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fluxo de consciência

08/02/2012

às 13:19 \ Sobrescritos

Wiki-fluxo de consciências

Escultura do italiano Simone Racheli

A manhã entrava pelos seus milhões de olhos arrastando feito um tsunami lembranças de noites passadas em claro desde a infância pleistoscênica da espécie, tudo atropelado aos borbotões para ir desaguar na privada com estrias de alfabetos esquecidos que ele contemplava agora bem de perto, cabeças inumeráveis enfiadas ali.

Era como se quisesse desnascer útero adentro daquelas linhagens imemoriais de deusas gordas da fertilidade que contemplavam a cena espremidas holograficamente no banheirinho atrás da rodoviária, coristas glutonas da Broadway com seus sorrisos de domínio e castração.

Ele sente que todo o álcool que aqueceu, desinfetou e depois escalavrou seu tubo digestivo e os de seus mais remotos antepassados e mais imprevisíveis descendentes quer agora retornar, fazer o caminho inverso, vazar para o cosmo num rio de plasma que logo tentará afogar o sol.

Miríades de olhinhos piscam frenéticos, que agonia. O último suspiro escapa da alma do último personagem e se dissolve na indiferenciação de um universo hostil. Pronto, pronto.

O autor está morto, a subjetividade está morta, apregoam, com pequenas variações, quatrocentos quatrilhões de cartazes numa passeata silenciosa contra um inimigo que já não está lá.

No que você está pensando?, pergunta o algoritmo.

 

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