Blogs e Colunistas

Arquivo de janeiro de 2012

30/01/2012

às 12:45 \ Pelo mundo

Como viver, por Vila-Matas

Enrique Vila-Matas publicou na última sexta-feira no “El País” o artiguete que traduzo abaixo:


Embora inconciliáveis entre si, três atitudes diante da arte literária podem ser igualmente fascinantes. No fundo, as três respondem à questão de como posicionar-se diante do mundo, como viver. Se me perguntassem, seria difícil precisar com qual me afino mais, pois todas têm a mesma carga de verdade íntima, o que não faz mais que comprovar que, como sustentava Niels Bohr, o oposto de uma verdade não é uma mentira, mas outra verdade.

Mesmo assim, reconheço que por algum tempo tive minhas preferências e admirei, acima de todas, a atitude elegante dos solitários, dos que têm desejo de clausura, de torre de marfim, uma necessidade de isolamento para atender apenas à sua obra. Tudo mudou quando me dei conta de que estava reparando apenas em criadores de indiscutível estatura moral e intelectual; andara estudando, por exemplo, Wittgenstein, lendo tudo sobre o ano que ele passou em radical solidão na cabana de Skjolden, na Noruega, onde sentiu uma grande euforia ao ver que podia se dedicar inteiramente a si mesmo, ou melhor, ao que acreditava ser a mesma coisa, a sua lógica, o que lhe permitiu ter pensamentos que eram “inteiramente seus”.

Tão certo quanto as obrigações e expectativas impostas pela vida social restringirem a liberdade de se concentrar na obra é o fato de que o isolamento pode produzir um tipo de escritor escassamente gentil e intelectualmente limitado, eu diria que muito comum em nossa terra, ensimesmado em seu mundinho cultural provinciano, depreciativo com os vizinhos europeus e latino-americanos, fechado à contribuição dos outros, jamais aberto ao diálogo com o contemporâneo.

Perceber essa sombra escura na atitude de tantos solitários me fez abandonar a admiração irrestrita pelo isolamento, e passei a achar mais inspiradoras as atitudes abertas; atitudes profundamente democráticas e festivas, como a de Michel de Montaigne, por exemplo: “Meu modelo essencial é adequado à comunicação e à revelação. Sou aberto, à vista de todos, nascido para a companhia e a amizade”.

O ensaísta francês – conta Sarah Bakewell em seu excepcional e muito recomendável ‘Como viver ou uma vida com Montaigne’ – adorava se misturar com os outros, e sabe-se que conversar com o vizinho ou com o visitante estrangeiro era algo que apreciava com gosto especial. Não era portanto estranho que, estando a dialogar, o fizesse também com os clássicos, e que citações textuais destes se encontrassem inscritas nas vigas do teto do torreão em que ele trabalhava e de onde, em animada palestra com seus autores preferidos, mostrou-se convencido de que “relaxamento e cortesia”, o que chamava de “uma sabedoria alegre”, ajudavam a tornar a vida mais tolerável e a adotar uma melhor postura diante do mundo.

A terceira atitude é a de quem se irmana com o silêncio inexorável ao qual tudo se encaminha. Esta atitude é muito bem resumida em ‘Adeus’, o poema em que Rimbaud conta que, tendo ardido depressa demais, busca já seu próprio outono e o silêncio. “Busquei inventar flores novas, astros novos, carnes novas, idiomas novos. Julguei ter poderes sobrenaturais. Agora, devo sepultar minha imaginação e minhas lembranças!”, diz, e parece já nos dar as costas, como se quisesse fechar a mala com que viajará à Abissínia. Não muito tempo depois, completaria com estas palavras sua despedida: Maitenant je puis dire que l’art est une sottise (Agora posso dizer que a arte é uma estupidez). Mas naturalmente, querido Rimbaud: é claro que a literatura, como toda forma de arte, é uma estupidez. No entanto, sem a arte a vida não teria muito sabor, talvez nem mesmo sentido. Além do mais, a estupidez da arte não passa da demonstração mais simples de que a vida não basta. E por isso continuamos a falar dela, às vezes só para dialogar sobre a melhor forma de vivê-la.

Faltou dizer que às vezes o diálogo fica tão bom que precisa dar lugar ao monólogo. Um dia quem sabe eu respondo; por enquanto só leio, feliz.

27/01/2012

às 14:44 \ Pelo mundo

O cânone russo de Putin: literatura e poder, tudo a ver?

Não é simples dar conta da notícia de que Vladimir Putin, ex-presidente, atual primeiro-ministro e novamente candidato à presidência da Rússia, propôs num longo artigo de jornal – intitulado “Rússia: a questão étnica” – a formulação de uma lista oficial de cem livros que traduzam um certo espírito russo, a serem adotados nas escolas de todo o país como forma de fortalecer sua unidade cultural.

O jornalista russo Alexander Nazaryan, residente nos Estados Unidos, optou neste artigo (em inglês) por encarar a notícia pelo lado escuro – o que no caso do primeiro-ministro, ex-agente da KGB, faz sentido – e comparar Putin a Adolf Hitler no nacionalismo exacerbado e manipulador. “Engenharia social por meio de uma literatura sancionada pelo Estado: nenhum outro ato de Putin até agora foi tão escancaradamente soviético em seu desejo de manipular e subjugar o intelecto humano”, alarmou-se Nazaryan, prevendo como contraponto ao cânone oficial uma lista de livros banidos, embora Putin não toque neste assunto.

Eis o lado ruim, certo, mas qual seria o bom? Simples: o fato mesmo de acharem – Putin e Nazaryan – que a literatura tem essa importância toda em pleno século 21. Tanto as ideias do primeiro-ministro quanto as de seu crítico soam curiosamente obsoletas a uma sensibilidade ocidental contemporânea, não soam? Será que esses caras estão falando mesmo de literatura? Como “fortalecer a unidade nacional” ou “subjugar o intelecto humano” com um instrumento tão ultrapassado – diria o cidadão médio, com sua dieta cultural dividida entre a internet e a TV –, que só interessa a uma meia dúzia minguante de pessoas? Ah, esses russos…

A polêmica deflagrada por Putin atualiza o imemorial paradoxo do censor, que leva a sério – e quase sempre ajuda a consagrar – o livro que proíbe como “perigoso” ou “imoral”. Vale trazer para a conversa outro russo, este naturalizado americano, o poeta Joseph Brodsky: “Existem crimes piores do que queimar livros. Um deles é não lê-los”.

Registre-se que Brodsky, que ganhou o Nobel em 1987, foi expulso da União Soviética em 1972, depois de ser preso e condenado como “parasita social”. Teve a sorte de ter vivido na era pós-Stálin, que, pelo número de poetas que mandou matar, credencia-se ao título de maior entusiasta do poder da lira que já viveu.

25/01/2012

às 13:14 \ Vida literária

Erico no IMS, McCarthy no Twitter, Franzen na TV

Amanhã à noite terei uma conversa íntimo-pública com Luis Fernando Verissimo sobre “Incidente em Antares”, o último romance do pai dele, diante de uma plateia de bolso no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Lançado em 1971, o divertido livro em que Erico Verissimo (foto) cutucava a ditadura no auge da repressão e flertava com o “realismo mágico” latino-americano pela via do humor rasgado – além de passar bem perto de antecipar a moda moderninha dos zumbis – já tem um pouco mais de quatro décadas, mas a comemoração do aniversário atrasou.

Fiquei tão honrado quanto surpreso ao ser convidado para o evento por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que detém o acervo do maior nome da literatura gaúcha. Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos?

Pois é, ela não sabia. O que me deixa com a sensação – nada desagradável, devo reconhecer – de ter feito algumas escolhas certas na vida. Não é só numa cidade fictícia com nome de estrela às margens do rio Uruguai que os mortos podem cruzar nosso caminho.

*

Como assim? O recluso Cormac McCarthy aderiu ao Twitter? Era alarme falso, mas Margaret Atwood, tuiteira emérita, acreditou. No blog de livros do “Guardian”, Alison Flood lançou um apelo: “Permaneçam reclusos, ó ícones da literatura americana, eu imploro!”.

*

Com a produção de uma série baseada em “As correções”, que terá roteiros escritos pelo próprio Jonathan Franzen, e a aquisição dos direitos de adaptação de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, a HBO entra com tudo no terreno – até aqui esnobado pela televisão – da literatura contemporânea “séria”. Boa notícia, certo? No “The Millions”, A-J Aronstein não está tão certo disso e (em inglês) especula que…

…devemos refletir sobre as implicações de sugerir [como teria feito, segundo ele, um empolgado Franzen] que as capacidades estéticas da televisão podem complementar ou mesmo suplantar as dos romances. Uma vez na vida, não perguntemos se “o romance vai sobreviver”, e sim o que significa o fato de seu futuro depender da relação com a TV – e se essa relação será produtiva a longo prazo.

*

Em sua coluna de ontem no “Globo”, Pedro Doria saudou a chegada do “gratuito e trivial” iBook Author, software da Apple dedicado à edição de livros eletrônicos para iPad, no qual é simples como jamais foi acrescentar ao texto fotos, vídeos, recursos interativos etc.:

A notícia não é necessariamente boa para editoras. O filho do vizinho pode compor o livro eletrônico e submetê-lo para venda na loja da Apple sem que nenhum editor o veja. Passa por cima do intermediário. Taí um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido. Mas para fotógrafos com vontade de experimentar, designers com projetos dentro da gaveta e autores de livros infantis, a porta se abre repentinamente.

Não duvido que fotógrafos, designers e autores de literatura infantil façam a festa. Mas confesso que estarei mais atento ao que farão com a ferramenta autores de ficção literária adulta. Será o iBook Author a peça que faltava para que finalmente se ponha em curso aquela revolução pregada há alguns anos pelos entusiastas do meio eletrônico – a da explosão da arte narrativa num admirável mundo tridimensional de sons, imagens, interatividade e, bem, até mesmo palavras?

Vamos ver. Meu palpite é que, se a coisa não andar agora, não anda mais.

23/01/2012

às 13:01 \ Pelo mundo

Quer ganhar aumento? Leia Guimarães Rosa

Assolado por uma sensação de perda de tempo toda vez que abre “Em busca do tempo perdido”? Em busca de uma razão utilitária para ler – com perdão da palavra – ficção? Bem, a executiva americana Anne Kreamer também estava, até que descobriu uma série de pesquisas que associam a leitura de ficção literária com “inteligência emocional”, empatia, capacidade de imaginar o outro e se adaptar a situações novas, eficiência no trabalho em equipe – e, como consequência de tudo isso, maiores chances de descolar bons salários no mundo corporativo, especialmente na era da globalização.

O artigo (aqui, em inglês, no blog da Harvard Business Review) vale mais como curiosidade do que como guia de comportamento para futuros executivos. Por um lado, o que Anne Kreamer afirma não é muito diferente de algo que já virou lugar-comum entre letrados, uma espécie de último reduto de “relevância social” da ficção num mundo em que ela perdeu centralidade: aquilo que Amós Oz chama de “antídoto contra o fanatismo”, a “virtude moral” de exercitar sistematicamente a imaginação de tudo que ultrapassa o círculo limitado do ponto de vista individual do leitor. (O mesmo vale para histórias contadas em filmes, peças de teatro etc.? Vale, mas deve-se levar em conta que nenhuma outra arte narrativa deixa tanto espaço para a imaginação do receptor quanto a literatura.)

O que torna pitoresco o raciocínio da executiva é a disposição de apressadamente passar daí à auto-ajuda explícita, trazendo para a literatura corporativa uma visão utilitária da ficção semelhante àquela que, no campo mais amplo da terapia e do aprimoramento individual, levou o escritor Alain de Botton (de “Como Proust pode mudar sua vida”) a abrir em Londres um estabelecimento chamado, sem modéstia alguma, The School of Life.

Embora, por múltiplas razões – inclusive utilitárias – eu sempre esteja inclinado a subscrever o argumento pró-ficção de Amós Oz, fico cético diante da conversa de Anne Kreamer. Em parte por já ter cruzado com grandes leitores de ficção que, em termos de “inteligência emocional”, não se sairiam melhor que uma toupeira. Em parte também por ter uma imensa dificuldade de acreditar que as bibliotecas dos executivos mais bem pagos do mundo sejam tão interessantes assim. A razão principal, porém, é anterior a tudo isso: a convicção de que, embora possa acabar tendo diversos tipos de impacto na vida do leitor, o consumo apaixonado de ficção literária é um prazer que só se consegue abraçar num espírito de absoluta gratuidade. Quem entra nessa para ganhar alguma coisa já perdeu.

20/01/2012

às 10:52 \ Pelo mundo

Como não escrever um romance – o escracho

O livro é de aconselhamento literário do tipo sério – ou quase isso. O filmete de animação (em inglês) que acompanhou seu lançamento, porém, é puro escracho, com aquela sátira da vida boêmia podre de chique à la Scott e Zelda Fitzgerald que já era falsa no original: como escrever um bom romance, ganhar rios de dinheiro e ser sexualmente irresistível, tudo sem derramar o dry martini? Tem coisas que só o Pop Literário de Sexta faz por você.

18/01/2012

às 13:16 \ Resenha

‘E foram todos para Paris’: uma viagem na primeira classe

Terá começado com o fim da Primeira Guerra Mundial, nos passos de John dos Passos e e.e. cummings? Ou antes disso, com o desembarque do crítico de arte Leo Stein, irmão de uma certa Gertrude? Ou teria sido alguns anos mais tarde, quando lá pôs os pés pela primeira vez um sujeito chamado Ernest Hemingway – que se tornaria seu principal divulgador e figura mais emblemática? Seja como for, o fato incontestável é que a mitológica Paris da chamada Geração Perdida é uma criação americana, celebrada nostalgicamente por geração após geração de artistas americanos – o último deles, o cineasta Woody Allen, com o divertidíssimo “Meia-noite em Paris”.

Se a mitologia parisiense dos anos 1920-1930 tem em seu coração esse drástico deslocamento geográfico-cultural, não é tão espantoso que seu mais sucinto e espirituoso guia turístico-literário seja de autoria não de um americano, nem de um francês, mas de um brasileiro. Em “E foram todos para Paris – Um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia.” (Casa da Palavra, 128 páginas, R$ 39,30), o jornalista Sérgio Augusto equilibra num volume magro e bem ilustrado, que se presta tanto à leitura corrida quanto à consulta, o rigor no acompanhamento de diversas encarnações de endereços parisienses relevantes, tanto públicos quanto privados, e a fina prosa em que conta as histórias a eles ligadas.

Nascido como uma longa reportagem especial de turismo publicada em 1990 pelo jornal “Folha de S. Paulo”, o guia de Sérgio Augusto virou, por duas décadas, um “roteiro de viagem cultivé” (palavras do autor) para uma turma de entusiastas dispostos a se apegar àquelas páginas cada vez mais esfarelentas e amareladas. Além de ter conteúdo atualizado, o livro vem resolver esse problema do suporte.

Quando quer que tenha começado a tal “festa ambulante” de Hemingway, “E foram todos para Paris” sabe bem onde tudo acabou: no capítulo O último endereço, acompanha ilustres expatriados americanos até a dita “morada eterna” nos cemitérios de Père Lachaise, Montparnasse, Montmartre e Passy. O que equivale a dizer, claro, que não acaba mais.

16/01/2012

às 17:27 \ Sobrescritos

O grandioso projeto de Antenor, microcontista do Twitter

O microcontista Antenor já gostava de escrever contos curtos antes do Twitter. O que a rede social lhe proporcionou, além de um mural onde publicar sua obra até então inédita, foi um foco preciso. Isso foi mais importante até do que o próprio mural: a concentração que o limite de 140 caracteres lhe deu.

De mistura com a concentração de Antenor veio a grande ambição de Antenor: ser o primeiro dos microcontistas “científicos”. Aplicar a exigente moldura dos 140 toques a todos os aspectos da técnica ficcional, mapeando exaustivamente recursos e efeitos. Esquadrinhar as sete províncias da prosa imaginativa, projeto rascunhado certa manhã por Walser numa cabeça de alfinete, e ir além. Construir personagens redondos com pinceladas retas, lançá-los em conflitos épicos, guardar espaço para o twist final. Tudo num registro que ponha em questão a própria ideia de registro, brincando com a linguagem. Eis a meta, de resto tão inatingível quanto a imortalidade do corpo.

Contudo, não sendo possível conjugar perfeitamente foco e amplitude, é possível – tem de ser, é a aposta de Antenor – determinar onde e por quê. Onde começa o impossível e o que acontece com a história a partir daí: quando se fica com a amplitude, por que a definição dos traços se esfuma; e quando se agarra o foco com pulso firme, por que o campo de visão vira um diafragma anal em momento de grande aperto. O que pode ser feito para minimizar tal incompatibilidade: listar e classificar todos os recursos conhecidos, fusão, elipse, metonímia, aliteração, neologização, trocadilho, parábola, etc.

O rigor com que abraçou seu projeto faz Antenor ter à sua frente um puxado cronograma de produção de dezenas de milhares de microcontos pelos próximos trinta anos: cinco por dia, seis dias por semana. Naturalmente, uma maioria – em torno de 99% – será lixo, rebotalho, palavras automáticas, podres, carcomidas, mortas. Isso está no projeto de Antenor. Embora, sendo um espírito científico, reconheça haver nessa tentativa de precisão um alto grau de palpite, ele estima que o ouro não possa se produzir a taxas superiores a 1%. Dentro de três décadas, portanto (está hoje com 35 anos), terá cerca de quatro centenas de obras-primas incontornáveis, monolitos fincados bem no coração da história universal das micronarrativas. Esse é o negócio de Antenor, e ele acha que não é um mau negócio.

Enquanto isso, vai enchendo seus poucos seguidores de hermetismos e irrelevâncias. Mas tem a paciência dos predestinados, porque conhece como ninguém um dos segredos do mundo: a brevidade toma tempo demais.

13/01/2012

às 12:34 \ Pelo mundo

O ‘crítico demolidor’ como figura folclórica e outros links

Para críticos e resenhistas que se ressentem, às vezes de forma dolorosa, da importância atribuída às obras dos escritores em detrimento da sua própria, uma boa notícia: um prêmio (anglófono, of course) para resenhas jornalísticas. Mas não se trata de qualquer resenha. Só podem concorrer aquelas que, de preferência com estilo, fizerem picadinho de seu objeto, como o nome do galardão indica: Hatchet Job of the Year, isto é, Serviço de Machadinha do Ano.

Talvez a notícia não seja tão boa, afinal. Por que não premiar simplesmente a melhor resenha, a que jogue mais fachos de luz – negativos ou positivos, mas mais provavelmente uma mistura deles – sobre o livro que analisa? O foco em textos de espinafração espirituosa é claramente uma forma de, pela via do folclore, dar contornos nítidos a algo que permanece embaçado e amorfo na cena cultural contemporânea.

*

Talvez seja o caso de refletir sobre a surpreendente humildade declarada por George Steiner, crítico de altíssimo coturno, nesta entrevista (em inglês) de duas semanas atrás:

Críticos, comentaristas e exegetas, mesmo os mais talentosos, ainda estão a anos-luz dos criadores. Nós não compreendemos as fontes íntimas da criação. Por exemplo, imagine esta cena, que se passou em Berna: um grupo de crianças está fazendo um passeio com sua professora, que as faz sentarem-se diante de um viaduto e observa enquanto elas tentam desenhá-lo. De repente ela olha sobre o ombro de um garoto, e ele desenhou botas nos pilares! Desde então, todos os viadutos do mundo estão marchando. O nome do menino era Paul Klee. A criação muda tudo o que contempla, com umas poucas linhas os criadores nos mostram tudo o que já estava lá. Qual é o mistério que detona a criação? Escrevi “Gramáticas da criação” para entender isso. Mas, no fim da minha vida, ainda não entendo.

*

Se Steiner nos alerta contra o prescritivismo arrogante que estará sempre, como risco, no horizonte do comentário sobre arte, seria um erro grosseiro supor que preconiza uma crítica intimidada e servil. No trecho acima, faltou dizer que os “criadores” não compreendem mais do que os “críticos” as tais “fontes íntimas da criação”. O importante é tocar em frente essa conversa, e ela acaba de ganhar o reforço de mais uma voz que, vinda do outro lado do balcão, tem muito a dizer: a escritora Carola Saavedra estreia uma coluna de comentários sobre literatura no jornal “Rascunho”.

Enfim, o boom deu à literatura latino-americana uma nova e inesperada visibilidade, mas por outro lado fez com que autores que não trabalhavam nesse registro, como (Juan Carlos) Onetti e o próprio (Juan José) Saer, permanecessem por muito tempo quase desconhecidos fora de seus países. Afinal, que interesse poderia haver em um autor estrangeiro se este não traz para sua literatura algo de sua ‘estrangeiridade’? Qual é o interesse num autor latino-americano que escreve sobre a Rússia, coisa que seria muito mais bem realizada por um russo? Ou, para voltar ao nosso exemplo inicial, de que poderia nos interessar um índio jivaro (ou Shuar) que escreve um romance que se passa em Helsinki? Ou que se interessa por Nietzsche ou Walter Benjamin?

11/01/2012

às 15:10 \ Resenha

Ainda ‘A geração superficial’: e a literatura com isso?

Na resenha do livro “A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros” (The shallows), segunda-feira, faltou falar justamente do que está no foco do Todoprosa: livros, e dentro dos livros a literatura, e dentro da literatura a prosa de ficção. Como ficam essas coisas arcanas, o texto enquanto arte e tal, no mundo colorido, afogado em informação, compulsivo e desatento que Nicholas Carr vê na internet? Um mundo em que todos os textos – e não só os feitos de palavras – viram “conteúdo” indexado, imediatamente acessível na forma de excertos, caquinhos interligados de modos imprevisíveis, tão descontextualizados quanto certo microfragmento triangular de louça cartaginesa azul num caleidoscópio que tende ao infinito.

A literatura não é abordada diretamente em “A geração superficial”. Não é este seu foco. Uma exceção é o capítulo em que seu autor discorre sobre o Google Book Search (mas aí está falando mais de mercado editorial, política cultural e biblioteconomia que de literatura). A outra é o momento em que ele fulmina o triunfalismo digital anencefálico de um articulista que nega todo valor à leitura de “Guerra e paz”, um romance que estaríamos na obrigação histórica de finalmente admitir ser uma chatice. Carr saca uma boa citação de Alberto Manguel e lembra que o filistinismo não nasceu no Vale do Silício: a leitura de “Guerra e paz” do início ao fim nunca foi e jamais será um valor para – assim como nunca esteve ao alcance de – gente à beça neste mundo. Para certas pessoas, porém, pode ser o que de melhor lhes aconteça na vida.

Será que a tribo daqueles que têm o dom de abraçar um livro e carregá-lo na alma se tornará cada vez menos numerosa, até um dia, para todos os efeitos, desaparecer? Eis uma questão que Carr não ataca. Ou será que a ideia de livro vai ser completamente revolucionada, e quem quiser ler “Guerra e paz” no futuro poderá se apaixonar pela obra num ambiente multissensorial infinitamente mais excitante que uma página cinza – mas isso ainda será, e na verdade de forma melhorada, “Guerra e paz”? Ou não, nada disso: já não haverá “Guerra e paz” nenhum, a não ser como um item no museu da cultura, um arquivo palavroso em que ninguém jamais se aventurará sem um buscador que lhe permita chegar, abiscoitar uma moedinha – digamos, certo pensamento de Pierre ao ser iniciado na maçonaria, caso seu interesse seja pesquisar “maçonaria” – e voltar em meio segundo.

Embora não o diga com todas as letras, “A geração superficial” parece apostar suas fichas no declínio inexorável da leitura de romances. Ao afirmar que uma maciça reprogramação sináptica da espécie está em curso neste exato instante, diante de bilhões de telas de computador, Carr aponta para um futuro – certamente exagerado no negativismo – em que a capacidade mental de ler um texto de centenas de páginas desaparecerá. Já não se trata apenas do fato de que é mais divertido brincar numa máquina de distrações em série do que se recolher a um canto por horas e horas, acompanhando só com os olhos e a imaginação uma longa fieira de palavras. Mesmo que tente, preferindo inexplicavelmente o regato verbal ao oceano das mídias, o ser humano do futuro pintado por Carr terá uma dificuldade quase intransponível para fazê-lo – a menos que se dedique, com esforço e disciplina, a reprogramar seu cérebro de volta a uma faixa de onda livresca, algo que a mesma neuroplasticidade que o levou até ali sempre deixará ao seu alcance. De todo modo, a esta altura estamos falando de uma pequena tribo de excêntricos. Talvez mais numerosa que a dos esperantistas, mas menos que a galera do piercing na língua.

Se diretamente o livro pouco trata disso, a leitura de “A geração superficial” me trouxe uma ou duas ideias novas sobre a tão debatida – e bastante cansada, vamos combinar – questão do que muda na literatura na era digital, um dos temas recorrentes deste blog desde que ele existe. Até então eu acreditava firmemente que diversos modos alternativos de narrar seriam explorados no ambiente virtual, dando origem a novas artes que já não teriam por que conservar o nome de literatura – e em paralelo, mantendo a preferência de uma parcela do público, as histórias contadas com palavra pura jamais haveriam de desaparecer, pois propiciam algo único que nenhuma plataforma multimídia suporta, uma tela perfeita para a imaginação. Foi mais ou menos isso que eu disse numa tarde memorável do Parque Lage em setembro do ano passado, no Fórum Autor 2.0 (em vídeo, aqui).

Ainda é mais ou menos isso que penso. O que mudou um pouco foi minha confiança no futuro das narrativas digitais crossover – isto é, multimeios, interativas, hipertextuais, wiki etc. Carr cita um caminhão de pesquisas na área de psicologia cognitiva que apontam para uma queda acentuada da compreensão e do aprendizado em ambientes carregados de links, popups, imagens, sons. Isso se daria por simples stress cognitivo, a necessidade de processar mais informação gerando paradoxalmente a capacidade de processar menos informação. O que ele não diz, mas digo eu, é que a essa queda da compreensão e do aprendizado corresponde simetricamente outra, menos lembrada mas crucial para a literatura de ficção: a queda da capacidade do leitor de, ao ler, se transportar para outro mundo. Sem encontrar no receptor certa predisposição calma e introspectiva que parece, esta sim, em vias de extinção, será que as histórias podem ganhar vida, reverberar? Videogames – a mais avançada forma de narrativa 2.0 – são legais, mas não seria tolice imaginar que um dia chegarão à altura de Tolstói? Estaremos prestes a descobrir que, no caso das artes narrativas, menos é mais?

09/01/2012

às 13:13 \ Resenha

A internet é uma máquina de fazer idiotas?

“A geração superficial – O que a internet está fazendo com os nossos cérebros” (Agir, 384 páginas) é o livro que consolidou a posição do jornalista americano Nicholas Carr como principal crítico cultural do mundo digital.

O livro nasceu de um artigo polêmico que Carr publicou em 2008, chamado “O Google está nos deixando burros?”, comentado na época aqui no blog. A tese central é a mesma: ao nos ensinar a ler de outra forma – veloz, horizontal, volúvel, interativa, baseada na satisfação imediata –, a tecnologia digital está reprogramando nossas mentes no nível bioquímico, devido a uma característica do cérebro chamada neuroplasticidade. Em consequência disso, a capacidade da espécie de acompanhar raciocínios longos e mergulhar sem distração na solução de um problema complexo pode estar simplesmente em vias de extinção.

Se a ideia central já constava do artigo de 2008, “A geração superficial” sustenta o pessimismo de seu autor com uma impressionante variedade de informações históricas, científicas, econômicas etc. Consegue manter no ar todos esses malabares sem perder a atenção do leitor – isto é, daquele leitor que ainda for capaz de prestar atenção em um texto com mais de cinco linhas.

Carr não é um luddita, um reacionário. Sabe que voltar ao império da cultura livresca em que vivemos por séculos, com sua leitura linear e sua concentração em uma tarefa mental de cada vez, é impossível. Tanto quanto teria sido, para os contemporâneos de Gutenberg, desinventar a imprensa.

Essa inevitabilidade histórica não o impede de recuar dois passos em busca de uma visão distanciada daquilo que a maioria de nós percebe apenas como vertigem, quando percebe: ao revolucionar profundamente, em poucos anos, o modo como lemos, aprendemos, trabalhamos, nos divertimos, nos relacionamos, consumimos, a cultura digital está mexendo profundamente em… nós mesmos. Estamos ganhando algo, obviamente: ninguém entrou nisso a contragosto. Mas estamos perdendo algo também.

Evidentemente, Nicholas Carr não é o único a pensar assim. À medida que reflui o deslumbramento com as inegáveis maravilhas do mundo digital, tem crescido nos últimos anos a sensação de que a capacidade de concentração é um bem que merece ser preservado a qualquer custo. Há alguns meses, publiquei aqui um artigo chamado “Concentração dividirá o mundo entre senhores e escravos”, que trata justamente disso. Do outro lado do ringue, não faltam também os que abraçam sem reservas todos os impactos psicossociais das novas tecnologias.

Esse debate vai render por muito tempo. É difícil enxergar com clareza os efeitos de uma revolução quando se está no meio dela. O notável livro de Carr tenta fabricar luz na escuridão mantendo um pé no novo ambiente e o outro no velho: o fôlego argumentativo e a qualidade do texto são típicos da era livresca, enquanto a mobilização de informações ecléticas paga tributo ao jeito Google de absorver o mundo.

É o Google, aliás, o personagem principal daquele que me pareceu o mais luminoso argumento de Carr – e também o mais assustador. Trata-se de uma analogia simples entre as ideias de Frederick Winslow Taylor, engenheiro industrial do século 19 responsável pela criação do método de repetição mecânica de tarefas que viria a dar na linha de montagem de Henry Ford, e a filosofia de processamento de informações que norteia a mais bem sucedida empresa da era digital. Como um operário cuja única função é apertar determinado parafuso, o bom internauta tem a função de clicar, quanto mais depressa melhor, e manter a máquina girando. Parar para pensar não é só um luxo: é contraproducente.

E ainda nem falamos de como fica a velha literatura nesse quadro. Quarta-feira eu continuo.


 

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