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Arquivo da categoria Mercado

26/04/2013

às 11:44 \ Mercado, Pelo mundo

Angry Birds liquidam o Quixote: viva (morra) a literatura!

A Associação de Editores de Madri acaba de lançar uma campanha publicitária, assinada pela agência espanhola Grey, em que ilustres representantes da cultura literária de todos os tempos são impiedosamente exterminados por representantes da cultura audiovisual contemporânea (via No mundo e nos livros).

Dom Quixote enfrenta os Angry Birds e é abatido ao pé de um moinho de vento. A baleia Moby Dick, depois de derrotar a fúria homicida de Ahab, encalha e morre na praia do seriado Lost. O Pequeno Príncipe (vamos conter as comemorações, pessoal) tomba entre as ruínas de um videogame de guerra. A arte é caprichada e o recado, claro: o culpado é você – isso, você mesmo – que devia estar lendo em vez de perder tempo com atividades idiotas como jogar videogame e ver TV.

“Quando você passa tantas horas jogando um joguinho no seu celular, nem tudo o que você destrói lhe rende pontos”, diz a legenda da primeira imagem. “Quando você passa tantas horas assistindo à série de TV mais popular da história, não são apenas os personagens que terminam perdidos”, reforça a segunda. “Quando você gasta tanto tempo jogando videogames de guerra, não são só seus inimigos que você liquida”, fulmina a terceira.

A campanha é voltada para o público jovem e tem, evidentemente, o objetivo de promover a literatura, exaltando suas incomparáveis qualidades em contraste com a suposta pobreza cultural dos “adversários” audiovisuais. De forma curiosa – e sintomática da sinuca de bico em que vivemos – acaba por atingir o resultado oposto. Isso não se dá apenas porque adota a linguagem visual dos videogames que procura criticar, o que poderia ser visto como uma esperta ironia. A leitura atenta dos anúncios madrilenhos revela o falecimento de qualquer ironia intencional aos pés de um humor involuntário e suicida.

Para imaginar outra resposta tão derrotista e absurda à perda de espaço da literatura “séria” (a comercial nunca esteve tão bem, com mais de cinquenta tons de sucesso), seria preciso criar o personagem de um poeta de talento duvidoso a dizer com ar desolado, diante da febre do gamão que varreu os salões da Europa a partir do século XVIII: “Pobre Homero!”.

Além de ser artificial, esse tipo de oposição não interessa ao campo literário. Supor que quem gosta de se divertir com o viciante e tolinho Angry Birds só precisa de um puxão de orelhas moralista para desligar o smartphone e mergulhar no clássico de Cervantes é um delírio que nem a cabeça doente do Cavaleiro da Triste Figura teria concebido. Ofende o jogador que gosta de literatura – sim, ele existe – mas acha que cada coisa tem sua hora e considera suspeito o elogio da leitura como algo que “rende pontos”. Ofende o jogador que não gosta de literatura, mas gosta ainda menos que lhe digam com ar condescendente como deveria gastar seu tempo. E ofende a literatura ao imaginar que o Quixote esteja ao alcance de qualquer jogador de Angry Birds.

Não se trata de negar que a cultura letrada venha perdendo espaço para a audiovisual, um processo já antiguinho que nossa época parece estar acelerando. Em 1924, o filósofo galês Bertrand Russell escreveu que “é impossível ler nos Estados Unidos, com exceção dos trens, por causa do telefone. Todo mundo tem um telefone, e ele toca o dia inteiro e a maior parte da noite”. A invenção de Graham Bell era o bicho-papão tecnológico da época. William Faulkner tinha um aparelho em casa, mas lançou seu primeiro romance dois anos depois. Em 1949 ganhou o Nobel.

A literatura vai conservar alguma medida de relevância cultural – ainda que esnobada por multidões de jogadores de gamão e Angry Birds, como sempre foi – enquanto mostrar fôlego para reafirmar aquilo que só ela pode fazer e, ao mesmo tempo, mantiver um canal de diálogo com o mundo lá fora. Hoje esse mundo inclui cultura digital, jogos eletrônicos e seriados de TV. O resto é tiro de canhão no próprio pé.

24/04/2013

às 13:55 \ Mercado, Pelo mundo

Freeman deixa a ‘Granta’, Maracanã é amaldiçoado – e outros links

Após quatro anos à frente da “Granta”, a mais influente revista de literatura do mundo, o escritor e crítico americano John Freeman (foto) está deixando o posto – e a ponte aérea Londres-Nova York – para dar um curso de “escrita criativa” na Universidade Columbia. A saída de Freeman, aparentemente amigável, se dá poucos dias após o lançamento da quarta edição da já lendária seleção de “melhores jovens romancistas britânicos” (em inglês, aqui). A gestão do americano foi marcada pela expansão internacional da marca, lançada nesse período em dez países em modelo de franquia – a brasileira, da editora Alfaguara, já existia quando ele desembarcou na revista. O último fruto da safra será a “Granta” portuguesa, que tem lançamento marcado para 21 de maio e já anunciou a publicação de cinco sonetos inéditos de Fernando Pessoa. (Via Galleycat.)

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E a própria bola te há de boicotar, e sobre teu tapete sentirás as dores de parto de inúmeras peladas que negarão a honra do teu nome. Pois serás Maracarena, serás Maraca-Não, serás rebatizado e deserdado em tuas tradições: os gentios rasgarão tua rede véu-de-noiva e vendê-la-ão aos pobres.

Recurso antigo que o pós-modernismo revalorizou, a paródia literária costuma ser vítima de um preconceito semelhante ao que cerca o trocadilho: seria uma forma artística irremediavelmente menor. Pode ser, pelo menos na maior parte dos casos. Só sei que não é nada baixo o voo que o cronista Márvio dos Anjos acaba de fazer sobre o Maracanã, com as asas que o Rubem Braga de “Ai de ti, Copacabana!” lhe emprestou. (Via twitter de @jpcuenca.)

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E por falar em estádios reformados e grandes escritores brasileiros mortos (neste caso, Monteiro Lobato), um autolink para o vizinho Sobre Palavras:

Quando a presidente Dilma Rousseff declara, como fez há duas semanas ao inaugurar a Arena Fonte Nova, que “somos um país conhecido por ser insuperável no campo, mas estamos mostrando que somos insuperáveis também fora de campo”, o Jeca Tatu morde seu talo de capim e olha em volta.

Vê um monte de obras atrasadas, caras, cheias de gambiarras; vê aeroportos caindo aos pedaços e uma seleção que amarga o 19º. lugar no ranking da Fifa, atrás de Suíça e Equador. Vê tudo isso e dá um risinho. Sabe que é assim mesmo, passo a passo, que conquistará a imortalidade.

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O escritor americano Saul Bellow, autor da obra-prima “Herzog”, era um monstro. A ambivalência dessa afirmação – um monstruoso artista em seu talento maior, um pai e marido também monstruoso em seu egoísmo – fica evidenciada nas memórias recém-publicadas por seu filho, Greg Bellow, intituladas Saul Bellow’s heart (“O coração de Saul Bellow”). Segundo a resenha do “Financial Times” (em inglês, aqui), o filho não explora o batido filão da vitimologia, pelo contrário: pega até leve com o velho.

10/04/2013

às 13:35 \ Mercado, Vida literária

Cachorros são analógicos, gatos são digitais

O artigo parece uma piada a princípio, mas vai bem além disso. “A curiosa incidência de cães no mercado editorial – Se os gatos mandam na internet, por que os cachorros reinam nos livros?” é um pequeno ensaio que combina alguma pesquisa (e até gráficos) com boas sacadas sobre o tema que o título resume bem. Assinado por Daniel Engber e publicado na revista eletrônica Slate, deixa claro que não quer apenas fazer graça quando transforma caninos e felinos em metáforas intrigantes – respectivamente, do escritor à moda antiga e do “produtor de conteúdo” da era digital.

O verdadeiro mistério, então, não é como os gatos ganharam precedência online, mas sim como conseguiram destronar o cachorro. Nossos meios de comunicação se dividiram em dois campos opostos, e cada um deles – o velho contra o novo – tem um animal adequado ao seu ethos. Estamos lendo cachorros e clicando gatos.

Vale a pena ler o artigo completo, em inglês, aqui.

Engber não se satisfaz com o recente sucesso de Marley. Entre os muitos exemplos literários que garimpa para ilustrar a velha paixão de escritores e indústria editorial pelos cães (o fascínio da internet por vídeos fofos de gatos, que confesso nunca ter compreendido bem, fala por si), não aparecem, previsivelmente, casos brasileiros. Então trato de providenciar alguns para provar que o fenômeno não nos é alheio: do Quincas Borba de Machado de Assis à Beta de Daniel Galera, passando, claro, pela rainha canina Baleia, de Graciliano Ramos, parece claro que a literatura brasileira também é mais dada a latir do que a ronronar.

Isso parece fazer pouco sentido se considerarmos que, ao que tudo indica e como seria de esperar, escritores preferem a companhia de gatos indolentes à de cães hiperativos junto à mesa de trabalho (como Julio Cortázar no belo autorretrato acima). Na enquete brincalhona que fiz aqui no blog há dois anos, sob o título “O melhor amigo do escritor é o cão ou o gato?”, deu-se um massacre. Os gatos levaram 62% dos votos. Os cachorros, com apenas 20%, mal conseguiram superar a anarquista samambaia (18%) que enfiei de contrabando entre as respostas.

No entanto, a dúvida de Engber não me parece tão difícil de resolver. Com seu companheirismo, sua lealdade, suas manifestações transparentes de alegria, tristeza e agressividade, os cachorros não apenas se prestam a espelhar nas letras (às vezes de modo canhestramente forçado, é verdade) a psicologia humana como são mais adequados, em si mesmos, à arte narrativa.

E os gatos? Estes são animais orgulhosos e enigmáticos que não devolvem ao narrador nada além da escuridão de um abismo. Talvez levem a melhor na poesia (um campo em que o artigo mal toca), e certamente parecem talhados para as vinhetas, imagem pura, em que brilham no YouTube. Diante delas, contemplativos e infiéis, rimos ou nos assombramos antes de passar ao próximo item da pauta sem nenhuma história para contar.

22/03/2013

às 11:41 \ Mercado, Pelo mundo

Qual é o negócio da literatura?


A história do livro como tecnologia – o livro como uma tecnologia revolucionária, de ruptura – precisa ser contada honestamente, sem triunfalismo nem derrotismo, sem esperança nem desespero, como Isak Dinesen nos recomendava escrever. Um grande obstáculo à produção de um relato desse tipo, contudo, é a “heurística da disponibilidade”. Trata-se de um modelo de psicologia cognitiva proposto pela primeira vez em 1973 por Daniel Kahneman, ganhador do Nobel, e seu colega Amos Tversky, que descreve como os seres humanos tomam decisões baseadas em informações relativamente fáceis de lembrar. Como as coisas de que nos lembramos com facilidade são aquelas que ocorrem com frequência, tomar decisões baseadas em amostras que temos à mão parece fazer sentido. O sol nasce todo dia; inferimos daí que o sol nasce todo dia. Um peru é alimentado todo dia; inferimos daí que será alimentado todo dia – até que, de repente, não é. A heurística é ótima até deixar de ser. Lemos um grande número de notícias sobre gatos que pulam de árvores altas e sobrevivem, e desse modo acreditamos que os gatos devem ser resistentes a longas quedas. Notícias desse tipo predominam amplamente sobre aquelas em que um gato cai e morre, como ocorre com mais frequência. No entanto, como mais raramente vira notícia, esse fato não está disponível para nós quando formamos nosso juízo.

A atividade editorial é tremendamente suscetível à heurística da disponibilidade por duas razões importantes. Em primeiro lugar, antes das mais recentes inovações, manuscritos não publicados não estavam disponíveis para análise. Desse modo, o universo de conhecimento que temos sobre livros, literatura e atividade editorial exclui aquele mundo de livros que nunca foram publicados. Exclui também os livros que foram fracassos de público e de crítica. Ninguém vê livros que não vendem nas livrarias ou na casa dos amigos, nas listas de mais vendidos ou no Twitter ou no “Times” (de Londres, de Nova York, da Irlanda) e assim por diante.

Há livros prontamente disponíveis hoje como informação, tais como “Leaves of grass”, que foram autopublicados, e outros, como “Moby Dick”, que foram ignorados em sua época e tiveram a sorte de ressurgir mais tarde. A romancista Paula Fox publicou, desapareceu, publicou de novo. Seu reaparecimento é um triunfo editorial. Mas o que dizer de todas as Paulas Foxes que não foram redescobertas? (…) Será que isso demonstra a eficiência do atual sistema de produção e difusão de literatura? É bastante claro que, por mais que façamos nosso melhor, nossa produção é tanto prova da ruidade do sistema quanto de seus méritos. (…)

Quando se fala sobre “o sistema” em relação ao negócio da literatura, isso tem sido, tradicionalmente, um código para capitalismo. Críticas mais recentes ao sistema têm se concentrado na série de fusões empresariais que começaram nos anos 1960 e engendraram, nos trinta anos seguintes, a configuração do mercado editorial que tem vigorado nas últimas duas décadas: as Seis Grandes. As mudanças de propriedade foram movidas a princípio pela economia de escala e em seguida pela febre da sinergia. (No fim das contas, tudo isso era na maior parte das vezes um eufemismo para a construção de impérios, tipicamente às custas dos acionistas, fenômeno que tem mais a ver com a natureza humana do que com o capitalismo.) (…) Na verdade, há escassas evidências de que qualquer um desses processos tenha tornado mais ou menos provável a publicação de livros de “qualidade”. O que é publicado é publicado, e desse universo nós escolhemos celebrar o que celebramos, e dizemos que o sistema produziu essas obras celebradas porque, bem, elas estão disponíveis.

O que você leu aí em cima em tradução caseira é um naco ínfimo, ainda que substancial, do longo ensaio (em inglês) do editor independente e palestrante americano Richard Nash (foto), que acaba de ser publicado na internet por The Virginia Quarterly Review sob o mesmo título deste post. Nash é um dos nomes mais quentes dos debates atuais sobre o “futuro do livro”, propagador da ideia de “Atividade editorial 3.0”. Não é preciso concordar com tudo o que ele diz para reconhecer sua argumentação como a melhor e mais instigante resposta aos numerosos, severos e apocalípticos críticos da indústria editorial contemporânea que têm um de seus gurus no editor André Schiffrin (leia mais aqui, na nota de rodapé do post).

28/01/2013

às 13:00 \ Mercado, Pelo mundo, Vida literária

Sylvia Plath como ‘chick lit’ e outros links

“A redoma de vidro” (The bell jar), o único romance da poeta americana Sylvia Plath, foi lançado sob o pseudônimo de Victoria Lucas em 1963, poucos dias antes de sua morte. Está completando meio século, portanto, e para comemorar a data o editor teve a ideia de relançá-lo embalado na inacreditável capa chick lit aí ao lado. Como se Sylvia Plath e Sophie Kinsella não fossem antípodas, mas irmãs literárias. Tempos realmente estranhos: um dia vamos rir disso tudo?

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Em compensação, como os tempos estranhos são os mesmos em que a informação flui com liberdade inédita, o áudio do famoso discurso de paraninfo feito por David Foster Wallace em 2005, chamado “Isto é água” (e lançado recentemente no Brasil na coletânea de ensaios “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”), pode ser ouvido na íntegra, em duas partes, aqui.

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Para mim, a oficina foi essencial para, digamos, começar a escrever. Porque, na Oficina, uma das maiores revelações foi a de que o apelo sensorial é um dos maiores méritos que um texto pode ter. Dito assim – e de repente eu me leio –, parece uma platitude, uma banalidade, uma ociosidade. Mas, dentro de uma sala de aula, vindo da boca do Assis (Brasil), todos naquele embate para se entender o que faz literatura ser literatura, o conselho “provoquem os sentidos do leitor” compôs, e continua compondo, um sentido transcendente.

O trecho acima faz parte do depoimento da escritora Cíntia Moscovich incluído no livro “A escrita criativa – Pensar e escrever literatura” (ediPUCRS), volume lançado no fim do ano passado com coordenação do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, nosso maior “oficineiro”. Por sua sala de aula passaram nos últimos 28 anos, além de Cíntia, praticamente todos os autores – Galeras, Laubs, Scotts – que tornam a literatura gaúcha contemporânea a mais forte do país.

16/01/2013

às 10:42 \ Mercado, Pelo mundo

150 preocupações da ciência sobre o futuro da humanidade

Futuro do pretérito: cena de "Blade Runner" (1982), filme de Ridley Scott

Após duas semanas de férias em que não tive preocupação maior que a de renovar o protetor solar depois de cada mergulho na água morna de uma praia do Nordeste, dei um jeito de, em poucas horas, reabastecer até a boca o reservatório de ansiedade: caí de cara na edição 2013 da imperdível enquete (em inglês) que a mesa-redonda eletrônica Edge promove todo início de ano com nomes de destaque do universo científico, tecnológico, artístico, jornalístico e editorial. O tema desta vez parece ter sido talhado para me trazer de volta ao mundo interconectado e profundamente preocupado em que vivemos: “Com o que deveríamos estar preocupados?”.

A lista de respostas possíveis para tal pergunta é bem longa, claro, mas isso não é problema para a Edge: mais de 150 intelectuais são convocados a dar sua opinião em ensaios mais ou menos sucintos. No mais curto deles, o cineasta Terry Gilliam gasta duas linhas para dizer que desistiu de se preocupar com qualquer coisa, mas a maioria leva a encomenda a sério e expõe suas angústias sobre o futuro da humanidade em meia dúzia de parágrafos densos.

Há especulações preocupadas para todos os gostos. Do provável emburrecimento da espécie à opinião embutida sem transparência na dimensão “semântica” incorporada ano passado pelo Google ao seu mecanismo de busca; do risco de uma hecatombe nuclear representado por sistemas de defesa automatizados ao superávit de testosterona que em breve varrerá a China; de uma nova onda de fascismo fomentada pela tecnologia aos perigos de conquistar o sonho da imortalidade.

O tom geral é descabeladamente pessimista, quando não apocalíptico, o que torna a leitura semelhante à de um romance de ficção científica cyberpunk: intelectualmente provocante, mas aterradora. Ainda mais quando se leva em conta que esses caras não são ficcionistas (embora uns poucos o sejam) nem podem ser acusados de paranoicos delirantes. Paranoicos talvez, mas com fundamento, inteligentes e bem informados sobre seus respectivos campos.

Por falar em campo, o do Todoprosa é um dos menos povoados de preocupações na enquete, o que não é necessariamente um bom sinal. O mais provável é que o tema da “morte da literatura” não seja páreo para o da “extinção da espécie” – por mais que alguns literatos insistam em situá-los em pé de igualdade. Mesmo assim, a preocupação preferida do cientista da computação David Gelernter, sobre o palavrório da internet, merece registro:

Quando temos um milhão de fotografias, tendemos a dar menos valor a cada uma delas do que se tivéssemos dez. A internet provoca uma desvalorização geral da palavra escrita (…). Como cada palavra tende a receber menos tempo de leitura e atenção e a valer menos dinheiro na ponta do consumo, ela naturalmente tende também a absorver menos tempo de escrita e atenção editorial na ponta da produção. Gradualmente, à medida que encolhe o tempo investido pelo escritor médio e pelo leitor médio na frase média, a capacidade da sociedade para se comunicar por meio da escrita decai. E essa ameaça à nossa capacidade de ler e escrever é um golpe aplicado em câmera lenta na ciência, nos estudos acadêmicos, nas artes – em praticamente tudo, na verdade, que nos distingue como seres humanos, aquilo em que roedores e golfinhos não são tão bons ou até melhores do que nós.

A essa altura, confesso, controlei a custo o impulso de pegar o avião de volta e me estabelecer de vez naquela praia de água morna, quem sabe redigindo cardápios e folhetos turísticos para sustentar uma existência frugal. Quem veio em meu socorro foi o cientista cognitivo Dan Sperber, que adverte para os perigos da preocupação desmedida:

O que me preocupa especialmente é que os seres humanos se tornem cada vez menos capazes de discernir aquilo que realmente deveria preocupá-los e que suas preocupações lhes façam mais mal do que bem. Talvez, como um barco na corredeira, não se deva tentar desacelerar nada, mas apenas otimizar uma trajetória que no fundo não se controla, não porque a segurança esteja garantida e o otimismo se justifique – o pior pode mesmo acontecer – mas porque não temos opção melhor que a esperança.

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E já que estamos falando em visões apocalípticas, recomendo efusivamente a quem não viu a entrevista (aqui, o vídeo integral) que o editor franco-americano André Schiffrin, o mais articulado crítico do mundo editorial contemporâneo, deu ao programa “Roda Viva” da TV Cultura, veiculada no último dia 7. Eu estava entre os entrevistadores e, por ter feito algumas ponderações favoráveis ao potencial democrático do meio digital, ganhei dele o rótulo de “otimista” – novidade em minha carreira, que estou pensando em adotar. Pode ser um boa forma de encarar 2013.

17/12/2012

às 12:49 \ Mercado, Vida literária

Destaques 2012 (II): o ano canônico

O ano que está terminando foi feliz para quem ama livros propriamente ditos – de papel e tinta, cola e costura – e tem grandes buracos na estante que gostaria de preencher. O que significa dizer que também foi generoso com aqueles que tiverem disposição e fundos para investir num presentaço natalino que o personagem mencionado acima não esquecerá jamais.

O grande acontecimento do fim do ano é o início do relançamento, pelo selo Biblioteca Azul da editora Globo, da famosa edição do gigantesco painel ficcional “A comédia humana”, de Honoré de Balzac, organizada pelo crítico húngaro-brasileiro Paulo Rónai. Em capa dura, com mais de 800 páginas em média, os quatro primeiros de dezessete volumes chegaram este mês às livrarias ao custo de R$ 74,90 cada um. Acompanha-os o volume mais magro (248 páginas, R$ 39,90) “Balzac e a comédia humana”, coleção de ensaios do próprio Rónai que traz em cada linha aquela combinação rara de erudição, legibilidade e gentileza que era sua marca e que faz dele o melhor cicerone que um leitor poderia desejar ao se aventurar pelo universo (poucas vezes a palavra foi tão apropriada a um conjunto de ficções) criado pelo escritor francês ao longo de quase noventa (!) romances. Nada modesto no plano de abarcar, em suas próprias palavras, “ao mesmo tempo a história e a crítica da sociedade, a análise de seus males e a discussão de seus princípios”, o mais prolífico dos escritores prolíficos é definido por Rónai como “espetáculo sem par na história literária”.

Outro lançamento de fim de ano que entra na categoria dos monumentos é a nova e cuidadosa tradução de “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, feita pelo escritor gaúcho Ernani Ssó (Penguin-Companhia). A caixa com dois volumes, num total de 1328 páginas, sai por R$ 79,00 e traz de bônus posfácios de Jorge Luis Borges e Ricardo Piglia. Considerada pela quase unanimidade da crítica o marco inaugural do gênero romance, é curioso que a obra de Cervantes seja lançada pela mesma editora que este ano nos deu “Ulysses”, de James Joyce, na tradução de Caetano Galindo – para muita gente, o livro que assinou o atestado de óbito do gênero romance. Fecha-se um ciclo? Pode ser, mas o espetáculo tem que continuar.

Sherazade já sabia disso, aliás: quem para de narrar morre nas mãos do cruel sultão. Talvez não seja um simples acaso que o legado editorial de 2012 inclua ainda a conclusão do “Livro das mil e uma noites” traduzido diretamente do árabe por Mamede Mustafa Jarouche, mais uma caixa (em quatro volumes, com um total de 1684 páginas e preço de R$ 159,90) da Biblioteca Azul da Globo que tem tudo para fazer bonito como presente natalino para bibliófilos.

23/11/2012

às 13:53 \ Mercado, Pelo mundo

Agora o festival de contos do Twitter é oficial. Vai perder?

Além de Jennifer Egan ter publicado uma obra-prima usando o formato dos 140 caracteres como tijolinho numa construção ambiciosa, concursos e festivais de micronarrativas no Twitter já houve vários – inclusive duas edições aqui no Todoprosa – mas desta vez a coisa é oficial. O próprio Twitter vai promover na semana que vem, de 28 de novembro a 2 de dezembro, um festival de ficção que tem o objetivo pouco modesto de “ampliar as fronteiras do que é possível dizer no Twitter”.

Serão destacados nos cinco dias do Twitter Fiction Festival projetos de serialização escolhidos por um júri em que figuram escritores como Teju Cole – ele próprio autor de uma interessante série de tweets baseada em notícias tiradas de jornais de antigamente – e Ben Marcus, além de editores.

Ficou tarde para tentar uma vaga entre os eleitos oficiais do Twitter, infelizmente: as inscrições se encerraram no último dia 15. Mesmo assim, ainda é possível participar da brincadeira, bastando tuitar entre 28/11 e 2/12 um ou mais microcontos com a tag #twitterfiction.

Em tempo: tudo será basicamente anglófono, supõe-se, embora isso não seja dito explicitamente e nada impeça um autor javanês de pular no bonde. Mas algo me diz que o pessoal encarregado do festival não entenderia este meu diálogo:

‘Tu tuíta?’ ‘Tuíto, e tu?’ ‘Tuíto too.’

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A quem se interessa pela fronteira – bem pouco literária – entre o mundo dos livros e o da economia, recomendo a leitura desta reportagem do jornal “Valor”, intitulada “Mercado editorial vira briga de cachorro grande”, sobre os movimentos de concentração que vêm se intensificando no mercado global, inclusive o brasileiro. E principalmente sobre como isso afetará, para o bem ou para o mal, a produção e a circulação de boa literatura – que no fim das contas é só o que interessa aqui. As opiniões dos editores se dividem.

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Toda a força do mundo, mestre Verissimo. Ainda é cedo, cedo, cedo, cedo, cedo…

12/11/2012

às 13:53 \ Mercado, Pelo mundo

O ‘boom’, 50 anos depois: deixem o pai vivo


Essa mania de matar o pai, inclusive como simples simbologia freudiana, me parece uma estupidez, a menos que o pai seja um delinquente. Em relação aos grandes do ‘boom’ não podemos sentir nada além de gratidão: foram eles que nos abriram as portas do mundo e dos leitores. Nos livraram do complexo de idiotas ou de subdesenvolvidos. Nos mostraram caminhos literários completamente novos, e não para seguirmos no mesmo rumo, mas para buscarmos saídas novas em qualquer encruzilhada.

A declaração do escritor colombiano Héctor Abad Faciolince resume o tom reverente – ou, digamos, de irreverência contra a irreverência – que marca a longa série de artigos comemorativos dos 50 anos do chamado boom da literatura latino-americana (na verdade, hispano-americana) publicados pelo jornal espanhol “El País”. O ano de 1962 virou marco por ter concentrado o lançamento de uma série de livros identificados com o movimento, entre eles “A morte de Artemio Cruz” (foto), de Carlos Fuentes.

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Semana passada, participei da gravação da conversa com o editor franco-americano André Schiffrin para o programa “Roda Viva”, da TV Cultura, como um dos entrevistadores convidados.

Aos 77 anos, Schiffrin tem história. Filho do homem que criou a Bibliotèque de la Pléiade, foi um dos protagonistas da fase final de uma era, a dos grandes editores iluministas, à frente da Pantheon Books, que lançou nos EUA nomes como Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Julio Cortázar e Michel Foucault. Hoje toca uma editora sem fins lucrativos chamada New Press e escreve livros como “O negócio dos livros” (Casa da Palavra) e “O dinheiro e as palavras” (BEI), que o tornaram o mais combativo crítico – não que haja muitos deles – dos rumos que a indústria editorial vem tomando nas últimas duas décadas.

Tais rumos, como se sabe, são marcados por um processo de concentração em que grandes grupos de mídia assumem o controle de casas editoriais tradicionais, passando a aplicar ao livro a lógica do produto-como-outro-qualquer. Schiffrin não se cansa de repisar, correndo até o risco de uma certa monotonia, o perigo que isso representa para a diversidade cultural, o pensamento crítico e a inteligência coletiva.

Por trás da imagem de sujeito cordato, de fala suave, o homem é um radical livre e um pessimista indispensável. Tão pessimista que chegou a me chamar de otimista – acusação que não estou habituado a ouvir – por causa de minha recusa em descartar desde já o potencial democrático dos novos meios digitais. Sim, a primeira dentição dessa cultura criou monstros concentradores como Google e Amazon, mas será isso suficiente para concluirmos que o digital é apenas mais do mesmo? Vale acompanhar a conversa, que deve ir ao ar no futuro próximo.

29/08/2012

às 14:22 \ Mercado, Pelo mundo

Em defesa da boa (e moribunda?) crítica jornalística


Porque toda crítica é baseada nesta equação: CONHECIMENTO + GOSTO = JUÍZO SIGNIFICATIVO. A palavra-chave aqui é “significativo”. Pessoas que reagem fortemente a uma obra – a maioria de nós o faz – mas não têm uma erudição mais ampla que lastreie essa opinião não são críticos. (É por isso que grande parte das resenhas feitas online por leitores não constituem propriamente crítica.) Tampouco são críticos aqueles que têm uma tremenda erudição, mas não o tipo de gosto ou temperamento que poderia conferir a seu juízo autoridade aos olhos dos outros, daqueles que não são especialistas. (É por isso que tantos estudiosos acadêmicos se saem mal escrevendo resenhas para grandes audiências.) Como qualquer outro tipo de escrita, a crítica é um gênero que requer do praticante um talento específico, e as pessoas que têm esse talento são aquelas em quem o conhecimento se cruza de modo interessante e persuasivo com o gosto. No fim das contas, o crítico é alguém que, quando seu conhecimento, mobilizado por seu gosto, se vê na presença de um novo exemplar do gênero pelo qual se interessa – uma nova série de TV, filme, ópera, balé ou livro – saliva para atribuir sentido a essa nova coisa, analisá-la, interpretá-la, fazê-la significar algo.

Coisa linda o autoproclamado “manifesto” pró-crítica jornalística – gênero, se não moribundo, gravemente enfermo – que o crítico e jornalista Daniel Mendelsohn publicou ontem no site da revista “The New Yorker”, bíblia da grande crítica jornalística. A motivação mais imediata do artigo é o debate provocado nos círculos literários americanos por uma resenha especialmente venenosa sobre dois livros da jovem escritora canadense Alix Ohlin saída há poucos dias no “New York Times” – a mesma que motivou o texto de J. Robert Lennon que traduzi e comentei aqui na segunda-feira.

O pano de fundo em que o artigo de Mendelsohn se insere, porém, não começou a ser tecido ontem: tem pelo menos dez anos esta nossa paisagem cultural instável em que se destacam o esvaziamento da “autoridade” do crítico midiático diante da amplificação da voz de milhões de leigos, traço marcante da cultura digital, e a mistura de refutação (pró-autoridade) e concordância (contra a autoridade desprovida de títulos acadêmicos) que vem caracterizando a resposta ambígua da crítica universitária ao fenômeno.

Se o “manifesto” será visto no futuro como epitáfio ou certidão de renascimento da arte de Pauline Kael e sua turma, críticos-jornalistas que Mendelsohn homenageia um por um, vai depender de dinâmicas que não são apenas culturais, mas sobretudo de mercado. O certo é que o texto já justifica sua existência ao demonstrar o grau de besteira que assola o recente debate sobre crítica negativa x crítica positiva, detonação cruel x exaltação bobinha de rede social.

Um crítico de arte que se preze, lembra Mendelsohn, vai ser duro quando precisar ser duro e elogioso quando for o caso de ser elogioso, pois seu compromisso não é com o artista, nem mesmo com o leitor, mas com a arte pela qual é apaixonado. Elogiar por qualquer razão um objeto que não esteja à altura da tradição dessa arte é, para o ideal platônico do crítico-jornalista, uma traição tão odiosa quanto – seja por motivos pessoais, políticos ou ideológicos – deixar de reconhecer a excelência do que tem excelência.

Naturalmente, o rigor interno dessa lógica não basta para garantir sua sobrevivência. Os valores em que se baseia não são absolutos nem eternos, mas historicamente determinados, e portanto passíveis de substituição por outros valores não absolutos, historicamente determinados. De pouco adianta a um sacerdote sua fé inquebrantável se o templo, como previa Gore Vidal, ficar vazio. Vamos aguardar.

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Sobre a “gentileza” da crítica e outras questões, compartilho o interessantíssimo link enviado por um leitor, a propósito daquela polêmica marqueteira Paulo Coelho x James Joyce.

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A ilustração ali em cima faz parte da divertida série de anúncios publicitários de produtos contemporâneos com estética antiguinha criada pelo blog de design Lava 360. Será que a crítica jornalística cultuada por Mendelsohn, cheia de prestígio, lastro e ressonância cultural, está destinada a parecer igualmente extemporânea dentro de poucos anos?

 

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