Houaiss, Shakespeare e outros crimes
Envergonhado com a ação do procurador de Uberlândia contra o dicionário Houaiss, por suposto crime de racismo numa das acepções do verbete “cigano” (verbete que, por via das dúvidas, já foi tirado do ar na versão online do dicionário, tornando o caso ainda mais deprimente)? Console-se pensando no estado americano do Arizona, onde uma campanha de extremistas de direita do Tea Party contra os “estudos étnicos” na rede educacional acaba de botar na lista negra, entre outros autores, um tal de William Shakespeare.
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O escritor Michel Laub esqueceu a reverência no banco do táxi, pegou a crônica A um jovem, de Carlos Drummond de Andrade – publicada no livro “A bolsa & a vida”, de 1962 – e editou os 31 conselhos literários que o poeta dá a um certo Alípio para transformá-los num decalogozinho mais ao gosto da era digital. O resultado contém alguns toques de atualidade perfurocortante:
Se sentir propensão para o ‘gang’ literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.
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Jonathan Franzen está sendo – de novo – bombardeado por acusações
de misoginia, desta vez devido às observações no mínimo deselegantes que enfiou num ensaio sobre Edith Wharton para a “New Yorker”.
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Quem a esta altura ainda não viu a surpreendente aula-espetáculo (abaixo) dada por Rubem Fonseca – escritor famoso por ser um recluso, mas só para consumo doméstico – no evento literário português Correntes d’Escritas, em Póvoa de Varzim? O vídeo divide opiniões. Há quem torça para o autor de “Feliz ano novo” estender ao território nacional aquele humor performático de professor de cursinho, em consideração aos nativos que o consagraram. Outros adorariam vê-lo de volta à velha reclusão, desta vez para não sair mais.
Tags: Arizona, Carlos Drummond de Andrade, cigano, Edith Wharton, estudos étnicos, Houaiss, Jonathan Franzen, Michel Laub, Póvoa de Varzim, racismo, Rubem Fonseca, Tea Party, William Shakespeare


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7 Comentários
Rosângela Maria Pessanha de Souza
-07/04/2012 às 18:44
É isso aí: Ser louco, alfabetizado, motivado, paciente, imaginativo…
É isso aí.
Marco
-03/03/2012 às 16:44
Sei lá, como os EUA nasceram muito recentemente, depois da idade das Trevas, parece que tem muita gente lá que tem curiosidade de passar por uma. Então vamos banir livros, misturar igreja com estado, tornar o casamento entre gays numa questão “importante” de campanha num país com a economia do jeito que ela foi entregue pelos republicanos. É muito gozado que o Tea Party tenha uma agenda de cortes pesados na área social e educacional, mas adore uma guerrinha e tenha votado em peso a favor da Guerra do Iraque, cujo custo já está na esfera dos trilhões de dólares, contra qualquer evidência conclusiva das tais armas e inclusive contra a vontade de seu decano, Ron Paul, este sim um homem coerente, pelo menos.
Mas só nas regiões mais atrasadas do país eles se fazem ouvir. No norte cidades como Boston, Nova Iorque, Chicago, e no Oeste Los Angeles e São Francisco, continuam cosmopolitas e intelectualmente vigorosas como sempre. É um abismo que já foi retratado dividindo-se o país em 2 partes, os estados Yankees, no Norte e no Oeste, e “Jesusland”, ao Sul.
Elizabeth
-03/03/2012 às 14:46
Olá, Sérgio Rodrigues. Adorei assistir à breve e suculenta aula sobre literatura com o Rubens Fonseca. Só o conhecia por fotografias e pelos poucos contos que li. Foi muito bom poder ver os movimentos, as expressões faciais, o tom da voz e o riso de um escritor que, embora esteja sendo reconhecido por sua originalidade, conheço tão pouco e de longe. Fiquei impressionada com o seu bom humor, porque sempre o associei a narrativas e temas muito fortes. Por isso, é bom conhecer traços de sua personalidade que não consegui ver nos textos que li. De sua aula, guardei no coração duas frases: “A escrita é um risco total.” e “Escrever é uma forma socialmente aceita de loucura.”; além, é claro, as 5 características necessárias para se reconhecer um escritor: 1. Ser louco. 2. Ser alfabetizado. ["a tarefa do escritor é fazer o leitor sentir, e acima de tudo, fazer o leitor ver; para vendo, poder entender."] 3. Ser motivado. 4. Ter paciência. E, 5. Ser imaginativo. ["A imaginação, como diz o historiador citado, é a mãe da prosa, da poesia e até mesmo da História. É fundamental que o escritor invente."]. Obrigada, pela oportunidade de conhecer um pouquinho mais sobre este escritor brasileiro.
Breno Kümmel
-03/03/2012 às 8:41
O preço que se paga por escrever no site da veja…
silvio ricardo
-02/03/2012 às 16:56
Extremistas de direita do Tea Party? Para quem não tem argumento, ou contra-argumento, o negócio é partir para o ataque. Só um extremista de esquerda consideraria o Tea Party como extremista de direita.
Thiago
-02/03/2012 às 16:16
Não sei porque ainda me surpreendo. É por essas que no site da Veja só dá pra andar pelos blogs do Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e Caio Blinder (pois é, ele é de esquerda mas consegue fugir da cartilha).
Thiago
-02/03/2012 às 16:15
Novidade. Um intelequitual trazendo um site “moderado” de esquerda atacando os “estremistas” da direita…