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Arquivo de 3 de agosto de 2012

03/08/2012

às 14:28 \ Vida literária

Tezza, a universidade, o apocalipse e o conto do Laub

Nos anos 1970, a pauta literária nacional se refugiou na universidade. (…) Se criou ali de certa forma o ‘pior’ de dois mundos. Surgiu a figura do professor-escritor. Eu fui um.

O discurso da universidade tem a pressuposição de verdade. A universidade é um lugar de organização do pensamento. A perspectiva de quem cria na literatura é substancialmente diferente. A verdade não interessa para a criação literária.

A ligação com a universidade brasileira criou essa relação esquizofrênica entre o discurso da ciência e o da arte, como se fosse uma coisa só. Isso teve um efeito devastador sobre a prosa brasileira. A prosa romanesca se apagou ao longo dos anos 1970 e 1980.

Achei boa e – mais uma vez – corajosa a entrevista do escritor e ex-professor universitário Cristovão Tezza à “Folha de S.Paulo” de ontem. Houve quem visse ali preconceito contra a universidade, mas fará algum sentido falar em preconceito quando quem emite tais juízos teve uma intensa vivência de mais de duas décadas no meio acadêmico?

O autor de “O filho eterno” pode se enganar no diagnóstico, naturalmente, e um certo exagero argumentativo me parece inegável em suas afirmações, mas seus conceitos nada têm de predeterminados. E são um bem-vindo contraponto ao barulho feito nos últimos tempos por críticos acadêmicos que apregoam – com evidente volúpia e não sem espírito marqueteiro – o fim da literatura em geral e da literatura brasileira em particular. Para gáudio de boa parte da imprensa cultural, aliás, pois esta é uma história de vícios compartilhados.

(A propósito: a leitura do conto de Michel Laub que abre a famigerada “Granta” dos jovens autores brasileiros, chamado Animais, basta para dar uma ideia da vertiginosa dimensão do equívoco cometido pelos apocalípticos.)

É curioso que a velha gramática prescritiva esteja em baixa enquanto, nos mesmos departamentos de Letras, uma aberração como a crítica prescritiva – “assim não pode, aquele autor nunca será bom, é preciso fazer assado” – goza de crédito. Eis por que “a verdade não interessa para a criação literária” é uma grande frase. A literatura instaura sua própria verdade, a crítica que se vire depois para dar conta dela. Ou não se vire, e torne-se irrelevante.

De resto, parece-me claro que essa conversa nada tem a ver com a baixeza do corporativismo ou da reserva de mercado profissional. Qualquer professor universitário – ou jornalista, médico, engenheiro, tatuador, stripper, gari etc. – que se dedique também à literatura sabe que esta é uma atividade fundamentalmente distinta daquela com a qual ganha a vida. Os que confundem as bolas não vão a lugar nenhum. Os que não as confundem, em sua maior parte, também não, mas quem disse que a brincadeira seria fácil?

 

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