09/07/2007
às 15:53 \ Sem categoriaApontamentos: a Flip que eu pude ver
Quando finalmente cheguei a Parati, era fim de tarde de sexta-feira e o trem já ia lá na frente, puxado por uma locomotiva desembestada chamada Will Self, com seu rastro fumegante de gozações agressivas com tudo e com todos, no geral e no particular – da própria literatura ao mediador de sua mesa, Arthur Dapieve, a quem terminou propondo galhofeiramente que tivessem um caso e fugissem para a Amazônia, onde se dedicariam ao esporte nacional de “derrubar árvores”.
Meu amigo Dapi disse ter ficado à vontade com isso – a experiência de contracenar com Marcelo Madureira na TV deixa qualquer um preparado para gozações pesadas – mas a Flip pareceu se dividir diante do anarquismo meta-arrogante da persona maluca que Self criou para si (dizem que é afável na “vida real”). De acordo com uma pesquisa informal que conduzi, o espetáculo selfish divertiu e revoltou o público em partes mais ou menos iguais.
Fiquei com a impressão de ter sido esta a minha maior perda na quinta edição do evento. Sou admirador das sátiras de Will Self – brilhantes nos melhores casos e pelo menos curiosas nos menos felizes – desde que esbarrei com seu livro de estréia em Londres há quinze anos e decidi comprá-lo com base apenas no título excelente, The quantity theory of insanity (“A teoria quantitativa da insanidade”). Ainda é meu Self preferido, mas permanece inédito no Brasil, onde sua literatura, na verdade, nunca pegou. A Geração Editorial tentou por algum tempo e agora é a vez da Objetiva/Alfaguara, que pôs nas prateleiras os romances “Grandes símios” e “Como vivem os mortos”. O recente The Book of Dave é o próximo da fila, mas, como vem ocorrendo também em outros países, ainda não encontrou um tradutor suficientemente masô para enfrentar o desafio de recriar a língua futurista inventada pelo autor. Consta que o tradutor francês desistiu depois de um colapso nervoso.
A conferir: será que o misto de hilaridade e ódio despertado por Will Self na Flip vai finalmente inscrevê-lo na agenda dos leitores brasileiros ou será, pelo contrário, seu beijo da morte?
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Peguei o bonde andando, pois é – tanto que não me senti à vontade para sair disparando posts em cima do laço. E não podia ter embarcado numa região mais distante do anarquismo niilista de Self. Para mim, a Flip começou com a mesa em que a sul-africana Nadine Gordimer, que já ganhou o Prêmio Nobel, e o israelense Amós Oz, que se houver um pingo de justiça neste mundo ainda o ganhará, mostraram um entrosamento digno de Pelé e Coutinho para protagonizar a mesa que foi considerada por quase todo mundo a melhor, a mais densa, a mais emocionante e a mais “literária” desta Flip. Dentro do pouco que vi, concordo.
Oz leu um trecho de suas memórias, falando do dilema enfrentado por sua família numa Jerusalém ainda ocupada pelos britânicos, no início dos anos 40, entre comprar queijo dos colonos judeus ou de seus vizinhos árabes – dúvida insolúvel em que um argumento a favor de um lado sempre engendrava um contra-argumento igualmente válido, ad infinitum, como num quarto de espelhos. Foi um espanto. Esse pequeno texto de humor político é nada menos que uma peça de gênio. O conflito israelense-palestino cresceu exponencialmente desde a infância do autor, mas de alguma forma já estava tudo ali, em embrião, no prosaico dilema do queijo.
“Durante muitos anos eu achei que tragédia e comédia fossem dois planetas distantes”, disse Oz. “Hoje eu sei que são duas janelas através das quais se descortina a mesma paisagem.”
Saí da Tenda dos Autores feliz, reconciliado – momentaneamente pelo menos – com a idéia de que a ficção ainda pode, sim, ter o peso cultural e a relevância histórica que tinha no tempo de Tolstói. E intrigado com o fato de ainda haver quem descarte a Flip como um passatempo de socialites e deslumbrados, traição mercantilista ao verdadeiro espírito da literatura. Como se fosse o queijo do vizinho numa terra dividida.
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Antes de Nadine e Oz, o mexicano Guillermo Arriaga, que só vi de passagem no telão da Tenda da Matriz, parece ter se sagrado o campeão de suspiros femininos da festa. O que é estranho. O roteirista do abominável “Babel” me pareceu muito menos espontâneo e desarmado do que seu companheiro de mesa, o americano Dennis Lehane. Enfileirou uma série claramente ensaiada de frases de efeito (sobre a mulher menstruada carregar dentro de si o paradoxo da vida e da morte, além de outras bobagens “sensíveis”). Mais tarde, conversando com Marçal Aquino, o mediador do encontro, ouvi dele uma tese respeitável sobre o sucesso de Arriaga com as moçoilas: “Hoje em dia basta o menor sopro de virilidade para o cara se destacar”.
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No sábado, a psicanalista Maria Rita Kehl passou o tempo todo tentando deitar no divã o romance de amor “O passado”. Felizmente, seu autor, o articuladíssimo argentino Alan Pauls, soube manter a conversa nos trilhos da literatura. A vontade de ler o catatau de 500 páginas lançado pela Cosac Naify – que vem sendo elogiado por todo mundo que o atravessa – ganhou ainda o impulso do belo e climático trailer do filme inédito de Hector Babenco baseado na obra, que foi exibido antes da mesa.
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Nessa minha passagem abreviada por Parati, me despedi das mesas no sábado à noite e em grande estilo: vendo e ouvindo o sul-africano/australiano J.M. Coetzee – que, aprendi lá, pronuncia-se Coutsía, vê se pode – ler longos trechos de seu próximo livro, Diary of a bad year. Numa nota aí embaixo, chamada “O melhor da Flip – de graça”, eu tinha sugerido que a antecipação de um excerto do mesmo livro pela “New York Review of Books” tirava parte da graça daquilo que o Nobel de 2003 apresentaria em Parati. Estava enganado.
Sim, houve quem saísse irritado com o formato da apresentação, inédito na história da Flip: sozinho no palco, em pé diante de uma tribuna de madeira escura e vestido como um agente funerário, Coetzee limitou-se a falar durante um ou dois minutos do livro, nada além do suficiente para contextualizar aquilo que leria em seguida – em sua maior parte, trechos diferentes e melhores do que os antecipados pela “NYRB”. Terminada a leitura, virou as costas e deixou o palco. Nenhuma pergunta, nenhuma resposta. Nenhum sorriso.
Quem considerou aquilo um insulto à honra pátria, quase uma versão literária do “Welcome to the Congo” daquele idiota americano – sim, houve gente nesse caso –, deixou de levar em conta algumas coisas a meu ver fundamentais. Primeiro: fora anunciado exaustivamente que a apresentação seria assim. Segundo: o formato que para nós parece o cúmulo da antipatia tem tradição em países de língua inglesa; quem se lembra da cena de “Capote” em que um Truman de terno preto – como o de Coetzee, aliás – lê seu ainda inédito “A sangue frio” de cabo a rabo num teatro? E terceiro: que importância teria saber se Coetzee costuma escrever antes ou depois de escovar os dentes de manhã, se usa esferográfica, Olivetti ou computador, de onde “tira suas idéias” ou qualquer dessas bobagens flipescas – que relevância teria isso diante da prosa de acachapante qualidade que ele apresentou com dicção perfeita e uma sobriedade sob medida, que apenas quem não conhece a contenção de suas frases, provavelmente as mais secas e energéticas da literatura contemporânea, poderia confundir com falta de talento dramático?
Pela segunda noite consecutiva saí da Tenda dos Autores feliz, embora, dessa vez, bem mais apressado. Havia aproximadamente cento e setenta pessoas por metro quadrado em Parati no sábado, o que agravava o drama dos restaurantes permanentemente lotados a tal ponto que jantar depois da meia-noite já começava a parecer uma perspectiva razoável.
Felizmente, um casal de amigos tinha achado a apresentação de Coetzee uma chatice e saído no meio. Fazia algum tempo que estavam acomodados numa mesinha do belo restaurante tailandês da cidade, à qual, gentis, me cederam um canto. Se eles não tivessem implicado com Coetzee, eu, que almoçara muito mal, teria provavelmente desmaido de fome e rachado a cabeça naquele calçamento hostil antes que as filas terminassem de se dissipar.
Ainda bem que esse negócio de literatura é subjetivo às pampas.


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