11/03/2011
às 17:18 \ Resenha‘Como funciona a ficção’: quem disse que a literatura morreu?
Se tivermos sorte, e bota sorte nisso, o livro “Como funciona a ficção” (Cosac Naify, tradução de Denise Bottmann, 232 páginas, R$ 49,00), lançado em 2008 pelo crítico inglês James Wood, cairá entre nós como uma bomba de efeito moral. Claro que esta é só uma frase de efeito (moral?) e que um simples volume de crítica literária dificilmente provocará tal estrago. Isso não altera o fato de que, num mundo ideal, seria de esperar que depois dele uma série de personagens que atravancam nossa vida literária saíssem correndo em busca de abrigo, do pequeno resenhista movido por cordialidades buarquianas ao crítico acadêmico adestrado por décadas de teoria e estudos culturais para odiar tudo o que cheire a literatura. Simpatizemos ou não com suas idiossincrasias (eu simpatizo com algumas delas), Wood é tão apaixonado pela coisa que não se furta a cair no pasmo boquiaberto diante de certa tirada poética de Virginia Woolf no romance “As ondas”: “Sinto-me mortificado com essa frase; um pouco porque não consigo explicar de jeito nenhum por que ela me comove tanto”.
Nessa cândida confissão de impotência reside, paradoxalmente, o maior poder de “Como funciona a ficção”. Egresso da crítica literária jornalística, que exerceu por 12 anos na revista “New Republic” antes de assumir no início de 2008 o mesmo posto na “New Yorker”, Wood corre assim o risco de ser considerado um simples fabricante de “papel de bala”, na já célebre definição da acadêmica Flora Sussekind. Afinal, o cara não apenas ama a literatura, ajoelhando-se diante de autores canônicos como Flaubert (“os romancistas deveriam agradecer a Flaubert como os poetas agradecem à primavera”), James e Tchecov, mas também, pecado supremo no catecismo universitário, sabe escrever e deseja ardentemente ser compreendido pelo leitor comum. Que crítico é esse que, em pleno século 21, ainda trabalha com a ideia de “comoção” (hahaha)? O que dificulta situá-lo no quadro mistificador dessa guerrinha já cansada – “academia rigorosa” x “mercado qualquer-nota” – é que Wood também figura no quadro de professores de Harvard, lecionando desde 2003 uma cadeira chamada Prática (atenção: não Teoria) de Crítica Literária. Assim, quando ele declara na introdução o desejo de que seu livro “faça as perguntas do crítico e dê as respostas do escritor”, sem romper com o “instinto criativo”, entende-se a ambição de um projeto que tem tanto a ensinar a jornalistas quanto a acadêmicos.
Em termos estéticos, Wood é um conservador assumido, um paladino da boa prosa realista que dificilmente consegue elogiar sem enormes ressalvas qualquer escritor mais novo que Saul Bellow, um de seus heróis. Já é folclórica sua implicância com as gerações identificadas frouxamente com um certo “pós-modernismo”, de Thomas Pynchon a David Foster Wallace. Paul Auster foi situado por ele no nível da subliteratura e Zadie Smith o levou a cunhar em 2001 a expressão “realismo histérico”. Nada disso é bonito: o que o crítico da “New Yorker” expõe nesses momentos são suas limitações. Ah, mas como ele sabe argumentar! “Assim se inicia”, escreve na página 40, “a perigosa tautologia inerente ao projeto literário contemporâneo: para evocar uma linguagem degradada (a linguagem degradada que o personagem usaria), teríamos de nos dispor a apresentar essa linguagem mutilada no texto, e talvez degradar inteiramente nossa própria linguagem. Pynchon, DeLillo, David Foster Wallace são, em certa medida, herdeiros de (Sinclair) Lewis, e Wallace leva seu método de imersão total aos extremos da paródia.” Como não enxergar aí, por baixo do antagonismo estético, um núcleo de verdade? Como não pensar, ressalvadas todas as (des)proporções, em André Sant’Anna, por exemplo?
Em mais um paradoxo, o que a postura de Wood traz de novidade ao debate contemporâneo é algo que parecia perdido no passado: uma atenção e um respeito quase ingênuo (como quando ele sugere, na página 71, que ler bons romances nos tornaria mais capacitados para a vida) ao que a literatura tem de especificamente… literário, pois é. Como funciona esse negócio? Que mágica é essa que de repente nos arrepia, nos horroriza, nos faz chorar? Descartando esquemas teóricos totalizantes, de um lado, e o recurso a saberes externos como psicanálise e sociologia, do outro, Wood mergulha nas engrenagens do texto feito um escafandrista monomaníaco. Sem nada de normativo (não se trata de um livro de regras ou manual para aspirantes), seu “Como funciona a ficção” é um compêndio inquisitivo em forma de conversa, dividido em 123 tópicos breves que dão voltas em torno de algumas perguntas centrais: O que é um personagem? Por que certas metáforas funcionam e outras não? Por que o discurso indireto livre é menos onisciente do que se imagina, e o que isso tem a ver com a ironia? Qual é o papel da literatura na constituição daquilo que entendemos por consciência? O que existe de “real” no realismo? São questões tão velhas que reencontrá-las assim, de roupa nova, andando na rua, dá uma certa vertigem. A mensagem de fundo, necessária como nunca, é mais ou menos a seguinte: quando você diz que a literatura morreu, sua múmia, tem certeza de que não está apenas se projetando nela?
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Recebo da tradutora Denise Bottmann uma mensagem em que ela afirma “declinar da responsabilidade pela tradução” do livro de James Wood. O motivo é a opção da editora Cosac Naify pelo uso de traduções já existentes para os muitos trechos de obras citados pelo autor. “Friso que não pretendo questionar de maneira nenhuma o grande mérito das traduções utilizadas”, afirma Bottmann. “Julgo-as, de modo geral, excelentes. O que quero destacar é que aqui, neste caso específico, a norma editorial de utilizar traduções prévias sem levar em conta o contexto e a finalidade da citação muitas vezes enfraqueceu – e algumas vezes anulou – os argumentos do próprio autor.” De fato, há casos em que os pontos destacados por Wood nos trechos que cita aparecem de forma turva ou nem mesmo aparecem nas traduções. Um problema que sem dúvida merece conserto no futuro, embora, a meu ver, não seja suficiente para condenar esta edição.
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