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Arquivo da categoria Vida literária

26/03/2012

às 13:40 \ Pelo mundo, Vida literária

Tabucchi (1943-2012) e as garatujas na areia

Foto de Stelious Skopelitis (divulgação)

A vida não está em ordem alfabética como há quem julgue. Surge… ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são migalhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cume e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, achata-se e resta-lhe apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e você continua insistentemente no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado… até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, você deixou na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começa a desconfiar de que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.

E que belas garatujas! O trecho acima é de “Tristano morre” (Rocco, tradução de Gaetan Martins de Oliveira), romance em forma de monólogo de um moribundo que o escritor italiano Antonio Tabucchi (foto) lançou em 2004.

Tabucchi morreu ontem, aos 68 anos, em Lisboa, capital do país que havia transformado em sua segunda pátria com paixão – tanta que não é descabido especular se sua morte representa uma perda maior para a cultura italiana ou para a portuguesa.

O autor de “Afirma Pereira” e “Noturno indiano” quase veio à Festa Literária Internacional de Paraty nos últimos dois anos. O primeiro cancelamento obedeceu a alegados problemas de saúde, mas o segundo foi um ato político, dimensão que Tabucchi nunca perdeu de vista em seu trabalho como escritor, professor e jornalista de oposição a Silvio Berlusconi: tratava-se de um protesto contra a proteção dada pelo governo brasileiro a Cesare Battisti, condenado por homicídio em seu país.

A causa era nobre, mas é uma pena termos perdido a última chance de ver e ouvir o maior aliado da língua portuguesa nascido em um país não lusófono. Em sua pequena e tocante novela “Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, o poeta português que era o grande ídolo literário de Tabucchi adia a morte, dizendo: “Sempre há tempo”.

Quando não há mais, restam as garatujas.

23/03/2012

às 11:28 \ Interatividade, Vida literária

Escritor brasileiro bom é escritor brasileiro morto

Interessante com certeza, preocupante talvez: a enquete sobre o mais inesquecível personagem da literatura brasileira, que lancei aqui na quarta-feira, ainda está em andamento, mas com mais de oitocentos votos já permite traçar um padrão claro. Quanto mais velho o livro, mais ele ressoa junto aos leitores.

Está certo que temos no século 19 um monstro chamado Machado de Assis (foto). Está certo também que o recuo no passado costuma ser um dos requisitos para a incorporação de uma obra literária ao cânone. No entanto, nada disso permitiria prever uma curva quase inteiramente linear: começando por Capitu e Brás Cubas, os líderes da corrida, e passando por Emília, Macunaíma, Capitão Rodrigo, Diadorim, Gabriela, a votação dos personagens vai minguando à medida que os livros em que eles surgiram se aproximam do presente.

A tendência é tão forte que passa por cima até de algo que, à primeira vista, poderia parecer decisivo para a popularidade de personagens literários: o fato de terem ou não transcendido as páginas para ganhar adaptações de sucesso no cinema ou na TV. Emília e Gabriela são figurinhas manjadas na cultura audiovisual das últimas décadas, mas isso não foi suficiente para movê-las dos lugares que a linha do tempo lhes reservou.

Nesse esquema em que o passado aparece como o grande curral (e)leitoral, os pontos situados dramaticamente fora da curva, como dizem os estatísticos, são apenas dois: o Leonardo de “Memórias de um sargento de milícias”, o mais antigo e um dos menos votados, e o Eduardo Marciano de “O encontro marcado”, que pela idade deveria aparecer dando suas braçadas perto de Diadorim, mas amarga uma lanterninha absoluta. Num universo de onze personagens, acredito que esses desvios possam ser tratados como exceções que confirmam a regra. Inversões como as que ocorrem entre Capitu e Brás Cubas e entre Macabéa e o André de “Lavoura arcaica”, livros cronologicamente próximos, são desprezíveis.

O que está por trás de tal tendência é matéria de especulação. Se ela não for um sintoma da lenta e inexorável decadência artística de nossas letras, pode ser de sua perda progressiva de peso sociocultural à medida que o século 20 avança – um fenômeno que não é só brasileiro. Mas talvez, numa perspectiva otimista, tudo não passe de uma decantação natural, saudável, em que as pedras que foram atiradas primeiro no lago tiveram mais tempo de chegar às profundezas.

Seja como for, me veio à cabeça uma frase de Jorge Luis Borges: “Clássico é aquele livro que uma nação, ou um grupo de nações, ou o longo tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmo e passível de interpretações sem fim”. Está certo que o tempo é um dos elementos dessa equação, mas o que nela mais chama minha atenção é outra coisa: a decisão de ler uma obra como clássico faz o clássico, ou seja, não haverá magia se a plateia não estiver predisposta a acreditar no mágico.

E a esta altura, vamos falar com franqueza, quem ainda está?

Atualização às 11h57: é claro que depois que publiquei o post, só para me contrariar, o Capitão Rodrigo empatou com Macunaíma e Macabéa resolveu pela primeira vez ultrapassar Gabriela (!). Mas as linhas gerais continuam valendo.

16/03/2012

às 12:33 \ Mercado, Vida literária

Companhia das Letras anuncia reestruturação e outros links

Principal editora de literatura do país, a Companhia das Letras anunciou há pouco – neste texto assinado pelo editor Luiz Schwarz em sua coluna no blog da casa – a criação escalonada, entre o mês que vem e março de 2013, de quatro novos selos que tornarão a empresa um “grupo editorial”. Os novos selos terão autonomia, “como se fossem novas editoras”, e para eles serão desviados inclusive autores que hoje são publicados pela Companhia. Os selos são Paralela (ficção comercial), Boa Companhia (antologias temáticas), Seguinte (infanto-juvenil) e Portfolio Penguin (negócios).

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Não duvido que as fascinantes esculturas (como a da foto acima) do artista americano Brian Dettmer, que conheci no ótimo blog de Almir de Freitas, sejam a prova mais irrespondível de que, embora o mundo digital tenha muitos encantos, existem coisas que só um livro físico pode fazer por nós.

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Momento egopress: meu romance “Elza, a garota” (Nova Fronteira, 2009) vai virar filme, anuncia hoje em primeira mão no “Globo” o colunista Ancelmo Gois. Os direitos de adaptação foram adquiridos pelo diretor e produtor Dodô Brandão, autor de “Dedé Mamata”, uma ficção que tem pontos de contato com a temática de “Elza”, e do documentário “3 Antônios e 1 Jobim”. Também publicado em 2010 em Portugal pela editora Quetzal, o romance conta a versão romanceada de uma tragédia política real: Elza era o codinome de Elvira Cupello Calônio, jovem militante do PCB que, sob suspeita de traição, foi assassinada pelos próprios companheiros em 1936, na esteira do fiasco da Intentona. A decisão final da execução foi de Luiz Carlos Prestes.

12/03/2012

às 15:57 \ Pelo mundo, Vida literária

Combinado: depois das baleias, a gente salva o Updike!

O ensaio do crítico americano Lee Siegel no décimo número da revista “serrote”, chamado John Updike ou A desimportância de ser sério, tem duas partes instigantes que, no entanto, não se encaixam muito bem. Ambas – e sua (des)conexão – vão comentadas abaixo.

Na primeira parte Siegel defende John Updike (foto, 1932-2009) do que considera uma campanha sórdida – nem tão nova, mas acelerada à medida que sua vida se aproximava do fim – para desmoralizar um dos grandes escritores americanos da segunda metade do século 20. Os maiores inimigos de Updike seriam, pela ordem, o crítico James Wood e o escritor David Foster Wallace, mas o complô acabaria envolvendo Harold Bloom e a própria revista “New Yorker” em que Updike se consagrou – e que mesmo involuntariamente, nothing personal, teria aplicado no criador de Coelho Angstrom um golpe duro ao contratar Wood.

O ensaísta é galhardo e até valente em sua defesa crítica de um escritor de inegáveis méritos, prolífico e generoso, que de alguma forma tornou-se uncool e anda necessitado de defesa em seu país. Deixa a sensação de que poderia ter feito um trabalho melhor em demonstrar por que Updike é importante, como eu acredito que seja mesmo. No entanto, tem o mérito pouco comum de tentar falar em tempo real desses movimentos mais ou menos surdos de construção e demolição de reputações que movimentam a máquina das letras através dos séculos – movimentos que obedecem a fatores não apenas literários e que, como se sabe, são sujeitos a ciclos, abalos sísmicos, reviravoltas. A meu ver, faltou falar também do provável preço que Updike pagou por ter se dedicado décadas a fio à tarefa de, como resenhista profissional, avaliar a produção dos colegas. Mas a disposição de defender o cara é simpática, justa e dialeticamente necessária.

A segunda parte do ensaio de Lee Siegel liga-se frouxamente à primeira por uma adversativa formalista: Updike pode recuperar seu prestígio um dia, mas a própria literatura não terá a mesma sorte. Trata-se de um ataque ao estatuto da ficção literária no quadro da cultura ocidental (leia-se americana) contemporânea. Aqui estamos próximos do clichê “o romance está morto”, que Siegel apregoou com alarde há quase dois anos – motivo pelo qual foi zoado na época aqui no blog, num Sobrescrito que lhe dediquei. Desta vez, porém, sem lançar mão do slogan desgastado, o crítico desenha de forma ampla e razoavelmente convincente o cenário em que, segundo acredita, a literatura de ficção artisticamente ambiciosa vai perdendo substância, profissionalizada, autocentrada, cada vez mais marginalizada pelo Zeitgeist – algo, de resto, não muito fácil de negar. É interessante o uso com sinal trocado que Siegel faz do caso do elogiadérrimo “Liberdade”, de Jonathan Franzen:

O romance de Franzen foi esquecido em umas duas semanas. No entanto, as pessoas ainda estão falando sobre filmes como “Avatar”, “Guerra ao terror” e “A lula e a baleia”. A arrebatada atenção crítica que o romance de Franzen recebeu foi quase heroica. Uma tentativa autocriada e autossustentada de tornar de novo o romance algo tão culturalmente relevante quanto um filme. Teve o triste efeito de provar o definhamento de sua relevância.

Aqui, mais uma vez, o ensaísta deixa na cabeça do leitor perguntas que não responde. Principalmente esta: o fato de que “as pessoas ainda estão falando” de “Avatar”, mesmo que seja verdadeiro, basta para tornar o filme de James Cameron “mais relevante” que o livro de Franzen? Que critério é esse que obrigaria o crítico a declarar, por exemplo, a viúva Porcina um personagem mais relevante que Diadorim?

E para finalizar – sim, é verdade que Siegel tenta amarrar as duas metades com uma tese exposta de saída, na primeira frase do ensaio: “Quando a seriedade se torna um estilo autoconsciente, formulado como uma receita… está aberta a temporada de caça à coisa autêntica”. A coisa autêntica seria Updike, claro, e a seriedade literária como receita é um juízo desfavorável sobre o ambiente das letras atuais. Não cola muito. Uma coisa é defender o ficcionista americano, outra é tentar fazer dele o grande mártir da batalha em que a literatura foi expulsa do paraíso. Com um pouquinho de má vontade (não muita), a segunda parte do ensaio pode até ser lida como um boicote à primeira.

09/03/2012

às 12:49 \ Mercado, Pelo mundo, Vida literária

Trailer de livro é um ‘conceito ridículo’: prova número 1

O Pop Literário de Sexta não viveria sem eles, mas trailers de livros partem, segundo uma boa tirada de Drew Grant na Salon, de “um conceito razoavelmente ridículo: tentar vender literatura para pessoas que prefeririam esperar pela adaptação cinematográfica”. Seja como for, o gênero está em ascensão (transparência total: eu mesmo já cometi um e dificilmente escaparei de outros) e tem até seu próprio prêmio no âmbito da anglofonia, o Moby Awards, que destaca os melhores e os piores exemplares do mercado no período de um ano.

Nem sempre é fácil distinguir uns dos outros.

Grande vencedor (sem ironia) do Moby 2011, o vídeo acima ilustra bem a observação de Grant sobre o ridículo do conceito. Feito para promover o último romance de Gary Shteyngart, já lançado no Brasil com o título “Uma história de amor real e supertriste” (Rocco, tradução de Antônio E. de Moura Filho, R$ 49,50), o trailer é quase uma superprodução. Tem participações especiais de colegas do autor – especialmente Jeffrey Eugenides, Edmund White e Jay McInerney – e até do astro hollywoodiano James Franco.

Tudo para levar à estratosfera aquele manjado mandamento, “ria de si mesmo antes que os outros o façam”, caro a todo intelectual de nariz em pé que sonha em ser abraçado pelas multidões. Shteyngart, um escritor sério, capricha no papel de palhaço. A coisa é engraçada às vezes, constrangedora na maior parte do tempo, e no fim deixa no ar um miasma de desespero vendedor.

Em mais uma volta do parafuso, Jonathan Franzen levou o Moby 2011 de Pior Desempenho de um Escritor por começar seu monótono vídeo promocional de “Liberdade” alardeando o desconforto de ter que fazer vídeos promocionais.

05/03/2012

às 12:54 \ Vida literária

Literatura e ‘carreira’: marketing e sorte não surgiram ontem


As oficinas literárias costumam ser responsabilizadas pela crescente padronização e achatamento da narrativa contemporânea. Isso é injusto. É a ansiedade dos escritores temerosos de serem excluídos de sua carreira de eleição, ao lado da crença compartilhada de que nós sabemos o que é a literatura e como produzi-la, que encoraja as pessoas a escrever livros semelhantes.

Não, o trecho acima não é de Saul Bellow (foto), que só será invocado algumas linhas abaixo: foi extraído deste artigo (em inglês), publicado por Tim Parks no blog do The New York Review of Books. O texto vem provocando boas conversas na blogosfera literária ao atacar, em busca de uma visão ampla, diversos aspectos polêmicos de um certo estado da literatura hoje – um balaio em que se engalfinham aspirantes e escritores “profissionais” em número inédito, cada um com seu agente e seu perfil no Facebook, todos fazendo mais ou menos a mesma coisa, segundo a avaliação pessimista do autor:

Na verdade, ninguém está esperando nada muito novo. Apenas novas versões do velho. Muitas vezes, ao ler livros para resenhá-los ou talvez como jurado de um prêmio, esbarro em romances caprichados que “fazem literatura” como ela é conhecida. A literatura de ficção tornou-se um gênero como qualquer outro, com uma certa trajetória, uma recompensa previsível e um corpo razoavelmente limitado e já bastante mapeado de sabedoria ocidental para suprir.

Qualquer um que leia a produção contemporânea com olhos críticos e livres terá dificuldade em negar um fundo de verdade a essas observações. No entanto, sempre que vejo alguém lamentar um desses processos de decadência – não só literária como espiritual, alimentar, emocional, educacional, esportiva, urbanística etc. – que vieram dar em nosso presente supostamente esvaziado e triste, eu me lembro de Moses Herzog, o genial personagem de Bellow, dizendo que todas essas ideias de “queda em desgraça” lhe pareciam cristãs. Herzog podia ser meio desequilibrado, mas seu comentário deixa Parks com um halo ingênuo de coroinha ao fazer afirmações como estas:

A conquista final do escritor de carreira, após uma vida inteira de festivais literários, prêmios, leituras públicas, seminários, títulos honorários, palestras e, claro, livros escritos, é – ou deveria ser – a de se colocar no “cânone”. No entanto, na cultura editorial que temos hoje, qualquer ideia de que um lento processo de peneiramento produzirá um cânone crível como aqueles que herdamos do passado longínquo é um disparate. O que quer que, no futuro, passe por um cânone da atualidade será em grande parte resultado de bom marketing, autopromoção e, naturalmente, sorte pura.

Não se trata de negar que o momento atual apresente novos desafios, com novas incógnitas no horizonte, mas acreditar que até ontem todos os escritores perseguiam a originalidade a qualquer preço e a “peneira” do cânone era um processo de justiça inatacável, inteiramente isento de marketing e sorte – isso também é um disparate.

02/03/2012

às 11:25 \ Pelo mundo, Vida literária

Houaiss, Shakespeare e outros crimes

Envergonhado com a ação do procurador de Uberlândia contra o dicionário Houaiss, por suposto crime de racismo numa das acepções do verbete “cigano” (verbete que, por via das dúvidas, já foi tirado do ar na versão online do dicionário, tornando o caso ainda mais deprimente)? Console-se pensando no estado americano do Arizona, onde uma campanha de extremistas de direita do Tea Party contra os “estudos étnicos” na rede educacional acaba de botar na lista negra, entre outros autores, um tal de William Shakespeare.

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O escritor Michel Laub esqueceu a reverência no banco do táxi, pegou a crônica A um jovem, de Carlos Drummond de Andrade – publicada no livro “A bolsa & a vida”, de 1962 – e editou os 31 conselhos literários que o poeta dá a um certo Alípio para transformá-los num decalogozinho mais ao gosto da era digital. O resultado contém alguns toques de atualidade perfurocortante:

Se sentir propensão para o ‘gang’ literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.

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Jonathan Franzen está sendo – de novo – bombardeado por acusações
de misoginia, desta vez devido às observações no mínimo deselegantes que enfiou num ensaio sobre Edith Wharton para a “New Yorker”.

*

Quem a esta altura ainda não viu a surpreendente aula-espetáculo (abaixo) dada por Rubem Fonseca – escritor famoso por ser um recluso, mas só para consumo doméstico – no evento literário português Correntes d’Escritas, em Póvoa de Varzim? O vídeo divide opiniões. Há quem torça para o autor de “Feliz ano novo” estender ao território nacional aquele humor performático de professor de cursinho, em consideração aos nativos que o consagraram. Outros adorariam vê-lo de volta à velha reclusão, desta vez para não sair mais.

20/02/2012

às 16:19 \ Vida literária

Se conselho fosse bom…

Gosto dessa lista de conselhos literários de Henry Miller (1891-1980), que encontrei pela primeira vez duas décadas atrás e nunca esqueci por completo, embora só tenha voltado a esbarrar nela há poucos dias, por acaso, num corredor do hipermercado internético. “Esqueça os livros que quer escrever. Pense apenas no que está escrevendo” é um bom toque, não é? Coisa de quem já esteve no coração desse torvelinho e conseguiu sair de lá com um livro decente.

Gosto de Henry Miller. Tive naquele tempo uma fase de encantamento com a trilogia “Sexus”, “Plexus” e “Nexus”, memória que prezo com devoção suficiente para preferir não revisitar seus escritos. Cada coisa tem seu tempo no mundo da leitura, e acho que há sabedoria em reconhecer e respeitar isso. O fato é que, envelhecendo bem ou não, Miller é um escritor de verdade e sua listinha de conselhos, algo que pode trazer benefícios de verdade a quem vem depois. O que é bem mais do que se pode dizer da maior parte dos exemplares do gênero.

Listas de conselhos literários andam na moda. Mais até do que isso: listas de conselhos literários andam hiperinflacionadas. Tanto que este site resolveu fazer uma antilista (em inglês) de “dez péssimos conselhos literários” que, se também não deve ser seguida à risca, funciona bastante bem como antídoto ao festival de besteiras que assola a internet. O principal argumento aqui, irrespondível, é o seguinte: não existe procedimento ou truque que funcione para todo mundo em todos os momentos.

Também ajuda o fato de saber se o autor da lista tem realmente algo a ensinar. É um golpe baixo do filistinismo menosprezar críticas com o argumento de que o crítico não sabe fazer o que critica, pelo simples fato de que se trata de dois saberes diferentes. No entanto, esse álibi, por razões óbvias, não protege o autor de conselhos literários. Quem quer ensinar a escrever romances, contos ou poemas sem jamais ter escrito um romance, conto ou poema digno de nota deve ser solenemente ignorado. Não é o caso de Henry Miller.

Contudo, a principal vantagem de sua lista me parece ser outra: o autor de “Trópico de Capricórnio” a elaborou para uso próprio, não para fazer a cabeça de ninguém. Há algo de profundamente verdadeiro nisso. Eis o conselho dos conselhos, aquele que, por ser o mais pertinente e sincero, ninguém dá a quem se arrisca a criar arte com palavras: se vire, cara, e depois não venha choramingar; você está absolutamente sozinho.

17/02/2012

às 13:10 \ Vida literária

Pop de sexta: os cartuns literários de Reinaldo

O humorista Reinaldo, mais conhecido por seu trabalho no grupo Casseta & Planeta, já era cartunista muito antes de sua encarnação televisiva. São de seu livro “Noites de autógrafos” (Desiderata, 2010) os cartuns literários – uma ilustre tradição da “New Yorker” – que, em clima mais escrachado que o dominante na revista da Condé Nast, fazem deste Pop de Sexta um abre-alas do carnaval. Evoé!


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25/01/2012

às 13:14 \ Vida literária

Erico no IMS, McCarthy no Twitter, Franzen na TV

Amanhã à noite terei uma conversa íntimo-pública com Luis Fernando Verissimo sobre “Incidente em Antares”, o último romance do pai dele, diante de uma plateia de bolso no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Lançado em 1971, o divertido livro em que Erico Verissimo (foto) cutucava a ditadura no auge da repressão e flertava com o “realismo mágico” latino-americano pela via do humor rasgado – além de passar bem perto de antecipar a moda moderninha dos zumbis – já tem um pouco mais de quatro décadas, mas a comemoração do aniversário atrasou.

Fiquei tão honrado quanto surpreso ao ser convidado para o evento por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que detém o acervo do maior nome da literatura gaúcha. Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos?

Pois é, ela não sabia. O que me deixa com a sensação – nada desagradável, devo reconhecer – de ter feito algumas escolhas certas na vida. Não é só numa cidade fictícia com nome de estrela às margens do rio Uruguai que os mortos podem cruzar nosso caminho.

*

Como assim? O recluso Cormac McCarthy aderiu ao Twitter? Era alarme falso, mas Margaret Atwood, tuiteira emérita, acreditou. No blog de livros do “Guardian”, Alison Flood lançou um apelo: “Permaneçam reclusos, ó ícones da literatura americana, eu imploro!”.

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Com a produção de uma série baseada em “As correções”, que terá roteiros escritos pelo próprio Jonathan Franzen, e a aquisição dos direitos de adaptação de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, a HBO entra com tudo no terreno – até aqui esnobado pela televisão – da literatura contemporânea “séria”. Boa notícia, certo? No “The Millions”, A-J Aronstein não está tão certo disso e (em inglês) especula que…

…devemos refletir sobre as implicações de sugerir [como teria feito, segundo ele, um empolgado Franzen] que as capacidades estéticas da televisão podem complementar ou mesmo suplantar as dos romances. Uma vez na vida, não perguntemos se “o romance vai sobreviver”, e sim o que significa o fato de seu futuro depender da relação com a TV – e se essa relação será produtiva a longo prazo.

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Em sua coluna de ontem no “Globo”, Pedro Doria saudou a chegada do “gratuito e trivial” iBook Author, software da Apple dedicado à edição de livros eletrônicos para iPad, no qual é simples como jamais foi acrescentar ao texto fotos, vídeos, recursos interativos etc.:

A notícia não é necessariamente boa para editoras. O filho do vizinho pode compor o livro eletrônico e submetê-lo para venda na loja da Apple sem que nenhum editor o veja. Passa por cima do intermediário. Taí um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido. Mas para fotógrafos com vontade de experimentar, designers com projetos dentro da gaveta e autores de livros infantis, a porta se abre repentinamente.

Não duvido que fotógrafos, designers e autores de literatura infantil façam a festa. Mas confesso que estarei mais atento ao que farão com a ferramenta autores de ficção literária adulta. Será o iBook Author a peça que faltava para que finalmente se ponha em curso aquela revolução pregada há alguns anos pelos entusiastas do meio eletrônico – a da explosão da arte narrativa num admirável mundo tridimensional de sons, imagens, interatividade e, bem, até mesmo palavras?

Vamos ver. Meu palpite é que, se a coisa não andar agora, não anda mais.


 

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