04/02/2011
às 11:24 \ SobrescritosConselhos literários fundamentais (I)
Odeie o conforto. Se estiver concentrado demais na história que está escrevendo, ligue a TV, entre num bate-papo virtual. Caso as palavras continuem a lhe jorrar dos dedos, ponha uma música, desligue o ar condicionado, abra a janela para o berreiro de freios, buzinas e motores. Sinta-se incomodado: retarde ao limite do desastre – ou mesmo, havendo disposição e necessidade para tanto, além dele – a hora de ir ao banheiro. Morra de sede, chegue a passar fome. Brigue com a sua mãe. Mande confeccionar para sua cadeira de escritório XTZO-3000 (com amortecedor inteligente) um magnífico assento de tachinhas medievais. Boicote-se: se escrever umas tantas páginas-telas que lhe agradem em particular, dê um jeito de perdê-las, negando-se como um tonto a salvar o arquivo ao fechá-lo. E então esprema a memória para reproduzi-las igualzinho, vírgula a vírgula, exceto por uma palavra que já não achará mais e cuja ausência, se tudo der certo, vai torturá-lo por horas e horas de trabalho ou trabalho nenhum, pois não se pode chamar de trabalho o tumulto de pensamento que o tomará então, o céu a estridular como se fosse partir ao meio e o computador berrando mais do que a cidade e a TV juntas jamais sonharam berrar. Nesse momento, se as instruções tiverem sido seguidas corretamente, a linguagem estará passando por você depressa demais para ser captada, zunindo, turbilhão de luz no hiperespaço. Você terá se infiltrado, como um espião ou um vírus, no coração da máquina que move um mundo de palavras sem tempo de fazer sentido. É horrível. Avance a mão, colha uma ao léu, e então comece.


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24 Comentários
santanoviski
-04/05/2011 às 3:32
Sergio, que texto bonito e veraz. Ao lê-lo, no mínimo vamos aprendendo e nos consolando por não sermos os únicos a sofrer quando nos dispomos (ou nos sujeitamos) a escrever. Parabéns pelos conselhos.
leonardo tavares
-31/03/2011 às 20:39
droga. descobri que sou burro. não entendi esse conselho literário.
sergiorodrigues
-10/02/2011 às 15:05
Obrigado, Glorinha. Mas quem sabe essa resposta? Eu garanto que não sei. Daquilo que dá para controlar, isto é, técnica e esforço, a gente deve tirar o máximo. O resto é imponderável. Um abraço.
Glorinha de Nantes
-10/02/2011 às 11:36
Sérgio, belo texto! Preciso! Entretanto, pergunto, a título de confirmar uma ideia instalada em mim, desde sempre :
____O escritor melhor é o sofrimento, a dor, a paixão, a necessidade, de toda e qualquer natureza, desde que exacerbados?! Tudo o mais é instrumental de trabalho?! Até mesmo a tão propalada inspiração?!
Vinícius Antunes
-08/02/2011 às 16:43
Gostei bastante do texto, Sérgio. Vou usá-lo com minhas alunas. Abraço!
sergiorodrigues
-07/02/2011 às 11:30
Augusto, meu caro, é uma honra saber que você está entre os meus leitores. Também me incluo na legião dos seus, é claro, e não é de hoje, ainda que em silêncio e quieto no meu canto. Mas gostei da ideia da troca de comentários entre os colunistas, pode deixar que qualquer dia desses dou as caras lá com um ou outro pitaco de duvidosíssima relevância, mas nem por isso menos sincero. Um grande abraço!
Augusto Nunes
-06/02/2011 às 3:39
Olá, vizinho de portal!
Passo sempre por aqui, e sempre com renovado interesse em ler os seus textos sempre muito inteligentes e inspiradores (lamento os muitos “sempre” da frase, mas a verdade sobrepujou o rigor estilístico). Fica o convite para você visitar o meu blog (http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/) e deixar os seus comentários. Creio que assim podemos tornar o portal mais vivo e vibrante, com a troca, a contribuição não apenas dos leitores de cada um dos blogs, mas também dos próprios autores dos blogs do portal Veja.
Aguardo você, Sérgio!
Abraço fraterno do Augusto!
sergiorodrigues
-05/02/2011 às 17:55
Rogério, eu agradeceria se achasse que vc entendeu mesmo. Mas cuidado: a prosa de Freedom, apesar de meio rala, é menos irrefletida do que parece. E o “conselho fundamental” aí em cima não sou em quem dá.
Rogério Moraes
-05/02/2011 às 13:41
Dá para entender a diferença entre o Sérgio e o Franzen.
mdv
-05/02/2011 às 10:46
Aora vai! abraço M
Thiago Castilho
-04/02/2011 às 22:00
Imagina, Sérgio, para eu me zangar você teria que ter entendido o meu comentário. Abc.
O
-04/02/2011 às 17:11
Ao ler o comentario do Thiago, lembrei-me de Pessoa: o poeta e um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que e dor/ a for que deveras sente. Nao creio que foi a intenção, mas acho que se aplica ao texto cheio de poesia do Sergio.
sergiorodrigues
-04/02/2011 às 15:55
Thiago, espero que não se zangue, mas para levar a mal eu precisaria ter entendido seu comentário. Abs.
Thiago Castilho
-04/02/2011 às 15:46
Conhece http://www.unisinos.br/direitoeliteratura/index.php?option=com_content&task=view&id=15&Itemid=39
Espero q n tenha levado a mal o primeiro comentário. Foi uma provocaçao amiga.
http://www.esconderijo-do-observador.blogspot.com/
Um abraço do observador.
Thiago Castilho
-04/02/2011 às 15:44
Por que todo grande escritor é também um grande mentiroso?
sergiorodrigues
-04/02/2011 às 13:15
Glaucia e Daniel, obrigado. Apareçam sempre.
Daniel
-04/02/2011 às 13:09
UAU!!!!
Glaucia Altieri
-04/02/2011 às 11:40
Muito bom.