Blogs e Colunistas

02/05/2012

às 12:05 \ Pelo mundo

Tudo em 5 capítulos: Julian Barnes na cama com Updike

O site é visualmente modesto, baseado numa ideia simples, e abre mão até de ilustração, que dirá dos recursos multimidiáticos que a internet propicia. Apesar disso – ou por isso mesmo? – o FiveChapters.Com tem um charme dos mais distintos e duradouros da blogosfera literária anglófona. Com curadoria de David Daley, que já andou trabalhando com o pessoal da McSweeney’s, sua proposta é publicar um conto por semana em cinco capítulos, um por dia, de segunda a sexta, e deixar que o talento narrativo de bons escritores faça o resto. Tem sido assim há mais de cinco anos – desde outubro de 2006.

Abaixo, em tradução caseira, uma amostra de “Dormindo com John Updike” (aqui o conto inteiro, em inglês), de Julian Barnes, uma espécie de Sobrescrito psicologicamente sagaz e melancolicamente cômico sobre duas amigas, Jane e Alice, escritoras idosas de sucesso limitado às voltas com suas memórias – entre elas, a do caso que a última teve com o ex-marido da primeira, Derek, muito tempo atrás – no trem em que ambas retornam de mais um festival literário. Elas acabam de se irritar mais uma vez com o tópico eternamente repisado do velho triângulo quando Jane abre um novo horizonte na conversa:

Sem mudar inteiramente de assunto, ela se viu perguntando:

– Você vai escrever suas memórias, aliás?

Alice sacudiu a cabeça:

– Deprimente demais.

– Lembrar de tudo aquilo?

– Não, não lembrar. Nem inventar. Publicar, isso sim: por tudo na rua. Eu mal consigo me conformar com o fato de que um número nitidamente finito de pessoas quer ler meus romances. Agora imagine escrever sua autobiografia, tentando resumir tudo o que você soube e viu e sentiu e aprendeu e sofreu em seus cinquenta e tantos anos…

Cinquenta!

– Eu só comecei a contar aos dezesseis, você não sabia? Antes disso eu não tinha sentimentos, muito menos responsabilidade por aquilo que eu era.

Talvez fosse esse o segredo da infatigável, admirável compostura de Alice. De tantos em tantos anos ela traçava um risco embaixo do que tinha acontecido e se eximia de responsabilidade dali por diante. Como no caso de Derek.

– Continue.

– …só para descobrir que não há uma só pessoa a mais interessada em saber. E talvez haja até um público menor.

– Você poderia encher a coisa de sexo. As pessoas gostam da ideia de…

– Coroas assanhadas? – Alice ergueu uma sobrancelha. – Excêntricas?

– …coroas excêntricas como nós abrindo o jogo sobre sexo. Os velhos parecem fanfarrões quando relembram suas conquistas. As velhas parecem audazes.

– Seja como for, você precisa ter dormido com alguém famoso. – Derek jamais poderia ser acusado de ser famoso. Nem Simon, o romancista, para não mencionar o editor delas. – Ou isso ou ter feito alguma coisa muito repulsiva.

Jane achou que a amiga estava se fazendo de tonta.

– John Updike não é famoso?

*

Amanhã à noite estarei na Bienal do Livro Amazonas, em Manaus, para falar, ao lado da escritora Ana Paula Maia, do tema “Meu livro não é de papel”. Embora a rigor ele seja também.

30/04/2012

às 16:53 \ Sobrescritos

Era uma vez

Eram os dois maiores poetas de seu tempo, um tempo remoto em que os homens morriam cedo, mas em compensação os rios eram cristalinos.

O poeta do reino do norte era rico e famoso. Casado com a mulher mais bela e cobiçada do mundo, que o acompanhava aonde fosse, era autor de odes e epicédios que o rei encomendava para comemorar as datas cívicas e que o povo ouvia em meio a arrepios festivos ou contrito silêncio, conforme o caso, na praça em frente ao palácio.

O poeta do reino do sul, ao contrário, vivia sozinho numa choupana no meio do mato, ignorado por seus conterrâneos e encarado com desprezo ou hostilidade pela corte.

O poeta do norte usava como argamassa de sua obra velhas crônicas de atos heroicos ou traiçoeiros, amores cortesãos mal disfarçados sob pseudônimos burlescos, intrigas filosóficas fermentadas nos grandes centros de saber do reino. Para que a mistura não resultasse pesada, temperava tudo isso com um humor descrente que denunciava o olhar de um verdadeiro cidadão do mundo.

O poeta do sul era um caipira que não se cansava de escrever sobre os mesmos temas bucólicos: o por do sol, o nascer do sol, os cabritos que subiam o morro, depois desciam o morro.

O encontro entre os dois foi promovido por admiradores de ambos, um grupo de professores nativos de um terceiro reino, o do centro, que não tinha um único poeta digno de nota mas se destacava pela hermenêutica da poesia alheia. Foi este reino o campo neutro em que os dois maiores poetas de seu tempo finalmente se encontraram, a convite dos entusiasmados professores, por ocasião de um festival de artes.

O conclave entrou para os anais da época. Literariamente, foi uma catástrofe. O poeta do norte falava demais, o poeta do sul não falava quase nada. Logo na chegada cumprimentaram-se friamente, e não demorou a ficar claro que um nunca tinha lido nem estava interessado em ler o outro. Um dos professores, pressentindo o desastre e em busca de um território comum para onde conduzir o colóquio, perguntou-lhes sobre influências. O poeta do norte citou Homero. O do sul, os caracóis de seu jardim.

O encontro só não passou em branco na história da literatura porque, num lance inverossímil, a bela mulher do poeta do norte se apaixonou pelo poeta do sul e fugiu com ele para seu barracão no meio do mato, loucamente determinada a gastar entre cabritos e caracóis seu patrimônio intangível, mas aromático e curvilíneo, de mulher mais cobiçada do mundo.

Nenhum dos dois poetas nunca mais escreveu um verso que prestasse.

27/04/2012

às 13:30 \ Sem categoria

Pop de sexta: a morte de Diadorim

A narração de Mário Lago e a direção de Walter Avancini fazem desse pequeno clipe – concebido como uma daquelas recapitulações sumárias dos folhetins televisivos, destinadas a situar o espectador na trama antes que comece um novo episódio – uma espécie bastante inspirada de resumo e, claro, também um spoiler de “Grande sertão: veredas”.

Vi na época, em 1985, a minissérie da TV Globo baseada no clássico de Guimarães Rosa. Lembro-me de ficar incomodado com a beleza delicada demais, feminina demais de Bruna Lombardi no papel de Diadorim, que me parecia exigir bem mais ambiguidade, embora aprovasse Toni Ramos como Riobaldo e Tarcísio Meira como um canastroso Hermógenes.

Revendo hoje este trechinho, com sua magia que dura até o surgimento daqueles hediondos créditos globais, até Bruna me pareceu uma escolha iluminada, como iluminada ela surge, nua, no clímax da revelação.

Bom fim de semana a todos.

25/04/2012

às 12:48 \ Resenha

‘A trama do casamento’: Eugenides em queda livre

O escritor americano Jeffrey Eugenides estreou em 1993 com uma obra-prima tão madura e original, o romance-novela “Virgens suicidas”, que a consagração de público e crítica atingida dez anos depois por seu segundo romance, “Middlesex”, ganhador do Pulitzer, pareceu apenas natural. Da geração de David Foster Wallace e Jonathan Franzen, Eugenides parecia destinado a figurar em posição de destaque no primeiro time da “nova geração” americana. Parecia. Mais uma década se passou e seu terceiro romance, “A trama do casamento” (que a Companhia das Letras lança mês que vem, com tradução de Caetano Galindo), é tão fraco que obriga seus admiradores, entre os quais me incluo, a repensar algumas das certezas expostas acima.

Mais (ou menos) que uma resenha, este texto vai procurar elementos para começar a lidar com essa questão triste: a queda livre qualitativa de um escritor que lançou um dos melhores livros de estreia que já cruzaram meu caminho. Primeiro convém falar um pouco de The marriage plot – que li no original, razão pela qual nada direi sobre a tradução.

Desde o título, trata-se de uma tentativa explícita de atualizar (para os anos 1980) os romances românticos que terminavam com o casamento da heroína, à moda de Jane Austen. A heroína neste caso, Madeleine Hanna, é uma jovem meio insossa que se forma em letras na Brown University e que tem como interesse justamente o estudo dos tais romances, enquanto seu coração se divide entre dois colegas.

O primeiro, de ascendência grega como o autor, é o místico e gente-boa Mitchell Grammaticus, que está à procura de Deus e que Madeleine transforma num amigo mais ou menos assexuado. O outro, com quem ela acaba por se casar, é o brilhante mas maluco Leonard Bankhead, escancaradamente moldado – com bandana, tabaco de mascar, genialidade, depressão e impulsos suicidas – em David Foster Wallace.

Haveria uma ou duas coisas a dizer, até em termos éticos, sobre essa exploração da imagem do escritor que se matou em 2008 e cuja mística, impulsionada tanto pela morbidez da cultura de massa quanto por seu brilho literário, não para de crescer. Basta observar que uma óbvia chave de leitura de “A trama do casamento” aponta para rivalidades geracionais – o alter ego do autor disputando com o avatar do colega mais talentoso os favores da fugidia glória literária encarnada pela mocinha rica e bonita – que evidenciam ainda mais o acanhamento do romance. Ah, se fosse DFW a escrevê-lo…

Esse acanhamento se manifesta em diversas frentes: personagens rasos e desinteressantes (com exceção de Bankhead, mas já vimos de onde vem seu charme), prosa realista estilisticamente banal, desenvolvimento arrastado da trama, intrigas secundárias irrelevantes e, no fim das contas, um aproveitamento superficial e sapecado do motivo literário exposto no título e sua suposta dimensão metalinguística. Na primeira parte do livro, passada no campus, a sátira da esterilidade e do ridículo reinantes nos círculos acadêmicos de teoria literária ainda faz menção de decolar, mas acaba soando meio batida – quem ainda defende tais coisas? – e, de todo modo, não demora a ser abandonada.

Em retrospecto, a luz que “A trama do casamento” joga sobre a carreira de Eugenides não poderia ser lisonjeira: até o mais vibrante “Middlesex”, um livro irregular, mas com trechos de grande dramaticidade, exige ser reavaliado com menos condescendência. Afinal, foi ali, naquele ambicioso caldeirão de estilos – fusão da saga de imigrantes gregos com uma investigação científica em tom de pesadelo sobre o hermafroditismo que ela terminou por gerar em um de seus descendentes – que Eugenides trocou o caminho literário que havia dado na magia de “Virgens suicidas” pelo que veio desembocar em “A trama do casamento”.

O estilista nabokoviano do livro de estreia era um surpreendente neo-simbolista, capaz de dizer num volume magro, com seu lirismo mórbido, coisas que nunca haviam sido ditas sobre os aspectos mais cruentos da adolescência. Por alguma razão que pode ter a ver com esgotamento artístico, mas que provavelmente se relaciona também com as expectativas de um mercado editorial marcado pelo sucesso de Jonathan Franzen, essa voz intrigante e ímpar desapareceu para dar lugar a mais um realista de carregação interessado na montagem de “painéis” espalhados por centenas de páginas. Nada contra o realismo em si, mas ele não parece ser o forte de Eugenides, que em “A trama do casamento” faz papel de sub-Franzen. Levando-se em conta que o próprio Franzen não está com essa bola toda, é bem grave.

23/04/2012

às 13:42 \ Vida literária

Cachê de Gabriel o Pensador não incentiva a leitura

Gabriel o Pensador: cachê polêmico (Ana Nascimento/ABr)

O poeta e frasista gaúcho Fabrício Carpinejar criou um fato cultural mais relevante e atual do que a polêmica entre Caetano Veloso e Roberto Schwarz ao cancelar ontem, por meio de uma carta aberta, sua participação na Feira do Livro de Bento Gonçalves (RS). Motivo: a organização do evento acertou um cachê de R$ 170 mil com o rapper e autor de literatura infantil Gabriel o Pensador, depois de, alegando limitações orçamentárias, fechar com Carpinejar e outros escritores um pagamento de apenas R$ 1 mil.

A questão é relevante porque acende um raro holofote numa zona de fronteira típica do ambiente literário dos últimos anos: aquela em que os velhos valores cabeçudos, introspectivos e desprovidos de vintém da leitura se cruzam com os da sociedade do espetáculo, essa senhora rica, espalhafatosa e desmiolada. Uma espécie de metáfora coletiva do casamento de Arthur Miller e Marylin Monroe.

A tentativa de transformar escritores em atores e livros em objetos cênicos da grande peça que hoje se encena mundo afora, chamada “Celebridades”, tem promovido a proliferação de feiras e “festas literárias” pelo país, na esteira do sucesso da Flip. Isso faz de escritores viajantes contumazes e lhes proporciona uma bem-vinda fonte alternativa de renda. O que é bom, mas esbarra em alguns limites.

Escritores, com raríssimas exceções, fazem uma figura pobre como astros pop. Mesmo quando desenvolvem um estilo performático, ebuliente ou histriônico de se apresentar no palco – e o próprio Carpinejar é um dos que se inclinam por esse caminho – costumam perder para qualquer cantor indie do YouTube. Isso não significa que a literatura esteja fadada à derrota, apenas que ela exige ser avaliada por outros critérios. Não é o que vem ocorrendo.

Em nome do “incentivo à leitura”, promotores de cultura de diversos escalões têm optado por lotar auditórios de gente semiletrada ao contratar um nomão que sirva de isca – é disso que se trata no caso de Bento Gonçalves, embora o tratamento de “nomão” dispensado a Gabriel o Pensador cause estranheza. A suposição é que uma pequena parte do público, como migalhas caindo da mesa do banquete, chegará até as atrações menos dotadas de “celebridade”. Muitas destas aceitam o jogo perverso e participam de eventos do gênero sem ganhar um tostão, contentando-se com passagens e hospedagens.

É uma regra do liberalismo econômico que cada um tem o direito de cobrar por seus serviços aquilo que toparem pagar. Tudo bem. Mas parece claro que um “incentivo à leitura” muito mais sério e eficaz – além de mais barato – seria promover a visita de escritores a salas de aula, por exemplo, combinada com programas de leitura e discussão. O problema é que isso não sai no jornal nem se encaixa na trama de “Celebridades”, aquela peça global.

O caso Bento Gonçalves é uma boa oportunidade de abrir a discussão sobre essas questões. O jornal gaúcho “Zero Hora” vem acompanhando o caso.

20/04/2012

às 10:11 \ Pelo mundo, Vida literária

O não-Pulitzer, a não-política – e outros sim-links

Baixada a poeira, já dá para dizer: Laura Miller, ex-jurada do prêmio Pulitzer, publicou na Salon.com a melhor reflexão (em inglês) que vi por aí sobre a polêmica ausência de um representante da literatura de ficção entre os laureados deste ano, algo que não ocorria desde 1977. Miller explica o frequente atrito entre as deliberações do júri, formado por gente da área de literatura, e o aval do conselho do Pulitzer, que tem interesses variados e costuma levar as decisões para um terreno próximo do gosto médio – daí, aliás, a costumeira eficácia do prêmio como propulsor de vendas. Os conselheiros se comprometem a ler os finalistas, claro, mas é só. Qualquer manobra fora desse terreno é limitada. Miller sustenta basicamente que, como hoje em dia ninguém fora do gueto literário tem tempo nem vontade de se manter em dia com os lançamentos, por melhores ou mais comentados que eles sejam, o consenso em situações desse tipo tende a ser cada vez mais difícil:

Segundo todos os relatos, o grupo (de conselheiros) não conseguiu construir uma maioria em torno de nenhum dos três títulos recomendados pelo júri. É certamente improvável que um número suficiente deles tenha lido ficção de forma ampla o bastante para concordar com uma escolha alternativa. Nisso eles são realmente representativos dos leitores americanos, e tal fato traz piores presságios para a literatura nacional do que um ano sem o ganhador do Pulitzer.

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Este artigo (em inglês) de Aditya Chakrabortty no “Guardian” aproveita o 150º aniversário do escritor bengali Rabindranath Tagore – o primeiro de origem asiática a ganhar o Nobel – para lamentar a ausência, no cenário da literatura atual, de uma figura que Tagore representava bem: a do “escritor político”. Chakrabortty se refere ao panorama anglo-americano, mas poderia abrir seu foco. No entanto, a questão é complicada demais para o calibre do texto, que fica entre o ingênuo e o malcriado ao chamar os escritores contemporâneos de gutless (“covardes”). Difícil decidir o que encolheu mais desde o tempo de Tagore, a literatura ou a política. Mesmo assim, vale a leitura: ouvir vozes que destoam do coro é sempre boa política.

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A revista literária inglesa Litro acaba de lançar uma edição temática só com poemas e contos de autores que nasceram ou vivem no Rio de Janeiro. Estou no segundo caso. Também estão lá Adriana Lisboa, Tatiana Salém Levy, João Paulo Cuenca, Ramon Mello e Angélica Freitas, entre outros. A revista é de papel, mas também pode ser lida digitalmente aqui.

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Quer muito ser rejeitado por um editor? Por que esperar, se você pode criar sua própria – e personalizada! – carta de recusa com este Gerador de Rejeição? Da editoria “Era só o que faltava”.

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Hoje à noite estarei na 9ª Feira do Livro de Joinville para conversar com o público sobre desafios e oportunidades para a literatura em nossos tempos de internet, blogs, redes sociais, e-books, apps… Todo mundo que estiver na área deve se sentir convidado.

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Você sabe por que os livros velhos cheiram como cheiram?

18/04/2012

às 11:48 \ Sobrescritos

Geração 90 na revista ‘Grandpa’: anatomia de uma tragédia

Em retrospecto, pode-se afirmar que as sementes da calamidade foram lançadas quando correu a notícia de que a revista Grandpa dedicaria uma edição inteira aos escritores brasileiros com mais de noventa anos.

A princípio não seria possível distinguir agitação alguma na superfície do lago estético que a imprensa, dividida, ora chamava de “melhor literariedade”, ora de “verdadeira geração noventa”. Os principais nomes do movimento souberam disfarçar o nervosismo diante de seus tabuleiros de damas na pracinha, ajudados pelo fato de que o tremor nas mãos não era exatamente uma novidade. Dentaduras duplas camuflavam os dentes afiados metafóricos. Bengalas e andadores escondiam tacapes e estiletes, e fraldões geriátricos, a disposição generalizada de cobrir de barro a reputação dos colegas.

Se algum prenúncio de confusão houve, naquele primeiro momento, ele não partiu dos escritores com mais de noventa anos e sim dos que, aos oitenta e tantos, julgaram-se injustiçados. Um manifesto contra a “ditadura dos anciãos” chegou a reunir centenas de assinaturas. Os insatisfeitos não estavam desprovidos de razão. Meia dúzia de primaveras a menos não escondiam o fato de que as obras de alguns deles tinham as mesmas características – temática ultrapassada, imagística vintage, sintaxe détraqué – que Giorgio Agamben havia transformado em dernier cri crítico em sua radical ampliação do conceito de “estilo tardio”, lançado por Edward Saïd, como único estilo digno deste nome.

Como se sabe, não foram os oitentões inconformados com os critérios da Grandpa os vilões da história. O grupo que concebeu e executou o plano de tomar de assalto o Teatro Municipal e boicotar a cerimônia de lançamento da revista era composto exclusivamente de escritores nonagenários, isto é, aqueles que, embora elegíveis, não foram eleitos pelos editores estrangeiros.

Os líderes do movimento rebelde alegaram depois que as intenções do protesto eram pacíficas, baseadas em apupos, cornetas e a farta distribuição, em pontos estratégicos da plateia, de exemplares daquele barbantinho fedorento conhecido como “peidinho-alemão”. Não se sabe quem disparou a garrucha da Guerra do Paraguai que deflagrou o pânico e a correria, e que a polícia encontrou mais tarde entre pilhas de cadáveres pisoteados, aparelhos contra surdez e os malditos exemplares da Grandpa que provocaram tudo isso, apressando ironicamente a morte de grande parte dos artistas que buscavam imortalizar.

16/04/2012

às 16:20 \ Pelo mundo

Eagleton: Literatura existe e tem cinco ingredientes


Meu próprio entendimento é que, quando as pessoas chamam hoje em dia algum texto de literário, elas geralmente têm em mente uma de cinco coisas, ou alguma combinação entre elas. O que elas querem dizer com “literário” pode ser um trabalho que seja ficcional; que comporte uma medida significativa de intuição sobre a experiência humana, em oposição ao relato de verdades empíricas; que use a linguagem num registro peculiarmente elevado, figurativo ou autoconsciente; que não seja pragmático no sentido em que listas de compras o são; ou que seja altamente valorizado como exemplar de escrita.

O novo livro do crítico literário inglês Terry Eagleton – que brilhou como o grande provocador da Flip há dois anos, conforme relatado na época aqui – chama-se The event of literature (“O evento da literatura”) e traz uma surpresa não só para quem tem alguma familiaridade com sua obra como para qualquer pessoa que costume acompanhar, mesmo de longe, as conversas no ambiente cada vez mais rarefeito da crítica literária acadêmica.

Eagleton afirma que, pensando bem e diferentemente do que vinha sustentando até aqui, é possível, além de desejável, definir de forma universal o que é literatura, sim. Para tanto basta introduzir nas lucubrações puramente teóricas uma medida de “senso comum”. As cinco linhas de força que ele considera constitutivas do “literário”, apresentadas sumariamente no trecho acima, são a ficcional, a moral, a linguística, a não-pragmática e a normativa. Para mais detalhes, vale a pena ler a resenha (em inglês) publicada no “Guardian” por Stuart Kelly.

No mínimo, o esforço de Eagleton me parece ter o mérito – utópico? – de buscar reaproximar dois campos que, de algumas décadas para cá, deixaram de se falar: os críticos universitários para os quais a literatura simplesmente não existe e os leitores, que reafirmam no dia a dia a existência da literatura e ficariam muito surpresos se lhes dissessem que existem críticos universitários.

13/04/2012

às 11:56 \ Pelo mundo

O baú de David Foster Wallace e outros links

Três anos e meio após a sua morte, David Foster Wallace (foto) se consolida como o Raul Seixas da literatura americana: os últimos achados em seu baú são um cartão postal que ele escreveu para Don DeLillo e algumas cenas ainda inéditas de The Pale King, romance inacabado publicado postumamente.

*

Da mesma geração de DFW e, para todos os efeitos, tão sério quanto ele no modo de encarar a literatura, Jonathan Franzen se distingue pela absoluta ausência de autoironia. Após mais uma entrevista em que martelou seus temas preferidos – a necessidade que o ser humano tem de ler histórias literárias “complexas” como as que ele escreve e a incapacidade escrevê-las quando se tem conta no Twitter ou no Facebook – abriu a porta para que Tim Parks levantasse dúvidas interessantes sobre a tal “necessidade humana de histórias” e lhe dirigisse outras perguntas incômodas neste artigo (em inglês) no blog da “New York Review of Books”:

Naturalmente, é conveniente para um romancista pensar que, pela própria natureza de seu trabalho, está do lado do bem, provendo uma demanda urgente e geral. (…) Mas qual é a natureza dessa demanda? O que aconteceria se ela não fosse atendida? (…) E por que é tão importante não ser interrompido pelo Twitter e pelo Facebook? Serão tais interrupções piores do que uma velha ligação de telefone fixo ou o simples tumulto de amigos e parentes ao redor da sua mesa de trabalho? Recordemos que Jane Austen adorava escrever em espaços domésticos em que estava exposta a interrupções constantes.

*

Uma espécie de anti-Franzen em sua adoção alegre e imediata (oba-oba seria maldade) de novidades tecnológicas, a escritora canadense Margaret Atwood é o primeiro nome de peso a aderir a uma estranha novidade no cada vez mais estranho mercado editorial 2.0: um “clube” de audiolivros – criado pela Audible, empresa comprada há poucos anos pela Amazon – em que os escritores ganham um dólar de bônus, além dos direitos autorais, por exemplar que ajudarem a vender nas redes sociais. Um fundo de 20 milhões de dólares foi criado para este fim. “É um movimento pró-autor”, disse Atwood. Saiba mais sobre o esquema nesta reportagem do “Guardian”, em inglês.

11/04/2012

às 13:30 \ Vida literária

Literatura? A minha com libido, por favor


Bem, vocês que são jovens corajosos, abram o ‘Grande sertão’ e leiam as 565 páginas. Isso para mim é um ato de coragem, ler ‘O jogo da amarelinha’, do Cortázar. Leia ‘Guerra e paz’. É um ato de coragem, transgressor, vai fazer bem para a sua vida, para a sua alma, para as conversas com a namorada. É um assunto e tanto. Já pensou, ‘Guerra e paz’? Três anos de conversa. Poucos momentos de silêncio e tédio. Chega o tédio, você fala: “tem uma cena no Grande sertão…”. É um casamento, uma vida inteira. Quando ele entra nas veredas mortas… sabe por que veredas mortas? Porque alguma coisa vai acontecer. É um lugar sombrio, obscuro. Conta isso para ela.

Milton Hatoum, autor de “Dois irmãos” e “Cinzas do Norte”, saiu-se com a excelente tirada acima em seu bate-papo público na série de encontros Um escritor na Biblioteca, organizada pela Biblioteca Pública do Paraná, transcrita e publicada pelo jornal “Cândido”.

Tocou num ponto nevrálgico que as campanhas pró-leitura, em geral chatíssimas, costumam deixar de lado por pudor ou caretice: o fato de que, em sua fase de formação, todo leitor é um aventureiro movido pela libido – nem mais nem menos do que fãs de rock ou surfe, cosplay ou academias de ginástica.

O fato de se dar por meio da ficção literária não torna o processo de construção de uma subjetividade e de uma identidade social menos ligado à sensualidade, ao desejo, à vontade de impressionar e seduzir. O que é de uma obviedade solar, mas frequentemente ignorado pelo antiintelectualismo que domina a sociedade brasileira.

Para formar um bom leitor, bastam dois itens: educação de qualidade – para acabar com o calamitoso analfabetismo funcional que atrofia o país – e uma paixonite adolescente pela Maga ou por Mandrake, ao gosto do freguês. O resto vai no embalo.


 

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