Blogs e Colunistas

Arquivo da categoria Sem categoria

10/07/2011

às 15:35 \ Sem categoria

Um manifesto antropofágico sobre duas rodas

Foto de Walter Craveiro/Divulgação

A presença do músico escocês David Byrne à 9ª edição da Flip não se propunha a falar de sua atuação como produtor musical, líder da banda Talking Heads. Sua maior preocupação atualmente é com o urbanismo sustentável, tema de seu livro Diário da Bicicleta . Esse foi o tema da mesa Tour nos trópicos que ele dividiu com o consultor da Associação Nacional de Transportes Públicos, Eduardo Vasconcellos.

Depois de uma longa apresentação do mediador, Alexandre Agabiti, editor da revista de ciclismo, V.O.2, Byrne fez uma exposição de fotos de suas viagens pelo mundo como ciclista, mesclando com projetos e visões de famosos arquitetos do século XX. A intenção era sensibilizar a plateia quanto à necessidade de se largar o vício pelo carro e adotar a bicicleta como meio de transporte. Chamou a atenção para os prédios construídos em Tóquio para estacionamento grátis de bicicleta, onde ninguém usa cadeados para guardá-las. No final, passou fotos de celebridades se locomovendo sobre duas rodas como o diretor da marca Louis Vuitton que vai ao trabalho de terno e bicicleta, Tennesse Willians, Obana, Frank Sinatra e Brigitte Bardot.

Eduardo Vasconcellos situou o público quanto à diferença entre os países ricos e países em estado intermediário de desenvolvimento, apontando que as soluções não podem ser as mesmas. Defendeu que a grande questão do Brasil é a falta de cidadania presente em todas as classes sociais e o fato de os legisladores urbanos usarem carros para sua locomoção. “Fizemos cidades hostis ao uso da bicicleta”, disse. Sua fala provocou aplausos empolgados de duração relevante, mostrando que o público recebeu bem o recado.

Uma mesa inédita na Flip, uma discussão necessária e urgente.
Por Lilian Fontes

10/07/2011

às 10:00 \ Sem categoria

Beethoven baixou na Flip

Walter Craveiro/Divulgação

Foto de Walter Craveiro/Divulgação

Nos seus um metro e quase noventa, numa camisa havaiana, James Ellroy, em tom performático, fez a leitura de um trecho de seu livro de pé ao começar a sua apresentação.
Considerado um dos mestres da ficção policial americana contemporânea, ele foi a estrela da mesa Lugares escuros, a última da noite de sábado, na Flip. Entrevistado por Arthur Dapieve, escritor e colunista do GLOBO, Ellroy divertiu a plateia com suas ideias sui generis sobre sua carreira e obra.

Já para deixar o público a par de que se tratava de um autor “top de linha”, foi logo dizendo: “Se fosse um compositor, eu seria Beethoven. Se fosse um líder religioso, seria Deus.”.

A sua obsessão por Beethoven o faz ter em sua casa inúmeros bustos do compositor e dizer: “Beethoven é a figura masculina da minha vida”.

Mas, conduzido pelas perguntas precisas do jornalista, aos poucos foi falando de seus livros, o que os levou a escrevê-los. O romance Dália negra, publicado em 1987, seu primeiro grande sucesso, se baseia num crime famoso dos anos 1940 ocorrido em Los Angeles, onde nasceu o autor, forma que encontrou de exorcizar o trauma do assassinato de sua mãe, quando ele era criança.

Sobre a trilogia que encerra com Sangue Errante, que acaba de sair pela editora Record, Conta que passou anos de sua vida batendo em portas, seguindo pessoas, viajando. “Meu relato é sobre testemunhos reais, decorre de artigos públicos roubados. Há uma veracidade digna nesses livros”, que perpassam período longo da história norte-americana.

“Considera que com essa trilogia o senhor mudou para romance político?”, perguntou o jornalista.

“Eu estava entrando no ápice da minha carreira E você tem de ir direto para o topo, ser um gênio jamais produzido. Um Beethoven acima de toda superação”.
Por Lilian Fontes

10/07/2011

às 8:27 \ Sem categoria

A literatura pode contar a história melhor que a história?

Foto de Walter Craveiro/Divulgação

Essa pergunta foi feita pelo mediador, Claudiney Ferreira, Itau Cultural, depois de ouvir as leituras dos romances de Edney Silvestre, Marcelo Ferroni e Teixeira Coelho. A mesa Ficção entre escombros esquentou com perguntas da plateia sobre os temas abordados pelos três romancistas em seus livros. Edney estará lançando em outubro seu segundo romance, A Felicidade é fácil (Ed. Record), gerado sobre uma notícia lida em jornal sobre um sequestro em São Paulo, onde sequestraram a criança errada. Esse mote corre paralelamente aos fatos ocorridos na era Collor. O romance de Marcelo Ferroni, Método Prático da Guerrilha(Companhia das Letras), cria uma história tendo como base a vida de Che Guevara. Teixeira de Melo é autor de História Natural da Ditadura, um memorial das ditaduras do século 20 e do recém-lançado O homem que vive: uma jornada sentimental (Iluminuras), sobre a relação de um homem e uma mulher.

O debate gerou uma discussão sobre a importância da literatura como meio de relembrar fatos históricos. “É preciso lembrar todos os dias desses horrores”, declarou Silvestre.

Teixeira revelou que depois de ter escrito o romance sobre ditadura, “época tão terrível e sofrida para mim”, precisou escrever seu outro livro buscando linha bem diferente. Logo no início o narrador anuncia: “esta é uma história sobre a felicidade”.
Para Marcelo Ferroni, “existem possibilidades de distorções da história, que geram desdobramentos”.

E Edney: “”existem verdades tão absurdas, que parecem ficção”.
Por Lilian Fontes

09/07/2011

às 13:27 \ Sem categoria

Letras Libres e Granta marcando época

“É muita informação!”, disse uma mulher ao sair da exposição de John Freeman, norte-americano e do mexicano Enrique Krauze que participaram da mesa No Calor da Hora, que aconteceu nessa manhã ensolarada de sábado. Ambos editores de revistas tiveram apresentação do mediador João Cezar de Castro Rocha, professor de literatura da UERJ, que explicou o significado do título da mesa, uma relação entre público e imprensa.

O primeiro a falar foi Enrique. Num jeito calmo, expôs um bom panorama da América Latina desde a década de 70, quando os países tinham governos autoritários. Nessa época, o poeta Octavio Paz funda a revista Vuelta, um espaço de discussões políticas e literárias, numa linha democrática, uma proclamação à liberdade. A revista Letras Libres, Enrique seu atual editor, surgiu nos anos 80, “no calor da hora” publicando artigos sobre o dia após dia da situação da época. Contou com orgulho, que em primeiro de setembro de 2001, foi lançado um número que falava do fanatismo da humanidade, o que se referia às ditaduras. Mal podia imaginar que onze dias depois iria acontecer o mais radical atentado de fanatismo da humanidade.

Freeman começou contanto à plateia que estava realizando um sonho ao estar sentado numa mesa da Flip. Numa total empatia com o público, falou do surgimento da revista Granta em língua inglesa na década de 70, cujo objetivo era apresentar a arte de contar história. O número de 1983 revelou nada menos do que talentos como Kazuo Ishiguro e Salman Rushdie. Nos últimos anos, com publicações também em espanhol e português (edição realizada pelo selo Alfaguara/Objetiva), autores de diversos países, como Austrália, Paquistão têm sido revelados pela revista. No final, foi solicitado a falar de seu livro, A Tirania do e-mail, fazendo excelente exposição sobre o assunto. Considera uma doença as pessoas terem necessidade de estar conectadas 24h/dia. Contou sobre pesquisa feita nos EUA, onde 60% da população admite ver e-mail no banheiro, no meio da noite. “Tem gente que passa mais tempo com o computador do que com seu cônjuge. Estamos rompendo as nossas relações”, arrancando aplausos da plateia.
Por Lilian Fontes

08/07/2011

às 17:33 \ Sem categoria

O eu ou o outro

O título Laços de Família foi bastante adequado ao encontro entre os escritores Péter Esterházy, húngaro e o francês Emmanuel Carrère. Ambos escreveram livros que falam de histórias de suas próprias biografias. Ambos são descendentes de famílias europeias aristocráticas que em certa altura da história perderam tudo.

No seu livro Um Romance Russo, (Alfaguara), Carrére revela um fato da história de sua mãe que causou extremo desconforto para ela. Contou sobre a história de seu avô desaparecido na época da Segunda Guerra e o que isso marcou a psicologia de sua mãe, uma historiadora conhecidíssima e integrante da Académie Française. Foi um relato longo envolveu a plateia numa conversa séria e sentimental.

Quando Esterházy falou sobre a feitura de seu romance Harmonias Celestiais, livro de dois volumes sobre a história da sua família, explicou que todos os personagens masculinos representavam a figura paterna, pois achou mais fácil pensá-los como seu pai do que como um Príncipe Nicolau qualquer. “Todo filho tem de matar o seu pai”, disse e essa foi a forma que encontrou de matar o seu pai simbólico.

Carrére voltou a falar de seus livros, contanto que depois de Um Romance Russo, nunca mais conseguiu voltar para a ficção propriamente dita. Todos os livros posteriores são criados sobre fatos reais. “Quando se escreve sobre a realidade, a realidade responde”, disse.

Depois dessas revelações, os autores apresentaram os seus pontos de vista sobre a relação entre a realidade e a ficção, a escrita em primeira e terceira pessoa, deixando a impressão que a “prosa autobiográfica” ou a “autoficção” pode perfeitamente aderir a linguagem romanesca.
Por Lilian Fontes

08/07/2011

às 13:06 \ Sem categoria

Escrever é se encantar pelo desconhecido

Walter Craveiro/Divulgação

A simpatia e o humor do autor Andrés Neuman, autor argentino, conquistou o público que assistiu à mesa 5, Viagens literárias. Junto com Michael Sledge, autor norte-americano que veio à Flip lançar seu primeiro romance, The more I owe you, um retrato íntimo da poeta americana Elizabeth Bishop e de seu relacionamento com a urbanista brasileira Lota de Macedo Soares, conversaram sobre como a pesquisa histórica entra na criação de uma ficção.

No relato de Michael, sente-se a sua profunda paixão pela poeta que o fez percorrer os lugares em que ela passou no Brasil. As cartas e artigos que leu sobre sua obra o ajudaram a criar a sua Bishop imaginária para através de sua escrita “tentar trazê-la para a vida”.

Quando o mediador Claudney Ferreira, do Itau Cutural, leu um trecho do livro que em oito linhas descreve uma relação íntima entre Bishop e Lota, perguntou ao autor, como ele conseguiu escrever com tamanha intimidade sobre ela.

Andrés, então, disse: “Quero ler um trecho indecente também, deve ser culpa da cachaça que tomei ontem à noite.”, brincou. E leu um trecho de seu romance O viajante do século, onde descreve uma relação de amor que acontece no século XIX. “Tive a preocupação em falar das marcas do corpo, das imperfeições. Essa é a verdade dos corpos”.

Ambos concordaram que escrever é um trabalho de imaginação, e que a pesquisa mais importante não é a histórica e sim, a que se conhece através de cartas onde as pessoas daquele período histórico falam de sua intimidade. “Mais interessa conhecer comportamento da época do que detalhar sobre como foi a batalha de Waterloo”, disse Andrés e afirma: “A história é o romance dos fatos. O romance é a história dos sentimentos”.
Por Lilian Fontes

08/07/2011

às 9:45 \ Sem categoria

Uma alma em trânsito


A mesa intitulada Ficções de diáspora, gerou uma ótima conversa entre os autores Kamila Sachie, do Paquistão e Caryl Phillips, nascido no Caribe. Ambos escrevem em língua inglesa e vivem fora do seu país de origem.

Shamsie vive em Londres e seu livro que está sendo lançado no Brasil, Sombras Marcadas, pelo selo da Alfaguara/ Ed. Objetiva, relata a vida de duas famílias e atravessa alguns dos eventos mais dramáticos do século XX, como a bomba de Hiroshima e à queda das Torres Gêmeas em 2001.

Caryl leu trecho do seu romance A Travessia do Rio, da Editora Record, o legado de uma família que teve seus laços rompidos em função do tráfico de escravos entre a África e as Américas.
A conversa aprofundou vários aspectos referentes à feitura de um romance. Falaram sobre formatos e padrões de linguagens, principalmente quando se conta histórias passadas em séculos anteriores, o cuidado em reproduzir as falas referentes ao palavreado da época.

Kamila, ao falar de seu livro disse: “Quis criar uma personagem que teria vivido o ataque americano a Nagasaki. Soube de histórias de que as japonesas que estavam vestidas de quimonos com estampas em preto, ficaram com elas tatuadas no corpo na hora da bomba, porque o preto absorve o calor. E essa imagem me ajudou a criar o romance”.

Caryl ao falar de sua condição como um negro, contou que quando chegou a Oxford – quando aprendeu a comer com garfo e faca – foi que se deu conta de que vinha de uma classe operária. “Não se pode falar de raça sem falar de classe social”.

Para explicar o termo “Uma alma em trânsito”, como se referiu certo jornalista ao falar dele, Caryl respondeu. “Colonização é a palavra que descreve a falta de noção de ter um lar”. Shamsie endossou seu ponto de vista, falando da colonização do Paquistão, da divisão em 1971 entre Paquistão e Bangladesh quando teve início a construção de uma nação. “O lar é a sua nação”, ela disse.

A conversa poderia ir muito além, pois o entrosamento entre os dois autores trouxe aspectos interessantes a serem discutidos sobre culturas tão diversas. Esse vem sendo o ponto forte da proposta da Flip, o de, através do olhar sensível de um escritor, trazer discussões políticas e comportamentais de outras partes do mundo. Mas o tempo se encerrou deixando a plateia ainda com água na boca.
Por Lilian Fontes

07/07/2011

às 15:37 \ Sem categoria

Flauta doce da poesia

Assim que Liz Calder, a primeira dama da Flip, apresentou Carol Ann Duffy, poeta, dramaturga, dos maiores nomes da poesia de língua inglesa, que dividia a mesa Lírica Crítica com Paulo Henriques Brito, também poeta, professor de literatura na PUC-RJ e dos melhores tradutores de poesia no Brasil.

Carol Ann começou a escrever poesia quando tinha 11 anos. Seus primeiros poemas foram dedicados aos mitos das histórias que escutara na infância. O primeiro a ser lido para a plateia foi sobre o Rei Midas. Mas a poeta reescreve a história sob o ponto de vista de uma fictícia esposa de Midas. E dentro dessa linha, apresentou outros poemas como o da história de Tirésias e de Fausto, o homem que vendeu a alma ao diabo, sempre contando pela visão da mulher. No poema sobre Fausto, termina com o verso “O Fausto canalha, insensível, não tinha alma nenhuma para vender”, o que arrancou aplausos da plateia.

Paulo Henriques Brito recitou vários poemas, muitos construídos como sonetos e solenetos (é um soneto cortado ao meio), dando ao público o gosto do que a poesia é capaz, ao falar certos versos como “Manhã engole essa noite/ encaroçada de estrelas./ É dia”; “Na crua hemorragia do crepúsculo”; “Memória/, mãe amorosa de todas as mortes”.

O público ouviu quieto como exige toda leitura de poesia. Ao final, perguntas vieram sobre como é ensinar poesia – já que os dois participantes da mesa são professores; sobre tradução, até que veio a pergunta dirigida à Carol Ann: “O que é ser laureada pelo Reino Unido?” E ela respondeu:
“Hoje em dia, o poeta laureado não precisa ficar escrevendo sobre a realeza. O meu papel é escrever sobre os eventos sociais. O último que escrevi foi sobre o vulcão da Islândia e o próximo será sobre o Rio e sobre Paraty.

Por Lilian Fontes

06/09/2010

às 14:57 \ Sem categoria

Meu pai

Meu pai tinha uma coleção Clássicos da Literatura Universal, capa dura marrom com letras douradas, papel âmbar, graças à qual, aos dez anos de idade, passei semanas ou séculos (o tempo é diferente quando se tem dez anos) engalfinhado com a prosa opaca e vagarosa do “Ivanhoé” de Walter Scott, tentando entender palavra por palavra, crente que o que eu não entendia só me fazia melhor.

Da mesma coleção li Flaubert, Tolstoi, Turgueniev, Wilde e Knut Hamsun antes dos quatorze. Quer dizer: muito cedo foi tarde demais. Tudo entremeado com Erico Verissimo, que também reivindicava seu metro e meio de estante nas obras então completas da editora Globo de Porto Alegre, capa dura azul. Os prefácios espirituosos que o pai de Clarissa tinha escrito para todos os volumes, desvelando os bastidores da literatura, deram o empurrãozinho que faltava: tarde demais, sem dúvida nenhuma. Para o bem ou para o mal, eu ia ser escritor e pronto. Meu pai ficou preocupado com a notícia.

Meu pai tinha também uma edição inglesa de “David Copperfield” no fundo da parte de cima do armário de seu quarto, com assinatura na folha de rosto – uma assinatura espalhada e confiante de jovem, diferente do jamegão adulto estilizado que eu admirava intensamente – ao lado de uma data esquecida dos anos 50. No dia em que encontrei esse livro por acaso, eu já devia ter mais de quinze. Lembro que a descoberta me lançou num estado confuso de agitação. Entre os sentimentos malformados que se chocavam dentro de mim, um era certamente o orgulho filial de saber que meu pai, homem pragmático, um dia lera – ou tentara ler – literatura inglesa no original, algo que parecia inalcançável para simples mortais como nós, nascidos no interior de Minas. Mas havia também uma estranheza: por que Dickens não estava na estante com Verissimo e os Clássicos da Literatura Universal? Meu pai sentia vergonha dele? De sua ambição intelectual juvenil? Do pouco que se aprimorara no inglês? Tinha renegado a literatura?

Pensando bem, não me lembrava de meu pai lendo Verissimo, Flaubert, Tolstoi, Wilde. Minha mãe sim, mas não ele. Eu sempre havia imaginado que esses livros já estivessem devidamente devorados quando passei a me entender no mundo, mas agora uma outra ideia se formava: e se meu pai, homem inteligentíssimo, tivesse em nome da vida prática de bancário com quatro filhos para criar abafado sua paixão juvenil por literatura a tal ponto que, embora fizesse pleno sentido assumir as grandes coleções, que afinal eram decorativas, havia que esconder bem escondido aquele “David Copperfield” desesperadamente romântico, solitário, eloquente, denunciador?

E mesmo assim ele não o tinha jogado fora.

Nunca mencionei aquele livro com meu pai. Menciono agora, mas desde 6 de setembro de 2005, cinco anos cheios, ele já não pode responder. Tivemos tempo para conversar sobre muita coisa, e também para que ele fizesse a migração, creio que alegremente, da culpa por ter sido tão negligente na exposição da família àqueles artigos perigosos até uma espécie de orgulho do filho que, bem ou mal, tinha mesmo virado escritor, algo que parecia inalcançável para simples mortais como nós, nascidos no interior de Minas. De Dickens, porém, nem uma palavra.

Sempre é cedo quando fica tarde demais.

08/08/2010

às 19:58 \ Sem categoria

Leitura de escritores fecha a Flip

Nada de debates de ideias. Nada de perguntas difíceis de responder. Tradicionalmente leve, a mesa final da Flip reuniu alguns dos escritores do evento para a leitura de trechos de seus autores preferidos. Confira abaixo uma relação com alguns dos convidados da mesa, hegemonicamente estrangeira, seus livros favoritos e as justificativas de suas escolhas.

Beatriz Bracher
. Leitura: trecho do romance Angústia, de Graciliano Ramos
. Justificativa: “Foi o primeiro autor que me deu a noção clara de que escrever não tinha a ver apenas com aprender ou sentir, mas também com viver”.

Reinaldo Moraes
. Leitura: trecho de Memórias de um Sargento de Milícias
. Justificativa: uma dos principais obras da literatura brasileira, foi escrita por Manuel Antônio de Almeida quando tinha menos de 21 anos. “Um certo prodígio”, disse Moraes. “E é um romance sobre um malandro do século XIX, que se apaixona por uma garota pobre, se liga a cinganos, vai a festas de negros, ele é da pá virada.”

Lionel Shriver
. Leitura: trecho de A Era da Inocência, de Edith Wharton
. “Eu sei que parece inexplicável, mas eu sou admiradora de Edith, porque ela gosta de estilo e entende como convenções sociais podem levar a tragédias. A convenção social, no caso de A Era da Inocência, era o casamento. Já era legal se divorciar nos Estados Unidos, mas era também algo muito mal visto.”

A. B. Yehoshua
. Leitura: trecho de O Som e a Fúria, de William Faulkner
. Eu tenho certeza de que muitos escritores sul-americanos aprovariam a minha escolha. Muitos críticos disseram que o que Faulkner fez pela literatura moderna foi maior que o que Beethoven fez pela música. Faulkner escreveu sobre uma família, às vésperas de seu declínio, em terceira pessoa, a partir de monólogos internos. Isso me mostrou que ele não queria agradar o leitor, mas ao mesmo tempo ele aproximava o leitor de seu texto. Ele começa com um deficiente mental, que confunde passado e presente como uma criança de 3 anos, mas ele tem 33. Não há uma descrição sobre essa pessoa, que aparece chorando e berrando, até o quarto capítulo. Ele é negligenciado pela família, e fica nas mãos dos empregados da casa. Pela leitura, você começa a se identificar com o menino, que entra em você, por essa técnica de escrita, que é sofisticada e perfeita.”

Azar Nafisi
. Leitura: coletânea de poetas selecionados pela autora
. Justificativa: são poetas com que ela se indentifica por por ter a mesma que ela ou por terem vivido deslocados em países difíceis – Azar é iraniana e crítica ferrenha do regime islâmico de Mahmoud Ahmadinejad. “Eu quero ir para casa e ler as escolhas de todos aqui. Bem, ao escolher livros eu sou muito promíscua. São todos amantes maravilhosos. Como eu não posso ter um manual de sobreviência numa ilha deserta, vou criar um livro de poesias onde muitos deles estarão presentes”, disse. “Vou ler poemas de autores insulares, que viveram deslocados em países e tempos difíceis. O primeiro deles foi (o judeu húngaro) Miklós Radinóti, assassinado por fascistas. Seu corpo foi enterrado em uma cova comum.” Azar leu também versos do poeta épico iraniano Ferdosi, que trabalhou no século VII e foi resgatado no século XI, por interessados em relembrar a identididade do país. “Meu pai dizia, ‘Esse país já foi invavido tantas vezes que a única forma de manter sua identidade é pela língua e pela poesia’”.

Maria Carolina Maia


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados