Blogs e Colunistas

25/05/2012

às 14:28 \ Pelo mundo

Pop de sexta: James Joyce, voz e violão

Ainda em clima de “Ulisses”, um vídeo em que a tradicional canção irlandesa “Lass of Aughrim” é interpretada por James Joyce e sua amada, Nora Barnacle – isto é, por Ewan McGregor e Susan Lynch nos papéis de Joyce e Nora. O longa-metragem de Pat Murphy do qual foi extraída a cena chama-se “Nora” e não é grande coisa: apesar de honesto, patina naquela mistura de apanhadão biográfico, trivialização da obra e exaltação do “gênio” que condena 9,7 em dez filmes que têm grandes escritores como protagonistas. Mas a canção é linda, linda. Bom fim de semana a todos.

23/05/2012

às 13:08 \ Mercado, Vida literária

Chegou a hora de ler ‘Ulisses’? Talvez, mas sem estresse

Se você for um daqueles que contemplam a obra-prima de James Joyce a certa distância, com um misto de fascínio e pavor, sem jamais se animar a encarar suas muitas centenas de páginas, saiba que seu nome é legião.

Talvez você tenha passado batido pela tradução pioneira de Antonio Houaiss (Civilização Brasileira, 1966) porque ela tem fama de erudita demais – “será que ele usa todas as palavras do dicionário dele?” – e um estranho “Sims” como palavra final, quando o original é um simples Yes. (Millôr Fernandes, irreverente como o próprio Joyce, sugeriu a tradução “É”, como num grito de orgasmo.)

Pode ser ainda que a versão mais coloquial da professora Bernardina Pinheiro (Objetiva, 2005), que procurou tornar o “Ulisses” menos intimidador, mais joycianamente brincalhão, e ainda restituiu o “Sim” de Molly Bloom à sua singularidade, também não tenha sido suficiente para levá-lo a encarar o tijolo.

Nesse caso, quem sabe você está se sentindo finalmente tentado a dar uma chance a Leopold Bloom na recém-lançada tradução de Caetano Galindo (Penguin/Companhia), que consumiu dez anos de trabalho, contou com a “coordenação editorial” de um tradutor experiente como Paulo Henriques Britto e vem embalada numa capa elegante e cabeçuda como o próprio romance – embora também, como a versão Houaiss, tenha encontrado sua letrinha da discórdia na decisão de manter um ípsilon anglófilo no coração do título: “Ulysses”.

Será que chegou a hora de ler “Ulisses”, afinal?

Por que não? Se as inevitáveis comparações entre as três traduções, esse surpreendente luxo brasileiro, já ocupam hoje um time de eruditos – e continuarão a ocupar por muito tempo – o certo é que a ideia de “tradução definitiva” para uma obra tão apinhada de jogos de linguagem e referências subterrâneas como “Ulisses” é ridícula. Em vez de ficar esperando pela corporificação dessa miragem, começar imediatamente é uma decisão tão boa hoje quanto teria sido em 1966.

O único conselho que me parece importante é o seguinte: não leve “Ulisses” tão a sério, é só um livro. Grande, influente, inovador, ambicioso – certo. Elogiado por ninguém menos que Jorge Luis Borges com palavras fortes: “Mais que a obra de um único homem, o ‘Ulisses’ parece o trabalho de muitas gerações” – OK. Mais até do que isso, é provavelmente o único livro na história da literatura que conseguiu conciliar o máximo de vanguardismo com o máximo de “popularidade” – entre aspas porque se trata de uma popularidade erudita, com perdão do paradoxo, mas de todo modo resistente à passagem do tempo e com traços inequívocos de beatlemania, cosplay e outros componentes de histeria.

Tudo isso é verdade, mas é sempre bom ter em mente um alerta sábio de Raduan Nassar: “Reverenciam-se mitos de modo obsceno. Tem gente que fala em Joyce ou em Pound e parece que está dando cria”. Para contrabalançar os possíveis efeitos emburrecedores dessa mitologia, ajuda saber que um compatriota de Joyce, o escritor Roddy Doyle, declarou há poucos anos que o “Ulisses” era superestimado e “teria melhorado com uma boa edição”. Não se trata de dar razão ao autor de “The Commitments”, apenas de aproveitar o efeito benéfico de sua coragem herética.

Esse efeito benéfico é o de ler “Ulisses” em busca de prazer, não de charadas, enigmas, paralelos com Homero, piscadelas variadas. É claro que, com muita frequência, o prazer que houver virá de charadas e piscadelas, o que é ótimo. Acontece que inverter as prioridades, deixando de ser um leitor de carne e osso para ser um exegeta de pincenê, é para a maioria das pessoas a forma mais garantida de estragar a leitura e abandoná-la antes da página 20. Não por acaso, é também uma traição ao espírito de Joyce, um sujeito dotado de altíssimos teores de molecagem que, diante do reverente culto acadêmico que inaugurou, talvez reagisse com um ataque de flatulência e meia dúzia de palavrões.

O homem não era flor que se cheirasse. “Enfiei (no ‘Ulisses’) tantos enigmas e charadas”, disse, “que ele vai manter os professores ocupados por séculos, discutindo o que foi que eu quis dizer, e esta é a única forma de garantir a imortalidade.” É um dos traços de sua genialidade que essa declaração seja ao mesmo tempo uma verdade e uma gozação, duas faces de uma moeda que nunca para de girar. Vladimir Nabokov, que percebia o risco de enxergar apenas o lado sério da questão, atacou violentamente o autor do mais famoso “guia de leitura” do romance, Stuart Gilbert, “um chato”, afirmando que “seria uma completa perda de tempo procurar paralelos próximos (com a ‘Odisséia’) em cada personagem e cada cena do livro”.

Pode ser que o conselho não sirva para todos. Foi o que me serviu. Quando, após anos de relutância, finalmente li “Ulisses” (no original), fiquei surpreso de descobrir que o livro é – nem sempre e não só, mas certamente também – apaixonante, sensual, engraçado, cheio de efeitos sonoros, cromáticos e olfativos de um certo dia em Dublin, tudo plasmado em frases de musicalidade irresistível. Quanto a “entender” tudo, esmiuçar tudo, dissecar a borboleta, deixo para aqueles “professores ocupados por séculos”. Com todo o respeito, tenho mais o que fazer.

21/05/2012

às 12:44 \ Vida literária

Dalton Trevisan ganha o prêmio Camões

Genial, genioso e muito mais recluso do que Rubem Fonseca jamais sonhou ser, o contista curitibano Dalton Trevisan é o vencedor do 24º Prêmio Camões 2012, o mais importante da literatura de língua portuguesa.

O vencedor do Camões – que também já premiou os brasileiros João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar e o próprio Rubem Fonseca, entre outros – recebe 100 mil euros, em torno de R$ 260 mil. Presidido pelo crítico brasileiro Silviano Santiago, o júri tomou a decisão por unanimidade. O anúncio foi feito hoje de manhã em Lisboa por Francisco José Viegas, secretário de Cultura de Portugal. Leia aqui a reportagem do jornal português “Público”.

O júri justificou assim a escolha: “Dalton Trevisan significa uma opção radical pela literatura enquanto arte da palavra. Tanto nas suas incessantes experimentações com a língua portuguesa, muitas vezes em oposição a ela mesma, quanto na sua dedicação ao fazer literário sem concessões às distrações da vida pessoal e social”.

Dalton, que completa 87 anos no mês que vem, manteve em toda a sua carreira impressionante fidelidade a um estilo de prosa de crescente minimalismo e temática inconfundível, marcada em doses iguais por erotismo à flor da pele, provincianismo e uma espécie aguda de metacafonice, com o uso insistente de clichês verbais, diminutivos e personagens chapados. Numa combinação rara, enraizou seu experimentalismo de autor sofisticado num solo popularíssimo de “Brasil profundo”:

A noivinha em pranto:

– São horas? Um homem casado? De chegar?

O boêmio fazendo meia-volta, no passinho do samba de breque:

– Não cheguei, minha flor. Só vim buscar o violão.

O título do livro mais famoso de Dalton Trevisan, “O vampiro de Curitiba”, acabou por virar também sua alcunha. Os últimos que lançou (pela editora Record) foram “Desgracida” e “O anão e a ninfeta”.

A editora Record tentou entrar em contato com Dalton esta manhã para lhe dar a notícia, mas não sabe se ele já a recebeu. A comunicação é precária. “Fizemos do jeito que sempre fazemos para falar com ele”, disse a gerente de imprensa Gabriela Máximo. “Telefonando e mandando um fax para a Livraria do Chain, que então manda alguém botar o fax na caixa de correio dele.” Se Dalton irá a Lisboa para coletar a honraria? “Acho praticamente impossível”, diz Gabriela, que em 2007 recebeu em nome do escritor o segundo prêmio do Portugal Telecom.

18/05/2012

às 13:15 \ Interatividade, Sobrescritos, Vida literária

Você decide: por que a literatura brasileira é assim?

No distante julho de 2007, impressionado com a capacidade que tinham os “debates críticos” sobre a literatura brasileira dos últimos 20 anos de descambar para lugar nenhum, publiquei aqui um Sobrescrito em forma de enquete chamado O problema é ‘o problema’, mais tarde compilado no livro “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial, 2010). As respostas foram desenhadas de acordo com as metodologias mais avançadas de prospecção sociocultural da Universidade de Itaguaí, a fim de cientificamente dar conta de todos os vetores relevantes da nossa “cena”. O único problema com aquele experimento pioneiro é que a enquete era falsa, um mero simulacro literário de enquete: o internauta não votava. Será por isso que, cinco anos depois, ainda estamos mais ou menos no mesmo lugar? Por via das dúvidas decidi republicar a enquete, mas desta vez é diferente: ficamos interativos, docemente interativos. Vote, caro leitor, e ajude a descascar esse pepino.
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Qual é o maior problema da literatura brasileira?

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16/05/2012

às 12:05 \ Pelo mundo

Fuentes: acima de tudo, agitador cultural do ‘boom’

Carlos Fuentes entre Vargas Llosa e García Márquez no auge do 'boom': o único do trio sem um prêmio Nobel

Escritor multifacetado que gabava-se de reescrever pouco e não saber o que era bloqueio criativo, prolífico articulista de esquerda que nunca se prendeu a dogmatismos partidários, cidadão do mundo de modos aristocráticos, professor universitário e “elegante intelectual público”, segundo o obituário do “New York Times”, Carlos Fuentes morreu ontem deixando uma obra vasta mas, tudo indica, menor que seu papel histórico como agitador do chamado boom latino-americano.

Profundamente identificado com a cultura mexicana, embora nascido no Panamá, Fuentes foi o primeiro dos autores do boom – que nos anos 1960 e 1970 conquistou leitores nos quatro cantos do mundo para a literatura do continente – a expressar como ensaísta, ainda nos anos 1960, autoconsciência sobre um movimento que tinha como combustível, em doses iguais, talento e marketing. Fez pelo arcabouço ideológico e pelo instinto gregário do realismo mágico o que a agente literária espanhola Carmen Balcells fazia por suas estratégias comerciais.

Como costuma ocorrer com agitadores culturais, Fuentes não figura, porém, entre os nomes de maior potência artística do movimento. O colombiano Gabriel García Márquez, que ainda não se pronunciou sobre sua morte, e o peruano Mario Vargas Llosa – que o fez ontem no calor da hora, ainda que dando certa impressão de medir elogios, aqui – já ocupavam tais posições antes mesmo de terem recebido o prêmio Nobel.

“Minha primeira impressão intuitiva”, declarou ao jornal “La Vanguardia” o escritor hondurenho Julio Escoto, “é que a Academia Sueca lhe abreviou a vida ao não lhe outorgar o prêmio Nobel do ano passado.” Algo que, depois de haver premiado Vargas Llosa em 2010, ela não poderia fazer por um bom punhado de anos, segundo seus próprios critérios de diversificação geográfica e cultural – e que por isso mesmo o autor de “A morte de Artemio Cruz” dificilmente estaria esperando. Se decepção tão mortal houve, ela ocorreu em 2010, quando foi anunciado o prêmio para o peruano.

A Bolsa de Valores da literatura sempre estará sujeita a violentas e muitas vezes imprevisíveis oscilações, mas hoje parece justa – e majoritária na América Latina – a impressão de que desta vez o Nobel apostou certo.

14/05/2012

às 15:16 \ Pelo mundo

Você pensa que sabe abrir um livro? Pense de novo

O primitivo infográfico ao lado, chamado “Como abrir um livro novo” e pinçado em velhos arquivos da imprensa americana pela revista The Atlantic, funciona como piada pronta – e de época, ou seja, pronta faz tempo – para quem, ao defender os livros de papel diante dos digitais, argumenta que sua tecnologia é insuperável, intuitiva, descomplicada, perfeita. Não para o consciencioso encadernador que deu as dicas para o passo-a-passo ao lado, pelo qual ficamos sabendo que o simples ato de abrir um livro recém-encadernado oferece perigos inimagináveis: “Apoie o livro numa mesa, com a lombada para baixo. Abaixe a capa. Em seguida, a contracapa. Abra então algumas folhas na parte da frente. Agora abra algumas folhas na parte de trás, e siga alternando a abertura de folhas entre a parte da frente e a parte de trás, pressionando-as suavemente para baixo, até atingir o centro. Repita a operação duas ou três vezes para flexibilizar a costura”. Ligar um iPad não é muito mais fácil?

11/05/2012

às 14:21 \ Mercado, Pelo mundo

Harry Potter ‘de graça’: a nova mágica da Amazon

A partir do dia 19 de junho será possível baixar no Kindle todos os sete livros da série Harry Potter, o arrasa-quarteirão de J.K. Rowling, em cinco línguas (inglês, espanhol, francês, alemão e italiano), sem que o cartão de crédito do usuário seja debitado em um único centavo. Os títulos são a mais nova aquisição da “biblioteca” do Kindle, que permite pegar emprestado até um título por mês. Mais detalhes, em inglês, aqui.

Ora, qualquer um que tenha cinco minutos de familiaridade com um leitor eletrônico sabe que a diferença entre o empréstimo e a compra pode ser meramente teórica no intangível universo digital – mesmo porque a Amazon anuncia que “não há data de devolução” para os livros da biblioteca do Kindle. Onde, então, estará a pegadinha?

A pegadinha, se é que se pode chamar assim, é o amadurecimento de um conceito que já estava embutido no projeto Kindle desde o início: o do dono do aparelho como membro de um clube. A “biblioteca” não é exatamente gratuita no fim das contas: só têm acesso a seus (por enquanto) 145 mil títulos – e a benefícios como entrega rápida de livros físicos sem taxa extra e um acervo de 17 mil filmes e programas de TV para baixar em streaming – quem se torna membro do Amazon Prime, uma espécie de clube de elite dos clientes da Amazon.

A taxa paga por um cliente prime é de 79 dólares por ano. Não por acaso, o mesmo preço da versão mais barata do Kindle no mercado americano. Caso alguém ainda não tivesse percebido, isso deixa muito claro que o negócio da Amazon não é vender engenhocas eletrônicas.

A notícia da adesão de Harry Potter ao projeto coincidiu com a palestra com a qual o peruano Pedro Huerta, o homem do Kindle para a América Latina, encerrou ontem em São Paulo o 3º Congresso Internacional do Livro Digital, queixando-se com humor da dificuldade de negociar com os ressabiados editores brasileiros (Raquel Cozer publicou em seu blog na “Folha” um divertido relato da ocasião).

O Brasil pode estar especialmente atrasado na questão do livro digital, tudo bem, mas não é uma aberração: a maior parte da indústria editorial do mundo morre de medo de ser engolida pela Amazon. O impressionante caso do Harry Potter “gratuito” ajuda a entender por quê.

09/05/2012

às 10:51 \ Pelo mundo

As estantes mais criativas do planeta

Divertidas, as listas fotográficas da Flavorwire já são uma tradição no mundo digital – uma prova de que pouca gente resiste a uma sabedoria de almanaque organizada em tópicos. O tema das estantes criativas, por seu lado, já é uma pequena tradição na blogosfera literária – uma prova de que, embora os livros eletrônicos tenham chegado para ficar, os volumes de papel estão longe de perder seu charme. Juntando as duas coisas temos esta galeria de “30 estantes lindas e inovadoras”.

Recomenda-se uma visita à lista completa, mas, como o tempo é curto e os altos e baixos fazem parte do gênero, o Todoprosa separou aqui algumas de suas preferidas.
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07/05/2012

às 15:23 \ Sem categoria

Que cena! A xícara de café de ‘Dom Casmurro’

Lanço hoje uma nova seção no Todoprosa, chamada “Que cena!”. Durante alguns anos, os “Começos inesquecíveis” – posts em que eu apresentava trechos iniciais marcantes de grandes romances, acompanhados de breves comentários que davam pistas sobre o porquê de sua permanência – foram os mais visitados e linkados do blog.

O sucesso, imagino, teve tanto a ver com a qualidade dos começos em si quanto com a sede de informação de um país que, em grande parte, mal começa a aprender a ler. Os “Começos inesquecíveis” passaram a ser tomados por muita gente como indicadores de leitura, com a vantagem de já virem com amostras do estilo de cada autor.

A seção chegou ao fim naturalmente, de puro cansaço. Seria absurdo sugerir que esgotaram-se os bons começos disponíveis na literatura universal. O que passou perto de se esgotar foi a reserva dos começos que marcaram minha memória de leitor – e a ideia sempre foi partir da experiência pessoal, tentar compartilhar um prazer a quente em vez de ensinar uma matéria a frio.

A seção “Que cena!” se baseia numa ideia semelhante: publicar pequenos trechos especialmente marcantes de grandes livros, agora extraídos de qualquer ponto, começo, meio ou fim. Trata-se daquelas cenas magicamente intensas que se recusam a cair no esquecimento e que, por um momento ou uma eternidade, parecem justificar a existência da própria literatura.

Não imagino cena melhor para abrir a seção do que a composta pelos microcapítulos CXXXVI e CXXXVII (ou seja, 136 e 137) do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, intitulados A xícara de café e Segundo impulso. Poderoso coquetel de melodrama e violência, o trecho começa com o doutor Bento Santiago no auge daquele surto de paranoia e autocomiseração lá dele, recém-convencido de que seu filho, o pequeno Ezequiel, é fruto do caso adúltero de Capitu com seu melhor amigo, Escobar, a essa altura já falecido. Está sofrendo tanto que anuncia a intenção de se matar, o que não lhe atenua o cômico pedantismo classicista que, sob pressão, logo derrete para revelar o sujeito escondido ali embaixo – um covarde abjeto.

O crítico inglês John Gledson, estudioso de Machado, já escreveu longamente e com espanto sobre a incompreensão em que, por décadas a fio, a crítica literária brasileira chafurdou diante de “Dom Casmurro”, simpatizando com Bento Santiago e tomando sua narrativa de marido traído pelo valor de face. Em nenhum momento desse sutil romance, a meu ver, ficam mais escancaradas do que neste trecho a cegueira daqueles críticos e as intenções do escritor por trás do narrador. Se Capitu traiu ou não traiu pode ser mesmo indeterminável, uma ventoinha condenada a girar para sempre no coração do livro. Mas Machado não deixa dúvida de que, se traição houve, o corno a mereceu.

O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la. Até lá, não tendo esquecido de todo a minha história romana, lembrou-me que Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha Platão comigo; mas um tomo truncado de Plutarco, em que era narrada a vida do célebre romano, bastou-me a ocupar aquele pouco tempo, e, para em tudo imitá-lo, estirei-me no canapé. Nem era só imitá-lo nisso; tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele, assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo, para intrepidamente morrer. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. Há muita gente que se mata sem ele, e nobremente expira; mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias, se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. Entretanto, querendo fugir a qualquer suspeita de imitação, lembra-me bem que, para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco, nem ser dada a notícia nas gazetas com a da cor das calças que eu então vestia, assentei de pô-lo novamente no seu lugar, antes de beber o veneno.

O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a mesa onde ficara a xícara. Já a casa estava em rumores; era tempo de acabar comigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara, e comecei a mexer o café, os olhos vagos, a memória em Desdêmona inocente; o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando; lá estava ele, com a mão nas costas da cadeira, a olhar ao longe…

“Acabemos com isto”, pensei.

Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr a mim bradando:

– Papai! Papai!

Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido, mas crê que foi belo e trágico. Efetivamente, a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos pés, como querendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia, puxando-me:

– Papai! Papai!

*

Se eu não olhasse para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas vá lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café.

– Já, papai; vou à missa com mamãe.

– Toma outra xícara, meia xícara só.

– E papai?

– Eu mando vir mais; anda, bebe!

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a entornei, mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio… Mas não sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino.

– Papai! Papai! – exclamava Ezequiel.

– Não, não, eu não sou teu pai!

04/05/2012

às 9:14 \ Pelo mundo

Um belo pôster, um enxame de autores e outros links

O pôster ao lado (“Estes são seus filhos. Estes são seus filhos com livros”) é uma criação do grupo americano de incentivo à leitura Burning Through Pages. Uma beleza, não? Via Galleycat.

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O romance é escrito frase por frase. Para cada uma delas, qualquer pessoa pode inscrever uma concorrente (até 140 toques). Usuários como você votam então em cada uma das frases inscritas, dando-lhes cotações de +1 ou -1. A que tiver a maior nota torna-se então uma frase do romance, pelo menos até que outra inscrita obtenha uma contagem maior.

Clique aqui para ler mais sobre a ideia, e aqui para conferir a execução.

Ah, sei. Mas já que estamos interativos, proponho outra votação.

Você acha que a “experiência” descrita acima – uma ideia recém-lançada pelo escritor americano Willy Chyr, de Chicago, e já entrando em sua terceira página – vai resultar em:

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Parece ser parte do espírito do tempo a aposta no coletivismo. Mesmo quando os autores são indivíduos: será que “coletivos” e cooperativas de escritores estão escritos no futuro da autopublicação? Alison Flood, do blog de livros do “Guardian”, acredita que sim (em inglês).

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O escritor londrino Will Self fez dia desses uma curiosa e enfática defesa das “palavras difíceis”, comparando o gosto de nosso tempo pela facilidade textual com os playgrounds emborrachados das crianças. Vale confrontar com a crônica que publiquei no último domingo no Sobre Palavras, uma condenação do pernosticismo intitulada “Como ser desonesto com as palavras”. Os textos parecem inconciliáveis, mas não creio que sejam. Também acho que a dificuldade vocabular pode ser boa e honesta. O problema é que raramente é.


 

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