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18/04/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! Os ecos de Juan Rulfo no país da Santa Muerte

juan rulfo“Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo.” Assim começa, inesquecivelmente, o único romance escrito pelo mexicano Juan Rulfo (1917-1986). Precisava mais?

“Pedro Páramo” (Record, 2004, tradução de Eric Nepomuceno), publicado em 1955, é uma obra-prima de escassas 150 páginas que projeta uma sombra gigante na paisagem da literatura latino-americana, multiplicando-se em ecos numa infinidade de outros livros – como as vozes dos mortos ecoam pelas ruas áridas das ruínas de Comala, a cidadezinha aonde chega Juan Preciado em busca de notícias do pai que não chegou a conhecer, o terrível Pedro Páramo.

Preciado segue instruções da mãe recém-falecida, que na juventude foi abandonada pelo poderoso proprietário da fazenda Media Luna pouco tempo depois de um casamento motivado por interesse financeiro. Chega tarde: Pedro Páramo também está morto. O roteiro dessa busca e a história do pai, que se confunde tragicamente com a do lugarejo, são narrados por uma multiplicidade de vozes mais ou menos incorpóreas. O clima é crescentemente onírico e o cenário, fantasmagórico sem deixar de ser muito concreto, numa mescla que talvez só pudesse existir no México, país em que a devoção à Santa Muerte, condenada pela Igreja Católica, é abraçada por milhões de pessoas.

Na cena abaixo, Juan Preciado conversa com a velha Damiana Cisneros, que trabalhou como cozinheira na Media Luna e conheceu sua mãe.

– Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso. Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão.

Isso era o que Damiana Cisneros vinha me dizendo enquanto atravessávamos a cidade.

– Teve um tempo em que andei ouvindo durante muitas noites o rumor de uma festa. Os ruídos chegavam até a Media Luna. Cheguei perto para ver aquela algaravia e vi isto: o que estamos vendo agora. Nada. Ninguém. As ruas tão solitárias como estão agora.

“Depois deixei de ouvir a festa. É que a alegria cansa. Por isso não estranhei quando aquilo terminou.

“Sim – tornou a dizer Damiana Cisneros. – Esta cidade está cheia de ecos. Eu já não me espanto. Ouço o uivo dos cães e deixo que uivem. Nos dias de brisa a gente vê o vento arrastando folhas das árvores, quando aqui, como você vê, já não há árvores. Existiram em algum tempo, porque se não tivessem existido de onde essas folhas sairiam?

“E o pior de tudo é quando você ouve as pessoas falarem, como se as vozes saíssem de alguma fenda, e ainda assim tão claras que dá para reconhecê-las. Sem tirar nem pôr, agora que eu vinha vindo, encontrei um velório. Parei para rezar um pai-nosso. E nisso estava eu, quando uma mulher se afastou das outras e veio me dizer:

“– Damiana! Roga a Deus por mim, Damiana!

“Soltou o xale e reconheci a cara da minha irmã Sixtina.

“– O que você está fazendo aqui? – perguntei a ela.

“Então ela correu para se esconder entre as outras mulheres.

“Minha irmã Sixtina, se por acaso você não sabe, morreu quando eu tinha 12 anos. Era a mais velha. E na minha casa fomos dezesseis de família, daí dá para você fazer as contas do tempo que ela está morta. E olha ela aí até agora, ainda vagando por este mundo. Por isso não se assuste se ouvir ecos mais recentes, Juan Preciado.

– A senhora também recebeu aviso de minha mãe dizendo que eu ia vir? – perguntei.

– Não. E aliás, o que foi feito da sua mãe?

– Morreu – disse.

– Já morreu? E de quê?

– Eu não soube de quê. Talvez de tristeza. Suspirava muito.

– Isso é ruim. Em cada suspiro é como se a gente se desfizesse de um sorvo de vida. Quer dizer que morreu?

– Morreu. Achei que a senhora tinha ficado sabendo.

– E por que eu haveria de saber? Faz muitos anos que não sei de nada.

– E então como é que a senhora deu comigo?

– …

– A senhora está viva, dona Damiana? Diga, Damiana!

E de repente me encontrei sozinho naquelas ruas vazias. As janelas das casas abertas ao céu, deixando aparecer os talos ressecados do capim. Paredes esfoladas que mostravam seus adobes revirados.

– Damiana! – gritei. – Damiana Cisneros!

O eco me respondeu: “…ana… neros…! …ana… neros…!”

11/04/2015

às 9:00 \ Sobrescritos, Vida literária

Literatura brasileira contemporânea, um diálogo crítico

o gordo e o magro– A literatura brasileira contemporânea é uma imensa montanha de cocô. Não produz nada que chegue aos calcanhares da potência de Machado, Rosa ou Clarice.

– Pra que ir tão longe? Vamos combinar que também não chega aos pés de Raduan ou do Rubem Fonseca dos bons tempos.

– Exato. A literatura virou um espetáculo cheio de som e fúria, mas sem sentido. A tal vida literária tem mais importância do que a arte literária propriamente dita (e impropriamente exercida). Esse circo de festivais, feiras, prêmios, traduções, viagens, oficinas, blogs, networking e o diabo cria uma ilusão de movimento e um verniz de profissionalismo, entre aspas, que encobrem a irrelevância fundamental do ofício.

– Eu diria mais: que mascaram um tédio de cemitério. Por que será assim?

– Porque tudo já foi dito, ora. Como esperar algo revolucionário ou pelo menos renovador num cenário em que os escritores são robôs teleguiados pelo mercado, aprendem meia dúzia de truques, dominam uma técnica mas não comovem ninguém, não arriscam o pescoço, não incomodam, não acessam o novo? Não têm, em suma, nada a dizer? Não admira que o público ignore esses farsantes.

– É o que eu sempre digo. A literatura brasileira contemporânea é pouco lida? Não, a literatura brasileira contemporânea é lida até demais, considerando-se sua ruindade.

– Sabe uma coisa que eu não entendo? Por que esse pessoal não para de escrever e vai fazer algo útil da vida. Por que insistem esses escritores (e todo dia surge mais um lote, meu Deus!) em ignorar meu juízo magnífico, como se eu mesmo fosse tão irrelevante quanto eles.

– E o meu também, o meu também! Ignoram completamente.

– Como isso me irrita, viu? Será que os caras esperam que eu e meus colegas, quer dizer, os dois ou três que não são bestas quadradas… hum, isso inclui você, tá?

– Obrigado.

– Será que esperam realmente que eu me dedique a ler as pilhas de livros que eles produzem, ou antes que se reproduzem feito células cancerosas em plena metástase, para buscar nesse megatumor chamado literatura brasileira as improváveis células sadias que poderiam apontar um futuro menos apocalíptico para as letras pátrias? Hahahaha!

– Hehehe. Só rindo mesmo da pretensão dos coitados. Mas essa frase aí ficou danada de bonita.

– Tomar cada livro em seus próprios termos, dizem. Eu não preciso ler nada, imbecis! Não é que eu não precise ler sem preconceitos, com olhos livres, como recomendava aquele bom samaritano do John Updike. Não é que eu não precise compreender o que cada um está dizendo em sua exasperante especificidade, cada um com suas qualidades e limitações peculiares, para só depois, evitando generalizações grosseiras e sempre provisoriamente, arriscar algumas conclusões sobre um momento de efervescência ímpar na história da literatura brasileira. Não! Tenho pena dos nossos colegas, cada vez mais numerosos, que caem nessa esparrela. Eu não caio: não preciso ler, ponto!

– Apoiado. Não precisamos ler.

– Não preciso ler pra saber o que vocês estão fazendo, seus idiotas: estão sendo previsivelmente idiotas. E ainda por cima ignorando a minha crítica.

– E a minha, e a minha!

– Sou eu que amo de verdade a Literatura, eu que me casei com essa dama ilustre (e agora estou viúvo, que dor), enquanto vocês não passam de cafetões de uma prostituta vagamente parecida com minha amada inesquecível, entenderam?

– Eu também me casei!

– Como? O que você está dizendo, cara?

– Hã, que concordo com você, ué. Estamos juntos nessa revolta.

– Juntos, um cazzo! Quem se casou com a Literatura fui eu, paspalhão. Recolha-se à sua irrelevância, seu resenhista patético de três parágrafos!

04/04/2015

às 9:00 \ Vida literária

Literatura de A a Z

Capitulares da designer Jessica Hische para uma coleção da Penguin

Capitulares da designer Jessica Hische para a coleção DropCaps da Penguin

Acorde pensando no livro.

Banhe-se pensando no livro.

Coma pensando no livro.

Durma pensando no livro.

Evite reler o resultado de um bom dia de trabalho mais de sete milhões de vezes.

Fracassou? Se fracassou melhor do que antes (crédito para o Beckett), está no caminho certo.

Guarde no fundo da gaveta os melhores elogios que receber, para esquecê-los meticulosamente no dia a dia – até precisar deles como agasalho quando vier (virá) a estação dos ventos hostis.

Hostis são aqueles ventos que uivam nos ouvidos como as sereias e que, como elas, só matam os que lhes dão ouvidos.

Ignore a dor de continuar: continue.

Já não sabe por que começou? Bem-vindo ao clube. Avance dez casas.

Kafka esteve aqui. Em frente.

Leia tudo o que lhe faltava ler da literatura universal antes do jantar, parando para cotejar edições e tomar notas nas margens.

Mapeie, por puro espírito lúdico, rotas de fuga imaginárias em direção ao silêncio, mesmo sabendo que é infinito o labirinto de palavras em que se meteu.

Negue o que afirmou antes.

Obtempere bem.

Pode ir ao dicionário agora.

Quaquaquá!

Rir será, muitas vezes, a única salvação. Lembre-se de que o mesmo vale para o leitor.

Saiba ser a síntese da soberba dos sábios siríacos com a simplicidade dos servos sandeus – mas cuidado com as aliterações!

Toque fogo no manuscrito de mil páginas que acabou de imprimir. Certifique-se de manter as chamas longe do HD.

Uive para a lua por setecentas noites.

Volte vinte mil casas.

What now?, pergunte com sotaque britânico à diáfana Virginia quando ela aparecer para o chá. (Finja não ver seus bolsos cheios de pedras.)

Xá? Eu disse “chá”, animal. Encontrar e substituir.

Yo, vocifera um sujeito parecido com o Quixote, no acepto tus órdenes, cabrón.

Zeros, zeros em profusão lançados para o alto, eis a literatura: se cairão à esquerda ou à direita de quem os atirou, não sabemos ainda. É preciso esperar, dormir, acordar, dormir. Volte à letra A.

28/03/2015

às 9:00 \ Vida literária

ATÉ LOGO

Tirei umas breves férias desta coluna – e do Sobre Palavras – para participar do Salão do Livro de Paris, que este ano teve o Brasil como país homenageado, e atender a outros compromissos de lançamento da tradução francesa de “O drible”. Sábado que vem estarei de volta com novidades. Até lá!

21/03/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! O delírio de Brás Cubas

machado de assis caricatura do jovemA estreia da seção Que cena!, em maio de 2012, foi apropriadamente entregue ao maior escritor brasileiro da história: A xícara de café de “Dom Casmurro” trazia um trecho notável – caseiro, objetivo, melodramático e totalmente aterrorizante – do mais importante romance de Machado de Assis.

É justo, portanto, que seja Machado o primeiro autor a se repetir neste espaço, agora com um excerto da famosa cena do delírio do narrador em “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de 1880. Este é um naco de texto desbragado e furioso que elege o universo como palco e a história da humanidade como enredo – uma ousadia que, mesmo tendo fundo humorístico ou talvez por isso mesmo, fez a provinciana literatura brasileira amadurecer dois ou três séculos em poucos minutos.

Curiosamente, sendo diferente em tudo, tom e intenção, daquela cena realista em que Bentinho cogita assassinar o filho, o delírio de Brás Cubas também se sente à vontade acompanhado de adjetivos como “melodramático” e “aterrorizante”.

Para não poucos críticos, “Memórias póstumas…” disputa centímetro a centímetro com “Dom Casmurro” o posto de obra-prima machadiana. Pelo menos num aspecto sua primazia é indiscutível: o cronológico. Quinto romance de Machado, foi o relato da vida fútil de Brás Cubas feito por ele mesmo em tom burlesco que marcou a virada decisiva entre o romantismo convencional da juventude do autor e aquilo que os professores de português, escravos da lógica classificatória e à falta de nome melhor, chamam de “realismo” da maturidade – embora, especialmente neste livro, Machado seja tão realista quanto oitocentista e pós-moderno.

(…) Caiu do ar? Destacou-se da terra? Não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio.

– Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das cousas externas.

– Não te assustes – disse ela –, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo.

– Vivo? – perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência.

– Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.

– Entendeste-me? – disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.

– Não – respondi –; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? A Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?

– Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?

– Sim; o teu olhar fascina-me.

– Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.

– Pobre minuto! – exclamou. – Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

– Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu? E, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

– Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma cousa única. Imagina tu leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das cousas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação, mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias –, desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. (…)

14/03/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! A ejaculação precoce de Ian McEwan

mcewanA preocupação de não ser estraga-prazeres da leitura de ninguém me obriga a dizer que a cena abaixo, situada ao fim do segundo terço do livro, é o clímax do curto e notável romance “Na praia”, de Ian McEwan (Companhia das Letras, 2007, tradução de Bernardo Carvalho).

Mais do que clímax – desgraçadamente precoce, como logo veremos –, trata-se do fulcro da narrativa, o momento decisivo ao redor do qual o autor inglês organiza com virtuosística economia de meios toda a melancólica história – pregressa e futura – dos jovens Edward e Florence. Ah, sim: é uma cena cômica também.

Dito isso, não consigo imaginar a leitura de um trecho tão intenso como algo que impeça ninguém de procurar o livro para encará-lo desde o início – pelo contrário. Longe de conter uma informação terrível que o suspense da história exija manter oculta, a cena da noite de núpcias do casalzinho inglês num hotel à beira-mar é de uma banalidade pungente.

Como eles chegaram até ali, naquele estado quase inverossímil de nervosismo e inépcia, e o que farão depois disso – eis o que torna “Na praia” um romance imperdível, espécie de hino triste aos derradeiros mártires de uma era de repressão sexual herdada de tempos vitorianos e que naquele 1962, thank goodness, estava com seus dias contados.

Ele tomou a sua mão esquerda e chupou as pontas dos dedos dela sucessivamente, pondo a língua nos calos de violinista. Eles se beijaram, e foi nesse momento de relativo otimismo para Florence que ela sentiu os braços dele tensos – de repente, num movimento hábil e atlético, ele havia rolado por cima dela, e, embora seu peso estivesse em grande parte apoiado nos cotovelos e antebraços dos dois lados da cabeça de Florence, ela estava presa, indefesa e um pouco sufocada debaixo daquele corpanzil. Ficou desapontada por ele não se alongar em carícias na área pubiana, desatando de novo aquele frêmito estranho e progressivo. Mas sua preocupação imediata – um desdobramento da repulsa ou do medo – era manter as aparências, não deixar de lhe corresponder e não se humilhar, não parecer uma pobre escolha entre todas as mulheres que ele conhecera. Ela precisava conseguir passar por isso. Nunca o deixaria saber a luta que foi, o que lhe custou, parecer calma. Não tinha outro desejo além de querer agradá-lo e fazer da noite um sucesso, nenhuma outra sensação além da consciência da ponta do pênis, estranhamente frio, batendo e socando repetidamente à entrada e ao redor da sua uretra. Achou que seu pânico e repugnância estavam sob controle, amava Edward, e todos os pensamentos dela se concentravam em ajudá-lo a obter o que tanto desejava e em fazê-lo amá-la ainda mais. Foi com esse espírito que ela escorregou a mão por entre a sua virilha e a dele. Ele se levantou um pouco para permitir-lhe a passagem. Ficou satisfeita consigo mesma ao lembrar que o manual vermelho informava ser perfeitamente aceitável que a noiva “conduzisse o homem para dentro”.

Primeiro tocou os testículos e, agora sem medo nenhum, curvou os dedos delicadamente em volta desse corpo extraordinário e enrugado que tinha visto nas formas mais variadas em cães e cavalos, sem nunca acreditar realmente que pudessem se acomodar em humanos adultos. Puxando os dedos pela parte inferior, chegou à base do pênis, que segurou com extremo cuidado, já que não fazia ideia de quão sensível ou robusto ele era. Arrastou os dedos ao longo do seu comprimento, notando com interesse a textura sedosa, até a ponta, que acariciou ligeiramente; e então, espantada com sua própria impudência, recuou um pouco para baixo, para segurar o pênis com firmeza, lá pela metade, e empurrá-lo para baixo, um leve ajuste, até senti-lo tocar os grandes lábios.

Como podia saber que cometia um erro terrível? Teria puxado a coisa errada? Será que apertara demais? Ele soltou um gemido, uma série complicada de vogais agonizantes e ascendentes, o tipo de som que ela ouvira certa vez numa comédia no cinema quando o garçom, dando voltas de um lado para outro, parecia estar prestes a derrubar uma enorme pilha de pratos de sopa.

Horrorizada, ela o soltou, enquanto Edward, levantando-se com um olhar atordoado, e os músculos das costas arqueados em espasmos, esvaiu-se em gotas sobre ela, enchendo seu umbigo, cobrindo sua barriga, as coxas, e até uma parte do queixo e da rótula, com um fluido viscoso e tépido. Foi uma calamidade, e ela entendeu na hora que a culpa era sua, que era inepta, ignorante e estúpida. Não devia ter interferido, nunca devia ter acreditado no manual. Se a jugular dele tivesse arrebentado, não teria parecido mais terrível. Era próprio dela intrometer-se cheia de si num assunto de impressionante complexidade; deveria saber muito bem que sua atitude nos ensaios do quarteto de cordas não tinha nenhuma pertinência ali.

E havia outro elemento, a seu modo bem pior e muito além do controle dela, evocando memórias que ela decidira fazia muito tempo não serem realmente suas. Enchera-se de orgulho, apenas meio minuto antes, por dominar os sentimentos e parecer calma. Mas agora era incapaz de conter o nojo original, o horror visceral de estar encharcada daquele fluido, do muco de outro corpo. Em segundos, o líquido se enregelara sobre sua pele, sob a brisa do mar, e ainda assim, bem como ela imaginara, parecia escaldá-la. Nada na sua natureza teria impedido o grito momentâneo de asco. A sensação do fluido escorrendo pela pele em riachos caudalosos, sua estranheza leitosa, o cheiro íntimo de goma, e com ele o fedor de um segredo guardado no mofo do seu confinamento – ela não conseguia, tinha de se ver livre daquilo. Enquanto Edward se encolhia diante dela, ela se virou e se pôs de joelhos, arrancou um travesseiro de sob a colcha e passou a se limpar freneticamente. Ao fazê-lo, deu-se conta da repulsa e da indelicadeza do seu comportamento, e de que devia contribuir para a humilhação dele vê-la remover desesperadamente da pele uma parte dele. Na verdade, não era assim tão fácil. Grudava nela conforme ela esfregava, e em algumas partes já estava secando num verniz rachado. Ela era duas pessoas – a que arremessou o travesseiro longe em sinal de exasperação e a que refletia e se odiava por isso. Era insuportável que ele estivesse a observá-la, a mulher histérica e punitiva com quem ele insensatamente se casara. Ela podia odiá-lo pelo que ele testemunhava e que nunca mais esqueceria. Tinha de se afastar dele.

Num acesso de raiva e de vergonha, ela pulou da cama. E, ainda assim, o seu outro eu observador parecia lhe pedir que se mantivesse calma, não propriamente em palavras. ‘Mas é isso justamente enlouquecer.’ Ela não podia olhar para ele. Era um suplício ficar no quarto com alguém que a conhecia a esse ponto. Ela recolheu os sapatos no chão, correu através da antecâmara, passando pelos restos do jantar, saiu pelo corredor, desceu as escadas, transpôs a entrada principal e, contornando o hotel pelo lado, ganhou o gramado musguento. E, mesmo depois de finalmente chegar à praia, não parou de correr.

07/03/2015

às 9:00 \ NoMínimo

Dica de leitura para Dilma: ‘Os sermões’ de Vieira

antoniovieiraEDO imprescindível jornal mensal “Rascunho”, especializado em literatura, traz na edição que saiu esta semana uma entrevista minha na seção Inquérito, que reproduzo abaixo.

Todo mês o jornal curitibano submete as mesmas perguntas – ou mais ou menos isso, pois o número delas cresceu com o tempo – a um escritor brasileiro. O espírito da inquirição é aquele do famoso Questionário Proust, levar o depoente a expor sua “personalidade” em respostas curtas a perguntas singelamente diretas, algumas delas brincalhonas ou excêntricas. Divertido, em suma.

Para o arquivo dos Inquéritos, clique aqui. A edição de março ainda não está disponível no site do jornal, mas já pode ser lida em pdf. Destaque para a suculenta primeira parte do ensaio “Dom Casmurro: a obra-prima da reciclagem”, de João Cezar de Castro Rocha, na página 20.

*

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?

Aos 14 anos, quando concluí que escrevia melhor do que desenhava. Comecei imediatamente a escrever um conto atrás do outro. A ideia era estar consagrado aos 18, mas não deu certo.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?

Nunca falar do que estou escrevendo ou planejando escrever, pelo menos até o trabalho estar bem adiantado.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?

Sempre comecei o dia lendo jornais. Hoje o Twitter vem primeiro.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?

“Os sermões” do padre Antônio Vieira.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?

Uma história já nos trilhos e muitas horas livres pela frente.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?

Um ótimo livro e algum sossego.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?

Aquele em que escrevo qualquer coisa que resista a meia dúzia de releituras.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?

Editar. Cortar, mover bloco, consertar uma frase emperrada, pentear aqui, despentear ali, enxugar, ampliar. Editar.

• Qual o maior inimigo de um escritor?

São dois, gêmeos antípodas como Esaú e Jacó: a falta de autocrítica e o excesso de autocrítica.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?

Ser cheio de escritores.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.

Samir Machado de Machado, autor de “Quatro soldados”.

• Um livro imprescindível e um descartável.

“Memórias póstumas de Brás Cubas” é imprescindível. Descartáveis são tantos que não vou citar nenhum para não cometer injustiças.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?

A afetação, um estilo que tenha mais espuma do que chope.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?

Espero que nenhum.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?

De um bolo de fios de cabelo tirado do ralo do box, que virou uma cena-chave de um conto do meu primeiro livro, “O homem que matou o escritor”. Sim, eu já tive cabelo.

• Quando a inspiração não vem…

Tento trabalhar sem depender da inspiração. Ela adora faltar aos compromissos.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?

Vladimir Nabokov, mas duvido que ele aceitasse. Como plano B, Dashiell Hammett, que batizaria o café com bourbon.

• O que é um bom leitor?

Aquele que, mesmo já tendo lido muito, não perde a capacidade de ler com olhos livres.

• O que te dá medo?

Quase tudo o que leio no noticiário do Brasil e do mundo. Não sinto medo por mim, mas pelos meus filhos.

• O que te faz feliz?

Na literatura, chegar ao ponto final. Na vida, o de sempre: comer, beber, viver. Os atos em si, não aquele filme homônimo do Ang Lee. Se bem que o filme é ótimo e me deixou feliz também.

• Qual dúvida ou certeza guia seu trabalho?

A dúvida: será que vai dar pé? A certeza: não há nada que eu gostaria de estar fazendo além disso.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?

Conseguir não torrar a paciência do leitor sem fazer nada para bajulá-lo.

• A literatura tem alguma obrigação?

Está mais para razão de ser, mas talvez se possa chamar de obrigação: salvar a linguagem. Zelar pelo fio das palavras. Ser uma espécie de máquina de hemodiálise que filtra o discurso envenenado da política, do direito, da burocracia, da publicidade, da imprensa, do showbiz, das redes sociais, de tudo o que todo dia tenta matar a linguagem a golpes de banalidade, obscurantismo, mentira ou clichê.

• Qual o limite da ficção?

Por definição, o limite da ficção é a não-ficção. Mas essa fronteira nunca foi pacífica e anda cada vez menos clara.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?

Eu o aconselharia a tentar uma abordagem menos clichê.

• O que você espera da eternidade?

Nada. Um não-ser infinito está de bom tamanho para mim.

28/02/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! A megera indomada de Pedro Nava

madeleine-em-minasEm 1972, às vésperas de completar 70 anos, o ilustre médico mineiro Pedro Nava, radicado no Rio de Janeiro, publicou “Baú de ossos”, o primeiro volume de suas memórias. O livro vinha com um prefácio luxuoso do amigo Carlos Drummond de Andrade, que o declarava “digno de figurar entre o que de melhor produziu a memorialística em língua portuguesa”.

As palavras do poeta não faziam favor algum ao trabalho de Nava, que encontrou sucesso instantâneo. Até sua morte, por suicídio, em 1984, ele teve tempo de concluir e lançar outros cinco títulos na mesma veia: “Balão cativo”, “Chão de ferro”, “Beira-mar”, “Galo das trevas” e “O círio perfeito” – o sétimo da série, “Cera das almas”, ficou incompleto. (Desde 2012, a Companhia das Letras vem repondo a obra em circulação, e já relançou os cinco primeiros volumes em edições caprichadas.)

A inesquecível cena abaixo, de “Baú de ossos”, resume bem as qualidades – de prosador fino, de contador de histórias, de evocador de marcas temporais e de aquarelista de atmosferas – que fazem Nava ser considerado pela maior parte da crítica o grande memorialista da literatura brasileira. É a primeira vez que um não-ficcionista vem parar na seção Que cena!. Acho que a exceção foi aberta para o escritor certo.

Já que se tratou de d. Irifila, vamos logo a ela para que seu vulto ominoso se me espanque da lembrança. Era casada, como já se viu, com o comendador Iclirérico Narbal Pamplona, dos irmãos mais velhos de minha avó paterna, pois nascera no Aracati a 14 de outubro de 1830. Ninguém compreendia o seu casamento. Ele era alto, desempenado, elegante, cheio de calma e distinção. Sua mulher era baixota, atarracada, horrenda, permanentemente irritada – de alma amarga e boca desagradável. Diante dos magros seu assunto era magreza. Dos gordos, as banhas. Gostava de tratar de corda em casa de enforcado e ninguém como ela remexia o ferro dentro de ferida latejando. A d. Eugênia Ennes de Souza, que a abominava, só a chamava de Irifila-Cão de Fila. Essa Irifila – que tinha títulos para figurar entre as megeras da família de minha avó materna – era uma presença aberrante na de minha avó paterna, onde as mulheres eram doces, laboriosas, submissas, modestas, de lágrima fácil, prontas a calar e de bondade imensa. Diante dessas antonímias, a Irifila abusava. Trazia a sogra, as cunhadas, os cunhados, as filhas, os filhos e os sobrinhos no mesmo cortado em que tinha o marido. Era inimiga de tudo que favorece a fantasia e torna a vida suportável. Era contra os namoros, contra o riso, contra as festas, contra as cantigas, contra as danças, contra o álcool, contra o fumo, contra o jogo. Não gostava de receber e, quando era constrangida a isto, fazia-o com ostentação e grosseria. Na sua casa do Rio de Janeiro (que ficava à rua Farani, em Botafogo), no meio das sedas dos seus reposteiros, dos seus tapetes, dos seus espelhos, dos seus jacarandás, dos seus brocados, das suas porcelanas e dos seus lampiões Carcel – suas palavras batiam duras como calhaus, diretas como tiros, incisivas como machadadas. Mas com isso tudo não gritava e nem se arrebatava. Advertia uma, duas, três vezes e, se não obedecida, passava violentamente à ação. O marido, comendador e abastado, gostava das coisas que ela detestava: conversa de amigos, degustação de bom Porto e bons charutos, sua rodinha de jogo. E reunia os parceiros uma vez por semana para o voltarete e para a manilha. Terminadas as partidas, vinham as negras – duas para cada bandeja de prata – com o chá, o chocolate, as garrafas do vinho, a frasqueira dos licores, o pinhão de coco, as mães-bentas, os cartuchos, as fofas, as siricaias, os tarecos e tudo quanto é bolo de doçura luso-brasileira. Bolo ilhéu, bolo da imperatriz, bolos de raiva, esquecidos, brincadeiras, doce do padre, toucinho do céu. Os amigos saíam encantados e o obsequioso comendador ia para o toro deleitado. Até que a Irifila virou o fio e um dia fez-lhe a primeira advertência: “Lequinho, não estou mais gostando desse jogo…”. E na outra semana: “Lequinho, você precisa pôr um ponto final nesses baralhos…”. Na terceira: “Iclirérico, eu não quero mais jogatina na minha casa!”. Mas o desavisado comendador insistiu e arrumou um grande encontro, justamente para obsequiar seu compadre (padrinho de seu filho Afonso Celso) – o terrível visconde de Ouro Preto. D. Irifila sorriu-se toda quando foi avisada e aninhou-se no enredo da tocaia. À hora da ceia, requintou-se. Nunca suas bandejas, seus bules e seus açucareiros de prata tinham tido tal polimento. Nunca tirara tanta toalha de renda das arcas e das cômodas perfumadas a capim-cheiroso. Nunca seus guardanapos de linho tinham recebido tanta goma. E que fartura. Chá, chocolate, moscatéis, Madeiras, Portos. Os licores de França, da Hungria e os nacionais de pequi, tamarindo e jenipapo. E a abundância dos doces e dos sequilhos: língua de moça, marquinhas, veranistas, patinhas, creme virgem e tudo quanto é biscoito. Biscoito à Cosme, espremidos, de queijo, de nata, de fubá, de polvilho, de araruta. E no meio da maior bandeja, a mais alta compoteira com o doce do dia – aparecendo todo escuro e lustroso, através das facetas do cristal grosso, de um pardo saboroso como o da banana mole, da pasta de caju, do colchão de passas com ameixas-pretas, do cascão de goiaba com rapadura. O comendador resplandecente destampou a compoteira: estava cheia, até as bordas, de merda viva! Nunca ninguém, jamais, ousara coisa igual. Nem a mulher do dr. Torres Homem. O próprio visconde, vaqueano das escaramuças com sua resoluta d. Paulita, em que ora ele, ora ela, puxavam a toalha da mesa, despedaçando louças e cristais e derramando jantares e almoços, o próprio visconde nunca vira nada de parecido. Ele, que enfrentara de guarda-chuva as durindanas de Deodoro e Floriano, ficou de bico calado e só pôde estender os braços para receber o compadre chorando convulsivamente, tremendo da cabeça aos pés, lívido da dor esquisita que lhe atravessava o peito, o estômago e banhado dum suor de agonia… Nunca mais sua casa recebeu ninguém até o dia 29 de outubro de 1896 – data em que suas portas se abriram para os amigos que lhe vinham velar o corpo, enquanto lá dentro, cercada das filhas e dos parentes, a Irifila uivava à morte…

21/02/2015

às 9:00 \ Vida literária

Conselhos literários, conselhos de vida: dois decálogos

Richard_Ford_at_Göteborg_Book_Fair_2013_01Esbarrei dia desses numa lista de dez conselhos – aqui, em espanhol – do romancista americano Richard Ford (foto) a jovens escritores e fiquei matutando sobre esse subgênero das dicas sobre o fazer literário, que sempre mereceu atenção do Todoprosa em seus quase nove anos de história.

Embora sejam discutíveis em princípio, claro, simplesmente por serem conselhos, os de Ford têm lá sua graça. O que neles mais chamou minha atenção foi o fato de serem, em sua maioria, toques de vida, de comportamento, de postura diante do trabalho – e não de técnica, estilo, relação com as palavras, condução do ritmo narrativo ou composição dos personagens. Acredito que isso os faça mais úteis.

“Case-se com alguém que ame e que ache uma boa ideia você ser escritor”, recomenda Ford já na abertura do decálogo. E mais à frente: “Não discuta com sua mulher”; “Não deseje mal a seus colegas”; “Tente pensar no sucesso dos outros como um estímulo para você”. O que pode parecer uma cartilha de bom-mocismo entra também por terreno íntimo e polêmico: “Não tenha filhos”. Puxa, será que um escritor com filhos deve desistir da carreira? Eu tenho dois.

É claro que ninguém deve tomar ao pé da letra as dicas de Ford ou de qualquer outro. Sim, é possível ter uma prole extensa e escrever, viver às turras com o cônjuge e escrever, roer o pé da escrivaninha quando um colega faz sucesso e escrever. Não fosse assim, a maior parte da literatura universal não existiria.

No entanto, os toques do escritor americano apontam para problemas que são comuns a quem escreve e que precisam ser equacionados de alguma forma. Como dedicar o máximo de tempo e energia ao ofício? Como não deixar que a simples necessidade de subsistência engolfe tudo? Como manter a concentração? Como impedir que o ressentimento, o insidioso ressentimento, o corroa por dentro até não sobrar nada?

Se os toques pessoais nunca terão valor universal, é um argumento facilmente defensável o de que, sendo a liberdade artística o próprio ar que o escritor respira, diretrizes técnicas podem cruzar quando menos se espera a fronteira que separa o ensinamento do cerceamento.

“Evite as frases longas e o vocabulário rebuscado”, dirá, por exemplo, algum veterano sensato e cheio de boas intenções. Cheio também, convenhamos, de razão. Como ele poderia imaginar que estará matando no berço um genial neobarroco futurista?

Não à toa, um sério candidato a melhor toque literário de todos os tempos é aquele brincalhão de Somerset Maugham: “Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente, ninguém sabe quais são elas”.

Preparei abaixo uma seleção de dez conselhos literários do tipo “de vida” – mais do que “de literatura” – que me parecem ter valor. Um punhado deles me foi útil em algum momento da carreira. Nenhum mais do que o primeiro da lista, que pouco tempo atrás mantive por mais de um ano ao alcance dos olhos, impresso em corpo 36 e colado na parede ao lado do monitor, enquanto tentava chegar ao fim de um projeto enrolado que tinha começado dezoito anos antes, chamado “O drible”.

*

1. “Termine o que está escrevendo. O que quer que tenha que fazer para terminar, termine.” (Neil Gaiman)

2. “Planejar escrever não é escrever. Traçar o projeto de um livro não é escrever. Pesquisar não é escrever. Falar com as pessoas sobre o que você está fazendo, nada disso é escrever. Escrever é escrever.” (E.L. Doctorow)

3. “Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos.” (Marguerite Duras)

4. “Um escritor nunca tira férias. Para ele, a vida consiste ora em escrever, ora em pensar no que vai escrever.” (Eugene Ionesco)

5. “A melhor hora de planejar um livro é enquanto se lava a louça.” (Agatha Christie)

6. “Evite panelinhas, grupos, gangues. A presença de uma turma não tornará seu texto melhor do que ele é.” (Zadie Smith)

7. “Não romantize sua ‘vocação’. Não existe nada parecido com uma ‘vida de escritor’. A única coisa importante é o que você deixa na página.” (Zadie Smith)

8. “Se você sabe mesmo escrever, não precisa usar roupas engraçadas.” (James Dickey)

9. “Mantenha-se humano! Veja pessoas, vá a lugares, beba, se sentir vontade.” (Henry Miller)

10. “A literatura está apinhada de destroços de gente que se importou além do razoável com a opinião dos outros.” (Virginia Woolf)

14/02/2015

às 9:00 \ Antologia

Fechando o desfile: mais cinco histórias de carnaval

Desfile do Simpatia É Quase Amor, semana passada, no Rio (Daniel Ramalho/VEJA.com)

Desfile do Simpatia É Quase Amor, semana passada, no Rio (Daniel Ramalho/VEJA.com)

Sábado passado publiquei aqui a Antologia online de carnaval: edição revista e ampliada, com oito contos brasileiros de tema carnavalesco. Nunca tive a pretensão de esgotar o assunto com aquelas sugestões de leitura, evidentemente. Mesmo assim, a resposta de leitores e amigos, tanto na caixa de comentários quanto em contatos pessoais, me convenceu de que o desfile não ficaria completo sem uma última ala.

Os cinco contos abaixo abrangem um arco histórico ainda mais amplo, de Machado de Assis a um recentíssimo Sérgio Sant’Anna, e por isso vão organizados em ordem cronológica. É curioso observar como, no geral, eles desenham um quadro carnavalesco bem menos sinistro, mais chegado à alegria, do que o conjunto de histórias da semana passada.

Um dia de entrudo não está entre os melhores contos do autor, mas Machado é Machado e desfilaria até de casaca e pincenê. Lima Barreto comparece com um conto leve e divertido, parente da crônica, o que o aproxima da história agridoce de Luis Fernando Verissimo.

Rubem Fonseca, que havia perdido a vaga na última antologia por ter tido seu conto Fevereiro ou março retirado da internet, volta à avenida com uma história do início de sua carreira. E Sérgio Sant’Anna, com o conto que dá título a seu livro mais recente, “O homem-mulher”, cumpre a saudável missão de nos lembrar, depois de tantas histórias em que a excitação sexual dos foliões bate na trave, que às vezes é fundamental entrar com bola e tudo.
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1. Machado de Assis:

“Era no tempo em que ao carnaval se chamava entrudo, o tempo em que em vez das máscaras brilhavam os limões de cheiro, as caçarolas dágua, os banhos, e várias graças que foram substituídas por outras, não sei se melhores se piores. Dois dias antes de chegar o entrudo já a família de D. Angélica Sanches estava entregue aos profundos trabalhos de fabricar limões de cheiro. Era de ver como as moças, as mucamas, os rapazes e os moleques, sentados à volta de uma grande mesa compunham as laranjas e limões que deviam no domingo próximo molhar o paciente transeunte ou confiado amigo da casa.” Um dia de entrudo.

2. Lima Barreto:

“Conhecia aquela zona e, a fim de poupar níqueis, desprezei o bonde e fui a pé. Passava eu por uma rua tranversal à Imperial, quando fui abordado por três ou quatro tipos fardados, do mais curioso aspecto. Eram de diversas cores, formando uma escolta, cujo comandante, um cabo, era um preto. E que preto engraçado! Desengonçado, pernas compridas e arqueadas, pés espalhados – era mesmo um macaco. A farda, blusa e calça, estava toda pingada; o cinturão subira-lhe até quase ao peito…” O meu carnaval.

3. Rubem Fonseca:

“Saímos do baile e, como era verão, o sol iluminava todo mundo. Todos estavam feios, suados, sujos. Aparecia em certas caras a burla do lábio fino engrossado pelo batom; peitos postiços saíam da posição; sapatos altos quebravam o salto e algumas mulheres viravam anãs de repente; sovacos fediam; dedos dos pés e calcanhares surgiam calosos e imundos. Só a minha amiga continuava bonita e fresca, como se fosse uma rosa. E de máscara.” Teoria do consumo conspícuo.

4. Luis Fernando Verissimo:

“Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi “pelo menos o meu tirolês era autêntico” e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão.” Conto de verão no 2: Bandeira branca.

5. Sérgio Sant’Anna:

“Ofegavam, e a garota, safadinha, pegou a mão direita dele e encostou no seio esquerdo dela. “Olha como o meu coração está batendo.” Adamastor aproveitou a deixa e abriu dois botões na blusa da fantasia dela, afastou o sutiã e lançou ali um jato de éter. Ela se contraiu toda e disse: “Que geladinho”, mas ele já estava aspirando entre os seios de Dalva e depois chupou um dos mamilos dela. Com o éter, Adamastor sentiu um zunido nos ouvidos, e o mundo era aquela alucinação cheia de túmulos, estátuas e cruzes, tudo muito nítido e com sombras, porque era noite de lua cheia, e aquela garota vivinha da silva.” O homem-mulher.

 

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