04/05/2011
às 12:33 \ SobrescritosConselhos literários fundamentais (VI)
Não tenha preguiça de reescrever. O escritor que não reescreve o que acabou de escrever, mesmo que por pura mania, mesmo que para deixar o texto indiscutivelmente pior, não merece ser chamado de escritor. Será, no máximo, um excretor a sujar de palavras fisiológicas em estado bruto um mundo que não precisa de sua contribuição para se assemelhar a um aterro sanitário de símbolos. Se escrever dez linhas, reescreva-as dez vezes em dez horas, e mais dez vezes a cada dez horas dos dez dias seguintes: corte, amplie, pregue, serre, lixe, solde, cole, mude tempos verbais e a ordem dos parágrafos, exercite a sinonímia e a intolerância. (Este conselho, por exemplo, foi reescrito ao longo de nove meses de trabalho diário. Em sua primeira versão, dizia: nunca reescreva o que acabou de escrever.) E caso ocorra a circunstância nada improvável de retornar nesse processo de edição a um texto muito semelhante ao original, ou mesmo idêntico a ele, saiba que a sensação de tempo perdido será uma ilusão e que o fruto da reescritura, como o Quixote de Pierre Menard, terá por trás das mesmas palavras uma densidade incomparavelmente superior. Claro que também é preciso reconhecer o momento de parar de reescrever, aquele ponto a partir do qual, como nas cirurgias plásticas em série, qualquer nova mexida só pode resultar em desastre, mas isso não é tão difícil: ele costuma vir acompanhado do impulso de golpear repetidamente o cristal líquido com o teclado para ver qual quebra primeiro.
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15 Comentários
Monica Diniz
-20/05/2011 às 14:57
De fato, é necessário reescrever o que se escreve. Do contrário, fica um texto bruto, como um diamante não polido ainda pelo ourives: belíssimo, porém, sem o a “chama” que o artista deixa impregnado ao lapidá-lo. Um certo “elan” que lhe empresta aura de vida própria, quem sabe…
Monica Diniz
Rosângela
-10/05/2011 às 21:05
Ah Sérgio… quando reli o que escrevi, me deu frio na espinha. É que fui demagoga. SIm, meio hipócrita. É que menti sem querer. Na verdade, apesar de reler seus escritos e gostar e achar legal, é o reler a Palavra de Deus que é meu pão e minha luz. Amo reler e reler a Palavra de Deus, que na verdade é meu alimento. Desculpa aí meu exagero. Uma das coisdas que aprendemos em, discipulado é que devemos ser sóbrios e verdadeiros. Sim, releio seus escritos, mas meu pão é reler as Escrituras.
Rosângela
-09/05/2011 às 16:44
Ah…avise isso nos concursos que pedem redações. Seria bom que o concursado tivesse o tempo necessário para a tal reescrita, né? Bem, já me dei mal porque não passei tudo à limpo.
Rosângela
-09/05/2011 às 16:32
Ah!Um detalhe: Sorvete de chocolate com menta, por favor.
Rosângela
-09/05/2011 às 16:28
Eu nem quero saber se é preciso reescrever um texto. Só sei que trileio seus textos e nem tô aí. kkkkkk são ótimos. Primeiro porque muitas frases me fazem escorregar e tenho que subir de novo, mesmo que seja para escorregar novamente( não ficaria bem aqui o “de novo”… kkk…). Segundo, que seus textos são inteligentes pegadinhas. Terceiro porque nem sempre sei o signficado das palavras. E quarto porque reler seus textos é como tomar um sorvete após aquele almoço predileto.
Lucas
-05/05/2011 às 20:55
A conselho do grandioso parnasiano, Olavo Bilac, devemos trabalhar, teimar, limar, sofrer e suar; tal como um beneditino para que nosso esforço seja reconhecido – além de que a repetição, em alguns casos, é o caminho à perfeição.
Regina
-05/05/2011 às 16:49
OK. Texto excelente. Conselho anotado.
Ataíde
-04/05/2011 às 22:45
Já estava desistindo de uns escritos de tanto rescrevê-los mas agora animei.
Rogerlando Gomes Cavalcante
-04/05/2011 às 22:19
Escrevo, n~ reescrevo – reescrever reescreva/ – E reescreve! – quem leia; leia, /Reescreva, à alteridade se atreva:/ versões e in, distorções, alusões…/ E n~ deixa de ser Santa nem, sim, bolo, ceia / – O inexplicável resiste a explicações.
Quando escrevo nunca penso no escrito:/ Dispenso a finitude em prol do infinito.
http://www.rogerlando.com
Fedor
-04/05/2011 às 18:22
“Este conselho, por exemplo, foi reescrito ao longo de nove meses de trabalho diário. Em sua primeira versão, dizia: nunca reescreva o que acabou de escrever” – AHAHAHAHAHHA!!
Fernando
-04/05/2011 às 17:05
Sinto dificuldade em soltar o pensamento. Ideias vem e vão só sinto um bloqueio. O primeiro passo seria quebrar este bloqueio para ai sim soltar o dedo sobre o teclado e deixá-lo conversar com a mente.
Se para escrever já sinto dificuldade imagina reescrever… ta danado!
Cláudio
-04/05/2011 às 14:13
Como disse Graciliano Ramos, o ato de escrever é como o de lavar roupa: deve-se esfregar, ensaboar, torcer, espremer, até que fique tudo limpinho.
Um abraço.
Jandeilson Bezerra
-04/05/2011 às 13:00
Sem dúvida alguma reescrever é o caminho!
Jan
http://eloletras.blogspot.com
thiago
-04/05/2011 às 12:52
“aterro sanitário de símbolos”, um belo exemplo de desperdício.