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04/12/2009

às 14:32 \ Sobrescritos

Gaúchos

Quando ele fez o velho sinal de pedir a conta rabiscando o ar, o garçom – um sujeito alto e branquelo, cabelos vermelhos cortados à máquina – se aproximou com um sorriso amplo e disse:

– Como tu adivinhou que eu escrevo?

E em vez da conta pôs em suas mãos um manuscrito pesado, com encadernação em espiral, chamado “Carnificina”. Antes de se retirar, acrescentou:

– Sou um escritor gaúcho.

Claro, ele pensou, nada mais apropriado. Você vai jantar numa churrascaria em São Paulo e o garçom é um escritor gaúcho. Estava decidido a não tomar o ansiolítico – não ainda. Atraiu outro garçom, desta vez tendo o cuidado de se expressar verbalmente:

– A conta!

Foi então que viu entrar na churrascaria aquele famoso escritor gaúcho de meia-idade, feio como poucos, acompanhado de uma mulher jovem e bonita. Ouviu quando o casal da mesa ao seu lado comentou:

– Viu quem chegou?

E discerniu no sussuro dos dois os nomes estrangeirados do escritor de meia-idade e de uma jovem escritora gaúcha emergente cuja cara ele não conhecia, embora, por dever de ofício, já a tivesse lido – não era má. Sem se dar conta, acompanhou os recém-chegados com os olhos até que eles se sentaram nos fundos do salão e foram saudados festivamente por uma mesa vizinha, uma mesa comprida onde só então ele reconheceu o maior escritor gaúcho vivo, que sorria com ar tímido, e outros sete escritores gaúchos de idades e sexos variados, incluindo o mais…, aquele que fundou a… e a que venceu o…, além daquele outro que se…

Decidiu que era chegada a hora do ansiolítico: engoliu o comprimido com o último gole de chope, pagou a conta e saiu.

Na porta, viu um gaúcho repreendendo o maître por não lhe arranjar uma mesa:

– Como assim, lotado? Tu fique sabendo que eu sou o melhor escritor dos últimos…

Saiu correndo e se jogou dentro do primeiro táxi parado na esquina. Só então, irritado, se deu conta de que ainda tinha nas mãos o manuscrito do garçom. O motorista o encarou pelo retrovisor e disse:

– Escritor?

Era um cara moreno de nariz comprido, barba por fazer. Com seu cabelo preto penteado para trás das orelhas e sua camiseta sem mangas, parecia um anarquista italiano de filme.

– Não – tartamudeou. Fez a bobagem de acrescentar: – Crítico.

O anarquista de filme ficou muito sério, abriu o porta-luvas e lhe estendeu um gordo envelope pardo.

Acuado no banco de trás, ele gemeu:

– Gaúcho?

O motorista sorriu, um canino de ouro brilhando à luz fria dos postes.

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19 Comentários

  1. argel mattos

    -

    12/03/2010 às 0:58

    o dálessandro tomando amarelo !! shahsahsahs

  2. argel

    -

    12/03/2010 às 0:56

    o inter prescisa de velocidade para os contra atacs

  3. argel

    -

    12/03/2010 às 0:55

    o empate pode ser muito bom para a equipe do internacional

  4. gilvas

    -

    17/12/2009 às 14:11

    sobre os livros, dentro dos livros: tua literatura estufa meu peito.

  5. Robertão

    -

    07/12/2009 às 9:16

    muito, bom mesmo! reconheci uns quinze ou desesseis pelas dicas

  6. Ernani Ssó

    -

    06/12/2009 às 9:28

    É, os efeitos colaterais da alfabetização são terríveis.

  7. simonis

    -

    05/12/2009 às 12:27

    muito bom… mesmo…

  8. FErio

    -

    05/12/2009 às 10:30

    Esse é um daqueles textos que você acaba de ler e fala espontâneamente: muuito boooom!

  9. Eric

    -

    05/12/2009 às 10:24

    Hhhahahha. Ri com gosto desse. :) Não sei se era para chorar, mas é bom começar um sábado de sorriso largo, né não? Abss! Muito bom o texto, Sérgio.

    ps. que tal uma conta no twitter em 2010, hum? Tem papos que rolam lá que ficariam mais interessantes com a sua opinião.

  10. Guilherme Atencio

    -

    04/12/2009 às 23:57

    Muito bom!

  11. Daniel Brazil

    -

    04/12/2009 às 22:24

    Já houve época em que a praga da vez era(m) os contistas mineiros…

  12. Thiago Maia

    -

    04/12/2009 às 19:50

    Muito bom, e muito bom o Tito.

  13. ri ventura

    -

    04/12/2009 às 18:16

    tito, digas: aproveitando o ensejo…

  14. Tito

    -

    04/12/2009 às 16:06

    Como gaúcho, eu gostaria de saber o seguinte: posso te enviar uns originais para dares uma olhada?

  15. John Coltrane

    -

    04/12/2009 às 15:20

    Mais um para o livro? Merecia!

  16. cely

    -

    04/12/2009 às 14:50

    ! ! ! ! ! ! ! muito bom! ! ! ! ! !


 

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