês publicidade excessiva e a comoção que ela provoca, exagero marqueteiro em torno de um produto e até mesmo, em casos extremos, fraude. Pode ser que falar em hype seja impróprio quando se trata de escritores tão talentosos quanto Franzen e Bolaño. Por outro lado, os dois casos de sucesso parecem ter, pelo menos em certa medida, algo daquele efeito manada que o marketing está sempre tentando disparar.

Como não li Freedom, convém deixar aberta a possibilidade de o livro ser mesmo o maior monumento da literatura desde “Ulisses” ou coisa parecida. O romance anterior de Franzen, The corrections, é sem dúvida um dos mais brilhantes que me passaram pelas mãos nos últimos anos. Mas é inevitável pensar que podemos estar diante de uma bolha inflacionária de superlativos quando se lê no “Guardian” que Freedom é “o livro do século”, um juízo bobinho que os próximos 90 anos se empenharão em desmentir, ou quando se vê a foto de Franzen na capa da revista “Time” ao lado de um título solene como “Grande romancista americano”. Diante disso, “obra-prima da ficção americana”, o elogio do “New York Times”, soa até tímido.

A consagração de “2666” não chegou tão longe, mesmo porque Bolaño não escreve em inglês, mas também foi acachapante. Neste caso, li o livro e fiquei matutando sobre os curiosos mecanismos da glória literária. “2666” consolidou internacionalmente o nome de Bolaño como o maior escritor latino-americano desde a geração do boom, mas é um romance que alterna momentos sublimes com outros francamente mal acabados, escritos a galope, como se a maior preocupação do autor fosse morrer antes de conseguir terminá-lo – o que por pouco não ocorreu. Na verdade, fiquei com a impressão de que Bolaño deixou mesmo inconcluso o trabalho: faltou revisá-lo para atingir a excelência de “Os detetives selvagens”, um romance menos ambicioso no projeto mas muito superior na execução. E que mereceu uma acolhida relativamente sóbria no Brasil, tanto da crítica quanto dos leitores – na época, seu autor ainda não tinha virado um mito.

Acho bem-vindo o hype em torno de Freedom e “2666”, nem que seja por sugerir que a literatura séria pode não ser tão culturalmente irrelevante no terceiro milênio quanto tentam nos fazer crer. Os dois casos parecem indicar que, à parte elementos imponderáveis, atingir o céu da comoção mercadológica é um feito reservado em nosso tempo a livros que tenham a ambição estratosférica – materializada de preferência em muitas centenas de páginas – de, mais que contar uma história, dar conta de um vasto painel social. É como se isso os tornasse “importantes”, dignos da atenção de um público que tem deixado a literatura séria cada vez mais fora do alcance de seu radar.

 

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