Blogs e Colunistas

Instituto Moreira Salles

06/02/2012

às 15:27 \ Pelo mundo

Auster x Erdogan: quem disse que escritor não morde?

O bate-boca entre Paul Auster (à esq.) e o fogoso primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tem um certo tom farsesco, mas é uma bem-vinda prova de que os escritores, se já não gozam do cartaz de antigamente, ainda podem atuar como consciência crítica dos poderosos – talvez sobretudo em temas como direitos humanos em geral e liberdade de expressão em particular. Aqui (em inglês), uma boa nota da “Time” digital sobre o caso.

Para resumir: numa entrevista à imprensa turca, Auster disse ter cancelado uma visita ao país porque seu governo mantém dezenas de jornalistas presos por crime de opinião. Erdogan se queimou e recorreu à ironia num discurso aos membros de seu partido, de inclinação muçulmana: “Oh, nós realmente dependemos do senhor!”, disse, como se se dirigisse ao escritor do Brooklyn. “Quem liga se o senhor vem ou não? A Turquia vai perder prestígio?”

Em seguida, botou Israel no meio e a conversa degenerou, mas de uma coisa a reação de Erdogan deu bandeira: a mordida do intelectual novaiorquino que escreve ficção – uma criatura sem dentes, como nos acostumamos a pensar – doeu.

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ERRO DE EDIÇÃO: Não é a primeira vez que acontece. Sete, a crônica dominical que publiquei ontem em minha outra coluna, Sobre Palavras, estava muito bem lá até que, relendo-a hoje, lamentei não tê-la publicado aqui, como um Sobrescrito:

Não faz sentido a palavra, se bem me lembro do sonho. É só um certo arrepio: o eco do seu silêncio no avesso do sussurrado sinônimo do seu oco.

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EGO DE EDIÇÃO: Pode ser visto aqui o vídeo de minha conversa no IMS-RJ com um Verissimo sobre o outro – com Luis Fernando sobre Erico, meu primeiro mentor literário, e em especial sobre seu romance “Incidente em Antares”. LFV dá um show de loquacidade, o que já vale o ingresso.

25/01/2012

às 13:14 \ Vida literária

Erico no IMS, McCarthy no Twitter, Franzen na TV

Amanhã à noite terei uma conversa íntimo-pública com Luis Fernando Verissimo sobre “Incidente em Antares”, o último romance do pai dele, diante de uma plateia de bolso no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Lançado em 1971, o divertido livro em que Erico Verissimo (foto) cutucava a ditadura no auge da repressão e flertava com o “realismo mágico” latino-americano pela via do humor rasgado – além de passar bem perto de antecipar a moda moderninha dos zumbis – já tem um pouco mais de quatro décadas, mas a comemoração do aniversário atrasou.

Fiquei tão honrado quanto surpreso ao ser convidado para o evento por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que detém o acervo do maior nome da literatura gaúcha. Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos?

Pois é, ela não sabia. O que me deixa com a sensação – nada desagradável, devo reconhecer – de ter feito algumas escolhas certas na vida. Não é só numa cidade fictícia com nome de estrela às margens do rio Uruguai que os mortos podem cruzar nosso caminho.

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Como assim? O recluso Cormac McCarthy aderiu ao Twitter? Era alarme falso, mas Margaret Atwood, tuiteira emérita, acreditou. No blog de livros do “Guardian”, Alison Flood lançou um apelo: “Permaneçam reclusos, ó ícones da literatura americana, eu imploro!”.

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Com a produção de uma série baseada em “As correções”, que terá roteiros escritos pelo próprio Jonathan Franzen, e a aquisição dos direitos de adaptação de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, a HBO entra com tudo no terreno – até aqui esnobado pela televisão – da literatura contemporânea “séria”. Boa notícia, certo? No “The Millions”, A-J Aronstein não está tão certo disso e (em inglês) especula que…

…devemos refletir sobre as implicações de sugerir [como teria feito, segundo ele, um empolgado Franzen] que as capacidades estéticas da televisão podem complementar ou mesmo suplantar as dos romances. Uma vez na vida, não perguntemos se “o romance vai sobreviver”, e sim o que significa o fato de seu futuro depender da relação com a TV – e se essa relação será produtiva a longo prazo.

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Em sua coluna de ontem no “Globo”, Pedro Doria saudou a chegada do “gratuito e trivial” iBook Author, software da Apple dedicado à edição de livros eletrônicos para iPad, no qual é simples como jamais foi acrescentar ao texto fotos, vídeos, recursos interativos etc.:

A notícia não é necessariamente boa para editoras. O filho do vizinho pode compor o livro eletrônico e submetê-lo para venda na loja da Apple sem que nenhum editor o veja. Passa por cima do intermediário. Taí um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido. Mas para fotógrafos com vontade de experimentar, designers com projetos dentro da gaveta e autores de livros infantis, a porta se abre repentinamente.

Não duvido que fotógrafos, designers e autores de literatura infantil façam a festa. Mas confesso que estarei mais atento ao que farão com a ferramenta autores de ficção literária adulta. Será o iBook Author a peça que faltava para que finalmente se ponha em curso aquela revolução pregada há alguns anos pelos entusiastas do meio eletrônico – a da explosão da arte narrativa num admirável mundo tridimensional de sons, imagens, interatividade e, bem, até mesmo palavras?

Vamos ver. Meu palpite é que, se a coisa não andar agora, não anda mais.

06/04/2011

às 11:26 \ Vida literária

Quer odiar literatura? Estude Letras


Outra questão que eu acho muito grave é que os cursos de Letras rejeitam a Literatura e rejeitam aquele que faz literatura. Mais facilmente um autor sai de qualquer outro curso do que de um curso de Letras. O estudo de literatura é absolutamente culpado pela esterilização da literatura, pela incompetência do autor literário e inclusive pelo leitor e pelo mercado. A verdade é que é muito difícil um jovem interessado em literatura passar num vestibular para Letras e sair dali gostando de literatura. Isso é o que eu acho mais lastimável entre nós. Essa realmente é a nossa grande falência.

As palavras de Beatriz Rezende, crítica literária formada e ainda abrigada na universidade (é coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro), não trazem novidade para quem tem alguma vivência nesse campo, mas são marcantes pela contundência e pela clareza com que expressam um fenômeno esquisito que parece exclusivo das letras: não consta que cursos de teatro, cinema, arquitetura, artes visuais ou dança fomentem de forma sistemática o desprezo por seu objeto de estudo.

(É isso mesmo, aspirantes a letrados de todo o Brasil: na hora de escolher um curso universitário, talvez não seja má ideia ceder àquela pressão familiar por medicina ou direito, afinal.)

O tal desprezo, curiosamente, foi o pano de fundo do próprio debate sobre literatura contemporânea promovido entre Beatriz Rezende e Alcir Pécora pelo blog do Instituto Moreira Salles e pela revista “serrote”, com mediação do editor Paulo Roberto Pires (a conversa inteira, dividida em quatro vídeos, pode ser conferida aqui).

Pécora foi o responsável pelo momento mais midiático do debate ao dizer que a literatura se tornou o campo “das tias” – referindo-se ao clima de compadrio instaurado pela turma de escritores paulistanos conhecida como “Geração 90”, no vácuo deixado por uma crítica anêmica e um público leitor ausente. O que, como frase de efeito, é vagamente divertido, mas tem sabor de anteontem.

Se a literatura é uma arte esgotada, se nada de real interesse estético poderá jamais voltar a sair daí no Brasil e no mundo, como insiste Pécora, será preciso ir muito além das “provas” de decadência que ele cita: Paul Auster (!) e Bernhard Schlink (!!!!!). E também demonstrar o que há de especificamente literário numa perda generalizada de peso cultural que, tudo indica, leva todas as sete artes a se defrontarem com algum tipo de crise neste início de século.

A tarefa é monumental, mas não impossível, e talhada para o perfil de um intelectual acadêmico sério. Até lá, o niilismo literário difuso do estudioso de Hilda Hilst e Roberto Piva – “do que eu vejo no Brasil, acho tudo muito ruim, muito irrelevante” – soa apenas como desistência, nojinho ou má vontade. Exatamente aquilo cuja gênese sua colega de debate teve a coragem de situar na estufa da universidade.

O pior é saber que Pécora ainda é um dos poucos acadêmicos que se dispõem a conversar, pela imprensa, com o público situado fora da estufa. Pode-se imaginar o resto.

Frouxa e exasperante como debate intelectual, a conversa promovida pelo blog do IMS tem o mérito de confirmar que a literatura brasileira contemporânea é um bebê abandonado numa encruzilhada. São apenas dois os caminhos à sua frente: construir-se aos olhos do público ao mesmo tempo que constrói um discurso crítico para se autolegitimar; ou o suicídio.

 

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