10/02/2012
às 13:56 \ Pelo mundoA internet é aliada da inteligência, mas ama a burrice
Esta semana esbarrei em duas notícias pouco comentadas que, embora inteiramente desvinculadas uma da outra, são bons exemplos das linhas que a cultura digital traça em sua atarefada remarcação do território da inteligência coletiva, cada uma numa extremidade – a da ampliação da inteligência e a da ampliação da burrice. Tendo como único ponto em comum o fato de terem sido garimpados na banda anglófona da rede (onde, como se sabe, desenrola-se a vanguarda da revolução eletrônica), estou falando dos seguintes nacos de informação:
1. Empreendimento conjunto de duas universidades americanas, a Brown University e a University of Tulsa, The Modernist Journals Project disponibiliza gratuitamente na internet, em pdf, versões escaneadas de revistas e jornais de língua inglesa (de diversos países) que tiveram relevância para o modernismo artístico, sobretudo literário, entre os anos de 1890 e 1922. Trata-se de um trabalho em andamento que disponibiliza – e pretende disponibilizar cada vez mais – material raríssimo, até então encontrável somente em grandes bibliotecas e mesmo assim quase nunca em conjunto, a qualquer pessoa que tenha acesso a uma lan house em qualquer ponto do planeta.
2. Em um artigo intitulado 25 razões para o Google odiar o seu blog (em inglês), o site ProBlogger ensina os blogueiros, franco-atiradores da guerra digital, a dar máxima visibilidade aos seus escritos no Google como forma de ampliar o tráfego de visitantes em suas paginetas. Cada tópico ataca um problema: “Você não sabe encontrar as palavras-chave certas”, “Você não usa suas palavras-chave com frequência suficiente”, “Seus títulos nem mencionam sua palavra-chave principal”, “Você nunca usa listas em seus posts”, “Você não escreve sobre tópicos em que as pessoas estão interessadas” – e assim por diante. Nem uma linha sobre escrever bem, ter informações quentes ou opiniões brilhantes, enfim, acrescentar algum ingrediente novo ao cozidão eletrônico. Isso seria romântico demais, além de irrelevante para o propósito de bajular o deus Google. Os conselhos terminam por se resumir a dois: no campo do conteúdo, dar aos leitores o que eles querem e já sabem que querem, ainda que isso seja o mesmo que todo mundo está fazendo (a audiência é gigantesca o bastante para que uma fatia razoável lhe caiba mesmo assim); e, no campo da forma, fazer isso num estilo engessado que abuse de listas e martele as míticas “palavras-chave” o tempo todo.
De um lado, um novo Iluminismo. Do outro, uma nova Idade Média. De um lado, o aceno à velha utopia humanista do acesso universal aos bens culturais. Do outro, uma distopia real movida à introjeção – perfeitamente sensata, o que é pior – dos valores da massificação pelo público, algo que os velhos críticos da TV foram incapazes de prever em seus piores pesadelos.
Qual dos lados vai prevalecer nesse cabo-de-guerra? E quem disse que um deles vai prevalecer?
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