Blogs e Colunistas

20/12/2014

às 9:00 \ Vida literária

Sobre línguas e catedrais: uma conversa com Amós Oz

amos oz“Não sou chauvinista com meu país, mas sou chauvinista com a língua hebraica.”

Estou conversando com o escritor israelense Amós Oz num canto tranquilo de um dos amplos espaços vazios do segundo andar do aristocrático hotel Copacabana Palace. Depois de muitas perguntas sobre literatura e política (que renderam essa entrevista), o papo desagua com naturalidade na língua, como se fosse um rio que corresse para o mar.

Conversamos em latim contemporâneo, isto é, inglês. Sei tanto de hebraico, clássico ou moderno, quanto Amós Oz sabe de português – talvez um pouco menos. No entanto, já tendo me deparado muitas vezes com a metáfora do idioma como instrumento musical que todo escritor precisa dominar, entendo o brilho nos olhos do homem quando ele se derrama todo por uma língua antiga que por pouco não ficou congelada nos textos sagrados, perfeita e morta como o latim num poema de Ovídio.

Salva há pouco mais de um século de um declínio que parecia inexorável, a língua em que escreve Oz vem se firmando nas últimas décadas, como o próprio Estado de Israel, sobre um ato de vontade política.

“O hebraico moderno é um instrumento tremendo, porque é ao mesmo tempo antigo e moderno”, ele diz. “É cheio de ecos da antiguidade, os salmos e profetas estão todos lá, e no entanto é uma língua contemporânea, parecida em certo sentido com o inglês elisabetano, sobre a qual escritores e poetas ainda podem legislar. Uma língua em construção, que muda um pouco com cada leva de imigrantes que chega a Israel: ganha nova sintaxe, novo vocabulário, novas gírias.”

Depois de uma breve pausa para o humor – “quando comparo o hebraico moderno ao inglês elisabetano, é claro que não estou dizendo que todos os nossos poetas são Shakespeare: não devemos ter mais de meia dúzia desses em Tel Aviv hoje” –, chegamos a um momento mágico em que a conversa parece se fundir com o cenário.

“É preciso ter muito cuidado com esse instrumento maravilhoso, como quem toca órgão numa catedral, para não conjurar ecos monstruosos”, prossegue Oz. “O hebraico antigo ainda está muito presente no moderno. Se você tocar sem querer certas cordas bíblicas, soa grotesco, ridículo. Isso é ótimo para a paródia e a ironia, mas você precisa saber o que está fazendo. É um campo minado.”

O pé direito alto do salão vazio em que nos encontramos parece ilustrar esse bonito argumento. Me ocorre então um pensamento que, embora talvez óbvio, recebo como uma revelação: toda língua é, em alguma medida, uma caixa de ressonância e um campo minado. Se um escritor de língua portuguesa dificilmente evocará profetas, pode, de propósito ou não, conjurar num único texto os fantasmas de Camões, Vieira, Machado, Bandeira, Vinicius. Ou Didi Mocó.

É a tradição literária acumulada e o peso que ela tem na cultura geral, dependente do grau de letramento da sociedade, que vai determinar no fim das contas a intensidade dessa reverberação – a altura do pé direito, por assim dizer, que tanto pode ser o de uma catedral magnífica como o de uma capelinha de província.

Sentado ao órgão, o escritor produz a música que seu talento lhe sopra, claro, mas também aquela que sua caixa de ressonância lhe permite produzir. Ao mesmo tempo, ao contrário do que ocorre no mundo físico – o que demarca o limite da metáfora oziana –, os acordes que saem dos tubos têm o potencial de sustentar o teto, impedindo que ele desabe e até, nos casos mais felizes, ajudando a elevá-lo.

*

O artigo acima foi publicado em novembro de 2011 em minha outra coluna, Sobre Palavras, e estava inédito aqui no Todoprosa – um blog no qual, pela temática, pelo tom, pelas referências, me parece claro que o texto se sente muito mais à vontade e pode conversar com mais gente do que em sua casa original. Curioso que eu tenha levado mais de três anos para me dar conta disso. Problema resolvido.

13/12/2014

às 9:00 \ Vida literária

Por que Sammy Davis Jr. não está no ‘Drible’

davis-jr-sammy-photo-sammy-davis-jr-6233615O Grande Prêmio Portugal Telecom conferido esta semana a meu romance “O drible” me deu vontade de compartilhar com os leitores, além da alegria por esse reconhecimento, algum tipo de presente que expressasse minha gratidão pelo carinho com que o livro foi recebido desde seu lançamento, em setembro do ano passado.

Acabei indo buscar no almoxarifado aqui do computador uma cena que excluí da edição final e que, com um pouco de sorte, pode ter alguma graça como curiosidade para os leitores do livro, como uma faixa-bônus naquelas edições comemorativas dos discos de antigamente.

Mais do que mera curiosidade, é possível que a cena seja também, no espírito das reflexões sobre o ofício de escrever que costumam frequentar este espaço, ilustrativa da importância de um certo desapego na hora da edição final de uma história.

Eu gostava muito do personagem secundário que contracena com Neto, uma das figuras centrais de “O drible”, no trecho abaixo. Descrito como parecido com Sammy Davis Jr. ou Dom Pixote – o que é condizente com as imagens de cultura pop e lixo televisivo antigo que enchem a cabeça de Neto –, o pedreiro Sebastião surgiu para fazer uma ponta, mas chegou com força impressionante.

Uma tarde, acredito que dois ou três dias depois de escrever a cena em que Sebastião nasce, entrando pela porta do apartamento de Neto para examinar uma mancha de umidade na parede, atendi o interfone e ouvi o porteiro do prédio me perguntar se podia mandar subir o pedreiro indicado pelo condomínio para resolver um pequeno problema na varanda. “O nome dele”, ouvi estarrecido, “é Sebastião.”

Julguei ter entendido mal. “Como?”

“Sebastião. Seu Sebastião. Está subindo.”

Ainda não tinha assimilado a coincidência espantosa quando a campainha tocou e eu pensei, pelo puro prazer de flertar com o absurdo: “Agora só falta o sujeito ser a cara do Sammy Davis Jr.”.

Era.

Que conclusão tirar disso? Que coinciências realmente incríveis acontecem? Que coincidências não existem – são apenas a face visível de mecanismos ocultos que passamos longe de compreender? Mais inclinado ao ceticismo, o que pensei a princípio foi que Sebastião tinha vindo para ficar.

E apesar disso ele não está no livro. Sua cena, concebida para enfatizar o dom-juanismo meio covardão de Neto com as moçoilas pobres da vizinhança, acabou me parecendo supérflua. Quebrava o ritmo, atrasava o andamento numa altura em que se exigia aceleração, conduzia a história por uma subtrama – que chegou a ter mais páginas escritas – condenada a ficar um tanto desamarrada na estrutura final do livro.

Mesmo assim, como eu disse, sempre gostei de Sebastião. Ainda gosto. Fico contente de ter a chance de tirá-lo do almoxarifado.

A porta do apartamento – que ninguém jamais atravessava além dele mesmo e de Neucy, a diarista – se abriu para um homem franzino de meia idade vestido mais como contínuo do que como pedreiro: calça cinza de tergal, camisa social branca. Tinha uma cara alongada e olhos compridos e pendurados que lembravam personagens antigos como Sammy Davis Jr. e Dom Pixote. Mal trocaram uma palavra. Sebastião podia ser calado mas era curioso. Encompridou mais ainda os olhos na direção dos objetos de época que decoravam a sala: toca-discos de pés-palitos, televisão redonda de astronauta, duas cadeiras de acrílico de frente para o sofá de zebra acima do qual reinavam os pôsteres de Lost in Space e The Time Tunnel. Parado ali de boca aberta, dava a impressão de que poderia ficar assim por horas.

Lá dentro, resmungou Neto, fazendo com o braço um movimento de varredura, e o arrastou até a parede doente. Ficaram olhando para a mancha em silêncio por um minuto inteiro antes que Sebastião esticasse um dedo para sondar a superfície úmida. Mais um minuto e perguntou quando aquilo tinha começado. Neto não tinha uma resposta precisa. Faz um tempo, disse.

Quando o homem pediu licença para entrar no banheiro a fim de verificar a situação do outro lado da parede, onde os azulejos decorados fora de moda não exibiam dano algum, Neto aproveitou para sair de perto. Na cozinha pingou detergente na esponja e atacou a montanha de louça suja dentro da pia, que tinha desabado feito uma torre de Pisa cansada de suspense sobre a bancada de mármore à espera da visita semanal de Neucy. Três copos, dois pratos e meia dúzia de talheres depois, calculando que o pedreiro já teria chegado a um orçamento, abandonou o resto da sujeira.

O homem estava de novo no corredor, mas agora dava as costas para a mancha e examinava com seus olhos desabados a parede oposta, onde Neto tinha um quadro de metal cheio de fotos presas com pequenos ímãs coloridos.

Seu coração deu uma pancada forte, uma só. Sentiu que as entranhas se retorciam em lenta expectativa. Parou no meio do corredor apertando o pano de prato com as duas mãos e esperando que Sebastião se encabulasse de bisbilhotar daquele modo descarado a vida alheia. O homem não tinha como não perceber que ele estava ali, mas continuou fixado nas fotos, de queixo caído.

Achou outra infiltração aí?

Só então o cara desviou o olhar da galeria das namoradas de Neto – duas décadas de Dayannes, Gislleynes, Jéssykas, Emmanuellys, Brittneys e Marayahs, além de uma ou outra Bruna ou Maria, exceções batizadas por pais fora de sintonia com seu tempo – e transferiu pachorrentamente o foco para o dono da casa. Por trás de sua película nublada de indolência ou alcoolismo, aqueles olhos tinham agora uma fagulha de confusão, talvez de mágoa.

São amigas do senhor?

Não é da sua conta.

Pois é, aí que está.

Não entendi.

O senhor tem uma foto da minha sobrinha. Por quê?

Mais uma pancada violenta, desta vez seguida de outras também fortes. Mediu o intruso e calculou que, embora não fosse alto, ganhava de Sebastião por meio palmo, além de ser mais jovem e aparentar um pouco mais de vigor. Claro que a vantagem podia acabar se revelando ilusória no embate entre um revisor de texto e um trabalhador braçal. Mesmo assim julgou-se em segurança pelo menos momentânea.

Quem é a sua sobrinha?

Sebastião apontou uma foto no canto inferior esquerdo do mural.

A Miquélly, disse. Auxiliar de enfermagem. Mãe do Luan. Casada com o Hudson, sargento da PM.

Mas olha que coincidência. Mundo pequeno.

Miquélly era uma Grace Jones de olhos pendurados – pois é – com quem Neto tinha saído por não mais de três semanas, cerca de sete anos antes. Por azar, sua foto pertencia à seção mais comprometedora da galeria. Com as pupilas vermelhas cravadas na câmera e a ponta da língua se projetando obscena entre os dentes, a moça bem que tinha tentado cobrir os seios pontudos com o lençol, seu braço direito fora de foco era puro movimento, mas o fotógrafo havia sido mais rápido. A cama pertencia a algum motel, embora fosse difícil dizer qual. O flash tinha estourado na parede espelhada do fundo. Era uma foto cheia de problemas técnicos mas interessante, com um clima de sensualidade crua que Neto apreciava.

Faz tempo, disse. Muitos anos, não lembro bem. Nunca mais vi a Miquélly. Diz que eu mandei um abraço.

Num lampejo que o breu não demorou a engolir ouviu uma gargalhada e viu a correntinha dourada de tornozelo, pés grandes e ossudos com unhas cobertas de esmalte branco descascado. Caixa no café de uma livraria do Shopping da Gávea, Miquélly discorria com voz de contralto sobre o sonho de ser aeromoça. Era mais que memória, era uma visão, dois segundos depois já não estava lá.

O pedreiro fitou por mais algum tempo a foto da sobrinha. Ao se virar para o dono da casa já não parecia confuso nem magoado. Parecia triste.

Ela podia ser sua filha.

Não podia, respondeu Neto. Para isso, você teria que ser meu irmão ou meu cunhado, e as duas coisas estão fora de questão.

06/12/2014

às 14:55 \ Pelo mundo

Soy latino-americano – e como me engano!

Lançamento de 'El regate' na Feira de Guadalajara, com Gustavo Pacheco e a jornalista mexicana Mariana H.

Lançamento de ‘El regate’ na Feira de Guadalajara, com Gustavo Pacheco e a jornalista mexicana Mariana H.

Leu-se no jornalão mexicano “El Excelsior” que a morte do comediante Roberto Bolaños deixou multidões de luto “em toda a América Latina, no Brasil e na Espanha”. Foi o adido cultural brasileiro no México, Gustavo Pacheco, quem me chamou a atenção para o detalhe, daquele tipo em que o diabo gosta de morar: pela lógica do jornal, que espelha uma percepção bastante comum, nosso país não está contido no conjunto “América Latina” e precisa ser nomeado à parte.

À parte, pois é. Por acaso não será assim que gostamos de nos ver? Se é evidente que, histórica e politicamente, isso é só um erro de classificação, há vetores culturais poderosos que apoiam tal ideia. Isso ficou muito claro para mim na espetacular Feira do Livro de Guadalajara na última quinta-feira, quando me vi dividindo uma das mesas do programa Latinoamérica Viva com um escritor uruguaio, um argentino, um chileno e uma equatoriana.

A língua é o que primeiro nos separa, claro – e certamente aquilo que mais dificulta a vida de um imprudente como eu, que decidi não levar nenhum texto pronto, ponderado e revisado para ler diante do público, como fizeram o chileno Nicolás Poblete e a equatoriana Maria Fernanda Ampuero. Preferi confiar no improviso e nisso tive a companhia do uruguaio Mario Delgado Aparaín e do argentino Rodrigo Fresán, com a diferença de que minha jam session, numa língua que adoro falar mas que toco de ouvido, equivalia a um triplo mortal carpado sem rede. Não me arrependi. Para tocar no nervo que me interessava tocar, simular uma situação de conforto seria encenar uma mentira.

Comecei contando o pequeno caso ali de cima, o da notícia da morte de Chaves no “El Excelsior”, que expõe algo de periclitante em nossa condição – inegável, mas complicada – de latino-americanos. Acabei falando do episódio em que uma gentil repórter da revista New Yorker, me entrevistando por telefone há alguns anos sobre o fenômeno Paulo Coelho, disse algo que nunca vou esquecer. Eu tinha afirmado que Coelho não pertence à “tradição da literatura brasileira” e ela me perguntou com candura, sem intenção de ofender: “Mas a literatura brasileira tem uma tradição?”. Se estivesse falando com um argentino, um colombiano, um mexicano, um peruano, é claro que não pisaria na bola desse jeito.

O que uma anedota tem a ver com a outra? Acredito que as duas ilustrem o isolamento brasileiro, o misto de autossuficiência (orgulhosa) e solidão (dolorida) deste país gigantesco. Para o olhar estrangeiro isso se traduz de diversas formas: desde uma boa dose de desconhecimento e dificuldade de nos classificar, como no caso dos outros países latino-americanos, até aquela ignorância completa e alvar que a pergunta da jornalista americana, empregada em uma das revistas mais inteligentes do mundo, evidencia. Em termos culturais o Brasil sempre soube se projetar como um personagem vagamente simpático, mas a historinha que conta não costuma levar ninguém além da página cinco.

Não temos um Instituto Machado de Assis. As ações governamentais de inserção internacional são erráticas: basta, por exemplo, que se deixe definhar o programa de bolsas de apoio à tradução da Biblioteca Nacional, um raro golaço nessa área, para que nossa literatura, hoje em fase animada aqui dentro e colhendo promissores sinais de degelo lá fora, volte a ser um segredo restrito aos brasileiros – e nem tantos assim de nós. Infelizmente, o risco de que isso ocorra parece bem concreto.

O veterano Mario, que falou antes de mim, citou Guimarães Rosa entre suas referências na literatura da América Latina. Achei isso comovente, mas não pude deixar de apontar o caráter de exceção de tal escolha numa mesa em que foram citados trocentos autores de língua espanhola. A assimetria da relação que mantemos com nossos vizinhos, observei, é flagrante. Seria difícil encontrar um jovem escritor brasileiro digno desse nome que não tenha lido Jorge Luis Borges ou Juan Rulfo. Tão difícil, talvez, quanto encontrar um jovem escritor hispano-americano que tenha lido Rosa ou Graciliano. (Para sermos justos, registre-se que Clarice Lispector eles conhecem razoavelmente bem.)

Não se trata de homenagear o cronista e compositor Antônio Maria e começar a cantar aqui “Ninguém me ama”. Longe disso. Apenas de reconhecer que, por sobre as inevitáveis diferenças regionais, a literatura hispano-americana forma uma comunidade autêntica em que as informações circulam velozmente e há o reconhecimento de um patrimônio comum. A base dessa comunidade é linguística: como destacou Fresán, existe um “espanhol internacional”, de sabor mexicano mas cosmopolita, que foi criado de forma deliberada no século XX e consolidado em dublagens e traduções literárias de ampla circulação. O autor de “Jardins de Kensington” afirmou escrever em tal registro.

É esse espanhol sem fronteiras – perfeitamente válido também, segundo o escritor argentino, para olhos e ouvidos europeus – que torna natural a participação da pátria-mãe na brincadeira, como centro aglutinador e caixa de ressonância. Metade dos autores de língua espanhola da mesa de quinta (Frésan e Ampuero) vive na Espanha. Também mora lá o tradutor de “O drible”, Juan Pablo Villalobos, escritor mexicano responsável pela qualidade excepcional da edição da Anagrama, editora barcelonesa, que com o nome de El regate tem livre trânsito na América Latina e me levou a Guadalajara. Neste ponto a assimetria que mencionei ali em cima atinge níveis mais dolorosos: Portugal vive hoje um momento de especial indiferença à literatura escrita no país que concentra a imensa maioria dos humanos lusoparlantes.

E apesar dos obstáculos, da distância e da eterna necessidade de tradução, com todas as inevitáveis traições e mal-entendidos que isso envolve, ter sido acolhido no México com tanto carinho, interesse e profissionalismo para falar de um livro profundamente brasileiro como “O drible” me faz voltar da viagem (o verbo está no presente porque escrevo no avião) envolto numa nuvem de calor e otimismo parecida com a que proporcionam duas ou três doses de mezcal.

Nos lançamentos de meu livro na Cidade do México e em Guadalajara, nas palestras sempre lotadas para estudantes de literatura e estudantes secundaristas, na mesa igualmente concorrida que dividi na Feira do Livro com os colegas brasileiros Ana Paula Maia, Luiz Bras e Paloma Vidal, o clima de boas-vindas ao visitante era tão caloroso que à primeira vista parece difícil entender por que Juan Villoro, um dos maiores nomes das letras mexicanas neste século e meu generoso anfitrião na noite de autógrafos no Distrito Federal, afirmou em entrevista dada esta semana que seu país está “em decomposição”.

Ocorre que o México que encontrei conserva a beleza, a alegria e o espírito festeiro do país que conheci em 1986, quando lá estive para cobrir a Copa do Mundo, mas está gravemente ferido. Mais ferido do que, naquela época, havia ficado com o terremoto do ano anterior. A dor agora é mais funda porque é espiritual. O assassinato monstruoso dos 43 estudantes normalistas de Iguala por policiais-narcotraficantes, a mando de políticos-narcotraficantes, expôs com nitidez quase insuportável o grau de corrupção a que pode chegar um Estado criminoso. Na mesa de quinta, um homem da plateia, de cerca de setenta anos, nos perguntou com lágrimas nos olhos se alguém enxergava saída para seu país, porque ele já não via nenhuma.

Não duvido que tal solução – que eu, claro, enxergo ainda menos que aquele homem – esteja num futuro em que não ocorrerá a ninguém dizer que o Brasil é uma coisa e a América Latina, outra. Mesmo porque, se nesse futuro não nos irmanarmos na solução, certamente nos igualaremos na tragédia das sociedades fundadas numa desigualdade de pesadelo – e habituadas a administrá-la com violência de pesadelo.

29/11/2014

às 9:00 \ Pelo mundo

Até breve!

Meus blogs deixarão de ser atualizados nos próximos dias, quando estarei no México para lançar a tradução de meu romance “O drible” (El regate) e participar da Feira do Livro de Guadalajara. Volto ao Todoprosa no dia 6 de dezembro e ao Sobre Palavras no dia seguinte.

22/11/2014

às 9:00 \ Sobrescritos, Vale a pena ler de novo

Três histórias de amor e literatura

mulherlendo2POR GLORINHA

Maria da Glória Fagundes, conhecida como Glorinha, nascida no Irajá, não era muito inteligente mas era linda, linda. A coisa mais linda do mundo. O escritor, que até aqui não sabia ser escritor, se apaixonou por sua boca e seus cílios e seus tornozelos. Tinha quinze anos e desabrochou poeta romântico.

O jovem escritor recitava ribombantes versos de amor e morte para Glorinha, coisas de estremecer estátuas, mas ela achava pouco.

Então foi estudar. Em poucos anos tinha um título de bacharel em Direito e um romance realista urbano cheio de arestas e reentrâncias que alguns críticos enalteceram, falando em pós-noir. Glorinha Fagundes não se impressionou. Pós-noir é fácil, quero ver poesia provençal, disse uma tarde, distraída, comendo uvas.

Custou ao escritor nove anos de trabalho duro tornar-se a maior autoridade brasileira nos arcanos trovadorescos, com estudos publicados na Europa e nos EUA. Mas a essa altura a Srta Fagundes já tinha virado a Sra Wilson, mulher do famoso professor de semiótica, e estava em outra, vidrada nos irmãos Campos. Foi assim que o escritor se viu contando letras concretas para em alguns anos construir uma obra que se convencionou chamar pós-concreta e que, sendo absolutamente ilegível, fez grande sucesso com críticos universitários.

Assim, de fase em fase, o escritor foi se fazendo notar. Ao sabor dos caprichos de Glorinha, escreveu comédias teatrais de sucesso, adaptou clássicos da literatura de cordel para séries de TV, arquitetou ensaios profundos sobre política e estética, depois largou tudo e se dedicou a ser um místico, um mago, e vender milhões. Ficou muito rico.

E a outra lá, a essa altura separada e galinhando à beça, sempre achando pouco.

Nas décadas seguintes, Glorinha comandou do escritor poemas épicos e fesceninos, romances satíricos e formalistas, contos longos e contos curtos, novelas, noveletas, panegíricos, sermões, limericks, bruscas vinhetas com estética de pichador de rua, uma epopeia pós-modernista de novecentas páginas escrita de trás pra frente, tendo por tema central a cárie que duelava com o escritor por seu canino direito, e um compêndio de frases de filósofos clássicos segundo a neurolinguística corporativa – este, Se Platão trabalhasse para você, tornou-se seu livro mais vendido, superando os do mago. Agora o escritor está arquimilionário.

E Glorinha, evidentemente, nem aí. Não é com ela. Diz, por exemplo: Drama sueco, a perfeita tradução em prosa de um certo clima bergmaniano, isso sim é que é o bicho! Como não pensei nisso antes?

O escritor respira fundo, que remédio, e põe mãos à obra.

*

AQUELA TARDE EM LISBOA

Não era incomum que Esperidião Bastos, o poeta baiano, contasse sua vida a uma puta. Gostava disso, e como elas costumavam retribuir de bom grado com suas histórias lacrimosas, ocorria frequentemente um desabafo geral, caloroso e desprovido de riscos, que lhe dava algum conforto. Aquela tarde em Lisboa, no quarto de hotel ao lado de uma rameira bonita e não muito velha, morena magra com cara de moura, tudo parecia seguir como sempre. Depois de se aliviar, Esperidião recuperou o fôlego e, com a carcaça de meia-idade estirada na cama, barriga volumosa virada para o teto onde rangia um ventilador que já devia ter sido aposentado há anos, desatou a falar de Yolanda, das formas bafejadas pelos deuses de Yolanda, do fogo primordial que brincava nos cabelos rubros de Yolanda e do futuro comum que tinham planejado – futuro que ele mapeara em fina linguagem lírica na página de poesia d’O Berro dos Grotões, onde era sempre o convidado principal.

Foi quando apareceu o tal Medrado. Um forasteiro, cara do Sul – de origem incerta, portanto. Gerente comercial. Tinha um pente Flamengo no bolso e sabia assobiar inacreditavelmente alto com os dois indicadores nos cantos da boca. Viera trabalhar n’O Berro dos Grotões cercado de alguma fama angariada em revistinhas da metrópole. Foi o próprio Esperidião quem, desavisado, os apresentou num sarau: “Seu Medrado, minha Yolanda”. E a imediata faísca no olhar daqueles dois não lhe escapou, ou quase não lhe escapou, embora terminasse lhe escapando – por algum tempo, não quis acreditar. Como podia acreditar? Não quis, escolheu não.

Foi obrigado a acreditar quando Medrado estreou na página de poesia d’O Berro com “Meu ursinho panda”:

Ó Yolanda,
Você é meu ursinho panda.
Nosso casamento vai ser chique
Vai ter guirlanda
E empadinhas
E vamos gerar pandinhas!

Foi isso, sem dúvida, que o derrubou – o opróbio de ser preterido por um subliterato de quinta, de ver a joia de seus pentâmetros iâmbicos clássico-contemporâneos trocada por miçangas que um índio pré-colombiano recusaria. Sim, deve ter sido isso que tornou incurável sua maleita. Não era normal aquilo. Homem de recursos, artista consagrado num círculo certamente provinciano, mas nem por isso pouco influente, muitas mulheres já tinham entrado e saído de sua vida. Por que, então, não se curava de Yolanda?

Pandinhas gerou mesmo o impensável casal – um par de gêmeos nascido seis meses após as apressadas núpcias, o terceiro dois anos mais tarde. Enquanto isso, os amigos do poeta baiano cumulavam-no de receitas inúteis – religião, filatelia, política, outras mulheres, ioga, xadrez, pescaria – para a doença crônico-aguda que sequelara sua vida. Era um poeta incapaz de um único verso, um ex-poeta miserável a vagar de porre em porre, de bordel em bordel, buscando a sombra de Yolanda em tantas Madalenas de peitos tristes.

Estava ferrado, eis a verdade. Tinha dado àquela musa ruiva o que não se dá a ninguém: sua vida, a fonte mesma de sua energia vital. Sem Yolanda, nada jamais faria sentido. Esperidião Bastos contou então à puta de Lisboa ter levado anos para compreender isso. Viajou pela Europa, logo se entediou, esticou na Grécia, onde quem sabe conseguiria retomar na raiz o gosto por uma arte que já não lhe significava nada. Tudo em vão. Homero? Chato. Shakespeare? Engodo. Camões? Dava-lhe náuseas. Se a própria encarnação do Belo era capaz de, tendo escolha, se entregar inteira a um cantor tão primitivo e tão canhestro quanto Medrado, então todos os compêndios de estética eram excremento e a vida, uma piada sinistra.

– Vai daí que eis-me aqui – disse Esperidião, concluindo com um floreio seu relato. – Descrente da vida, despido de tudo, conversando com uma puta semianalfabeta de Lisboa.

Então a mulher, que até aquele momento estivera calada, falou:

– Se Camões te dá náusea, consulta um médico ou toma uma pílula. Eu por mim não me canso de navegar naquele oceano de linguagem, aquilo para mim tem uma qualidade amniótica.

E começou a vestir o sutiã. O poeta, de queixo caído, reparou que seus peitos não eram tristes, eram até bem alegrinhos.

– Mas esta é outra história. No teu caso – a mulher prosseguiu – o erro é supor que arte e vida possam ser refundidas de alguma forma, o poema equivalendo à sedução, a sedução encarada como arte e esta vista como razão de ser, raison d’être. Não é mais possível isto, naturalmente. Tal saber ficou perdido no Jardim do Éden ou na cultura clássica, como diria o Goethe. O pensamento moderno não tem acesso a este quintal.

Já de blusa e minissaia, calçou as compridas botas pretas de pistoleira e fechou cada uma delas com um movimento brusco do zíper dourado:

– Como tampouco tem acesso, o pensamento moderno, à grande tragédia, que ele deu um jeito de transformar em drama. É isto então, meu infeliz amigo: crês que protagonizas uma tragédia e só consegues, mal e mal, galvanizar a lâmpada circense de um dramazinho cômico.

– Espera aí – ocorreu a Esperidião protestar – dramazinho cômico também não!

– Burlesco – disse a puta – patético. Achas mesmo que só porque és melhor poeta vais ganhar a mulher? Sabes nada de mulher, não é verdade?

– Não foi o que pareceu meia hora atrás – ele replicou, simulando uma expressão entre a indignação e a mágoa, mas na verdade não sentindo nem uma coisa nem outra. Estava inteiramente submetido ao sortilégio da puta com PhD, pensando, será de Coimbra? Não teve tempo de lhe perguntar, ela já tinha catado a bolsa e se punha de pé.

– Queres saber? Para mim, o que fez a diferença foi o assobio.

– O quê?

– O assobio incrivelmente alto do Medrado – e deu um sorriso triste. – Estou a ir-me.

O poeta Esperidião Bastos não sabia o que dizer. Improvisou:

– Não vai querer receber em sonetos, suponho.

Cash – disse a mulher, calma.

– Seriam belos sonetos – ele encolheu os ombros, alcançando a carteira sobre o criado-mudo.

*

ESTUDO EM SOLFERINO

Se você acreditasse numa palavra do que está lendo, saberia que a escadaria era alta e larga, de mármore, e no centro dela descia lambida uma língua púrpura de veludo que vinha morrer aos pés de um cântaro de ouro velho, um tipo de cântaro de cintura alta que foi moda no Ancien Régime ou coisa assim, era o que estava escrito no verso do postal, mas cito de memória porque o postal se perdeu, Smirna o enfiou em sua famosa bolsa sem fundo e o levou, quando saiu da minha vida.

Agora, por um instante, você talvez considere a possibilidade de acreditar no que está lendo, mas que nada, logo fica esperto: Smirna é um nome tão inverossímil, só faltam lúgubres bares búlgaros, encontros em vielas de Saigon, ou fazer dela uma puta de luxo especializada naquele último grito da perversão – a tonushka dentata.

E no entanto, distante de todos esses lugares, atividades, a Smirna que eu conheci, que mergulhou em Fernando de Noronha, que fez concurso para a Receita Federal e não passou, essa Smirna levou para sempre o postal da escadaria de mármore lambida de um rútilo solferino que Smirna ou uma mulher muito parecida com ela descia lentamente, heráldica, com seu salto stiletto.

A caligrafia do postal corre na página diante de seus olhos incrédulos, e você se surpreende ao notar que as maiúsculas têm volutas de época e a tinta roxa da caneta cheira a bala de alcaçuz, embora você não faça a menor ideia de como cheiram balas de alcaçuz, enquanto Smirna, porque só pode ser Smirna, desce a escadaria hemorrágica em câmera lenta, ganhando tempo, punhal na mão.

E aí você entende e ao mesmo tempo perde por completo a capacidade de entender. Smirna é ela – é Ela. O brilho intuído da lâmina tira fino do seu gogó. Você acredita por fim.

*

Os contos acima foram publicados pela primeira vez na seção Sobrescritos deste blog, separadamente, entre setembro de 2010 e janeiro de 2011.

15/11/2014

às 9:00 \ Vida literária

A piada do Bad Sex Award perdeu a graça

Woody Allen é atacado por um peito gigante em "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo"

Woody Allen é atacado por um peito gigante em “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo”

O Bad Sex Award é um “prêmio literário” gozador criado pela revista inglesa “Literary Review” para eleger a pior cena de sexo do ano. O resultado de sua vigésima segunda edição (não que o mundo prestasse atenção nele em seus primeiros anos, antes do advento da chamada blogosfera) será anunciado na primeira semana de dezembro. A lista dos dez finalistas já pode ser consultada neste link do “Guardian” – que permite até que cada um vote em seu favorito. Que espirituoso, não?

Hmm, not really. Fui um dos principais divulgadores do Bad Sex Award no Brasil desde 2008, quando publiquei o primeiro de diversos posts aqui no Todoprosa sobre o que me parecia uma brincadeira divertida – além de uma forma esperta de divulgar livros e, de quebra, pôr em debate sofisticadas questões de linguagem, o que funciona e o que não funciona na página e tal. Afinal, escrever sobre sexo apresenta mesmo desafios difíceis para qualquer escritor, certo? É por isso que me sinto obrigado a fazer agora um mea-culpa.

Sim, escrever sobre sexo não é fácil, mas a resposta que o BSA dá a tal dificuldade – no fim das contas, a da simples interdição, a do silêncio forçado pela intimidação do ridículo – é inaceitável. Isso não tem nada de divertido ou esperto e certamente não estimula o debate: é apenas um joguinho desonesto a serviço da autocensura, dos risinhos hipócritas de escândalo e, no fim das contas, de uma espécie de Código Hays literário não escrito.

Para quem não sabe, Hays Code é o nome popular de um código de conduta puritano adotado pelos estúdios de Hollywood em 1930, para que as produções não agredissem os “valores familiares” e coisa e tal. Será exagero comparar uma coisa com a outra? Claro que é, mas não muito. Basta ler no “Guardian” a sóbria cena finalista do australiano Richard Flanagan, vencedor do Booker, para constatar que a provocação perdeu o sentido – se é que um dia teve.

Em 2008, fui enganado direitinho. O prêmio do ano anterior tinha sido conferido postumamente ao americano Norman Mailer por uma cena de “O castelo na floresta” (Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares), romance sobre os anos de formação de Adolf Hitler. A tal cena me pareceu realmente tenebrosa:

Assim, Klara virou-se para os pés da cama, pôs sua parte mais indecente sobre o nariz e a boca ofegantes de Alois e tomou em seus lábios seu velho aríete de guerra. Titio estava tão mole quanto um rolo de excremento. Não obstante, ela o chupou com uma avidez que só poderia vir do Maligno – isso ela sabia. Era de lá que aquele impulso tinha de vir. Assim, ambos estavam agora com as cabeças no lado errado, e o Maligno estava ali. Jamais estivera tão perto.

O Sabujo começou a voltar à vida. Dentro de sua boca. Foi uma surpresa para ela. Alois estivera tão flácido. Mas, agora, era homem de novo! A seiva de Klara escorria de sua boca, ele virou-se e cingiu o rosto dela com toda a paixão de seus lábios e sua face, pronto finalmente para moê-la com seu Sabujo…

“Titio estava tão mole quanto um rolo de excremento” – uau! Existirá defesa para algo tão ruim? Sim, existe, e é uma defesa simples. O que o BSA faz, caçando trechos de prosa lamentável sobre sexo em livros de autores respeitáveis, é tirar do contexto o que não pode ser tirado do contexto. Assim como se dá com o sexo propriamente dito (e feito), no sexo escrito o clima também é tudo. Pinçar de qualquer obra um momento de intimidade entre personagens, apagar a informação de quem são eles e que história é aquela, para expô-lo à execração pública em troca de audiência não é apenas desonesto e puritano. É o fim da picada.

Em 2010, uma enfática declaração de Martin Amis sobre a impossibilidade – isso mesmo, a impossibilidade – de escrever boas cenas literárias de sexo fez o alarme soar para mim. Comecei a desconfiar que pudesse haver algo errado com a fixação inglesa nessa pauta, estimulada anualmente pelo BSA. Escrevi então um post – chamado “Quem não gosta de sexo na literatura gosta de sexo?” – em que citava certas boas cenas de Reinaldo Moraes, Marçal Aquino e Carola Saavedra e deixava uma dúvida no ar: “Se os ingleses vêm sendo levados a acreditar em dificuldades intransponíveis nesse campo, isso talvez seja um sintoma de que têm (sempre tiveram?) problemas na cama”.

Bingo! A prova de que muita gente percebeu isso é o artigo que um dos editores da “Literary Review”, Jonathan Beckman, publicou em 2011 no “Financial Times” em defesa do prêmio. Disse ele:

É fácil descartar [o BSA] como manifestação de uma atitude peculiarmente inglesa diante do sexo, ao mesmo tempo obcecada e puritana. No entanto, isso seria ignorar as formas mais sutis pelas quais o prêmio usa o sexo na literatura para demonstrar como as frases deveriam ser escritas e os parágrafos construídos, aquilo que os faz levantar voo e aquilo que os faz submergir.

Ou seja: além de obcecados e puritanos, marrentos e donos da verdade. Vocês eu não sei, mas o Bad Sex Award não me pega mais.

08/11/2014

às 9:00 \ Vida literária

Sobre a precisão

Tom Cruise e Paul Newman no filme "A cor do dinheiro", de Martin Scorsese

Tom Cruise e Paul Newman no filme “A cor do dinheiro”, de Martin Scorsese

Lendo um texto literário, tento decifrar por que ele me agrada tanto e chego à ideia de precisão vocabular. Será isso? Não, claro que nunca é uma coisa só, mas será isso em primeiro lugar – a precisão na escolha das palavras? O fato de as palavras vestirem as ideias como uma malha justa, roupa de mergulhador, segunda pele através da qual a ideia exibe suas formas com perfeição, quase como se já não fosse a ideia de uma coisa, mas a coisa mesmo?

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Um dos aspectos intrigantes da caça ao vocábulo preciso, aquilo que Gustave Flaubert chamava de le seul mot juste, é o fato de, sendo tão inerente ao bem escrever, ser tão difícil de ensinar. Para começar, não é nada fácil de definir, e a malha ou segunda pele é uma metáfora desesperada que reconhece essa dureza. Identificamos a precisão quando a temos diante do nariz, mas em que ela consiste exatamente?

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Aqui talvez seja necessário afastar a ideia, folclórica mas nunca distante dessa conversa, da “palavra justa” como frescura e álibi para a paralisia do escritor – como parece ter sido muitas vezes para o próprio Flaubert. Se você está escrevendo um conto policial e não consegue se decidir entre “revólver” e “pistola”, jogue uma moeda para o alto e vá em frente, pelo amor de Chandler. A questão da precisão é mais séria e mais sutil do que isso.

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Não é só na literatura: em termos de bom uso da língua em geral, a precisão vocabular conta mais do que a correção gramatical. No entanto, muito se fala de correção e pouquíssimo de precisão. É nesta, na adequação das palavras ao que se diz, que um texto (ou fala) seduz. A correção opera negativamente, evitando que ele seja rejeitado. A precisão é positiva, propositiva. É quando você diz ou não diz a que veio.

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Um cultor da simplicidade hemingwayana ou sabínica vai dizer que é tudo muito simples: chame a casa de casa, o gato de gato. Mas estará sendo simplório, porque o que funciona num texto hemingwayano ou sabínico pode ser um desastre em outros. O preciso aqui é impreciso acolá – a precisão está subordinada à totalidade do efeito pretendido. É quase como Calvinbol: se o narrador alucina, chamar a casa de, sei lá, gaiola, universo ou cubo mágico pode ter uma precisão de bisturi.

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Outro problema da precisão é que muita gente a confunde com preciosismo, com o uso de palavras raras, “difíceis”. Autran Dourado confessou num ensaio ter ficado muito feliz no dia em que descobriu que aquela pedra redonda dos amoladores de faca se chama rebolo. Um leitor certa vez censurou brandamente um conto meu por citar uma máscara carnavalesca veneziana nariguda e não nomeá-la com a palavra justa em italiano: nasone.

Nunca usei a palavra “rebolo”, embora não descarte vir a fazê-lo, e a narradora daquele meu conto, uma senhora idosa e simples, não falaria assim. Aí é que está: ser preciso não é encontrar a palavra justa em abstrato. É encontrar a palavra justa para aquela situação. É possível ser preciso com um vocabulário de 3 mil palavras e impreciso manejando 30 mil.

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Em seu livro “Como funciona a ficção”, o crítico inglês James Wood não fala exatamente de precisão vocabular. No entanto, ao abordar as metáforas, cita uma frase do italiano Cesare Pavese que ilustra bem o que é precisão-no-contexto: o narrador de uma história ambientada numa aldeia atrasada da Itália fala da lua amarela “como polenta”.

Hã? Será que Pavese não tinha algo melhor, mais “literário”, com que comparar a lua? Uma moeda de ouro, por exemplo? Não. Os camponeses de sua história nunca tinham visto uma moeda de ouro, mas comiam polenta todo dia.

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Sabe aquele verso de Aldir Blanc, “Caía a tarde feito um viaduto”? Pois é.

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Se a precisão tem regras movediças regidas pela “totalidade do efeito pretendido”, é sobretudo dela, precisão, que depende tal efeito para deixar a bruma das boas intenções autorais e adentrar esse país cobiçado, mas perigoso, chamado cabeça do leitor, onde palavra vira ideia que vira coisa.

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O texto acima é uma fusão/reelaboração de ideias abordadas inicialmente em diversos posts de minha coluna Sobre Palavras.

01/11/2014

às 9:00 \ Antologia

Que cena! O passeio de carruagem de ‘Madame Bovary’

Gustave_FlaubertSe fizerem um concurso para eleger a cena de sexo mais famosa da história da literatura, esta será, no mínimo, uma das finalistas. Se a ideia for escolher a cena de sexo mais escandalosa, também. O curioso é que o máximo de nudez que existe na “cena da carruagem” do romance “Madame Bovary” (1857), de Gustave Flaubert, é a de uma mão sem luva que desliza a certa altura – “no meio do dia, em pleno campo” – sob a cortininha amarela da cabine.

O que a mão faz é jogar fora, em pedaços, a virtuosa carta de recusa que Emma Bovary tinha escrito na noite anterior para entregar em mãos ao pretendente Léon. Em algum momento do passeio a esmo de cerca de seis horas no carro fechado, a carta se tornou obsoleta. Tarde demais: o escrivão já era o segundo amante na biografia da adúltera interiorana que queria ser personagem de romance – e foi mesmo, mas não do gênero galante que tinha imaginado.

Em que momento Emma cedeu às investidas de Léon? Entregou-se logo ou se fez de difícil? Que argumentos ou carícias a convenceram? O que fizeram aqueles dois, exatamente, no abafamento da cabine? Quantas vezes? O leitor pode apenas imaginar – e imagina desenfreadamente, o que explica o fato inusitado de ter sido uma cena tão lacunar arrolada no processo de atentado à moral movido pelo ministério público contra Flaubert. O narrador fica do lado de fora do coche e se limita a enumerar as localidades em que o veículo puxado por dois pangarés foi visto aquela tarde pelo intrigado povo de Rouen, “mais fechado do que um túmulo e balançando como um navio”.

(O efeito da lista de locais pelos quais passa a carruagem tem algo em comum com o da relação de bairros no poema Tragédia brasileira, de Manuel Bandeira, aquele em que Misael mudava de casa toda vez que Maria Elvira arranjava outro homem: “Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí…” – e por aí vai.)

O prolongamento do passeio exaspera o cocheiro e titila o leitor. Conduzida com mão de mestre pelo escritor francês, essa aula sobre o poder do não-dito na literatura fecha o primeiro capítulo da terceira e última parte do romance e começa – não por acaso – no instante em que Emma e Léon saem apressadamente da igreja. A tradução é de Mario Laranjeira para a Penguin/Companhia.

– Aonde o senhor vai? – perguntou o cocheiro.

– Aonde o senhor quiser! – disse Léon empurrando Emma para dentro do carro.

E a pesada máquina pôs-se a caminho.

Desceu a rua Grand-Pont, atravessou a praça das Artes, o cais Napoleão, a ponte Nova e parou de chofre diante da estátua de Pierre Corneille.

– Continue – fez uma voz que saía do interior.

O carro andou e, deixando-se, a partir da esquina La Fayette, levar pela descida, entrou em grande galope na estação ferroviária.

– Não, siga em frente! – gritou a mesma voz.

O trole saiu das grades e logo, chegando à avenida, trotou devagar, no meio dos grandes olmos. O cocheiro enxugou a fronte, pôs o seu chapéu de couro entre as pernas e levou o carro para fora das alamedas laterais, à beira da água, perto do gramado.

Seguiu ao longo do rio, pela pista dos cavalos que puxam os barcos pavimentada de pedriscos secos, e por longo tempo, para o lado de Oyssel, além das ilhas.

Mas, de repente, lançou-se num salto através de Quatremares, Sotteville, La Grande-Chaussée, a rua de Elbeuf, e fez a sua terceira parada diante do jardim botânico.

– Continue andando! – gritou a voz mais furiosamente.

E logo, retomando o seu curso, ele passou por Saint-Sever, pelo cais dos Curandiers, pelo cais dos Meules, mais uma vez sobre a ponte, pela praça do Champ-de-Mars e por trás dos jardins do hospital, onde velhinhos de roupa preta passeiam ao sol, ao longo do terraço todo verde de heras. Subiu o boulevard Bouvreuil, percorreu o boulevard Cauchoise, depois todo o Mont Riboudet até a encosta de Deville.

Voltou; e então, sem ideia preconcebida nem direção, ao acaso, ficou vagando. Foi visto em Saint-Pol, em Lescure, no monte Gargan, na Rouge-Mare, e praça do Gaillard-bois; rua Maladrerie, rua Dinanderie, diante de Saint-Roman, Saint-Vivien, Saint-Maclou, Saint-Nicaise – diante da Aduana –, na baixa Vieille-Tour, nas Trois-Pipes e no Cemitério Monumental. De tempos em tempos, o cocheiro na boleia lançava aos cabarés olhares desesperados. Não entendia que furor de locomoção impelia aqueles indivíduos a não querer parar. Ele tentava por vezes, e logo ouvia atrás de si exclamações de cólera. Então chicoteava mais fortemente os dois pangarés já suados, mas sem dar atenção aos solavancos, enroscando aqui e acolá, não se preocupando, desmoralizado e quase chorando de sede, de fadiga e de tristeza.

E no porto, em meio aos caminhões e às barricas, e nas ruas, no canto dos pilares, os burgueses abriam olhos esbugalhados diante dessa coisa extraordinária na província, um trole com capotas estendidas, e que aparecia assim continuamente, mais fechado do que um túmulo e balançando como um navio.

Uma vez, no meio do dia, em pleno campo, no momento em que o sol dardejava mais forte contra as velhas lanternas prateadas, uma mão nua passou por baixo das cortininhas de tecido amarelo e jogou papéis rasgados, que se dispersaram ao vento e foram cair mais longe, como borboletas brancas, sobre um campo de trevos vermelhos todo em flor.

Depois, pelas seis horas, o cabriolé parou numa ruela do bairro Beauvoisine, e uma mulher desceu dele, caminhando com o véu abaixado, sem virar a cabeça.

25/10/2014

às 9:00 \ Vida literária

O bloqueio (e o bloquinho) do escritor

Hammett: bloqueio ou alcoolismo?

Hammett: bloqueio ou alcoolismo?

A ideia de “bloqueio de escritor” pode ter surgido junto com a de inspiração, irmãs gêmeas e inimigas geradas na barriga do Romantismo: ambas atacam quando bem entendem, sem que o pobre escritor possa fazer nada para controlá-las. A tese é exposta – não com essas palavras – por Joan Acocella, crítica da revista “New Yorker”, num alentado ensaio que estará no próximo número da revista “serrote”, semana que vem, sob o título “Por que os escritores param de escrever?”.

Segundo Acocella, o poeta romântico inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) foi a primeira pessoa da história a deixar registrado em seus diários um caso do gênero. “Bloqueio de escritor é um conceito moderno”, observa ela. “É provável que os escritores tenham sofrido para trabalhar desde que começaram a assinar suas obras, mas apenas no começo do século 19 essa inibição criativa tornou-se uma questão para a literatura, algo que as pessoas levavam em conta quando conversavam sobre a arte.”

A partir daí, a questão da angústia de não conseguir escrever é examinada pela autora sob diversos ângulos e em diversas épocas. Se, ao citar casos concretos, ela acaba falando quase exclusivamente de autores da língua inglesa (com uns poucos franceses de contrabando), ganha em abrangência ao abordar discursos variados sobre o problema, do psicanalítico ao neurocientífico.

A amplitude do enfoque é tão grande que chegamos ao fim da leitura com a impressão de que o tal bloqueio de escritor nem pode ser chamado de “o” problema. A ideia tem sido usada para cobrir uma gama enorme de desencontros entre quem escreve e a obra que gostaria de (ou que imaginamos que deveria) escrever. Desde casos temporários de pane após o sucesso do primeiro livro, como os de Jeffrey Eugenides e Michael Chabon, até a renúncia grandiloquente e definitiva ao ato de escrever ou pelo menos de publicar, como a de J.D. Salinger – ou de Raduan Nassar, para citar um exemplo brasileiro.

Mas será que podemos honestamente chamar de vítima de bloqueio um escritor que simplesmente decida parar de escrever por acreditar que já disse o que tinha a dizer? Ou que, como Fernando Sabino, continue escrevendo, mas migre para um gênero considerado mais fácil? Em outras palavras: embora seja natural lamentar que escritores tão bons não tenham produzido mais, sempre mais, isso não seria um atestado de ganância e ingratidão dos leitores? Quantos escritores prolíficos e inestancáveis deram tanto à literatura quanto os autores de “O apanhador no campo de centeio”, “Lavoura arcaica” e “O encontro marcado”?

Enrique Vila-Matas diria que o silêncio deles também é uma forma – superior? – de expressão artística. Mas Acocella não está interessada em extrapolações do gênero. Entre os extremos do arco que ela desenha, os tons de degradê são quase tão numerosos quanto os casos individuais. F. Scott Fitzgerald e Dashiell Hammett foram produtivos por poucos anos antes de serem derrotados pelo bloqueio – ou seria pelo alcoolismo mesmo?

Seria uma grosseria intelectual, claro, tratar o problema (por mais difuso que o conceito seja) como mera frescura dos tempos modernos, com base na constatação de que ele não existia no mapa mental dos escritores até o Romantismo. Noções e conceitos não têm apenas o poder de refletir comportamentos já existentes: também criam novos. Qualquer um que sofra ou já tenha sofrido por dias, semanas, meses diante de uma folha ou tela em branco, sem conseguir escrever ou escrevendo coisas que considera indignas de seu talento, sabe empiricamente que a coisa pode ser torturante.

No entanto, é difícil não ver algo de saudável no ceticismo do escritor inglês Anthony Burgess, autor de “Laranja mecânica”, que certa vez tratou o bloqueio como mania de americano. “Não tenho bloqueios para escrever”, disse ele, antes de explorar a polissemia do substantivo inglês block para acrescentar: “A coisa mais parecida que conheço são blocos, que compro na papelaria”.

18/10/2014

às 9:00 \ Vida literária

Em defesa da trama: Vonnegut e uma freira em apuros

kurt-vonnegutNa entrevista que Kurt Vonnegut (1922-2007) deu à “Paris Review”, lida há muitos anos, há um trecho que nunca me saiu da cabeça. Nele o escritor americano, autor de “Matadouro 5”, faz com a verve que lhe era característica uma defesa da boa e velha contação de histórias:

Garanto a você que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de enredo, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas à moda antiga seja contrabandeada para dentro da história. Não defendo a trama como representação acurada da vida, mas como forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava aulas de criação literária, costumava recomendar aos estudantes que fizessem seus personagens desejar alguma coisa imediatamente – mesmo que apenas um copo d’água. Personagens paralisados pela ausência de sentido da vida moderna ainda precisam beber água de vez em quando. Um dos meus alunos escreveu um conto sobre uma freira que ficou com um pedaço de fio dental preso entre os molares inferiores e não conseguia se livrar dele o dia inteiro. Achei isso maravilhoso. A história lidava com questões muito mais importantes do que fios dentais, mas o que mantinha os leitores presos era a ansiedade de saber quando o fio dental seria finalmente removido. Era impossível ler aquele conto sem sentir um incômodo entre os dentes. (…) Se você exclui a trama, se elimina o desejo de alguém por alguma coisa, você exclui o leitor, o que é uma coisa muito feia de fazer.

Não sei se a última frase, com sua generalização implacável, estará correta: há leitores de todo tipo e alguns deles devem sentir prazer com histórias (vamos manter a palavra, à falta de outra) absolutamente destituídas de conflito, desejo ou mesmo personagens, blocos de arte conceitual em que tudo o que se passa na página ocorre num plano meramente formal. Excluir essa possibilidade também seria um erro: se a literatura for alguma coisa, será o reino da liberdade autoral absoluta.

O que acredito que Vonnegut quis dizer é que, ao eliminar o personagem e seu desejo por algo que ele não tem – condições básicas para se estabelecer com o leitor um pacto narrativo de suspense e, por fim, (in)satisfação –, a literatura exclusivamente conceitual deixa ao relento uma imensa maioria de leitores. Isso me parece inquestionável e não vale apenas para o realismo: nada impede que, em vez de um copo d’água, o personagem deseje com ardor e acabe conseguindo, sei lá, cavalgar um unicórnio ou se transportar para dentro de um videogame.

Uma rápida consulta às listas dos livros mais vendidos, quase todos feitos de trama pura ou quase isso, basta para comprovar o que foi dito acima. O que complica a questão é que essa preferência popular tão categórica pela contação de histórias leva muita gente – sobretudo críticos, mas também escritores – a menosprezar o enredo, o entrecho, a intriga, o mistério, a surpresa como ferramentas menores da literatura, recursos identificados com o lado ingênuo ou menos sério da arte. Algo que deve ser eliminado ou, no mínimo, não sendo merecedor de grande atenção, resolvido rápida e porcamente a fim de deixar o terreno livre para o que de fato importa – seja lá o que isso for. Não duvido que em tal erro de julgamento resida parte da explicação para que as listas de mais vendidos do início deste parágrafo estejam há anos tão melancolicamente despovoadas de brasileiros.

A ideia de “contrabando” sugerida por Vonnegut me parece uma estratégia artística mais inteligente. Aquela freira às voltas com seu fio dental torturante pode ter vivido ao longo do conto, que não nos é dado conhecer, todo tipo de conflito casca-grossa – teológico, sexual, linguístico, cognitivo, o diabo –, mas o leitor se veria menos disposto a acompanhá-la em tais profundezas se não estivesse preso à história pelo fio prosaico que ela traz entre os dentes. Estamos diante de um inequívoco MacGuffin.

Termo mais conhecido pela turma do cinema, MacGuffin é uma palavra popularizada por Alfred Hitchcock para designar aquele elemento da história que impulsiona a ação dos personagens e que, no fim das contas, descobrimos não ter tanta importância assim, pois o verdadeiro foco da narrativa era outro. O que vale para o cinema e a TV vale também para a literatura – ou para qualquer forma de contar histórias. Não por acaso, um MacGuffin clássico é a estatueta que dá título ao romance “O falcão maltês”, de Dashiell Hammett, e também ao filme de John Huston nele baseado (batizado de “Relíquia macabra” no Brasil). Descobrimos perto do fim que a preciosidade em nome da qual tanto sangue foi derramado é falsa, mas isso já não tem muita importância.

Uma boa frase de autoria duvidosa, popularizada por John Lennon na canção Beautiful boy, sustenta que “vida é aquilo que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Pois história – ou pelo menos um tipo bastante interessante de história – é aquilo que acontece enquanto estamos ocupados imaginando o que será feito do MacGuffin. Nesse meio tempo pode acontecer nas páginas o que o autor quiser ou puder fazer acontecer, inclusive a arte literária mais rigorosa e exigente. Com a vantagem de que, nesse caso, o leitor vem junto.

 

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