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Arquivo da categoria A palavra é…

24/04/2010

às 19:12 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Escambau

O leitor Igor Felipe, do Recife, gostou da palavra “escambau”, que usei outro dia, e pergunta por seu “significado e origem”. “Desde pequeno escuto essa palavra mas só descobri sua grafia na sua coluna”, diz Igor, acrescentando já ter visto por aí as formas “iscambau”, “uscambau” e “scambau”.

“Escambau” – grafada assim nos dicionários – é uma das minhas gírias antiguinhas de estimação. Leva a data de 1950 no Houaiss, mas tem o misterioso poder de conservar um certo frescor. Não faz o falante parecer recém-saído de uma câmara criogênica, como ocorre com “jóia”, “brasa”, “bokomoko”.

O sentido de “o escambau” é, como se sabe, “mais um monte de coisas” – uma espécie de “etc.” menos formal e mais enfático. Também é possível encontrar a palavra, com menos freqüência, num papel que costuma ser assumido por palavrões. Exemplo: “Ingênuo, eu? Ingênuo é o escambau!”

Sua origem é controversa, mas a tese que soa mais plausível deriva a palavra de “cambada” (porção de coisas, cambulhada). O Houaiss, sempre ele, explica como isso teria ocorrido: “com alteração de sufixo para -al, ‘grande quantidade’, e depois grafado com -u, seguindo a pronúncia do -l final, predominante no Brasil”.

Publicado no “NoMínimo” em 28/8/2006.

17/04/2010

às 15:02 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Aloprado

“Aloprado” é uma palavra exclusiva do português brasileiro que quer dizer “amalucado, desatinado” ou “agitado, inquieto”. Vem de “lorpa”, termo que, como “pascácio”, é hoje pouco usado mas designa com eloqüência cômica um idiota, imbecil, palerma. De “alorpado”, apalermado, se fez “aloprado” por meio de uma operação lingüística conhecida como metátese, que consiste no deslocamento de fonemas ou letras dentro de uma palavra. Esse deslocamento pode ser produzido deliberadamente por um autor em busca de efeito poético – como Camões ao escrever, nos Lusíadas, sobre “ventos contrairos” – ou ser um trabalho anônimo de gerações de falantes, como o que transformou “desvariar” em “desvairar”. “Aloprado” está no último caso.

Publicado no “NoMínimo” em 26/9/2006.

10/04/2010

às 16:01 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Cachê

A consulta vem do leitor Olney Figueiredo:

Dá pra explicar o motivo do uso de “cachê” (do francês, “oculto”) como forma de pagamento de artistas?

Na verdade, nosso cachê foi importado do francês cachet, que não guarda relação com o verbo cacher, “disfarçar, dissimular, esconder”. Embora possa sugerir a imagem de um pagamento envergonhado, feito na moita, o cachê não tem nada a ver com isso. A palavra cachet, cujas acepções mais antigas são “sinete, carimbo, selo”, acabou adquirindo em francês o sentido, entre outros, de remuneração dada a um artista por cada uma de suas apresentações. O caminho que percorreu para chegar a esse ponto incluiu carnês – carimbados, claro – que iam sendo destacados a cada pagamento.

Publicado no “NoMínimo” em 11/9/2006.

03/04/2010

às 0:07 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Smoking

A palavra smoking, nome daquele traje masculino formal, tem uma história curiosa. Nos EUA, onde a coisa foi inventada há 124 anos ao se suprimir a cauda do fraque, o nome da roupa é tuxedo – porque era esse o nome do clube em que foi lançada. Na Inglaterra, é dinner jacket. De onde terá saído o smoking?

Veio da expressão smoking jacket, algo como “traje de fumar”. O processo de importar do inglês um adjetivo e tratá-lo como se substantivo fosse é manjado, o mesmo que deu em shopping e outdoor. Mas smoking tem algumas peculiaridades.

Em primeiro lugar, smoking jacket, um estranho traje que fez sucesso na Inglaterra vitoriana, não tem nada a ver com o que hoje chamamos de smoking. Lembra mais um robe de chambre curto, com gola e punhos acolchoados. Era usado por fumantes de charuto e cachimbo para proteger a roupa do cheiro de tabaco. Por que se tomou o nome smoking jacket para nomear uma roupa muito diferente é matéria de especulação, mas tudo indica que o mal-entendido – ou coisa que o valha – aconteceu primeiro na França.

O primeiro registro desse uso data de 19 de julho de 1890, na revista “Le Moniteur de la Mode”. Vem aí a segunda idiossincrasia da história de smoking: a palavra, que nasce de um equívoco, passou a ser usada num número maior de países do que tuxedo ou dinner jacket. Quando se pensa no poder da França como exportadora de moda, não é difícil entender por que o smoking foi adotado com esse nome não apenas no Brasil, mas também na maior parte da Europa, na Argentina, no México e sabe-se lá onde mais.

Publicado no “NoMínimo” em 10/10/2006.

27/03/2010

às 0:11 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Biquíni

Para se ter uma idéia de como mudou a cabeça da humanidade sobre armas nucleares: há mais de 60 anos, em julho de 1946, o primeiro teste nuclear americano no Atol de Bikini, no Pacífico – o primeiro realizado debaixo d’água – soava tão glamouroso que o lugar batizou uma escandalosa novidade adotada pelas banhistas da Riviera francesa pouco tempo depois. Não é provável que “Coréia do Norte” tenha destino sequer vagamente semelhante.

Ah, claro: o poderio – econômico, militar, pop – de quem aperta o botão do detonador também conta um pouquinho.

Publicado no NoMínimo em 9/10/2006.

20/03/2010

às 15:41 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Espinafrar

A amiga Marina Lemle pergunta como e por que “espinafrar” virou, na linguagem informal brasileira, sinônimo de repreender duramente, passar uma descompostura em alguém, ou ainda criticar de forma arrasadora. O que o inocente espinafre, verdura imortalizada pelo marinheiro Popeye e tão valorizada pelas mamães, tem a ver com isso?

Segundo o etimologista Silveira Bueno, nada. Vejam o que ele diz sobre espinafrar: “Palavra da gíria onde entra a idéia de espinho, na forma espina, sendo obscura a segunda parte frar. Nada tem com espinafre”.

Mas tudo indica que Silveira Bueno se enganou. O próprio sentido que ele atribui ao verbo, o de “amolar, apoquentar, massar, irritar”, não bate bem com o que se encontra em outros dicionários. Houaiss e Aurélio concordam que espinafrar deriva mesmo de espinafre, e o primeiro registra uma curiosa acepção portuguesa que bem pode ser a explicação que faltava para o sentido da gíria brasileira: “tornar(-se) semelhante ao espinafre”.

De fato, segundo o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, “espinafrar” nasceu com um significado preciso: “Fazer ficar ou ficar alto e magro como um espinafre”. Diz-se, por exemplo: “Sabe aquele rapaz? De um ano para cá, espinafrou”. Nenhuma relação com a gíria brasileira, como se vê.

No entanto, talvez não seja absurdo imaginar esse “tornar semelhante ao espinafre” ganhando por aqui uma leitura diferente. Como é que as mamães citadas ali em cima preferem preparar o espinafre que seus pimpolhos recusarão resolutamente? Picado, pois é. E fazer picadinho de alguém, na linguagem informal, é exatamente o mesmo que espinafrar.

Quem tiver uma tese melhor, que me espinafre.

Publicado no “NoMínimo” em 13/10/2006.

13/03/2010

às 17:11 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Chiste

O leitor Alexandre Telles pergunta pela origem da palavra “chiste”, que quer dizer gracejo, dito espirituoso, piada curta. Segundo o Houaiss, o termo foi importado do espanhol chiste, forma regressiva do verbo chistar. O curioso é que a formação de chistar parece ser onomatopaica, ou seja, imitativa do som – não é gratuita, portanto, a semelhança sonora de “chiste” com a interjeição “psit”. Chistar é, na origem, “falar em voz baixa, sussurrar gracejos”. Embora tenha nascido ao pé do ouvido, o chiste já não guarda esse caráter de cochicho – “cochicho” que também é uma onomatopéia.

Publicado no NoMínimo em 28/11/2006.

06/03/2010

às 15:57 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Gringo

Gringo é um termo de conotações pejorativas que os mexicanos, no século XIX, tornaram praticamente sinônimo de americano. Nem sempre foi assim. “Gringo” é uma variação do espanhol griego, “grego”, e surgiu na Espanha – consta que primeiro em Málaga, depois em Madri – para designar de forma jocosa qualquer estrangeiro que falasse “enrolado”, especialmente os irlandeses. Vê-se entre nós a permanência da idéia do grego como algaravia na expressão “falar grego”, que significa “expressar-se de forma ininteligível”. Um provérbio latino medieval está na origem de tudo isso: Graecum est; non potest legi, ou seja – “É grego; não se consegue ler”.

A origem espanhola da palavra está registrada no Diccionario Castellano, de P. Esteban de Terreros y Pando, publicado em 1787. Muitas décadas, portanto, antes da guerra entre México e EUA (1846-1848) em que “gringo” se firmou no Novo Mundo. Segundo o Merriam-Webster, o verbete de 1787 desmente uma lenda etimológica de ampla circulação, a de que o termo teria nascido de uma canção escocesa tradicional que os soldados americanos cantavam na guerra contra os vizinhos do Sul, “Green Grow the Rashes, O!”. Isso teria levado os mexicanos, interpretando ao seu modo as duas primeiras palavras do verso de abertura, a apelidá-los “gringos”. Mais uma daquelas histórias bonitinhas e sem fundamento que fazem a glória dos livretos de divulgação etimológica.

Publicado no “NoMínimo” em 21/11/2006.

27/02/2010

às 0:03 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Presepada

Sempre me intrigou que o presépio, singela representação do nascimento de Jesus Cristo numa estrebaria, tenha tido na língua brasileira filhotes pejorativos como “presepada” (palhaçada) e “presepeiro” (fanfarrão). Vinda do latim praesepium, que quer dizer apenas curral, cercado onde se guardam animais, a palavra “presépio” existe no português desde o século XIV, com sentido exclusivamente religioso.

Quem passa mais perto de uma explicação é o etimologista Silveira Bueno. Depois de afirmar que a tradição do presépio foi iniciada por São Francisco de Assis, ele registra no verbete “presepista”, sinônimo menos comum de presepeiro, que a palavra se aplica tanto a quem monta presépios quanto aos “farsantes que tomavam parte nos autos de Natal”. Isso joga uma luz nova sobre uma das acepções de “presepada” no Houaiss: “espetáculo ridículo”. A péssima qualidade dos atores dos presépios vivos, seus prováveis maneirismos, para não mencionar a cenografia e os figurinos toscos – tudo isso pode ter criado as condições para o nascimento de “presepada”.

Publicado no “Nomínimo” em 22/12/2006.

20/02/2010

às 14:05 \ A palavra é...

Curiosidades etimológicas: Ianque

Yankees, go home! Hoje usada indiscriminadamente, e muitas vezes com sentido negativo, como sinônimo de nativo dos EUA, yankee é, curiosamente, uma das palavras mais misteriosas da língua inglesa. Ninguém sabe de onde veio, embora ao longo da história não tenham faltado teses etimológicas – algumas cômicas.

Acredita-se que, de início, yankee (que aportuguesamos com a grafia “ianque”) era um termo usado pejorativamente pelos holandeses de Nova York para designar os habitantes de Connecticut. Em seguida, os colonizadores britânicos o adotaram como sinônimo de qualquer colono americano. Em sinal de desafio, mais tarde foi o pessoal da terra que reivindicou orgulhosamente o nome, num percurso semelhante ao cumprido pela palavra “brasileiro”, que de início também tinha conotações depreciativas. Hoje, os dicionários nos informam que o sentido mais restrito de “ianque” é habitante da Nova Inglaterra, na região Nordeste dos EUA, que inclui entre outros o referido estado de Connecticut. Na Guerra de Secessão, porém, ianques eram todos os nortistas – que venceram. Isso significa que, numa das acepções restritas da palavra, o texano Bush não era exatamente um deles. Mas faz tempo que qualquer americano é chamado de ianque. Confuso? Ainda não vimos nada.

Segundo o Merriam-Webster etimológico, em que foi baseado o parágrafo acima, já se acreditou que yankee viesse do apelido de um fazendeiro de Massachusetts, Yankee Hastings, famoso por usar constantemente a palavra como expressão de contentamento; da palavra Cherokee eankke, “covarde”, que, verificou-se depois, nunca existiu na língua Cherokee; de uma tentativa dos índios de pronunciar English; das gírias britânicas yankie, “mulher decidida”, e jank, “merda”; e até do persa (!) janghe, “cavalo veloz”. Há muitas outras teses, a mais respeitável delas envolvendo um pirata holandês chamado Yankey, ou melhor, Jan Kees, que se pode traduzir como João Queijo. Mas chega. Essa breve lista basta para deixar claro que estamos diante de uma tremenda confusão.

Publicado no “NoMínimo” em 7/3/2007.


 

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