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Carola Saavedra

05/01/2011

às 14:47 \ Vida literária

A volta da Copa de Literatura Brasileira

A Copa de Literatura Brasileira, o mais divertido, democrático e desencanado dos prêmios literários nacionais, está de volta. Abertamente inspirada na competição americana Tournament of Books, a brincadeira foi lançada em 2007 com regras de torneio esportivo: os livros se enfrentam aos pares em esquema de mata-mata, cada partida decidida por um único juiz, até a final em que todos os árbitros votam. Houve três edições consecutivas, vencidas respectivamente por Assis Brasil, Cristovão Tezza e Carola Saavedra. Ano passado, porém, silêncio – a Copa parecia ter se tornado mais uma vítima do ambiente efêmero da internet.

Felizmente, foi apenas um hiato que a tabela deste ano, recém-divulgada, dá um jeito de compensar: os 16 títulos concorrentes foram eleitos entre os lançamentos de 2009 e 2010. Liderados pelo economista e preparador editorial Lucas Murtinho, os organizadores prometem que o resultado da primeira partida sairá no dia 28 de fevereiro. Nessa data, juntamente com o anúncio do vencedor, será publicada a resenha de justificativa do voto e estará aberta a temporada de comentários dos leitores, que em certos momentos dos anos anteriores atingiram níveis polêmicos de virulência. De modo geral, é quando começa para valer a diversão – ou o estresse, ou tudo junto.

A ideia é que até o fim do próximo mês o público tenha tempo de ler o maior número possível de concorrentes e esteja pronto para dar seus pitacos com conhecimento de causa. O que, por incrível que pareça, realmente ocorre em muitos casos, embora um certo irracionalismo de torcida organizada também faça parte do espetáculo.

Como qualquer concurso artístico, a CLB está cheia de decisões duvidosas ou mesmo francamente injustas. Sua insuperável vantagem é a de obrigar o tomador da decisão a mostrar a cara e expor suas razões, que em seguida podem ser questionadas pelo mais importante e mais negligenciado personagem do debate literário: o tal “leitor comum”. Como estímulo às conversas sobre ficção nacional contemporânea, um tema habitualmente espremido entre o descaso da universidade e a anemia resenhística da imprensa, não existe nada melhor no mercado.

Em nome da transparência do lado de cá, registre-se que já participei da CLB como concorrente (em 2007, com “As sementes de Flowerville, que chegou à semifinal) e juiz (em 2008, quando dei a vitória a “O dia Mastroianni”, de João Paulo Cuenca, sobre “Cão de cabelo”, de Mauro Sta. Cecilia). Este ano, concorro novamente com o romance “Elza, a garota”, que enfrentará “Sinuca embaixo d’água”, da jovem escritora gaúcha Carol Bensimon.

Em nome da transparência do lado de lá, gostaria de entender os critérios que levaram os organizadores a excluir “Pornopopéia”, indiscutivelmente um dos mais importantes romances brasileiros dos últimos dois anos, e, de modo menos espantoso, também o notório “Leite derramado”, o mais premiado do período – premiado por motivos errados, pode-se argumentar, mas ainda assim uma ausência de peso.

O bacana é que, como se vê, o debate já começa antes do apito inicial.

13/10/2010

às 20:42 \ Vida literária

Quem não gosta de sexo na literatura gosta de sexo?

Lendo o artigo de Jojo Moyes no “Telegraph” sobre a dificuldade – ou a impossibilidade, segundo Martin Amis – de escrever boas cenas literárias de sexo, me dou conta de que o tema virou uma pequena obsessão dos ingleses. Sim, o Bad Sex Award, coberto com alguma atenção aqui no blog, tem sua graça. Mas aí veio o post de Sarah Duncan, e agora esse artigo. Será que a pauta é mesmo tão boa assim?

Vamos admitir logo que a dificuldade existe e é interessante. Como escrever – ou optar por não escrever – o que acontece quando dois personagens, fazendo avançar a narrativa, resolvem transar sempre foi uma questão relevante e talvez seja especialmente escorregadia para o escritor de hoje. As fórmulas que um dia funcionaram tendem a nos soar canhestras, tudo resvala perigosamente no clichê. As decisões a tomar por linha são mais numerosas do que o habitual e cada uma contém seus riscos. Nomear, por exemplo, os órgãos sexuais, as ações? Usar termos técnicos ou chulos? Ou quem sabe poéticos, derivativos e metafóricos, em busca de um certo clima?

Com a irresponsabilidade dos chutadores, mas sem muita dúvida de acertar o gol, eu diria que a literatura que se escreve hoje anda menos rica em sexo gráfico do que a que se escreveu entre os anos 60 e 80. Será que, como disse Katie Roiphe sobre a geração de David Foster Wallace, ficamos cool demais para o sexo? Ou seria antes um amadurecimento natural, uma vez que se esvaziaram de sentido de transgressão e poder de choque os escritos “crus” dos que vieram imediatamente antes?

Convém confessar que sou culpado de minha cota de cenas de sexo (de violência também, aliás gratuita, como disse um crítico de renome sobre meu primeiro livro, mas esse é outro capítulo). Já fiquei preocupado relendo algumas dessas coisas, mas acredito que outras funcionem bastante bem. Acho que não trocaria nada no episódio do fellatio que a mulata brasileira aplica no chefão americano under the table num restaurante de Miami, na novela “O retiro dos macacos artistas”, por exemplo.

A verdade é que boas cenas de sexo são menos raras do que Martin Amis quer nos fazer crer. Basta pensar no jeitão pós-picaresco que o sexo ganha em “Pornopopeia”, de Reinaldo Moraes; nas transas cheias de tesão e tensão de Marçal Aquino em “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”; no registro lírico-brutal de Carola Saavedra ao narrar a violação que dá o clímax de “Flores azuis”, aquilo que na terra de Jojo Moyes chamam de fist fucking: não há nada de impossível em escrever uma cena que inclua referências a um ato sexual e na qual o leitor acredite, sem ser distraído de sua suspensão de incredulidade, como o artigo do “Telegraph” diz ser inevitável, pelo risinho de mofa ou pela vergonha alheia. Se os ingleses vêm sendo levados a acreditar em dificuldades intransponíveis nesse campo, isso talvez seja um sintoma de que têm (sempre tiveram?) problemas na cama.

Como o próprio sexo, o sexo na literatura é contexto. Se vai funcionar ou não, pergunte à narrativa, abandone-se à força que levou o leitor até ali e teste o grau de coerência da cena com o resto. Isso determina tudo, define como as palavras serão lidas. Pinçar de romances imagens e frases soltas – o “pau mole que parecia um cagalhão”, by Norman Mailer, sempre aparece – é trapaça. Uma trapaça do bem, que divulga a literatura, certo. Só não faz sentido derivar daí leis gerais sobre o que pode e o que não pode ser escrito quando dois personagens resolvem transar.

Outra complicação é que, na questão do sexo escrito, o sexo do autor também é determinante. A mesmíssima cena de “Flores azuis” mencionada acima, se fosse assinada por um homem, seria outra. O sexo do autor nos põe, como leitores, em um de dois lugares absolutamente distintos. De um deles vemos um homem, sabendo e sabendo que ele sabe que o discurso erótico da literatura sempre foi dominado por homens, com as notórias exceções femininas sendo tão notórias quanto exceções. Do outro lado vemos uma mulher, sabendo e sabendo que ela sabe a mesma coisa. Como é natural – e o leitor também sabe disso – os dois reagem ao que sabem de formas diferentes.

Ele, o autor, anda mudando: o desassombro visceral da “machista” geração de Philip Roth e Rubem Fonseca perde terreno para um certo pudor ou pé-atrás, um maior distanciamento físico-emocional. Ela, a autora, também anda mudando: herdou da geração de Hilda Hilst e Adelaide Carraro a missão de encher a literatura de sexualidade feminina, não falocêntrica, para compensar milênios de papo de homem, mas já não parece satisfeita com aquelas estratégias convencionais – e opostas – de saída pela exaltação lírica ou de contraposição ponto a ponto ao “discurso masculino”.

Por essas e outras, vai ser interessante ler o que o sexo literário nos dará nos próximos tempos. Como apreciador do gênero, espero ele dê muito e que o faça sem se preocupar com a patrulha do Bad Sex Award, que de boa piada parece estar querendo se transformar em estraga-prazeres.

13/08/2010

às 11:36 \ Vida literária

Dez escritores brasileiros abrem o jogo da ‘má influência’

Num bom momento da Flip, Salman Rushdie disse que Jorge Luis Borges foi uma “má influência” em sua juventude. Apaixonado por “Ficções”, passou a tentar escrever daquele jeito, embora sua “inclinação natural como escritor não fosse borgiana”. Deu trabalho, segundo ele, aprender a não escrever como Borges. O Todoprosa aproveitou a deixa para perguntar por e-mail a dez escritores brasileiros quais foram suas “más influências”:

MILTON HATOUM, autor de “A cidade ilhada”: “Acho que a obra de J.L. Borges influenciou várias gerações de escritores. Lembro que na década de 70 eu também imitava Borges. Mas joguei fora esse péssimo plágio deliberado. No começo de sua carreira, todo escritor imita seus antecessores. A imitação faz parte do processo de aprendizagem de qualquer atividade humana. Borges dizia que imitava Macedonio Fernandez ‘até plagiá-lo’. Os contos de ‘História universal da infâmia’ devem muito às narrativas do francês Marcel Schwob (‘Vidas imaginárias’ e ‘A cruzada das crianças’). Acho que Salman Rushdie é um escritor marqueziano. Certa vez ele me disse que adora a obra de García Márquez. Este, por sua vez, já afirmou que lia Borges para aprender a escrever. Na infinita biblioteca do universo, todos podem ser influenciados por todos, mas um bom escritor acaba encontrando sua própria voz, com a qual inventa um mundo particular.”

CAROLA SAAVEDRA, autora de “Paisagem com dromedário”: “Minha ‘má influência’ foi sem dúvida Clarice Lispector. Comecei com ‘Perto do coração selvagem’, ainda adolescente. Aos vinte e poucos anos eu tinha lido quase toda a sua obra. Lembro do espaço enorme que esses livros ocupavam na minha estante. E tudo o que eu escrevia ficava com jeito de Clarice, por sorte eu tinha noção de que o resultado era sofrível. Um dia, peguei todos os seus livros, coloquei numa caixa, e fechei bem fechada. Só fui abri-la quase uma década mais tarde.”

CRISTOVAO TEZZA, autor de “O filho eterno”: “Eu acho que má influência é somente aquela de que você não se livra. No mais, de tudo fica um pouco, e no bom sentido. Lembro que em meu primeiro livro, nos anos 70, os contos de ‘A cidade inventada’, eu sofri um mix de influências, de Borges (inevitável) a Hermann Hesse (de ‘O jogo das contas de vidro’). Só bem lá no fundo dos contos batia um coração de escritor tentando respirar! Em outro momento, parei de ler Faulkner e Conrad, com medo de que aquela sintaxe me contaminasse para sempre. Bobagem. Foram autores que só abriram portas. Já Graciliano Ramos me influenciou (eu acho), no torneio curto da frase. Mas tem a ver com visão de mundo. A poesia de Drummond (sempre falando dos anos 70) me tomou por inteiro de tal modo que eu, como poeta, desapareci completamente. E desisti da poesia, para felicidade geral de parentes e amigos. Não era a minha linguagem. E de um momento em diante (a partir de ‘Trapo’), parei de me preocupar com influências.”

MICHEL LAUB, autor de “O gato diz adeus”: “Meus primeiros contos eram bem derivados do Rubem Fonseca. Até personagem delegado acho que tinha. Um amigo para quem mostrei esses textos disse o óbvio: que aquilo soava muito artificial, o que de alguma forma eu achava também (só não sabia ainda por quê). Superar a influência não foi tão difícil, já que ela era mais temática que de estilo, e temática é algo mais fácil de controlar. Mas demorou um pouco, claro, porque nunca é fácil jogar fora tudo o que você fez e recomeçar do zero.”

ANA PAULA MAIA, autora de “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”: “Quando li ‘O apanhador no campo de centeio’, do J.D. Salinger, fiquei tão terrivelmente influenciada que escrevi o meu primeiro romance, ‘O habitante das falhas subterrâneas’, totalmente influenciada por ele. Aquilo foi bom e terrível. Deixei de lado todas as leituras que poderiam me influenciar dessa maneira corrosiva e só voltei a elas quando encontrei o eco da minha própria voz na literatura que escrevo. Ainda é difícil me livrar de certas vozes exteriores, pois elas continuam a me rondar, mas já não aparecem de modo tão descarado nos meus textos.”

BERNARDO CARVALHO, autor de “O filho da mãe”: “Não tenho nenhum caso específico para citar. Todo grande escritor é, nesse sentido, ao mesmo tempo uma boa e uma má influência. Escritores que têm estilos muito marcantes, como Beckett, Guimarães Rosa e Thomas Bernhard, podem se transformar em armadilhas muito facilmente. Você pode adorá-los, mas também vai ter que saber se afastar deles se quiser escrever. É aquela velha história da angústia da influência.”

FLÁVIO CARNEIRO, autor de “O campeonato”: Acho que não existe má influência nesse caso, já que Salman Rushdie, ao ‘matar o pai’ Borges, certamente cresceu muito como escritor e portanto a influência acabou sendo boa no final das contas. Má seria se ele tivesse sido influenciado por um autor ruim e tivesse continuado nesse caminho. No meu caso, quando comecei a escrever, meu autor de referência era o Rubem Fonseca, como aconteceu com muitos da minha geração. Mas a minha inclinação, para usar a palavra usada por Rushdie, nunca foi a da temática urbana, da violência etc., mas a da fantasia, mais próxima do fantástico, por exemplo. Ainda leio e gosto muito do Rubem Fonseca, mas acho que ‘superei’ essa influência escrevendo um romance que é assumidamente uma reescritura de um conto dele, ‘O campeonato’. Escrevi um romance, com esse mesmo título, em que um jovem viciado em leitura de romances policiais se depara com um bando de marginais que resolve colocar em prática o que acontece ficcionalmente no conto do Rubem. Quer dizer, o conto dele entrou como mote ficcional para a escrita do meu romance, que é um policial à la Rubem Fonseca mas com um pé na fantasia, na imaginação meio delirante, que acredito ser uma marca da minha ficção. Esse romance foi escrito nos anos 90, publicado primeiramente pela Objetiva e reeditado agora, numa versão mais enxuta, pela Rocco.”

RAIMUNDO CARRERO, autor de “A minha alma é irmã de Deus”, vencedor do Prêmio São Paulo 2010: “É verdade, todo escritor tem uma má influência. Ou seja, um autor, um escritor, que mesmo sendo genial interfere de modo significativo na vida de um iniciante. No meu caso, a má influência veio – e vem – de João Guimarães Rosa. Cheguei a escrever um livro inteiro de contos – chamava-se ‘O domador de espelhos’ – que foi enviado à Editora Civilização Brasileira por um amigo consagrado, cujo nome prefiro esconder. Ênio Silveira, o editor, recusou-o, alegando exatamente isso: é uma imitação estúpida de Guimarães Rosa e nada mais. Tinha razão. Tive que esquecer o criador de ‘Grande sertão: veredas’ por muito anos. E, ainda hoje, guardo distância. Basta lê-lo numa manhã e à tarde já estou repetindo todos os seus cacoetes. Vade retro, mineiro!”

CÍNTIA MOSCOVICH, autora de “Por que sou gorda, mamãe?”: “Eu, digamos assim, ‘percebi’ a maneira de escrever literatura ao ler Clarice Lispector, e é dela, portanto, que tenho maior influência. Não digo que seja má, no sentido jocoso que Rushdie atribui à influência de Borges: é que nunca me preocupei em não escrever como Clarice. Acho que, mesmo sem essa angústia, a gente escreve um texto singular, próprio, original. Eu sabia que cedo ou tarde encontraria em mim a ‘voz interior’, o ‘estilo’, o jeito, a maneira, aquilo que era profundamente meu e que tão bem a Clarice espelhava. (Claro, se eu escrevesse como a Clarice, melhor ainda.) Agora: nós somos herdeiros de uma tradição, somos sucessores de quem veio antes de nós. Não temos como negar o que somos, quem lemos, ouvimos, assistimos. A ideia de originalidade absoluta é uma quimera. Há em nós quem veio antes de nós. Por que não?”

DANIEL GALERA, autor de “Cordilheira”: “Pensei bem antes de responder, e acho que não tenho um autor específico que possa ser citado como ‘má influência’. Houve muitos casos isolados de tentar imitar algum autor que admiro apenas para descobrir que não era possível, seja por falta de talento ou por incompatibilidade de vozes literárias, mas nenhum caso foi especialmente marcante. De forma geral, lembro de uma época em que tentei escrever contos de recorte mais fantástico, ou próximos do gênero da ficção científica, porque achava que escrever apenas narrativas realistas e contemporâneas era uma limitação a ser evitada. Isso deve ter sido lá por 2003 ou 2004, antes de começar a trabalhar no ‘Mãos de Cavalo’. Os contos resultantes dessa neurose passageira ficaram péssimos e felizmente tive a presença de espírito de nunca publicar nenhum deles. Mas seria justo dizer que nesse período sofri a dita má influência dos gêneros fantásticos, que aprecio intensamente como leitor, mas que provavelmente não sou talhado a criar. Me reconciliei com o realismo urbano/contemporâneo logo em seguida e hoje não me sinto mais forçado a sair dele para explorar minha voz literária, embora não tenha abandonado a ideia de quem sabe, um dia, escrever algo dentro de gêneros como ficção científica e policial, que adoro.”

08/08/2010

às 17:46 \ NoMínimo

Wendy Guerra, o culto à primeira pessoa e o paternalismo


Teve um público modesto a mesa “Cartas, Diários e outras Subversões”, que reuniu as escritoras Carola Saavedra, chilena naturalizada brasileira, e Wendy Guerra, cubana nunca editada em seu país. Com mediação do também escritor João Paulo Cuenca, elas conversaram sobre como a figura paterna – ou a figura masculina forte – está presente em seus livros (Nunca Fui Primeira-Dama, de Wendy, e Flores Azuis e Paisagem com Dromedário, de Carola) e sobre a exposição do escritor em sua obra. Wendy, que foi apresentadora de TV em eu país – “Uma espécie de Xuxa cubana” – disse que tem preferência pela narração em primeira pessoa.

“Tenho um trabalho performático em primeira pessoa”, reconheceu a escritora, que já posou e realizou performances nua em galerias de arte. Tudo pela arte, aliás. Wendy faz questão de dizer que não consegue separar a arte da vida, por ser filha e amigas de artistas – e possivelmente, vale a interpretação, por essa ser uma forma de transcender as regras restritivas do regime sob o qual vive.

Sobre a presença firme de Fidel Castro em Cuba, Wendy revelou sentir tanto objeção quanto fascínio. “Eu sou dupla. Uma vez, estive em dúvida sobre a minha paternidade e disse à minha mãe, que era uma escritora maravilhosa e nunca foi editada, ‘Cuidado para que eu não seja filha de Fidel, ou eu seria muito forte’”, disse, demonstrando sua admiração pelo cubano, para em seguida lembrar do que a desagrada em Cuba. “É uma sociedade em que oferecem tudo a você, saúde, educação, e é preciso pagar um alto preço por isso. Nós estamos paralisados, sempre esperando algo deles, vivemos assim, é muito paternalista.”

Cuenca – que abriu a mesa agradecendo ao governo cubano por liberar a escritora para a festa – contou que andou com Wendy de lancha em Paraty, e que teve medo da velocidade imposta por ela. “Eu gusto de sentir que posso controlar minha vida, algumas vezes”, comentou ela.

Já Carola Saavedra falou mais de sua obra, contando que busca formas diferentes de contar as histórias de sempre – já que uma história original é algo hoje difícil, se não impossível, de alcançar – e que sempre sente medo de não conseguir escrever o próximo livro. “Quando eu faço um livro, nada me garante que eu farei outro. Pode ser que aquela fonte misteriosa de ideias seque.”

Sobre o tema da figura masculina forte, Carola argumentou que a mulher não se apaixona pela figura física, mas pela figura de força psíquica – o homem que sabe algo, “de repente, algo sobre você mesma”. E disse que, no triângulo escritor-livro-leitor, o escritor é quem deve ser excluído. “Não interessa o que o escritor quer dizer em um determinado livro, interessa o que ele disse e o que o leitor entende do que ele disse. É a relação entre o livro e o leitor que interessa.”

Maria Carolina Maia

 

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