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04/07/2015

às 9:00 \ Vida literária

Cinquenta tons de ódio à leitura

Membros da Juventude Nazista queimam livros em Salzburgo, na Áustria, em 1938

Membros da Juventude Nazista queimam livros em Salzburgo, na Áustria, em 1938

Os vapores embriagantes da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que hoje chega ao clímax, são ótimos, mas não negam: o Brasil é um país que despreza a leitura. Entre obrigações escolares, bobagens de autoajuda, cordilheiras de livros para colorir e milhões de exemplares de uma bomba subliterária chamada “Cinquenta tons de cinza”, o brasileiro médio anda lendo 1,7 livro por ano – mais ou menos. Os números costumam variar um pouco, mas foi este que o ministro da Cultura, Juca Ferreira, em entrevista na última terça-feira, chamou de “uma vergonha”. Concordo inteiramente. Mais do que uma vergonha, um motivo de desalento quanto ao futuro do país.

Ocorre que a proposta de Ferreira para atacar o problema – uma ampla campanha semelhante “à do Fome Zero e à da paralisia infantil” – não chega a empolgar quem conhece um pouco dessa história. Campanhas de incentivo à leitura são feitas regularmente pelo ministério da Cultura: a de 2012, com o bordão “Leia mais, seja mais”, foi lançada com previsão de investimentos de R$ 373 milhões (mais sobre isso aqui). Iniciativas desse tipo são tão bem intencionadas quanto limitadas. Em parte porque o imperativo costuma soar antipático: “Faça isso!”, diz o iluminado, e é garantido que todo mundo finque pé ou saia de fininho. Em parte também porque é quase inteiramente inútil remar contra a corrente de uma educação calamitosa que não ensina a maioria da população a ler nada mais complexo do que lista de supermercado e manchete de jornal popular.

A evolução histórica do analfabetismo funcional brasileiro – aquele que acomete quem, sendo oficialmente alfabetizado, tropeça e se perde na leitura de qualquer enunciado um pouco menos simples – é monitorada desde o início do século pelo Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), da ONG Ação Afirmativa e do Instituto Paulo Montenegro. Em 2011-2012, a mais recente edição da pesquisa, que leva em conta “habilidades de leitura, escrita e matemática”, flagrou uma melhora no nível básico de alfabetização e uma estagnação no nível “pleno”. Atenção para a obscenidade: apenas um em quatro (!) brasileiros pode ser considerado plenamente alfabetizado. De cada três universitários, um não tem alfabetização plena (!!). É evidente que só a parcela da população que chegou ao estágio mais avançado de letramento está qualificada a ler literatura para valer – o que não quer dizer que necessariamente o faça.

Acrescente-se ao panorama de aridez educacional o fato de que o governo ao qual pertence Juca Ferreira, por meio do Ministério da Educação, vem adiando programas de aquisição de livros didáticos e literários para distribuição a escolas públicas (leia mais aqui). Além disso, telefones tocaram em vão e nem uma Bic se mexeu em Brasília para impedir o cancelamento, por falta de apoio, da edição 2015 de uma iniciativa séria e testada de formação de leitores como a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo (RS). Em momento tão hostil, campanhas publicitárias se arriscam a parecer pura desfaçatez e desconversa, como no caso do slogan “Pátria educadora”.

Está bem, admito que não ando otimista quanto à “formação de leitores” no Brasil. Espero estar errado, mas vejo um problema ainda maior do que os já mencionados, uma espécie de solo em que todas as outras dificuldades se fincam: nosso anti-intelectualismo profundo, atávico, desavergonhado e pimpão. Sabe qual? Aquele mesmo que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se fartou de paparicar em seus discursos de menosprezo à educação formal que, exceção entre exceções, ele próprio nunca precisou ter para chegar ao “topo”. Aquele que nossa elite e nossa classe média reforçam quando, podendo ler, não leem xongas nem ensinam seus filhos a fazê-lo. Não esqueço que, tendo me apaixonado por literatura no início da adolescência, logo descobri ser melhor – socialmente melhor, o que naquela idade era vital – ler escondido, mentir que não tinha lido o que tinha lido, zombar sempre que possível de tudo o que parecesse vagamente livresco. O desprezo à cultura e ao espírito, aquilo que Paulo Prado apontou como traço proeminente dos bandeirantes em seu polêmico clássico “Retrato do Brasil”, deixou marcas fundas em nossa sociedade.

Imagino que, no fim das contas, o mesmo substrato de bibliofobia explique este triste enigma: por que a escola brasileira insiste em enfiar José de Alencar pela goela de milhões de adolescentes, geração após geração, garantindo assim – por meio de doses maciças de desconexão com a vida como ela é hoje, extemporaneidade sintático-vocabular e pura chatice literária – a formação de nossas multidões de não-leitores convictos. Em nome da importância histórica do autor, que poderia ser apreendida mais à frente por quem se interessasse, nega-se sumariamente o prazer de ler, salga-se a terra. É por isso que uma notícia supostamente lamentável de duas semanas atrás,‘Diário de um banana’ bate José de Alencar e Jorge Amado em bibliotecas de São Paulo, foi a melhor que li nessa praia em muito tempo.

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27/06/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! O retrato decrépito de Dorian Gray

oscar wilde 2É possível que para algumas pessoas a cena abaixo, um dos pontos culminantes do romance “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, publicado em sua versão final em 1891, contenha um spoiler. No entanto, imagino que para os leitores habituais deste blog sua leitura apresente tanta novidade quanto a “revelação” de que Jekyll e Hyde são a mesma pessoa. Ou de que Diadorim é mulher.

A intriga básica do livro mais famoso de Wilde, a do retrato que envelhece em segredo enquanto seu modelo permanece jovem, é uma daquelas que transbordaram do universo propriamente literário para se incorporar a um certo patrimônio de cultura geral.

Os que conhecem a trama de ouvido e até os que já leram o livro têm muito a ganhar revisitando a cena abaixo, em que o pintor do quadro mágico, Basil Hallward, penetra no quarto secreto de Dorian Gray a convite deste e é apresentado ao impensável: o estado repugnante ao qual a vida de crime e devassidão do ex-amigo terminou por reduzir o retrato que, anos antes, ele havia pincelado com iguais medidas de talento e paixão pelo belo modelo.

(Sim, o homoerotismo do livro foi considerado escandaloso na época, a ponto de o texto ser arrolado como peça de acusação no julgamento que em 1895 condenou seu autor à prisão por “flagrante indecência”. Mas quem estiver em busca de uma literatura abertamente gay vai se decepcionar.)

A cena abaixo está nas páginas 182 e 183 da edição da Penguin-Companhia, com ótima tradução de Paulo Schiller, e é antecipada, cerca de 150 páginas antes, pelo que diz o mimado Dorian ao ser apresentado ao quadro, que naquele momento ainda era o espelho perfeito de sua juventude:

“Tenho ciúmes de qualquer coisa cuja beleza não morre. Tenho ciúmes do retrato que você pintou de mim. Por que ele deve preservar o que eu terei de perder? Todo instante que passa tira algo de mim e dá a ele. Oh, se fosse o contrário! Se o quadro pudesse mudar, se eu pudesse ser sempre o que sou agora!”

Uma exclamação de horror irrompeu dos lábios do pintor quando viu na luz fraca o rosto horrendo na tela, sorrindo para ele. Havia algo em sua expressão que o encheu de asco e repugnância. Deus do céu! Era o próprio rosto de Dorian Gray que o encarava! O horror, fosse o que fosse, não havia estragado completamente sua beleza maravilhosa. Ainda havia um resquício de dourado no cabelo ralo e algum escarlate na boca sensual. Os olhos empapados conservavam algo do encanto de seu azul, as curvas nobres ainda não tinham desaparecido completamente das narinas cinzeladas e da plasticidade da garganta. Sim, era o próprio Dorian. Mas quem o tinha feito? Reconhecia suas pinceladas, e a moldura que fora desenhada por ele. A ideia era monstruosa e ele sentiu medo. Pegou a vela acesa e a segurou diante do quadro. No canto esquerdo estava seu próprio nome, traçado em letras alongadas em vermelho vivo.

Era uma paródia abominável, uma sátira infame, ignóbil. Ele nunca tinha feito aquilo. Ainda assim era seu quadro. Ele sabia, e sentiu como se seu sangue passasse em um instante de fogo a gelo viscoso. Seu próprio quadro! O que ele significava? Por que havia se transformado? Ele se virou e olhou para Dorian Gray com os olhos de um doente. Sua boca estremeceu, e a língua pastosa pareceu incapaz de se articular. Passou a mão na testa. Estava molhada de suor pegajoso.

O jovem estava apoiado no aparador, observando-o com a expressão estranha que vemos no rosto dos que estão absortos em uma peça na qual trabalha um grande artista. Não havia nele tristeza verdadeira nem alegria real. Havia simplesmente a paixão do espectador, talvez com um brilho triunfal nos olhos. Ele tirara a flor do casaco e a cheirava, ou simulava fazê-lo.

“O que isso significa?”, exclamou Hallward, por fim. Sua voz soou esganiçada e estranha a seus ouvidos.

“Anos atrás, quando eu era um menino”, disse Dorian Gray, amassando a flor na mão, “você me conheceu, me bajulou e me ensinou a me gabar da minha boa aparência. Um dia me apresentou a um amigo seu que me explicou a maravilha da juventude, e finalizou um retratro meu que me revelou a maravilha da beleza. Em um momento de loucura, que, mesmo agora, não sei se lamento ou não, eu formulei um desejo, que talvez você possa chamar de prece…”

“Eu me lembro! Oh, como eu me lembro bem! Não! É impossível. O quarto é úmido. O bolor penetrou na tela. As tintas que usei tinham um veneno mineral maldito. Eu lhe digo que isso é impossível.”

“Ah, o que é impossível?”, murmurou o jovem, aproximando-se da janela e apoiando a testa contra o vidro frio, manchado de cerração.

“Você me disse que o tinha destruído.”

“Eu estava errado. Ele me destruiu.”

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20/06/2015

às 9:00 \ Antologia

Três histórias de literatura e morte

Enterro de Machado de Assis, em 1908

Enterro de Machado de Assis, em 1908


FINADOS (MANTRA DO ESCRITOR OBCECADO)

Cervantes morreu em 22 de abril de 1616.

Shakespeare o acompanhou um dia depois, 23 de abril de 1616.

Sterne R.I.P. em 18 de março de 1768.

No século seguinte, também em março, dia 22, do ano de 1832: Goethe.

Flaubert tinha então dez anos, e 58 ao parar de envelhecer, em 8 de maio de 1880.

Machado foi fazer companhia a Brás Cubas no dia 29 de setembro de 1908.

Mais dois anos e Tolstoi perdeu a guerra, tomara que para encontrar a paz: 20 de novembro de 1910.

Em 3 de junho de 1924 foi a vez de Kafka sair da vida, mas aquilo era vida?

Joyce começava então a escrever o Finnegans Wake. Em 13 de janeiro de 1941, levou-o a peritonite.

Rosa completou sua travessia de homem humano em 19 de novembro de 1967, três dias depois de virar imortal.

Em 1977, Nabokov se foi em 2 de julho e Clarice em 9 de dezembro, no pós-parto de Macabéa, um dia antes de completar 57.

Conclusão: escrever é tão perigoso quanto viver.

E eu mesmo não estou me sentindo muito bem.

*

O AMOR LITERÁRIO É A RAIZ QUADRADA DO ÓDIO

A fórmula v = b², proposta em seu clássico The supercool writer’s decalogue por Otto Bax, o berlinense suicida, é a genial quantificação de uma lei universal que, apesar de pressentida por geração após geração de cultores das letras, permanecia desde Homero no campo obscuro das intuições: no âmago de todo escritor, o número de colegas desprezados é igual ao número de colegas admirados ao quadrado. O que equivale a dizer, naturalmente, que o amor literário é a raiz quadrada do ódio.

(As iniciais v e b correspondem respectivamente às palavras Verachtung, “desprezo”, e Bewunderung, “admiração”. Optamos por não traduzi-las, discordando de outros autores, devido à consagração da fórmula de Bax nos mais influentes círculos da coologia acadêmica literária internacional.)

Não contente em capturar na malha dos números aquilo que se julgaria imponderável, Bax foi além e, antes de aplicar na própria veia uma gorda injeção de Frischluft, propôs outra lei universal: quando se levam em conta apenas autores vivos, a fórmula se transforma em v = b³, o desprezo equivalendo à admiração elevada ao cubo.

Infelizmente, a morte prematura de Bax não lhe deu tempo de se aprofundar nas consequências de seus achados para o estudo da complexa rede de alianças programáticas, declarações de guerra, elogios hipócritas e trairagens variadas que compõe os mecanismos dentados de fabricação e destruição da respeitabilidade literária.

Do planejado livro Über Ruhm (“Sobre a glória”) – que, na falta de amigos, Bax disse a pelo menos meia dúzia de garotos de programa ser o trabalho de sua vida – foram encontradas apenas anotações soltas em seu apartamento caótico. No meio delas, porém, destaca-se um aforismo de brilho ofuscante: “As panelinhas sugam todo o coeficiente de admiração para dentro de si mesmas, restando para o mundo lá fora nada além de um desprezo cúbico”.

Sobre o autodesprezo – e o risco que ele representa para a própria vida do escritor – Otto Bax não escreveu uma linha sequer.

*

A HIPÓTESE BRÁS CUBAS

Em seu leito de hospital, o velho escritor ergue a caneta Bic com suas últimas forças. Sabe que lhe resta pouco tempo, talvez horas, e se aflige mortalmente. Então é isso? Tanto para dizer, tanta coisa prometida, tão pífia realização? Passa mais de meia hora de olhos pregados na parede, cismando bestamente na possibilidade de, como Brás Cubas, terminar sua obra… do outro lado.

Escreve:

Brás abre o primeiro capítulo de suas memórias, chamado “Óbito do autor”, hesitando entre começar pelo princípio ou pelo fim, isto é, pelo nascimento ou pela morte. É claro que vemos aí a “pena da galhofa” que ele acabara de anunciar no prólogo – e se nada disso faz sentido para você, membro de uma geração que não lê Machado, azar o seu – mas nem por isso a questão do ponto de partida é menos crucial. É difícil levar qualquer empreitada a bom termo quando não se sabe o motivo de ter começado, claro. No entanto, não é esta uma boa definição da própria vida?

Seria? O escritor olha para a janela, com sua persiana eternamente fechada. Tenta se lembrar do êxtase provocado por uma certa manhã de sua infância, cheia de sol, pescaria e alarido. Sobre ela só consegue extrair da memória descrições posteriores, adultas, palavras. Reflexos de reflexos.

Meu problema, pensando bem, é mais grave que o de Brás. Se a vida do filhinho de papai nascido no Primeiro Reinado parecia a ele mesmo tão desprovida de sentido que o modo de ordená-la num livro passava a ser uma gratuidade, simples opção de estilo, o que dizer da vida de um moribundo que tentou filtrar tudo em palavras, só para descobrir, no fim, que elas o abandonaram feito filhos ingratos?

Sim: depois da morte de Ione, sua mulher, os três filhos do escritor sumiram no mundo. Nenhum deles foi visitá-lo no hospital, mas não é nisso que ele quer pensar agora.

O problema com a hipótese Brás Cubas, que seria a esta altura o único consolo, não é só o meu sólido ceticismo sobre a perenidade do espírito e toda essa lengalenga. No tempo longínquo em que eu ainda acompanhava Ione aos cultos kardecistas, de pura fidelidade conjugal, houve momentos em que meu agnosticismo chegou a vacilar diante da evidente honestidade daquelas pessoas, do seu fervor, e também de alguns fenômenos esquisitos para os quais eu não tinha explicação. Mas só balancei até o dia em que um dos frequentadores, de olho numa conversão e decerto sabendo-me um “homem de letras”, me emprestou um livro chamado “Parnaso d’além-túmulo”. Trata-se de uma coletânea de poetas mortos, um volume inteiro de versos psicografados. Li todinho mas, confesso, por puro espírito de porco: a partir do segundo poema eu tinha que me trancar no banheiro para rolar de rir sem que Ione percebesse. Lá estavam diversos grandes, Álvares de Azevedo, Bilac, Bandeira. Ou o editor dizia que estavam. Ocorre que os poemas eram toscos demais, bisonhos demais, obras de ginasianos de província. Minha conclusão foi que, caso aquilo não fosse uma grossa picaretagem, a pior coisa que podia suceder ao estilo de um escritor era a morte.

O escritor sorri por dentro, mas seu rosto permanece imóvel. Está cansado demais. A Bic cai de sua mão sobre o lençol branco onde se lê, em tinta azul desbotada, o nome do hospital.

E acabou.

*

Os contos acima foram publicados separadamente entre abril e novembro de 2012.

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13/06/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! O mosteiro à deriva de Antonio Carlos Villaça

antonio carlos villaça“O mosteiro frio, austero, longe de mim, mosteiro monumental, de pedra, patrimônio histórico. Eu, de carne.” O confronto tão sucintamente expresso nessa descrição do Mosteiro de São Bento é a principal chave de leitura do mais conhecido livro de memórias do carioca Antonio Carlos Villaça (1928-2005), “O nariz do morto” (Civilização Brasileira), publicado em 1970.

Cobrindo da infância ao início da idade adulta do autor, com destaque para o tempo em que, aos 21 anos, sua atormentada fé católica o levou a se internar no tradicional mosteiro carioca para virar monge (não deu certo), essa obra-prima contém algumas das melhores cenas que já li sobre a luta entre espírito e carne, sagrado e profano, permanência e finitude, dilemas com os quais o autor se debateu a vida inteira – e que a cena abaixo, brilhante vinheta de humor filosófico, captura com perfeição. (Para a resenha que publiquei neste blog em 2006, “O escritor que era monge que era escritor”, clique aqui.)

O gordíssimo Villaça ficou mais conhecido como personagem do que como escritor. Dono de um arquivo implacável de anedotas dos bastidores da vida intelectual brasileira de seu tempo, que conheceu na intimidade, foi de fato um grande observador e retratista maldoso de tipos humanos. No entanto, o estilista da língua que se revelou neste livro de memórias, o primeiro de uma série, merece atenção para além do círculo retrito do aplauso crítico que colheu em vida. A linguagem mordaz, raivosa e direta, de pontuação personalíssima, produz um efeito de rara espontaneidade, em permanente (des)equilíbrio entre o registro erudito e o chulo – e é só dele.

Que o Brasil esteja à altura de redescobrir Villaça, amém.

Íamos como bons carneiros, honesto rebanho negro, para a oração, o canto matinal, uns calmos, devagar, senhores do tempo e de si mesmos, alguns chegando ao coro antes até do sino, outros nervosos, atrasados, acabando de vestir-se em viagem pelo claustro sempre os mesmos… Às cinco e meia, o sino grande, da torre. Começava a solene oração coral, insípida, monótona, como paisagem gaúcha. Ou túnel pouco iluminado. Eu ia indo, tateante. Dom Simplício chegava sempre atrasado, correndo, e errava na recitação, no canto. Não sabe cantar, o coitadinho. Está no coro há vinte e cinco anos (hoje). Dom Severo arrota. Nunca percebi ninguém arrotar assim alto, fundo. E cochila. Dom Isidoro reza para dentro tão baixo, tão sem abrir a boca. E cochila. O coro é velho navio no nevoeiro, às apalpadelas, e não há porto. Alguns, mais afoitinhos, os líderes, dirigem a salmodia monocórdia, espessa. Impedem com suas vozes e, às vezes, vozeirões que a cantilena cesse, morra, ou pelo menos baixe de tom. Mas o tom baixava incrivelmente quando fui corista, no Mosteiro. (…)

O Ofício prossegue. O grande problema do mosteiro é apenas prosseguir. É preciso prosseguir, não parar, varar o tempo, escapar do tempo, driblar o tempo, ainda que seja pela morte dos homens.

Eu rezava tão baixinho que ninguém ouvia. Nunca lancei a voz, nunca ousei lançar a voz, naquele mercado do divino. Esperava que a inibição baixasse suas águas, para fazer minha entrada ruidosa, que nunca fiz, na bolsa de valores místicos em que me pôs minha inocência. Tremia, por dentro.

Vi que tudo aquilo não tinha sentido, era vago, vazio, ‘flatus vocis’. Dois ou três competiam com suas vozes, assanhados. O resto ia atrás, caudatariamente, lentamente, bocejando. Bocejos de acédia, bocejos da alma ferida, cansada de lutar em vão, bocejos ou peidos, gemidos da boca ou dos intestinos, gritos de cima ou de baixo, aflições viscerais ou bucais, angústias todas do mesmo tubo, que somos nós – simples tubos em que se dá a passagem, como num túnel, de legumes, verduras e carnes, leite e água, vinho, verdade e mentira, um túnel, sua entrada e sua saída, um túnel vertical, padecente, caminhante, pensante, falante, sorridente, decadente, morrente. Tubo digestivo, boca e ânus.

Vi que éramos afinal uns pobres, uns diabos, uma coisa pífia, ronronante, ventres sentados, ajoelhados, ventres de pé – falando latim com Deus. Deus mudo, silêncio enigmático, senhor de nenhuma intimidade, lá do outro lado de não sei quê, imenso, onipotente, onipresente, onisciente, encarnado num rapaz oriental, que faleceu numa cruz aos trinta anos pouco mais ou menos e há dois mil anos quase etc.

Eu achava aquilo cada vez mais esquisito. Não afirmava, não negava. Achava esquisito. Era um direito que eu tinha, não era?, achar esquisito, eu não duvidava. Eu achava esquisito. Aquilo era esquisito. O que é que era esquisito, meu filho? Aquilo, seu filho da puta.

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06/06/2015

às 9:00 \ Resenha

Quem é Elena Ferrante? E isso importa?

a amiga genialO mistério que envolve a festejada escritora italiana Elena Ferrante pode começar a ser desvendado pelo leitor brasileiro com a publicação de “A amiga genial” (Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias, 331 páginas, R$ 44,90), o primeiro dos quatro volumes que compõem sua chamada “série napolitana”. Isto é, desde que se tome como autobiográfico o romance narrado por Elena Greco, que reconstrói sua infância e adolescência num bairro pobre de Nápoles nos anos 1950.

Apesar da diferença de sobrenome, tal identificação entre autora e personagem tem sido feita pela maior parte de uma crítica internacional entusiasmada, que tornou Ferrante, ao lado do também prolífico norueguês Karl Ove Knausgård, a coqueluche literária do momento. O argumento é que os dois, chamados simplesmente de “titãs” pela prestigiosa revista americana The New Yorker, driblariam o que a ficção tem de falso ao se desnudar em suas memórias. “Seus romances são intensamente, violentamente pessoais”, escreveu sobre Ferrante o respeitado crítico inglês James Wood.

O problema mais óbvio com tal ideia é que, enquanto Knausgård escreve de modo explícito sobre a própria vida e se multiplica em entrevistas sobre isso, Ferrante é um ponto de interrogação. “Acredito que os livros, uma vez escritos, já não precisam de seus autores”, afirmou ela em carta de 1991 a seu editor italiano, avisando que nada faria pela divulgação de seu primeiro romance, L’amore molesto (inédito no Brasil). Promessa cumprida e renovada a cada livro: resistindo ao sucesso de público e crítica, a autora permaneceu reclusa, não divulgou uma única fotografia e se limitou a conceder meia dúzia de entrevistas por escrito, todas avaras em revelações pessoais. Conta ter nascido e crescido em Nápoles, mas pouco mais que isso.

O fato de “Elena Ferrante” ser provavelmente um pseudônimo – única explicação para que a proverbial xeretice da imprensa italiana ainda não tenha elucidado o mistério – não inviabiliza, claro, a tese dos romances autobiográficos. Ela tem mesmo como tema constante a condição feminina, questões como a maternidade e a amizade competitiva entre mulheres, que trata com sensibilidade e desassombro. Contudo, não faltam céticos que imaginam um homem por trás da máscara: o escritor italiano Domenico Starone costuma ser mencionado como candidato ao posto.

Questões de autoria à parte, “A amiga genial” é um bom romance de formação narrado em linguagem seca e segura, sem digressões ou qualquer ousadia formal. O domínio que Ferrante tem sobre a técnica romanesca é evidente, mas jamais se transforma em virtuosismo. O que impulsiona a história contada por Elena Greco, filha de um contínuo da prefeitura, é a pura sucessão dos acontecimentos: de seu primeiro encontro com Lila Cerullo, filha de um sapateiro, no início do ensino fundamental, até o casamento desta, aos 16 anos, as duas amigas crescem juntas.

Elena é inteligente, ponderada e medrosa. Lila é brilhante, imprevisível e “levada sempre, pior que os meninos”. Numa dinâmica ao mesmo tempo amorosa e competitiva, alternando admiração e rancor mútuos, a autora as faz trocar o tempo todo de papéis: Lila era uma criança magra e suja que vira uma adolescente deslumbrante, enquanto a loura e graciosa Elena desabrocha numa jovem gordinha que se julga feia; Lila era a melhor aluna da turma, mas é impedida pelos pais de continuar estudando e passa a se dedicar à sapataria da família; Elena, que se via condenada a um eterno segundo lugar nas disputas escolares, segue em frente nos estudos clássicos e logo está aprendendo latim e grego.

O ambiente em que as amigas crescem é dominado por homens violentos. Na rua, trocar pedradas com grupos rivais é comum até para as meninas, e em casa as surras rotineiras podem chegar à beira do assassinato, como quando Lila é atirada da janela pelo pai e quebra o braço. Instruídas por um vizinho comunista, as duas acabam por compreender que o fantasma do fascismo italiano recém-derrotado na Segunda Guerra se confunde com o submundo criminoso de agiotas e mafiosos para explicar as desigualdades econômicas do bairro.

Os filhos das afluentes famílias Solara e Carracci, temidas e respeitadas pelos pais das duas amigas, vão aos poucos se transformando em sua própria turma. A galeria de tipos humanos em torno delas é tão vasta que justifica a incomum lista de personagens que antecede a narrativa, mais usual em obras de dramaturgia, sem a qual o leitor poderia se perder.

A semelhança de “A amiga genial” com o cinema neorrealista italiano vai além da temática. O que o romance oferece é o bom e velho realismo literário, bem executado, com olhar atento ao quadro político-social em que os personagens se inserem e sondagens psicológicas breves mas certeiras entremeadas à ação. Pode ser que alguma evidência da genialidade que tantos atribuem à autora surja nos próximos livros da série: no horizonte deste romance robusto, mas esteticamente conservador, não há sinal disso.

Cabe perguntar até que ponto aquela intriga de bastidores tem interferido na apreciação crítica de Ferrante. Embora ela defenda, com sua invisibilidade, o saudável princípio de que os livros devem ser julgados apenas pelo que neles está escrito, pouco importando quem escreveu, a atribuição de um caráter “corajoso”, “cru” ou “testemunhal” a suas histórias é sem dúvida um dos pilares de seu prestígio internacional, não só como escritora mas também como, digamos, porta-voz do feminismo. Seria engraçado se Ferrante fosse mesmo, no fim das contas, um homem. A reviravolta surpreendente não alteraria a qualidade de seu texto, mas provocaria abalos consideráveis na crença ingênua – que, não sendo nova, vem ganhando força – de que a ficção só escapará da irrelevância se trocar suas “mentiras” por “verdades”.
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Publicado na edição de VEJA que está nas bancas.

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30/05/2015

às 10:28 \ Antologia

Que cena! O duelo de ‘Os detetives selvagens’

BolañoEm 2006, oito anos depois de sair na Espanha, chegou ao Brasil o romance “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão). A data merece ser lembrada porque se trata de um acontecimento: embora já tivesse dado as caras por aqui com a novela “Noturno do Chile”, foi naquele momento, três anos após sua morte, que o escritor chileno – um desterrado que viveu no México antes de se radicar na Espanha – finalmente explodiu no Brasil, com toda a potência de sua literatura maior.

Acabou virando moda, como se sabe. Os lançamentos de Bolaño, inclusive de títulos pouco importantes, se sucederam, e em 2010 seu tijolão póstumo “2666” teve muito mais repercussão do que havia tido “Os detetives…”, embora seja este, a meu ver, seu melhor livro.

É praticamente impossível extrair desse romanção polifônico, estruturado como um caleidoscópio de vozes que se complementam e se negam em igual medida, um trecho curto que dê ideia da amplitude que Bolaño consegue abarcar e das profundezas que logra sondar com seus personagens desesperados.

Estes são escritores em sua maioria, “artistas” todos, e vivem como farsa dolorosa suas vidas “artísticas” num mundo em que a relevância de tais atividades – inversamente proporcional à virulência das guerras de vaidade que elas motivam – se apequena diante de uma cordilheira de indiferença.

O duelo entre o escritor e o crítico, episódio anunciado no trecho abaixo na voz do pintor espanhol Guillem Piña, se aproxima de capturar pelo menos em parte a atmosfera peculiar, cômica e sombria, que emana de “Os detetives…”. Ele mesmo um artista em crise, ex-falsificador de quadros de Picabia que afirma se sentir às vezes como o Nu descendo a escada, famosa tela de Marcel Duchamp, Piña fala de seu reencontro em Barcelona, após muitos anos de distância, com seu amigo Arturo Belano, alter ego do autor.

O absurdo do duelo motivado por uma resenha supostamente ruim que ainda não foi escrita é desdobrado no livro com mudança de voz narrativa, entre outras surpresas, mas isso eu deixo como isca suculenta para quem se aventurar nessa obra-prima.

Um dia, antes de sumir pela última vez, veio à minha casa e me disse: vão me fazer uma crítica ruim. Eu lhe preparei um chá de camomila e fiquei calado, que é o que se faz, creio, quando se tem que ouvir uma história, triste ou alegre que seja. Mas ele também ficou calado, e por um instante permanecemos assim, ele olhando para o chá ou para a rodelinha de limão que flutuava em seu chá, e eu fumando um Ducados, creio que sou um dos poucos que ainda fuma Ducados, quer dizer, dos poucos de minha geração, até o próprio Arturo agora fuma tabaco virgínia ultralight. Passado um momento, perguntei, só para falar alguma coisa: vai ficar para dormir em Barcelona?, e ele negou com a cabeça, quando ficava para dormir em Barcelona dormia na casa de minha amiga (em quartos separados, mas essa precisão perturba tudo), não em minha casa, jantávamos juntos, sim, e às vezes saíamos os três para dar umas voltas no carro de minha amiga. Enfim, perguntei se iria ficar para dormir, e ele disse que não podia, que precisava voltar ao vilarejo onde morava, um vilarejo da costa a pouco mais de uma hora de trem. Voltamos outra vez a ficar calados os dois, e eu comecei a pensar no que ele tinha dito sobre uma crítica ruim, e por mais que tenha pensado não entendi nada, de modo que parei de pensar e fiquei esperando, que é o que faz, contra todo prognóstico, o ‘Nu descendo a escada’, e precisamente nisso consiste sua estranha crítica.

Por um instante só ouvi o ruído que Arturo fazia ao tomar chá, sons apagados provenientes da rua, o elevador que subiu e desceu algumas vezes. De repente, quando eu não pensava nem ouvia nada, ouvi Arturo repetir que um crítico iria baixar o sarrafo nele. Não tem muita importância, falei. São os cavacos do ofício. Tem importância sim, replicou. Você nunca deu bola para eles, falei. Mas agora dou, devo estar me tornando um burguês, ele disse. Em seguida explicou que seu penúltimo e seu último livro tinham semelhanças que pertenciam ao território dos jogos impossíveis de decifrar. Eu tinha lido seu penúltimo livro, tinha gostado, e não tinha a menor ideia do seu último livro, de modo que não pude dizer nada a esse respeito. Só pude lhe perguntar: que tipo de semelhanças? Jogos, Guillem, ele disse. Jogos. A porra do ‘Nu descendo a escada’, as porras das suas falsificações de Picabia, jogos. Mas onde está o problema?, perguntei. O problema, ele disse, é que o crítico, um tal de Iñaki Echavarne, é um casca de ferida. É um crítico ruim?, perguntei. Não, é um bom crítico, ele disse, pelo menos não é um crítico ruim, mas é um casca de ferida fodido. E como você sabe que ele vai fazer a resenha de seu último livro, se ele ainda nem está nas livrarias? Porque outro dia, explicou, quando eu estava na editora, ele ligou para a assessora de imprensa e pediu a ela meu romance anterior. E daí?, perguntei. Daí que eu estava ali, na frente da assessora de imprensa, ela lhe disse olá, Iñaki, olhe que coincidência, Arturo Belano está aqui, bem na minha frente, e o escroto do Echavarne não disse nada. E o que ele deveria ter dito? Pelo menos olá, Arturo respondeu. Como ele não disse nada, você concluiu que ele vai desancar você?, perguntei. E se desancar, qual o problema? Tanto faz! Olhe, Arturo disse, Echavarne brigou faz pouco com o Catão das letras espanholas, Aurelio Baca, conhece? Nunca li, mas sei quem é, respondi. Tudo por causa de uma crítica que Echavarne fez ao livro de um amigo de Baca, não sei se a crítica era justificada ou não, não li o livro. A única coisa certa é que aquele romancista tinha Baca para defendê-lo. E a crítica que Baca dedicou ao crítico foi dessas de fazer chorar. Pois bem, não tenho nenhum papa-hóstias pra me defender, absolutamente ninguém, de modo que Echavarne pode soltar os cachorros em cima de mim com toda tranquilidade. Nem mesmo Aurelio Baca poderia me defender, porque no meu livro, não no que vai sair, no penúltimo, debocho dele, se bem que duvido muito que ele tenha lido. Você debocha do Baca? Rio um pouco dele, Arturo disse, mas não creio que ele nem ninguém tenha notado. Isso descarta Baca como defensor, admiti, enquanto pensava que eu também não tinha percebido o tal deboche que agora parecia preocupar meu amigo. Pois é, Arturo disse. Deixe o Echavarne soltar os cachorros, ora, falei, e daí, isso tudo é bobagem, você deveria ser o primeiro a saber. Todos nós vamos morrer, pense na eternidade. Mas é que Echavarne deve estar morrendo de vontade de se desforrar em alguém, Arturo disse. Ele é tão medíocre assim?, perguntei. Não, não, é muito bom, Arturo disse. E então? Não é disso que se trata, é uma questão de se exercitar os músculos, Arturo disse. Os músculos do cérebro?, indaguei. Os músculos de alguma parte, e eu vou ser o sparring do Echavarne para seu segundo round ou seu oitavo round com Baca, Arturo disse. Entendi, a disputa vem de longe, eu disse. E o que você tem a ver com tudo isso? Nada, eu só vou ser o sparring, Arturo respondeu. Ficamos um instante sem dizer nada, pensando, enquanto o elevador descia e subia, e o ruído que fazia era como o ruído dos anos durante os quais não tínhamos nos visto. Vou desafiá-lo para um duelo, Arturo disse finalmente. Quer ser meu padrinho? (…)

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23/05/2015

às 9:00 \ Antologia

Três histórias de crítica e fogo

fogoFLAME WAR

Diante de seu computador velhusco, Adolfo Pinho Rosa, o famoso crítico literário, bufava. Maxilar rangendo, testa vincada de rugas profundas, olhar de maluco, dedilhava sua última bomba atômica na épica batalha internética que vinha travando há mais ou menos duas horas contra Berilo di Carlo, o jovem escritor. Flame war era como chamavam em latim contemporâneo aquilo em que se entretinham madrugada adentro, além de Berilo e ele, diversos internautas de nome inventado, alguns tomando um partido ou outro, a maioria só se divertindo com variantes do incentivo à pancadaria que aglomerações humanas tendem a jubilosamente manifestar.

E Adolfo Pinho Rosa escreveu:

“Para encerrar esta novela e irmos todos dormir, eu quero dizer o seguinte: Berilo di Carlo não chega a ser um escritor. Gostaria muito, se esforça de forma até comovente para isso, mas não chega. Falta-lhe o talento para transformar seu escasso mas (vá lá) intenso conhecimento literário em literatura. Falta gás. Seus romances, tanto Lava fria quanto Os estranhos habitantes de Marte, são patéticos simulacros de romance. Os personagens não convencem como gente, a prosa claudica, sintaxe e vocabulário abusam das contorções exibicionistas e se estrepam, a escolha do detalhe descritivo oscila entre o clichê e a originalidade inepta, as imagens não colam, o diálogo dá vontade de cortar os pulsos – enfim, um acidente ferroviário pavoroso é o melhor símile para cada uma das duas narrativas longas de ‘ficção’ que Berilo teve a imprudência de publicar (os contos são um pouco melhores, porque duram menos). Claro que nada disso o impede de continuar tentando: não faltam desses escritores de mentirinha por aí, e sempre haverá leitores de ouvido de lata para gabar, em troca de um interesse ou outro, seus méritos fulgurantes. Boa sorte ao ‘escritor’ Berilo di Carlo. Só não me venha posar de sabichão aqui no blog, viu, escritor de mentirinha, porque eu sou um crítico de verdade que gosta de literatura de verdade e tem um nome respeitável e não tem tempo a perder com eunucos intelectuais da sua laia.”

Releu, trocou “eunucos intelectuais” por “anões intelectuais”, ampliando dramaticamente o alcance estatístico da minoria que ofendia, e publicou o comentário.

Decidido mesmo a dormir, desligou o computador e se meteu na cama. Meia hora depois estava religando o computador e lendo os três comentários postados após o seu: “menos, adolfinho, menos: o berilo não é tão ruim assim, embora seja péssimo”, “issssaaaaa agora só no brasso!!!”, “Quem esse pedante f.d.p. pensa que é, Antonio Candido?”. Apagou correndo o terceiro: palavrão não. Estranhou o relativo silêncio, nem sinal de Berilo, e passou as próximas horas olhando para as brasas moribundas da sua flame war, lendo os comentários sem relevância que chegavam e lambendo um a um todos os que tinha postado, em especial o último, que releu setenta vezes. O dia já clareava quando desistiu de esperar a reação de seu oponente, certamente adormecido àquela altura, e foi dormir.

Passava do meio-dia quando o telefone o acordou, um amigo lhe dizendo que Berilo di Carlo tinha se matado aquela madrugada. Como? Cabeça no forno, e deixou um bilhete. Um bilhete? Um bilhete, e sabe o que ele diz? “Adolfo Pinho Rosa tem razão. Dedico a ele, com solenidade, a minha morte. Possa este último golpe narrativo finalmente impressionar Adolfo Pinho Rosa: neste livro, pestilenta criatura, você carrega meu cadáver na consciência até morrer”. O quê! Você só pode estar brincando comigo. Não brincaria com uma coisa dessas. Fala sério, o que o Berilo diz no bilhete de suicida dele? Espera aí, e se tudo for uma brincadeira, hahaha? Vem cá, o Berilo se matou mesmo? Lamento muito, Adolfo. Publicaram o bilhete na internet, já está com mais de quinhentos comentários. Ah, meu Deus. Cuidado, meu amigo. Eu não recomendo ler o que o pessoal está escrevendo a seu respeito, sabe como é a internet.

Leu tudo, absorveu tudo: cada insulto desmoralizante, cada imperativo escabroso, cada viscoso palavrão. Cada ameaça de morte. O suicídio de Berilo di Carlo e a implicação do crítico Adolfo Pinho Rosa na tragédia eram o assunto preferido da blogosfera brasileira e começavam a ganhar projeção internacional. Antes de cair a noite, #berilolives tinha emplacado como trending topic mundial do Twitter e, no Orkut, a comunidade “Morte ao crítico Adolfo Pinho Rosa” angariava adeptos em velocidade inédita. Logo apareceu alguém para encontrar em seu texto uma sugestão claríssima de suicídio com a cabeça no forno: “Falta gás”, frase que Adolfo, claro, tinha empregado de forma tão inocente quanto lhe permitia seu ódio de então, querendo dizer que faltava fôlego, capacidade. Mas o diabo da frase elevou ainda mais a altura das chamas que o mundo alimentava na ágora digital, onde um crítico literário de ex-excelente reputação ardia agora em mudo estupor.

Adolfo Pinho Rosa passou uma semana no inferno antes que Berilo di Carlo viesse a público para revelar a fraude. Hoax era como chamavam em inglês. Estava de férias em Jericoacoara, onde escrevia seu terceiro romance, e ria: “Primeiro de abril! kkkkkk, vê lá se eu vou me matar por causa de um mané desses”. Só então Adolfo foi prestar atenção na data daquela guerra, primeiro de abril, ora veja. Sentiu-se esvaziar de tudo num jorro, feito um saco rasgado de feijão. Era um alívio, sem dúvida, mas acabou oco. Boçal. Uma certeza solar iluminava as gargalhadas nervosas que subiam da ágora: sua ex-excelente reputação estava perdida para sempre.

*

UMA TARDE NA VIDA DO CRÍTICO

Dagoberto Castro de Menezes fechou seu Ovídio magro ricamente encadernado e o pousou na banqueta Joaquim Tenreiro ao lado da bergère, de onde tomou da xícara fumegante de darjeeling e de um Agamben que lia com apetite cada vez mais magalizesco, para citar Maurício.

Leu concentradamente por quarenta e oito minutos. De repente pôs o livro de lado e pulou da poltrona pensando no homo sacer. A tarde envelhecia. Puxou uma cordinha. Um minuto depois, quando o mordomo apareceu, comandou a carruagem para as seis em ponto. O recital seria às oito e meia, queria jantar antes.

A hora e tal que lhe restava ao ócio Dagoberto, ou Castro de Menezes, como ele preferia, a empregou em seu passatempo predileto, pequena extravagância que um dia, em momento de exasperação, tivera a fortuna de criativamente improvisar: dar de comer à lareira sólidos toros de literatura brasileira contemporânea.

Deitados lânguidos ao fogo, os livros iam mudando de estado no mundo da matéria num belo espetáculo de chamas coloridas, e Dagoberto Castro de Menezes (usemos o nome todo, para evitar confusão) se deu conta de que aquilo era puro homo sacer, sim, claro! Ficou feliz com a ideia, era isso mesmo: a literatura brasileira contemporânea é o homo sacer, o santo às avessas. Aquele que é tão desprezível que não tem direito nem à própria vida, qualquer um pode matá-lo impunemente, como ele fazia agora. Mas que nunca poderá ser morto em ritual sagrado no altar dos mais supinos valores críticos, sob pena de danação para o crítico e toda a humanidade que este representa. Ao fogo, pois, que assim ninguém corre riscos.

Uma hora depois, como sempre ocorria após uma sessão daquilo que havia batizado Bibliofilia Paradoxal Pírica, BPP, Dagoberto Castro de Menezes III, PhD, sentia-se leve e excitado. Pelo iPhone confirmou que Thiago, seu aluno mais burrinho e mais bonito, iria ao recital. Falaria do homo sacer a Thiago, ele como sempre não entenderia nada, mas falaria mesmo assim, para humilhá-lo. Será que Joaquim Nabuco também estaria lá? Uma foto ao lado de Nabuco na coluna do Joaquim, o outro, não faria mal à sua carreira.

Dagoberto Castro de Menezes, CEO de ONG, 1,67m, dago@hotmail.edu, consultou seu Patek Philippe: cinco e dez. Tempo para um breve banho de imersão com o prodigioso sel de bain à la menthe poivré de Marius Fabre. Depois, a carruagem, a noite, a vida!

*

DOS ELOGIOS INCONDICIONAIS

Valério Schlondorf está relendo pela quinta vez a resenha que acabou de escrever. A caneta esferográfica em sua mão direita aplica rabiscos ocasionais nas folhas de papel sobre a mesa. Como sempre faz na hora de revisar seus escritos, tratou de imprimir este primeiro: apesar de jovem o bastante para ser considerado um dos valores da “nova geração de escritores brasileiros”, o capixaba Schlondorf é suficientemente velho para achar mais fácil flagrar deslizes, rimas indesejáveis, ideias inconsistentes e frases truncadas quando lê no papel, como se a fluidez da tela do computador mascarasse defeitos. Defeitos que, diga-se de passagem, ele não encontrou no romance que acaba de criticar. Nem para remédio: a resenha é francamente elogiosa.

Seu problema passa a ser então moderar os elogios para, num paradoxo apenas aparente, deixá-los mais potentes. Sabe que as pessoas desconfiam de loas demasiado rasgadas e não é para menos – no ambiente de compadrio, hipocrisia e baixo apreço ao profissionalismo crítico em que chafurdam as letras nacionais, faz bem o leitor em se precaver. Assim, em vez de “divisor de águas na literatura brasileira contemporânea”, Schlondorf opta pela sobriedade firme de “livro fundamental na literatura brasileira contemporânea”. No lugar de “gênio”, vai de “talento maior”, e “prosa em chamas” vira “prosa vívida”. Finalmente, ao trocar “o grande nome de sua geração” por “um dos grandes nomes de sua geração”, parece se dar por satisfeito. Repousa a caneta sobre a mesa e, batucando no teclado, transfere rapidamente as alterações para o computador. Em seguida alcança o telefone:

– Alô, Rafinha? Tô com o texto pronto aqui. Estou mandando neste minuto pra você e você encaminha pro editor como da outra vez, tudo bem? Isso, já vai com a sua assinatura. A grana é sua, claro, pena que seja aquela merreca de sempre, o pessoal é muito mão de vaca. De todo modo obrigadíssimo, amigão, fico te devendo mais uma. O título? Coisa singela: “A consagração de Valério Schlondorf”. Hehe, pois é. Mas isso nunca se sabe, às vezes eles mexem no título por problemas de espaço. Sabe como é jornal, é a ditadura do espaço, a honestidade intelectual que se dane. Este mundo tá perdido, Rafinha!

*

Os contos acima foram publicados pela primeira vez na seção Sobrescritos deste blog, separadamente, entre agosto de 2010 e setembro de 2011.

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16/05/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! A boiada de José J. Veiga

José J. VeigaTrazer para a seção “Que cena!” o escritor goiano José J. Veiga (1915-1999) é uma forma de acenar para o adolescente que eu fui. O livro de contos “Os cavalinhos de Platiplanto”, de 1959, e o romance “A hora dos ruminantes”, de 1966 – ambos relançados recentemente pela Companhia das Letras em caprichadas edições de capa dura – me deram mais do que prazer de leitura naquele miolo da década de 1970 em que chegaram às minhas mãos. Veiga parecia apontar um rumo. Um modo possível de escrever.

De tão singelo, nem chega a ser embaraçoso que, ao ter um conto publicado numa edição de província, aos 17 anos, eu me definisse como “influenciado por Kafka, José J. Veiga e Poe”. Nessa ordem.

Meu gosto juvenil pelo fantástico não tem nada de surpreendente, mas, pensando nisso agora, acho sintomático que o escritor nascido na pequena Corumbá de Goiás ocupasse aquela posição central em minha trindade de cultores do esquisito. O modo como o cara incorporava à sua ficção acontecimentos insólitos, inexplicáveis – como a ocupação de uma cidadezinha do interior por uma multidão de bois na terceira parte de “A hora dos ruminantes”, que começa com a cena abaixo – era tão familiar, caseiro e interiorano que, para o garoto interiorano que eu era, parecia um salvo-conduto: “Ah, isso eu consigo fazer!”. Claro que não conseguia, mas o que vale é o estímulo.

A prosa de Veiga me parece ainda hoje uma façanha estilística. De sintaxe cristalina e ritmo suavemente coloquial, com poucos e certeiros regionalismos dando apenas a cor local suficiente a um português brasileiro de ambição universal, é curioso notar seu gosto pelo pretérito imperfeito – o tempo verbal com o qual recordamos nostalgicamente as coisas que duravam, que permaneciam – mesmo quando, como ocorre abaixo, narra a ruptura.

O pretérito imperfeito e a ação centrada na coletividade, com personagens individualizados se destacando apenas momentaneamente da paisagem humana homogênea, situam Veiga numa tradição arcaica de causos e histórias populares moralizantes contados à beira do fogo. A pequena Manarairema que a avalanche bovina desfigura é um lugar idílico, à margem do tempo histórico: pobre mas quase sem conflito, atrasado mas habitado por gente de bem. Até que chegam os invasores.

Na primeira parte do romance, são os forasteiros caladões que, com pinta de virem da cidade grande, acampam do outro lado do rio. Na segunda, os cachorros. Na terceira, os bois. Como “A hora dos ruminantes” chegou ao público dois anos depois do golpe militar de 1964, as leituras que o tratam como alegoria da ditadura são inevitáveis – e interessantes, ainda que um tanto óbvias.

Naturalmente, seria empobrecedor ficar só nelas. O livro mais famoso de José J. Veiga também não faz feio como representação da traumática metamorfose brasileira, em curso naquela época, de país majoritariamente rural em país esmagadoramente urbano. Ou, em escala microscópica e condizente com o tempo em que o li, como um flagrante do massacre da inocência quando os hormônios escoiceantes invadem a infância feito bois desgovernados.

Fazia dias que os bois vinham aparecendo aqui, ali, nas encostas das serras, nas várzeas, na beira das estradas, uns bois calmos, confiantes, indiferentes. As marcas que mostravam nada esclareciam, ou eram desconhecidas na região ou muito apagadas, difíceis de ser recompostas. Bom: são bois vadios, desgarrados de boiadas; qualquer dia os donos vêm buscar, ou eles mesmos desaparecem assim como vieram – sem aviso, sem alarde.

Isso pensava-se, mas não foi o que aconteceu. Longe de ir embora, os bois se chegaram mais e em grande número. Ganharam as estradas, descendo. Atravessaram o rio, de um lado, o córrego, de outro, convergindo sempre. Em pouco já lambiam as paredes das casas de arrabalde, mansos, gordos, displicentes. Encheram os becos, as ruas, desembocaram no largo. A ocupação foi rápida e sem atropelo; e quando o povo percebeu o que estava acontecendo, já não era possível fazer nada: bois deitados nos caminhos, atrapalhando a passagem, assustando senhoras. As entradas do largo entupidas e mais bois chegando, como convocados por uma buzina que só eles ouviam; os que não cabiam mais no largo iam sobrando para as ruas de perto, para os becos e terrenos vazios. Abria-se uma janela para olhar o tempo e recebia-se no rosto o bafo nasal de um boi butelo. Uma pessoa ia ao quintal, entrava distraída numa moita, levava o maior susto da vida ao assustar um boi, que saía de arranco pisando plantas, arrastando ramos pendurados nos chifres. Dobrava-se uma esquina com pressa, caía-se de braços abertos nos chifres de um boi imprevisto.

Durante o resto do dia e ainda por toda a noite mais bois chegaram, pisando em tudo, derrubando casas de pobres, invadindo corredores de ricos, espremendo-se uns contra os outros, as cabeças levantadas para os chifres não embaraçarem, sem espaço nem para erguer o rabo na hora de defecar, a matéria saindo forçada pelas pernas abaixo, breando tudo.

Não se podia mais sair de casa, os bois atravancavam as portas e não davam passagem, não podiam; não tinham para onde se mexer. Quando se abria uma janela não se conseguia mais fechá-la, não havia força que empurrasse para trás aquela massa elástica de chifres, cabeças e pescoços que vinha preencher o espaço.

Frequentemente surgiam brigas, e seus estremecimentos repercutiam longe, derrubavam paredes distantes e causavam novas brigas, até que os empurrões, chifradas, ancadas forçassem uma arrumação temporária. O boi que perdesse o equilíbrio e ajoelhasse nesses embates não conseguia mais se levantar, os outros o pisavam até matar, um de menos que fosse já folgava um pouco o aperto – mas só enquanto os empurrões vindos de longe não restabelecessem a angústia.

Nas ladeiras os bois mais fracos caíam de puro cansaço com o esforço de se manterem de pé contra a avalanche que vinha forcejando de cima, caíam e iam rolando por baixo dos outros, derrubando mais alguns até alcançarem o amparo de um muro, um barranco, uma árvore, e aí ficavam moídos, quebrados, gemendo. As cercas e muros dos quintais, que resistiram bem nas primeiras horas, com o aumento da pressão acabaram cedendo; e como água represada que arrebenta comporta, os bois se despejavam para dentro aos trambolhões, pinotes, testadas, ávidos de espaço, arrasando plantações, espantando porcos e galinhas.

Nem dentro de casa as pessoas ficavam tranquilas. Aqueles que não tiveram a prevenção de fechar as janelas logo no início – a maioria – agora eram obrigados a viver e fazer tudo observados por dois, três pares de olhos bovinos, e às vezes ainda precisavam empurrar um chifre para um lado para poder abrir uma gaveta ou um armário.

Se não fosse a diligência dos meninos, que inventaram um jeito de andar por cima dos bois, as famílias teriam ficado sitiadas em casa, sem meios de comunicação com parentes e amigos. Descalços e munidos de uma vara tendo numa ponta uma plaquinha acolchoada, os meninos subiam numa janela, daí passavam para o lombo de um boi, e utilizando a vara como escora iam navegando por cima deles, transmitindo e recebendo recados e encomendas, apostando corridas uns com os outros. De vez em quando um menino pisava em falso, ou o boi se mexia ao ser pisado, e lá ia o menino para o fundo. Alguns conseguiam engatinhar por entre o crivo de patas, sujando-se nas bozerras, molhando-se nas poças de urina, sangrando as mãos e os joelhos nas pedrinhas do chão até alcançar o abrigo de uma vala ou os degraus de um portal; mas muitos se desorientaram, perderam o rumo, caíram no choro, assustaram os bois e acabaram esmagados por aquelas mãos de pilão de muitas arrobas de peso.

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09/05/2015

às 9:00 \ Vida literária

O jogo do Rogério

rogério durstAcredito ter sido, no fundo, o inconformismo com o fato de literatura e vida parecerem habitar duas dimensões tão separadas da existência o que nos levou a inventar um jogo intrincado que misturava folhetim com uma espécie primitiva de RPG – este, embora já existisse, estava longe de fazer sucesso no Brasil e não pode ser considerado uma influência.

Estávamos na primeira metade dos anos 1980 e éramos quatro amigos formandos ou recém-formados em jornalismo. Todos apaixonados por literatura, estávamos meio perdidos e talvez assustados (eu pelo menos sim) com as promessas de tédio infinito e massacre cotidiano da criatividade e da alegria que o mundo do trabalho remunerado parecia estender horizonte adentro, a perder de vista.

Houve um tempo em que, zeloso de uma coisa arcaica chamada vida privada, eu não nomearia – ou nomearia com pseudônimos – os outros três daquela turma. Hoje esse tempo parece distante, talvez porque eu esteja sob a influência da furiosa evasão de privacidade promovida por Karl Ove Knausgård. De todo modo, não há nada que comprometa ninguém nessas memórias: nem o professor Luiz Carlos Mansur, nem o roteirista David França Mendes, nem o crítico de cinema e escritor Rogério Durst (foto).

Além do mais, qual seria o sentido de esconder os personagens se só estou me lembrando disso agora porque o Rogério morreu, de insuficiência cardíaca, na quarta-feira da semana passada, aos 54 anos?

Embora tenha tocado ao Mansur o papel perfeitamente adequado de Deus, foi o Rogério quem acabou se saindo como senhor absoluto daquela brincadeira. Devíamos ter desconfiado que seria assim. Antes, porém, que isso possa começar a fazer sentido, é preciso explicar em linhas gerais a mecânica do jogo literário que nós inventamos.

A ideia era ter, no fim das contas, um romance policial. Um romance policial escrito a oito mãos, com três autores respondendo cada um por um personagem-jogador e um deles no papel divino de moderador e senhor do universo.

Ao Mansur, então um futuro crítico musical que acabaria se mandando do Brasil para virar acadêmico em Portugal, coube criar o mundo, estabelecendo as bases da história: o elenco de personagens secundários e os conflitos principais.

Os mortais, isto é, os jogadores propriamente ditos, deveriam, antes de escrever seus capítulos semanais, interagindo com a paisagem proposta por Deus num esforço permanente para assar suas próprias sardinhas na brasa da história, agendar com Ele o “uso” de determinados personagens e cenários, marcando dia e hora para evitar superposições.

Ah, sim: só Deus lia o que os mortais escreviam, embora tivesse também a missão de passar a todos um resumo da semana em que a maior parte das atividades de cada personagem-jogador era relatada – com o veto estratégico de apenas duas informações cruciais por cada um. Uma a critério do autor, a outra a critério do próprio Deus.

Parece uma confusão dos infernos, não? Era bem pior que isso. Era totalmente absurdo, inviável, e em poucas semanas tínhamos na mão, não um romance, mas um desastre ferroviário pavoroso. Tremenda falta do que fazer. Foi divertidíssimo.

O texto do Rogério, futuro crítico de cinema que marcaria época no jornalismo carioca com suas sinopses mordazes de filmes na TV (uma pequena amostra aqui), jantou os nossos porque ele era àquela altura o escritor mais maduro da turma. Não na idade, mas no encontro de certa voz personalíssima.

Enquanto nós (eu pelo menos sim) cometíamos o erro óbvio de entrar no jogo tateantes, tentando ganhar tempo, aprendizes à procura de um estilo, o Rogério trazia pronta a mistura coloquial, engraçada e rigorosa de literatura noir com carioquice popular que ia desenvolver em livros como “Madame Satã – Com o diabo no corpo”, perfil publicado pela coleção Encanto Radical da editora Brasiliense, e o delicioso romance “Anjo caído” (Xenon).

Aprendi com ele que a literatura é um pega-pra-capar como qualquer outro ramo da existência – nem tão distante da vida, afinal. A diferença é que os personagens que morriam aos borbotões em nossa história policial insana não deixavam um vazio tão grande na paisagem afetiva dos mortais sobreviventes quanto a morte do Rogério deixa agora na minha.

O Arthur Dapieve – que então ainda não conhecíamos, mas que logo ia se juntar àquela turma de escritores aspirantes – escreveu ontem em sua coluna no “Globo” um texto de despedida bem melhor, mais sensível e sensato do que este, que comete o erro óbvio de falar mais de um joguinho literário menor do que do amigo maior que pretendia homenagear.

Acho que vou precisar de mais tempo. Talvez não aprenda nunca.

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02/05/2015

às 9:00 \ Resenha

Knausgård: o inesperado poder da hiperbanalidade

Karl Ove Knausgard in Helsinki, Finlnad - 29 Sep 2011Por que alguém leria milhares de páginas autobiográficas de um escritor norueguês que levou e leva uma vida nada excepcional? Páginas centradas em experiências comuns como os problemas de relacionamento de um filho sensível com o pai fechadão e o medo que ele tem de repetir o modelo paterno desastroso quando se encontra por seu turno às voltas com fraldas e mamadeiras, enquanto se angustia por ver escorrer entre os dedos como areia (com clichê e tudo) o tempo que preferiria investir na produção de uma obra literária capaz de dar sentido a uma vida gratuita?

Boa pergunta. Talvez porque o sujeito drible poeticamente a banalidade, transfigurando o cotidiano por meio de uma linguagem espetacularmente inventiva? Não, pista falsa: a banalidade pinga de cada página como o óleo esverdeado de um arenque em conserva. O fato é que com tudo isso – e ainda com os repulsivos ecos hitleristas do título – a série “Minha luta”, de Karl Ove Knausgård, tornou-se um fenômeno de popularidade na Noruega, onde vendeu perto de meio milhão de exemplares (número quase ofensivo se levamos em conta que o país tem pouco mais de cinco milhões de cabeças), e um modismo intelectual no restante da Europa e nos Estados Unidos.

Faz sentido? Faz, mas não é fácil dar conta dele. Às vésperas do lançamento, pela Companhia das Letras, de “A ilha da infância”, o terceiro dos seis volumes não cronológicos de “Minha luta” (os primeiros são “A morte do pai” e “Um outro amor”), vale a pena tentar entender por que ler Knausgård é uma experiência tão forte, em que o aborrecimento luta o tempo inteiro contra o fascínio – e perde. Acho que falo por uma legião quando concordo com a fórmula sucinta do crítico James Wood: “Mesmo quando eu estava entediado, eu estava interessado”.

Logo no início do segundo volume, o narrador, que volta e meia aparece no ato de escrever (e refletir sobre) o livro que estamos lendo, diz que a “busca de uma coisa diferente” deve ser a preocupação número um de todo escritor: “Essa era a única obrigação na literatura, em todos os outros aspectos ela permanecia livre, mas não nesse, e os escritores que o negligenciavam não mereciam nada além de desprezo”. Digamos que seja possível concordar sem reservas com tal afirmação. O modo como Knausgård vai buscar sua “coisa diferente” é que é, ele mesmo, diferente do modo como a diferença vem sendo buscada.

Quem já esteve à frente de uma oficina de “escrita criativa” ou no júri de um prêmio literário conhece bem um defeito comum em textos imaturos, aquela doença infantil do realismo em que o narrador se julga obrigado a contar tudo. Alguém entra no botequim. “Bom dia”, diz o homem atrás do balcão. “Bom dia”, responde o recém-chegado. “Parece que vai chover”, diz o dono da birosca. “Parece mesmo.” “Quer o de sempre?” “Não, hoje estou com pressa. Só um café preto, por favor.” “Sem açúcar, certo?” “Certo, obrigado.” “No copo ou na xícara?” “Pode ser no copo.” Diálogos como esse podem se estender por muitas páginas tediosas, sem propósito algum além de marcar o tempo transcorrido entre o momento em que o homem entra no botequim e aquele em que, saindo, vai cruzar na calçada com a linda estranha que acabará levando ao altar na página 120.

O remédio mais óbvio contra a doença da prosa banal é a edição, a elipse, o enxugamento, tudo o que reduza a narrativa ao essencial: um encadeamento de momentos significativos. (Sim, um diálogo vadio com o dono do botequim tem lugar aqui, desde que de alguma forma deixe pistas sutis, hemingwayanas, sobre a solidão do herói, o estado de vulnerabilidade emocional que vai se escancarar em seguida diante da mulher na calçada.) Tudo deve se dar numa velocidade suficiente para desafiar a lei da gravidade, ou seja, para que o leitor não tenha tempo de perceber que a prosa, ao contrário da poesia, é por definição prosaica, pedestre, pouco inclinada ao sublime – aquilo que o poeta Paul Valéry satirizou notoriamente na frase “A marquesa saiu às cinco horas”.

Há também remédios menos óbvios, e a história da literatura no século XX pode ser vista como uma longa prateleira de farmácia onde eles se enfileiram. São variados, mas com um objetivo comum: por meio do fluxo de consciência, do recurso a neologismos, do surrealismo, da estilização radical ou de outras formas de experimentalismo vocabular e sintático, trata-se de dar à linguagem uma densidade e uma estranheza que façam cada palavra brilhar como se estivesse sendo pronunciada pela primeira vez. Ou seja, trata-se de aproximar a prosa da poesia.

Knausgård não faz nem uma coisa nem outra. De gosto estético francamente passadista, os caminhos da arte moderna o deixam frio, como confessa na página 242 do primeiro livro: “Eu havia estudado história da arte, e estava habituado a descrever e analisar a arte. Mas jamais escrevi sobre o mais importante, a experiência da arte para mim. Não apenas porque não seria capaz, mas também porque os sentimentos que as pinturas despertavam em mim iam de encontro a tudo o que eu aprendera sobre o que era arte e para que ela servia (…) A arte contemporânea, em outras palavras, a arte que em princípio deveria ter importância para mim, não levava em conta os sentimentos produzidos por uma obra de arte”.

É o “sentimento”, palavra fora de moda, que o escritor norueguês persegue: a transcendência, o enlevo, o desejo de “estar dentro da inexaurabilidade”, coisas que já não cabem em nosso vocabulário estético mais sofisticado senão como ideias cafonas. Acredito ser essa ânsia que o leva a buscar um efeito literário novo por meio de dois movimentos contraintuitivos: em vez de narrar menos, fugindo do banal, ele narra mais, muito mais do que jamais sonhariam ser possível aqueles novatos da oficina mencionados ali atrás, inaugurando uma espécie de hiperbanalidade; e em vez de revestir palavras e frases de um verniz poético, estetizante, segue em frente numa prosa aparentemente descuidada, corriqueira, que não rejeita lugares-comuns e reiterações e muitas vezes se aproxima do ingênuo.

Isso acaba se revelando um achado por mais de uma razão. A linguagem afrouxada, que de naïf não tem nada, leva muitas cenas a se desenrolar em ritmo arrastado, cheio de horas mortas, o que imprime à leitura uma sensação meio entorpecedora de “tempo real”, de vida-como-ela-é. É como se o autor tivesse realizado a aspiração impossível da linguagem como transparência perfeita, que nada refrata da experiência real – um artifício, claro. A mesma pegada frouxa lhe dá toda a corda do mundo para se extraviar, fazer digressões de dezenas de páginas, misturar pequenos ensaios sagazes com o mais sólido senso comum, ir e voltar no tempo ao sabor da memória. Parece caber tudo ali, sem filtro. Como na vida?

A armadilha no caminho do leitor é camuflada com engenho. A descrição minuciosa de atos cotidianos como preparar um chá exige sempre muitas linhas, como se a cada vez o leitor fosse um ET com amnésia que tivesse que ser apresentado a xícaras, saquinhos, água quente e o modo como tais elementos interagem. Isso poderia – e pode – ser chatíssimo. Mas também poderia – e pode – ser visto como uma volta à infância da linguagem, recuperação de um tempo de frescor em que as relações entre as coisas do mundo ainda não tinham se revestido, pela repetição, de uma pátina de enfado. As cenas capitais do romance, sombrias ou mesmo terríveis, recebem tratamento idêntico, mas a essa altura é tarde para recuar: quem tomou o chá já não pode recusar a cicuta.

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Falo mais de Knausgård, ao lado de Carlos Graieb e Jerônimo Teixeira, no Clube do Livro de TVEJA que entrou no ar esta semana.

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