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Arquivo da categoria Três perguntas para…

05/09/2011

às 13:30 \ Três perguntas para...

Mais Gonçalo: ‘Não aceito a separação entre literatura e vida’

No sábado, publiquei aqui no blog vizinho VEJA Meus Livros o resultado de uma ótima conversa, entre expressos e capuccinos, com o escritor português (nascido em Angola) Gonçalo M. Tavares, que veio ao Rio para participar da Bienal do Livro. O festejado escritor de 41 anos, para quem José Saramago vaticinou o Prêmio Nobel, discorre sobre seu peculiar método de trabalho e sua produtividade quase insultuosa, além de falar com simpatia sobre a literatura brasileira contemporânea e o uso que aqui fazemos do português – língua que acredita fadada a brilhar internacionalmente no futuro próximo. A quem ainda não leu a entrevista, recomendo dar um pulo lá.

De bônus, seguem três respostas que ficaram fora da edição final:

Você começou a escrever copiosamente – “obsessivamente”, como diz – muito cedo. Drummond tem uma frase boa sobre o que a escrita tem de renúncia: “Escrever impede a conjugação de tantos outros verbos”. Essa renúncia o incomoda?

– A frase é boa, mas a escrita não é uma coisa fora da vida. Nós não saímos da vida para escrever e depois voltamos. Alguns dos momentos mais extraordinários que eu tive têm a ver com a escrita. Não aceito a separação entre o mundo da literatura e o mundo da vida. Subir o Himalaia é uma experiência de vida, mas escrever um livro e ler “Crime e castigo” também são. Há muitas vezes uma espécie de obsessão por uma espécie de colecionismo de experiências exteriores, como se isso lhe pudesse dar material sobre o qual escrever. É uma visão que eu acho deturpada. Há pessoas que estiveram na guerra e tiraram disso uma pequeníssima experiência interior. Clarice Lispector tirou de uma barata no armário uma grande experiência interior. Não há regras. Há escritores extraordinários que viajaram muito e há escritores extraordinários, como Fernando Pessoa, que quase não saíam de casa.

É comum os críticos dizerem que seus romances são kafkianos. No entanto, você nunca cita Kafka entre suas influências. Mal-entendido da crítica ou uma espécie de ponto cego autoral?

– Kafka é um autor, penso eu, importante para qualquer pessoa sensata. Mas, falando objetivamente, em todas as narrativas de Kafka nunca se sabe exatamente o que está a acontecer, e em todos os romances do Reino nós sabemos exatamente o que está a acontecer. Há autores que são como indicadores geográficos para a recensão (avaliação crítica): Kafka é o Norte, digamos, e Proust é o Sul. Na França, já disseram que eu lembro Victor Hugo.

O que você achou do acordo ortográfico?

– Minha posição sobre o acordo ortográfico, como quem escreve, é sentir que não é este o problema. Nunca senti o p ou o trema como um obstáculo. Muitas vezes o não entendimento tem a ver com a história da palavra. Por exemplo, a palavra “cadastro”: a primeira vez que ouvi “cadastre-se aqui”, estranhei, pois em Portugal esta palavra tem um sentido criminal. Isso pode ser uma barreira para o entendimento, pois como saber se você está interpretando corretamente um texto? O acordo ortográfico, ao pé disso, não pode fazer nada, embora talvez seja útil em termos de institucionalização da língua.

02/09/2011

às 9:36 \ Três perguntas para...

Thalita Rebouças: ‘Corram atrás dos leitores’

O mantra de que poucos leitores brasileiros estão interessados na ficção escrita hoje no país, entoado por escritores e críticos, só se sustenta por meio do artifício de excluir do campo da ficção nacional o maior fenômeno de popularidade do século 21. Sim, faz tempo que nossas listas de best-sellers viraram terra estrangeira, mas dificilmente alguma estrela internacional arrastará tanta gente à Bienal do Livro do Rio, que ocupa até dia 11 o Riocentro, quanto a escritora carioca Thalita Rebouças. Aos 36 anos, Thalita atingiu este ano a marca de 1 milhão de exemplares vendidos ao longo de dez anos de carreira, uma montanha de livros erguida com onze títulos voltados para um público-alvo muito preciso: adolescentes e pré-adolescentes do sexo feminino. “Para mim leitor é leitor, pode ter 8, 13, 20, 30 ou 60 anos”, diz ela.

Numa divertida entrevista deste ano a Jô Soares, Thalita lembrou a Bienal de 2001, quando subiu numa cadeira para apregoar aos passantes perplexos as qualidades de seu primeiro livro, “Traição entre amigas”. Em artigo publicado ontem no blog da Companhia das Letras, o editor Luiz Schwarcz poderia estar falando dela quando diz: “Se hoje sabemos que não é correto julgar as pessoas pela classe social, falta ainda aprender a não usar a literatura como forma disfarçada de preconceito. Falta aceitar e entender leituras e leitores diferentes de nós”. Isso mesmo: aceitar, entender e, acrescento eu, quem sabe aprender alguma coisa.

1. Escritores brasileiros costumam se queixar da falta de leitores. A culpa é dos leitores ou deles? Vendo você falar ao Jô da sua cara de pau na primeira Bienal de que participou, fiquei pensando: será que a nossa literatura não sabe se comunicar com o público? Que dicas você daria para mudar isso?

– A verdade é que o Brasil, comparado a outros países, ainda lê muito pouco. Eu acho que a minha cara de pau ajudou muito na divulgação, mas se os adolescentes não se identificassem com o meu texto certamente o mico da Bienal e as inúmeras visitas que fiz a livrarias não teriam valido a pena. De qualquer forma, para os pouco tímidos, minha dica é mesmo correr atrás dos leitores, principalmente nas feiras de livro. Deu muito certo para mim e está dando certo para outros autores que eu conheço. A competição é grande, é preciso arranjar uma forma de fazer a diferença.

2. Alguns críticos olham para grandes vendedores de livros infantojuvenis como você e enxergam apenas formadores de futuros leitores. É como se os leitores só se tornassem leitores ao chegar à chamada literatura “séria”. Isso traduz um preconceito, é claro, mas você tem notícia de fãs seus que partiram para novos desafios de leitura, chegando, sei lá, a “Grande sertão: veredas”?

– Para mim, leitor é leitor, pode ter 8, 13, 20, 30 ou 60 anos. Uma frase que eu escuto muito dos adolescentes é: “eu odiava ler e passei a gostar depois dos seus livros”. Muitas mães também me dizem, felizes da vida, que depois de um livro meu o filho não parou mais, que chega a pedir livros de presente de aniversário, olha que bacana. Fico toda prosa. :-)

Os pré-adolescentes e adolescentes costumam implicar com livros. A transição do livro ilustrado para o livro só de texto é difícil, e muitos abandonam o hábito da leitura exatamente nesse período. Acho que cabe, sim, aos autores infantojuvenis trazer esses jovens de volta ao hábito da leitura. Mas não me vejo apenas como uma formadora de leitores, o que quero mesmo é mostrar para os adolescentes que ler não é chato, que pode trazer prazer, gargalhadas, lágrimas…

Já recebi emails de leitoras que começaram a ler meus livros na adolescência, estão agora na faculdade e seguem lendo de tudo. Claro que bate um orgulho e uma sensação de dever cumprido. Afinal, formar leitores é contribuir para um futuro melhor pra eles e para o nosso país. Se depois que me largarem eles descobrirem as delícias de ler Sabino, Saramago ou Guimarães Rosa, parabéns para eles.

3. Não que eu pense nisso como um caminho natural, mas quem sabe pode ser uma inquietação: você pensa em escrever romances adultos um dia? Se pensa, tem um tema na cabeça? De que gênero seria?

– Não penso em escrever para adultos. Uma vez ouvi a Ruth Rocha dizer que se não for pra criança, pra ela não faz sentido escrever. Pra mim é mais ou menos por aí. Eu gosto muito de fazer companhia para os adolescentes, é uma fase cheia de questionamentos, espinhas e amores platônicos, tudo é vivido com muita intensidade e sinceridade. Eu gosto da ideia de que, a partir de um livro meu, os jovens possam refletir e se entender melhor, entender melhor os pais, os professores, os amores…

Se um dia eu mudar de ideia e escrever para adultos vai ser em cima da linha que rege meu trabalho para os adolescentes: observação do cotidiano com humor. Ando fazendo isso no meu blog, que já andaram até apelidando de Thalita para Maiores. Mas muitos adultos acabam lendo os meus livros antes dos filhos e dizem que se divertiram, que se emocionaram, principalmente com os livros da série Fala Sério. Segundo eles, por serem formados por crônicas, esses livros são para todas as idades. Se os leitores dizem isso, não sou eu que vou duvidar. ;-)

04/07/2011

às 16:05 \ Três perguntas para...

Arthur Dapieve: o ‘eletricista’ da Flip

Além de ser o crítico musical mais importante de sua geração e autor de livros de ficção, entre eles “Black music” (Objetiva), o jornalista carioca Arthur Dapieve tem um papel curioso na Flip: é um veterano mediador de debates que acabou por se especializar em entrevistados considerados difíceis. Em 2007, o mais-que-irônico escritor inglês Will Self propôs no palco que os dois abandonassem suas mulheres e fossem juntos desmatar a Amazônia. Ano passado, a desistência do popstar Lou Reed, famoso por maltratar entrevistadores, poupou-o na última hora de uma missão espinhosa. Na edição 2011, que começa nesta quarta-feira, Dapieve vai encarar na última mesa de sábado o escritor americano James Ellroy, que se notabilizou tanto pela qualidade de sua literatura quanto por uma certa egolatria.

Will Self, Lou Reed e, agora, James Ellroy. Por que todos os fios desencapados da Flip acabam na sua mão?

– Acho que é porque eu já trabalhei com o Marcelo Madureira [no extinto programa de TV “Sem Controle”, do GNT]. A partir daí, qualquer fio desencapado me parece normal…

O que espera da conversa com Ellroy? Se ele repetir em Paraty sua famosa declaração de que é o maior escritor policial de todos os tempos, pretende contrariar o homem?

– Espero um papo animado, no bom sentido. Não, não pretendo contrariá-lo. Primeiro, porque não sou louco e, segundo, porque talvez ele tenha razão. Sem dúvida ele é o maior escritor policial vivo.

Você acompanha a Flip desde o início, em 2003. Qual foi sua edição preferida e o que mudou na festa ao longo desses anos?

– A preferida não tem como deixar de ser a primeira. Parecia um sonho. Grande nomes, pequenas plateias, tudo bem íntimo. De lá para cá, mudou sobretudo a escala da plateia, o que, claro, é bom. Bom para a festa e bom para quem gosta de literatura.

26/07/2010

às 14:19 \ Três perguntas para...

Lucia Riff sobre o ‘affair’ Wylie: agente não é editor

O mercado editorial americano foi sacudido na semana passada por um terremoto que promete se desdobrar em novos abalos no futuro próximo, à medida que as placas tectônicas se ajustarem num ambiente de negócios que o revolucionário livro digital, até ano passado pouco mais que uma curiosidade e uma promessa, começa finalmente a redesenhar na marra. No epicentro do fenômeno está o agente literário Andrew Wylie, de Nova York, um peso pesado que representa autores como Philip Roth e Martin Amis e, entre as obras de escritores mortos, as de Vladimir Nabokov e Jorge Luis Borges.

Wylie anunciou a criação de um selo próprio, o Odyssey, para lançar versões digitais de títulos que, presos a editoras tradicionais por contratos de edição em papel, não tinham a seu juízo – por terem sido contratados antes de 2000, quando o e-book não existia no horizonte – seus direitos digitais cedidos a ninguém. Só que as grandes editoras pensam diferente. A Random House divulgou uma nota violenta declarando que não fechará nenhum novo contrato com a Wylie Agency “enquanto essa situação não for resolvida”. O que, tudo indica, só ocorrerá nos tribunais (mais sobre o caso aqui e aqui, em inglês).

A Odyssey tem contrato de exclusividade de dois anos com a Amazon, que venderá todos os títulos na Kindle Store por 9,99 dólares, e pagará direitos autorais acima da faixa de 25% que vem sendo praticada para e-books pelas casas tradicionais – especula-se que a fatia do autor possa chegar a 50%.

E nós com isso? Que lições o digitalmente atrasado mercado brasileiro pode tirar do furdunço? Quem responde é Lucia Riff, a principal agente literária do país, cuja empresa – representante de Rubem Fonseca, Luis Fernando Verissimo, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, entre outros – completará duas décadas de atividade em janeiro do ano que vem. (No interesse da transparência, aquilo que na terra de Andrew Wylie chamam de full disclosure, convém acrescentar que também sou representado pela Agência Riff.)

Lucia conversou com o Todoprosa por e-mail:

1. A nova fronteira digital deixou o agente Andrew Wylie e as grandes editoras americanas em guerra aberta. É possível dizer quem tem razão, se é que alguém tem razão?

– Os dois lados têm razão e não têm. A questão é supercomplexa, e é provável que, infelizmente, acabe sendo decidida nos tribunais. O que está em jogo são os direitos digitais dos contratos assinados antes de 2000: foi há mais ou menos dez anos que os contratos nos EUA passaram a incluir direitos digitais de forma clara (nem todos, mas a maioria, pelo menos). Como os contratos americanos são leoninos, abrangentes e duradouros, o que se discute agora é se as cláusulas que listavam os diversos formatos que seriam explorados pela editora nos contratos anteriores a 2000 já incluíam implicitamente formatos novos ainda por serem descobertos (como o é caso do e-book) ou não. Se discute ainda se e-book é um novo formato para um público distinto – assim como pocket book, book-club ou audiobook –, podendo então ser negociado livremente (caso não esteja citado no contrato de edição da obra), ou se entra diretamente no mesmo segmento de mercado da edição do livro trade, ficando portanto dentro da área de atuação da editora original. Além de definir quem vai poder explorar os direitos digitais, estão discutindo as bases: o mercado acordou com um padrão de 25% sobre as vendas líquidas, mas as editoras novas, que estão surgindo apenas para explorar a publicação de e-books, acenam com royalties maiores, chegando mesmo aos 50%. As editoras tradicionais, de modo geral, estão concordando que este modelo dos 25% terá que ser repensado quando o mercado de livros digitais estiver mais estabilizado. As editoras precisam pensar no front list e no back list – é todo um catálogo com centenas, às vezes milhares de livros que precisam ser preparados para serem lidos como e-books… Não é fácil, não basta um simples apertar de teclas. Além disso, temos o grande e complicadissimo problema da distribuição entre as Amazons e Apples e Barnes & Nobles da vida, cada uma com seu pacote de exigências, discussões sobre exclusividade, etc. E temos também os e-readers, que ainda estão sendo testados, aprimorados… No momento é tudo muito novo, mesmo para o mercado americano, que, de um jeito discreto mas consistente, já trabalha com e-books há pelo menos cinco anos e pensa no assunto há dez.

O Wylie entrou com um anúncio bombástico: ele está montando uma editora de e-books e vai publicar seus próprios autores. Ou seja, a questão não é apenas se o autor deve ficar fiel à sua editora e manter no mesmo selo livros em papel e e-books – ou se deve ouvir as novas editoras de e-book ou mesmo outras editoras tradicionais que possam estar fazendo um trabalho melhor com o novo formato. A questão que incomoda na posição do Wylie é que me parece haver um certo conflito de interesses quando um agente se propõe a ter uma editora. Antes desta crise do mercado com o Wylie, circulou em Frankfurt ano passado uma outra notícia alarmante: que a Simon & Schuster não cederia direitos digitais para nenhuma editora estrangeira, uma vez que traduziria e lançaria seus próprios livros em e-book, diretamente dos EUA. Não sei dizer se essa ideia foi adiante ou não. De todo modo, a declaração causou mal-estar e preocupação. O que se nota claramente é que não temos ainda nenhuma estatística confiável, nada em que possamos nos basear para realmente availiar o mercado de livros digitais. O que se vê é muito marketing, muita pressa, muitas informações vazias, dadas pela metade.

Não creio que exista uma única resposta certa para a grande questão de quem deve ter os direitos de publicar e-books: depende da editora, depende do autor, depende da obra, depende de como é o relacionamento entre as partes. Num mundo ideal, faz todo sentido que a editora de livros físicos passe também a publicar os e-books – mas a gente sabe que este “mundo ideal” não se encontra em toda esquina…

2. Entre agentes e autores parece haver a sensação cada vez mais forte de que existe margem para ampliar os 25% de royalties que vêm sendo praticados para edições digitais. Fala-se até no dobro disso. Você acredita que o Brasil também chegará lá?

– Acho que vamos, sim, ver estes 25% aumentarem nos próximos dois anos. Não sei se chegaremos aos 50% para todas as obras, mas é muito provável que a base de 25% seja aumentada quando os números melhorarem e tudo estiver mais estável. Imagino que aconteça com os e-books o que acontece nas vendas de livros em papel: passaremos a trabalhar com uma faixa de royalties que começa em 25% e vai subindo, de acordo com a força do autor, vendas, etc.

3. Que lições podem ser tiradas desse episódio para o mercado brasileiro, que está alguns passos atrás do americano na exploração do mundo digital? No aspecto jurídico da questão, nossas zonas cinzentas são parecidas?

– O mercado brasileiro está muitos passos atrás do americano na questão digital. Poderemos recuperar o tempo perdido, mas não será do dia para a noite. Para nós existe um componente de complicação adicional: ao contrário do mercado americano, que lida com poucos livros contratados de fora, cerca de 50% do que é publicado no Brasil na área de livros trade (não didáticos) é de livros estrangeiros (não sei se chega a tanto, mas de toda forma é um percentual bem alto). Isso significa que a editora brasileira depende do que o proprietário dos direitos da obra no exterior puder negociar. Se este proprietário tiver os direitos digitais, a tendência é que se negocie um adendo ao contrato original, incluindo os e-books. Se o proprietário não tiver esses direitos, aí fica mais complicado. Nos contratos novos, já existe a preocupação de incluir os e-books (como uma obrigação contratual ou como uma simples opção). Para os livros já lançados, com contratos mais antigos, o jeito é negociar um por um, à medida que for sendo interessante lançar a versão digital da obra. Como os e-books não têm – por definição – território, nada impede que um livro seja retraduzido e oferecido em várias linguas por uma só editora, como pretende a Simon & Schuster, o que é outra preocupação neste nada fácil mundo digital. Sem contar a pirataria, praga que atinge o mercado editorial como um todo. No mais, se pensarmos nos autores brasileiros, algumas questões são parecidas, mas os contratos brasileiros não são como os americanos, e portanto nossas zonas “cinzentas” são menores. Mas acho que é cedo para pensarmos nas lições desta ou daquela crise. O certo é que a zona de conforto do mercado pré-digital já acabou, ficou no passado. Agora temos que correr para nos adaptarmos a este novo e fascinante mundo dos e-books.

28/06/2010

às 11:26 \ Três perguntas para...

Ronaldo Helal: ‘Brasil se crê o mais entendido em futebol’

Se a ficção brasileira, como a de qualquer país, parece tímida ao retratar nossa maior paixão esportiva (veja nota abaixo), não se pode dizer o mesmo da literatura em sentido mais amplo. A produção cultural em torno do futebol, que tem na crônica esportiva seu gênero mais tradicional, vem ganhando nos últimos anos a contribuição da universidade, especialmente na área de sociologia. Em entrevista por e-mail, um dos representantes dessa tendência, Ronaldo Helal – doutor em sociologia pela New York University, professor de pós-graduação em comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor de “Passes e impasses: futebol e cultura de massa no Brasil”, entre outros livros – tem uma tese para o eterno choro sobre o relativo silêncio de nossos escritores diante do futebol, de resto semelhante ao dos escritores de países não menos vidrados no esporte: “A diferença é que os brasileiros se creem os mais apaixonados e entendidos no assunto”.

1. A imprensa e a crítica literária vivem estranhando que o Brasil nunca tenha produzido seu “grande romance do futebol”. Isso faz algum sentido? Literatura combina com esporte?

- Veja que em 1919 Lima Barreto fundou a “Liga Anti-Futebol” e dois anos depois Graciliano Ramos escreveu uma crônica (Traços a esmo), onde dizia que o futebol seria apenas uma “moda fugaz” no país. Tudo isso em um período em que o futebol era um esporte considerado elitista. O futebol se populariza e se profissionaliza em 1933 e, a partir daí, passa a ser considerado a “paixão nacional”. É neste sentido que podemos entender a cobrança da imprensa e da crítica literária. No entanto, se compararmos com o que ocorre em outros países, onde o futebol também é paixão nacional, talvez verifiquemos a mesma “ausência”. A diferença é que os brasileiros se creem os mais apaixonados e entendidos no assunto.

2. A crônica esportiva, por outro lado, tem uma tradição gloriosa no país. Quem é ou foi, para o seu gosto pessoal, o maior representante do gênero entre nós?

- Diria que Mario Filho foi o fundador do jornalismo esportivo no país e um agente fundamental na “construção” do “país do futebol”. Suas crônicas e seus livros, principalmente “O negro no futebol brasileiro”, foram imprescindíveis para se construir uma ideia de nação brasileira por meio do futebol. Tudo isso em um momento de consolidação dos estados-nações no mundo, do projeto integracionista de Getúlio Vargas, de novas formas de conceituar o país, onde a mistura de raças passa a ser vista como um valor positivo de nossa cultura – veja, por exemplo, a obra de Gilberto Freyre, “Casa grande e senzala”. Lembremos que Mario Filho era amigo de Gilberto Freyre, que, gentilmente, prefacia “O negro no futebol brasileiro”, alçando a obra ao meio acadêmico no Brasil. Mas, para meu gosto pessoal, até porque não sou da época de Mario Filho, meu preferido é Nelson Rodrigues, seu irmão.

3. Se a ficção não fica à altura do futebol, a produção intelectual acadêmica sobre o esporte não para de crescer. Foi preciso superar preconceitos para desbravar esse campo na universidade?

- Quando comecei a pesquisar o assunto, havia pouquíssimos trabalhos acadêmicos a respeito do tema. E todos tinham um tom apocalíptico, marxista, que equacionava o futebol como “ópio do povo”. Foi a partir de um livro organizado por Roberto DaMatta em 1982 – “Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira” – que o jogo começou a virar. Antes deste livro, DaMatta tinha escrito, em 1978, “Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro”. Estes trabalhos apontavam para a importância de estudarmos coisas consideradas “não sérias” no país. Ou seja, como poderíamos aprender mais sobre nosso país por meio do futebol e do carnaval. O preconceito foi se esvaindo e o tom apocalíptico também. Hoje, não se pode mais falar em descaso das ciências sociais em relação ao futebol. Basta verificar a quantidade de grupos de trabalho sobre este esporte nos congressos científicos da área de ciências sociais e humanas espalhados pelo país. Além do número expressivo de livros, capítulos de livros e artigos em periódicos acadêmicos que tratam do tema.

03/05/2010

às 19:29 \ Três perguntas para...

Marçal Aquino: 'A literatura é a minha casa'

Marçal Aquino é, no meu caderninho, o melhor contista brasileiro a surgir depois da geração de Luiz Vilela, Sérgio Sant’Anna e Sergio Faraco. Um cara como ele assinar os roteiros (em parceria com o também escritor Fernando Bonassi) de uma série da TV Globo – “Força-Tarefa”, que vai ao ar nas noites de terça-feira – traz imediatamente à lembrança a experiência da ótima série policial americana “The Wire” (2002-2008), que tinha entre seus autores George Pelecanos, Dennis Lehane e Richard Price.

Já em sua segunda temporada, a linguagem de “Força-Tarefa”, no entanto, não é uma novidade completa para Marçal, um experiente roteirista de cinema. É nessa área que ele tem novidades para contar: a adaptação de seu romance “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” começa a ser rodada pelo diretor Beto Brant em agosto, no interior do Pará, com Gustavo Machado e Camila Pitanga nos papéis centrais. Também em agosto estréia a adaptação de “Cabeça a prêmio”, com direção de Marco Ricca.

1. Você tem uma frase famosa sobre os leitores de literatura brasileira formarem uma seita. Qual é a principal diferença entre escrever para uma seita e escrever para os fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana?

- Evidentemente, tenho plena consciência do imenso poder de alcance e de comunicação de uma emissora como a Globo, e é claro que isso é levado em conta na hora de escrever o seriado. A grande diferença é que você tem uma idéia bem mais precisa de com quem e com quantos está falando, ao contrário da literatura, em que isso tudo é insondável, quando não obscuro.

2. Seus livros sempre tiveram um ritmo e uma visualidade que os aproximam do cinema. Se você estivesse hoje com a vida ganha, daria preferência a livros ou a roteiros?

- Costumo brincar dizendo que, no Juízo Final, gostaria de estar na fila dos escritores. Escrevo roteiros e vários outros tipos de texto, inclusive jornalísticos, sempre com grande prazer, mas literatura é a minha casa. Literatura é a coisa pela qual espero ter de responder, no fim.

3. A TV é um veículo que exige absorção total. Está dando tempo de se dedicar à literatura? Para quando é o próximo livro?

- De fato, escrever um seriado de televisão, coisa que faço em parceria com o Fernando Bonassi, tem sido um desafio árduo. Complica bastante o tempo e a disposição para a literatura. Mas, desde 2008, venho escrevendo uma novela, que já tem título – “Como se o mundo fosse um bom lugar” – mas ainda não tem data de publicação.

02/03/2010

às 10:16 \ Três perguntas para...

Tezza: ‘Nossa literatura não existe fora do Brasil’

Cristovão Tezza fará amanhã – o que, com o fuso horário, significa daqui a algumas horas – uma palestra na Austrália, como convidado do Festival de Artes de Adelaide, onde foi parar a bordo do sucesso de seu romance “O filho eterno”. Por email, entre uma Foster’s e outra, o escritor catarinense achou tempo para uma conversa sobre suas experiências nesta fronteira que, de tão pouco explorada, é quase selvagem: a da verdadeira projeção internacional de um livro brasileiro de “ficção literária”. Resumo de sua impressão geral: “A literatura brasileira não existe fora do Brasil. Ponto. Ninguém conhece absolutamente nada daqui, à exceção de meia dúzia de professores universitários”.

1. A que países “O filho eterno” já o levou e onde você sentiu maior receptividade?

– “O filho eterno” já me levou a Portugal, França, Espanha (Barcelona; a tradução foi em catalão!) e, agora, Austrália. O livro saiu também na Holanda e na Itália. Ainda não tenho uma idéia completa da recepção, mas o livro está indo muito bem na França, onde teve boa recepção crítica e ganhou o prêmio anual da Associação Francesa de Psiquiatria, que contempla obras literárias com temas que se relacionam com a área; e na Holanda, também com boa crítica e com boas vendas.

2. Paulo Coelho à parte, temos daqui a impressão de que o mundo não parece interessado na literatura brasileira, e até autores búlgaros gozam de mais boa vontade. Confere? O que os estrangeiros que você encontrou conhecem do que se faz aqui?

– Esse é um fato inescapável: a literatura brasileira não existe fora do Brasil. Ponto. Ninguém conhece absolutamente nada daqui, à exceção de meia dúzia de professores universitários envolvidos em departamentos de literatura brasileira e portuguesa, para consumo escolar e acadêmico, sempre mínimo. Aqui na Austrália levei um certo susto, porque sou praticamente o único autor do Festival de Adelaide (que, além de teatro, dança, música e outras artes inclui uma Semana do Escritor, para a qual fui convidado) de um país em que não se fala a língua inglesa. Conversando com John Coetzee, ele disse que ficou surpreendido com a total “autonomia” da arte brasileira em geral – o que eu entendi como um certo “autismo brasileiro”, uma arte que parece que não tem relação com nada.

3. E o próximo livro, como fica nessa roda-viva? Você é o tipo de escritor que consegue escrever em aeroportos e quartos de hotel?

– Essa é a primeira semana em que não sou mais professor da universidade. Pedi demissão. Quero viver uma vida tranquila agora, ler e escrever com prazer, fazer as coisas mais devagar. Jamais escrevi literatura em hotel – não consigo. Meu novo romance já está praticamente pronto; consegui tirar dois meses de férias, em dezembro e janeiro, para terminá-lo. Deve sair em outubro pela Record.

18/06/2006

às 0:01 \ Três perguntas para...

Antonio Fernando Borges: Influência de Borges? Onde?

A efeméride dos vinte anos da morte de Jorge Luis Borges, na semana que passou, foi marcada pelo bordão de sua “influência crescente” – expressão que está na capa da revista “Entrelivros”, por exemplo, que dedica 19 páginas ao gênio argentino. Isso não existe, acredita o escritor brasileiro que mais gastou páginas para fazer de sua ficção um espelho borgiano do legado de Borges.

Antonio Fernando Borges é autor de uma trilogia tão obsessiva quanto corajosa: “Que fim levou Brodie?” (Record, 1996), “Braz, Quincas e Cia.” (Companhia das Letras) e o recente “Memorial de Buenos Aires” (Companhia das Letras, 224 páginas, R$ 41,50) acertam contas, respectivamente, com Jorge Luis Borges, Machado de Assis e, por fim, os dois juntos. Os três são livros de leitura prazerosa se você aprecia um jogo de referências literárias – é o meu caso. Mas deixam no ar uma pergunta inevitável: quando Borges, o Antonio Fernando, vai sair da biblioteca que Borges, o Jorge Luis, jamais deixou?

Ele garante que já saiu, e que seu próximo romance, em andamento, trabalhará sobre “as referências impuras da realidade”.

Tem se falado muito que a influência de Borges é cada vez maior. É indiscutível que o velho virou um personagem pop, mas será que existe mesmo essa influência em termos literários? Ou seria Borges, como Machado, um daqueles autores originais demais para deixar descendentes?

– Acho que isso que se costuma chamar de influência é, acima de tudo, o reconhecimento de uma genialidade. Mas o máximo que Machado e Borges conseguiram foi um bom punhado de imitadores. Ou seja, escritores que copiam os sinais externos (e exóticos) de suas respectivas obras, passando ao largo do principal: suas visões de mundo, suas reflexões sobre Arte e Vida, etc. Essa originalidade ninguém repete – como todas as legítimas originalidades, por sinal.

E como fica a sua própria obra nesse quadro?

– Digo isso com a consciência tranqüila de quem não se inclui nessa Legião. Meus livros estabeleceram um diálogo explícito com a dupla dinâmica. Sou o pequeno Borges, no máximo, e meu “machado” não é tão afiado quanto o do Bruxo.

Você virou o bicho-papão dos escritores principiantes quando escreveu, aqui no NoMínimo, um artigo em que os aconselhava a se dedicar mais a escrever bem e menos a publicar depressa. Que tipo de respostas recebeu? Mudou de idéia sobre algum aspecto do problema desde então?

– Pois é. A maioria das respostas se limitou a ser um amontoado de ofensas sem argumentos. Apressadas e sobretudo mal escritas, “como queríamos demonstrar”. Quanto a mudar de opinião, digo como Goethe: “Não tenho nenhum compromisso com o erro”. Se a garotada me mostrar que está mais empenhada em aprender a escrever, acima das vaidades de toda uma geração, dou a mão à palmatória. Na verdade, às vezes torço para estar errado em minhas críticas, o que seria sinal explícito de que o mundo não é tão mau assim…

29/05/2006

às 20:00 \ Três perguntas para...

Cristine Costa: os bastidores da escrita

O romancista Milton Hatoum, autor dos ótimos “Dois irmãos” e “Cinzas do Norte”, abre amanhã, terça-feira, às 18h30, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, um ciclo de debates chamado Laboratório do Escritor, dedicado a discutir os bastidores da criação literária. Concebido pelas jornalistas Cristiane Costa e Valéria Lamego, que atuarão como entrevistadoras, o evento apresentará um autor por mês. Depois de Hatoum vão passar pelo CCBB, nesta ordem, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Silviano Santiago, Luiz Vilela, João Ubaldo Ribeiro e Lygia Bojunga. A entrada é franca, com distribuição de senhas. Abaixo, Cristiane, autora de “Pena de aluguel – Escritores jornalistas no Brasil” (Companhia das Letras), explica a idéia.

Por que pôr escritores para falar do seu processo de criação se os bastidores de um livro, com todo aquele escreve-rasga-reescreve, costumam ser um ambiente meio tedioso?

– Em quase toda palestra de escritor a que já assisti, as pessoas acabam perguntando sobre esses assuntos, como uma idéia surge, como um personagem é desenvolvido. A curiosidade é muito grande, mas em geral isso acaba perdido no meio de outros temas e discussões. E achamos que, no final das contas, talvez seja o que mais interessa aos fãs de um autor: saber como ele consegue fazer o que faz. No Laboratório, vamos orientar todas as perguntas para isso, num formato de talk show.

O leitor comum está interessado nisso? Ou o público-alvo é a legião de aspirantes a escritor?

– A gente acha que o leitor comum está interessado, e muito. Principalmente o fã verdadeiro, aquele que é fiel, fascinado por um determinado autor. Isso até orientou a nossa seleção de nomes: todos os escalados para falar são escritores que têm um público cativo e apaixonado. Mas é claro que interessa muito a quem escreve também.

Houve algum autor convidado que tenha recusado, por medo ou talvez pudor de tratar dos segredos da escrita na frente de todo mundo?

– Ninguém recusou. Acho que os escritores até preferem esse formato, porque assim não precisam preparar uma palestra, podem deixar que o tom de conversa prevaleça. A idéia é que, ano que vem, a série seja estendida a todos os CCBBs.

24/05/2006

às 16:38 \ Três perguntas para...

Vilma Arêas: ‘Clarice gostaria do título’

Embora avessa aos salamaleques da glória oficial, Clarice Lispector não recusaria a homenagem dos vereadores do Rio de Janeiro (veja nota abaixo). A opinião é da escritora Vilma Arêas, professora de literatura da Unicamp. Vilma é autora do livro de crítica “Clarice Lispector na ponta dos dedos” (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 35), lançado na Flip do ano passado, que teve a autora de “A paixão segundo G.H” como homenageada.

Clarice teria ficado feliz com o título de cidadã carioca honorária?

– Ela não ficava à vontade nessas ocasiões porque não gostava muito de falar em público, agradecer as homenagens e prêmios que recebia. Mas acho que gostaria do título, porque gostava muito do Rio. Mesmo sendo uma homenagem mais política do que literária, não acredito que recusasse.

Como anda a cotação de Clarice entre os novos leitores? E entre os escritores, existe alguém que seja claramente influenciado por ela?

– As novas gerações continuam lendo Clarice e, o que chama mais a atenção, estão representando muito os textos dela também. No circuito universitário de teatro, vi recentemente adaptações de “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” e “A hora da estrela”. Esta, principalmente, era muito boa, com a Macabéa transformada em personagem coletivo. Quanto a escritores influenciados por ela, não vejo nenhum. É um estilo difícil, muito particular, como o de João Guimarães Rosa e mesmo o de João Antonio. Difícil seguir esses caminhos.

Se um jovem de 14 anos que nunca leu Clarice a procurasse para pedir uma dica de entrada na obra dela, que título você recomendaria? E qual o aconselharia a evitar?

– Eu acho que ele poderia começar pelos contos do “Laços de família”. Entre os romances, talvez “A hora da estrela” pudesse ser uma porta de entrada, por que não? Mas há livros dela que são realmente muito difíceis. “Uma aprendizagem” é um livro complicado, e um garoto que resolvesse começar por “A maçã no escuro” certamente acharia a Clarice impossível de ler.

 

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