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Joachim Fest

05/04/2012

às 12:23 \ Pelo mundo

‘Por que só agora?’ Sobre os armários de Günter Grass

Günter Grass: confissão tardia (Getty Images)


“Por que só digo agora,/ velho e com minha última gota de tinta,/ que a potência nuclear Israel põe em risco a já frágil paz mundial?”

É curioso que o escritor alemão Günter Grass, Nobel de literatura de 1999, tenha abordado retoricamente em seu polêmico poema-manifesto “O que precisa ser dito” – publicado na quarta-feira em diversos jornais do mundo com duras críticas a Israel – a questão do longo silêncio que finalmente se quebra.

Foi um desses atrasos que, em agosto de 2006, arranhou sua imagem de tal forma que faz a manifestação de agora ser recebida com maior perplexidade. Naquele momento, veio a público a confissão de Grass – parte de seu livro de memórias “Descascando a cebola” – de que tinha sido nazista na juventude, tendo pertencido às tropas SS em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial. Uma informação que ele mantivera em segredo até então.

Muitos alemães tinham e têm histórias semelhantes. A diferença é que o autor de “O tambor” havia passado seis décadas como uma das principais vozes da consciência moral alemã, instando seus compatriotas a encarar de frente o passado nazista, sem no entanto aplicar a receita a si mesmo (leia aqui o post da época no Todoprosa).

O escritor Joachim Fest, biógrafo de Hitler, foi um dos críticos que não perdoaram a Grass o fato de ter saído tão tardiamente do armário nazista – “com a última gota de tinta”, como ele mesmo talvez dissesse. “Não entendo como alguém pode se colocar numa posição de superioridade por 60 anos”, atacou Fest, “e só então admitir que também esteve envolvido. Para usar um dito popular, eu não compraria um carro usado dessa pessoa.”

Isso contribui para tornar o episódio do poema – de forte impacto político, mas com valor literário próximo a zero – ainda mais complexo. A crítica às intenções belicosas de Israel contra o Irã é compreensível e, de resto, não falta quem a formule dentro do próprio país. Como veio de fora, e ainda por cima de um alemão, as acusações de antissemitismo que se multiplicam em Israel e na comunidade judaica internacional também eram previsíveis. Mas como não especular o que mais Grass teria guardado no armário para dizer, e com que motivações, antes que acabe realmente a sua tinta?

 

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