Blogs e Colunistas

30/08/2014

às 9:00 \ Vida literária

‘O fim está próximo!’, disse o profeta antes de morrer

homer profeta do apocalipseLeio em minha tela, no espaço de alguns dias, uma entrevista de Philip Roth em que o escritor americano repete sua ladainha de que a cultura literária chegará ao fim em poucos anos, assassinada pela cultura digital e pelo fascínio que as novas gerações sentem por engenhocas eletrônicas; um artigo da Salon.com em que os escritores Josh Weil e Mike Harvkey refletem com humor sobre a diferença entre o tratamento de astros do rock que os escritores da geração de Roth recebiam de editores e leitores ao viajarem para promover seus lançamentos e o esqueminha pobre e familiar que impera hoje; a notícia de que o Facebook vai combater a proliferação de chamadas caça-cliques, que substituem a apresentação minimamente honesta do assunto por uma provocação marota que sempre promete mais do que entrega; e uma infinidade de certezas antagônicas e inabaláveis expostas com agressividade nas redes sociais sobre todos os assuntos do mundo, em especial a campanha eleitoral brasileira. Em resumo: rotina, nada além de rotina.

Como a dispersão da internet não é brincadeira, leio muitas outras coisas em minha tela nesses mesmos dias. Inclusive a notícia absurda de que a criadora da personagem infantil Hello Kitty negou que ela seja, como parece, uma gata (afinal, anda ereta e não de quatro, o que necessariamente faz dela uma menininha!), ignorando assim os bigodes fartos da figura, a longa tradição de bichos antropomórficos da cultura pop e o princípio saudável de que autores, azar o deles, não detêm a palavra final sobre o modo como suas criaturas são compreendidas. O fato é que a ridícula polêmica da Hello Kitty não ficou comigo por mais de cinco minutos, ao contrário dos itens listados no parágrafo acima, que só à primeira vista dão razão, em sua miscelânea errática, à visão sombria de Philip Roth sobre o fim da cultura literária e, junto com ela, da exigência de que os pensamentos se encadeiem de forma lógica e persistente para chegar a algum lugar (cultura escrita), em vez de saírem em revoada para todos os lados ao mesmo tempo (cultura digital).

O desenho que a superposição dessas leituras zapeantes desenhou em minha cabeça é feito de claro-escuro. A cultura literária como Philip Roth a conheceu está sem dúvida com os dias contados, mas ele logo estará morto, e o mundo continuará a ler. Algo parecido pode ser dito do desconforto crescente que sinto diante da enxurrada de opiniões, provocações, dogmas, preconceitos e demonstrações de vileza canalizados todos os dias pelas redes sociais, uma espécie de esgoto a céu aberto que é a marca mais forte da cultura de nosso tempo e que, sendo assim, não vai passar tão cedo – mas eu vou, e o mundo continuará a produzir seus rios de chorume e também a desafiar os que insistem em recortar sentidos na cacofonia.

Sempre que encontro uma visão apocalíptica como a de Roth e sinto a tentação (quem, já tendo passado dos quarenta, não sente?) de lhe dar razão, lembro-me de uma frase escrita em fins do século XVII pelo francês Adrien Baillet, biógrafo de René Descartes. Escandalizado com a explosão da indústria livreira e com o excesso de pessoas dispostas a consumir os volumes que ela cuspia no mercado em ritmo crescente, obedecendo a uma lógica puramente comercial, sem preocupação com a qualidade de conteúdo e forma, o sensato Baillet deu uma de profeta maluco: “Temos razões para temer que a Multidão de Livros que aumenta a cada dia (…) faça cair os séculos seguintes num estado tão lamentável quanto aquele em que a barbárie lançou os anteriores a partir da decadência do Império Romano”.

Sensacional, não? Troquem-se, na equivocadíssima frase do erudito francês, os livros pela internet: Philip Roth assinaria embaixo. Agora discrimine-se, dentro da internet, o redismo social – eu mesmo ficaria tentado a assinar. No fim das contas, o que mexe com Baillet, com Roth e comigo é a vontade de, no meio da gritaria do mundo, gritar mais alto para que nos ouçam. Nada muito diferente da tentação da chamada caça-clique, que busca a atenção momentânea do leitor, mesmo que para isso tenha que distorcer ou simplificar demais um quadro complexo. Nada muito diferente também do espírito das certezas de aço que, neste tempo riquíssimo em incertezas, são esgrimidas 24 horas por dia nas redes sociais por quem teme acima de tudo o silêncio e a ponderação. É claro que reconhecer essa sinuca de bico não obriga ninguém a aderir, bobo-alegremente, ao novo pelo novo, mas apregoar o fim de qualquer mundo será sempre a projeção patética da finitude do próprio arauto do apocalipse.

23/08/2014

às 9:00 \ Vida literária

Da palavra à palavra inexistente

israel pedrosa“Da cor à cor inexistente” é o nome do extraordinário livro sobre teoria das cores lançado em 1977 pelo artista plástico e pesquisador mineiro Israel Pedrosa (foto), hoje com 88 anos. Comprei-o em 1983, quando, levado por uma namorada de inclinações artísticas eclético-renascentistas, fiz um breve curso dado no Rio pelo autor sobre suas experiências fascinantes na fronteira entre a física e a arte. Aprendi então os rudimentos daquilo que Pedrosa chama de “cor inexistente”, a cor complementar que, ausente da superfície material do quadro, aparece na mente do observador como resultado de um entrechoque de cores calculado pelo pintor.

Eu tinha 21 anos, idade em que os inumeráveis futuros de Borges parecem todos presentes em forma de potência, “secretos, atarefados e multiformes”. Em alguns daqueles futuros, embora eu já estivesse embicado resolutamente no sentido de escrever e não no de pintar, parecia evidente que os escritos de Israel Pedrosa me seriam de grande valia. Tenho o livro até hoje, gosto de folheá-lo de dez em dez anos, mas – da vocação à vocação inexistente – a valia nunca se manifestou.

Até agora.

No mesmo conto em que trata de forma definitiva do tema recorrente dos futuros inumeráveis, Borges abre a porta do passado que me restitui o curso de Israel Pedrosa e o arrepio de excitação difusa, também chamado de intuição, que a “cor inexistente” me provocava. Num trecho do maravilhoso O jardim de caminhos que se bifurcam, do livro “Ficções”, o narrador Yu Tsun trava o seguinte diálogo com o sinólogo inglês Stephen Albert sobre um livro que tem o mesmo nome do conto: um estranho, desconexo, bifurcante romance chinês em que, entre outras incongruências, um personagem morre hoje e aparece vivo amanhã. Albert observa que em nenhum momento é mencionada no livro a palavra “tempo” e pergunta:

– Numa charada cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida?

Refleti um momento e respondi:

– A palavra ‘xadrez’.

– Exatamente – disse Albert. – ‘O jardim de caminhos que se bifurcam’ é uma enorme charada, ou parábola, cujo tema é o tempo; essa causa recôndita proíbe a menção de seu nome. Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas ineptas e a perífrases evidentes, é talvez o modo mais enfático de indicá-la.

“Tempo”, no caso, é o exato equivalente vocabular da cor inexistente de Pedrosa: aquela palavra que, ausente da superfície material do texto, aparece na mente do leitor como resultado de um entrechoque de palavras calculado pelo escritor. E a chave aqui, claro, é a possibilidade desse cálculo. Ninguém ignora, pelo menos desde Leonardo da Vinci, que as cores exercem impacto umas sobre as outras, como não ignora que um texto literário depende daquilo que não é dito de forma explícita. A chave é o uso deliberado e preciso da cor inexistente e da palavra inexistente como efeito estético.

Nas palavras de Pedrosa, trata-se de “fazer avançar o conhecimento lógico para exercer de forma integral o controle sobre essas transformações das cores (mutações cromáticas), base de toda a harmonia cromática, extraindo daí a variável dose desejada de lirismo existente na pureza da linguagem íntima da cor. O que está além dos simples meios materiais empregados: a outra cor implícita no corpo material da cor, a cor que é a alma e essência da cor, e que, no entanto, é ao mesmo tempo a sua aura – o além-da-cor”.

E o além-da-palavra? Impressão minha ou estamos diante de um ambicioso projeto estético pedroso-borgiano, a ser tenazmente desenvolvido – e precocemente abandonado, e premiado, e ridicularizado, e aclamado, e tratado com indiferença – em alguns dos inumeráveis futuros possíveis?

Nesta crônica, por exemplo, a palavra inexistente é a seguinte:

16/08/2014

às 9:00 \ Vida literária

Escrever bem é ter o que dizer. E vice-versa

Cena do filme "Zelig" (1983), de Woody Allen

Cena do filme “Zelig” (1983), de Woody Allen

“Fulano escreve bem, mas não tem o que dizer.” Não lembro onde li essa frase, muito tempo atrás – provavelmente numa resenha ou quem sabe em duas ou três, pois a verdade é que se trata de um semiclichê crítico. Junto com seu autor ou autores, minha memória deixou de registrar também o alvo ou os alvos da diatribe. Foi a frase em si que passou a me assombrar de tempos em tempos em meus primeiros anos de escritor tateante, como se expressasse uma advertência severa e uma verdade terrível.

Então não bastava aprender a escrever? Era preciso também ser possuidor de uma qualidade mais misteriosa, talvez inata, certamente existencial, quem sabe política, que parecia tão fugidia quanto assustadora? Eu acreditava levar jeito para aquela coisa de fazer literatura, sentia que as palavras me mostravam alguma obediência, mas… teria o que dizer? E como uma pessoa que não tem o que dizer descobre, inventa, encomenda, pega emprestado, vai à luta de algo para dizer?

Levou tempo para que eu descobrisse estar diante de uma questão falsa. Saber escrever e ter o que dizer são rigorosamente a mesma coisa, ou melhor, não existe na literatura – ou em arte alguma – a possibilidade de separar “como dizer” e “o que dizer”. Ou se tem o pacote completo ou não se tem nada. Mas essa sabedoria ainda estava distante para quem, batendo cabeça entre admirações contraditórias, passava pela fase da imitação.

Enquanto eu tentava tomar posse do estilo deste ou daquele autor admirado, hoje seco feito Hemingway e Hammett, amanhã barroco e rosiano, uma semana às voltas com doudos pontos-e-vírgulas colhidos em Machado, na outra cuspindo gírias e palavrões coletados em João Antônio e Rubem Fonseca, um dia cronista cômico, no outro mais pesado que um Dostoievski de ressaca – enquanto eu brincava assim, com a maior seriedade, era talvez inevitável que me assaltasse de vez em quando uma dúvida aterradora.

Quando a insegurança batia mais forte, eu era dominado pela suspeita de ser um Zelig das letras. A própria facilidade com que mimetizava tantos estilos parecia então uma prova de que eu não tinha “nada a dizer”. Dominava o como – os muitos comos! –, mas era tudo oco, casca vazia. E por que não seria? Minha vida, em termos objetivos, era comum, razoavelmente feliz, e naquilo que não era feliz vinha a ser mais comum ainda. Claro que, se um dia eu chegasse a publicar alguma coisa, não faltariam críticos para apontar o vácuo gritante: “Ele escreve bem, mas não tem o que dizer!”.

Devo ter perdido um bom punhado de horas de sono com isso. Sim, eu sei: é ridículo. Mas não me parecia ridículo na época e duvido que pareça ridículo hoje a muitos jovens que decidem se aventurar na literatura. Tem se tornado mais arraigada do que nunca a ideia de que a arte é apenas um veículo, entre outros, de significados sociais preexistentes. Em vez de reconhecer seu núcleo irredutível, tratando-a como um valor em si, preferimos admitir que sua linguagem pode até ser sofisticada, para não dizer elitista, mas acreditamos que o que importa mesmo é seu conteúdo, sua “mensagem”. E que aquilo que ela diz poderia ser expresso de outras formas – sociológica, política, crítica, panfletária, jornalística, histórica – sem perda de valor. Tal ideia contém o germe da negação da arte, do obscurantismo absoluto, mas cada vez mais tem passado por avançada e chique. O século XX nos conduziu do pântano do esteticismo ao abismo do filistinismo.

Até conselhos bem intencionados como “Escreva sobre o que você conhece bem” e “Viva primeiro, escreva depois” reforçam a ideia de que para escrever literatura que preste é preciso desembarcar nela, como um viajante consumista voltando de Nova York, com uma bagagem recheada de valiosas “mensagens”. Tais conselhos podem ter sua utilidade, pois viver é sempre bom, mas artisticamente são furados. Fundam-se na supervalorização de um certo conteúdo – no caso, a experiência vivida – sobre a forma. Ocorre que o conteúdo, pouco importa se vivido, imaginado, sonhado ou lido, só existe através da forma e como expressão dela. Se alguém não sabe escrever, não tem o que dizer, e vice-versa. O quê da literatura é fundamentalmente literário.

09/08/2014

às 9:00 \ Vida literária

Desculpe, mas vou falar de futebol

no estilo de jaliscoSerá que já eu já posso voltar a falar de futebol? A pergunta é dirigida a mim mesmo, e a resposta acaba sendo – obviamente, ou você não estaria lendo este texto – sim, mas um sim relutante. Falar de futebol foi o que mais fiz nos últimos dez meses, desde que lancei um romance chamado “O drible”. A Copa do Mundo em que o falatório culminou, e que me fez voltar com prazer maior do que eu imaginava possível aos velhos tempos de jornalista esportivo, teve, porém, o fim que se sabe: o inominável 7 x 1 de Belo Horizonte, 8 de julho de 2014, foi um peixe estragado goela abaixo quando o banquete já se aproximava do fim. Todos os pratos anteriores, por mais gostosos que tivessem sido no momento, passaram a embrulhar o estômago em retrospecto. Aí veio Dunga e… dizer o quê? Melhor mudar de assunto mesmo.

Claro que não havia como sustentar o silêncio por muito tempo. Aquela tarde, os alemães ainda se esforçavam para, conservadores e polidos, manter sua contagem em cinco gols e eu já sabia que teria de tratar do massacre. Que provavelmente estava condenado, na verdade, a revisitar o momento por anos a fio, neurótico, rondando o bicho à procura de um ângulo para abatê-lo. Algo parecido com o que fez Paulo Perdigão ao transformar o fracasso de 1950 no livro “Anatomia de uma derrota”, um monumento à obsessão e um dos grandes clássicos da literatura brasileira de futebol.

Desde o início tem sido difícil sacudir a sensação de que aquela goleada – por sua dimensão inédita, seu aspecto comicamente vexaminoso, o desmoronamento minucioso de um orgulho longamente construído – significa mais do que parece significar. Estaremos diante de, meu Deus, uma metáfora? Serei forçado pela enormidade dos números a cair finalmente no truque que me empenhei em driblar ao escrever “O drible”, o de achatar a complexidade do futebol para transformá-lo em uma didática “metáfora do Brasil”? Bom, que o 7 x 1 parece um placar condizente com nosso desempenho, ano após ano, na Copa do Mundo da Educação, isso parece… Com o agravante de que nessa goleada pouca gente está prestando atenção, como comprova mais uma campanha presidencial em que, a julgar pelos primeiros balbucios, o tema da majestosa ignorância brasileira vai passar batido.

Mas por que a pressa, se o 8 de julho continuará aqui por anos e anos?

*

Sou tirado do silêncio pelo ótimo artigo de Nuno Ramos na revista “piauí” de agosto. Sob o título Depois do 7 x 1, o artista plástico e escritor discorre com lucidez sobre diversas faces do desastre do Mineirão, mas sua tese central pode ser resumida na ideia de que perdemos de forma acachapante porque entramos com uma escalação ofensiva e dispostos a massacrar o adversário justo na partida em que enfrentaríamos o melhor time da Copa – isso depois de uma série de atuações medrosas contra adversários piores e, o que é mais grave, estando desfalcados de Neymar e Thiago Silva, nossos principais jogadores. Por que cometemos tal desatino? Ramos atribui a culpa à nossa “cultura esportiva”: porque esse seria o “verdadeiro futebol brasileiro”, entidade mítica cujo retorno estaríamos sempre a esperar, num caso de sebastianismo clássico.

A postura do autor é realista. Faltaria ao futebol brasileiro atual reconhecer suas limitações, que não são poucas, e construir times competitivos a partir daí, explorando as qualidades que também, inegavelmente, temos. Nosso futebol não se enxerga. Concordo com a ideia de que o pensamento mágico é um estorvo. Andei batendo nessa tecla em minha cobertura da Copa, ao identificar no abismo entre a modesta realidade do time e a fantasia ufanista de seu poder – um buraco que se tentou aterrar com pura “emoção” – a fonte do chororô dos jogadores, dilacerados entre duas dimensões inconciliáveis.

Receio, porém, que depois daquele 7 x 1 o realismo seja remédio insuficiente, fracote. Vitórias pragmáticas jamais serão capazes de reconstruir o edifício de prestígio que jaz em milhões de cacos. Só a apoteose improvável de voltarmos a jogar o futebol mais belo, irresistível, revolucionário do mundo pode nos salvar. Que venha D. Sebastião, e de penacho, ou nada mais dará certo – o que para todos os efeitos é o mesmo que dizer que já não deu. Nesse momento chegamos perto do que o 7 x 1 tem de inominável.

*

A melhor resposta a tal tipo de charada sombria costuma vir da imaginação dos ficcionistas. Recomendo a todo mundo que ainda cuida da ferida aberta no dia 8 de julho a leitura do único bálsamo que encontrei desde então: a novelinha “No estilo de Jalisco”, de Juan Pablo Villalobos (Bateia/Realejo, 94 páginas). Escrita diretamente em português pelo autor mexicano de “Festa no covil”, trata-se de uma homenagem comovente ao passado de glória do futebol brasileiro e, ao mesmo tempo, de uma divertida tiração de sarro com a impossibilidade de reviver a glória do passado – qualquer glória, de qualquer passado.

Sem adiantar detalhes que possam estragar o prazer do leitor, acho seguro contar que Villalobos (que a transparência manda identificar como autor da luxuosa tradução de “O drible” para o espanhol, publicada em maio pela editora Anagrama com o título El regate) imagina uma repetição da Copa de 1970 como farsa grotesca. Sósias ou nem-tão-sósias de Jairzinho, Carlos Alberto, Tostão, Rivelino e Gérson vão parar no México, levados por um empresário inescrupuloso, para exibir seu futebol de pelada diante de um bando de sparrings uruguaios. Profeticamente, pois o livro foi lançado antes da Copa, o efeito acaba sendo parecido com o do 7 x 1.

02/08/2014

às 9:00 \ Vida literária

O escritor de sobrancelhas de taturana

No momento em que o sol se põe em Paraty, exatamente às cinco horas e trinta e nove minutos, o escritor de sobrancelhas de taturana aparece fazendo festa e pergunta se pode puxar uma cadeira. Pode, claro, sinalizo, dizendo que o café é por minha conta, mas ele explica que cortou esse hábito, a cafeína andava lhe dando tremores nas mãos.

– Quer dizer, talvez a culpa nem seja dela, mas alguém tem sempre que pagar o pato, certo?

O sujeito diz isso erguendo muito as sobrancelhas de taturana, como se a frase tivesse algum sentido maior do que o evidente, uma camada de sabedoria escondida sob a platitude. Não me animo a especular o que tal substrato poderia ser. Ele ergue a mão, que realmente parece um tanto trêmula, para deter o garçom que passa apressado, e pede uma dose dupla de Maria Izabel envelhecida.

– Como é boa a cachaça desta terra, não?

O escritor de sobrancelhas de taturana tem a cabeça lisa feito bola de bilhar, como se seu cabelo tivesse iniciado uma migração para o sul e, detendo-se na divisa inferior da testa, receoso de atravessar a depressão dos olhos, decidido fixar residência ali. Entrelaça as mãos sobre o crânio pelado e se recosta na cadeira, sorrindo.

– Você reparou que em Paraty as estações se alternam num ritmo frenético, né? De dia é verão, de noite é inverno. Ou seja, um minuto atrás era verão, e agora vem esse ventinho gelado como se o Grande Deus Inexistente tivesse decidido ligar o ar condicionado, pode uma coisa dessas? Todo dia a mesma coisa. Quem não tem tempo de voltar à pousada para trocar de roupa faz o quê?

O garçom chega nesse instante com a cachaça dupla, como se os dois tivessem ensaiado esse número.

– Pois é – diz o escritor de sobrancelhas de taturana, erguendo um brinde ao universo indiferenciado. – Quem não tem tempo de trocar o figurino veste um pulôver líquido. Saúde, meu amigo.

Três rodadas depois, o cara diz com voz pastosa que nunca deixou de vir a nenhuma das doze edições da Flip, embora tenha fobia de gente, odeie poetas que abordam os outros na rua, não suporte entrar em fila de restaurante, deplore as pedras irregulares do calçamento e ache esse negócio de falar de literatura uma perda de tempo atroz.

– A literatura só pode ser objeto de dois verbos: escrever e ler. Nessa ordem, claro.

Digo que infelizmente serei obrigado a interromper o papo porque estou atrasado para um compromisso. Não me dou o trabalho de rebuscar a desculpa, que, reconheço, soa estropiada. Como o sujeito parece amuado ao ouvir isso, pergunto numa tentativa de cortesia por que, tendo fobia de gente, odiando poeta de rua, fila de restaurante, calçamento irregular e papo literário, ele nunca deixou de vir a uma Flip sequer.

– Por causa disso – responde, erguendo sua quarta dose dupla de Maria Izabel. Parece acreditar no que diz.

Saio pensando que sim, alguém tem sempre que pagar o pato.

26/07/2014

às 15:15 \ Vida literária

Ariano Suassuna e a orfandade inesperada

ariano suassunaNão é fácil dar conta da sensação – que é sobretudo de um certo vazio, mas eu não estaria exagerando se acrescentasse à mistura notas de luto e desamparo – provocada pela morte de Ariano Suassuna (1927-2014). Não que minha impressão tenha algo de original: é a mesma externada por muita gente em todo o país neste funesto mês de julho que já havia levado João Ubaldo, e principalmente por quem teve algum contato pessoal com o homem.

Amigos confiáveis me dizem que Ariano era uma dessas criaturas iluminadas que despejam sabedoria e bondade sobre tudo e todos à sua volta. Acredito. No entanto, como o máximo de proximidade que tive com ele foi estar na plateia de uma de suas famosas “aulas-espetáculo”, a principal impressão que o autor de “Auto da Compadecida” sempre me causou foi a de um adversário no campo das ideias sobre arte e cultura. Seu agudo senso de humor suavizava, mas não chegava a desfazer o antagonismo.

Afirmar que ele era um nacionalista e um conservador diz pouco. O sujeito era ultranacionalista e ultraconservador, uma espécie de versão nordestina do crítico e pesquisador musical José Ramos Tinhorão, inimigo do internacionalismo da bossa-nova. Como Tinhorão, Ariano Suassuna calcava sua defesa da arte popular nacional no mergulho em fontes primárias, preservadas em uma memória prodigiosa. O valor de tal trabalho, que pode ser visto como uma continuação da cruzada enciclopedística de Mário de Andrade, fala por si.

O problema era aquilo que ele fazia desse patrimônio como pensador da cultura, as lições que tirava daí e que desembocaram em seu “Movimento Armorial”. Tratava-se de um código estrito, severo, arcano e fechado, que me excluía por completo ou assim me parecia. O apego do escritor a uma frase como “o mundo se divide entre os que concordam comigo e os equivocados” nunca ajudou a desfazer essa impressão.

Não só não sou nordestino como pertenço à primeira geração brasileira que foi exposta à TV desde o berço. Fui criado desde muito pequeno à base de doses cavalares e necessariamente heterogêneas de produtos da indústria cultural, que Ariano desprezava como rasos e submetidos a uma dinâmica imperialista. Não é difícil lhe dar razão em tese, dizendo: “Ah, como seria bom se tivéssemos conservado maior fidelidade às nossas raízes – se ao menos não tivesse havido o rádio, o disco, o cinema, a TV, a internet!”.

Ocorre que, se você carrega essa mistureba na alma, ela passa a defini-lo. Aquele National Kid vira-lata da infância rivaliza com o João Grilo lido na juventude em seu panteão de heróis, Keith Jarrett e Ernesto Nazareth tocam piano a quatro mãos, Guimarães Rosa troca ideias com J.R.R. Tolkien: negar esse liquidificador de influências não seria apenas reacionário, mas um ato de autoanulação. Fazer passeata contra a guitarra elétrica já era patético em 1967, imagine no século XXI.

Assim eu pensava e ainda penso, mas o sentimento de orfandade deixado pela morte de Ariano Suassuna parece exigir um passo além da velha dicotomia nacionalismo x internacionalismo. Desconfio que andei errado ao supor que o “Romance d’A Pedra do Reino”, um dos maiores romances brasileiros do século XX, fosse uma obra-prima apesar do ideário estético conservador do homem que o escreveu. Ou melhor: que chamar de conservador e reacionário um escritor capaz de tamanha explosão criativa e propositiva é no mínimo reducionista, pois como seria possível conservar algo que nunca existiu fora de sua imaginação delirante, uma majestosa visão de país erguida no horizonte como uma miragem?

Nesse oceano de geleia que é a cultura globalizada contemporânea, a perda de Ariano Suassuna – e de João Ubaldo – torna o Brasil indiscutivelmente mais burro, mais amorfo e mais desgovernado. Nosso lastro cultural não é tão grande assim para que a gente o saia dispensando de forma perdulária. De repente me ocorre que tal perda dupla ter vindo no mês do cataclísmico 7 a 1 pode não ser mera coincidência, pensamento aterrador que me leva a começar imediatamente a releitura de “A Pedra do Reino”. A trilha sonora de Keith Jarrett é casual, mas até que funciona – espero que Ariano compreenda.

18/07/2014

às 9:40 \ Vida literária

Viva João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)

joão ubaldoContudo, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que morreu esta madrugada no Rio de Janeiro, de embolia pulmonar, aos 73 anos, deixa uma obra-prima incontornável da literatura-brasileira: o romance “Viva o povo brasileiro”, tijolo de 673 páginas lançado em 1984. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1993 e vencedor do Prêmio Camões em 2008, Ubaldo era “imortal” apenas no título honorífico. Seu principal romance – que tem um começo famoso, com a conjunção adversativa “contudo” introduzindo a frase de abertura, como neste artigo – é imortal literalmente.

Épico da nacionalidade, com sua narrativa espalhada por quatro séculos de história do Brasil e amarrada com o fio mítico e lírico, mas também cômico e irreverente, da reencarnação dos personagens segundo a compreendem as religiões afro-brasileiras, “Viva o povo…” é provavelmente a última – e brilhante – tentativa feita por nossa literatura de dar conta do país como um todo, respondendo artisticamente à pergunta que instigou os grandes intérpretes do Brasil no século XX: o que vem a ser este país enorme, ao mesmo tempo fascinante e infantiloide, generoso e cruel? Foi o último relance que tivemos da imagem inteira. Depois disso veio a contemporaneidade, com o estilhaçamento das referências em mil cacos.

Nascido na ilha de Itaparica, que sempre ocupou lugar de destaque em sua ficção e suas crônicas jornalísticas, João Ubaldo não deixa obra extensa. A lista de seus outros romances inclui títulos como “O sorriso do lagarto”, o sucesso de público (pelo tema libertino) “A casa dos budas ditosos” e, principalmente, “Sargento Getúlio”, livro de 1971 que o projetou nacionalmente e lhe valeu comparações com Guimarães Rosa – rechaçadas pelo escritor baiano, que dizia nunca ter conseguido ler o mineiro. “Nossos santos não se cruzam”, declarou em sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty, em 2011 (leia mais aqui). Na mesma ocasião, disse que sua motivação ao escrever “Viva o povo…” era apenas “fazer um livro grosso”.

A proeminência do “livro grosso” em sua obra é amplamente reconhecida. Em abril de 2007, este blog conduziu uma enquete com escritores, críticos e editores brasileiros para eleger o melhor/mais importante livro de nossa ficção nos (então) últimos 25 anos – ou seja, desde 1982. Deu o romance de Ubaldo na cabeça. “Dois irmãos”, de Milton Hatoum, e “Quase memória”, de Carlos Heitor Cony, ficaram empatados em segundo lugar. Leia mais sobre a enquete e seu vencedor aqui e aqui.

Concordo com o crítico Wilson Martins quando ele diz que, em sua obra-prima, Ubaldo “propõe uma visão ideológica da nossa história, estruturada no populismo e no nacionalismo (valores para ele indistinguíveis e intercambiáveis)”. Tais traços o aproximam de outro gigante baiano, Jorge Amado, seu mestre evidente e declarado. Mas é preciso reconhecer que, pelo menos no caso desse livro, o discípulo foi mais longe que o professor.

“Viva o povo…” é Jorge Amado sem a ingenuidade, com o maniqueísmo estrutural de povo bom x elite ruim servindo de pretexto para um festim literário conduzido com volúpia narrativa digna de Pantagruel. A genial descrição de uma batalha da Guerra do Paraguai à moda homérica (leia um trecho aqui), em que orixás tomam o lugar dos deuses gregos, dá uma boa ideia da alta voltagem atingida pela travessura e está entre as maiores páginas da literatura brasileira em todos os tempos.

Agora – numa imitação do que o autor escreveu sobre o fim de um valoroso soldado baiano naquela guerra – a morte lhe toldou os olhos com seu véu pardo e lhe aspirou a alma pela boca, boca que nunca mais emitirá seu timbre grave imitando Dorival Caymmi em canções meio desafinadas, nem nunca mais contará das belezas de Itaparica, onde os mimos-do-céu florescem e cantam mais os passarinhos.

Viva João Ubaldo Ribeiro!

12/07/2014

às 16:19 \ Vale a pena ler de novo

Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade (II)

Falávamos das respostas que a literatura brasileira ensaiou ao longo da história para a velha charada de produzir arte relevante num país situado na periferia econômica e cultural do mundo. Como já deixei sugerido, acredito que o novo livro de João Paulo Cuenca, “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”, possa trazer um ou dois elementos novos para a conversa. Um deles é o de, roubando novamente a ideia de Machado de Assis com sinal trocado, nos fazer pensar que boa parte da literatura brasileira contemporânea pode estar sofrendo de uma “internacionalidade de vocabulário”. Par oposto do nativismo de Alencar e Gonçalves, em que o índio é enfiado numa forma europeia sem alterá-la significativamente, a “internacionalidade de vocabulário” seria a propensão de soar cosmopolita (todos queremos ser universais, certo?) por meio da citação, do adorno, da ostentação de cultura, sem que isso altere de modo significativo o que está sendo narrado e como.

Às vésperas da Copa de Literatura de 2009, o jurado e blogueiro que se assina Doutor Plausível escreveu um artigo curioso afirmando ter contado um a um os casos de name-dropping, de citação de pessoas ou objetos culturais – nacionais e estrangeiros – em meia dúzia de romances brasileiros contemporâneos, inclusive um meu. Apurou uma goleada dos estrangeiros (a ordem é a mesma exposta por Plausível):

“As sementes de Flowerville”, de Sérgio Rodrigues: 26 x 1
“Corpo estranho”, de Adriana Lunardi: 42 x 3
“Lugares que não conheço…”, de Cecilia Gianneti: 9 x 5
“Toda terça”, de Carola Saavedra: 27 x 2
“O dia Mastroianni”, de João Paulo Cuenca: 23 x 2
“O filho eterno”, de Cristovão Tezza: 107 x 21

O autor observa que grande parte dessas citações são gratuitas (desatento ao fato de que “Flowerville”, por exemplo, faz da macaqueação do estrangeiro um tema central) e conclui que “a xeno-referência não deixa de ser o modo como esses autores brasileiros se relacionam com… o Brasil” – o que é verdade, mas uma verdade um tanto óbvia. Buscar intervir ao seu modo naquela peça-civilização de Nabuco, não se contentando em ser um figurante moreno de pele oleosa (interpretado aliás por um mexicano), sempre foi uma das faces do bicho-papão que acorda os escritores brasileiros no meio da noite. Nada a ver com uma preocupação de “vender lá fora”, trata-se de algo bem anterior. Nos voltamos para o eixo da cultura ocidental porque somos um galho dela, para ficar naquela metáfora cândida. Escrevemos numa língua que é um ramo dela. Somos seus filhos bastardos, mas filhos. O entrelugar do artista terceiro-mundista – ou pós-colonial, na classificação favorecida pela crítica anglófona – é limitado por dois abismos: de um lado despenca o bom selvagem, do outro o civilizado arrivista; de um lado o pitoresco local (que a matriz espera e incentiva), do outro o exibicionismo cosmopolita (tentativa vã de impressionar a matriz).

De todo modo, o artigo não me saiu da cabeça, e agora acredito ter a oportunidade de fazer bom uso da sanha quantificadora do Doutor Plausível: e se estivermos padecendo de um “internacionalismo de vocabulário”, quando talvez devêssemos buscar machadianamente um certo “sentimento íntimo de internacionalidade”? Acredito ser mais ou menos isso o que o livro de Cuenca propõe ao pegar nossas “raízes na marquise” (como cantava Elis) e, em vez de improvisar na marquise um canteiro em que as raízes pudessem se nutrir, dobrar a aposta do desenraizamento e levar tudo para além das nuvens, até um ponto culturalmente rarefeito da atmosfera.

O plano é meio insensato. Cuenca só consegue levá-lo a termo – e, mesmo assim, nem sempre de forma convincente – porque deve ser um dos menos realistas entre os jovens escritores brasileiros. Suas histórias têm um andamento onírico-farsesco que, aliado à pegada pop e à notável clareza da prosa, as entrega imediatamente como “histórias”. Boas de ler, mas só histórias, e isso pouco importa porque no fim tudo é texto-sonho-fantasmagoria, visto que o mundo não existe ou, se existe, não pode ser representado na literatura. Só a literatura pode ser representada na literatura. E isso, de alguma forma, dói.

Não considero “O único final feliz…” um ótimo livro, mas ele certamente deixa a impressão de que ótimo pode muito bem ser o próximo livro de Cuenca. É um romance furos acima da média nacional, e nos pontos em que (a meu ver) falha, deixando-se vergar sob o peso de uma certa máscara ultracool, falha de forma interessante. Sua petulância pop e quase leviana de roçar imensas questões filosóficas – a representação, a consciência, o eu, o outro, o tempo, a vida e a morte – e tocar em frente, numa leveza de Muhammad Ali ou Fernando Sabino, faz supor até que a falha seja parte consciente do efeito que busca atingir. Se a história é nebulosa, convulsa, o texto é econômico e solar. Como se o narrador fosse um adestrado prosador realista que soubesse estar sendo sonhado por alguém, e nada daquilo, portanto, tivesse tanta importância: Just fiction, folks!

Nesse clima de distanciamento, a imagem que se forma às vezes na cabeça do leitor parece vista numa TV com chuvisco. A Lagosta gigante que arrasa a cidade ecoa monstros que vimos numa moldura desse tipo – e a prosa, ao mesmo tempo que espelha, parece absorver isso. Eis como o autor evita o clichê turístico na abordagem factual da experiência de estar em Tóquio: o cenário é de filme, mas não de filme-clichê. Os ambientes minúsculos no fim de longos corredores de paredes rabiscadas e o café fuleiro que imita Dunkin’ Donuts soam como representações realistas de um mundo esvaziado de real. Completada a suspensão da incredulidade, vemos uma Tóquio além do clichê – por ser clichê do clichê? – com seus anúncios de sopa em neon e seus fugus letais.

Nesse ambiente conhecemos Shunsuke, o narrador principal, empregado burocrático numa fábrica de filmes fotográficos (ou seja, destinada à ruína), e as três mulheres que demarcam os vértices do livro: Yoshiko, a boneca perfeita de cinquenta milhões de ienes, voz que abre o romance e que até o fim intervém como a segunda narradora; Misako, dançarina de formas geometricamente perfeitas; e Iulana Romiszowska, estrangeira entre estrangeiros, a garçonete polonesa-romena que é o amor de Shunsuke – afinal, diz o nome da coleção à qual o título pertence (e da qual Cuenca foi o curador) que a história tem que ter um amor. Um Amor Expresso.

Parece significativo que “O único final feliz…” seja desprovido justamente do sentimento do amor. O que rege o mundo ali é mais primitivo, pulsão de vida contra pulsão de morte. Estamos num terreno em que certa descrença pós-moderna – como acreditar em algo além da beleza crepuscular do instante presente se a vida é um pesadelo, e então morremos? – altera o pH do solo: o amor não brota aqui. Shunsuke não ama Iulana, está apenas apaixonado por ela. E não se pode chamar de amor – não sem um qualificativo bem desclassificante – o que preside a relação entre Shunsuke e seu pai, o enigmático poeta Atsuo Lagosta Okuda, deus tirano com jeito de Big Brother que tudo vê e tudo pode. O fim, anunciado engenhosamente na repetição da cena da explosão no trem – um dos trechos de prosa mais inspirada do livro – acaba sendo mais pesado do que se anunciava. A nota soturna é contrabalançada pelo achado de Yoshiko, a boneca, descobrindo o ciúme e partindo dele para a revolta contra Deus.

A aposta na radicalização do desenraizamento em busca do universal é alta e contra-intuitiva, pois há tempos passa por sagrado o mandamento de que é preciso falar primeiro do seu quintal para conseguir falar do mundo. Já na saída se fixa o sarrafo lá em cima: quem narra é uma inteligência artificial japonesa que acaba de nascer, no ato mesmo de se abrir a caixa (livro). Não há personagens brasileiros à vista, como havia no título anterior do autor, “O dia Mastroianni”, com seus dândis carioquíssimos a flanar por uma metrópole universal caleidoscópica. O Brasil só aparece em “O único final feliz…” de viés, nas participações especiais em tom menor do “músico brasileiro João Gilberto”, com sua “voz noturna”. Que me fizeram pensar em “O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro”, o conto de Sérgio Sant’Anna, que também opera por subtração: Cuenca parece ser em alguma medida devedor de Sant’Anna, embora sua abordagem desencanada do pop seja mais próxima do José Agrippino de Paula que o veterano escritor mineiro-carioca admira. A diferença é que, enquanto Agrippino tem uma fúria de Fellini, Cuenca faz pose de Antonioni.

É certo que “O único final feliz…” vai desagradar alguns paladares. O maior risco do desenraizamento absoluto é o de terminar sem chão. Não falar de nada – nem de fora nem de dentro, nem de si nem do outro. É mais ou menos a acusação que costuma ser feita a Cuenca por seus (ativos) antipatizantes: pop demais, leviano demais, “bem escrito, e daí?” – eis um comentário que ouço bastante sobre o autor. A esse argumento não tenho muito que responder além de que ser bem escrito (atenção, patrulha, bem escrito não tem nada a ver com beletrista, é o contrário!), ser realmente bem escrito não é coisa que se ache a todo instante. Qualquer leitor que tenha lido o suficiente e saiba usar o ouvido entende o que estou dizendo.

Falar, pela ausência, da experiência de ser um escritor brasileiro, produzindo prosa local de qualidade sobre objetos remotos ou imateriais. Fazer o oposto do que esperam que você faça se quiser se vender internacionalmente: livros mais ou menos realistas (realismo mágico pode) que “retratem o país” – por que outro motivo, se não para aprender algo, leria alguém o livro de um escritor brasileiro que não seja Paulo Coelho? Atirar-se a isso com uma coragem demente de Carlitos atravessando a corda bamba entre as Torres Gêmeas e no caminho, antes de despencar, atingir meia dúzia de pontos altos, cenas de tirar o chapéu em qualquer língua. É o que “O único final feliz…” faz. A queda vem porque o projeto era inexequível desde o início. E talvez o que impede o livro de Cuenca de ser um grande romance seja a mesma leveza cronística que o faz levantar voo – curiosamente oposta à linguagem espessa que pesa e prende no chão outro título recente da mesma coleção, “Do fundo do poço se vê a lua”, de Joca Reiners Terron. A leveza duela o tempo todo com o lastro dos temas, impedindo o voo de longo curso que tínhamos a impressão de estar nos planos do piloto. Por essa razão, novela é um nome que lhe cai melhor que romance, como também em “O dia Mastroianni”.

Quando digo que “O único final feliz…” traz elementos novos para essa conversa, não me passa pela cabeça supor que ele esteja abrindo um caminho a ser seguido (a não ser, talvez, pelo próprio Cuenca). Bom exemplo de literatura pop à brasileira, o livro tem sobretudo o mérito de ampliar uma certa liberdade artística, erguendo o olhar para além do horizonte globalizado em busca de uma miragem de universalismo que, a esta altura do furdunço planetário, parece inatingível para nativos de qualquer parte. Mas literatura, já disse Don DeLillo, não passa de uma palavra depois da outra. Se como brasileiros nos damos o direito de falar do vasto mundo com tamanha desfaçatez, quem sabe isso não acabe afetando o olhar que lançamos sobre nosso ainda mal explorado quintal?

Publicado em 23/8/2010.

05/07/2014

às 12:19 \ Vale a pena ler de novo

Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade

Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de internacionalidade. A frase que você acaba de ler é uma cópia quase perfeita daquela que abre o mais famoso texto crítico de Machado de Assis, chamado “Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade”, de 1873. A troca da nacionalidade pela internacionalidade não tem uma intenção rasa de paródia: com sorte, será o ponto de partida para uma tentativa de jogar luz sobre as respostas novas que a literatura brasileira do século XXI – sim, esta mesmo, que contava com 4.203 leitores na última pesquisa – possa estar formulando agora para o velho problema de produzir arte relevante num país situado na periferia econômica e cultural do mundo. Há também, reconheço, uma forma menos benevolente de encarar este parágrafo: como nariz-de-cera (que em jargão de jornalista quer dizer prólogo enfadonho) para uma resenha do recém-lançado romance “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” (Companhia das Letras), do escritor carioca João Paulo Cuenca. Espero ser capaz de desmentir essa impressão. O livro de Cuenca é mesmo o gancho deste texto – para insistir no jargão jornalístico – e vai ser abordado na hora certa. Antes disso convém sobrevoar rapidamente um século e pouco de história.

Internacionalidade, palavra dicionarizada mas de uso raro, é aqui um sinônimo de cosmopolitismo, e portanto antônimo de provincianismo. Mas também pode ser, dependendo do contexto, equivalente a desenraizamento, anulação de identidade, em oposição a um saudável mergulho em nossas “raízes” culturais. As configurações do par nacional/internacional nunca foram simples para a cultura brasileira (como provavelmente para a de nenhum país nascido do colonialismo europeu): como expressar uma verdade sobre si mesmo usando uma linguagem alheia, como não produzir apenas adaptações caipiras dos modelos enviados pela matriz? Quando escreveu aquele ensaio, Machado dava uma resposta ousada ao nativismo de José de Alencar e Gonçalves Dias, que acreditavam “nacionalizar” as formas importadas do romance e da poesia ao enchê-las de índios. No lugar dessa ênfase na cor local, na “nacionalidade de vocabulário”, Machado postulava um “sentimento íntimo de nacionalidade”. Aos 33 anos e tendo publicado apenas um romance fraquinho, “Ressurreição”, parecia intuir genialmente a verdade contida na profissão de fé enunciada na última Flip pelo crítico literário inglês Terry Eagleton: “O que me interessa na arte como crítico marxista é a forma, muito mais que o conteúdo. A História habita o texto em seus detalhes linguísticos mais delicados e sutis”.

É provável que a percepção dominante no ambiente intelectual de hoje, em nosso mundo interconectado, seja a de que o “sentimento íntimo de nacionalidade” que Machado de Assis buscava – e que acabaria por alcançar – tenha ficado tão preso no tempo das carruagens quanto sua mania de escrever “cousas”. Não acredito nisso. Se é evidente que se tornou mais complexo o “sentimento de nacionalidade” de gerações que cresceram vendo enlatados na TV, ouvindo rock’n’roll e idolatrando Indiana Jones ou Jaspion, influências que necessariamente vão expressar como parte de qualquer possível “verdade interior”, não me parece que isso represente uma mudança estrutural em relação ao cosmopolitismo eurocêntrico que Joaquim Nabuco professava em 1900, no clássico “Minha formação”, ao escrever que era “antes um espectador do meu século do que do meu país; a peça é para mim a civilização, e se está representando em todos os teatros da humanidade, ligados hoje pelo telégrafo”. Sai o telégrafo, entra a internet, persiste o deslocamento. Assim como persiste um nó: que cambalhota precisa dar um artista para, sendo produto de uma cultura em posição de acachapante déficit comercial com o vasto mundo, devolver a esse mundo uma resposta que não seja apenas o pálido reflexo de um reflexo? Em outras palavras: que contribuição original pode dar o Brasil – no caso que interessa aqui, por meio da literatura – ao famigerado Concerto das Nações?

A pergunta pode parecer um disparate, especialmente num momento em que nossa literatura vem fracassando até na tarefa básica de conquistar o leitor doméstico, mas foi uma inquietação desse tipo que orientou as melhores reflexões críticas do século passado (as deste século ainda não mostraram a cara). Como fazer a arte transcender a dependência? A antropofagia modernista apostou numa carnavalizante – e irônica – deglutição do elemento estrangeiro, uma linha que seria retomada pelo Tropicalismo. O romance de 30 preferiu a abordagem realista das mazelas políticas e sociais geradas por aquela dependência, uma linha que seria retomada sobretudo na poesia e no teatro engajados dos anos 60. Guimarães Rosa encontrou uma vereda original ao levar o experimentalismo formal para passear no sertão. Clarice Lispector, também original, optou por uma apneia suicida em si mesma. O Rubem Fonseca dos anos 60 e 70 inventou uma aguda modernidade urbana – que até hoje projeta uma sombra comprida – com seus marginais impenitentes. Acertos isolados não foram suficientes para demover de seu pessimismo o crítico Antonio Candido: no clássico “Formação da literatura brasileira”, de 1959, ele afirma que, “comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime”. Destino terrível, o de ser expresso por “um galho secundário da [literatura] portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas”. Deveríamos desistir?

A pergunta é retórica, claro. Não há desistência possível. Se o otimismo é uma característica que, como a ingenuidade, renova-se a cada nascimento, acredito ser um bom sinal a forma desencanada – para não dizer voraz – de dialogar com o mundo inteiro e incorporar elementos da cultura de massa que nos pariu, característica de grande parte da literatura contemporânea escrita em português brasileiro, com todas as adaptações de linguagem que isso implica. Descontados os exageros de pose que podem vir no pacote (“Eu escrevo assim porque leio os jovens escritores da Moldávia, conhece algum?”), parece legítimo supor que as inéditas velocidade e amplitude da circulação de informações em nosso tempo alterem alguma variável da velha equação de dependência cultural, num momento em que a própria ideia de “cultura nacional” é abalada tanto de fora, pelo esburacamento das fronteiras, quanto de dentro, pela pulverização de vozes que nela nunca se sentiram representadas.

E ainda nem falei do livro de Cuenca, pois é. Depois eu continuo.

Publicado em 20/08/2010.

28/06/2014

às 10:12 \ Vale a pena ler de novo

As lições da senhora Ros, ‘a pior escritora do mundo’

É possível que a romancista e poeta Amanda McKittrick Ros (foto), uma professora nascida em 1860 na Irlanda do Norte, não tenha sido a pior escritora do mundo. Com certeza foi a escritora ruim que mais sucesso fez justamente pela ruindade de sua literatura. Esbarro em sua história fascinante no ebook Epic fail (Fracasso épico), de Mark O’Connell, que teve um trecho (em inglês) reproduzido há poucos dias na revista eletrônica Slate.

O surrealismo involuntário da prosa absurdamente artificiosa de Ros já foi apontado por sua legião de admiradores-detratores – com hífen porque são as mesmas pessoas, a admiração sendo no caso uma forma de gozação. A novidade do enfoque de O’Connell é lançar a hipótese de que Ros também tenha inventado sem querer o pós-modernismo ou pelo menos um de seus traços mais marcantes, a elevação irônica da ruindade galopante a uma forma de arte.

Não se trata de fenômeno isolado. Ros está para as letras como Ed Wood está para o cinema e Pedro Carolino, autor do hilariante “Novo guia da conversação em portuguez e inglez” (Casa da Palavra), para os estudos linguísticos. Mestre insuperável da purple prose, como os anglófonos chamam o estilo empolado típico da subliteratura, foi estudada e ridicularizada com fascínio e horror pela intelectualidade britânica nas primeiras décadas do século XX, em grupos de leitura como o de C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien. Em 1923, ganhou um ensaio sério de Aldous Huxley:

Na senhora Ros nós vemos, como nos romances elisabetanos, o resultado da descoberta da arte por uma mente não sofisticada e sua primeira tentativa consciente de produzir um efeito artístico. É notável como na história de todas as literaturas a simplicidade é uma invenção tardia. As primeiras tentativas de qualquer pessoa de ser conscientemente literária sempre resultam na mais elaborada artificialidade.

É provável, porém, que o autor de “Admirável mundo novo” não tenha feito inteira justiça ao caso único de Amanda McKittrick Ros, autora dos romances Delina Delaney e Irene Iddlesleigh, em que se lê um trecho como este (a tradução, certamente aquém do original, é minha):

Fala! Irene! Esposa! Mulher! Não fiques sentada em silêncio e permitas que o sangue que agora ferve em minhas veias verta por cavidades de paixão irrefreada e goteje para me encharcar com seu matiz carmesim.

O’Connell observa que “uma coisa que fica clara na prosa de Ros é sua aversão a chamar as coisas pelo nome. Olhos são ‘globos de intenso brilho’. Quando seus donos estão infelizes, esses globos ficam ‘plenos de pesar’” (familiar, não?). Em pequenas doses, diz ele, a coisa tem graça, mas seu efeito cumulativo pode ser perigoso: “Os escritos de Ros não são apenas ruins (…): sua ruindade é tão potente que parece minar a própria ideia de literatura, expor o empreendimento inteiro de fazer arte a partir da linguagem como essencial e irremediavelmente fraudulento – ou, pior ainda, tolo”.

E mesmo isso não dá conta do que tornou Ros um personagem ímpar na história da literatura. Para tanto é preciso incluir no retrato sua proverbial ausência de senso de humor e sua certeza, aparentemente nunca abalada, de que era uma romancista genial. Diz O’Connell:

Essa característica é comum a várias encarnações contemporâneas do Fracasso Épico (…): uma recusa a ser dissuadida da crença em sua própria grandeza pelo coro grego de ridículo que foi o pano de fundo permanente de sua carreira. À falta de senso de humor de Ros correspondia uma imunidade quase miraculosa à insegurança – essa praga das carreiras literárias. Pelo menos em parte, isso se devia ao fato de nunca ter lido Defoe, Eliot e Dickens, ou na verdade praticamente qualquer autor além de si mesma. Em 1930, ela escreveu para seu editor Stanley T. Mercer perguntando-lhe quais ele julgava serem suas chances de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. “O que você pensa desse prêmio? Acha que eu deveria fazer uma tentativa?”

Há algo de cativantemente cômico, claro, na ideia de um escritor que deve sua carreira ao fato de ser horroroso, e o pastelão intelectual das várias escaramuças em que Ros se meteu é de primeira qualidade. Mas – e digo isso sem o menor traço de ironia – há também algo de paradoxalmente inspirador na completa (e completamente deslocada) confiança na magnitude de seu próprio talento. Escritores são pessoas famosas pela egolatria, mas também costumam ser atormentados pela insegurança. Foi a suprema autoconfiança de Ros que a levou a produzir uma obra tão sedutoramente ridícula, mas também o que a tornou impermeável à zombaria que provocava. Ela pode ter sido um completo fracasso na tarefa que designou para si mesma, mas havia uma certa grandeza em seu caráter.

Publicado em 30/01/2013.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados