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Arquivo da categoria Sobrescritos

05/06/2013

às 13:08 \ Sobrescritos

O último Sobrescrito

“Lá fora espocam foguetes que choram lágrimas incandescentes”, ele escreveu. “Mas não choram mais que Maria Flor.”

Assim terminava a redação de 1975 que nunca lhe saiu da memória. Tinha treze anos e sua presunção, como toda presunção, era feita metade de coisas sabidas – lágrimas metafóricas! o verbo espocar! – e metade de coisas rotundamente ignoradas. O atraso cósmico, por exemplo.

Transformar a tarefa escolar num esboço de conto regionalista dos anos 30 sobre um coitado, o marido de Maria Flor, que os capangas de um coronel provavelmente nordestino matavam por vagas disputas fundiárias em pleno curso dos festejos juninos era para sempre embaraçoso. Talvez desculpável também. Quem sabe nessa idade o que é clichê ou, mais difícil ainda, purple prose?

A professora de português, que devia saber tudo isso, adorou. Leu a redação em voz alta para a turma e apressou a chegada do arrependimento que ia se agravar com os anos, a ponto de levá-lo a passar a vida inteira, livro após livro – não que tivesse consciência disso, era algo que percebia agora, no leito da UTI – renegando no tutano de cada frase que escrevia a própria possibilidade de foguetes derramarem lágrimas incandescentes e serem suplantados no chororô por aquela ridícula Maria Flor.

Quando enfim foi se juntar ao marido dela, era madrugada e não havia fogos lá fora, só o duro silêncio urbano cortado aqui e ali por buzinas, freadas, palavrões. Houve quem chorasse um choro sem metáfora.

10/05/2013

às 11:22 \ Sobrescritos

‘Temperamento imperatriz’: a revolução da spam-literatura

Recebi ontem, de um endereço comercial no Japão, este spam assombroso:

Grandes meios, elementar 財布 メンズ bolsa desimpedido, sem muita modificação, feminilidade esplêndida flor, uma força aliada, é manifestar a propensão pessoal メンズ 財布 e bondade, ela pode imediatamente invertido o seu リュック メンズ imagem. Modelagem atmosférica, queda de galante, este pep-se, não há pintura unblended, o simples primordial refere ainda, notar ser adepto de extraordinariamente todas as vezes para manter 财 布メンズ volta ótimo! Porque você não discernir a próxima segunda-lhe propósito colisão em encontro com quem! Temperamento imperatriz, linda interpretação quixotesca do discreto auto-indulgência リュック レディース posição pessoa, elegância de design polido, para fazer uma fuga através das necessidades avançadas de em voga 財布 メンズ as mulheres.

Todo mundo que tem uma vida online – ou seja, todo mundo – já terá esbarrado com casos semelhantes de algaravia produzida por tradutores automáticos sem noção (com perdão da redundância). No entanto, como tendemos, e não sem razão, a tratá-los como lixo, desconfio que não seja tão comum a epifania que experimentei quando, no início da manhã e ainda não completamente desperto, liguei o computador e fui atropelado.

Será delírio meu, ou achados verbais como “queda de galante”, “interpretação quixotesca do discreto” e o sublime “temperamento imperatriz” são rasgos poéticos selvagemente sintéticos, comentários de lucidez rara sobre a mercantilização da feminilidade (“feminilidade esplêndida flor”, na formulação irônica do poeta incorpóreo) na sociedade pós-industrial? Não creio ser por acaso que o texto termine com um substantivo e enigmático “as mulheres”.

Reconheça-se que a “elegância de design polido” não é o forte da obra, nem poderia ser, dadas as condições de sua produção. Pelo contrário: suas arestas incomodam, machucam. É nos sobressaltos de sua sintaxe transgressiva, convulsa e consciente (“propósito colisão”) e no enigma dos ideogramas que para o público-alvo permanecem indecifráveis que o texto encontra sua revolucionária “modelagem atmosférica”. O efeito estético buscado – e corajosamente explicitado perto do fim – é o de uma “fazer uma fuga através das necessidades avançadas”. O que mais restaria ao homem contemporâneo, perdido e paradoxalmente solitário em sua rede universal e infinita de conexões solipsistas?

Que tão acachapante obra-prima tenha sido engendrada ao acaso pelo desejo de vender bolsas de couro sintético fabricadas do outro lado do mundo é apenas mais um dos mistérios que a cercam. Talvez os ideogramas expliquem.

06/05/2013

às 15:02 \ Sobrescritos

O jogo

Primeiro era o prazer infantil de pôr uma palavra depois da outra, encaixes de dominó. Depois que os encaixes em si perderam a graça, fáceis demais, veio a ambição de usar as sequências de peças para desenhar coisas no chão: bichos, casas, cidades. Ainda era uma ambição infantil, mas já continha o germe da fase seguinte, quando os desenhos começaram a parecer bobos, constrangedores, esquemáticos em sua bidimensionalidade de criança. Do lado de fora do jogo ficava o mundo inteiro com seus bichos de verdade, casas de verdade, cidades de verdade. Para desenhar o mundo em sua profundidade enigmática era preciso criar novos encaixes, superpor as peças do dominó rumo a uma nova dimensão: aspirar ao teto. Isso abriu uma fase de dificuldades imensas, torres penosamente empilhadas desabando sob o peso daquela última peça chamada ponto final, e com ela a temporada da frustração permanente – o fracasso como modo de vida – que só não provocou o abandono do jogo porque descobria-se na própria persistência uma nova e perversa modalidade de prazer infantil. Muitos anos depois, quando as torres começaram a se sustentar em pé e o espaço entre o chão e o teto se encheu de formas belas com suas sutis perspectivas, suas passagens secretas entre planos impensáveis, seus terraços recendentes a jasmim dando para lagos lisos de cobalto ao pôr do sol, só então nasceu a certeza de que tudo aquilo, não sendo mais obra ao alcance de uma criança, era ainda, e sempre, nada além de um prazer infantil. Foi um momento terrível. O mundo fora do jogo voltou a pulular, sua profundidade mais enigmática do que nunca, e agora sobrepunha-se a ele o mundo dentro do jogador. Fundi-los era um desafio tão invencível quanto a morte, mas já não havia escolha. Primeiro foi preciso derrubar aquela beleza toda – torres, terraços, jasmim, pôr do sol. Depois, uma palavra depois da outra, criança encaixando peças de dominó, recomeçar.

08/04/2013

às 15:52 \ Sobrescritos

A origem da tragédia em 17 tweets

1. Ga era seu amigo. Matavam bichos, dividiam a carne, raramente trocavam socos.

2. Deixou Ga sozinho na mata no dia em que foi tomar banho no rio e lá conheceu Fia.

3. Fia foi morar em sua loca e ele passou a caçar sozinho. Teve que bater um pouco em Ga para ele ir embora.

4. O mundo ganhava nomes com Fia. Espuma da água. Cangote cheiroso. Fenda apertada.

5. Começou a prestar mais atenção no poente. Ensaiou batizar as cores em prisma na imensidão do céu.

6. A barriga de Fia cresceu. Muitos poentes depois, nasceu Uh. Uh era como Fia: mulher. Pensou em matá-la, mas desistiu.

7. Um dia, Uh já era mais alta que um cabrito, a caçada o levou longe. Passou três sóis e duas luas afastado de sua toca.

8. Voltou um início de noite com dois cabritos mortos e encontrou Ga e Fia se lambendo junto do fogo. A pequena Uh olhava.

9. Matou Ga com o bom facão de pedra lascada, rasgou sua barriga, depois cortou seus bagos e espremeu-os entre os dedos.

10. Fia aproveitou o tempo que essas ações tomaram para sair correndo mata adentro, Uh em seu encalço.

11. Estava escuro. Esperou. Começou a assar um cabrito. O cheiro de carne queimada se espalhou. Grilos cantavam.

12. “Comida”, gritou para a mata. Um tempo depois, Fia veio e ele lhe deu de comer. Ela quis falar, ele tapou sua boca.

13. Sacudiu a cabeça: “Não! Comida”. Assim que Fia acabou, fez um talho fundo em seu pescoço e a deixou gorgolejar até morrer.

14. A pequena Uh, não. Amanheceu e ela não veio. Foi encontrá-la, dia claro, no alto de uma árvore. “Melhor: assim só empurro”, pensou.

15. Foi em frente às cegas, mas um rudimento de moral raiava, esmagando-o. Seu ato era enorme: não cabia testemunha.

16. Ao chegar ao alto da árvore, Uh o atacou com unhadas nos olhos. Teve que apagá-la com um soco na cara.

17. Desceu da árvore com Uh nos ombros. Jogou água em seu rosto. Fez ela comer. Naquela mesma noite tinha outra mulher.

13/03/2013

às 16:01 \ Sobrescritos

O PM e o revisor

Ia entrar na garagem de seu edifício quando um PM fortão de cabeça raspada fez sinal para que encostasse o carro. Obedeceu, claro. Baixou o vidro da janela.

– Boa noite, cidadão. Seu farol está queimado.

– É mesmo? – ele fingiu que não sabia, lendo a identificação do homem no bolso do uniforme: sargento Hudson. – Prometo consertar amanhã cedo, sargento.

– Mas isso é uma infração, cidadão. Como é que fica?

Claro, que coisa mais previsível: o cara queria levar uma grana. Mas não ia levar. Ele não compactuava com corrupção.

– Bom, se tiver que me multar…

– O que é isso, cidadão, não tem escopo nem determinismo. O senhor é revisor, positivo?

O primeiro efeito daquelas palavras foi deixá-lo confuso, depois com medo. Como o sargento Hudson sabia que ele era revisor? Será que os medíocres livros de auto-ajuda e elevação espiritual que garantiam seu sustento, e com os quais se relacionava com envergonhada discrição, tinham deixado alguma marca traiçoeira em sua testa? Confirmou:

– Como sabe disso, sargento?

O homem riu.

– Não precisa se assustar, cidadão. Não vamos causar malefício a si. Provemos a segurança aqui da área, conhecemos todo mundo. Gostaríamos de fazer um inquérito de tópico privativo: então dá para dizer ao pé da letra que os escritores escrevem errado?

– Bom – ele hesitou – claro. Todo mundo erra às vezes.

Hudson abriu um sorriso satisfeito. Suas manoplas deram tapinhas nas coxas, fazendo balançar o trabuco negro aprisionado no coldre de couro lustroso.

– Eu sabia, eu sabia. Nós também erramos, cidadão. Erramos bastante, não obstante a gente se dedicar diuturnamente a errar menos.

– Não sei se estou entendendo.

– Agora perplexamos o senhor, positivo?

– Como?

– Ficou pasmático? Cultura geral, conhecimento, valorizamos muito tudo isso. Estamos cometendo a suprema ganância de escrever um livro, cidadão, e vamos ficar desveladamente honrados se um revisor tão prolixo consertar os erros inopinosos de gramática e prosódia que contaminam nossa prosopopeia. Tão honrados que vamos até esquecer a multa, positivo?

Não esperou a resposta: já estava passando um gordo envelope pardo pela janela.

– Hã, tudo bem, sargento – ele gaguejou, lamentando não compactuar com corrupção. Ou será que aquilo também era corrupção? – Posso ir agora?

– Positivo, cidadão revisor. Daqui a uma semana retornamos a procurar o senhor. Sabemos onde o senhor reside – disse Hudson com um sorriso que, mesmo aberto e franco, não conseguiu impedir suas palavras de soarem como uma ameaça.

06/02/2013

às 12:26 \ Sobrescritos

História de trás pra frente

José Villoso, o escritor mais popular da história de Antares, a pequena ilha do Caribe, morreu aos noventa e um anos. Era gordo, rico e famoso, mas amargurado. Dizem que suas últimas palavras foram: “Os críticos que rezem bastante para a morte ser o fim de tudo. Porque, se não for, eu juro que volto para pegar esses cabrones”.

Villoso tinha sido a ausência mais notada no enterro, dez anos antes, de seu ex-amigo Juanito Penafort, o maior nome das letras de Antares. Ignorado pelo grande público, que passava longe de compreender uma arte rigorosa em que o experimentalismo se punha a serviço da ampliação das fronteiras do literário, Penafort morreu magro e pobre. Era considerado um deus pelos críticos.

O popular Villoso e o cultuado Penafort nunca mais se falaram depois de travarem uma polêmica amarga nas páginas do principal jornal de Antares, chamado justamente Jornal de Antares. Aos cinquenta e muitos anos, eram ambos nomes sólidos em suas respectivas praias literárias. Villoso escreveu um artigo em que chamava Borges de “ceguinho pomposo”. Penafort replicou com violência, houve tréplica, contratréplica, deu no que deu.

Até o episódio da briga, Villoso e Penafort tinham sido o Gordo e o Magro da imprensa antarense. Repórteres e leitores adoravam o contraste cômico entre eles – literário, financeiro e corporal – e se enterneciam com o fato de, apesar disso, serem ambos tão fiéis a uma amizade que vinha da infância. “José Villoso é o maior escritor de Antares”, dizia Penafort. “Nada disso, o maior escritor de Antares é Juanito Penafort”, dizia Villoso. E se abraçavam rindo.

Pouca gente sabia que os primeiros livros escritos por ambos, ainda nos tempos da Faculdade Antarense de Direito, tinham permanecido inéditos. O de Villoso era um romance cubista de quinhentas páginas que narrava, numa multiplicidade de pontos de vista e idiomas – alguns deles inventados – o período de um minuto e meio transcorrido entre dois sinais vermelhos em certa esquina da capital. O de Penafort era uma novela policial ensopada de sangue e sexo.

Quando tinham quinze anos, José e Juanito ganharam permissão dos pais para acampar durante um fim de semana no parque nacional próximo à capital, famoso por suas cachoeiras. Lá toparam com uma cabana na mata e ajudaram sua moradora, uma velha decrépita, a recuperar três cabritos que tinham fugido de um cercadinho tosco. Agradecida, a mulher serviu café aguado com pamonha de milho roxo em sua choupana. Disse que era feiticeira e que cada um tinha direito a um desejo.

26/12/2012

às 10:19 \ Sobrescritos

Destaques 2012 (IV): cinco Sobrescritos

Geração 90 na revista ‘Grandpa’: anatomia de uma tragédia

Em retrospecto, pode-se afirmar que as sementes da calamidade foram lançadas quando correu a notícia de que a revista Grandpa dedicaria uma edição inteira aos escritores brasileiros com mais de noventa anos. A princípio não seria possível distinguir agitação alguma na superfície do lago estético que a imprensa, dividida, ora chamava de “melhor literariedade”, ora de “verdadeira geração noventa”. Os principais nomes do movimento souberam disfarçar o nervosismo diante de seus tabuleiros de damas na pracinha, ajudados pelo fato de que o tremor nas mãos não era exatamente uma novidade. Dentaduras duplas camuflavam os dentes afiados metafóricos. Bengalas e andadores escondiam tacapes e estiletes, e fraldões geriátricos, a disposição generalizada de cobrir de barro a reputação dos colegas. (Leia mais.)

Nelson Rodrigues está vivo e tuitando

Imagine que Nelson Rodrigues não morreu. Às vésperas de completar cem anos, tem um blog chamado A vida como ela ainda é, que atualiza dia sim, dia não (a idade pesa), embora mantenha com as tecnologias digitais uma relação irônica e cheia de ambiguidade. Aproveita-se do que elas têm de prático, mas sente falta do teclado pesado da máquina de escrever. Só consegue continuar publicando porque já não precisa frequentar redações, resolve tudo do sofá de casa, mas morre de saudade do papo furado com os colegas da Geral e do Esporte. Acha que a humanidade se amarrou de bom grado ao pé da mesa e que o computador pessoal, o notebook, o smartphone, o tablet – que nomes absolutamente abomináveis! – não passam de versões metidas a besta da cuia de queijo Palmira. (Leia mais.)

A vergonha do rei

O rei tinha vergonha de escrever versos. A atividade lhe parecia claramente indigna de um monarca: catar palavras que andavam aos pinotes por aí, debochadas, malucas, incursas em crime explícito de lesa-majestade, e convencê-las sabe-se lá a que preço a contar em jogral tosco, num palco de palito e papel, o que era indizível de saída. Ocupação nada real, evidentemente. Vício de duque ou visconde, vá lá: que mal podia haver num soneto que rimava rosa com vaporosa se se perdoavam fraquezas até maiores nos nobres, havendo os mais fracos entre eles que davam mesmo para devassos, ladrões, assassinos, por que não poetas? Rei era diferente. Civilizar o mundo, manter coesa a massa dos homens para mais bem erguê-los da barbárie, isso era trabalho de rei. Anexar terras, matar a mancheias, ofuscar o sol era trabalho de rei. Só que o rei, mesmo morrendo de vergonha, não parava de escrever versos. (Leia mais.)

Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’(I)

Encontrei o ex-escritor Silvério Sombra em seu sítio, que ele batizou de Itaguaí por motivos que veremos adiante, embora não se situe na cidade fluminense. O sigilo sobre a localização da pequena propriedade rural de Sombra é apenas uma das cláusulas restritivas que ele impôs como condição para conceder sua primeira entrevista desde que, há sete anos, abandonou tanto os círculos literários em que tinha atuação frenética quanto a própria literatura, recusando-se a acrescentar – conforme suas últimas palavras públicas – “uma linha que seja a uma obra que espero ver esquecida para sempre”. (Leia mais.)

Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’(II)

“A literatura é uma festa estranha com gente esquisita, como diz o Raul Seixas”, afirma Sombra. “Renato Russo? Ou isso. Festa estranhíssima com gente esquisitaça. Vermes e vermífugos, ególatras, mercenários, doentes, pavões sem mistério nenhum, urubus, hienas, águias de olho furado, comerciantes frios, menininhos lânguidos e ciumentos, meninas de olhar duro, uma gente sem alma e com idade emocional de nove anos. Um dia eu olhei para aquela fauna, depois pro espelho. Me lembrei com clareza de doer da minha miragem inaugural, que era uma beleza de miragem, e de repente entendi.” (Leia mais.)

10/12/2012

às 13:29 \ Sobrescritos

O curioso caso do padre Simão

“Santo Agostinho e o demônio”, de Michael Pacher (1430–1498)

A dar fé ao viajante inglês William Boyd Sennett, que em 1819 teria tido diante dos olhos as memórias posteriormente perdidas do então recém-falecido bispo Antônio Simão das Neves

(e não vejo por que não lhe dar mais fé do que à arenga anticlericalista e factualmente vaga que no fim daquele século publicaria em São Paulo o anarquista Vicenzo Cucco, outra fonte habitualmente consultada pelos estudiosos da história de Simão),

a dar fé a Sennet, como eu ia dizendo, no rigoroso inverno mineiro de 1777 o então jovem padre baiano viu-se com a alma “toda em farrapos”, numa crise de fé que teria como fulcro o amor (se platônico ou carnal, nunca se pôde comprovar) por dona Maricota, esposa de um comerciante de pedras preciosas de Vila Rica chamado Olegário,

o que bem poderia configurar incidente banal ou ao menos não muito destoante das provações sensuais enfrentadas por tantos homens de batina ao longo dos séculos, porém

(ai, porém),

naquele instante demoníaco o futuro bispo se pôs a febrilmente deitar palavras ao papel em surto logorreico de todo semelhante a um transe de possessão, ao qual não faltavam olhos revirados, gemidos de dor excruciante e uma espuminha a borbulhar nas comissuras da boca,

episódio aterrador e jamais explicado pela ciência que durou (o relato do ilustre estrangeiro é preciso neste ponto) três meses, dezessete dias e nove horas, resultando nos quatro livros hoje lendários que implicariam gravemente o padre Simão com o Santo Ofício,

livros sequenciais que levavam, segundo Sennett, os títulos enigmáticos de Romantismo, Modernismo, Após-Modernismo e Óbito da literatura

e que, se terminaram por não custar ao seu autor a morte na fogueira, tendo Simão escapado no último minuto graças a poderosos e insuspeitados pistolões, não puderam evitar as chamas eles mesmos e logo eram cinzas dispersas pelos ventos de Minas,

a que os poetas chamam postilhões de Éolo,

tudo o que restou de tais obras sendo a reminiscência fantasmal de um bispo arrependido em suas memórias de idoso, estas por sua vez também desaparecidas e conservadas apenas na lembrança de um viajante inglês, motivo pelo qual não estamos certos de haver fundamento na tese hodiernamente sustentada por um ou dois eruditos mais trêfegos de que, tivesse aquela tetralogia de Antônio Simão das Neves sobrevivido à Inquisição,

seria inteiramente outra a história da literatura brasileira e universal.

02/11/2012

às 12:56 \ Sobrescritos

Finados (mantra do escritor obcecado)

Cervantes morreu em 22 de abril de 1616.

Shakespeare o acompanhou um dia depois, 23 de abril de 1616.

Sterne R.I.P. em 18 de março de 1768.

No século seguinte, também em março, dia 22, do ano de 1832: Goethe.

Flaubert tinha então dez anos, e 58 ao parar de envelhecer, em 8 de maio de 1880.

Machado foi fazer companhia a Brás Cubas no dia 29 de setembro de 1908.

Mais dois anos e Tolstoi perdeu a guerra, tomara que para encontrar a paz: 20 de novembro de 1910.

Em 3 de junho de 1924 foi a vez de Kafka sair da vida, mas aquilo era vida?

Joyce começava então a escrever o Finnegans Wake. Em 13 de janeiro de 1941, levou-o a peritonite.

Rosa completou sua travessia de homem humano em 19 de novembro de 1967, três dias depois de virar imortal.

Em 1977, Nabokov se foi em 2 de julho e Clarice em 9 de dezembro, no pós-parto de Macabéa, um dia antes de completar 57.

Conclusão: escrever é tão perigoso quanto viver.

E eu mesmo não estou me sentindo muito bem.

10/09/2012

às 15:10 \ Sobrescritos

Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’ (II)

'Amolação interrompida' (1894), de Almeida Júnior

Esta é a segunda e última parte da entrevista que fiz com o ex-escritor Silvério Sombra, que há sete anos abandonou as lides literárias para criar galinhas num pequeno sítio chamado Itaguaí. A primeira parte pode ser lida aqui.

A mulher feia que a juventude embeleza é uma metáfora da sua própria obra? Ou da literatura em geral?

– (risos) É a metáfora de uma metáfora. Uma metáfora para acabar com todas as metáforas. Tudo é metáfora nesse negócio, vê só que porcaria. Demorei a entender o que estava errado. Que tinha alguma coisa errada, tinha. Aquela não era a minha turma. Entrei nesse negócio perseguindo uma miragem, como imagino que todo mundo entre. Um dia lá, perdido na infância, um Robinson Crusoé qualquer, uma Emília, um Zezé do Pé de Laranja Lima puxa um neurônio pra cá, outro pra lá, uma sinapse nova faz zapapof e aí já viu, está feito o estrago. O coitado vai passar o resto dos seus dias perseguindo uma coisa que não sabe direito o que é, querendo fazer parte daquilo. Nesse caminho ele muda de gosto, renega o passado, refina, escolhe a dedo uma meia dúzia de desafetos, quase sempre fica bastante besta, mas a miragem vai ser até o fim aquela dos tempos de moleque. Até aí, beleza. Eu podia ter ficado nessa, bem feliz ou não tão infeliz, até morrer, se não fossem as companhias.

Você se refere às companhias editoriais?

– Não, me refiro às companhias. Ao resto do pessoal. A literatura é uma festa estranha com gente esquisita, como diz o Raul Seixas.

Renato Russo.

– Ou isso. Festa estranhíssima com gente esquisitaça. Vermes e vermífugos, ególatras, mercenários, doentes, pavões sem mistério nenhum, urubus, hienas, águias de olho furado, comerciantes frios, menininhos lânguidos e ciumentos, meninas de olhar duro, uma gente sem alma e com idade emocional de nove anos. Um dia eu olhei para aquela fauna, depois pro espelho. Me lembrei com clareza de doer da minha miragem inaugural, que era uma beleza de miragem, e de repente entendi. Foi um choque, viu? Fiquei de cama duas semanas, quase morri. Mas foi o que me salvou.

O que você entendeu?

Silvério Sombra não respondeu logo. Teve um acesso de riso, depois um acesso de tosse. Acendeu com um pedaço de lenha o cigarro de palha que tinha apagado entre seus dedos, murmurando para si mesmo palavras incompreensíveis, e fumou em silêncio por alguns minutos. Um cheiro delicioso de alho frito subia do caldeirão de Mirtes. Reformulei a pergunta:

Que revelação foi aquela que o chocou?

– Temos mesmo que falar disso, né? Que seja. Lembro que eu estava lendo o último artigo de um crítico da moda, esqueci o nome dele, nem sei se escreve ainda. Era um sujeito que via a literatura como um vírus para o leitor hipocondríaco: suas imagens ficavam todas no campo da derrubação, da febre, da maleita, do balbucio tiritante. O texto do cara tinha uns arrepios de moçoila virgem encoxada por um estranho corpulento no ônibus lotado. Parei de ler aquilo com engulhos e abri o livro de uma professora famosa, que dizia umas coisas mais viris, mais assertivas, só que eu não entendi uma palavra. Ela falava em variáveis estocásticas e dissonâncias anticontemporâneas, enrolol puro. Quer dizer: num caso eu entendia tudo, mas passava mal; no outro eu queria gostar, mas aquilo não fazia sentido nenhum. Esse momento foi decisivo. O processo da minha iluminação com certeza vinha de longe, mas foi ali que eu entendi. Descobri que a minha única salvação era tomar a maior distância possível daqueles dois. Se eles moravam no Brasil, então eu ia morar na China. Aí vim.

Mas nesse caso seu sítio não deveria ter um nome chinês? Por que Itaguaí?

– (risinho envergonhado) Ah, isso foi a minha concessão final à literatura. Meu aceno de adeus. Itaguaí é a cidade onde fica o hospício do grande Simão Bacamarte, meu último herói. Feito ele, eu também comecei achando que loucos eram os outros, que eles é que não entendiam a literatura. Até descobrir que estavam todos certos, os vermes e as hienas, a águia cega, os pavões sem mistério, os urubus, não era possível que estivessem todos errados. Mas se a literatura era aquilo que eles diziam que era, então o louco, lógico, era eu. É por isso que “Raduan sem Lavoura” é um bom apelido, mas “Alienista sem Machado” é melhor. Você escolhe. Não estou nem aí. Essa galinha ao molho pardo da Mirtes está cheirando bem, não está? Eu convidaria você para almoçar, mas o caminho de volta é longo, melhor picar logo a sua mula.

 

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