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16/01/2013

às 10:42 \ Mercado, Pelo mundo

150 preocupações da ciência sobre o futuro da humanidade

Futuro do pretérito: cena de "Blade Runner" (1982), filme de Ridley Scott

Após duas semanas de férias em que não tive preocupação maior que a de renovar o protetor solar depois de cada mergulho na água morna de uma praia do Nordeste, dei um jeito de, em poucas horas, reabastecer até a boca o reservatório de ansiedade: caí de cara na edição 2013 da imperdível enquete (em inglês) que a mesa-redonda eletrônica Edge promove todo início de ano com nomes de destaque do universo científico, tecnológico, artístico, jornalístico e editorial. O tema desta vez parece ter sido talhado para me trazer de volta ao mundo interconectado e profundamente preocupado em que vivemos: “Com o que deveríamos estar preocupados?”.

A lista de respostas possíveis para tal pergunta é bem longa, claro, mas isso não é problema para a Edge: mais de 150 intelectuais são convocados a dar sua opinião em ensaios mais ou menos sucintos. No mais curto deles, o cineasta Terry Gilliam gasta duas linhas para dizer que desistiu de se preocupar com qualquer coisa, mas a maioria leva a encomenda a sério e expõe suas angústias sobre o futuro da humanidade em meia dúzia de parágrafos densos.

Há especulações preocupadas para todos os gostos. Do provável emburrecimento da espécie à opinião embutida sem transparência na dimensão “semântica” incorporada ano passado pelo Google ao seu mecanismo de busca; do risco de uma hecatombe nuclear representado por sistemas de defesa automatizados ao superávit de testosterona que em breve varrerá a China; de uma nova onda de fascismo fomentada pela tecnologia aos perigos de conquistar o sonho da imortalidade.

O tom geral é descabeladamente pessimista, quando não apocalíptico, o que torna a leitura semelhante à de um romance de ficção científica cyberpunk: intelectualmente provocante, mas aterradora. Ainda mais quando se leva em conta que esses caras não são ficcionistas (embora uns poucos o sejam) nem podem ser acusados de paranoicos delirantes. Paranoicos talvez, mas com fundamento, inteligentes e bem informados sobre seus respectivos campos.

Por falar em campo, o do Todoprosa é um dos menos povoados de preocupações na enquete, o que não é necessariamente um bom sinal. O mais provável é que o tema da “morte da literatura” não seja páreo para o da “extinção da espécie” – por mais que alguns literatos insistam em situá-los em pé de igualdade. Mesmo assim, a preocupação preferida do cientista da computação David Gelernter, sobre o palavrório da internet, merece registro:

Quando temos um milhão de fotografias, tendemos a dar menos valor a cada uma delas do que se tivéssemos dez. A internet provoca uma desvalorização geral da palavra escrita (…). Como cada palavra tende a receber menos tempo de leitura e atenção e a valer menos dinheiro na ponta do consumo, ela naturalmente tende também a absorver menos tempo de escrita e atenção editorial na ponta da produção. Gradualmente, à medida que encolhe o tempo investido pelo escritor médio e pelo leitor médio na frase média, a capacidade da sociedade para se comunicar por meio da escrita decai. E essa ameaça à nossa capacidade de ler e escrever é um golpe aplicado em câmera lenta na ciência, nos estudos acadêmicos, nas artes – em praticamente tudo, na verdade, que nos distingue como seres humanos, aquilo em que roedores e golfinhos não são tão bons ou até melhores do que nós.

A essa altura, confesso, controlei a custo o impulso de pegar o avião de volta e me estabelecer de vez naquela praia de água morna, quem sabe redigindo cardápios e folhetos turísticos para sustentar uma existência frugal. Quem veio em meu socorro foi o cientista cognitivo Dan Sperber, que adverte para os perigos da preocupação desmedida:

O que me preocupa especialmente é que os seres humanos se tornem cada vez menos capazes de discernir aquilo que realmente deveria preocupá-los e que suas preocupações lhes façam mais mal do que bem. Talvez, como um barco na corredeira, não se deva tentar desacelerar nada, mas apenas otimizar uma trajetória que no fundo não se controla, não porque a segurança esteja garantida e o otimismo se justifique – o pior pode mesmo acontecer – mas porque não temos opção melhor que a esperança.

*

E já que estamos falando em visões apocalípticas, recomendo efusivamente a quem não viu a entrevista (aqui, o vídeo integral) que o editor franco-americano André Schiffrin, o mais articulado crítico do mundo editorial contemporâneo, deu ao programa “Roda Viva” da TV Cultura, veiculada no último dia 7. Eu estava entre os entrevistadores e, por ter feito algumas ponderações favoráveis ao potencial democrático do meio digital, ganhei dele o rótulo de “otimista” – novidade em minha carreira, que estou pensando em adotar. Pode ser um boa forma de encarar 2013.

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8 Comentários

  1. Rosangela Maria

    -

    30/01/2013 às 15:10

    Quanto ao otimismo e pessimismo, claro que é melhor ser otimista. O otimismo é uma alavanca.

  2. GEROLDO ZANON

    -

    21/01/2013 às 9:03

    Eu estou mais preucupado com o BRASIL que esta crescendo igual a rabo de cavalo para baixo

  3. Oliveira J

    -

    17/01/2013 às 7:36

    Como dizia Millôr Fernandes: “É melhor ser pessimista do que otimista. O pessimista fica feliz quando acerta e quando erra”.

  4. Alfredo

    -

    16/01/2013 às 16:59

    Brutal crise econômica, crise ambiental, Europa falida, barbárie no Oriente Médio, talibans nucleares, decadência dos EUA, ascensão da horripilante China…temos muitos motivos para o pessimismo…

  5. Paulo

    -

    16/01/2013 às 16:11

    Adorei o texto.

  6. sergiorodrigues

    -

    16/01/2013 às 16:08

    Obrigado, Daniel. Sobre sua dúvida de tradução, o original diz: “that muskrats and dolphins can’t do just as well or better”, com negativa portanto. Trata-se de enfatizar aquilo que só os seres humanos são capazes de fazer. A liberdade que tomei foi a de verter ‘muskrats’ por um termo genérico, “roedores”. Um abraço.

  7. Daniel

    -

    16/01/2013 às 15:23

    O artigo é, como parte da série dos produzidos aqui no blog, excelente. Fiquei com uma dúvida quanto à interpretação da tradução do texto de David Galernter onde se lê “…em que roedores e golfinhos não são…” e ponderei se realmente existe a negativa na frase (?).

  8. Rosängela Maria

    -

    16/01/2013 às 11:14

    Quer saber mesmo sobre o futuro do mundo…
    È só dar uma olhadinha em Israel, que apesar de ser um tiquito de nada em meio aos gigantes, continua sendo o Relógio do mundo. Mas, ou as pessoas fingem não perceber, ou preferem ir na onda de uma maioria sem todas as leituras. A questão é: OLhemos para Israel… Tiquito de nada… mas ainda sendo o centro de tudo o que ACONTECERÁ.

    É ISSO…

    Será que estaremos aqui para ver…

 

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