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Arquivo da categoria Vida literária

25/01/2012

às 13:14 \ Vida literária

Erico no IMS, McCarthy no Twitter, Franzen na TV

Amanhã à noite terei uma conversa íntimo-pública com Luis Fernando Verissimo sobre “Incidente em Antares”, o último romance do pai dele, diante de uma plateia de bolso no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Lançado em 1971, o divertido livro em que Erico Verissimo (foto) cutucava a ditadura no auge da repressão e flertava com o “realismo mágico” latino-americano pela via do humor rasgado – além de passar bem perto de antecipar a moda moderninha dos zumbis – já tem um pouco mais de quatro décadas, mas a comemoração do aniversário atrasou.

Fiquei tão honrado quanto surpreso ao ser convidado para o evento por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que detém o acervo do maior nome da literatura gaúcha. Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos?

Pois é, ela não sabia. O que me deixa com a sensação – nada desagradável, devo reconhecer – de ter feito algumas escolhas certas na vida. Não é só numa cidade fictícia com nome de estrela às margens do rio Uruguai que os mortos podem cruzar nosso caminho.

*

Como assim? O recluso Cormac McCarthy aderiu ao Twitter? Era alarme falso, mas Margaret Atwood, tuiteira emérita, acreditou. No blog de livros do “Guardian”, Alison Flood lançou um apelo: “Permaneçam reclusos, ó ícones da literatura americana, eu imploro!”.

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Com a produção de uma série baseada em “As correções”, que terá roteiros escritos pelo próprio Jonathan Franzen, e a aquisição dos direitos de adaptação de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, a HBO entra com tudo no terreno – até aqui esnobado pela televisão – da literatura contemporânea “séria”. Boa notícia, certo? No “The Millions”, A-J Aronstein não está tão certo disso e (em inglês) especula que…

…devemos refletir sobre as implicações de sugerir [como teria feito, segundo ele, um empolgado Franzen] que as capacidades estéticas da televisão podem complementar ou mesmo suplantar as dos romances. Uma vez na vida, não perguntemos se “o romance vai sobreviver”, e sim o que significa o fato de seu futuro depender da relação com a TV – e se essa relação será produtiva a longo prazo.

*

Em sua coluna de ontem no “Globo”, Pedro Doria saudou a chegada do “gratuito e trivial” iBook Author, software da Apple dedicado à edição de livros eletrônicos para iPad, no qual é simples como jamais foi acrescentar ao texto fotos, vídeos, recursos interativos etc.:

A notícia não é necessariamente boa para editoras. O filho do vizinho pode compor o livro eletrônico e submetê-lo para venda na loja da Apple sem que nenhum editor o veja. Passa por cima do intermediário. Taí um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido. Mas para fotógrafos com vontade de experimentar, designers com projetos dentro da gaveta e autores de livros infantis, a porta se abre repentinamente.

Não duvido que fotógrafos, designers e autores de literatura infantil façam a festa. Mas confesso que estarei mais atento ao que farão com a ferramenta autores de ficção literária adulta. Será o iBook Author a peça que faltava para que finalmente se ponha em curso aquela revolução pregada há alguns anos pelos entusiastas do meio eletrônico – a da explosão da arte narrativa num admirável mundo tridimensional de sons, imagens, interatividade e, bem, até mesmo palavras?

Vamos ver. Meu palpite é que, se a coisa não andar agora, não anda mais.

02/01/2012

às 17:01 \ Vida literária

Machado em hipertexto

Que tal abrir o ano com uma boa notícia? Então lá vai: com a entrada no ar da edição em hipertexto de “Memorial de Aires”, o último romance de Machado de Assis, no site machadodeassis.net, a Casa de Rui Barbosa cumpre a promessa de disponibilizar nesse formato toda a obra romanesca do maior escritor brasileiro.

O espírito didático das notas, que se abrem em caixinhas na tela quando se passa o cursor sobre uma palavra marcada, é explícito: a ambição declarada é fornecer “explicações sobre todas as citações e alusões do texto: tanto as de natureza simbólica (autores, obras de arte, personagens, fatos históricos referidos por Machado de Assis), como as menções a lugares e instituições não-ficcionais (bairros e ruas da cidade do Rio de Janeiro, lojas, teatros, cafés que as personagens machadianas frequentam)”.

É possível que, não sendo um marciano recém-desembarcado neste planeta, o leitor estranhe entradas como esta, logo a primeira do “Memorial”, que começa com a seguinte frase: “Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa“:

A Europa é um dos cinco continentes da Terra, onde, desde a Antiguidade Clássica, até o século XIX, a civilização ocidental alcançou o maior desenvolvimento. Para os países colonizados por nações europeias, esse continente sempre representou o modelo e o ideal a ser alcançado em termos culturais, políticos e econômicos.

No entanto, quando, duas linhas depois, Aires refere-se ao “meu Catete”, mesmo um conhecedor da história do Rio de Janeiro pode encontrar utilidade numa nota como esta:

O bairro do Catete fica na zona Sul do Rio de Janeiro, confinando com Glória, Flamengo e Santa Teresa. Sua principal rua é a do Catete, que corre mais ou menos paralela à praia do Flamengo. A partir do século XVIII, surgiram diversas chácaras ao longo do caminho, que passaria a se chamar estrada do Catete. Nela situava-se o palácio do barão de Nova Friburgo, que, depois da Proclamação da República, passou a ser a sede do governo federal e moradia dos presidentes da República, até a mudança da capital para Brasília, em 1961.

Apresentação gráfica e recursos de navegação podem ser aprimorados, mas, em termos de conteúdo, o projeto coordenado pela pesquisadora Marta de Senna, com apoio do CNPq e da Faperj, é sério e cuidadoso. Em sua próxima etapa, promete dar o mesmo tratamento aos contos de Machado.

23/12/2011

às 12:37 \ Vida literária

Pop de sexta: biblioárvore de Natal

Encontrei aqui. Há muito tempo não via uma tão bonita. Feliz Natal e um 2012 de ótimas leituras, são os votos do Todoprosa.

19/12/2011

às 14:33 \ Vida literária

Um Vargas Llosa panorâmico e coloquial

O recém-lançado “Conversas com Vargas Llosa – Antes e depois do Nobel” (Panda Books, 232 páginas), de meu vizinho de blog Ricardo Setti, é um livro que tem a ambição de, sem perder o tom de bate-papo, dar conta de tudo que diga respeito ao mundo do entrevistado – vida literária, política, politicagem, sexo, visão de mundo, rotina de trabalho. A meta é atingida com folga. Admirador e conhecedor da obra de Vargas Llosa, Setti, jornalista do primeiro time, se vale dessa condição para deixar o entrevistado à vontade, mas não permite que ela lhe exclua da pauta nenhuma pergunta embaraçosa. Nem mesmo sobre a famosa briga com o ex-amigo Gabriel García Márquez – o único tema que leva Vargas Llosa a desconversar. Ampliação de um volume lançado em 1986 pela Brasiliense, com a inclusão de conversas que os dois tiveram no fim do ano passado, o livro traz uma visão panorâmica da cabeça do escritor peruano e é cheio de passagens preciosas para quem escreve ou gostaria de escrever – como na amostra abaixo:

Como começa um livro?

– Bem, primeiro de tudo é um ‘fantaseo’, uma espécie de especulação em torno de certo personagem ou certa situação, algo que simplesmente ocorre na mente. E depois começo a tomar notas, faço fichas, trajetórias anedóticas – um personagem começa aqui, termina ali, faz isso. Esse outro personagem começa aqui, acaba ali – enfim, elaboro essas pequenas trajetórias. E, quando já vou começar a trabalhar num livro, faço primeiro um esquema geral da história – que nunca respeito, que depois mudo completamente, mas que me serve para começar a operar. Depois começo a redigir, e redijo bem depressa, sem parar, sem nenhuma preocupação com estilo, repetindo episódios, narrando situações contraditórias…

Para que tudo já passe de uma vez ao papel, não?

– Sim, porque esse material bruto me serve, me dá segurança. É a parte do trabalho que me custa mais. Trabalho sempre com muita insegurança, não estou nunca certo quanto aos resultados quando estou fazendo isso. Essa primeira versão é muito angustiante para mim. Agora, uma vez terminado esse rascunho – que às vezes me toma muito tempo, como ocorreu com ‘A guerra do fim do mundo’, em que gastei dois anos nessa fase –, então é muito diferente. Já tenho, então, a segurança de que a história está ali, imersa, submergida nesse ‘magma’ – é como o chamo, já lhe mencionei isso. Ou seja, uma espécie de caos em que implicitamente está contido o romance, mas como que escondido debaixo de uma grande pilha de folhas secas, de episódios completamente adventícios que vão desaparecer, muitas vezes episódios repetidos de diferentes perspectivas, por meio de diferentes personagens. É algo muito caótico que apenas para mim faz sentido. A história, contudo, está ali. É necessário buscá-la, limpá-la, e é a parte do trabalho que para mim é mais agradável.

Por quê?

– Já posso trabalhar muito mais tempo, não trabalho com tanta angústia e tensão, como ocorre quando estou no rascunho. A mim agrada não tanto escrever, mas reescrever, cortar, editar, corrigir. Essa é a parte realmente mais criativa do trabalho.

12/12/2011

às 17:21 \ Vida literária

O curioso caso de Pereira, crítico baiano 2.0

O caso que vou contar é pessoal. É também ilustrativo de algo que talvez mereça ser ilustrado, além de ter aspectos cômicos. O que me leva a contá-lo, contrariando minha cláusula de baixa autoexposição, é acreditar que a história traz algo de revelador sobre a famigerada “literatura brasileira na era da internet”. Esta, como se sabe, vive um presente meio nebuloso em que o ambiente de recepção de livros se reorganiza, linhas de força mudam de lugar, redesenha-se a máquina de formar e destruir reputações. O velho equilíbrio de crítica acadêmica-imprensa tradicional, que há muito era responsável por esse servicinho, foi afetado, como tudo, por um novo meio.

Nesta história, um professor de literatura da Universidade Federal da Bahia chamado Antonio Marcos Pereira “solta os cachorros”, como disse alguém numa rede social, na resenha que escrevi aqui sobre o romance “Habitante irreal”, de Paulo Scott. A metáfora canina é branda. Trata-se de uma intervenção em tom espetacularmente barraqueiro. Pereira ficou muito aborrecido comigo pelo fato de eu ver qualidades elogiáveis no livro de Scott. Não precisou ler o livro, sequer folheá-lo. Julgou que era credencial suficiente para entrar na conversa o ódio – tantas vezes declarado em redes sociais – pelo escritor gaúcho, um antigo desafeto.

Até aí tudo normal, certo? A literatura sempre foi um ofidiário mesmo. O que torna essa história digna de contar é o modo como a ancestral vocação da bile negra que ronda o mundo das letras – como de resto o da arte em geral – se rearticula no ambiente web. Pereira não se dirigiu a mim, embora pudesse tê-lo feito pelo blog ou pelo Twitter. Talvez tenha achado que isso seria, digamos, honroso demais. Me usa como vocativo, “SR”, e contra essa sigla dispara, intrépido, ofensas e desafios, mas é tudo jogo de cena: sabe muito bem que não estou na plateia do seu show. Consta que este, o show, surgiu num grupo de email, entre compadres. Como fez sucesso, Pereira resolveu jogar no Facebook, depois publicar no Formspring e dar o link no Twitter, onde hoje por acaso eu soube da história, que rola há dias.

Esqueçam as velhas redações e os abafados corredores universitários, o circuito aqui é outro. Pereira é um “crítico” – pelo menos até que se encontre outra palavra para sua atuação – que vive nas redes sociais como um peixe na água, embora tire seu sustento do ensino público. Tenta compensar a produção acadêmica pouco expressiva com a dedicação ao espalhamento de opiniões em plagas diversas. Destaca-se no Orkut, onde criou e modera ativamente uma comunidade chamada “Prosa Contemporânea 2.0”.

Normalmente, o professor baiano seria alguém a cujas perguntas eu responderia. E até fico tentado a responder, mas, aí é que está, não devo responder. Em primeiro lugar, ele não teve a decência de falar comigo, apenas fingiu que falava comigo. Além disso, existe aquela regra passada de escritor a escritor há séculos: não bata boca com doidos agressivos trepados em caixotes, você não tem nada a ganhar, seus leitores tampouco. Só eles ganham, deixando momentaneamente a obscuridade. O diálogo fica impossível, de todo modo, depois que o sujeito do caixote rasga contratos tácitos de respeito e dignidade, para não falar de educação. A única forma de lidar com tal comportamento é deixar pra lá, confere? Sábio, sapientíssimo conselho. Mas aí fiquei pensando:

Isso valia para o mundo analógico. E se não for mais assim no digital? Não terá mudado alguma coisa que reponha a questão em novos termos?

Vejamos: no episódio, a rede social é usada para falar do mundo e de terceiros em termos desabusados, como se faria num email entre amigos – o que, para Pereira, vira sinônimo de subir nas tamancas – mas, ao mesmo tempo, não é um email entre amigos, é pública ou quase isso. Habita um zona de sombra entre a vida pública e a vida privada, uma faixa propícia a uma ética deslizante em que parece cool, além de babar mitos seletos, elaborar listas negras, jogar mamona da moita, trollar, mexericar, imputar sem provar. Tudo que se faz na vida privada, mas seria inadmissível pelas regras do debate público. O tom bitchy das redes sociais que todos conhecemos transporta-se para o campo da conversa estética. Isso traz consequências morais que merecem ser consideradas.

A voz que Pereira usa é uma novidade no debate literário: o tom é o da velha maledicência, da fofoca ou mesmo, em casos mais corajosos que o atual, do insulto aberto de bar (sobre o qual leva a vantagem inestimável do corpo ausente, claro). No entanto, seu alcance é mais amplo e mais potente: agora o fuxico carrega a assinatura do dono, rende-lhe dividendos, ao mesmo tempo que o exime da responsabilidade de sustentar civilizadamente um argumento, como se estivesse na ágora – algo que Pereira não seria de todo incapaz de fazer, a julgar por resenhas eventuais e por um diário acadêmico que não renova desde junho. É óbvio que, sem ler o livro em questão, a civilidade vai pro beleléu de saída: na ágora, barram os fanfarrões. Mas o pior é outra coisa: a zona moralmente gelatinosa do meio público-privado permite a convivência de um tom profundamente autoritário, exterminador da diferença, com a absoluta ausência de autoridade argumentativa. Eu, que nunca tinha entendido bem o fervor cívico que o redista-social baiano desperta entre certos estudantes de Letras de baixa quilometragem, agora sei o que há de errado com o sujeito. O comentarista literário mais desprezível – mais até do que o venal – é o que julga literatura pelo nome do autor: “Scott, bleargh! DeLillo, aimeudeus!”

Como proceder diante disso? Responder é fazer o jogo do outro, mas não responder – uma vez que, estando nas redes sociais, a história não deixa de ser pública – pode ser visto como covardia ou omissão. E responder a quem, se o tom de Pereira o desqualifica como interlocutor? Sinuca de bico?

A resposta que decidi dar aqui, neste blog de estilo irremediavelmente “velha web”, é expor essa historinha, que não deixa de ser engraçada, embora seja também triste, e propô-la como material de reflexão para quem está nessa conversa de peito aberto e boa-fé, atributos que me recuso a considerar relíquias do mundo analógico. E decidi apostar que, fazendo isso, fico liberado para responder ao “conteúdo” do dito faniquito – não a Pereira, mas a qualquer um que possa se interessar:

1. Por que eu acredito que a literatura brasileira está entrando numa fase de amadurecimento qualitativo? Será que é só por causa dos últimos livros de Michel Laub e Paulo Scott? Esses dois não seriam pouco, mas tenho encontrado outros bons sinais por aí. O último livro de Adriana Lisboa é seu melhor livro. O último livro de Ricardo Lísias é seu melhor livro. O último livro de João Paulo Cuenca é seu melhor livro. Não duvido que o próximo livro de Daniel Galera seja seu melhor livro. Meu próximo livro é certamente meu melhor livro.

2. Ah, mas esta última parte não importa porque Pereira também diz que sou um “mau ficcionista” e que deveria desistir de escrever contos como os de “O homem que matou o escritor” e romances como “Elza, a garota”. Claro que ele sabe que o senso de decência me impede de defender criticamente minha própria obra. Sem comentários, portanto.

3. Finalmente, afirma Pereira que gostaria muito de ler um ensaio meu sobre o que há de dondelillesco na segunda parte de “Habitante irreal”, em que uma dimensão histórica precisamente situada se cruza com uma mítica, profunda, que nunca sabe direito se acredita em si mesma ou se é uma fraude pop. Não é má ideia. Pereira só precisa aguardar um próximo livro meu, quem sabe dá sorte.

*

P.S.: Se você está farto dessa fofoca literária de terceira categoria e prefere que o blog volte a tratar de literatura, apresento minhas desculpas e prometo que assim será, mas peço compreensão: às vezes, não dá para fugir das obrigações. Mas se você ainda não enjoou do assunto, convém acompanhar a seguinte volta do parafuso. O textinho destemperado do “crítico” baiano me foi submetido como comentário aqui no blog no mesmo dia em que publiquei a resenha. Não o aprovei porque quem o postava na caixa de comentários não era Pereira e sim, falando em nome dele, um cidadão chamado Rafael, que não conheço e que alegava estar fazendo um favor a seu “amigo”. Este estaria enfrentando problemas com a internet, alegou Rafael. Achei aquilo suspeito. Pereira não conseguia postar o comentário, mas conseguia mandar um email para o outro? E se o pombo-correio tivesse interesses escusos e quisesse comprometer Pereira, apresentá-lo como um histérico, um maluco? Tem de tudo na rede, o bestiário humano inteiro. Por email, expliquei a situação a Rafael, dizendo que só poderia publicar o comentário se ele fosse enviado pelo próprio autor. Nunca foi. Não ouvi mais falar do assunto até hoje.

08/12/2011

às 20:08 \ Vida literária

Borges e eu, o não memorioso: a próxima pista

Como não tenho a memória perfeita de Irineu Funes, sei apenas que estava no México a trabalho, cobrindo para um jornal brasileiro a Copa do Mundo que seria vencida de forma acachapante pela Argentina de Maradona, quando recebi a notícia da morte de Jorge Luis Borges. Lembro-me de ter ficado triste, o que é uma memória óbvia. Se tivesse uma fração do dom de Funes – personagem de Funes, o memorioso, um dos melhores contos de “Ficções” (1944), provavelmente o melhor livro de Borges –, estaria escrevendo agora sobre tudo o que tornou aquele 14 de junho de 1986 um dia sem igual, como todos são: temperatura, forma das nuvens, quanto tempo se passou – certamente uma vida, mas isso também é óbvio para quem conhece o México – entre a encomenda da ensalada de guacamole e sua chegada à mesa; a cor do cardápio, o comprimento da saia da morena sorridente na mesa ao lado, as letras de todas as canções com que os mariachis torturaram o jantar.

Tudo isso está perdido para sempre. Só sei que estava no México, me esforçando para falar espanhol dia e noite, quando o argentino que era meu herói literário naquele tempo morreu. Entenderam? Eu falava espanhol, e – melhor esquecer. Não quer dizer nada. Se ao menos eu fosse um Funes…

Mas será que não quer mesmo dizer nada? Tratando-se de Borges, para quem os sinais de um plano mirabolante de sábios da antiguidade podiam se manifestar em qualquer parte, atravessando séculos e continentes, nunca se sabe. Por exemplo: há pouco menos de seis anos, o cientista americano James McGaugh, da Universidade da Califórnia, uma das maiores autoridades mundiais em estudos sobre a memória, publicou no jornal especializado Neurocase um relato impressionante sobre uma mulher – mantida no anonimato – capaz de se lembrar com riqueza de detalhes de absolutamente tudo o que viveu, leu ou viu na TV, recitando com precisão datas e dias da semana, mesmo quando os assuntos não diziam respeito à sua vida. Um fenômeno jamais registrado pela ciência, segundo McGaugh.

A se acreditar no testemunho do pesquisador, a memoriosa nada ficava a dever a Funes, que “sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia compará-las na lembrança aos veios de um livro encadernado em couro que vira somente uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no rio Negro na véspera da batalha do Quebracho” (“Obras completas”, Editora Globo, tradução de Carlos Nejar).

Será apenas uma coincidência que a versão feminina de Irineu Funes tenha entrado na literatura científica em 2006, justamente o ano em que Borges completava duas décadas de posteridade?

Pode ser. Mesmo assim, não consegui evitar o espanto quando, poucos dias depois de ler sobre a descoberta de James McGaugh, Funes cruzou meu caminho mais uma vez – ele que passara tantos anos desaparecido. Eu estava lendo uma coletânea de ensaios do escritor sul-africano J.M. Coetzee (Stranger shores, Vintage Books) e descobri que o ganhador do Nobel de Literatura de 2003, um dos meus heróis literários de então, compartilha minha admiração pelo caipira argentino que era pura memória e pelo livro em que ele aparece. “Das ‘Ficções’ de 1944, ‘Funes, o memorioso’ é a mais assombrosa”, escreve Coetzee. Acrescenta que, por ser incapaz de esquecer, o personagem “não consegue formar idéias gerais, e portanto – paradoxalmente, para alguém que é quase mente pura – não consegue pensar”.

É verdade. Humorista genial, uma de suas facetas mais subestimadas, Borges deixa clara essa inabilidade de Funes quando, pela voz do narrador do conto, explica que ele era “incapaz de idéias gerais, platônicas. Não só lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abrangesse tantos indivíduos de diversos tamanhos e diversa forma; aborrecia-o que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quinze (visto de frente)”.

O conto termina de forma brutal: “Irineu Funes morreu em 1889, de uma congestão pulmonar”. Jorge Luis Borges morreu em 1986, de um câncer no fígado.

*

De forma, se não brutal, intencionalmente abrupta terminava o post acima, que publiquei em 5 de junho de 2006, quando este blog tinha poucos dias de vida. Se o republico hoje, igualzinho, apenas com as marcações temporais adaptadas a dezembro de 2011, é porque demorou todo esse tempo para que surgisse uma nova pista, cinco anos e meio para que mais um dente andasse na engrenagem que sábios zoadores da antiguidade puseram para rodar. Ao pegar ontem um livro que encontrei no fundo de uma caixa de papelão na despensa, esquecido desde alguma mudança – um livro sem relação alguma com Borges, chamado “Propriedades condutoras das cerâmicas de baixa densidade”, que obviamente nunca deveria ter sido encaixotado –, ao pegar o volume magro com impaciência para expeli-lo de casa, caiu de dentro dele um cartão. Me abaixei, era de um bar mexicano. No verso, uma data, 12/6/1986, Borges ainda estava vivo, e uma única palavra, em esferográfica vermelha: Tlön.

21/11/2011

às 13:38 \ Vida literária

Otimista com a internet, eu?

Michel Laub foi o primeiro a me chamar a atenção, via Twitter, para uma tensão de ideias entre o ensaio publicado este mês por Bernardo Carvalho na “piauí”, intitulado “Em defesa da obra”, e um post mais alentado que apareceu aqui no início do mês, assim que voltei das férias: Os indies, a morte da crítica e o caleidoscópio.

Os dois textos têm aspirações e fôlegos diferentes, mas tratam, no fundo, do mesmo tema, aliás quente demais para que se possa manuseá-lo sem queimar os dedos: o que muda nos velhos paradigmas da literatura – e da crítica – na era da internet. Nessa arena, segundo Laub, Bernardo é “pessimista” e eu, “+ ou – otimista”.

Pouco habituado a ver tal adjetivo associado a mim, fui procurar com interesse o texto antípoda, que passei então a recomendar a todo mundo. Bernardo Carvalho confirma mais uma vez ser um dos nossos autores mais antenados, além de talentosos. A certa altura diz o seguinte:

Numa entrevista recente ao “New York Times”, apresentado como modelo de escritor para os novos tempos, por saber se servir da gratuidade da internet para vender ainda mais livros, Paulo Coelho declarou que Borges foi a sua maior influência. E o entrevistador não o contestou. Seja porque não tinha condições críticas para tanto, seja porque isso não interessava ao objetivo da entrevista. Banidos os critérios da subjetividade, já não há como distinguir entre um texto de Joyce e um Paulo Coelho ou um apócrifo, por mais incoerente que seja a impostura aos olhos de um leitor educado. A única medida de prestígio passa a ser o número de acessos ou de leitores. Até aí, trata-se de um velho princípio de mercado. A única diferença é que, ao suplantar todo e qualquer valor subjetivo, o mercado agora permite a Paulo Coelho dizer que é herdeiro de Borges sem causar espécie.

(…) O valor da diferença é substituído pelo da quantidade. Hoje, temos acesso a tudo, mas sabemos cada vez menos distinguir uma coisa de outra. E é essa substituição, basicamente, que distingue a escola da internet. E a crítica da opinião. E o que faz da educação um paradoxo dentro dessa nova economia.

Descartar esse papo como “elitista” é fácil, mas não adianta nada: fica no campo dos sintomas e não do diagnóstico. No fim das contas, como não há necessidade de provar a vitória – evidente demais – de uma cultura global que transforma todo o conhecimento humano em ingrediente de geleia, com o apagamento das linhas de força que herdamos da tradição, resta decidir se esta é uma vocação estrutural da internet, como sustenta BC, ou se, num ato de fé, ainda é possível acreditar que o meio acabará por recriar espontaneamente medidas de aferição de valor que não se baseiem apenas em contagem de acessos, mas processem de alguma forma a tradição – com alguma medida de wishful thinking, é nisso que aposto em meu post.

Reconheço que esse otimismo é precário, e mais precário fica a cada vez que vejo pessoas inteligentes e bem informadas se deixarem reduzir no mundo digital a uma coleção exibicionista de frases de efeito que, naturalmente, têm menos efeito à medida que os dias passam, as bordas do pote de geleia se alargam, o cansaço se instala. Me vem à cabeça um artigo-calafrio de Laura Miller que comentei aqui no início deste ano:

As vítimas da TV, conforme as retratam seus críticos tradicionais, são marretadas até virarem engrenagens mudas e uniformes, e depois vendidas como consumidores dóceis para a Madison Avenue, suas individualidades sufocadas, suas verdades interiores silenciadas. Mas e se, com chegada de um novo meio que permite a todo mundo expressar suas verdades mais secretas e supostamente únicas, viermos a descobrir que milhares e milhares de pessoas estão dizendo mais ou menos a mesma coisa com mais ou menos as mesmas palavras? E se a individualidade que julgamos tão preciosa se revelar indistinguível da individualidade de incontáveis outros? Quão individual será ela, então? E se na verdade o “cascalho vulgar da banalidade” formos nós?

Em defesa da internet como veículo de pensamento crítico restaria, então, apenas isto: essa minha “conversa” com Michel Laub e Bernardo Carvalho se deu nela. Quantas outras não estarão se dando agora mesmo, atarefadas e nem sempre visíveis? Reconheço que é pouco, mas talvez não seja desprezível.

09/11/2011

às 11:29 \ Resenha, Vida literária

Figueiredo merece o Portugal Telecom. Já seu livro…

Prêmios, prêmios… O romance “Passageiro do fim do dia”, do escritor carioca Rubens Figueiredo, ganhou ontem o Portugal Telecom. Já tinha levado o prêmio São Paulo também. Isso faz dele, acima de qualquer dúvida, o livro de ficção do ano no país, certo? Bem, dificilmente.

Figueiredo, 55 anos, é um escritor de verdade, além de renomado tradutor. Trabalha com seriedade, sem pressa, é discretíssimo e avesso a marquetagens. Um ótimo sujeito. Os prêmios, portanto, estão em boas mãos. Mas fazem mais sentido pelo conjunto da obra do que por seu último romance.

“Passageiro do fim do dia” (Companhia das Letras, 200 páginas, R$ 40,00) é, convém deixar claro, um livro digno. Em certo sentido pode ser chamado de tour de force: sua “ação” presente se comprime no trajeto de um ônibus urbano, fim de tarde de sexta-feira, entre o centro de uma metrópole e um bairro suburbano. Tudo se passa entre os escassos acontecimentos exteriores e os pensamentos de Pedro, o protagonista, um comerciante de livros usados.

A maior virtude do romance é a sobriedade honesta que se manifesta tanto no realismo seco das situações quanto na prosa clara, contida, sintaticamente irretocável. Figueiredo nunca joga para a arquibancada, concentra-se na partida, o que é uma qualidade. Percebe-se que está em busca de captar algo de verdadeiro e sutil que se oculta no mundo lá fora, no emaranhado de dores sem voz que compõe uma cidade, e não no texto aqui dentro. Trata-se de uma tomada de posição estética até ousada num momento em que certos expoentes da crítica abusam do argumento da “crise da representação”.

Ocorre que a sobriedade acaba por dar à narrativa um tom curiosamente antiquado e, nos momentos menos felizes, arrastado. O narrador, de certa forma pré-flaubertiano, explora com timidez os recursos do discurso indireto livre. Embora jamais deixe o ponto de vista do protagonista, amarra o texto do início ao fim com uma grande quantidade de marcações duras: Pedro sabia, Pedro ignorava, Pedro pensou, Pedro começava a desconfiar. A linguagem se recusa a alçar voo não apenas em direção a si mesma, mas também em direção à subjetividade que busca plasmar:

E pronto: ali estava um bom exemplo do que acontecia tantas vezes com Pedro. Ele sabia disso. De devaneio em devaneio, de desvio em desvio, seus pensamentos se precipitavam para longe.

Se o tom, num escritor com a experiência de Figueiredo, só pode ser considerado intencional, dificilmente será intencional o efeito de timidez artística que, para lá da sobriedade, provoca essa narração com o freio de mão puxado ao tentar conduzir uma jornada de autoconhecimento do protagonista.

Prêmios são só prêmios, claro. Mas rendem notícias, atraem novos leitores e têm o potencial de agitar um pouco o ambiente. Considerado o mais importante do país, o Portugal Telecom ainda não cumpriu sua promessa de relevância e continua a dever à cultura brasileira escolhas que façam avançar um pouco mais a conversa literária.

02/11/2011

às 14:44 \ Vida literária

Os indies, a morte da crítica e o caleidoscópio

Mesmo de férias – que decidi, num lance ousado, estender às redes sociais e parcialmente ao email, pois do contrário não seriam bem férias – eu não pude evitar que me chegassem ecos de uma polêmica cultural paulistana moderadamente interessante, aquela deflagrada pelo jornalista Álvaro Pereira Júnior ao criticar o clima de compadrio que ele acredita dominar a cena musical dita indie da cidade.

Sim, eu sei que o assunto ficou velho, que o jornalista já bateu e apanhou o suficiente. E não, o Todoprosa não voltou das férias transformado em blog de música. Acontece que comecei a pensar no que o episódio revela, por afinidade ou por contraste, sobre nossa província das letras.

O mote para essa ampliação de foco é dado pela professora universitária Ivana Bentes, que, num breve artigo sobre o caso, tomou enfaticamente o partido das bandas atacadas:

O debate e a polêmica (se tem uma) é a própria crise da onipotência da critica tradicional. Por que hoje o que ‘qualifica’ não é ‘a critica’ é o processo todo. Quanto mais bandas iniciantes, mais circuitos indies, mais gente pensando o ‘processo produtivo’ mais chances de surgir uma nova cena e grupos realmente interessantes. Só que agora as redes e seus novos agentes são o filtro, há críticos ‘orgânicos’ (ou não) que escrevem, analisam, criticam, sem necessariamente estarem nesse lugar ‘superior’ e onipotente que o critico de jornal se colocou. Eis o drama. Adeus aos indies ou adeus a um certo tipo de crítico?

Não se pode negar que Ivana tocou num ponto relevante: a agonia da tal “crítica tradicional”, que, agarrada ao que o nosso tempo decidiu ser a arbitrariedade e o autoritarismo intrínsecos a todos os julgamentos de valor, se vê agora condenada a ser só mais uma voz – e das mais suspeitas – entre as incontáveis vozes que, até há pouco tempo inaudíveis, o meio digital nos leva a captar como algaravia no volume máximo.

Isso não é novidade. Chega a ser surpreendente que Ivana dê um tratamento de “debate e polêmica” ao que já se aceita como ponto pacífico. O fenômeno que ela festeja é mais ou menos o mesmo que o jornalista e escritor José Castello registrava em tom melancólico há três meses no jornal literário “Rascunho”:

Será que nós, resenhistas, fazemos ‘crítica literária’? Será que os teóricos da academia fazem ‘crítica literária’? Quem são hoje os críticos literários? A resposta que venho arriscar, temerária, frágil, mas possível, é: a crítica literária não mais existe.

A cereja desse bolo é um texto publicado ontem no blog do Instituto Moreira Salles em que – com certa candura própria da idade, se me permitem uma observação geracional ao gosto do autor – o jovem escritor gaúcho Antônio Xerxenesky tece considerações sobre o ponto de vista comprometido e limitado de todo crítico literário:

A visão ‘biografista’ que tenta buscar relações entre a obra de um autor e sua vida pessoal está morta e enterrada desde o advento das teorias do formalismo russo. Mas e a biografia do crítico? A úlcera do Crítico Hipotético não pode ter deixado o sujeito indisposto para certas leituras? O fato de que ele passou dos quarenta não o deixará levemente rancoroso em relação a um jovem escritor que é visto como uma ‘promessa’?

É bem possível. O mesmo se pode dizer de seu estado natal, suas preferências sexuais, o time de futebol pelo qual ele torce, aquilo que ele gostava de ler quando adolescente, a maior ou menor elasticidade de sua ética e uma miríade de pré- ou pós-conceitos mais ou menos confessáveis. No limite, é o caso de perguntar: por que perder tempo lendo o que escreve esse cidadão?

Está tudo bem, mas, quando reina a unanimidade, tenho a mania de olhar para o outro lado. Agora que decidimos que a “crítica tradicional” está morta, que qualquer pessoa tem direito a voz e que todo ponto de vista será sempre parcial, que tal começar a prestar mais atenção no que leva algumas vozes, num processo independente de chancelas de autoridade e que se poderia chamar de espontâneo, a serem mais ouvidas do que outras? Ou naquilo que, em meio às parcialidades que se anulam e sem advogar uma imparcialidade impossível, ressoa acima da contingência, dos grupinhos, dos modismos?

Críticos, resenhistas, jornalistas, pitaqueiros, o nome importa pouco. Em vez de contemplar os estilhaços da cultura contemporânea como crianças boquiabertas diante de seu primeiro caleidoscópio, me parece que buscar encaixes e convergências – rudimentos de um idioma comum – é fundamental para a sobrevivência de uma ideia de crítica que, não tendo nascido com os famigerados rodapés, certamente não morreu com eles. E que é apenas o oposto do diálogo de surdos.

30/09/2011

às 12:16 \ Vida literária

Piglia, o vingador da seleção argentina

A palestra que o ficcionista e crítico argentino Ricardo Piglia deu esta semana em São Paulo (segunda-feira) e no Rio (quarta) durou pouco menos de uma hora. Pareceu durar dez minutos. Foi a primeira vez que as palavras do autor de “Respiração artificial” me chegaram pelos ouvidos, em vez de pelos olhos, e o ineditismo dessa experiência foi em si um princípio de revelação. Deu vontade de reler seus ensaios – como os de “Formas breves” e “O último leitor” – para investigar o papel do coloquialismo no peculiar embaralhamento pigliano de casos e anedotas com observações críticas penetrantes, que resulta numa espécie de milagre: um texto crítico que não precisa se refugiar no hermetismo ou na chatice para parecer profundo porque, ora, sabe que é. Naquela noite de quarta, enquanto tínhamos, eu e a Heloisa, o privilégio de jantar com o casal Piglia e usufruir de piadas que não haviam entrado na palestra, a seleção brasileira venceu a argentina por 2 a 0. Mas para mim ficou claro que, no campo da crítica literária, qualidades como clareza, humor e generosidade impõem ao Brasil uma derrota de goleada.

Intitulada “Romance e tradução”, a conferência do maior escritor argentino vivo (vídeo integral no site da Companhia das Letras) se baseou nas reflexões de um ensaio em andamento e teve como núcleo a investigação daquilo que, nos romances, não se perde na transposição de uma língua a outra – algo meio intangível que ele chamou com simplicidade de “energia ou emoção” (não me lembro de jamais ter visto tais palavras no discurso de um crítico). Em torno disso, nunca de forma gratuita, Piglia foi tecendo histórias divertidas sobre Gombrowicz, Borges e o primeiro tradutor chinês do Quixote – que nada sabia de espanhol – para concluir que, ao contrário do poeta, que escreve mergulhado em seu idioma materno e a rigor só pode ser lido nele, o ficcionista tem sempre em relação à língua uma posição de estrangeiro. Como se a matéria fundamental com que ele lida estivesse acima – ou abaixo – da língua, e precisasse ser traduzida para ela.

A melhor história da noite, para mim, rolou mais tarde, quando Piglia, entre garfadas de bacalhau, contou o caso de uma placa que viu um dia à beira de uma estrada mexicana: Está prohibido a los materialistas estacionar en lo absoluto. O que parece um irrespondível imperativo filosófico revela-se, via tradução, bem mais prosaico. Materialistas são motoristas de caminhão que transportam materiais pesados; en lo absoluto, uma locução adverbial gêmea da nossa “em absoluto”. Em português, uma placa dessas poria toda a graça a perder: “É terminantemente proibido aos caminhoneiros estacionar”. Eis um caso de humor trocadilhesco que, como sabia Paulo Rónai, é tão enraizado na língua que se aproxima da grande poesia. Mas é difícil imaginar alimento melhor para dois dedos de civilizada prosa.

*

Estou saindo de férias. O Todoprosa voltará a ser atualizado no dia 2 de novembro. Até lá.


 

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