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11/01/2012

às 15:10 \ Resenha

Ainda ‘A geração superficial’: e a literatura com isso?

Na resenha do livro “A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros” (The shallows), segunda-feira, faltou falar justamente do que está no foco do Todoprosa: livros, e dentro dos livros a literatura, e dentro da literatura a prosa de ficção. Como ficam essas coisas arcanas, o texto enquanto arte e tal, no mundo colorido, afogado em informação, compulsivo e desatento que Nicholas Carr vê na internet? Um mundo em que todos os textos – e não só os feitos de palavras – viram “conteúdo” indexado, imediatamente acessível na forma de excertos, caquinhos interligados de modos imprevisíveis, tão descontextualizados quanto certo microfragmento triangular de louça cartaginesa azul num caleidoscópio que tende ao infinito.

A literatura não é abordada diretamente em “A geração superficial”. Não é este seu foco. Uma exceção é o capítulo em que seu autor discorre sobre o Google Book Search (mas aí está falando mais de mercado editorial, política cultural e biblioteconomia que de literatura). A outra é o momento em que ele fulmina o triunfalismo digital anencefálico de um articulista que nega todo valor à leitura de “Guerra e paz”, um romance que estaríamos na obrigação histórica de finalmente admitir ser uma chatice. Carr saca uma boa citação de Alberto Manguel e lembra que o filistinismo não nasceu no Vale do Silício: a leitura de “Guerra e paz” do início ao fim nunca foi e jamais será um valor para – assim como nunca esteve ao alcance de – gente à beça neste mundo. Para certas pessoas, porém, pode ser o que de melhor lhes aconteça na vida.

Será que a tribo daqueles que têm o dom de abraçar um livro e carregá-lo na alma se tornará cada vez menos numerosa, até um dia, para todos os efeitos, desaparecer? Eis uma questão que Carr não ataca. Ou será que a ideia de livro vai ser completamente revolucionada, e quem quiser ler “Guerra e paz” no futuro poderá se apaixonar pela obra num ambiente multissensorial infinitamente mais excitante que uma página cinza – mas isso ainda será, e na verdade de forma melhorada, “Guerra e paz”? Ou não, nada disso: já não haverá “Guerra e paz” nenhum, a não ser como um item no museu da cultura, um arquivo palavroso em que ninguém jamais se aventurará sem um buscador que lhe permita chegar, abiscoitar uma moedinha – digamos, certo pensamento de Pierre ao ser iniciado na maçonaria, caso seu interesse seja pesquisar “maçonaria” – e voltar em meio segundo.

Embora não o diga com todas as letras, “A geração superficial” parece apostar suas fichas no declínio inexorável da leitura de romances. Ao afirmar que uma maciça reprogramação sináptica da espécie está em curso neste exato instante, diante de bilhões de telas de computador, Carr aponta para um futuro – certamente exagerado no negativismo – em que a capacidade mental de ler um texto de centenas de páginas desaparecerá. Já não se trata apenas do fato de que é mais divertido brincar numa máquina de distrações em série do que se recolher a um canto por horas e horas, acompanhando só com os olhos e a imaginação uma longa fieira de palavras. Mesmo que tente, preferindo inexplicavelmente o regato verbal ao oceano das mídias, o ser humano do futuro pintado por Carr terá uma dificuldade quase intransponível para fazê-lo – a menos que se dedique, com esforço e disciplina, a reprogramar seu cérebro de volta a uma faixa de onda livresca, algo que a mesma neuroplasticidade que o levou até ali sempre deixará ao seu alcance. De todo modo, a esta altura estamos falando de uma pequena tribo de excêntricos. Talvez mais numerosa que a dos esperantistas, mas menos que a galera do piercing na língua.

Se diretamente o livro pouco trata disso, a leitura de “A geração superficial” me trouxe uma ou duas ideias novas sobre a tão debatida – e bastante cansada, vamos combinar – questão do que muda na literatura na era digital, um dos temas recorrentes deste blog desde que ele existe. Até então eu acreditava firmemente que diversos modos alternativos de narrar seriam explorados no ambiente virtual, dando origem a novas artes que já não teriam por que conservar o nome de literatura – e em paralelo, mantendo a preferência de uma parcela do público, as histórias contadas com palavra pura jamais haveriam de desaparecer, pois propiciam algo único que nenhuma plataforma multimídia suporta, uma tela perfeita para a imaginação. Foi mais ou menos isso que eu disse numa tarde memorável do Parque Lage em setembro do ano passado, no Fórum Autor 2.0 (em vídeo, aqui).

Ainda é mais ou menos isso que penso. O que mudou um pouco foi minha confiança no futuro das narrativas digitais crossover – isto é, multimeios, interativas, hipertextuais, wiki etc. Carr cita um caminhão de pesquisas na área de psicologia cognitiva que apontam para uma queda acentuada da compreensão e do aprendizado em ambientes carregados de links, popups, imagens, sons. Isso se daria por simples stress cognitivo, a necessidade de processar mais informação gerando paradoxalmente a capacidade de processar menos informação. O que ele não diz, mas digo eu, é que a essa queda da compreensão e do aprendizado corresponde simetricamente outra, menos lembrada mas crucial para a literatura de ficção: a queda da capacidade do leitor de, ao ler, se transportar para outro mundo. Sem encontrar no receptor certa predisposição calma e introspectiva que parece, esta sim, em vias de extinção, será que as histórias podem ganhar vida, reverberar? Videogames – a mais avançada forma de narrativa 2.0 – são legais, mas não seria tolice imaginar que um dia chegarão à altura de Tolstói? Estaremos prestes a descobrir que, no caso das artes narrativas, menos é mais?

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9 Comentários

  1. Carolina

    -

    04/03/2012 às 22:56

    Ironicamente, parei de ler esse post pelo menos umas cinco vezes pra olhar outras coisas. Desde responder mensagens, ler outros sites sobre esse livro e até indicá-lo no facebook a um amigo (e eu nem tinha terminado de ler o texto…).
    Eu amo ler, mas também sou uma viciada compulsiva em internet, que fica online praticamente o dia todo… acho que as coisas sempre podem ser usadas pro “bem” e pro “mal”. Sou dessas que se distraem facilmente, principalmente quando estou pesquisando alguma coisa e vc acaba parando num wiki e começa a clicar em mil links. Vc começa em segunda guerra mundial e vai parar em artigos de álgebra. Mas, por um lado, quando sento pra ler um livro, a experiência de ser “transportado para outro lugar”, ainda é a mesma de criança. Acho que é um “entretenimento” diferente, são experiências diferentes e focos diferentes.
    Outra coisa que me faz acreditar que a literatura impressa continuará existindo, persistindo e melhorando, é ver publicações de editoras que realmente se importam com literatura de qualidade, e não digo somente pelo texto puro. Mas da experiência toda de se ter um livro nas mãos. Pegue publicações da editora CosacNaify por exemplo… tem todo um cuidado, desde a escolha do papel, o tipo de fonte, as ilustrações, a encadernação… bem, pra mim, isso tudo ainda importa, e não há kindle que substitua!

  2. Antonio Lino Pinto

    -

    22/01/2012 às 0:35

    Sérgio; Relí recentemente os 7 volumes de Em busca do tempo perdido. Será que a nova geração teria disposição para encarar tantas páginas? Provvelmente não. Acabam perdendo maravilhas, como essa, escrita a quase 100 anos.
    abraços, gostei muito da resenha e dos seus comentários

  3. Ricardo Meirelles

    -

    13/01/2012 às 10:32

    Seria interessante pesquisar se têm aumentado, nos últimos anos ou nas últimas décadas, textos que criticam um romance por ser “arrastado”, ou coisa semelhante. Sempre que me deparo com isso ficou pensando se faltou habilidade ao escritor ou concentração ao crítico. Lembro que um teórico do século 18 disse dos Lusíadas que “tem vários defeitos, mas tem uma grande virtude: dá para a gente ler de uma só vez”, “de uma sentada”. (Apud Ivan Teixeira: http://www2.camara.gov.br/a-camara/conheca/historia/historia/cdnos500anos/seminarios/semin3/ivanteixeira.html)

  4. Claudio Faria

    -

    12/01/2012 às 13:25

    Muito bom, como sempre. Penso que sempre existirão leitores, mas creio também – e é com dó na alma e sem qualquer embasamento, puro “achismo” mesmo – que o objeto-livro um dia será relegado à nichos ou museus. Contudo a leitura permanecerá, e essa sim, para sempre. Existirão aqueles que a defenderão, que produzirão boa literatura, seja de que forma ou através de que meio for. Muitos veículos (de comunicações, transportes, etc) mudaram ao longo dos séculos, mas suas funções e objetivos permaneceram.

    Mas voltando aos livros, fico com o bibliófilo José Midlin: “Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver.”

  5. Carlos

    -

    12/01/2012 às 13:08

    Só queria chamar atenção para o fato de que a tese de Carr recebeu duras críticas de neurocientistas — exatamente as pessoas de cujo trabalho ele depende para que seu argumento seja algo além de um piti reacionário. Chamo atenção para o depoimento do professor de neurociência de Oxford, Colin Blackmore, que pode ser lido (rolando-se um pouco a página) aqui:

    http://gonzoj.wordpress.com/2010/09/07/the-internet-is-it-changing-the-way-we-think/

  6. tavinho paes

    -

    12/01/2012 às 8:45

    Queria te enviar o convite para um lançamento de um livro que, se não tem muito a ver com esta resenha, tem tudo a ver com o uso dos tools on clouds da web … como faço?
    Manda para sergio@todoprosa.com.br, por favor. Abraço.

  7. Josue de Freitas

    -

    11/01/2012 às 22:55

    Legal o posto. Eu, como graduado em Ciência da Computação, entusiasta dos estudos do cérebro e da literatura penso que o cérebro não faz grande diferenciação entre informação que você adquire em um livro, a que vem em um documentário no youtube ou a que é contatada através de um jogo de videogame.

    Quanto ao chegar ‘à altura de Tolsói’, o resposta é sim, desde que um escritor do ‘nível’ dele surja e que este esteja disposto a escrever um roteiro original para um jogo. As chances disto acontecer aumentam na proporção em que os jogos eletrônico ganham os status de arte (o que definitivamente são, o reconhecimento é que é lento). Embora a resposta mais certeira seria não, afinal é tão fácil reconhecerem alguém como um novo Tolstói como a Igreja Católica reconhecer um novo Jesus Cristo.

    Sobre a questão do menos é mais, eu cito uma frase que poderia apócrifamente atribuir ao Donald Knuth (não sei se é dele): “Em algoritmos, menos é mais, mas as vezes menos é menos mesmo e mais é mais mesmo”. Onde, algoritmos é a prosa dos computadores.

  8. Edilson Macedo Meneguel

    -

    11/01/2012 às 19:41

    A forma de ler ou escrever muda como alguns autores já estão discutindo o fim da escrita cursiva a certo tempo. No entanto, as ferramentas para a escrita são outras atualmente. O estudo apontado para a defesa de que possivelmente estamos perdendo a nossa capacidade cognitiva é curioso porque parece que as editoras tradicionais estão preocupadas com o seu futuro. Prefiro me perguntar quem são os interessados em defender algo que a maioria está despreocupada, pensar para quê? Hoje li algo que me deixou um pouco em alerta, parece que as redes wi-fi estão diminuindo a ‘qualidade’ do esperma. Então teremos que abandonar a praticidade. Afinal, quem imaginaria carregar para cima e para baixo uma mala com livros? Prefiro algum na mão para passar aquelas horas horríveis em fila esperando algum atendimento. Agora, em casa, prefiro todos guardados no mesmo lugar, no pc.

  9. Patthy

    -

    11/01/2012 às 17:00

    Muito bem dito, Sérgio. Eu também temo que a rapidez e a instataneidade dos “conteúdos” torne o pensamento do homem (única coisa que nos diferencia dos animais) incapaz de ser expresso em palavras. E é comprovado na história do homem: “a sociedade, a cultura e a língua só se perpetuam com a escrita”

 

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