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09/04/2012

às 14:17 \ Mercado, Pelo mundo

‘Lean back’, moçada, e leia: é a nova moda

Lean Back 2.0 – updated February 2012

O link acima abre uma apresentação de slides feita há menos de dois meses por Andrew Rashbass, presidente do grupo “The Economist” (em inglês). Para quem tiver paciência de aguentar um certo visgo Powerpointilhista de embromação corporativa, ela traz algumas ideias novas e surpreendentes – numa palavra, revolucionárias – sobre os padrões de leitura online na segunda década do século 21. “O velho é novo de novo”, afirma um dos quadros. O que isso quer dizer?

Resumindo, trata-se da constatação de que, após um período em que a leitura online foi feita basicamente em desktops e laptops, estamos entrando de modo resoluto na era do tablet, que – eis a tese, sustentada por pesquisas e tendências já visíveis de comportamento – muda tudo: daquilo que já se convencionou chamar de Lean forward para Lean back 2.0.

Lean forward, para quem não sabe, faz referência à posição do corpo do internauta diante da máquina, inclinado sobre ela: é uma postura ativa que favorece o compartilhamento de informação, a navegação nervosa de link para link e o vaivém da atenção entre texto e vídeo, por exemplo.

Lean back 2.0 – e agora a inclinação é para trás, em posição de relaxamento – nomeia o modo de ler no tablet. Este, descobre-se, parece inibir o compartilhamento e estimular mais o consumo de textos de fôlego longo que o de vídeos, lembrando o antigo modo de ler jornais e livros. O que explica a tirada de que o velho voltou a ser novo, além de justificar o acréscimo de um já batido “2.0” à expressão Lean back, para garantir que ninguém confundirá uma coisa com a outra.

A tendência se faria acompanhar, segundo os estrategistas da “Economist”, do surgimento de um novo público, interessado em consumir um novo tipo de produto cultural que rompe com o velho esquema bipolar “de prestígio” x “de massa” – uma turma numerosa, mas de gosto exigente, interessada em qualidade e detentora de uma característica inteiramente nova chamada “inteligência de massa”. “O inteligente é o novo cool”, diz outro dos slogans salpicados na apresentação.

Pode ser só uma aposta equivocada, claro. Não seria a primeira desde que o Vale do Silício transformou todo mundo em futurologista. No entanto, se as expectativas que vão se agrupando no pacote Lean back 2.0 tiverem um fundo de verdade (e a “Economist” é tudo menos boba), poucas vezes teremos visto uma notícia tão boa para a literatura, que sempre foi o território por excelência da inteligência de massa – ou, pelo menos, a sementeira que nunca deixou essa ideia morrer.

Seria lindo ver a tecnologia – logo ela, quem diria – reduzir finalmente a pó a ideia arcaica, mas ainda influente em certos círculos acadêmicos, de que a literatura se divide entre uma elite experimentalista ilegível e uma massa anencefálica de produtores de entretenimento.

Qualquer mudança nesse campo vai chegar ao Brasil com dez anos de atraso, é verdade. Mas vale a pena ficar de olho.

06/04/2012

às 9:30 \ Pelo mundo

Pop de sexta: ‘O velho e o mar’

O Pop Literário de Sexta volta com “O velho e o mar”, curta de animação russo (postado no YouTube em duas partes) que faturou o Oscar da categoria em 2000. Baseado na famosa novela de Ernest Hemingway sobre a luta de um velho pescador solitário contra um peixe gigantesco, o belíssimo filmete do animador Aleksandr Petrov foi feito com uma técnica peculiar – pastel sobre vidro em 29 mil quadros – e tem cenas de tirar o fôlego. Boa Páscoa a todos.

05/04/2012

às 12:23 \ Pelo mundo

‘Por que só agora?’ Sobre os armários de Günter Grass

Günter Grass: confissão tardia (Getty Images)


“Por que só digo agora,/ velho e com minha última gota de tinta,/ que a potência nuclear Israel põe em risco a já frágil paz mundial?”

É curioso que o escritor alemão Günter Grass, Nobel de literatura de 1999, tenha abordado retoricamente em seu polêmico poema-manifesto “O que precisa ser dito” – publicado na quarta-feira em diversos jornais do mundo com duras críticas a Israel – a questão do longo silêncio que finalmente se quebra.

Foi um desses atrasos que, em agosto de 2006, arranhou sua imagem de tal forma que faz a manifestação de agora ser recebida com maior perplexidade. Naquele momento, veio a público a confissão de Grass – parte de seu livro de memórias “Descascando a cebola” – de que tinha sido nazista na juventude, tendo pertencido às tropas SS em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial. Uma informação que ele mantivera em segredo até então.

Muitos alemães tinham e têm histórias semelhantes. A diferença é que o autor de “O tambor” havia passado seis décadas como uma das principais vozes da consciência moral alemã, instando seus compatriotas a encarar de frente o passado nazista, sem no entanto aplicar a receita a si mesmo (leia aqui o post da época no Todoprosa).

O escritor Joachim Fest, biógrafo de Hitler, foi um dos críticos que não perdoaram a Grass o fato de ter saído tão tardiamente do armário nazista – “com a última gota de tinta”, como ele mesmo talvez dissesse. “Não entendo como alguém pode se colocar numa posição de superioridade por 60 anos”, atacou Fest, “e só então admitir que também esteve envolvido. Para usar um dito popular, eu não compraria um carro usado dessa pessoa.”

Isso contribui para tornar o episódio do poema – de forte impacto político, mas com valor literário próximo a zero – ainda mais complexo. A crítica às intenções belicosas de Israel contra o Irã é compreensível e, de resto, não falta quem a formule dentro do próprio país. Como veio de fora, e ainda por cima de um alemão, as acusações de antissemitismo que se multiplicam em Israel e na comunidade judaica internacional também eram previsíveis. Mas como não especular o que mais Grass teria guardado no armário para dizer, e com que motivações, antes que acabe realmente a sua tinta?

02/04/2012

às 14:38 \ Pelo mundo, Vida literária

A verdadeira máquina de escrever é o cérebro


Descubro sem surpresa, mas com algum pesar, que já existe alguém na internet declarando seu ódio a máquinas de escrever como peças de decoração moderninha – um tumblr dedicado à trollagem dos modismos do design chamado, significativamente, Fuck Your Noguchi Coffee Table.

Não, é claro que isso não quer dizer muito. Tente imaginar qualquer coisa no universo que não mereça declarações de ódio em algum lugar da internet e você se verá em apuros. Mas achei curioso, porque não fazia ideia disso e nunca vi nada parecido nas casas que frequento, descobrir que uma paixão que alimento há anos vai, em alguma parte do mundo, entrando no terreno do clichê.

Há dois anos e meio, quando rolou a notícia de que Cormac McCarthy estava leiloando sua velha Olivetti, saí do armário aqui no blog como amante e pequeno colecionador de máquinas de escrever. Na verdade, tenho só três peças, todas de valor afetivo, que na época apresentei assim:

Tenho em casa um modesto museu da máquina de escrever. Além da portátil Hermes 2000 que já comprei velhinha nos anos 1980, num antiquário, mas ainda cheguei a usar, conservo a pesada Remington que herdei de meu pai, na qual batuquei meus primeiros contos adolescentes, e desde o início deste ano a estrela da companhia: uma restauradíssima Olivetti Lexikon 80, maravilha dos anos 1950 que, naquele clima de balanço universal da virada do milênio, foi eleita por um júri internacional de design a melhor máquina de escrever de todos os tempos. Mas não é essa glória mundana, ou não só ela, que a conduziu ao lugar de maior destaque no centro da sala: ao mesmo tempo sólida e macia, a Lexikon 80 era a máquina de linha na redação do velho “Jornal do Brasil” quando lá cheguei, em 1984, e na maior parte dos anos em que permaneci na casa, até ser desalojada pelo computador. Meus dedos nunca conheceram uma melhor.

Hoje, como eu disse, meu interesse é basicamente museológico. Não que minhas máquinas de escrever estejam inativas: meus filhos gostam de brincar com elas, intrigados com uma engenhoca que tem teclado pesado mas em compensação exibe o fantástico avanço tecnológico de, como observou minha filha quando tinha 7 anos, não precisar de impressora.

De lá para cá, uma mudança de apartamento terminou por desalojar a Lexikon do centro da sala para um canto obscuro do escritório (para a foto acima, ela foi dar um passeio na varanda, em busca de luz, mas já voltou ao seu nicho). Descobri que a ideia não era, nunca tinha sido exibir essas engenhocas às visitas. A ideia é simplesmente tê-las, poder olhar para elas de vez em quando, recordar como se escrevia profissionalmente até outro dia mesmo.

E tendo a exata noção, saudosista ma non troppo, do quanto o computador facilitou a vida de quem escreve.

Há uma semana, um artigo de John Naughton no “Observer” (em inglês) perguntava já no título: “O Microsoft Word afetou o modo como trabalhamos?”. As respostas que ele arrisca são vagas e decepcionantes, mas isso não torna a pergunta menos provocadora.

Eu diria que sim, é evidente que afetou, como toda ferramenta: ficou tudo mais suave, fácil, confortável, veloz e ao mesmo tempo mais etéreo, imaterial – inclusive na ausência de rastros deixados pelo texto em seu processo de se fazer, o que transformou em curiosidade de época um elogio como “ele tem lauda limpa”, empregado nas redações quando se queria dizer que alguém entregava ao editor textos corretos e pouco rasurados.

Mesmo assim, não convém superestimar o papel do computador, que no fim das contas permitiu apenas fazer aquilo que as máquinas de escrever adorariam nos proporcionar, mas não conseguiam. A tecla Del era o x, e em casos mais extremos era possível até mover blocos – com tesoura e cola.

Isso se deve, em parte, ao fato de que a verdadeira máquina de escrever é o cérebro, o resto é só parafernália.

Claro que não se trata de fazer pouco dos instrumentos. No entanto, a julgar pela reação maravilhada de Nietzsche, um pioneiro tecnológico em seu tempo, à sua primeira máquina de escrever, comentada longamente por Nicholas Carr em “A geração superficial”, o salto da caneta tinteiro para aquela traquitana cheia de teclas e bracinhos que se enroscavam foi muito mais dramático do que desta para o processador de texto.

26/03/2012

às 13:40 \ Pelo mundo, Vida literária

Tabucchi (1943-2012) e as garatujas na areia

Foto de Stelious Skopelitis (divulgação)

A vida não está em ordem alfabética como há quem julgue. Surge… ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são migalhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cume e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, achata-se e resta-lhe apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e você continua insistentemente no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado… até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, você deixou na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começa a desconfiar de que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.

E que belas garatujas! O trecho acima é de “Tristano morre” (Rocco, tradução de Gaetan Martins de Oliveira), romance em forma de monólogo de um moribundo que o escritor italiano Antonio Tabucchi (foto) lançou em 2004.

Tabucchi morreu ontem, aos 68 anos, em Lisboa, capital do país que havia transformado em sua segunda pátria com paixão – tanta que não é descabido especular se sua morte representa uma perda maior para a cultura italiana ou para a portuguesa.

O autor de “Afirma Pereira” e “Noturno indiano” quase veio à Festa Literária Internacional de Paraty nos últimos dois anos. O primeiro cancelamento obedeceu a alegados problemas de saúde, mas o segundo foi um ato político, dimensão que Tabucchi nunca perdeu de vista em seu trabalho como escritor, professor e jornalista de oposição a Silvio Berlusconi: tratava-se de um protesto contra a proteção dada pelo governo brasileiro a Cesare Battisti, condenado por homicídio em seu país.

A causa era nobre, mas é uma pena termos perdido a última chance de ver e ouvir o maior aliado da língua portuguesa nascido em um país não lusófono. Em sua pequena e tocante novela “Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, o poeta português que era o grande ídolo literário de Tabucchi adia a morte, dizendo: “Sempre há tempo”.

Quando não há mais, restam as garatujas.

14/03/2012

às 12:08 \ Mercado, Pelo mundo

Amazon, Apple etc.: está online um e-curso intensivo

Interessado em compreender melhor as entranhas do novo mundo dos e-books, em especial a luta dos modelos comerciais antípodas oferecidos por Amazon e Apple e como se situam escritores, editores e livreiros diante deles? Bem, levando-se em conta que, a maior parte do tempo, o Brasil ainda age como se nada disso existisse, você precisa em primeiro lugar saber inglês. Cumprido tal requisito, não existe curso melhor e mais intensivo do que ler a carta aberta – pró-Apple e grandes editoras – que o escritor best-seller Scott Turow (foto), presidente do Authors’ Guild, a associação dos escritores dos EUA, enviou aos membros da organização. Depois é só tomar fôlego e emendar, rolando a tela, na longa lista de comentários postados no site da AG, divididos entre o apoio e a crítica ao ponto de vista de Turow. Além de ser didático, o debate dá inveja: fora um papalvo internético ou outro, o grau de civilidade, informação, articulação e até estilo dos debatedores é de derrubar o queixo.

*

No momento histórico em que a Enciclopédia Britânica deixa de circular em papel, que tal olhar em volta e medir nosso atraso em relação ao país que ocupa a extremidade oposta da palavra Bric? Na China, segundo reportagem da “Economist”, a internet já mudou o panorama literário de cabo a rabo:

Embora os leitores eletrônicos ainda sejam escassos, a internet afetou enormemente os hábitos de leitura. Cada vez mais o público chinês lê livros em telefones, tablets e laptops. As pessoas com menos de 30 anos, que têm mais probabilidade de possuir tais equipamentos, são os leitores mais ávidos… O resultado é um jorro de ficção de massa, escrita (e lida) em websites, não no papel.

*

Somos campeões em consumo de celulares, mas você conhece alguém que leia ficção no smartphone? Eu conheço um cara. É um e-editor.

*

Nesse quadro marcado pelo que se poderia chamar de analfabetismo funcional literário, o pior é quando o hábito – mais que resignado, satisfeito – de falar para meia dúzia afeta o juízo do cidadão, levando-o a acreditar que quanto menos leitores tiver, melhor. Nessas horas convém lembrar que…

…Nabokov nunca perde de vista a narrativa, a melodia. Desconstruir ou fazer experiências abandonando o leitor tem sido, desgraçadamente, uma prática frequente demais. Creio que é necessário brincar e experimentar sem esquecer o interesse do leitor, e manter a história em alta sem se submeter a ela.

Isso é Enrique Vila-Matas defendendo, em entrevista ao “El País”, aquilo que chama de “vanguarda feliz”, e que poderia ser traduzido por “literatura esteticamente inquieta que não abre mão do prazer nem depende de teóricos acadêmicos para se afirmar” – conceito simples, mas precioso, que o escritor espanhol trata de aplicar mais uma vez em seu novo livro, Aire de Dylan.

12/03/2012

às 15:57 \ Pelo mundo, Vida literária

Combinado: depois das baleias, a gente salva o Updike!

O ensaio do crítico americano Lee Siegel no décimo número da revista “serrote”, chamado John Updike ou A desimportância de ser sério, tem duas partes instigantes que, no entanto, não se encaixam muito bem. Ambas – e sua (des)conexão – vão comentadas abaixo.

Na primeira parte Siegel defende John Updike (foto, 1932-2009) do que considera uma campanha sórdida – nem tão nova, mas acelerada à medida que sua vida se aproximava do fim – para desmoralizar um dos grandes escritores americanos da segunda metade do século 20. Os maiores inimigos de Updike seriam, pela ordem, o crítico James Wood e o escritor David Foster Wallace, mas o complô acabaria envolvendo Harold Bloom e a própria revista “New Yorker” em que Updike se consagrou – e que mesmo involuntariamente, nothing personal, teria aplicado no criador de Coelho Angstrom um golpe duro ao contratar Wood.

O ensaísta é galhardo e até valente em sua defesa crítica de um escritor de inegáveis méritos, prolífico e generoso, que de alguma forma tornou-se uncool e anda necessitado de defesa em seu país. Deixa a sensação de que poderia ter feito um trabalho melhor em demonstrar por que Updike é importante, como eu acredito que seja mesmo. No entanto, tem o mérito pouco comum de tentar falar em tempo real desses movimentos mais ou menos surdos de construção e demolição de reputações que movimentam a máquina das letras através dos séculos – movimentos que obedecem a fatores não apenas literários e que, como se sabe, são sujeitos a ciclos, abalos sísmicos, reviravoltas. A meu ver, faltou falar também do provável preço que Updike pagou por ter se dedicado décadas a fio à tarefa de, como resenhista profissional, avaliar a produção dos colegas. Mas a disposição de defender o cara é simpática, justa e dialeticamente necessária.

A segunda parte do ensaio de Lee Siegel liga-se frouxamente à primeira por uma adversativa formalista: Updike pode recuperar seu prestígio um dia, mas a própria literatura não terá a mesma sorte. Trata-se de um ataque ao estatuto da ficção literária no quadro da cultura ocidental (leia-se americana) contemporânea. Aqui estamos próximos do clichê “o romance está morto”, que Siegel apregoou com alarde há quase dois anos – motivo pelo qual foi zoado na época aqui no blog, num Sobrescrito que lhe dediquei. Desta vez, porém, sem lançar mão do slogan desgastado, o crítico desenha de forma ampla e razoavelmente convincente o cenário em que, segundo acredita, a literatura de ficção artisticamente ambiciosa vai perdendo substância, profissionalizada, autocentrada, cada vez mais marginalizada pelo Zeitgeist – algo, de resto, não muito fácil de negar. É interessante o uso com sinal trocado que Siegel faz do caso do elogiadérrimo “Liberdade”, de Jonathan Franzen:

O romance de Franzen foi esquecido em umas duas semanas. No entanto, as pessoas ainda estão falando sobre filmes como “Avatar”, “Guerra ao terror” e “A lula e a baleia”. A arrebatada atenção crítica que o romance de Franzen recebeu foi quase heroica. Uma tentativa autocriada e autossustentada de tornar de novo o romance algo tão culturalmente relevante quanto um filme. Teve o triste efeito de provar o definhamento de sua relevância.

Aqui, mais uma vez, o ensaísta deixa na cabeça do leitor perguntas que não responde. Principalmente esta: o fato de que “as pessoas ainda estão falando” de “Avatar”, mesmo que seja verdadeiro, basta para tornar o filme de James Cameron “mais relevante” que o livro de Franzen? Que critério é esse que obrigaria o crítico a declarar, por exemplo, a viúva Porcina um personagem mais relevante que Diadorim?

E para finalizar – sim, é verdade que Siegel tenta amarrar as duas metades com uma tese exposta de saída, na primeira frase do ensaio: “Quando a seriedade se torna um estilo autoconsciente, formulado como uma receita… está aberta a temporada de caça à coisa autêntica”. A coisa autêntica seria Updike, claro, e a seriedade literária como receita é um juízo desfavorável sobre o ambiente das letras atuais. Não cola muito. Uma coisa é defender o ficcionista americano, outra é tentar fazer dele o grande mártir da batalha em que a literatura foi expulsa do paraíso. Com um pouquinho de má vontade (não muita), a segunda parte do ensaio pode até ser lida como um boicote à primeira.

09/03/2012

às 12:49 \ Mercado, Pelo mundo, Vida literária

Trailer de livro é um ‘conceito ridículo’: prova número 1

O Pop Literário de Sexta não viveria sem eles, mas trailers de livros partem, segundo uma boa tirada de Drew Grant na Salon, de “um conceito razoavelmente ridículo: tentar vender literatura para pessoas que prefeririam esperar pela adaptação cinematográfica”. Seja como for, o gênero está em ascensão (transparência total: eu mesmo já cometi um e dificilmente escaparei de outros) e tem até seu próprio prêmio no âmbito da anglofonia, o Moby Awards, que destaca os melhores e os piores exemplares do mercado no período de um ano.

Nem sempre é fácil distinguir uns dos outros.

Grande vencedor (sem ironia) do Moby 2011, o vídeo acima ilustra bem a observação de Grant sobre o ridículo do conceito. Feito para promover o último romance de Gary Shteyngart, já lançado no Brasil com o título “Uma história de amor real e supertriste” (Rocco, tradução de Antônio E. de Moura Filho, R$ 49,50), o trailer é quase uma superprodução. Tem participações especiais de colegas do autor – especialmente Jeffrey Eugenides, Edmund White e Jay McInerney – e até do astro hollywoodiano James Franco.

Tudo para levar à estratosfera aquele manjado mandamento, “ria de si mesmo antes que os outros o façam”, caro a todo intelectual de nariz em pé que sonha em ser abraçado pelas multidões. Shteyngart, um escritor sério, capricha no papel de palhaço. A coisa é engraçada às vezes, constrangedora na maior parte do tempo, e no fim deixa no ar um miasma de desespero vendedor.

Em mais uma volta do parafuso, Jonathan Franzen levou o Moby 2011 de Pior Desempenho de um Escritor por começar seu monótono vídeo promocional de “Liberdade” alardeando o desconforto de ter que fazer vídeos promocionais.

02/03/2012

às 11:25 \ Pelo mundo, Vida literária

Houaiss, Shakespeare e outros crimes

Envergonhado com a ação do procurador de Uberlândia contra o dicionário Houaiss, por suposto crime de racismo numa das acepções do verbete “cigano” (verbete que, por via das dúvidas, já foi tirado do ar na versão online do dicionário, tornando o caso ainda mais deprimente)? Console-se pensando no estado americano do Arizona, onde uma campanha de extremistas de direita do Tea Party contra os “estudos étnicos” na rede educacional acaba de botar na lista negra, entre outros autores, um tal de William Shakespeare.

*

O escritor Michel Laub esqueceu a reverência no banco do táxi, pegou a crônica A um jovem, de Carlos Drummond de Andrade – publicada no livro “A bolsa & a vida”, de 1962 – e editou os 31 conselhos literários que o poeta dá a um certo Alípio para transformá-los num decalogozinho mais ao gosto da era digital. O resultado contém alguns toques de atualidade perfurocortante:

Se sentir propensão para o ‘gang’ literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.

*

Jonathan Franzen está sendo – de novo – bombardeado por acusações
de misoginia, desta vez devido às observações no mínimo deselegantes que enfiou num ensaio sobre Edith Wharton para a “New Yorker”.

*

Quem a esta altura ainda não viu a surpreendente aula-espetáculo (abaixo) dada por Rubem Fonseca – escritor famoso por ser um recluso, mas só para consumo doméstico – no evento literário português Correntes d’Escritas, em Póvoa de Varzim? O vídeo divide opiniões. Há quem torça para o autor de “Feliz ano novo” estender ao território nacional aquele humor performático de professor de cursinho, em consideração aos nativos que o consagraram. Outros adorariam vê-lo de volta à velha reclusão, desta vez para não sair mais.

27/02/2012

às 14:31 \ Pelo mundo

Esses fantásticos livros voadores

Eis a versão integral (cerca de 15 minutos) do curta de animação que ganhou o Oscar ontem à noite, The fantastic flying books of Mr. Morris Lessmore (Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore, nome próprio que contém um trocadilho intraduzível, algo como “Maisé Menosmais”).

Essa declaração de amor ao livro de papel começa com um furacão que arranca as casas de seus alicerces e as palavras das páginas impressas, metáfora óbvia da onda digital. Mudo, o filmete é escrito e codirigido pelo ex-animador da Pixar William Joyce e mistura técnicas (stop-motion, animação computadorizada e desenho) para produzir uma bonita homenagem aos livros físicos.

Embora ameace derrapar aqui e ali (personagens em preto e branco ganham cor ao ter contato com livros, por exemplo), o curta consegue no fim das contas driblar a maior parte dos lugares-comuns associados ao tema. Destaque para o momento em que, na mesa de operação, o velho tomo carcomido em francês tem uma parada cardíaca e só ressuscita quando o Sr. Lessmore começa a… lê-lo!

Um tom profundamente nostálgico perpassa o filme, da música à direção de arte. Isso é condizente com uma cerimônia do Oscar em que o grande premiado foi “O artista”, mas tem algo de enganador. Além de render um curta de animação, a história de The fantastic flying books… foi lançada ano passado como um livro digital interativo para iPad que chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos na loja da Apple.


 

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