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23/05/2012

às 13:08 \ Mercado, Vida literária

Chegou a hora de ler ‘Ulisses’? Talvez, mas sem estresse

Se você for um daqueles que contemplam a obra-prima de James Joyce a certa distância, com um misto de fascínio e pavor, sem jamais se animar a encarar suas muitas centenas de páginas, saiba que seu nome é legião.

Talvez você tenha passado batido pela tradução pioneira de Antonio Houaiss (Civilização Brasileira, 1966) porque ela tem fama de erudita demais – “será que ele usa todas as palavras do dicionário dele?” – e um estranho “Sims” como palavra final, quando o original é um simples Yes. (Millôr Fernandes, irreverente como o próprio Joyce, sugeriu a tradução “É”, como num grito de orgasmo.)

Pode ser ainda que a versão mais coloquial da professora Bernardina Pinheiro (Objetiva, 2005), que procurou tornar o “Ulisses” menos intimidador, mais joycianamente brincalhão, e ainda restituiu o “Sim” de Molly Bloom à sua singularidade, também não tenha sido suficiente para levá-lo a encarar o tijolo.

Nesse caso, quem sabe você está se sentindo finalmente tentado a dar uma chance a Leopold Bloom na recém-lançada tradução de Caetano Galindo (Penguin/Companhia), que consumiu dez anos de trabalho, contou com a “coordenação editorial” de um tradutor experiente como Paulo Henriques Britto e vem embalada numa capa elegante e cabeçuda como o próprio romance – embora também, como a versão Houaiss, tenha encontrado sua letrinha da discórdia na decisão de manter um ípsilon anglófilo no coração do título: “Ulysses”.

Será que chegou a hora de ler “Ulisses”, afinal?

Por que não? Se as inevitáveis comparações entre as três traduções, esse surpreendente luxo brasileiro, já ocupam hoje um time de eruditos – e continuarão a ocupar por muito tempo – o certo é que a ideia de “tradução definitiva” para uma obra tão apinhada de jogos de linguagem e referências subterrâneas como “Ulisses” é ridícula. Em vez de ficar esperando pela corporificação dessa miragem, começar imediatamente é uma decisão tão boa hoje quanto teria sido em 1966.

O único conselho que me parece importante é o seguinte: não leve “Ulisses” tão a sério, é só um livro. Grande, influente, inovador, ambicioso – certo. Elogiado por ninguém menos que Jorge Luis Borges com palavras fortes: “Mais que a obra de um único homem, o ‘Ulisses’ parece o trabalho de muitas gerações” – OK. Mais até do que isso, é provavelmente o único livro na história da literatura que conseguiu conciliar o máximo de vanguardismo com o máximo de “popularidade” – entre aspas porque se trata de uma popularidade erudita, com perdão do paradoxo, mas de todo modo resistente à passagem do tempo e com traços inequívocos de beatlemania, cosplay e outros componentes de histeria.

Tudo isso é verdade, mas é sempre bom ter em mente um alerta sábio de Raduan Nassar: “Reverenciam-se mitos de modo obsceno. Tem gente que fala em Joyce ou em Pound e parece que está dando cria”. Para contrabalançar os possíveis efeitos emburrecedores dessa mitologia, ajuda saber que um compatriota de Joyce, o escritor Roddy Doyle, declarou há poucos anos que o “Ulisses” era superestimado e “teria melhorado com uma boa edição”. Não se trata de dar razão ao autor de “The Commitments”, apenas de aproveitar o efeito benéfico de sua coragem herética.

Esse efeito benéfico é o de ler “Ulisses” em busca de prazer, não de charadas, enigmas, paralelos com Homero, piscadelas variadas. É claro que, com muita frequência, o prazer que houver virá de charadas e piscadelas, o que é ótimo. Acontece que inverter as prioridades, deixando de ser um leitor de carne e osso para ser um exegeta de pincenê, é para a maioria das pessoas a forma mais garantida de estragar a leitura e abandoná-la antes da página 20. Não por acaso, é também uma traição ao espírito de Joyce, um sujeito dotado de altíssimos teores de molecagem que, diante do reverente culto acadêmico que inaugurou, talvez reagisse com um ataque de flatulência e meia dúzia de palavrões.

O homem não era flor que se cheirasse. “Enfiei (no ‘Ulisses’) tantos enigmas e charadas”, disse, “que ele vai manter os professores ocupados por séculos, discutindo o que foi que eu quis dizer, e esta é a única forma de garantir a imortalidade.” É um dos traços de sua genialidade que essa declaração seja ao mesmo tempo uma verdade e uma gozação, duas faces de uma moeda que nunca para de girar. Vladimir Nabokov, que percebia o risco de enxergar apenas o lado sério da questão, atacou violentamente o autor do mais famoso “guia de leitura” do romance, Stuart Gilbert, “um chato”, afirmando que “seria uma completa perda de tempo procurar paralelos próximos (com a ‘Odisséia’) em cada personagem e cada cena do livro”.

Pode ser que o conselho não sirva para todos. Foi o que me serviu. Quando, após anos de relutância, finalmente li “Ulisses” (no original), fiquei surpreso de descobrir que o livro é – nem sempre e não só, mas certamente também – apaixonante, sensual, engraçado, cheio de efeitos sonoros, cromáticos e olfativos de um certo dia em Dublin, tudo plasmado em frases de musicalidade irresistível. Quanto a “entender” tudo, esmiuçar tudo, dissecar a borboleta, deixo para aqueles “professores ocupados por séculos”. Com todo o respeito, tenho mais o que fazer.

11/05/2012

às 14:21 \ Mercado, Pelo mundo

Harry Potter ‘de graça’: a nova mágica da Amazon

A partir do dia 19 de junho será possível baixar no Kindle todos os sete livros da série Harry Potter, o arrasa-quarteirão de J.K. Rowling, em cinco línguas (inglês, espanhol, francês, alemão e italiano), sem que o cartão de crédito do usuário seja debitado em um único centavo. Os títulos são a mais nova aquisição da “biblioteca” do Kindle, que permite pegar emprestado até um título por mês. Mais detalhes, em inglês, aqui.

Ora, qualquer um que tenha cinco minutos de familiaridade com um leitor eletrônico sabe que a diferença entre o empréstimo e a compra pode ser meramente teórica no intangível universo digital – mesmo porque a Amazon anuncia que “não há data de devolução” para os livros da biblioteca do Kindle. Onde, então, estará a pegadinha?

A pegadinha, se é que se pode chamar assim, é o amadurecimento de um conceito que já estava embutido no projeto Kindle desde o início: o do dono do aparelho como membro de um clube. A “biblioteca” não é exatamente gratuita no fim das contas: só têm acesso a seus (por enquanto) 145 mil títulos – e a benefícios como entrega rápida de livros físicos sem taxa extra e um acervo de 17 mil filmes e programas de TV para baixar em streaming – quem se torna membro do Amazon Prime, uma espécie de clube de elite dos clientes da Amazon.

A taxa paga por um cliente prime é de 79 dólares por ano. Não por acaso, o mesmo preço da versão mais barata do Kindle no mercado americano. Caso alguém ainda não tivesse percebido, isso deixa muito claro que o negócio da Amazon não é vender engenhocas eletrônicas.

A notícia da adesão de Harry Potter ao projeto coincidiu com a palestra com a qual o peruano Pedro Huerta, o homem do Kindle para a América Latina, encerrou ontem em São Paulo o 3º Congresso Internacional do Livro Digital, queixando-se com humor da dificuldade de negociar com os ressabiados editores brasileiros (Raquel Cozer publicou em seu blog na “Folha” um divertido relato da ocasião).

O Brasil pode estar especialmente atrasado na questão do livro digital, tudo bem, mas não é uma aberração: a maior parte da indústria editorial do mundo morre de medo de ser engolida pela Amazon. O impressionante caso do Harry Potter “gratuito” ajuda a entender por quê.

09/04/2012

às 14:17 \ Mercado, Pelo mundo

‘Lean back’, moçada, e leia: é a nova moda

Lean Back 2.0 – updated February 2012

O link acima abre uma apresentação de slides feita há menos de dois meses por Andrew Rashbass, presidente do grupo “The Economist” (em inglês). Para quem tiver paciência de aguentar um certo visgo Powerpointilhista de embromação corporativa, ela traz algumas ideias novas e surpreendentes – numa palavra, revolucionárias – sobre os padrões de leitura online na segunda década do século 21. “O velho é novo de novo”, afirma um dos quadros. O que isso quer dizer?

Resumindo, trata-se da constatação de que, após um período em que a leitura online foi feita basicamente em desktops e laptops, estamos entrando de modo resoluto na era do tablet, que – eis a tese, sustentada por pesquisas e tendências já visíveis de comportamento – muda tudo: daquilo que já se convencionou chamar de Lean forward para Lean back 2.0.

Lean forward, para quem não sabe, faz referência à posição do corpo do internauta diante da máquina, inclinado sobre ela: é uma postura ativa que favorece o compartilhamento de informação, a navegação nervosa de link para link e o vaivém da atenção entre texto e vídeo, por exemplo.

Lean back 2.0 – e agora a inclinação é para trás, em posição de relaxamento – nomeia o modo de ler no tablet. Este, descobre-se, parece inibir o compartilhamento e estimular mais o consumo de textos de fôlego longo que o de vídeos, lembrando o antigo modo de ler jornais e livros. O que explica a tirada de que o velho voltou a ser novo, além de justificar o acréscimo de um já batido “2.0” à expressão Lean back, para garantir que ninguém confundirá uma coisa com a outra.

A tendência se faria acompanhar, segundo os estrategistas da “Economist”, do surgimento de um novo público, interessado em consumir um novo tipo de produto cultural que rompe com o velho esquema bipolar “de prestígio” x “de massa” – uma turma numerosa, mas de gosto exigente, interessada em qualidade e detentora de uma característica inteiramente nova chamada “inteligência de massa”. “O inteligente é o novo cool”, diz outro dos slogans salpicados na apresentação.

Pode ser só uma aposta equivocada, claro. Não seria a primeira desde que o Vale do Silício transformou todo mundo em futurologista. No entanto, se as expectativas que vão se agrupando no pacote Lean back 2.0 tiverem um fundo de verdade (e a “Economist” é tudo menos boba), poucas vezes teremos visto uma notícia tão boa para a literatura, que sempre foi o território por excelência da inteligência de massa – ou, pelo menos, a sementeira que nunca deixou essa ideia morrer.

Seria lindo ver a tecnologia – logo ela, quem diria – reduzir finalmente a pó a ideia arcaica, mas ainda influente em certos círculos acadêmicos, de que a literatura se divide entre uma elite experimentalista ilegível e uma massa anencefálica de produtores de entretenimento.

Qualquer mudança nesse campo vai chegar ao Brasil com dez anos de atraso, é verdade. Mas vale a pena ficar de olho.

16/03/2012

às 12:33 \ Mercado, Vida literária

Companhia das Letras anuncia reestruturação e outros links

Principal editora de literatura do país, a Companhia das Letras anunciou há pouco – neste texto assinado pelo editor Luiz Schwarz em sua coluna no blog da casa – a criação escalonada, entre o mês que vem e março de 2013, de quatro novos selos que tornarão a empresa um “grupo editorial”. Os novos selos terão autonomia, “como se fossem novas editoras”, e para eles serão desviados inclusive autores que hoje são publicados pela Companhia. Os selos são Paralela (ficção comercial), Boa Companhia (antologias temáticas), Seguinte (infanto-juvenil) e Portfolio Penguin (negócios).

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Não duvido que as fascinantes esculturas (como a da foto acima) do artista americano Brian Dettmer, que conheci no ótimo blog de Almir de Freitas, sejam a prova mais irrespondível de que, embora o mundo digital tenha muitos encantos, existem coisas que só um livro físico pode fazer por nós.

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Momento egopress: meu romance “Elza, a garota” (Nova Fronteira, 2009) vai virar filme, anuncia hoje em primeira mão no “Globo” o colunista Ancelmo Gois. Os direitos de adaptação foram adquiridos pelo diretor e produtor Dodô Brandão, autor de “Dedé Mamata”, uma ficção que tem pontos de contato com a temática de “Elza”, e do documentário “3 Antônios e 1 Jobim”. Também publicado em 2010 em Portugal pela editora Quetzal, o romance conta a versão romanceada de uma tragédia política real: Elza era o codinome de Elvira Cupello Calônio, jovem militante do PCB que, sob suspeita de traição, foi assassinada pelos próprios companheiros em 1936, na esteira do fiasco da Intentona. A decisão final da execução foi de Luiz Carlos Prestes.

14/03/2012

às 12:08 \ Mercado, Pelo mundo

Amazon, Apple etc.: está online um e-curso intensivo

Interessado em compreender melhor as entranhas do novo mundo dos e-books, em especial a luta dos modelos comerciais antípodas oferecidos por Amazon e Apple e como se situam escritores, editores e livreiros diante deles? Bem, levando-se em conta que, a maior parte do tempo, o Brasil ainda age como se nada disso existisse, você precisa em primeiro lugar saber inglês. Cumprido tal requisito, não existe curso melhor e mais intensivo do que ler a carta aberta – pró-Apple e grandes editoras – que o escritor best-seller Scott Turow (foto), presidente do Authors’ Guild, a associação dos escritores dos EUA, enviou aos membros da organização. Depois é só tomar fôlego e emendar, rolando a tela, na longa lista de comentários postados no site da AG, divididos entre o apoio e a crítica ao ponto de vista de Turow. Além de ser didático, o debate dá inveja: fora um papalvo internético ou outro, o grau de civilidade, informação, articulação e até estilo dos debatedores é de derrubar o queixo.

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No momento histórico em que a Enciclopédia Britânica deixa de circular em papel, que tal olhar em volta e medir nosso atraso em relação ao país que ocupa a extremidade oposta da palavra Bric? Na China, segundo reportagem da “Economist”, a internet já mudou o panorama literário de cabo a rabo:

Embora os leitores eletrônicos ainda sejam escassos, a internet afetou enormemente os hábitos de leitura. Cada vez mais o público chinês lê livros em telefones, tablets e laptops. As pessoas com menos de 30 anos, que têm mais probabilidade de possuir tais equipamentos, são os leitores mais ávidos… O resultado é um jorro de ficção de massa, escrita (e lida) em websites, não no papel.

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Somos campeões em consumo de celulares, mas você conhece alguém que leia ficção no smartphone? Eu conheço um cara. É um e-editor.

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Nesse quadro marcado pelo que se poderia chamar de analfabetismo funcional literário, o pior é quando o hábito – mais que resignado, satisfeito – de falar para meia dúzia afeta o juízo do cidadão, levando-o a acreditar que quanto menos leitores tiver, melhor. Nessas horas convém lembrar que…

…Nabokov nunca perde de vista a narrativa, a melodia. Desconstruir ou fazer experiências abandonando o leitor tem sido, desgraçadamente, uma prática frequente demais. Creio que é necessário brincar e experimentar sem esquecer o interesse do leitor, e manter a história em alta sem se submeter a ela.

Isso é Enrique Vila-Matas defendendo, em entrevista ao “El País”, aquilo que chama de “vanguarda feliz”, e que poderia ser traduzido por “literatura esteticamente inquieta que não abre mão do prazer nem depende de teóricos acadêmicos para se afirmar” – conceito simples, mas precioso, que o escritor espanhol trata de aplicar mais uma vez em seu novo livro, Aire de Dylan.

09/03/2012

às 12:49 \ Mercado, Pelo mundo, Vida literária

Trailer de livro é um ‘conceito ridículo’: prova número 1

O Pop Literário de Sexta não viveria sem eles, mas trailers de livros partem, segundo uma boa tirada de Drew Grant na Salon, de “um conceito razoavelmente ridículo: tentar vender literatura para pessoas que prefeririam esperar pela adaptação cinematográfica”. Seja como for, o gênero está em ascensão (transparência total: eu mesmo já cometi um e dificilmente escaparei de outros) e tem até seu próprio prêmio no âmbito da anglofonia, o Moby Awards, que destaca os melhores e os piores exemplares do mercado no período de um ano.

Nem sempre é fácil distinguir uns dos outros.

Grande vencedor (sem ironia) do Moby 2011, o vídeo acima ilustra bem a observação de Grant sobre o ridículo do conceito. Feito para promover o último romance de Gary Shteyngart, já lançado no Brasil com o título “Uma história de amor real e supertriste” (Rocco, tradução de Antônio E. de Moura Filho, R$ 49,50), o trailer é quase uma superprodução. Tem participações especiais de colegas do autor – especialmente Jeffrey Eugenides, Edmund White e Jay McInerney – e até do astro hollywoodiano James Franco.

Tudo para levar à estratosfera aquele manjado mandamento, “ria de si mesmo antes que os outros o façam”, caro a todo intelectual de nariz em pé que sonha em ser abraçado pelas multidões. Shteyngart, um escritor sério, capricha no papel de palhaço. A coisa é engraçada às vezes, constrangedora na maior parte do tempo, e no fim deixa no ar um miasma de desespero vendedor.

Em mais uma volta do parafuso, Jonathan Franzen levou o Moby 2011 de Pior Desempenho de um Escritor por começar seu monótono vídeo promocional de “Liberdade” alardeando o desconforto de ter que fazer vídeos promocionais.

24/02/2012

às 14:29 \ Mercado, Pelo mundo

J.K. Rowling para adultos pode ser policial. Magia migra?

J.K. Rowling anunciou que está escrevendo um novo romance – e que desta vez é um livro adulto! Só isso. Nem tema, nem data aproximada de lançamento, nada. J.K. Rowling está escrevendo um livro, é adulto, ponto.

Tão desmesurado é o poder da mãe de Harry Potter, há não mais de 15 anos uma pobretona aspirante às letras, que todos se agitam: o “Guardian” aposta num romance policial, livreiros soltam fogos, editores afiam as unhas – ela informou julgar natural que a “nova fase” de sua carreira ocorra noutras casas editoriais, o que evidentemente não deixou felizes suas parceiras de HP Bloomsbury no Reino Unido, Scholastic nos EUA, Rocco no Brasil e dezenas de outras pelo mundo.

Como se sabe, a varinha mágica de Rowling foi turbinada pelo bônus de vender mais de 450 milhões de exemplares dos livros do bruxo adolescente de óculos, 11 milhões só nas primeiras 24 horas do lançamento americano de “Deathly hallows” (Relíquias da morte), o último da série, em 2007. Mas conseguirá sua mágica migrar com igual força para outro mundo, outra visão de mundo – ou o que quer que ela queira dizer com esse papo de literatura “adulta”, policial ou não?

Não é que a escritora inglesa precise mudar muito para escrever para gente grande. Como lembra Jeffrey A. Trachtenberg no “Wall Street Journal”, Harry Potter encontrou um vasto público adulto, e o mesmo se dá com séries como “Crepúsculo”, também infanto-juvenil na origem. O próprio envelhecimento do público dá conta de parte do fenômeno: quem tinha 12 anos quando saiu o primeiro livro de HP, em 1997, contava 22 quando da publicação do último.

No entanto, parte igualmente importante dessa equação mobiliza outros leitores: os de 30, 40, 50… O viés adultescente da cultura pop que tem envolvido o mundo no último meio século não exige de Rowling nada além de habilidades de fabulação já sobejamente demonstradas para que ela seja uma “escritora adulta” lida por gente à beça. Nesse sentido, o anúncio de agora não representa grande risco, embora as comparações com HP tendam a ficar incômodas ao menor descuido. Porém (ai, porém)…

E se Rowling quiser realmente se reinventar? E se, como Paulo Coelho, depois de um sucesso de público em escala maciça ela se viu mordida pela mágoa amarga dos “críticos sérios”, daqueles que lhe negam o reconhecimento final de “literatura séria”? E se a criadora de uma marca que a “Forbes” avalia em 15 bilhões de dólares, fazendo as contas e decidindo estar finalmente com a vida ganha, lançar um livro adulto que abra mão da leitura compulsiva para ser literariamente inquieto, inovador? Ou pelo menos tentar?

Eu não me espantaria tanto, tratando-se de uma mulher que já declarou o seguinte: “Minha banda favorita no mundo é The Smiths. Quando eu estava numa fase meio punk, era The Clash”. Seria um divertido golpe de mágica, de resto bastante improvável, mas toda mágica não é assim?

02/12/2011

às 13:04 \ Mercado

Por que escritores NÃO devem se autopublicar

Contra a maré: a jovem escritora americana Edan Lepucki faz, no site “The Millions”, uma interessante lista de seis “Razões para não se autopublicar em 2011-2012” (em inglês, acesso gratuito). Autora (agora no feminino, com o colunista ajoelhado no milho, valeu Hilary Kaplan!) de uma única novela mais ou menos obscura – que as grandes casas editoriais esnobaram e que acabou lançada por uma editora pequena – e no processo de escrever seu segundo livro, alguns dos motivos que Edan enumera para ter tomado a decisão de não eliminar intermediários na relação com o leitor são previsíveis e até banais: a crença no papel fundamental dos editores, por exemplo, ou o fato de nem sequer possuir um leitor eletrônico. No entanto, ela parece se aproximar de uma verdade pouco comentada quando observa que a onda das autopublicações não tem incluído muitos exemplos de “ficção literária” – isto é, aquela literatura artisticamente ambiciosa, mais inquieta com questões de forma, que vai buscar seus leitores numa parcela menos numerosa e mais exigente do público.

Antes que me atirem pedras, convém esclarecer: não considero a ficção literária superior a outras formas de ficção, apenas diferente; para mim, é um outro gênero, tanto em termos de conteúdo quanto de marketing. Muitos dos escritores que tiveram sucesso na autopublicação são autores de uma ficção de gênero do tipo puro. Amanda Hocking escreve fantasia juvenil, com anões e tudo. Valerie Forster, que foi publicada pelas vias tradicionais antes de se estabelecer por si própria, escreve thrillers legais. Histórias romanescas e sentimentais também se saem bem sem uma editora por trás. No entanto, com exceção de ‘Anthopology of an American girl’, de Hilary Thayer Hamann, não consigo pensar em um romance literário autopublicado que tenha sido elogiado pela crítica e vendido bem. Não quero dizer que isso não possa – ou não deva – acontecer, apenas indicar que se trata de um caminho duro para autores de certos tipos de história. Leitores como eu não estão à procura de livros autopublicados. (…) A menos que Jeffrey Eugenides, Alice Munro e outros comecem a publicar seu trabalho via CreateSpace, não vejo a paisagem da ficção literária passando tão cedo por mudanças nesse aspecto.

No Brasil, onde a proporção é invertida e a maioria absoluta dos ficcionistas publicados se acotovela no quarto-e-sala da literatura literária, essa reflexão pode ser especialmente relevante – isto é, como subsídio para um futuro (próximo?) em que a autopublicação tiver algum peso em nosso mercado. Ou será que a inversão inverte também a equação de Lepucki?

31/08/2011

às 12:51 \ Mercado

Bienal: três bons motivos para ir ao hipermercado do livro

Evento da indústria editorial, a 15ª Bienal do Rio, que ocupa de amanhã ao dia 11 de setembro uma área de 55 mil metros quadrados no Riocentro, não é exatamente uma feira literária – não no sentido estrito desta palavra. É uma feira do livro, o que faz tanta diferença que explica o aparente paradoxo do sucesso de massa do evento num país com três quartos da população em situação de analfabetismo funcional e que carrega o modesto índice de leitura de 4,7 livros anuais per capita, aí incluídas obras didáticas e técnicas.

Se a Flip é uma delicatessen, a Bienal é um hipermercado. Em Paraty, embalados em certa aura de alta cultura, poucos milhares de leitores vão ver e ouvir autores que só muito raramente dão as caras nas listas de best-sellers. No Riocentro, grandes vendedores de livros e até personalidades de outras praias atraem uma multidão prevista em 640 mil pessoas a uma festa que cresceu quinze vezes em público e 40 vezes em área em menos de trinta anos – não por acaso, o mesmo período em que explodiu no Brasil e no mundo a chamada cultura da celebridade.

Na Flip, o ator Marcello Antony seria um coadjuvante bem apessoado mas discreto, ofuscado, por exemplo, pelas ondas cerebrais do prolífico escritor português Gonçalo M. Tavares. No Riocentro ocorre o oposto: o público forma ululantes caudas de cometa em torno de celebridades como Antony, que estará no Riocentro para ler textos de Rubem Braga no espaço Livro em Cena, e a atriz e cantora americana Hilary Duff, que ano passado estreou como autora (ajudada por uma escritora profissional chamada Elise Allen) com o romance juvenil “Elixir”, que lançará neste domingo no recém-criado espaço Conexão Jovem.

Quanto a Tavares, que falará também neste domingo no Café Literário – uma ilha de literatura propriamente dita no oceano da Bienal, com curadoria do crítico e poeta Italo Moriconi – não será surpresa se, com sua barba, for confundido nos corredores do Riocentro com um ex-integrante do Los Hermanos.

Quem não tem vocação para engrossar cauda ululante de cometa deve ir à Bienal mesmo assim, por pelo menos três motivos:

1. Comprar livros – Parece óbvio, mas não é tanto. O empurra-empurra é um incômodo e os descontos dados pelas editoras em seus estandes não são nada impressionantes quando comparados aos que as grandes redes oferecem rotineiramente. No entanto, como a disputa por espaços em livrarias é cada vez mais cruenta e vem tirando das prateleiras obras lançadas há poucos meses, trata-se de uma oportunidade de garimpar bons títulos entre os livros de catálogo. Algo que se pode fazer a qualquer momento na internet, é verdade, mas sem o prazer do contato físico e a possibilidade de degustar o conteúdo.

2. Levar os filhos – A Bienal tem seu velho jeitão de parque temático acentuado este ano pelo espaço interativo hi-tech chamado Maré dos Livros. Ao lado de atrações habituais como contação de histórias, joguinhos e a própria atmosfera de frisson criada em torno do tema, isso garante a diversão das crianças e tem tudo para dar uma mãozinha na formação de apreciadores de livros. Pelo menos, mal não faz – o que não se pode dizer da insistência das escolas em enfiar pela goela dos miúdos um romance chatíssimo como “Senhora”, de José de Alencar, grande abortivo de leitores.

3. Acompanhar bate-papos intimistas com bons autores – Num bem-vindo efeito colateral do excesso de atrações simultâneas, é possível ver e ouvir em ambientes relativamente íntimos escritores como o já citado Gonçalo M. Tavares, Amitav Ghosh, Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura, Cristovão Tezza, Pepetela e Ferreira Gullar, que em eventos como a Flip falariam para plateias de muitas centenas de pessoas. Para tanto, basta alguma organização para disputar as senhas, que começam a ser distribuídas uma hora antes de cada evento. A programação completa da Bienal pode ser conferida aqui.

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Em tempo: estarei no Café Literário no último dia da Bienal, domingo 11, às 14h, ao lado do maior gramático brasileiro vivo, Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, para falar do tema “Última flor do Lácio, inculta e bela”.

26/08/2011

às 11:14 \ Mercado

‘O fim do livro’ já cansou. Que tal ‘o fim do escritor’?

O escritor escocês Ewan Morrison provocou um barulho considerável no Festival de Livros de Edimburgo, há poucos dias, com uma palestra (transcrição resumida do “Guardian”, em inglês) tão fundamentada quanto apocalíptica em que, além de dar razão a quem prevê para o futuro próximo o fim do livro de papel (para o qual estima uma sobrevida de apenas uma geração), pinta um cenário em que o próprio ofício de escritor como o conhecemos deixará de existir:

Os e-books, no futuro, serão escritos por principiantes, por equipes, por entusiastas de suas respectivas especialidades e por autores já estabelecidos na era do livro de papel. A revolução digital não emancipará os escritoires nem abrirá uma nova era de criatividade: vai levá-los a ofertar seu trabalho em troca de muito pouco ou de nada. A literatura, como profissão, terá deixado de existir.

A futurologia é uma disciplina traiçoeira, mas Morrison não é propriamente um maluco que sobe no caixote para pregar o fim do mundo. Apresenta-se munido de todas aquelas tendências estatísticas já bastante conhecidas que apontam para a progressiva perda de valor do conteúdo na era digital (rumo à gratuidade absoluta?) e para o crescimento aparentemente irresistível da pirataria. Registra a decadência acelerada do sistema de adiantamentos com o qual a indústria editorial nutriu talentos autorais por décadas. Recorre também a teorias como a da “cauda longa”, lançada por Chris Anderson, editor da revista “Wired”. E por fim, de forma um tanto surpreendente, aponta o próprio sonho de independência que a revolução digital provoca no escritor, ao lhe dar a impressão de que pode prescindir do editor “atravessador”, como aquilo que vai acelerar a morte de ambos.

Cenários extremos como o de Morrison podem ser instigantes. Se não soa muito plausível sua previsão do trabalho de criação literária como uma fábrica chinesa ou coreana, superlotada de operários que se matam em troca de cama e comida, os dados que mobiliza certamente apontam para transformações dramáticas no modo de produção e veiculação da escrita. Transformações para as quais, paradoxalmente, um país como o Brasil, em que a profissionalização do escritor ainda não chegou a amadurecer, pode estar mais preparado do que muitos. “Ofertar seu trabalho por muito pouco ou nada” não é uma ideia que a maioria dos escribas canarinhos já tenha tido o privilégio de descartar como aviltante.


 

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