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17/06/2013

às 16:14 \ Pelo mundo, Vida literária

Em defesa de Alice Munro

Trata-se de uma espécie de “Sobre a arte de jogar pedra nos clássicos – parte 2”: na revista eletrônica Salon.com, o escritor Kyle Minor sai em defesa da contista canadense Alice Munro (foto), que foi esculachada dos pés à cabeça por uma resenha de Christian Lonrentzen na prestigiosa London Review of Books (os dois textos em inglês, acesso gratuito).

Alice Munro atingiu um lugar de proeminência literária, e quando um escritor atinge um lugar de proeminência literária, pode acontecer que um crítico encarregado de resenhar seu novo livro se sinta tentado a transformar a encomenda numa oportunidade de fazer uma declaração bombástica sobre o tal escritor proeminente – e dessa forma fazer uma declaração bombástica sobre a literatura contemporânea, a cultura literária contemporânea ou a crítica literária contemporânea.

Há dois caminhos comuns pelos quais esse tipo de declaração bombástica pode dar errado – o da santificação e o da iconoclastia. O crítico do tipo santificador despeja sobre o escritor uma ducha de elogios incondicionais, declara-o um gênio e ignora seus defeitos – ou diz que eles são virtudes. O outro tipo de crítico talvez decida que o modo mais seguro de esvaziar o balão de uma reputação hiperbólica não é apenas deixar um pouco de ar escapar. Não, pode ser mais satisfatório – além de chamar mais a atenção – atacá-lo com um lança-chamas.

Christian Lorentzen, um dos editores da “London Review of Books”, usou as cerca de 3 mil palavras que lhe foram encomendadas para a resenha de “Dear life”, a 14ª coletânea de contos de Alice Munro, como uma oportunidade de corrigir o que talvez tenha identificado corretamente como uma cultura de santificação acrítica que hoje parece saudar cada novo livro de Munro. Mas o modo que escolheu para expressar sua correção foi uma resenha cruel e terrivelmente equivocada, um antiquado trabalho de carnificina que desdenha, ridiculariza e cinicamente treslê uma carreira que prospera placidamente há 45 anos.

Minor não precisaria se esforçar muito para conquistar minha simpatia nessa briga. Considero Munro uma baita contista. No trecho abaixo, porém, ele toca no que me parece ser um dos grandes nós do trabalho de apreciação crítica de literatura – mesmo quando o crítico está imbuído do maior espírito de justiça:

Há um ponto em que a resenha de Lorentzen acerta, uma verdade que merece ser apregoada aos quatro ventos: nenhum escritor merece reverência. Um conto ou um romance pode conquistar um tipo de reverência, mas se o ponto de partida crítico é a reverência, torna-se impossível descrever o que, na obra, induziu essa reverência (…) [Mas] a preocupação de Lorentzen se projeta numa direção ligeiramente errada. O problema não começa quando um escritor é “elogiado demais”. O problema começa quando um conto ou romance já não pode ser lido porque o leitor está ocupado demais lendo sua própria ideia preexistente sobre o escritor.

A última frase merece ser impressa e colada na parede diante da mesa de trabalho de todo crítico. Simpáticos ou hostis ao autor até o momento de abrir o livro, o maior desafio de todos nós – talvez até, em determinadas situações, intransponível – será sempre ler o texto, não o escritor.

10/06/2013

às 15:12 \ Pelo mundo

Como a Coreia do Norte salvou a arte alemã e outros links

Um fascinante artigo da Bloomberg Businessweek (em inglês, acesso gratuito) conta como um gigantesco ateliê norte-coreano de escultura e pintura em estilo realista-socialista, o Mansudae (que tem como principal cliente o próprio Estado, claro), foi a melhor opção da cidade de Frankfurt quando, há poucos anos, seus administradores decidiram reconstruir a Fonte do Conto de Fadas (foto), uma extravagância art noveau de 1910 que tinha sido derretida para alimentar a indústria bélica nazista na Segunda Guerra Mundial. Uma fábula real sobre como o tecido da história tem dobras surpreendentes em que o “atraso” estético pode virar vantagem competitiva:

Klaus Klemp, diretor do Museu de Arte Aplicada de Frankfurt, descobriu o Mansudae em 2004 e ficou tão impressionado com a qualidade de seu trabalho que convenceu a burocracia local a contratar o ateliê. “Foi uma decisão puramente técnica”, diz ele. “Os artistas de ponta na Alemanha simplesmente não fazem mais arte realista. Os norte-coreanos, por outro lado, não vivenciaram a longa evolução da arte moderna: estão meio que presos no início do século XX, que é exatamente quando a fonte foi construída.” O preço cobrado pela Coreia do Norte para reconstruir a escultura de bronze também foi atraente: 200 mil euros, transporte incluído.

*

No artigo “Jornalismo cultural: promessas e impasses” (o primeiro de uma série), o crítico literário João Cezar de Castro Rocha dá prosseguimento, no jornal “Rascunho”, às mais lúcidas reflexões que tenho visto por aí sobre o momento crivado de sinais contraditórios que vive a cultura brasileira:

De um lado, verifica-se um movimento intenso na área da literatura, em particular, e da cultura, em sentido amplo. Festivais literários se multiplicam; jovens leitores criam blogs e vlogs para discutir suas leituras; autores se desdobram em oficinas e palestras; pequenas editoras surgem com propostas ousadas; o fenômeno da auto-publicação se firma no cenário das letras brasileiras, etc. etc..

De outro lado, escuta-se um coro orquestrado de teóricos, críticos e jornalistas decretando a decadência do momento atual, e, em casos extremos, diagnosticando o “vazio cultural” como a marca-d’água dos tempos que correm.

Ora, em meio ao tiroteio, que partido tomar?

No primeiro momento, partido algum. Trata-se de estudar o presente com uma dupla mirada, destacando as promessas, porém assinalando os impasses.
Em segundo lugar, deve-se analisar, concretamente, a cena contemporânea; caso contrário, como evitar o ridículo de uma frase que se ouve e lê com uma frequência preocupante? Eis: afirma-se que a literatura brasileira contemporânea pouco vale; e a crítica, nada conta. Nesse caso, pergunta-se ao casmurro magistrado: “mas que autores contemporâneos o senhor leu recentemente?”. A resposta, primorosa em sua perversão, encerra o diálogo, como se os famosos antropólogos de gabinete do século 19 retornassem sem constrangimento: “Eu? Nenhum, claro! Pois se a literatura brasileira contemporânea pouco vale…”.

*

Uma imperdível reportagem de Lucas Ferraz na “Ilustríssima” conta a história da maior biblioteca especializada em sexo, drogas e contracultura em todo o mundo, com mais de 50 mil itens, muitos deles raridades. A coleção foi montada ao longo da vida pelo bilionário colombiano Julio Mario Santo Domingo Jr., morto em 2009, e cedida pela família a Harvard.

03/06/2013

às 15:46 \ Pelo mundo

Eagleton espanca Coetzee e Auster: só falta o Bono Vox


É uma ilusão romântica supor que escritores devem ter algo interessante a dizer sobre relações raciais, armas nucleares ou crises econômicas pelo simples fato de serem escritores. Não há nenhuma razão para presumir que romancistas ilustres como Paul Auster e J.M. Coetzee tenham uma visão mais sábia da conjuntura mundial do que um físico ou um neurocirurgião, algo que essa correspondência entre eles confirma de modo deprimente. Na verdade, não há razão alguma para que autores tenham algo especialmente marcante a dizer sobre o ato de escrever, muito menos sobre a Caxemira ou o IRA. Seus comentários sobre a própria obra que produziram podem ser ainda mais obtusos que o dos críticos. Se T.S. Eliot acreditava mesmo que “A terra devastada” era apenas um amontoado de resmungos rítmicos, como disse certa vez, nunca deveriam tê-lo condecorado com a Ordem do Mérito.

Os comentários de Coetzee sobre a atual crise econômica não são apenas equivocados, mas levianos. Nada de fato aconteceu com a economia mundial, ele escreve presunçosamente a Auster, a não ser uma reacomodação estatística. É improvável que o Banco da Inglaterra, para não falar das pessoas que viram suas casas e seus sustentos lhe serem roubados por gângsteres financeiros, fiquem extraordinariamente impressionados com seu argumento. A julgar por sua resposta circunspecta, nem Paul Auster ficou, embora respeite demais o colega renomado para dizer isso de forma direta. (…) A verdade é que nenhum dos dois sabe nada de economia, e não existe razão para supor que uma habilidade com as metáforas confira a uma pessoa esse tipo de compreensão. Só quem herdou a crença no artista como sábio, profeta ou visionário achará desconcertante descobrir que nenhum desses liberais ‘bien-pensant’ tem algo de profundo ou original a dizer sobre política.

O crítico inglês Terry Eagleton capricha no veneno em sua resenha (em inglês, acesso gratuito) de Here and now, edição da correspondência que o sul-africano J.M. Coetzee e o americano Paul Auster trocaram entre 2008 e 2011. Publicada pelo Times Literary Supplement, a bordoada vem ancorada em argumentos. O que incomoda Eagleton é o fato de as cartas trocadas pelos colegas ficcionistas passarem longe de se caracterizar como um diálogo realmente artístico – além de terem pouco em comum no campo literário, os dois, sobretudo Auster, estariam cheios de dedos demais para arriscar incursões nesse terreno – ficando no campo da troca de gentilezas e observações genéricas, algo que tem lógica exclusivamente privada. A questão é: direito deles, mas para que publicar essas coisas? O crítico faz duas ressalvas, ambas creditadas ao nobelizado da dupla:

O livro tem apenas dois trechos de interesse literário. Um deles é uma reflexão idiossincrática e levemente gozadora de Coetzee sobre o papel do telefone celular na literatura. Uma vez que a trama tradicional tende a depender tanto da distância quanto da proximidade entre os personagens, como isso foi alterado por um mundo em que todos estão imediatamente acessíveis o tempo inteiro? Como, por exemplo, foi afetado o romance de adultério, uma prática que, na vida real, teve que se adaptar às novas formas de comunicação? Há ainda uma ou duas cartas envolventes de Coetzee, pequenas joias que prometem enlevar os críticos pós-coloniais, sobre sua relação complexa, como africâner, com o inglês como “língua-mãe”. Muitos escritores e intelectuais contemporâneos, assinala, “têm uma relação distante ou interrogativa com o idioma que falam e escrevem”. Quando estava crescendo, observa, sempre achou que o inglês era uma propriedade dos ingleses, não sua. “Os ingleses inventavam as regras do inglês da forma mais caprichosa que quisessem… (enquanto) pessoas como eu seguiam à distância e faziam o que eles mandavam”. Aos vinte e um anos, vivendo na Inglaterra, tinha certeza de falar e escrever melhor do que a maioria dos nativos, mas via-se identificado como estrangeiro no instante mesmo em que abria a boca. Auster entra na conversa com algumas observações bem menos sutis sobre seus avós imigrantes judeus e sua mulher norueguesa.

Eagleton, um dos grandes críticos literários da atualidade, é um pensador marxista fino, avesso a raciocínios mecanicistas, mas derrapa aqui e ali. Como quando critica os missivistas por falarem muito sobre esporte – um dos traços mais interessantes do livro, a meu ver – e, mesmo assim, deixarem de “reconhecer que o esporte, nos dias de hoje, é o ópio do povo”. É como se evitar o velho e desgastado clichê fosse um defeito e não uma qualidade que Coetzee e Auster compartilham em sua tentativa de compreender a profunda ressonância cultural que fundamenta a indústria globalizada em que o esporte se transformou. (Leia aqui, em português, trecho de uma carta “esportiva” de Coetzee, adiantada pelo Todoprosa em março.)

Quando alfineta os autores por seu desprezo aos críticos, Eagleton, sem deixar de ter razão, também dá a impressão de que contrapõe um corporativismo ao outro – o que deixa fora da brincadeira o leitor que não é nem crítico nem escritor. No entanto, a resenha exibe os méritos habituais do autor, raros tanto entre críticos quanto, reconheça-se, entre escritores: a clareza do pensamento, do estilo e do humor. Terminamos com a impressão – no meu caso, surpreendente – de que uma edição da correspondência entre dois ficcionistas respeitáveis pode ser mais um sintoma, ainda que discreto, da mesma patologia cultural que produziu a febre dos reality shows e as colunas online que acompanham minuto a minuto a vida das celebridades.

“Esse livro preenche uma lacuna muito necessária”, dizem que começava assim uma resenha lendária, talvez apócrifa. O mesmo, infelizmente, pode ser dito deste aqui. Fãs de beisebol deverão achá-lo mais satisfatório do que cultores de ficção. Ele nos ameaça com um gênero inteiramente novo em que os leitores se deliciarão com os pensamentos de Martin Amis sobre contabilidade apenas porque foram pensados por Martin Amis, ou farão fila para ouvir Bono discorrer sobre doenças tropicais simplesmente porque ele fez todos aqueles shows. É um alívio, contudo, descobrir que tanto Auster quanto Coetzee acreditam que a resposta adequada a uma crítica negativa é conservar um silêncio orgulhoso, e não enfiar um murro no estômago do crítico. Para este resenhista, trata-se de um dos aspectos mais gratificantes de todo o projeto.

29/05/2013

às 11:41 \ Pelo mundo

Literatura acima das nuvens e outros links

A Qantas, companhia aérea australiana, lançou um curioso programa (em inglês, acesso gratuito) de encomenda de livros de ficção e não-ficção para serem distribuídos em seus voos. Os tamanhos são variados como as rotas, mas a ideia é que o volume seja sempre lido entre a decolagem e o pouso. No cálculo, levou-se em conta que o leitor médio dá conta de algo entre duzentas e trezentas palavras por minuto. Os nomes dos autores ainda não foram divulgados.

Por alguma razão, não consigo imaginar Gol ou Tam fazendo isso.

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Há um ingrediente adicional que torna mais eficaz o recurso ao pensamento esotérico. Para deixá-lo doutrinariamente inofensivo, para despojá-lo de todo perigo satânico, Coelho o combina com doses adequadas de cristianismo tradicional: citações da Bíblia, quadros do Sagrado Coração de Jesus, rezas do Pai Nosso… O público majoritário não se sente em pecado por ler heresias, e o narrador, ao mesmo tempo que se faz passar por alguém dotado de poderes paranormais (capaz inclusive de telepatia), deixa saber que é também um bom cristão, apesar de seus flertes com a magia.

Por que Paulo Coelho é tão ruim, na avaliação de Héctor Abad Faciolince (em espanhol).

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A escrita é uma porta pequena. Algumas fantasias, como peças grandes demais de mobília, não passam por ela.

O blog de Maria Popova traz uma intrigante seleção (em inglês) de anotações de Susan Sontag sobre o ato de escrever, colhidas em seus diários (publicados no livro As consciousness is harnessed to flesh).

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Esta reportagem de Jones Lopes da Silva no jornal gaúcho “Zero Hora”, sobre as seringas compartilhadas que dizimaram quase toda uma geração de jogadores do Gaúcho de Passo Fundo, paga – no conteúdo e na forma – parte daquela dívida que, dizem, a literatura brasileira tem com o futebol.

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Dan Brown, que acaba de voltar ao primeiro lugar nas listas de best-sellers com seu “Inferno”, tem um método peculiar (em inglês) para combater o bloqueio criativo: pendura-se de cabeça para baixo.

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A ideia não é nova, mas nunca ganhou a sustentação de argumentos tão detalhados (em inglês, acesso gratuito): Humbert Humbert, o narrador pedófilo de “Lolita”, de Vladimir Nabokov, era judeu?

27/05/2013

às 15:42 \ Pelo mundo

Contra Gatsby: sobre a arte de jogar pedra nos clássicos

Leonardo DiCaprio como Gatsby: um brinde às pedradas

Em um ótimo artigo (em inglês) no blog de livros da “New Yorker”, Sam Sacks tenta recuar dois passos para falar em termos menos apaixonados – e mais historicamente fundamentados – da polêmica deflagrada pelo recente torpedo “Por que eu desprezo ‘O grande Gatsby’”, de Kathryn Schulz (em inglês, aqui). Na verdade, mais do que o artigo original e a onda de condenações que ele levantou, a principal motivação de Sacks parece ser um tuíte em que a escritora Joyce Carol Oates tenta blindar o romance do colega F. Scott Ftizgerald dizendo o seguinte: “Odiar ‘O grande Gatsby’ é como cuspir no Grand Canyon. Ele não vai desaparecer tão cedo. Você vai”.

Achei honesto o artigo de Schulz, ainda que não concorde com ele em seu ponto mais fundamental: considero ‘Gatsby’ um belo livro. No entanto, como Sacks, também fiquei incomodado com as tentativas generalizadas de desqualificar a crítica de antemão, como se a ousadia de falar mal de uma obra canônica não pudesse obedecer a nenhuma outra motivação além daquele impulso baixo, a “vontade de aparecer” – que em sua versão contemporânea pode ser traduzida como “fome de cliques”.

Sim, é verdade que jogar pedras em ídolos é um esporte praticado por grande número de mediocridades em busca de quinze minutos de fama. Também é verdade que o mundo digital multiplicou as oportunidades para esse tipo de vandalismo intelectual. No entanto, no momento em que tais constatações nos levam a situar certos nomes acima da crítica, a inteligência paga um preço alto demais.

Por mais que dê trabalho, a lisura do debate vai sempre nos obrigar a examinar a qualidade das pedras, uma por uma, antes de decidir se quem as lança é um palhaço ou um visionário. Ou mesmo – em algum ponto no meio do caminho – um daqueles espíritos revoltados que, errando mais do que acertam, ainda assim merecem ser ouvidos.

Duas pedras curiosas coletadas por Sacks:

Martin Amis sobre a obra-prima de Miguel de Cervantes: “Ler o ‘Dom Quixote’ pode ser comparado a receber como hóspede o mais intratável dos seus parentes mais velhos, com todas as suas pegadinhas, hábitos pouco higiênicos, reminiscências incontroláveis e amigos horríveis”.

Anthony Burgess sobre “Os miseráveis”: “Você não está ciente da chatice, das irrelevâncias, do tom de pregação, do sentimentalismo, das improbabilidades, do melodrama?”

A essas pedradas acrescento outra por minha conta: Roddy Doyle dizendo que “Ulisses”, de James Joyce, “teria melhorado com uma boa edição”.

Os três casos têm algo em comum: os autores das críticas não podem ser chamados de fanfarrões anônimos, mas, para a história da literatura, são nomes muito menores do que seus alvos. E daí? Cuspir no Grand Canyon, afinal, é como desafiar a morte, insultar Deus, amaldiçoar a tempestade em alto-mar, condenar a civilização como um todo. O cara vai sempre perder no fim, mas pode haver grandeza em seu gesto de recusa.

08/05/2013

às 14:40 \ Pelo mundo

Quero ser lido em Marte e outros links

A notícia que começou a circular há alguns dias parece piada, mas não é. Trata-se apenas de um concurso literário do outro mundo: a Nasa, agência espacial americana, vai escolher três haicais num concurso de mensagens poéticas para Marte e gravá-los num DVD a ser levado ao Planeta Vermelho na missão Maven, com lançamento marcado para novembro (via Guardian).

Como se sabe, haicai (também chamado haiku) é um poema de apenas três versos, de origem japonesa. As inscrições são abertas a todos e vão até 1º de julho. Uma votação online apontará os vencedores.

Não, ninguém espera encontrar em Marte um público leitor para os poeminhas. A mensagem é dirigida aos próprios terráqueos, em busca de apoio popular para a contestada causa da exploração espacial. Isso é tornado mais evidente pela promessa de que os nomes de todas as pessoas que entrarem em contato com a missão manifestando esse desejo também serão gravados no tal DVD.

Depois de refletir longamente sobre tudo isso, pensei em enviar minha modesta contribuição:

Nada de arte, Marte:
A Terra é feita de terra
Água e marketing.

Mas desconfio que desclassifiquem textos em português.

*

O cineasta Steven Soderbergh, de “Sexo, mentiras e videotape” e “Traffic”, está publicando desde 28 de abril uma novela policial no Twitter (twitter.com/Bitchuation). Chama-se Glue e tem o apoio de fotografias. O décimo quarto dos capítulos curtinhos acaba de chegar ao fim (via Salon.com).

Se eu estou gostando? Não exatamente. Ficções mais longas servidas como picadinho no Twitter ainda estão naquela fase que se chama de “experimental”, em que os melhores esforços costumam merecer, no máximo, adjetivos como “interessante” ou, pior, “válido”.

O principal desafio é impedir que o limite de 140 caracteres soe arbitrário e gratuito, características que costumam ser hostis à qualidade literária, principalmente quando se trabalha com formas sucintas.

Embutir na própria história um sentido para a forma soluçante é algo que, na minha opinião, ninguém fez melhor até agora do que Jennifer Egan em seu já clássico Blackbox. Talvez Soderbergh concorde, pois usa uma voz narrativa (em segunda pessoa) que tem semelhanças com a da novelinha de Egan.

*

Será que você devia, como autor de ficção, permitir que seus personagens tenham sonhos? Algumas pessoas acham uma má ideia, mas não há nada que o impeça: as pessoas sonham mesmo, sonham todas as noites, e ter personagens que não sonham de jeito nenhum é como ter personagens que não comem. Mas isso também não é um problema: algumas histórias não tratam de sonhos nem de comida. Ficaríamos chocados se Sherlock Holmes, James Bond ou Miss Marple começassem de repente a contar seus sonhos, embora novas gerações de heróis de thrillers e romances policiais sejam autorizados hoje – eu percebo – a ter mais vida pessoal. O que pode incluir mais sonhos. Mas não muitos mais. Você não vai querer que os sonhos atravanquem o caminho dos cadáveres.

Deixe o personagem sonhar se for preciso, mas tenha em mente que os sonhos dele – diferentemente dos seus próprios – terão um significado atribuído a eles pelo leitor. Seus personagens terão sonhos proféticos, prevendo o futuro? Terão sonhos sem consequência, como na vida real? Usarão os relatos de seus sonhos para irritar ou agredir ou iluminar outros personagens? Muitas variações são possíveis. Como em tantos outros aspectos, não é uma questão de fazer ou deixar de fazer, mas de fazer bem ou fazer mal.

Numa série que vem sendo publicada pelo blog da “New York Review of Books” sobre o papel dos sonhos na ficção, é a vez das considerações práticas e caseiras da escritora canadense Margaret Atwood (em inglês, aqui).

26/04/2013

às 11:44 \ Mercado, Pelo mundo

Angry Birds liquidam o Quixote: viva (morra) a literatura!

A Associação de Editores de Madri acaba de lançar uma campanha publicitária, assinada pela agência espanhola Grey, em que ilustres representantes da cultura literária de todos os tempos são impiedosamente exterminados por representantes da cultura audiovisual contemporânea (via No mundo e nos livros).

Dom Quixote enfrenta os Angry Birds e é abatido ao pé de um moinho de vento. A baleia Moby Dick, depois de derrotar a fúria homicida de Ahab, encalha e morre na praia do seriado Lost. O Pequeno Príncipe (vamos conter as comemorações, pessoal) tomba entre as ruínas de um videogame de guerra. A arte é caprichada e o recado, claro: o culpado é você – isso, você mesmo – que devia estar lendo em vez de perder tempo com atividades idiotas como jogar videogame e ver TV.

“Quando você passa tantas horas jogando um joguinho no seu celular, nem tudo o que você destrói lhe rende pontos”, diz a legenda da primeira imagem. “Quando você passa tantas horas assistindo à série de TV mais popular da história, não são apenas os personagens que terminam perdidos”, reforça a segunda. “Quando você gasta tanto tempo jogando videogames de guerra, não são só seus inimigos que você liquida”, fulmina a terceira.

A campanha é voltada para o público jovem e tem, evidentemente, o objetivo de promover a literatura, exaltando suas incomparáveis qualidades em contraste com a suposta pobreza cultural dos “adversários” audiovisuais. De forma curiosa – e sintomática da sinuca de bico em que vivemos – acaba por atingir o resultado oposto. Isso não se dá apenas porque adota a linguagem visual dos videogames que procura criticar, o que poderia ser visto como uma esperta ironia. A leitura atenta dos anúncios madrilenhos revela o falecimento de qualquer ironia intencional aos pés de um humor involuntário e suicida.

Para imaginar outra resposta tão derrotista e absurda à perda de espaço da literatura “séria” (a comercial nunca esteve tão bem, com mais de cinquenta tons de sucesso), seria preciso criar o personagem de um poeta de talento duvidoso a dizer com ar desolado, diante da febre do gamão que varreu os salões da Europa a partir do século XVIII: “Pobre Homero!”.

Além de ser artificial, esse tipo de oposição não interessa ao campo literário. Supor que quem gosta de se divertir com o viciante e tolinho Angry Birds só precisa de um puxão de orelhas moralista para desligar o smartphone e mergulhar no clássico de Cervantes é um delírio que nem a cabeça doente do Cavaleiro da Triste Figura teria concebido. Ofende o jogador que gosta de literatura – sim, ele existe – mas acha que cada coisa tem sua hora e considera suspeito o elogio da leitura como algo que “rende pontos”. Ofende o jogador que não gosta de literatura, mas gosta ainda menos que lhe digam com ar condescendente como deveria gastar seu tempo. E ofende a literatura ao imaginar que o Quixote esteja ao alcance de qualquer jogador de Angry Birds.

Não se trata de negar que a cultura letrada venha perdendo espaço para a audiovisual, um processo já antiguinho que nossa época parece estar acelerando. Em 1924, o filósofo galês Bertrand Russell escreveu que “é impossível ler nos Estados Unidos, com exceção dos trens, por causa do telefone. Todo mundo tem um telefone, e ele toca o dia inteiro e a maior parte da noite”. A invenção de Graham Bell era o bicho-papão tecnológico da época. William Faulkner tinha um aparelho em casa, mas lançou seu primeiro romance dois anos depois. Em 1949 ganhou o Nobel.

A literatura vai conservar alguma medida de relevância cultural – ainda que esnobada por multidões de jogadores de gamão e Angry Birds, como sempre foi – enquanto mostrar fôlego para reafirmar aquilo que só ela pode fazer e, ao mesmo tempo, mantiver um canal de diálogo com o mundo lá fora. Hoje esse mundo inclui cultura digital, jogos eletrônicos e seriados de TV. O resto é tiro de canhão no próprio pé.

24/04/2013

às 13:55 \ Mercado, Pelo mundo

Freeman deixa a ‘Granta’, Maracanã é amaldiçoado – e outros links

Após quatro anos à frente da “Granta”, a mais influente revista de literatura do mundo, o escritor e crítico americano John Freeman (foto) está deixando o posto – e a ponte aérea Londres-Nova York – para dar um curso de “escrita criativa” na Universidade Columbia. A saída de Freeman, aparentemente amigável, se dá poucos dias após o lançamento da quarta edição da já lendária seleção de “melhores jovens romancistas britânicos” (em inglês, aqui). A gestão do americano foi marcada pela expansão internacional da marca, lançada nesse período em dez países em modelo de franquia – a brasileira, da editora Alfaguara, já existia quando ele desembarcou na revista. O último fruto da safra será a “Granta” portuguesa, que tem lançamento marcado para 21 de maio e já anunciou a publicação de cinco sonetos inéditos de Fernando Pessoa. (Via Galleycat.)

*

E a própria bola te há de boicotar, e sobre teu tapete sentirás as dores de parto de inúmeras peladas que negarão a honra do teu nome. Pois serás Maracarena, serás Maraca-Não, serás rebatizado e deserdado em tuas tradições: os gentios rasgarão tua rede véu-de-noiva e vendê-la-ão aos pobres.

Recurso antigo que o pós-modernismo revalorizou, a paródia literária costuma ser vítima de um preconceito semelhante ao que cerca o trocadilho: seria uma forma artística irremediavelmente menor. Pode ser, pelo menos na maior parte dos casos. Só sei que não é nada baixo o voo que o cronista Márvio dos Anjos acaba de fazer sobre o Maracanã, com as asas que o Rubem Braga de “Ai de ti, Copacabana!” lhe emprestou. (Via twitter de @jpcuenca.)

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E por falar em estádios reformados e grandes escritores brasileiros mortos (neste caso, Monteiro Lobato), um autolink para o vizinho Sobre Palavras:

Quando a presidente Dilma Rousseff declara, como fez há duas semanas ao inaugurar a Arena Fonte Nova, que “somos um país conhecido por ser insuperável no campo, mas estamos mostrando que somos insuperáveis também fora de campo”, o Jeca Tatu morde seu talo de capim e olha em volta.

Vê um monte de obras atrasadas, caras, cheias de gambiarras; vê aeroportos caindo aos pedaços e uma seleção que amarga o 19º. lugar no ranking da Fifa, atrás de Suíça e Equador. Vê tudo isso e dá um risinho. Sabe que é assim mesmo, passo a passo, que conquistará a imortalidade.

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O escritor americano Saul Bellow, autor da obra-prima “Herzog”, era um monstro. A ambivalência dessa afirmação – um monstruoso artista em seu talento maior, um pai e marido também monstruoso em seu egoísmo – fica evidenciada nas memórias recém-publicadas por seu filho, Greg Bellow, intituladas Saul Bellow’s heart (“O coração de Saul Bellow”). Segundo a resenha do “Financial Times” (em inglês, aqui), o filho não explora o batido filão da vitimologia, pelo contrário: pega até leve com o velho.

01/04/2013

às 14:34 \ Pelo mundo, Vida literária

Capas ‘melhoradas’, impossíveis de piorar e outros links

A capa ao lado (“Este é o primeiro livro que eu leio em seis anos”), nome alternativo de “A garota com tatuagem de dragão”, de Stieg Larrson, é a preferida de todos os tempos pelos leitores do blog de humor Better Book Titles, que desde 2010 imagina “títulos melhorados” para livros famosos. O nome que coube à obra do autor sueco, claro, caberia em vários outros sucessos.

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E por falar em capa de livro: se esta aí embaixo, à direita – um legítimo produto brasileiro, de uma coleção popular da editora Record nos anos 1980 – não for a pior do mundo em todos os tempos, como a denominou Gabe Habash no blog da Publishers Weekly, será apenas porque as outras da coleção “Best of the best” não ficam atrás.

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Michel Laub, oportuno, escreve sobre a forma mais garantida e socialmente aceita de assassinar um escritor: banalizá-lo em pílulas de auto-ajuda nas redes sociais.

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A sempre provocante Laura Miller reflete na Salon.com sobre o direito que têm os escritores de ficção de puxar o tapete do leitor – e em que momento esse direito esbarra no direito do leitor de simplesmente abandonar o livro.

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Um livro que se debruça em três décadas de documentos produzidos por arapongas britânicos sobre escritores suspeitos do terrível crime de “comunismo”, como George Orwell e W.H. Auden, encontra uma comédia de erros e conclui – surpresa! – que 007 e seus colegas não entendiam bulhufas de literatura.

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Por razões profissionais, me dediquei na Semana Santa a reler as crônicas de Paulo Mendes Campos. Sabia que o cara era bom. Não me lembrava que fosse tão, mas tão monstruosamente bom. Fica o toque.

29/03/2013

às 13:09 \ Pelo mundo

Análise ‘científica’: Shakespeare não escreveu Shakespeare

A suspeita é antiga, mas uns dois séculos mais nova do que a obra fenomenal do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616): ele não seria o verdadeiro autor de suas peças e poemas, ou pelo menos de grande parte deles. Algumas lacunas historiográficas e sobretudo o fato de que o jovem Will nunca teve acesso a uma educação clássica de primeira linha, então ao alcance apenas da nobreza, são os principais argumentos invocados pelos céticos.

Como diz o próprio Stephen Greenblatt na introdução do excelente Will in the world: how Shakespeare became Shakespeare, “(sua) obra é tão assombrosa, tão luminosa, que parece ter vindo de um deus e não de um mortal, muito menos um mortal de origem provinciana e educação modesta”. Convém deixar claro que o autor de “Como Shakespeare se tornou Shakespeare” (lançado aqui pela Companhia das Letras, com título que abre mão do trocadilho intraduzível entre Will e “vontade, determinação”) não duvida que Shakespeare tenha sido escrito por Shakespeare. Apenas se dedica a pesquisar, com uma mistura sedutora de informações históricas e insights, como isso foi possível.

Se os céticos nunca foram capazes de provar sua tese, correndo o risco de se aproximar de descabelados teóricos da conspiração, tampouco desistiram dela. Um novo ataque (em inglês) vem agora de um campo inusitado. Não é de um historiador ou crítico literário, mas do eminente astrofísico Peter Sturrock, da Universidade Stanford, na Califórnia, o livro AKA Shakespeare: a scientific approach to the authorship question (“Vulgo Shakespeare: uma abordagem científica da questão da autoria”). Apoiado no fetichismo da palavra “científico”, que mesmeriza muita gente, Sturrock se dedica a aplicar análises estatísticas sobre amostras de texto shakespeariano para concluir – ou induzir a conclusão, uma vez que o livro apresenta um debate entre quatro personagens fictícios que têm opiniões distintas – que o verdadeiro gênio por trás do provinciano de Stratford-upon-Avon chamava-se Edward de Vere, Conde de Oxford, um candidato tradicional ao posto.

Como diria Shakespeare: “Então tá”.

 

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