Blogs e Colunistas

08/02/2012

às 13:19 \ Sobrescritos

Wiki-fluxo de consciências

Escultura do italiano Simone Racheli

A manhã entrava pelos seus milhões de olhos arrastando feito um tsunami lembranças de noites passadas em claro desde a infância pleistoscênica da espécie, tudo atropelado aos borbotões para ir desaguar na privada com estrias de alfabetos esquecidos que ele contemplava agora bem de perto, cabeças inumeráveis enfiadas ali.

Era como se quisesse desnascer útero adentro daquelas linhagens imemoriais de deusas gordas da fertilidade que contemplavam a cena espremidas holograficamente no banheirinho atrás da rodoviária, coristas glutonas da Broadway com seus sorrisos de domínio e castração.

Ele sente que todo o álcool que aqueceu, desinfetou e depois escalavrou seu tubo digestivo e os de seus mais remotos antepassados e mais imprevisíveis descendentes quer agora retornar, fazer o caminho inverso, vazar para o cosmo num rio de plasma que logo tentará afogar o sol.

Miríades de olhinhos piscam frenéticos, que agonia. O último suspiro escapa da alma do último personagem e se dissolve na indiferenciação de um universo hostil. Pronto, pronto.

O autor está morto, a subjetividade está morta, apregoam, com pequenas variações, quatrocentos quatrilhões de cartazes numa passeata silenciosa contra um inimigo que já não está lá.

No que você está pensando?, pergunta o algoritmo.

06/02/2012

às 15:27 \ Pelo mundo

Auster x Erdogan: quem disse que escritor não morde?

O bate-boca entre Paul Auster (à esq.) e o fogoso primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tem um certo tom farsesco, mas é uma bem-vinda prova de que os escritores, se já não gozam do cartaz de antigamente, ainda podem atuar como consciência crítica dos poderosos – talvez sobretudo em temas como direitos humanos em geral e liberdade de expressão em particular. Aqui (em inglês), uma boa nota da “Time” digital sobre o caso.

Para resumir: numa entrevista à imprensa turca, Auster disse ter cancelado uma visita ao país porque seu governo mantém dezenas de jornalistas presos por crime de opinião. Erdogan se queimou e recorreu à ironia num discurso aos membros de seu partido, de inclinação muçulmana: “Oh, nós realmente dependemos do senhor!”, disse, como se se dirigisse ao escritor do Brooklyn. “Quem liga se o senhor vem ou não? A Turquia vai perder prestígio?”

Em seguida, botou Israel no meio e a conversa degenerou, mas de uma coisa a reação de Erdogan deu bandeira: a mordida do intelectual novaiorquino que escreve ficção – uma criatura sem dentes, como nos acostumamos a pensar – doeu.

*

ERRO DE EDIÇÃO: Não é a primeira vez que acontece. Sete, a crônica dominical que publiquei ontem em minha outra coluna, Sobre Palavras, estava muito bem lá até que, relendo-a hoje, lamentei não tê-la publicado aqui, como um Sobrescrito:

Não faz sentido a palavra, se bem me lembro do sonho. É só um certo arrepio: o eco do seu silêncio no avesso do sussurrado sinônimo do seu oco.

*

EGO DE EDIÇÃO: Pode ser visto aqui o vídeo de minha conversa no IMS-RJ com um Verissimo sobre o outro – com Luis Fernando sobre Erico, meu primeiro mentor literário, e em especial sobre seu romance “Incidente em Antares”. LFV dá um show de loquacidade, o que já vale o ingresso.

03/02/2012

às 12:02 \ Pelo mundo

Como (não) recitar poesia

De vez em quando um leitor me pergunta se tenho alguma coisa contra poesia, um tema que nunca abordo aqui no blog. Sempre explico – e explico agora de novo – que não, claro que não tenho nada contra poesia. Ocorre que é preciso fazer escolhas e a do Todoprosa é falar só de prosa, como o nome indica. Questão de foco.

O que nunca acrescentei, mas acrescento agora, é que existe um aspecto da poesia que realmente não costuma me cair bem: a recitação. Talvez porque eu suspeite da musicalidade fácil das palavras, como João Cabral. Ou quem sabe o pessoal anda abusando mesmo da afetação nos saraus da vida.

Refletindo sobre essas questões, decidi abrir uma exceção e… falar de poesia! Mais especificamente, de recitação de poesia: o Pop Literário de Sexta traz um hilariante vídeo tutorial (em inglês) que ensina tudo o que não se deve jamais fazer ao ler poesia em voz alta, a menos que se almeje o ridículo. Algumas dicas:

Insira pausas… nas frases… quer elas estejam lá… ou não.

Leia versos que não são perguntas… como perguntas?

Chegando perto do fim do poema? TALVEZ O PRÓXIMO VERSO DEVA SER GRITADO PARA DAR ÊNFASE! E TALVEZ SEJA TAMBÉM UMA PERGUNTA?

Sendo assim… BOM FIM DE SEMANA!… a todos?

01/02/2012

às 13:37 \ Pelo mundo

As mais belas livrarias do mundo

Selexyz é o nome da livraria das fotos acima, diante da qual um lugar-comum como “templo dos livros” ganha uma inesperada força expressiva. Foi montada no interior de uma antiga igreja dominicana em Maastricht, na Holanda, e vem em primeiro lugar entre as 20 livrarias mais belas do mundo, segundo uma das mais inspiradoras listas que o Flavorwire já compilou. O Brasil também comparece (com a Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo).

*

Se essa lista fosse um documentário, poderia ter a narração em off de Jonathan Franzen, que acaba de recitar (aqui, em inglês) no festival Hay de Cartagena, na Colômbia, a maior defesa dos livros impressos ouvida nos últimos tempos. De forma um tanto surpreendente, o autor de “Liberdade” não se referiu ao aroma inebriante da tinta no papel ou algum outro clichê do gênero. Atacou justamente aquilo que os entusiastas do meio digital mais exaltam: a aura de impermanência – ou seja, a plasticidade, a permeabilidade, a interatividade, o compartilhamento, a coautoria – do texto lido na tela.

“Talvez ninguém ligue para livros impressos daqui a cinquenta anos, mas eu ligo”, disse Franzen, um dos autores confirmados na próxima Festa Literária Internacional de Paraty. “Quando leio um livro, tenho nas mãos um objeto específico, num lugar e numa hora específicos. O fato de que, quando tiro o livro da estante, ele ainda diz a mesma coisa – isso é reconfortante. Alguém trabalhou duro para tornar a linguagem exatamente adequada, bem do jeito que queria. E tinha tanta certeza disso que mandou imprimir o texto em tinta sobre papel. Uma tela sempre dá a impressão de que podemos deletar aquilo, mudar, mover. Para uma pessoa louca por literatura como eu, não é permanente o bastante. Tudo mais na vida é fluido, mas ali está aquele texto que não muda. Ainda haverá leitores daqui a cinquenta anos que pensem assim? Que terão essa fome por algo permanente e inalterável?”

Eu diria que sim, haverá. Como também haverá livrarias que parecem catedrais. Mas isso é só um chute, claro. Em 2062 a gente conversa.

30/01/2012

às 12:45 \ Pelo mundo

Como viver, por Vila-Matas

Enrique Vila-Matas publicou na última sexta-feira no “El País” o artiguete que traduzo abaixo:


Embora inconciliáveis entre si, três atitudes diante da arte literária podem ser igualmente fascinantes. No fundo, as três respondem à questão de como posicionar-se diante do mundo, como viver. Se me perguntassem, seria difícil precisar com qual me afino mais, pois todas têm a mesma carga de verdade íntima, o que não faz mais que comprovar que, como sustentava Niels Bohr, o oposto de uma verdade não é uma mentira, mas outra verdade.

Mesmo assim, reconheço que por algum tempo tive minhas preferências e admirei, acima de todas, a atitude elegante dos solitários, dos que têm desejo de clausura, de torre de marfim, uma necessidade de isolamento para atender apenas à sua obra. Tudo mudou quando me dei conta de que estava reparando apenas em criadores de indiscutível estatura moral e intelectual; andara estudando, por exemplo, Wittgenstein, lendo tudo sobre o ano que ele passou em radical solidão na cabana de Skjolden, na Noruega, onde sentiu uma grande euforia ao ver que podia se dedicar inteiramente a si mesmo, ou melhor, ao que acreditava ser a mesma coisa, a sua lógica, o que lhe permitiu ter pensamentos que eram “inteiramente seus”.

Tão certo quanto as obrigações e expectativas impostas pela vida social restringirem a liberdade de se concentrar na obra é o fato de que o isolamento pode produzir um tipo de escritor escassamente gentil e intelectualmente limitado, eu diria que muito comum em nossa terra, ensimesmado em seu mundinho cultural provinciano, depreciativo com os vizinhos europeus e latino-americanos, fechado à contribuição dos outros, jamais aberto ao diálogo com o contemporâneo.

Perceber essa sombra escura na atitude de tantos solitários me fez abandonar a admiração irrestrita pelo isolamento, e passei a achar mais inspiradoras as atitudes abertas; atitudes profundamente democráticas e festivas, como a de Michel de Montaigne, por exemplo: “Meu modelo essencial é adequado à comunicação e à revelação. Sou aberto, à vista de todos, nascido para a companhia e a amizade”.

O ensaísta francês – conta Sarah Bakewell em seu excepcional e muito recomendável ‘Como viver ou uma vida com Montaigne’ – adorava se misturar com os outros, e sabe-se que conversar com o vizinho ou com o visitante estrangeiro era algo que apreciava com gosto especial. Não era portanto estranho que, estando a dialogar, o fizesse também com os clássicos, e que citações textuais destes se encontrassem inscritas nas vigas do teto do torreão em que ele trabalhava e de onde, em animada palestra com seus autores preferidos, mostrou-se convencido de que “relaxamento e cortesia”, o que chamava de “uma sabedoria alegre”, ajudavam a tornar a vida mais tolerável e a adotar uma melhor postura diante do mundo.

A terceira atitude é a de quem se irmana com o silêncio inexorável ao qual tudo se encaminha. Esta atitude é muito bem resumida em ‘Adeus’, o poema em que Rimbaud conta que, tendo ardido depressa demais, busca já seu próprio outono e o silêncio. “Busquei inventar flores novas, astros novos, carnes novas, idiomas novos. Julguei ter poderes sobrenaturais. Agora, devo sepultar minha imaginação e minhas lembranças!”, diz, e parece já nos dar as costas, como se quisesse fechar a mala com que viajará à Abissínia. Não muito tempo depois, completaria com estas palavras sua despedida: Maitenant je puis dire que l’art est une sottise (Agora posso dizer que a arte é uma estupidez). Mas naturalmente, querido Rimbaud: é claro que a literatura, como toda forma de arte, é uma estupidez. No entanto, sem a arte a vida não teria muito sabor, talvez nem mesmo sentido. Além do mais, a estupidez da arte não passa da demonstração mais simples de que a vida não basta. E por isso continuamos a falar dela, às vezes só para dialogar sobre a melhor forma de vivê-la.

Faltou dizer que às vezes o diálogo fica tão bom que precisa dar lugar ao monólogo. Um dia quem sabe eu respondo; por enquanto só leio, feliz.

27/01/2012

às 14:44 \ Pelo mundo

O cânone russo de Putin: literatura e poder, tudo a ver?

Não é simples dar conta da notícia de que Vladimir Putin, ex-presidente, atual primeiro-ministro e novamente candidato à presidência da Rússia, propôs num longo artigo de jornal – intitulado “Rússia: a questão étnica” – a formulação de uma lista oficial de cem livros que traduzam um certo espírito russo, a serem adotados nas escolas de todo o país como forma de fortalecer sua unidade cultural.

O jornalista russo Alexander Nazaryan, residente nos Estados Unidos, optou neste artigo (em inglês) por encarar a notícia pelo lado escuro – o que no caso do primeiro-ministro, ex-agente da KGB, faz sentido – e comparar Putin a Adolf Hitler no nacionalismo exacerbado e manipulador. “Engenharia social por meio de uma literatura sancionada pelo Estado: nenhum outro ato de Putin até agora foi tão escancaradamente soviético em seu desejo de manipular e subjugar o intelecto humano”, alarmou-se Nazaryan, prevendo como contraponto ao cânone oficial uma lista de livros banidos, embora Putin não toque neste assunto.

Eis o lado ruim, certo, mas qual seria o bom? Simples: o fato mesmo de acharem – Putin e Nazaryan – que a literatura tem essa importância toda em pleno século 21. Tanto as ideias do primeiro-ministro quanto as de seu crítico soam curiosamente obsoletas a uma sensibilidade ocidental contemporânea, não soam? Será que esses caras estão falando mesmo de literatura? Como “fortalecer a unidade nacional” ou “subjugar o intelecto humano” com um instrumento tão ultrapassado – diria o cidadão médio, com sua dieta cultural dividida entre a internet e a TV –, que só interessa a uma meia dúzia minguante de pessoas? Ah, esses russos…

A polêmica deflagrada por Putin atualiza o imemorial paradoxo do censor, que leva a sério – e quase sempre ajuda a consagrar – o livro que proíbe como “perigoso” ou “imoral”. Vale trazer para a conversa outro russo, este naturalizado americano, o poeta Joseph Brodsky: “Existem crimes piores do que queimar livros. Um deles é não lê-los”.

Registre-se que Brodsky, que ganhou o Nobel em 1987, foi expulso da União Soviética em 1972, depois de ser preso e condenado como “parasita social”. Teve a sorte de ter vivido na era pós-Stálin, que, pelo número de poetas que mandou matar, credencia-se ao título de maior entusiasta do poder da lira que já viveu.

25/01/2012

às 13:14 \ Vida literária

Erico no IMS, McCarthy no Twitter, Franzen na TV

Amanhã à noite terei uma conversa íntimo-pública com Luis Fernando Verissimo sobre “Incidente em Antares”, o último romance do pai dele, diante de uma plateia de bolso no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Lançado em 1971, o divertido livro em que Erico Verissimo (foto) cutucava a ditadura no auge da repressão e flertava com o “realismo mágico” latino-americano pela via do humor rasgado – além de passar bem perto de antecipar a moda moderninha dos zumbis – já tem um pouco mais de quatro décadas, mas a comemoração do aniversário atrasou.

Fiquei tão honrado quanto surpreso ao ser convidado para o evento por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que detém o acervo do maior nome da literatura gaúcha. Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos?

Pois é, ela não sabia. O que me deixa com a sensação – nada desagradável, devo reconhecer – de ter feito algumas escolhas certas na vida. Não é só numa cidade fictícia com nome de estrela às margens do rio Uruguai que os mortos podem cruzar nosso caminho.

*

Como assim? O recluso Cormac McCarthy aderiu ao Twitter? Era alarme falso, mas Margaret Atwood, tuiteira emérita, acreditou. No blog de livros do “Guardian”, Alison Flood lançou um apelo: “Permaneçam reclusos, ó ícones da literatura americana, eu imploro!”.

*

Com a produção de uma série baseada em “As correções”, que terá roteiros escritos pelo próprio Jonathan Franzen, e a aquisição dos direitos de adaptação de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, a HBO entra com tudo no terreno – até aqui esnobado pela televisão – da literatura contemporânea “séria”. Boa notícia, certo? No “The Millions”, A-J Aronstein não está tão certo disso e (em inglês) especula que…

…devemos refletir sobre as implicações de sugerir [como teria feito, segundo ele, um empolgado Franzen] que as capacidades estéticas da televisão podem complementar ou mesmo suplantar as dos romances. Uma vez na vida, não perguntemos se “o romance vai sobreviver”, e sim o que significa o fato de seu futuro depender da relação com a TV – e se essa relação será produtiva a longo prazo.

*

Em sua coluna de ontem no “Globo”, Pedro Doria saudou a chegada do “gratuito e trivial” iBook Author, software da Apple dedicado à edição de livros eletrônicos para iPad, no qual é simples como jamais foi acrescentar ao texto fotos, vídeos, recursos interativos etc.:

A notícia não é necessariamente boa para editoras. O filho do vizinho pode compor o livro eletrônico e submetê-lo para venda na loja da Apple sem que nenhum editor o veja. Passa por cima do intermediário. Taí um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido. Mas para fotógrafos com vontade de experimentar, designers com projetos dentro da gaveta e autores de livros infantis, a porta se abre repentinamente.

Não duvido que fotógrafos, designers e autores de literatura infantil façam a festa. Mas confesso que estarei mais atento ao que farão com a ferramenta autores de ficção literária adulta. Será o iBook Author a peça que faltava para que finalmente se ponha em curso aquela revolução pregada há alguns anos pelos entusiastas do meio eletrônico – a da explosão da arte narrativa num admirável mundo tridimensional de sons, imagens, interatividade e, bem, até mesmo palavras?

Vamos ver. Meu palpite é que, se a coisa não andar agora, não anda mais.

23/01/2012

às 13:01 \ Pelo mundo

Quer ganhar aumento? Leia Guimarães Rosa

Assolado por uma sensação de perda de tempo toda vez que abre “Em busca do tempo perdido”? Em busca de uma razão utilitária para ler – com perdão da palavra – ficção? Bem, a executiva americana Anne Kreamer também estava, até que descobriu uma série de pesquisas que associam a leitura de ficção literária com “inteligência emocional”, empatia, capacidade de imaginar o outro e se adaptar a situações novas, eficiência no trabalho em equipe – e, como consequência de tudo isso, maiores chances de descolar bons salários no mundo corporativo, especialmente na era da globalização.

O artigo (aqui, em inglês, no blog da Harvard Business Review) vale mais como curiosidade do que como guia de comportamento para futuros executivos. Por um lado, o que Anne Kreamer afirma não é muito diferente de algo que já virou lugar-comum entre letrados, uma espécie de último reduto de “relevância social” da ficção num mundo em que ela perdeu centralidade: aquilo que Amós Oz chama de “antídoto contra o fanatismo”, a “virtude moral” de exercitar sistematicamente a imaginação de tudo que ultrapassa o círculo limitado do ponto de vista individual do leitor. (O mesmo vale para histórias contadas em filmes, peças de teatro etc.? Vale, mas deve-se levar em conta que nenhuma outra arte narrativa deixa tanto espaço para a imaginação do receptor quanto a literatura.)

O que torna pitoresco o raciocínio da executiva é a disposição de apressadamente passar daí à auto-ajuda explícita, trazendo para a literatura corporativa uma visão utilitária da ficção semelhante àquela que, no campo mais amplo da terapia e do aprimoramento individual, levou o escritor Alain de Botton (de “Como Proust pode mudar sua vida”) a abrir em Londres um estabelecimento chamado, sem modéstia alguma, The School of Life.

Embora, por múltiplas razões – inclusive utilitárias – eu sempre esteja inclinado a subscrever o argumento pró-ficção de Amós Oz, fico cético diante da conversa de Anne Kreamer. Em parte por já ter cruzado com grandes leitores de ficção que, em termos de “inteligência emocional”, não se sairiam melhor que uma toupeira. Em parte também por ter uma imensa dificuldade de acreditar que as bibliotecas dos executivos mais bem pagos do mundo sejam tão interessantes assim. A razão principal, porém, é anterior a tudo isso: a convicção de que, embora possa acabar tendo diversos tipos de impacto na vida do leitor, o consumo apaixonado de ficção literária é um prazer que só se consegue abraçar num espírito de absoluta gratuidade. Quem entra nessa para ganhar alguma coisa já perdeu.

20/01/2012

às 10:52 \ Pelo mundo

Como não escrever um romance – o escracho

O livro é de aconselhamento literário do tipo sério – ou quase isso. O filmete de animação (em inglês) que acompanhou seu lançamento, porém, é puro escracho, com aquela sátira da vida boêmia podre de chique à la Scott e Zelda Fitzgerald que já era falsa no original: como escrever um bom romance, ganhar rios de dinheiro e ser sexualmente irresistível, tudo sem derramar o dry martini? Tem coisas que só o Pop Literário de Sexta faz por você.

18/01/2012

às 13:16 \ Resenha

‘E foram todos para Paris’: uma viagem na primeira classe

Terá começado com o fim da Primeira Guerra Mundial, nos passos de John dos Passos e e.e. cummings? Ou antes disso, com o desembarque do crítico de arte Leo Stein, irmão de uma certa Gertrude? Ou teria sido alguns anos mais tarde, quando lá pôs os pés pela primeira vez um sujeito chamado Ernest Hemingway – que se tornaria seu principal divulgador e figura mais emblemática? Seja como for, o fato incontestável é que a mitológica Paris da chamada Geração Perdida é uma criação americana, celebrada nostalgicamente por geração após geração de artistas americanos – o último deles, o cineasta Woody Allen, com o divertidíssimo “Meia-noite em Paris”.

Se a mitologia parisiense dos anos 1920-1930 tem em seu coração esse drástico deslocamento geográfico-cultural, não é tão espantoso que seu mais sucinto e espirituoso guia turístico-literário seja de autoria não de um americano, nem de um francês, mas de um brasileiro. Em “E foram todos para Paris – Um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia.” (Casa da Palavra, 128 páginas, R$ 39,30), o jornalista Sérgio Augusto equilibra num volume magro e bem ilustrado, que se presta tanto à leitura corrida quanto à consulta, o rigor no acompanhamento de diversas encarnações de endereços parisienses relevantes, tanto públicos quanto privados, e a fina prosa em que conta as histórias a eles ligadas.

Nascido como uma longa reportagem especial de turismo publicada em 1990 pelo jornal “Folha de S. Paulo”, o guia de Sérgio Augusto virou, por duas décadas, um “roteiro de viagem cultivé” (palavras do autor) para uma turma de entusiastas dispostos a se apegar àquelas páginas cada vez mais esfarelentas e amareladas. Além de ter conteúdo atualizado, o livro vem resolver esse problema do suporte.

Quando quer que tenha começado a tal “festa ambulante” de Hemingway, “E foram todos para Paris” sabe bem onde tudo acabou: no capítulo O último endereço, acompanha ilustres expatriados americanos até a dita “morada eterna” nos cemitérios de Père Lachaise, Montparnasse, Montmartre e Passy. O que equivale a dizer, claro, que não acaba mais.


 

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