27/04/2011
às 11:11 \ ResenhaAvacalhando preconceitos: ‘o remorso de baltazar serapião’
Primeiro livro do autor português de origem angolana Valter Hugo Mãe a ser lançado no Brasil, “o remorso de baltazar serapião” (editora 34, R$ 37,00) é um romance cercado de atributos que podem despertar a desconfiança do leitor. Certamente despertaram a minha: regionalismo, tiradas próximas do realismo mágico, linguagem de sabor arcaico e sintaxe peculiar sugerindo intenções rosianas, abolição das maiúsculas como uma espécie de bandeira (velhusca) de modernidade… Hmm, sei.
Ao fim da leitura, todos esses preconceitos estavam avacalhados (o adjetivo é escolhido a dedo) e reduzidos ao que são: preconceitos, só. Mais uma prova de que não há no mundo da literatura nenhum estilo, tema, vereda, recurso, expediente, truque, absolutamente nada que se possa excluir de antemão do campo da novidade artística. Estranho e memorável, o livro de Mãe tira sua força justamente do fato de trilhar caminhos perigosos. Está menos para Guimarães Rosa do que para Raduan Nassar em sua fusão de linguagem e história num magma violento de pulsões quase pré-humanas, no marco zero do humano. Seu tempo pode ser situado tanto na Idade Média – uma Idade Média “cravada no coração da letra”, nas belas palavras da crítica brasileira Claudia Nina – quanto, como em alguns momentos me diverti imaginando, num regressivo futuro pós-apocalíptico. Não faz diferença.
Condenada ao fracasso, a luta pela humanidade plena travada pela família apelidada de Sarga (restaurei as maiúsculas por minha conta), que todo mundo acredita ter nascido da vaca que leva esse nome, apaga as fronteiras entre tragédia e comédia da mesma forma que a linguagem, comparada por José Saramago a “um novo parto da língua portuguesa”, oscila entre o registro culto e o chulo. Certas possibilidades clássicas de redenção – amor, arte e poder – atravessam o caminho miserável de Baltazar Serapião, o Sarga que conta a história: seu amor pela bela Ermesinda, a arte genial que jorra dos dedos de seu irmão Aldegundes, a promessa de uma nova vida sob os favores de El-Rei. Uma a uma, todas as promessas acabam esmagadas sob o peso da dominação – aquilo que o senhor feudal exerce sobre os homens, os homens sobre as mulheres e o diabo sobre todos.
Num movimento de redemoinho, tudo caminha para o ralo com lógica maníaca. Nem o próprio livro escapa da voragem: “o remorso de baltazar serapião” se torna mais forte e mais incômodo quando a misoginia visceral do mundo que retrata, exposta com brutalidade na paulatina subtração física a que os maridos submetem as mulheres, parece se infiltrar no tecido narrativo. Ao perder a voz, aquela voz feminina que “vinha das caldeiras fundas onde só o diabo e gente a arder tinham destino”, como anuncia o narrador já na primeira frase, a mulher finalmente se entrega ao amor do homem. É tarde: tudo já deu em nada, a humanidade perdeu. De pé só resta Sarga, a vaca, com sua inútil compaixão.
Tags: editora 34, Guimarães Rosa, José Saramago, Raduan Nassar, Valter Hugo Mãe


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7 Comentários
Penina
-21/11/2011 às 13:41
Outra historia sobre o amor impossivel, e, sobre o exercicio do poder que os homens exercem sobre seus semelhantes. Um tema milhoes de vezes abordado ,mas com que originalidade!!!
Dércio Braúna
-03/05/2011 às 18:56
Que bom que nos tenha chegado esse romance do valter hugo mãe. É realmente um autor fascinante (visceral, que causa incômodo). E não apenas neste romance; em “o nosso reino”, por exemplo, essa visceralidade é também magnífica. Noutras obras suas, como “o apocalipse dos trabalhadores” e “a máquina de fazer espanhóis”, tem-se uma “contaminação” cativante entre fino humor, lírica contundente e um olhar perspicaz sobre a sociedade portuguesa contemporânea. Vale à pena conferir. E há, ainda, a sua poesia; desta, destacaria “três minutos antes de a maré encher”. Oxalá toda a verve do valter hugo continue a nos chegar.
Clelio T. Jr
-02/05/2011 às 16:48
Também tive o mesmo preconceito que você quando soube do que se tratava, mas fui convencido a enfrentá-lo pela crítica da Raquel Cozer. E não me arrependi. Belíssimo livro mesmo.
Silvio de Andrade Arruda
-28/04/2011 às 9:42
Uma obra magnífica pela força de suas idéias e pela reinvenção da linguagem. Um prazeroso elogio ao incômodo.
Marcelo Moutinho
-27/04/2011 às 13:16
Sérgio, ano passado, qdo estive em Lisboa, li “A máquina de fazer espanhóis”, outro romance dele. Bom demais. Se puder, leia…