Tabucchi (1943-2012) e as garatujas na areia
A vida não está em ordem alfabética como há quem julgue. Surge… ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são migalhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cume e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, achata-se e resta-lhe apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e você continua insistentemente no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado… até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, você deixou na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começa a desconfiar de que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.
E que belas garatujas! O trecho acima é de “Tristano morre” (Rocco, tradução de Gaetan Martins de Oliveira), romance em forma de monólogo de um moribundo que o escritor italiano Antonio Tabucchi (foto) lançou em 2004.
Tabucchi morreu ontem, aos 68 anos, em Lisboa, capital do país que havia transformado em sua segunda pátria com paixão – tanta que não é descabido especular se sua morte representa uma perda maior para a cultura italiana ou para a portuguesa.
O autor de “Afirma Pereira” e “Noturno indiano” quase veio à Festa Literária Internacional de Paraty nos últimos dois anos. O primeiro cancelamento obedeceu a alegados problemas de saúde, mas o segundo foi um ato político, dimensão que Tabucchi nunca perdeu de vista em seu trabalho como escritor, professor e jornalista de oposição a Silvio Berlusconi: tratava-se de um protesto contra a proteção dada pelo governo brasileiro a Cesare Battisti, condenado por homicídio em seu país.
A causa era nobre, mas é uma pena termos perdido a última chance de ver e ouvir o maior aliado da língua portuguesa nascido em um país não lusófono. Em sua pequena e tocante novela “Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, o poeta português que era o grande ídolo literário de Tabucchi adia a morte, dizendo: “Sempre há tempo”.
Quando não há mais, restam as garatujas.












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