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06/09/2010

às 14:57 \ Sem categoria

Meu pai

Meu pai tinha uma coleção Clássicos da Literatura Universal, capa dura marrom com letras douradas, papel âmbar, graças à qual, aos dez anos de idade, passei semanas ou séculos (o tempo é diferente quando se tem dez anos) engalfinhado com a prosa opaca e vagarosa do “Ivanhoé” de Walter Scott, tentando entender palavra por palavra, crente que o que eu não entendia só me fazia melhor.

Da mesma coleção li Flaubert, Tolstoi, Turgueniev, Wilde e Knut Hamsun antes dos quatorze. Quer dizer: muito cedo foi tarde demais. Tudo entremeado com Erico Verissimo, que também reivindicava seu metro e meio de estante nas obras então completas da editora Globo de Porto Alegre, capa dura azul. Os prefácios espirituosos que o pai de Clarissa tinha escrito para todos os volumes, desvelando os bastidores da literatura, deram o empurrãozinho que faltava: tarde demais, sem dúvida nenhuma. Para o bem ou para o mal, eu ia ser escritor e pronto. Meu pai ficou preocupado com a notícia.

Meu pai tinha também uma edição inglesa de “David Copperfield” no fundo da parte de cima do armário de seu quarto, com assinatura na folha de rosto – uma assinatura espalhada e confiante de jovem, diferente do jamegão adulto estilizado que eu admirava intensamente – ao lado de uma data esquecida dos anos 50. No dia em que encontrei esse livro por acaso, eu já devia ter mais de quinze. Lembro que a descoberta me lançou num estado confuso de agitação. Entre os sentimentos malformados que se chocavam dentro de mim, um era certamente o orgulho filial de saber que meu pai, homem pragmático, um dia lera – ou tentara ler – literatura inglesa no original, algo que parecia inalcançável para simples mortais como nós, nascidos no interior de Minas. Mas havia também uma estranheza: por que Dickens não estava na estante com Verissimo e os Clássicos da Literatura Universal? Meu pai sentia vergonha dele? De sua ambição intelectual juvenil? Do pouco que se aprimorara no inglês? Tinha renegado a literatura?

Pensando bem, não me lembrava de meu pai lendo Verissimo, Flaubert, Tolstoi, Wilde. Minha mãe sim, mas não ele. Eu sempre havia imaginado que esses livros já estivessem devidamente devorados quando passei a me entender no mundo, mas agora uma outra ideia se formava: e se meu pai, homem inteligentíssimo, tivesse em nome da vida prática de bancário com quatro filhos para criar abafado sua paixão juvenil por literatura a tal ponto que, embora fizesse pleno sentido assumir as grandes coleções, que afinal eram decorativas, havia que esconder bem escondido aquele “David Copperfield” desesperadamente romântico, solitário, eloquente, denunciador?

E mesmo assim ele não o tinha jogado fora.

Nunca mencionei aquele livro com meu pai. Menciono agora, mas desde 6 de setembro de 2005, cinco anos cheios, ele já não pode responder. Tivemos tempo para conversar sobre muita coisa, e também para que ele fizesse a migração, creio que alegremente, da culpa por ter sido tão negligente na exposição da família àqueles artigos perigosos até uma espécie de orgulho do filho que, bem ou mal, tinha mesmo virado escritor, algo que parecia inalcançável para simples mortais como nós, nascidos no interior de Minas. De Dickens, porém, nem uma palavra.

Sempre é cedo quando fica tarde demais.

08/08/2010

às 19:58 \ Sem categoria

Leitura de escritores fecha a Flip

Nada de debates de ideias. Nada de perguntas difíceis de responder. Tradicionalmente leve, a mesa final da Flip reuniu alguns dos escritores do evento para a leitura de trechos de seus autores preferidos. Confira abaixo uma relação com alguns dos convidados da mesa, hegemonicamente estrangeira, seus livros favoritos e as justificativas de suas escolhas.

Beatriz Bracher
. Leitura: trecho do romance Angústia, de Graciliano Ramos
. Justificativa: “Foi o primeiro autor que me deu a noção clara de que escrever não tinha a ver apenas com aprender ou sentir, mas também com viver”.

Reinaldo Moraes
. Leitura: trecho de Memórias de um Sargento de Milícias
. Justificativa: uma dos principais obras da literatura brasileira, foi escrita por Manuel Antônio de Almeida quando tinha menos de 21 anos. “Um certo prodígio”, disse Moraes. “E é um romance sobre um malandro do século XIX, que se apaixona por uma garota pobre, se liga a cinganos, vai a festas de negros, ele é da pá virada.”

Lionel Shriver
. Leitura: trecho de A Era da Inocência, de Edith Wharton
. “Eu sei que parece inexplicável, mas eu sou admiradora de Edith, porque ela gosta de estilo e entende como convenções sociais podem levar a tragédias. A convenção social, no caso de A Era da Inocência, era o casamento. Já era legal se divorciar nos Estados Unidos, mas era também algo muito mal visto.”

A. B. Yehoshua
. Leitura: trecho de O Som e a Fúria, de William Faulkner
. Eu tenho certeza de que muitos escritores sul-americanos aprovariam a minha escolha. Muitos críticos disseram que o que Faulkner fez pela literatura moderna foi maior que o que Beethoven fez pela música. Faulkner escreveu sobre uma família, às vésperas de seu declínio, em terceira pessoa, a partir de monólogos internos. Isso me mostrou que ele não queria agradar o leitor, mas ao mesmo tempo ele aproximava o leitor de seu texto. Ele começa com um deficiente mental, que confunde passado e presente como uma criança de 3 anos, mas ele tem 33. Não há uma descrição sobre essa pessoa, que aparece chorando e berrando, até o quarto capítulo. Ele é negligenciado pela família, e fica nas mãos dos empregados da casa. Pela leitura, você começa a se identificar com o menino, que entra em você, por essa técnica de escrita, que é sofisticada e perfeita.”

Azar Nafisi
. Leitura: coletânea de poetas selecionados pela autora
. Justificativa: são poetas com que ela se indentifica por por ter a mesma que ela ou por terem vivido deslocados em países difíceis – Azar é iraniana e crítica ferrenha do regime islâmico de Mahmoud Ahmadinejad. “Eu quero ir para casa e ler as escolhas de todos aqui. Bem, ao escolher livros eu sou muito promíscua. São todos amantes maravilhosos. Como eu não posso ter um manual de sobreviência numa ilha deserta, vou criar um livro de poesias onde muitos deles estarão presentes”, disse. “Vou ler poemas de autores insulares, que viveram deslocados em países e tempos difíceis. O primeiro deles foi (o judeu húngaro) Miklós Radinóti, assassinado por fascistas. Seu corpo foi enterrado em uma cova comum.” Azar leu também versos do poeta épico iraniano Ferdosi, que trabalhou no século VII e foi resgatado no século XI, por interessados em relembrar a identididade do país. “Meu pai dizia, ‘Esse país já foi invavido tantas vezes que a única forma de manter sua identidade é pela língua e pela poesia’”.

Maria Carolina Maia

08/08/2010

às 17:46 \ Sem categoria

Wendy Guerra, o culto à primeira pessoa e o paternalismo


Teve um público modesto a mesa “Cartas, Diários e outras Subversões”, que reuniu as escritoras Carola Saavedra, chilena naturalizada brasileira, e Wendy Guerra, cubana nunca editada em seu país. Com mediação do também escritor João Paulo Cuenca, elas conversaram sobre como a figura paterna – ou a figura masculina forte – está presente em seus livros (Nunca Fui Primeira-Dama, de Wendy, e Flores Azuis e Paisagem com Dromedário, de Carola) e sobre a exposição do escritor em sua obra. Wendy, que foi apresentadora de TV em eu país – “Uma espécie de Xuxa cubana” – disse que tem preferência pela narração em primeira pessoa.

“Tenho um trabalho performático em primeira pessoa”, reconheceu a escritora, que já posou e realizou performances nua em galerias de arte. Tudo pela arte, aliás. Wendy faz questão de dizer que não consegue separar a arte da vida, por ser filha e amigas de artistas – e possivelmente, vale a interpretação, por essa ser uma forma de transcender as regras restritivas do regime sob o qual vive.

Sobre a presença firme de Fidel Castro em Cuba, Wendy revelou sentir tanto objeção quanto fascínio. “Eu sou dupla. Uma vez, estive em dúvida sobre a minha paternidade e disse à minha mãe, que era uma escritora maravilhosa e nunca foi editada, ‘Cuidado para que eu não seja filha de Fidel, ou eu seria muito forte’”, disse, demonstrando sua admiração pelo cubano, para em seguida lembrar do que a desagrada em Cuba. “É uma sociedade em que oferecem tudo a você, saúde, educação, e é preciso pagar um alto preço por isso. Nós estamos paralisados, sempre esperando algo deles, vivemos assim, é muito paternalista.”

Cuenca – que abriu a mesa agradecendo ao governo cubano por liberar a escritora para a festa – contou que andou com Wendy de lancha em Paraty, e que teve medo da velocidade imposta por ela. “Eu gusto de sentir que posso controlar minha vida, algumas vezes”, comentou ela.

Já Carola Saavedra falou mais de sua obra, contando que busca formas diferentes de contar as histórias de sempre – já que uma história original é algo hoje difícil, se não impossível, de alcançar – e que sempre sente medo de não conseguir escrever o próximo livro. “Quando eu faço um livro, nada me garante que eu farei outro. Pode ser que aquela fonte misteriosa de ideias seque.”

Sobre o tema da figura masculina forte, Carola argumentou que a mulher não se apaixona pela figura física, mas pela figura de força psíquica – o homem que sabe algo, “de repente, algo sobre você mesma”. E disse que, no triângulo escritor-livro-leitor, o escritor é quem deve ser excluído. “Não interessa o que o escritor quer dizer em um determinado livro, interessa o que ele disse e o que o leitor entende do que ele disse. É a relação entre o livro e o leitor que interessa.”

Maria Carolina Maia

08/08/2010

às 2:44 \ Sem categoria

Filme de Saramago é um longa sobre a morte, diz diretor, que ataca o governo português

Uma edição especial de José e Pilar, com 40 minutos de imagens que foram incluídas e de outras que ficaram fora do documentário sobre a intimidade do escritor português José Saramago e sua mulher, a jornalista espanhola Pilar Del Rio, fechou a programação da Flip neste sábado. Um sábado sem grandes acontecimentos. A mesa dos cartunistas underground Robert Crumb e Gilbert Shelton, que era uma das mais aguardadas da festa, decepcionou. A do poeta Ferreira Gullar constituiu mais uma homenagem que um debate. Também a sequência de cenas de José e Pilar foi morna. O filme parte da ideia de mostrar a intimidade do escritor. E acaba tendo seu ponto mais interessante na abordagem da morte – não só porque Saramago já estava doente durante as filmagens, mas também porque o olhar do diretor, o português Miguel Gonçalves Mendes, o conduziu a isso. “O filme é sobre os dias atuais e como lidamos hoje com a morte”, disse Mendes. “Esse é um tema forte para mim. Morro de medo de morrer.”

José e Pilar será contado em ordem cronológica, porque as 230 horas de gravação feitas por Mendes acabaram acompanhando o processo de feitura de A Viagem do Elefante, um dos últimos livros de Saramago. Aos 84 anos, o escritor conta que não tira férias há 20, e que não consegue parar, porque sente a proximidade da morte e a urgência de escrever.

Outro ponto forte da sessão foram as críticas de Mendes a Portugal, e em especial ao presidente Aníbal Cavaco Silva, que chamou de “idiota”. “O nosso presidente é um idiota, não foi ao enterro de Saramago. Mas, também, o que se pode esperar do homem que vetou a indicação de O Evangelho Segundo Jesus Cristo ao Prêmio Literário Europeu”, disparou Mendes, lembrando o caso que deixou o escritor desgostoso com seu país e o fez mudar para a Espanha. “E as pessoas em Portugal ainda o consideram traidor por causa disso. As pessoas são estúpidas.”

O filme também revela o papel importante de Pilar na vida do marido. A jornalista, que possuía uma carreira consolidada na Espanha, deixou tudo de lado para se dedicar a trabalhar para o escritor, acompanhando-o em viagens, ajudando na triagem dos convites recebidos e opinando sobre a sua obra. “Eles brincavam, a dizer que estavam juntos havia 60 anos, porque passavam todo o tempo juntos.”

Na verdade, Pilar e Saramago foram casados por cerca de 20 anos. Quando o escritor conheceu a jornalista, ele já tinha mais de 60 anos. O encontro marca a cena final do filme, por meio de uma apaixonada declaração do português para a espanhola. “Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de te conhecer, teria morrido muito mais velho que agora.”

Maria Carolina Maia

07/08/2010

às 20:58 \ Sem categoria

Ferreira Gullar recapitula vida e obra

Teve tom biográfico a mesa “Gullar, 80″, protagonizada pelo maranhense Ferreira Gullar no fim da tarde deste sábado, em Paraty. Numa conversa com o especialista em teoria literária Samuel Titan Jr., Gullar relembrou o início da carreira, com o livro Um Pouco Acima do Chão, que não reedita por considerar muito parnasiano, sua contribuição para o surgimento do movimento de poesia concreta, com que romperia depois, seu engajamento no neoconcretismo e o nascimento do Poema Sujo, o exílio, em Buenos Aires, quando as ditaduras grassavam na América Latina e ele se achava “sem saída, vendo as pessoas desaparecerem”. O Poema Sujo foi uma forma de “escrever o que restava dizer.”

Segundo Gullar, o Poema Sujo foi escrito num jorro, mas ficou incompleto, porque a inspiração acabou. Até que um dia ele conseguiu talhar os versos finais do poema – a poesia, como ele mesmo diz, não se pode controlar, ela surge quando quer, ela vem do imprevisível. Numa visita à Argentina, Vinicius de Moraes ouviu do dramaturgo Augusto Boal, em um jantar, que Gullar havia feito um texto longo e que não o mostrava a ninguém. Vinicius insistiu em conhecer o poema e fez com que o maranhense o recitasse. Ao final, ficou comovido – “O que não era raro”, lembrou um divertido Gullar – e convenceu o amigo a registrar em áudio o texto. De volta ao Brasil, o poetinha providenciou a publicação do Poema Sujo, que aconteceu sem a presença de seu autor.

O exílio de Gullar pode ser explicado por suas posições políticas: embora não apreciasse a disciplina partidária e gostasse de “pensar pela própria cabeça”, quando os militares tomaram o poder no Brasil, em 1964, o poeta entendeu que precisava se posicionar a respeito. No mesmo dia, disse sim, finalmente, aos amigos comunistas que viviam tentando cooptá-lo.

Gullar também se associou a outra entidade que fazia frente aos militares: a União Nacional dos Estudantes (UNE), onde atuou no Centro Popular de Cultura (CPC), à época da gestão de José Serra à frente da instituição.

A história de Ferreira Gullar é, como se vê, uma parte da história do Brasil no século XX. Além de marcar presença em momentos políticos importantes, o poeta esteve ligado a dois movimentos artísticos relevantes do país: o concreto, que inspirou sem querer com Luta Corporal, livro em que busca a “essência da poesia”, e o neoconcreto, que fundou com Lygia Clark e Helio Oiticica, entre outros, após romper com a racionalidade e as promessas não cumpridas dos concretistas.

“Uma vez, o Décio Pignatari, que era o mais sociável dos concretos (os outros, não citados pelo poeta, seriam os irmãos Haroldo e Augusto de Campos), me procurou porque eu trabalhava em um jornal do Rio e ele queria divulgar um manifesto”, contou Gullar, arrancando risos da plateia. “Nós nos encontramos e nos desentendemos. Ele começou com uma teoria (ele diz “tioria”) de que o Brasil, que sempre havia tido indústria de consumo, estava criando uma indústria de base, e que nós precisávamos criar também a poesia de base. Eu logo disse a ele: você criou, pelo movimento concreto, o manifesto da poesia matemática, que nunca foi produzida. Não vou publicar outro manifesto de uma poesia que nunca vai ser feita.” Até hoje, a poesia de base não chegou ao papel.

Ferreira Gullar, que recebeu neste ano o Prêmio Camões, se mostrava à vontade, com muito bom humor. O tom reverencial da mesa também contribuiu para o clima e a disposição do maranhense. Uma plateia lotada riu e aplaidiu o poeta todo o tempo e, ao final, o aplaudiu longamente, de pé. Uma mulher ainda gritou, da sua cadera: “Obrigada”. Ao que ele respondeu, “Eu é que agradeço. Não sabia que a poesia ainda atraía as pessoas.”

Maria Carolina Maia

07/08/2010

às 15:07 \ Sem categoria

A literatura jornalística de William Kennedy e Colum McCann

O processo criativo da escrita foi o tema proeminente da mesa “Albany, Nova York e outras Aldeias”, que pôs cara a cara o americano William Kennedy e o irlandês Colum McCann, neste sábado, na Flip. Jornalistas de formação, ambos fazem da investigação – da reportagem – o caminho para criar personagens e histórias.

“Uma das minhas personagens era uma prostituta do Bronx, e minha mãe ficou curiosa para saber de onde eu a conhecia”, contou McCann. “Mas eu não a conhecia, claro, eu a criei a partir de meses de conversa com prostitutas reais, com policiais, com pessoas nas ruas. Eu pesquisei até ouvir a voz dela, até sentir que ela existia, que ganhava vida.” O irlandês disse que recomenda às pessoas que escrevam sobre o que não conhecem – o que as forçaria a investigar e encontrar surpresas.

“Para escrever sobre Albany, eu comecei a entrevistar o meu pai, a minha mãe. Comecei a perceber como a minha cidade era grande, maravilhosa”, disse Kennedy, famoso pelo chamado ciclo Albany, uma série de sete romances ambientados na cidade natal do escritor. Kennedy destacou, porém, diferenças entre o processo de feitura do jornalismo e da literatura. “Ainda sou repórter, e sempre fui. Mas, como romancista, eu preciso levar um projeto por um longo período, me aprofundando nele. Como jornalista, a gente lida com o novo todos os dias.”

Para Kennedy, o escritor tem de coletar informações sobre o que deseja escrever, e depois deixar que a imaginação elabore as informações. Esse processo de elaboração pode durar anos. Ironweed, livro com que ganhou o prêmio Pulitzer e que virou filme sob a direção de Hector Babenco, foi escrito em oito meses. Mas ele pode demorar até oito anos para terminar um romance, chegando a escrever apenas uma linha em um único mês. “O processo de escrever um romance é o de conviver por anos com os personagens. Se você não faz isso, não obtém a topografia deles, não entra por debaixo da pele. Passei noites tomando vinho barato com um personagem.” McCann disse algo parecido – “Sinto que poderia tomar um chope com meus personagens”.

Ironweed, aliás, também foi assunto da mesa. Kennedy lembrou como o livro mudou sua vida. “Eu trabalhava como jornalista e recebia um salário abaixo da linha da pobreza. O livro foi lançado em janeiro de 1983 e teve apenas uma crítica negativa. Foi uma enxurrada de elogios, que me proporcionou o convite para dar aulas na universidade de Albany, ganhando o dobro do que eu ganhava, e um telefonema de uma fundação americana, que me anunciou uma verba de 250.000 dólares, livres de impostos, pelos cinco anos seguintes. Lembro que a ligação aconteceu um dia antes do meu aniversário. Foi uma semana e tanto.”

Mais ou menos por essa época, Colum McCann deixava Dublin para viver pela primeira vez em Nova York, cidade que lhe renderia, no futuro, material para Deixa o Grande Mundo Girar, livro vencedor do National Book Award de 2009. McCann tinha 17 anos e passou seis meses em NY. Por lá, seus interesses se voltaram para o submundo. “Me atraio pelos personagens marginais.”

Maria Carolina Maia

11/06/2010

às 16:35 \ Sem categoria

CONTAGEM REGRESSIVA

Paciência, pessoal. O novo Todoprosa, uma das atrações do novo Veja.com, voltará a ser atualizado em breve neste endereço. Até lá!

12/05/2010

às 19:21 \ Sem categoria

Notícias de uma guerra literária

Sob o título “Duas elites”, o “Rascunho” traz um bom artigo de Luiz Bras (mais conhecido como Nelson de Oliveira) sobre a guerra entre alta literatura e literatura de gênero. Trata-se – e o autor é o primeiro a admitir isso – de uma caricatura, um quadro em preto e branco que ignora “todas as gradações, todos os matizes”. Isso não diminui o valor do texto. Caricaturas são perfeitas para expor o ridículo de personagens e situações. Como se pode ver pelas listas de “critérios” dos dois lados que Bras expõe:

Critério da elite acadêmica:

1. Linguagem original, conotativa, que não possa ser atribuída a outros escritores do presente e do passado, por vezes avessa à norma culta. O autor deve se expressar de maneira única, inaugurando seu próprio modo poético.

2. Subjetivismo. Narrador modernista, tortuoso ou fragmentário, psicológico, pouco confiável, às vezes delirante.

3. Enredo frio, pobre em ação, sem muitas peripécias ou surpresas, próximo da vida comum. A forma literária é mais importante do que o conteúdo.

4. O mundo interior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo exterior.

5. Fuga do gênero a que (supostamente) pertence. Faz parte do desejo supremo de originalidade a rejeição das principais diretrizes do gênero a que a obra pertenceria. O novo romance quer transcender os limites do gênero romance, o novo conto quer transcender os limites do gênero conto, o novo poema quer transcender os limites do gênero poema.

6. Purismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, são violentamente rejeitadas pelo sistema.

Critério da elite da literatura de gênero:

1. Linguagem transparente, denotativa, por vezes complexa, mas ainda assim reconhecível por uma vasta gama de leitores. O autor deve se expressar respeitando a norma culta que orienta o uso do idioma.

2. Realismo. Narrador clássico, organizado e disciplinado, pouco introspectivo, confiável, onisciente.

3. Enredo quente, rico em ação, cheio de peripécias e surpresas, afastado da vida comum. O conteúdo literário é tão importante quanto a forma, ou até mais.

4. O mundo exterior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo interior.

5. Adequação ao gênero e ao subgênero a que pertence. O romance ou o conto policial, de fantasia ou de ficção científica respeitam as balizas que definem o gênero e o subgênero a que pertencem.

6. Ecumenismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, se não são bem aceitas pelo sistema, ao menos não são sumariamente rejeitadas.

Esse retrato simplificado da velha cizânia entre arte erudita e arte popular me parece, mais que divertido, bastante acurado, embora seja duvidoso que a literatura de gênero tenha força suficiente no Brasil para sustentar uma elite propriamente dita.

Mas o quadro é triste também. Para mim, reside justamente no que o artigo suprime – as tais gradações e matizes – a graça da coisa. Se é verdade que a literatura “metida a besta” e a literatura “comercial” pretendem, a esta altura do século 21, permanecer afundadas em suas trincheiras com o dedo no gatilho, quero morrer no fogo cruzado.

É por isso que achei brilhante a idéia de uma antologia de contos policiais chamada “The dark end of the street”, que acaba de sair nos EUA: reunir num mesmo volume autores firmemente plantados no gênero, como Lawrence Block e Val McDermid, e escritores “literários” como Amy Hempel, Francine Prose e Edmund White. Viva os agentes duplos!

10/05/2010

às 20:01 \ Sem categoria

Que livro você aprenderia de cor?

No terreno cada vez mais batido da interatividade internética, o pessoal do Papeles Perdidos (em espanhol), blog do “Babelia”, encontrou um cantinho original: perguntar aos leitores que livro eles memorizariam para salvar do fogo, como se fossem aqueles heróis da resistência de “Farenheit 451”, de Ray Bradbury.

Cerca de oitenta livros ganharam menção. O título mais citado, com oito votos, foi “Cem anos de solidão”. Em seguida vieram “O apanhador no campo de centeio”, “Dom Quixote” e “O jogo da amarelinha”, com quatro votos cada um. A turma dos três votos teve “A Divina Comédia”, “A ilha do tesouro”, “A origem das espécies”, a “Ilíada”, “Os miseráveis” e, sim, “O pequeno príncipe” – este, disparado, o mais fácil de decorar.

Será que daria no mesmo perguntar simplesmente ao leitor qual é a sua obra literária preferida de todos os tempos? Talvez sim, mas tenho minhas dúvidas. O peso absurdo de eleger um único livro para aprender de cor – ou seja, de coração – e salvar do aniquilamento completo parece fazer com que a escolha seja no mínimo mais ponderada. Eu, por exemplo, ainda não consegui decidir o meu. E você?

07/05/2010

às 19:10 \ Sem categoria

Começos inesquecíveis: Alejo Carpentier

De prata as delgadas facas, os finos garfos; de prata os pratos onde uma árvore de prata lavrada na concavidade de suas pratas juntava o suco dos assados; de prata as fruteiras, com três bandejas redondas, coroadas por uma romã de prata; de prata as jarras de vinho marteladas pelos artesãos da prata; de prata as travessas de peixe com seu pargo de prata inflado sobre um entrelaçamento de algas; de prata os saleiros, de prata os quebra-nozes, de prata os covilhetes, de prata as colherinhas com iniciais lavradas… E tudo isso ia sendo levado pausadamente, cadenciadamente, cuidando para que prata não esbarrasse em prata, rumo às surdas penumbras de caixas de madeira, de engradados ao aguardo, de arcas com fortes ferrolhos, sob o olhar vigilante do Amo que, de roupão, só fazia a prata ressoar, vez por outra, ao urinar magistralmente, com jorro certeiro, copioso e percuciente, num penico de prata, cujo fundo era adornado por um malicioso olho de prata, logo ofuscado por uma espuma que, de tanto refletir a prata, acabava por parecer prateada…

Eis os primeiros acordes de “Concerto barroco” (Companhia das Letras, 2008, tradução de Josely Vianna Baptista), novela lançada em 1974 pelo cubano Alejo Carpentier (1904-1980). O homem que, sendo da geração pré-boom, foi uma de suas maiores influências – basta dizer que cunhou a expressão “real maravilhoso” para definir o absurdo da realidade latino-americana – era um estudioso sério de música que tinha a ambição de fundir notas e letras tanto nos temas quanto em andamento e textura da linguagem. Nesta narrativa sobre um magnata mexicano da prata que, no século 18, viaja a Veneza e se envolve com grandes compositores do período barroco, a ambição se realiza plenamente desde uma abertura que, com suas pratas infinitas, é ouro puro.


 

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