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J.K. Rowling

05/12/2012

às 12:26 \ Pelo mundo, Vida literária

Rowling provoca morte súbita da leitura – e outros links

Curioso pela migração de gênero e público, comecei a ler “Morte súbita”, o primeiro “romance adulto” de J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter. Pouco mais de meia hora depois tinha parado de ler “Morte súbita”, o primeiro “romance adulto” de J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter. A leitura teve morte súbita – e vale registrar que eu tinha optado pelo original, The casual vacancy, o que inocenta do crime a tradução brasileira recém-lançada pela Nova Fronteira – por doses cavalares de academicismo e clichê na trama e na linguagem. Não, claro que isto não é uma resenha. Só quem lê uma obra inteira, e com ponderação, pode se atrever a resenhá-la. Mas é um toque: a vida é curta para tanto livro, e “Barba ensopada de sangue” está aí mesmo.

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Todos sabemos que juízos estéticos baseados em ideias como “belo” e “sublime” pertencem ao passado. Mas o que significa a predominância contemporânea de categorias como “fofo” e “interessante”? O recém-lançado livro Our aesthetic categories (Nossas categorias estéticas), da poeta e crítica literária Sianne Ngai, acha que significa muito. Resenha da Slate, em inglês, aqui.

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A entrevista dada à “Folha de S. Paulo” pelo crítico Rodrigo Gurgel, o “jurado C” do Jabuti, é curiosa. Tendo a encarar com simpatia seu diagnóstico de que a escassez de leitores torna “doente” – eu diria viciado – o “sistema literário” brasileiro, que fica mais dependente da crítica universitária e seu entorno do que seria saudável. Pena que isso pareça uma cortina de fumaça destinada a encobrir a inconsistência da defesa que Gurgel faz da boa-fé de seu sistema de notas desprovido de matizes. Seu argumento vai pouco além da sugestão de que todo o barulho se resumiu a uma defesa automática do livro de Ana Maria Machado. Na vida real, claro, Machado tem papel de mera figurante no episódio. Se não for simples manipulação, a arrogância crítica de dividir o mérito literário entre zero e dez, cadafalso e glória, não será justamente mais um sintoma da tal doença? Ou nesse caso, por não se tratar de “crítica acadêmica”, pode?

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Haverá alguma metrópole que possa se gabar de, em qualquer momento da história, ter contado com 100 (cem), isso mesmo, uma centena de escritores vivos realmente relevantes? Nem a Paris dos anos 1930, certo? Esta lista da Flavorwire não apenas sustenta que sim, tal cidade existe, mas ainda dá nomes a todos os bois. Nova York. Hoje. E estamos falando apenas dos escritores “mais importantes”. Então tá.

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Amanhã estarei na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, às 15h, para conversar com Lobão e Angélica de Moraes sobre o tema “Se é bom não vende, se vende não é bom: desde quando gosto não se discute?”, numa das mesas do 4º Seminário Internacional Rumos Jornalismo Cultural. Fica o convite a quem estiver na área – e quem não estiver pode acompanhar aqui a transmissão ao vivo.

24/02/2012

às 14:29 \ Mercado, Pelo mundo

J.K. Rowling para adultos pode ser policial. Magia migra?

J.K. Rowling anunciou que está escrevendo um novo romance – e que desta vez é um livro adulto! Só isso. Nem tema, nem data aproximada de lançamento, nada. J.K. Rowling está escrevendo um livro, é adulto, ponto.

Tão desmesurado é o poder da mãe de Harry Potter, há não mais de 15 anos uma pobretona aspirante às letras, que todos se agitam: o “Guardian” aposta num romance policial, livreiros soltam fogos, editores afiam as unhas – ela informou julgar natural que a “nova fase” de sua carreira ocorra noutras casas editoriais, o que evidentemente não deixou felizes suas parceiras de HP Bloomsbury no Reino Unido, Scholastic nos EUA, Rocco no Brasil e dezenas de outras pelo mundo.

Como se sabe, a varinha mágica de Rowling foi turbinada pelo bônus de vender mais de 450 milhões de exemplares dos livros do bruxo adolescente de óculos, 11 milhões só nas primeiras 24 horas do lançamento americano de “Deathly hallows” (Relíquias da morte), o último da série, em 2007. Mas conseguirá sua mágica migrar com igual força para outro mundo, outra visão de mundo – ou o que quer que ela queira dizer com esse papo de literatura “adulta”, policial ou não?

Não é que a escritora inglesa precise mudar muito para escrever para gente grande. Como lembra Jeffrey A. Trachtenberg no “Wall Street Journal”, Harry Potter encontrou um vasto público adulto, e o mesmo se dá com séries como “Crepúsculo”, também infanto-juvenil na origem. O próprio envelhecimento do público dá conta de parte do fenômeno: quem tinha 12 anos quando saiu o primeiro livro de HP, em 1997, contava 22 quando da publicação do último.

No entanto, parte igualmente importante dessa equação mobiliza outros leitores: os de 30, 40, 50… O viés adultescente da cultura pop que tem envolvido o mundo no último meio século não exige de Rowling nada além de habilidades de fabulação já sobejamente demonstradas para que ela seja uma “escritora adulta” lida por gente à beça. Nesse sentido, o anúncio de agora não representa grande risco, embora as comparações com HP tendam a ficar incômodas ao menor descuido. Porém (ai, porém)…

E se Rowling quiser realmente se reinventar? E se, como Paulo Coelho, depois de um sucesso de público em escala maciça ela se viu mordida pela mágoa amarga dos “críticos sérios”, daqueles que lhe negam o reconhecimento final de “literatura séria”? E se a criadora de uma marca que a “Forbes” avalia em 15 bilhões de dólares, fazendo as contas e decidindo estar finalmente com a vida ganha, lançar um livro adulto que abra mão da leitura compulsiva para ser literariamente inquieto, inovador? Ou pelo menos tentar?

Eu não me espantaria tanto, tratando-se de uma mulher que já declarou o seguinte: “Minha banda favorita no mundo é The Smiths. Quando eu estava numa fase meio punk, era The Clash”. Seria um divertido golpe de mágica, de resto bastante improvável, mas toda mágica não é assim?

20/06/2011

às 13:53 \ Pelo mundo

A ‘literatura expandida’ do novo Harry Potter e outros links

O “novo projeto” de J.K. Rowling não é mais um livro protagonizado por Harry Potter, diz a versão oficial, mas isso não impede a autora de continuar fazendo mágica. Venha o que vier, uma coisa parece certa: será mais uma aula sobre como usar os recursos do mundo digital para manter vivo e vendável um mundo ficcional. Num momento em que tanto se fala de “literatura expandida”, convém prestar atenção.

O site pottermore.com, que entrou no ar na semana passada, consiste por enquanto apenas de uma página ilustrada por duas corujas, em que se vê a assinatura da autora sob um aviso: “Em breve”. Isso foi o suficiente para deflagrar um surto de histeria (notícia aqui de VEJA.com) entre os milhões de fãs de Harry Potter. Seria um jogo online? Uma enciclopédia sobre o “mundo potteriano”? Apenas uma ferramenta de promoção do último filme da série, “Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 2”, que estreia mês que vem? Os boatos de que se trataria de um novo livro foram desmentidos por um porta-voz da autora, mas persistem – o que é compreensível, se for levado em conta que Rowling já admitiu dar prosseguimento à série e que pottermore sugere “mais potter”.

Novidades estão prometidas para esta quinta-feira.

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A derrota da sobriedade poderia ser a rubrica a unificar essas duas listas divertidas do “Flavorwire”, que vem se especializando no formato: uma de drinks preferidos por escritores bebuns, trazendo como tira-gosto suas frases sobre o tema, e outra de declarações insultuosas feitas por escritores sobre colegas, como esta de Evelyn Waugh sobre Marcel Proust: “Acho que ele tinha alguma deficiência mental”. Um passatempo curioso é traçar relações entre as duas.

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“É interessante como as pessoas supõem que, por escrever romances, você gosta de ler romances. Na verdade, eu escrevo romances mas gosto muito mais de ler poesia.” O grande J.M. Coetzee, surpreendentemente quase simpático, numa entrevista em vídeo de 2001. (Dica twitteira de @michellaub.)

04/10/2010

às 17:48 \ Pelo mundo

Rowling pode voltar a escrever Harry Potter – e outros links

Saladinha de segunda, para poupar aos leitores do Todoprosa a tarefa de revirar a ganga bruta da web literária atrás de pequenas pepitas de informação:

J.K. Rowling admitiu à apresentadora americana de TV Oprah Winfrey – em entrevista que foi ao ar sexta-feira – que pode voltar a escrever um livro da série Harry Potter, que já vendeu 400 milhões de cópias. “Não estou dizendo que não o farei”, disse. Quando o nível da conta bancária começar a baixar, por que não?

Falando em dinheiro, um estranho exercício de jornalismo econômico-literário: no “Babelia”, uma reportagem ouve editores espanhois e conclui que, nestes tempos de crise econômica (não aqui, certo?), caem as vendas de clássicos enquanto sobem as de romances policiais.

Um azarão atropelou por fora e já aparece em segundo lugar na lista de favoritos ao Nobel de Literatura da casa de apostas inglesa Ladbrokes: o romancista Ngugi wa Thiong’o começou pagando 75 por 1 e está em 5 por 1. Continua atrás do sueco Tomas Tranströmer (4/1), mas por muito pouco. A importância do fator “quem?”, assim, multiplica-se. Thiong’o tem títulos traduzidos para o português pelas Edições 70, de Portugal, mas não no Brasil. Com desempenho menos fulgurante, o cacife do americano Cormac McCarthy também vem subindo. Quinta-feira acaba o suspense.

 

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