Blogs e Colunistas

28/02/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! A megera indomada de Pedro Nava

madeleine-em-minasEm 1972, às vésperas de completar 70 anos, o ilustre médico mineiro Pedro Nava, radicado no Rio de Janeiro, publicou “Baú de ossos”, o primeiro volume de suas memórias. O livro vinha com um prefácio luxuoso do amigo Carlos Drummond de Andrade, que o declarava “digno de figurar entre o que de melhor produziu a memorialística em língua portuguesa”.

As palavras do poeta não faziam favor algum ao trabalho de Nava, que encontrou sucesso instantâneo. Até sua morte, por suicídio, em 1984, ele teve tempo de concluir e lançar outros cinco títulos na mesma veia: “Balão cativo”, “Chão de ferro”, “Beira-mar”, “Galo das trevas” e “O círio perfeito” – o sétimo da série, “Cera das almas”, ficou incompleto. (Desde 2012, a Companhia das Letras vem repondo a obra em circulação, e já relançou os cinco primeiros volumes em edições caprichadas.)

A inesquecível cena abaixo, de “Baú de ossos”, resume bem as qualidades – de prosador fino, de contador de histórias, de evocador de marcas temporais e de aquarelista de atmosferas – que fazem Nava ser considerado pela maior parte da crítica o grande memorialista da literatura brasileira. É a primeira vez que um não-ficcionista vem parar na seção Que cena!. Acho que a exceção foi aberta para o escritor certo.

Já que se tratou de d. Irifila, vamos logo a ela para que seu vulto ominoso se me espanque da lembrança. Era casada, como já se viu, com o comendador Iclirérico Narbal Pamplona, dos irmãos mais velhos de minha avó paterna, pois nascera no Aracati a 14 de outubro de 1830. Ninguém compreendia o seu casamento. Ele era alto, desempenado, elegante, cheio de calma e distinção. Sua mulher era baixota, atarracada, horrenda, permanentemente irritada – de alma amarga e boca desagradável. Diante dos magros seu assunto era magreza. Dos gordos, as banhas. Gostava de tratar de corda em casa de enforcado e ninguém como elas remexia o ferro dentro de ferida latejando. A d. Eugênia Ennes de Souza, que a abominava, só a chamava de Irifila-Cão de Fila. Essa Irifila – que tinha títulos para figurar entre as megeras da família de minha avó materna – era uma presença aberrante na de minha avó paterna, onde as mulheres eram doces, laboriosas, submissas, modestas, de lágrima fácil, prontas a calar e de bondade imensa. Diante dessas antonímias, a Irifila abusava. Trazia a sogra, as cunhadas, os cunhados, as filhas, os filhos e os sobrinhos no mesmo cortado em que tinha o marido. Era inimiga de tudo que favorece a fantasia e torna a vida suportável. Era contra os namoros, contra o riso, contra as festas, contra as cantigas, contra as danças, contra o álcool, contra o fumo, contra o jogo. Não gostava de receber e, quando era constrangida a isto, fazia-o com ostentação e grosseria. Na sua casa do Rio de Janeiro (que ficava à rua Farani, em Botafogo), no meio das sedas dos seus reposteiros, dos seus tapetes, dos seus espelhos, dos seus jacarandás, dos seus brocados, das suas porcelanas e dos seus lampiões Carcel – suas palavras batiam duras como calhaus, diretas como tiros, incisivas como machadadas. Mas com isso tudo não gritava e nem se arrebatava. Advertia uma, duas, três vezes e, se não obedecida, passava violentamente à ação. O marido, comendador e abastado, gostava das coisas que ela detestava: conversa de amigos, degustação de bom Porto e bons charutos, sua rodinha de jogo. E reunia os parceiros uma vez por semana para o voltarete e para a manilha. Terminadas as partidas, vinham as negras – duas para cada bandeja de prata – com o chá, o chocolate, as garrafas do vinho, a frasqueira dos licores, o pinhão de coco, as mães-bentas, os cartuchos, as fofas, as siricaias, os tarecos e tudo quanto é bolo de doçura luso-brasileira. Bolo ilhéu, bolo da imperatriz, bolos de raiva, esquecidos, brincadeiras, doce do padre, toucinho do céu. Os amigos saíam encantados e o obsequioso comendador ia para o toro deleitado. Até que a Irifila virou o fio e um dia fez-lhe a primeira advertência: “Lequinho, não estou mais gostando desse jogo…”. E na outra semana: “Lequinho, você precisa pôr um ponto final nesses baralhos…”. Na terceira: “Iclirérico, eu não quero mais jogatina na minha casa!”. Mas o desavisado comendador insistiu e arrumou um grande encontro, justamente para obsequiar seu compadre (padrinho de seu filho Afonso Celso) – o terrível visconde de Ouro Preto. D. Irifila sorriu-se toda quando foi avisada e aninhou-se no enredo da tocaia. À hora da ceia, requintou-se. Nunca suas bandejas, seus bules e seus açucareiros de prata tinham tido tal polimento. Nunca tirara tanta toalha de renda das arcas e das cômodas perfumadas a capim-cheiroso. Nunca seus guardanapos de linho tinham recebido tanta goma. E que fartura. Chá, chocolate, moscatéis, Madeiras, Portos. Os licores de França, da Hungria e os nacionais de pequi, tamarindo e jenipapo. E a abundância dos doces e dos sequilhos: língua de moça, marquinhas, veranistas, patinhas, creme virgem e tudo quanto é biscoito. Biscoito à Cosme, espremidos, de queijo, de nata, de fubá, de polvilho, de araruta. E no meio da maior bandeja, a mais alta compoteira com o doce do dia – aparecendo todo escuro e lustroso, através das facetas do cristal grosso, de um pardo saboroso como o da banana mole, da pasta de caju, do colchão de passas com ameixas-pretas, do cascão de goiaba com rapadura. O comendador resplandecente destampou a compoteira: estava cheia, até as bordas, de merda viva! Nunca ninguém, jamais, ousara coisa igual. Nem a mulher do dr. Torres Homem. O próprio visconde, vaqueano das escaramuças com sua resoluta d. Paulita, em que ora ele, ora ela, puxavam a toalha da mesa, despedaçando louças e cristais e derramando jantares e almoços, o próprio visconde nunca vira nada de parecido. Ele, que enfrentara de guarda-chuva as durindanas de Deodoro e Floriano, ficou de bico calado e só pôde estender os braços para receber o compadre chorando convulsivamente, tremendo da cabeça aos pés, lívido da dor esquisita que lhe atravessava o peito, o estômago e banhado dum suor de agonia… Nunca mais sua casa recebeu ninguém até o dia 29 de outubro de 1896 – data em que suas portas se abriram para os amigos que lhe vinham velar o corpo, enquanto lá dentro, cercada das filhas e dos parentes, a Irifila uivava à morte…

21/02/2015

às 9:00 \ Vida literária

Conselhos literários, conselhos de vida: dois decálogos

Richard_Ford_at_Göteborg_Book_Fair_2013_01Esbarrei dia desses numa lista de dez conselhos – aqui, em espanhol – do romancista americano Richard Ford (foto) a jovens escritores e fiquei matutando sobre esse subgênero das dicas sobre o fazer literário, que sempre mereceu atenção do Todoprosa em seus quase nove anos de história.

Embora sejam discutíveis em princípio, claro, simplesmente por serem conselhos, os de Ford têm lá sua graça. O que neles mais chamou minha atenção foi o fato de serem, em sua maioria, toques de vida, de comportamento, de postura diante do trabalho – e não de técnica, estilo, relação com as palavras, condução do ritmo narrativo ou composição dos personagens. Acredito que isso os faça mais úteis.

“Case-se com alguém que ame e que ache uma boa ideia você ser escritor”, recomenda Ford já na abertura do decálogo. E mais à frente: “Não discuta com sua mulher”; “Não deseje mal a seus colegas”; “Tente pensar no sucesso dos outros como um estímulo para você”. O que pode parecer uma cartilha de bom-mocismo entra também por terreno íntimo e polêmico: “Não tenha filhos”. Puxa, será que um escritor com filhos deve desistir da carreira? Eu tenho dois.

É claro que ninguém deve tomar ao pé da letra as dicas de Ford ou de qualquer outro. Sim, é possível ter uma prole extensa e escrever, viver às turras com o cônjuge e escrever, roer o pé da escrivaninha quando um colega faz sucesso e escrever. Não fosse assim, a maior parte da literatura universal não existiria.

No entanto, os toques do escritor americano apontam para problemas que são comuns a quem escreve e que precisam ser equacionados de alguma forma. Como dedicar o máximo de tempo e energia ao ofício? Como não deixar que a simples necessidade de subsistência engolfe tudo? Como manter a concentração? Como impedir que o ressentimento, o insidioso ressentimento, o corroa por dentro até não sobrar nada?

Se os toques pessoais nunca terão valor universal, é um argumento facilmente defensável o de que, sendo a liberdade artística o próprio ar que o escritor respira, diretrizes técnicas podem cruzar quando menos se espera a fronteira que separa o ensinamento do cerceamento.

“Evite as frases longas e o vocabulário rebuscado”, dirá, por exemplo, algum veterano sensato e cheio de boas intenções. Cheio também, convenhamos, de razão. Como ele poderia imaginar que estará matando no berço um genial neobarroco futurista?

Não à toa, um sério candidato a melhor toque literário de todos os tempos é aquele brincalhão de Somerset Maugham: “Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente, ninguém sabe quais são elas”.

Preparei abaixo uma seleção de dez conselhos literários do tipo “de vida” – mais do que “de literatura” – que me parecem ter valor. Um punhado deles me foi útil em algum momento da carreira. Nenhum mais do que o primeiro da lista, que pouco tempo atrás mantive por mais de um ano ao alcance dos olhos, impresso em corpo 36 e colado na parede ao lado do monitor, enquanto tentava chegar ao fim de um projeto enrolado que tinha começado dezoito anos antes, chamado “O drible”.

*

1. “Termine o que está escrevendo. O que quer que tenha que fazer para terminar, termine.” (Neil Gaiman)

2. “Planejar escrever não é escrever. Traçar o projeto de um livro não é escrever. Pesquisar não é escrever. Falar com as pessoas sobre o que você está fazendo, nada disso é escrever. Escrever é escrever.” (E.L. Doctorow)

3. “Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos.” (Marguerite Duras)

4. “Um escritor nunca tira férias. Para ele, a vida consiste ora em escrever, ora em pensar no que vai escrever.” (Eugene Ionesco)

5. “A melhor hora de planejar um livro é enquanto se lava a louça.” (Agatha Christie)

6. “Evite panelinhas, grupos, gangues. A presença de uma turma não tornará seu texto melhor do que ele é.” (Zadie Smith)

7. “Não romantize sua ‘vocação’. Não existe nada parecido com uma ‘vida de escritor’. A única coisa importante é o que você deixa na página.” (Zadie Smith)

8. “Se você sabe mesmo escrever, não precisa usar roupas engraçadas.” (James Dickey)

9. “Mantenha-se humano! Veja pessoas, vá a lugares, beba, se sentir vontade.” (Henry Miller)

10. “A literatura está apinhada de destroços de gente que se importou além do razoável com a opinião dos outros.” (Virginia Woolf)

14/02/2015

às 9:00 \ Antologia

Fechando o desfile: mais cinco histórias de carnaval

Desfile do Simpatia É Quase Amor, semana passada, no Rio (Daniel Ramalho/VEJA.com)

Desfile do Simpatia É Quase Amor, semana passada, no Rio (Daniel Ramalho/VEJA.com)

Sábado passado publiquei aqui a Antologia online de carnaval: edição revista e ampliada, com oito contos brasileiros de tema carnavalesco. Nunca tive a pretensão de esgotar o assunto com aquelas sugestões de leitura, evidentemente. Mesmo assim, a resposta de leitores e amigos, tanto na caixa de comentários quanto em contatos pessoais, me convenceu de que o desfile não ficaria completo sem uma última ala.

Os cinco contos abaixo abrangem um arco histórico ainda mais amplo, de Machado de Assis a um recentíssimo Sérgio Sant’Anna, e por isso vão organizados em ordem cronológica. É curioso observar como, no geral, eles desenham um quadro carnavalesco bem menos sinistro, mais chegado à alegria, do que o conjunto de histórias da semana passada.

Um dia de entrudo não está entre os melhores contos do autor, mas Machado é Machado e desfilaria até de casaca e pincenê. Lima Barreto comparece com um conto leve e divertido, parente da crônica, o que o aproxima da história agridoce de Luis Fernando Verissimo.

Rubem Fonseca, que havia perdido a vaga na última antologia por ter tido seu conto Fevereiro ou março retirado da internet, volta à avenida com uma história do início de sua carreira. E Sérgio Sant’Anna, com o conto que dá título a seu livro mais recente, “O homem-mulher”, cumpre a saudável missão de nos lembrar, depois de tantas histórias em que a excitação sexual dos foliões bate na trave, que às vezes é fundamental entrar com bola e tudo.
.

1. Machado de Assis:

“Era no tempo em que ao carnaval se chamava entrudo, o tempo em que em vez das máscaras brilhavam os limões de cheiro, as caçarolas dágua, os banhos, e várias graças que foram substituídas por outras, não sei se melhores se piores. Dois dias antes de chegar o entrudo já a família de D. Angélica Sanches estava entregue aos profundos trabalhos de fabricar limões de cheiro. Era de ver como as moças, as mucamas, os rapazes e os moleques, sentados à volta de uma grande mesa compunham as laranjas e limões que deviam no domingo próximo molhar o paciente transeunte ou confiado amigo da casa.” Um dia de entrudo.

2. Lima Barreto:

“Conhecia aquela zona e, a fim de poupar níqueis, desprezei o bonde e fui a pé. Passava eu por uma rua tranversal à Imperial, quando fui abordado por três ou quatro tipos fardados, do mais curioso aspecto. Eram de diversas cores, formando uma escolta, cujo comandante, um cabo, era um preto. E que preto engraçado! Desengonçado, pernas compridas e arqueadas, pés espalhados – era mesmo um macaco. A farda, blusa e calça, estava toda pingada; o cinturão subira-lhe até quase ao peito…” O meu carnaval.

3. Rubem Fonseca:

“Saímos do baile e, como era verão, o sol iluminava todo mundo. Todos estavam feios, suados, sujos. Aparecia em certas caras a burla do lábio fino engrossado pelo batom; peitos postiços saíam da posição; sapatos altos quebravam o salto e algumas mulheres viravam anãs de repente; sovacos fediam; dedos dos pés e calcanhares surgiam calosos e imundos. Só a minha amiga continuava bonita e fresca, como se fosse uma rosa. E de máscara.” Teoria do consumo conspícuo.

4. Luis Fernando Verissimo:

“Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi “pelo menos o meu tirolês era autêntico” e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão.” Conto de verão no 2: Bandeira branca.

5. Sérgio Sant’Anna:

“Ofegavam, e a garota, safadinha, pegou a mão direita dele e encostou no seio esquerdo dela. “Olha como o meu coração está batendo.” Adamastor aproveitou a deixa e abriu dois botões na blusa da fantasia dela, afastou o sutiã e lançou ali um jato de éter. Ela se contraiu toda e disse: “Que geladinho”, mas ele já estava aspirando entre os seios de Dalva e depois chupou um dos mamilos dela. Com o éter, Adamastor sentiu um zunido nos ouvidos, e o mundo era aquela alucinação cheia de túmulos, estátuas e cruzes, tudo muito nítido e com sombras, porque era noite de lua cheia, e aquela garota vivinha da silva.” O homem-mulher.

07/02/2015

às 9:00 \ Antologia

Antologia online de carnaval: edição revista e ampliada

Bloco carioca Suvaco de Cristo (Ricardo Moraes/Reuters)

O casamento de literatura e carnaval dá samba? Se dá! Dos oito contos listados abaixo – todos disponíveis para leitura imediata na rede, sem a necessidade de baixar arquivos –, acredito que pelo menos a maioria tenha presença obrigatória em qualquer antologia que se organize sobre o tema.

Esta coleção é a versão revista e aprimorada de uma lista que publiquei aqui no blog no carnaval de 2011. Naquele ano, lamentei que não pudese incluir no pacote, por não estarem disponíveis online, a espetacular crônica Batalha no Largo do Machado, de Rubem Braga, com sua prosa-batucada, e o conto Caprichosos da Tijuca, de Marques Rebelo.

Ocorre que a internet tem dessas maravilhas: a leitora Regina Braga leu aquilo, não se conformou com tais lacunas e, seguindo a minha dica, apressou-se a publicar os dois textos faltantes em seu blog.

Outro acréscimo bem-vindo é o sensível conto Folia, de Marcelo Moutinho, o escritor carioca contemporâneo mais ligado ao tema. Em compensação, o trecho de Fevereiro ou março, de Rubem Fonseca, que na época estava ao alcance de um clique, saiu do ar. O que, se é sem dúvida um desfalque importante, não deixa de tornar a antologia mais coesa: todos os contos abaixo podem ser lidos na íntegra.

Num universo festivo em que, não por acaso, predominam os tons escuros que estão no avesso da euforia – do trágico ao melancólico –, meu conto de carnaval preferido continua sendo o tétrico O bebê de tarlatana rosa, de João do Rio. Mas o páreo é duro.

É interessante observar como alguns textos, mesmo conservando sua força, mostram sinais de envelhecimento: certas escolhas vocabulares, sobretudo de Rubem Braga e Aníbal Machado, podem soar francamente racistas a ouvidos contemporâneos. Recomendo lê-los com atenção ao contexto cultural de sua época.

Por fim, repito o que escrevi há quatro anos, pedindo desculpas ao leitor pelo atrevimento de escalar uma história de minha autoria em tão ilustre comissão de frente: caramba, é carnaval. Não há quem se fantasie de Napoleão?

.

1. João do Rio:

“Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no Carnaval.”

O bebê de tarlatana rosa, incluído em “Os cem melhores contos brasileiros do século” (Objetiva).

2. Rubem Braga:

“A cuíca ronca, ronca, estomacal, horrível, é um ronco que é um soluço, e eu também soluço e canto, e vós também fortemente cantais bem desentoados com este mundo. A cuíca ronca no fundo da massa escura, dos agarramentos suados, do batuque pesadão, do bodum.”

Batalha no Largo do Machado, do livro “200 crônicas escolhidas” (Record).

3. Clarice Lispector:

“Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga (…) resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.”

Restos do carnaval, de “Felicidade clandestina” (Rocco).

4. Marques Rebelo:

“Ele, com rústica delicadeza, lamentou me incomodar e se apresentou como membro da comissão angariadora de auxílios para o carnaval dos Caprichosos da Tijuca.”

Caprichosos da Tijuca, do livro “Contos reunidos” (Nova Fronteira).

5. Aníbal Machado:

“Tudo acabado, tudo tristeza, caramba!… Cabrochas que fogem, leitos vazios, desgraças. Nunca viu tanta dor de corno. Não nasceu para isso, não tem vocação para sofrer. Os sambas o incomodam. Por que não está dançando como os outros?”

A morte da porta-estandarte, do livro de mesmo nome (José Olympio).

6. Lygia Fagundes Telles:

“A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordanada. Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela na cola. Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos movimentos circulares.”

Antes do baile verde, do livro de mesmo nome (Companhia das Letras).

7. Marcelo Moutinho:

“No palco, a bandeira da escola se desloca nos meneios delicados das mãos da menina. A face pequenina, espremida entre o chapéu e a fantasia, aquele minúsculo ponto marrom tão familiar, movimenta-se de um lado a outro, no contrabalanço do corpo – como é possível agüentar tanto peso, Áurea?”

Folia, do livro “A palavra ausente” (Rocco).

8. Sérgio Rodrigues:

“Não lembro de ter entrado no Cadillac que o pierrô de porre parou do meu lado, me deu um branco mas eu sabia que, tendo entrado ou não, a verdade era que eu estava dentro dele agora, sentada no banco do carona com a cabeça girando e a mão do pierrô no meu joelho enquanto a estradinha cheia de curvas passava por nós, o mar rugindo lá embaixo, reconheci a Niemeyer.”

A máscara, inédito em livro.

31/01/2015

às 9:00 \ Resenha

‘Remissão da pena’: Modiano e o silêncio da história

A memória é a matéria-prima do escritor francês Patrick Modiano, agraciado em outubro do ano passado com o prêmio Nobel de literatura. Isso pode sugerir um parentesco com Marcel Proust, o maior nome da literatura de seu país no século XX, autor dos sete volumes do caudaloso “Em busca do tempo perdido”. Mas é enganosa a semelhança.

Enquanto Proust se dedica à recriação da vida mundana nos círculos aristocráticos franceses da virada do século em prosa suntuosa, inchada de minúcias psicológicas e sensoriais que esticam suas frases para além do fôlego convencional da leitura, Modiano faz tudo ao contrário.

Em seus livros sempre magros, estranhamente inconclusivos, é em tom menor e prosa singela, às vezes tateante, que o escritor nascido em 1945 busca reconstruir a vida na capital francesa sob domínio nazista e no pós-guerra de sua infância, um tempo de vidas fraturadas, identidades fugidias e segredos tenebrosos.

Onde Proust oferece um banquete, inventando um triunfo literário sobre o poder corrosivo do tempo, o autor de “Remissão da pena” (Record, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto, 128 páginas, RS 29,00) serve pratos frugais, ainda que cheios de sabores inusitados, incorporando ao leque temático de uma obra marcada pela melancolia o fracasso inevitável da tarefa que se impõe.

“Remissão da pena” é o primeiro romance de Modiano lançado pela editora Record, que tem outros dois livros, “Flores da ruína” e “Primavera de cão”, agendados para os próximos meses. Vem se somar aos três importantes títulos que, publicados com discrição anos atrás e então fora de catálogo, a Rocco reeditou após a notícia do prêmio e conseguiu pôr nas livrarias ainda em dezembro passado: “Dora Bruder”, “Ronda da noite” e “Uma rua de Roma”.

Toda essa movimentação editorial é bem-vinda. Pouco conhecido no Brasil antes de ser consagrado pela Academia Sueca, Modiano tem ainda ao alcance do leitor nacional um volume infantojuvenil, “Filomena Firmeza”, publicado pela Cosac Naify em agosto de 2014.

O livro que chega agora às prateleiras saiu na França em 1988 e trata de forma romanceada, em primeira pessoa, de um curto período na vida do autor, quando ele tinha dez anos e, na companhia do irmão mais novo, foi deixado pelos pais sempre ausentes – uma atriz belga em constantes turnês e um comerciante judeu especializado em negócios escusos – aos cuidados de três amigas da família num vilarejo nas cercanias de Paris.

Enquanto espera em vão que os pais venham buscá-lo, o menino se dedica a descrever uma rotina provinciana e aparentemente banal de vicissitudes escolares e incursões clandestinas a um castelo abandonado da vizinhança. É aos poucos e de forma sutil que o intenso vaivém de visitantes na casa de suas anfitriãs, às vezes em horas mortas da noite, constrói uma atmosfera de desgraça iminente da qual o narrador não parece se dar conta.

Quem são aquelas mulheres? Sabemos que Hélène, ex-artista de circo, “tinha sido amazona e depois acrobata, o que lhe conferia prestígio” aos olhos dos dois irmãos. Annie, a mais jovem e maternal, “ia quase todos os dias a Paris, em seu Renault 4cv bege”. Mathilde, mãe de Annie, é apresentada como pouco mais que uma megera clássica. Quanto aos visitantes habituais, conhecemos os nomes de alguns deles – Jean D., Roger Vincent, Andrée K. – sem compreender melhor que o próprio narrador o que fazem da vida e a natureza precisa de suas relações com as moradoras da casa.

Naturalmente envolto em bruma, e mais turvo ainda por ser filtrado pelos olhos de uma criança, o passado instiga a curiosidade do leitor na mesma medida em que a frustra. Restam pistas escassas, vestígios de sentido numa paisagem humana desolada, e o efeito final de abandono e solidão que fica reverberando na cabeça do leitor é mais poderoso por isso.

Modiano foge tanto da grandiloquência quanto do impulso de violentar a memória com a ficção. Elevadas à condição de uma marcante assinatura autoral, as lacunas que deixa tanto na composição dos personagens quanto na trama de suas histórias funcionam ao mesmo tempo como rendição e, paradoxalmente, resistência ao poder do esquecimento. O silêncio que reconhece a insuficiência da memória como reconstrutora do tempo perdido é o mesmo que, povoando-se de sugestões, evoca poeticamente o passado.

No devastador “Dora Bruder”, romance ensaístico sobre a história real de uma jovem judia na Paris ocupada, deflagrado por uma nota de desaparecimento encontrada por acaso num velho exemplar do jornal Paris Soir, a investigação promovida pelo autor luta contra arquivos destruídos pela polícia e os escombros de bairros judeus demolidos após a guerra pelas autoridades parisienses. Se o esquecimento, forçado ou espontâneo, é invencível, resta à literatura a atitude profundamente moral de nomeá-lo, apontando os espaços em branco onde deveria haver história. O Nobel foi parar em boas mãos.

*

Resenha publicada na edição de VEJA que está nas bancas.

24/01/2015

às 9:00 \ Antologia, Vale a pena ler de novo

Merchandising literário, uma modesta proposta

livro com dinheiro– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Mas só comecei a acertar mesmo quando troquei o velho trabuco por esta Taurus aqui, arma de grande maravilha. O senhor espie. Hem? Hem?

*

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Nada que a agência de detetives Labanca & Irmãos não resolva em uma semana, com resultados comprovados e sigilo garantido.

*

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar.

O doutor que a atendeu
Não tardou a receitar
Óc’los da Ótica Fiel
Pra vista dupla acabar.

*

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo…
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! que chás espetaculares!

*

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Se os tivesse, não hesitaria em escolher o conforto e a segurança da Maternidade Nossa Senhora do Bom Parto, que tem convênio com todos os planos de saúde.

*

Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
melhor que Tramontina.

*

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Mas um dia hei de ir – nas asas da Air France, ça va sans dire!

*

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Ao pé deles, degustariam com delícia sua cota de Maxi Goiabinha.

*

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja de Zippo enquanto dure.

17/01/2015

às 9:00 \ Vale a pena ler de novo, Vida literária

1975: o ano em que a literatura explodiu

Nada a ver com saudosismo. Eu mal entrava na adolescência, e os livros que lia na época eram bem diferentes dos que vou citar aqui. Apenas aconteceu que, intrigado por uma coincidência flagrada casualmente, comecei a puxar um fio na estante e acabei com uma pilha de evidências de que a safra de 1975 foi gloriosa para a literatura brasileira – a última de nossas safras gloriosas, como se depois disso a terra tivesse secado, tornando as colheitas mais espaçadas.

Antes de tentar explicar a generosidade literária daquele tempo – e a relativa sovinice dos anos seguintes –, convém justificar a tese. Para tanto basta dizer que 75 trouxe à luz, de uma só vez, duas obras-primas espantosas e cabais: “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, e “Lavoura arcaica”, de Raduan Nassar (eis a coincidência em que reparei por acaso). Só isso já seria histórico. Tem mais.

De saída, que tal juntar à pilha o “Zero” de Ignácio de Loyola Brandão? A qualidade é desigual, eu sei. Talvez o confuso “Zero” nem faça muito sentido lido fora da moldura de um regime autoritário, mas, censurado, converteu-se em livro-símbolo de um tempo. Ou seja: entre méritos literários e históricos, entre texto e contexto, temos um trio de marcar época. Aqui um mais rumoroso, ali um mais perene – de ambos os tipos se faz uma literatura.

Completam o quadro um punhado de livros recebidos com menos fanfarra, mas que, tomados em conjunto, valem por um atestado impressionante de vigor (na dúvida, é só comparar com as listas de finalistas do Jabuti nas últimas décadas): Caio Fernando Abreu lançou “O ovo apunhalado”, Sérgio Sant’Anna publicou “Confissões de Ralfo”, Roberto Drummond estreou com “A morte de D.J. em Paris”, Dalton Trevisan reafirmou sua maestria com “A faca no coração”. Todos de 1975.

(Aliás, encontro num prefácio de Caio à terceira edição revista de “O ovo…” a prova de que a exuberância daquele ano não passou despercebida na época: “Ele [o livro] foi publicado em 1975, ano marco daquela coisa confusa, gostosa e passageira que batizaram como boom da literatura brasileira”, escreve o autor de “Morangos mofados”, com cacófato e tudo. )

É coisa à beça, mas afrouxando um pouquinho os limites cronológicos ainda se pode acrescentar à safra três livros marcantes terminados em 1975, embora só fossem chegar ao público no ano seguinte: “Reflexos do baile”, de Antônio Callado, “Essa terra”, de Antônio Torres, e “A festa”, de Ivan Ângelo.

Antes que denunciem a trapaça de jogar 1976 no pacote, pergunto: por que os parâmetros deveriam ser intocáveis se o próprio critério cronológico é enganoso? “Zero”, por exemplo, foi concluído em 1969, e o fato de só ter sido publicado em 75 tem mais a ver com política do que com literatura: nenhuma editora quis comprar a briga enquanto a ditadura atravessava seu período mais truculento. Finalmente, a pequena Brasília/Rio topou a parada – apenas para ver o livro ser proibido pela censura no ano seguinte. Destino semelhante teve “Feliz ano novo”. O brilhante – e injustamente esquecido – “A festa” também tem uma história marcada pelo autoritarismo: Ivan Ângelo começou a escrevê-lo em 1963 e parou no ano seguinte, quando veio o golpe militar, de puro bode. Só em 74 se animou a retomá-lo.

O papel da política nessa história é marcante, e não só porque a ditadura decidia o que podia ser lido – e visto, e ouvido – no Brasil. O próprio clima de liberticídio dava um tom de urgência e combate a boa parte dos livros daquela safra. Alguns deles, como “Reflexos do baile” e “A festa”, tematizam diretamente o período. Só não vale concluir que 1975 é a prova de que a ditadura fazia bem à literatura brasileira, por lhe dar um inimigo contra o qual lutar ou qualquer coisa assim. O mesmo já foi dito da MPB. É um raciocínio torto.

Torto e autossabotador: se o país precisasse de um ditador de plantão para ter boa literatura, seria melhor nos contentarmos com Paulo Coelho. Prefiro pensar na safra de 75 como um mistério, um feliz ponto de convergência – e um desafio. Qualquer dia vamos ter outra dessas.

*

Publiquei o artigo acima neste blog no assustadoramente distante ano de 2006 (!) – o ano em que o Todoprosa estreou em sua primeira casa, a revista eletrônica “NoMínimo”. Quem quiser acompanhar a animada discussão que o texto provocou na época entre os leitores, muitos deles trazendo novos nomes e títulos para jogar no caldeirão, pode clicar aqui. Graças àquela conversa, a tese de 1975 como uma espécie de ano mágico para a literatura brasileira ganhou pelo menos um reforço de peso, que nem havia entrado no radar do artigo por ser uma obra de poesia, mas que mesmo assim merece menção por ser uma obra-prima: “Poema sujo”, de Ferreira Gullar.

No entanto, o que para mim tornou mais interessante a releitura do texto, nove anos depois, não foi qualquer novidade no modo de encarar a produção setentista e sim a ligeira mas indiscutível melhora ocorrida na atmosfera dominante na ponta de cá, a da contemporaneidade. Quem acompanha a atual literatura brasileira sem os antolhos da má vontade ou da marquetagem apocalíptica saberá reconhecer que, se não se pode dizer que vivamos um novo boom, o número de livros importantes surgidos desde 2006 na ficção nacional faz parecer tímido demais o otimismo tateante expresso no fim do meu artigo.

10/01/2015

às 9:00 \ Vida literária

A lição de Ishiguro: quanto menos vida real, melhor

kazuo ishiguroEntre os temas sobre os quais os escritores são chamados a responder com frequência, o da “rotina de trabalho” deve estar no topo da lista ou bem perto dele. São muitas as perguntas que cabem nessa categoria. Você escreve todos os dias? Tem uma meta de produção? Um número fixo de horas? Manhã, tarde ou noite? Observa algum ritual, alguma superstição? Desconecta-se da internet para escrever? Desliga o celular?

Sim, o interesse por tal tipo de informação sobre os bastidores da escrita é em grande parte fetichista, uma forma de atribuir à criação literária uma aura mágica (“Como você consegue?”), recusando a ideia de que escrever é nada mais que um trabalho – com suas peculiaridades, claro, mas um trabalho. Como ocorre em todo ofício, cada trabalhador deve encontrar os métodos e rotinas que mais lhe convenham.

O risco do fetichismo é levar os incautos a se fixar no acessório e descuidar do principal. Dizem que Ernest Hemingway gostava de descascar um certo número de laranjas antes de começar a escrever, mas pode-se afirmar com absoluta certeza que nenhuma atividade envolvendo frutas cítricas jamais levou ninguém a desenvolver um estilo tão cortante e conciso quanto o do autor de “Por quem os sinos dobram”. Descascar lápis e mais lápis, apontando-os para escrever e reescrever até os dedos doerem, sim.

Em 2013, comentei aqui no blog um divertido texto em que a escritora inglesa Zadie Smith contava ter recebido de uma amiga, em seus tempos de aspirante, a informação de que Ian McEwan limitava sua produção diária a escassas quinze palavras. Era uma informação falsa, claro, mas Zadie ficou muito impressionada com aquilo. O limite absurdo a angustiou por anos a fio.

Nada disso quer dizer que não haja informações aproveitáveis nos bastidores da criação literária. O blog da Companhia das Letras publicou esta semana um texto fascinante do escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro (foto acima), chamado “Como escrevi ‘Os resíduos do dia’ em quatro semanas”, que recomendo a todos. Não se trata de receita: além de não haver dois escritores iguais, não há dois livros iguais do mesmo escritor, o que complica o jogo ao infinito. Mas o artigo tocou numa corda que para mim soou profundamente verdadeira.

Com o apoio de sua mulher, Ishiguro decidiu levar adiante o plano ousado de, por quatro semanas, isolar-se de tudo – telefone, correspondência, contato com amigos, afazeres domésticos – e escrever todos os dias, de segunda a sábado, das 9h às 22h30, parando uma hora para o almoço e duas para o jantar. A ideia era atingir “um estado mental em que o meu mundo fictício seria mais real para mim do que o real de fato”. Deu certo.

Reconheci imediatamente esse estado mental estranho como algo que experimentei nos momentos mais ricos da minha própria experiência de escrita: as semanas de férias que passei sozinho numa casa na serra fluminense, sem trocar uma palavra com ninguém, quando escrevi “As sementes de Flowerville” e, mais tarde, “Elza, a garota”; e sobretudo os quinze dias de solidão numa pousada em Paraty, entre setembro e outubro de 2012, que deram forma definitiva à maçaroca desconexa que “O drible” tinha se tornado.

Os livros não foram inteiramente escritos naqueles dias de isolamento – o de Ishiguro também não. Mas foi em tais momentos de atenuação induzida da realidade, de volume do mundo reduzido ao quase inaudível, que tive os maiores acessos de lucidez e tomei as decisões mais importantes sobre eles. Uma medida de desconexão com o real parece ter sido necessária para que eu mesmo passasse a acreditar nos meus “mundos fictícios”, deixando-os quase ao alcance dos sentidos – e se nem o autor acredita neles, como esperar que o leitor o faça?

Sem querer romantizar nada, muito menos a loucura, acho que o escritor americano E.L. Doctorow não se refere a nada diferente disso quando diz que “escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia”. É possível que contistas e poetas tenham histórias diferentes para contar. No caso dos romances, com o fôlego longo que exigem, fico tentado a enunciar uma lei universal: a de que alguma medida de alienação controlada é imprescindível ao processo criativo. Como conciliar isso com as demandas da vida real, eis o problema que cada um precisa resolver sozinho.

03/01/2015

às 9:00 \ Os mais lidos de 2014

Um ano em cinco tempos

machado2Machado: ‘Reescrevam-me à vontade, mas…’

Reescrevam-me à vontade, caros compatriotas; cancelem palavras raras e chistes eruditos; amputem postilhões de Éolo, hidras de Lerna e asas de Ícaro; aplainem sem piedade as ordens inversas, as ousadias sintáticas, todas as cousas grandes ou miúdas. Depois de certa adaptação de Dom Casmurro para aquilo a que chamam TV, e que aqui captamos na parabólica, creio poder afirmar que já nada me fará mossa. Se de resto me agastar algum aspecto dessa faina, pago-lhes com um piparote, e adeus. (Leia mais.)

chuck_wendig200Respostas grosseiras para perguntas idiotas

“Como eu construo minha marca?” Chuck Wendig, escritor americano de fantasia com uma carreira sólida como romancista, roteirista e designer de games, autor de livros como Blackbirds e Double Dead, conseguiu fazer uma crítica feroz – e às vezes hilariante – de uma certa mentalidade de autoajuda e de um certo visgo corporativo que vêm se infiltrando há anos, traiçoeiramente, no mundo florescente do aconselhamento literário. Em forma de filezinho aperitivo, aqui vão alguns de seus achados. (Leia mais.)

american psycho x infinite jestPor que o Google Ads é coisa de psicopata

“O psicopata americano”, o romance mais conhecido do escritor americano Bret Easton Ellis, é um livro detestável na opinião de seu compatriota David Foster Wallace, com a qual concordo. Mas é um livro detestável que, de uma forma que seria até desonesto não considerar brilhante, conseguiu ficar na história como o melhor retrato de uma época e uma cultura detestáveis – o yuppismo dos anos 1980. O livro curioso que dois designers desentranharam dele deixa isso muito claro. (Leia mais.)

silêncioA eloquência do silêncio

Tudo aquilo que não é dito oferece à imaginação do leitor – coautor pouco comentado de qualquer obra literária – espaço para se espraiar, ligar os pontinhos, produzir e não apenas decifrar sentido. Se o silêncio que antecede a primeira palavra de uma história costuma passar despercebido, aquele que vem depois do ponto final é de uma eloquência ensurdecedora. Dificilmente haverá um escritor que não tenha, em algum momento, se deparado com esta queixa, que por sinal é muitas vezes infundada: “Mas a história não termina…”. (Leia mais.)

Autran Dourado por Ana Carolina Fernandes FolhapressTempos e pessoas: viagem ao coração da literatura

Aprendi com Autran Dourado, há muito tempo, um truque para dar vida nova a textos deficientes, insatisfatórios, capengas ou falsos: trocar seu tempo verbal ou a pessoa da narração – ou as duas coisas ao mesmo tempo. Parece pouco, mas ao fazer isso estamos nada menos do que penetrando o coração dessa brincadeira, tomando posse daquilo que torna a literatura, literatura. Cervantes inventou o romance moderno quando inventou a voz maluca, autoconsciente, de D. Quixote. O resto veio depois. (Leia mais.)

27/12/2014

às 9:00 \ Os mais lidos de 2014

Um ano de grandes despedidas

gabriel garcía márquez yuri cortez afpGabriel García Márquez

“Cem anos de solidão” é um monumento cravado na história da literatura, ponto. Como os três ou quatro principais livros que o escritor colombiano publicou depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob seus pés parece firme. A reputação que falta fixar é a do homem público, a do “político”, papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982. A vaidade transoceânica era um dos lados menos favoráveis do baixinho Gabo. É óbvio o prazer que ele sentia no papel de mediador universal: o escritor no labirinto de sua própria influência, sob o peso de uma fama achachapante, brincando de resolver os problemas do mundo.(Leia mais.)

joão ubaldoJoão Ubaldo Ribeiro

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1993 e vencedor do Prêmio Camões em 2008, o escritor baiano era “imortal” apenas no título honorífico. Seu principal romance, “Viva o povo brasileiro”, é imortal literalmente. Épico da nacionalidade, com sua narrativa espalhada por quatro séculos de história e amarrada com o fio mítico, lírico, cômico e irreverente da reencarnação dos personagens segundo a compreendem as religiões afro-brasileiras, esse romanção é provavelmente a última – e brilhante – tentativa feita por nossa literatura de dar conta do país como um todo, respondendo artisticamente à pergunta que instigou os grandes intérpretes do Brasil no século XX: o que vem a ser este país enorme, ao mesmo tempo fascinante e infantiloide, generoso e cruel? (Leia mais.)

ariano suassunaAriano Suassuna

Não é fácil dar conta da sensação – que é sobretudo de um certo vazio, mas eu não estaria exagerando se acrescentasse à mistura notas de luto e desamparo – provocada pela morte de Ariano Suassuna. O homem era ultraconservador, mas desconfio que andei errado ao supor que o “Romance d’A Pedra do Reino”, um dos maiores romances brasileiros do século XX, fosse uma obra-prima apesar do ideário estético de seu autor. No oceano de geleia que é a cultura globalizada contemporânea, a perda de Suassuna – e de João Ubaldo – torna o Brasil indiscutivelmente mais burro, mais amorfo e mais desgovernado. Nosso lastro cultural não é tão grande assim para que a gente o saia dispensando de forma perdulária. (Leia mais.)

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados