Blogs e Colunistas

19/06/2013

às 13:09 \ Antologia

Que cena! O encontro com a morte, segundo Crane

O clássico “O emblema vermelho da coragem”, de Stephen Crane (Penguin-Companhia, 2010, tradução deste que vos digita, 216 páginas), romance definitivo sobre a Guerra Civil Americana que o precoce autor (1871-1900) lançou quando tinha apenas 24 anos e nenhuma experiência de batalha, tira pelo menos parte de sua estranha força do contraste entre o vastíssimo cenário épico da guerra e o olhar impressionista por meio do qual o narrador em terceira pessoa filtra tudo para o leitor: o de um jovem, ensimesmado e torturado soldado de primeira viagem que, já em seu batismo de fogo, se descobre um covarde. (Com típico excesso explicativo, chamou-se no mercado brasileiro “A glória de um covarde” a adaptação cinematográfica de 1951 dirigida por John Huston.)

Depois de fugir do fogo e passar a vagar sozinho pelos campos em luta feroz com sua consciência, cruzando com grupos de soldados vivos e mortos em situações variadas, o “soldado jovem” que conduz a história, chamado Henry Fleming, encontra numa longa coluna de feridos que caminha em direção à retaguarda seu amigo e companheiro de pelotão Jim Conklin, o “praça alto”, que está evidentemente nas últimas. Ao lado de outro personagem, o “soldado maltrapilho”, o jovem passa a acompanhá-lo. O espetáculo sinistro e ao mesmo tempo meio burlesco da morte de Jim é uma das cenas mais emblemáticas do tom do livro, que Joseph Conrad, amigo e admirador de Crane, considerou superior a “Guerra e Paz” como retrato da realidade humana de uma batalha.

Virou-se e viu o amigo correndo aos trancos e tropeções na direção de um pequeno grupo de arbustos. Diante da cena, seu coração parecia querer abandonar o corpo. Deu um gemido de dor. Em pouco tempo, ele e o maltrapilho saíam no encalço do outro. Era uma estranha corrida.

Quando alcançou o praça alto, começou a lhe dirigir apelos com todas as palavras que conseguia encontrar. “Jim… Jim… o que você está fazendo… o que houve… você vai se machucar!

Havia determinação no rosto do praça, que protestava mecanicamente, mantendo os olhos fixos no plano místico de suas intenções. “Não… não… não toca em mim… Me deixa, me deixa!”

O jovem, horrorizado e cheio de assombro com o comportamento do amigo, começou a questioná-lo com voz trêmula. “Ande você vai, Jim? O que você está pensando? Hein, Jim, me diz…”

O praça alto se virou como se estivesse encarando perseguidores implacáveis. Havia em seus olhos um apelo enérgico. “Me deixa, está bem? Me deixa um minuto!”

O jovem se ressentiu. “Mas, Jim…”, disse, atordoado, “o que que há com você?”

O praça alto se virou e, capengando de modo periclitante, seguiu em frente. O jovem e o maltrapilho seguiram timidamente atrás, como se tivessem levado uma chibatada e se sentissem incapazes de enfrentar de novo o homem debilitado. Ideias solenes começaram a lhes ocorrer. Havia algo de ritualístico na ação do moribundo, algo que o aparentava a um devoto de alguma religião insana, capaz de chupar sangue, espremer carne, amassar osso. Sentiam um misto de reverência e medo. Deixaram-se ficar para trás, receando um possível acesso do homem a poderes ocultos e tenebrosos.

Por fim, viram-no parar e ficar imóvel. Apressando o passo, distinguiram em seu rosto a expressão de quem finalmente havia encontrado o lugar pelo qual lutara. Seu vulto magro estava ereto; as mãos pendiam calmas ao lado do corpo. O homem esperava pacientemente algo que viera encontrar. Estava no local combinado. O jovem e o maltrapilho aguardaram.

Houve um silêncio.

De repente, o peito do condenado começou a subir e descer num movimento tenso. A violência do ataque foi crescendo até que parecia haver um animal dentro dele, pulando e escoiceando furiosamente para se libertar.

Aquele espetáculo de estrangulamento gradual fez o jovem tiritar. A certa altura, quando o amigo revirou os olhos, viu neles algo que o levou a jogar-se no chão, chorando. Ergueu a voz, num último e supremo chamado.

“Jim… Jim… Jim…”

O praça alto abriu a boca e disse, erguendo a mão: “Me deixa… não toca em mim… me deixa…”.

Fez-se um novo silêncio de expectativa.

De repente, o corpo do homem se enrijeceu e se aprumou. Depois, foi sacudido por um demorado tremor. Ele fitava o vazio. Pareceu aos dois observadores que havia uma profunda, estranha dignidade nas linhas firmes de seu rosto medonho.

Uma estranheza aos poucos o envolvia. Por alguns instantes, a tremedeira de suas pernas o fez dançar uma horrenda quadrilha. Seus braços desferiam golpes no ar, junto da cabeça, com entusiasmo demoníaco.

O corpo alto estava teso e esticado ao máximo. Houve um leve ruído de dilaceramento e ele começou a tombar para a frente, lento, reto, como uma árvore caindo. Uma contorção muscular brusca fez seu ombro esquerdo tocar primeiro no chão.

O corpo pareceu quicar levemente ao encontrar a terra.

“Nossa!”, disse o soldado maltrapilho.

O jovem acompanhara, enfeitiçado, essa cerimônia no local combinado. As expressões de seu rosto traduziam toda a agonia que imaginava sentir o amigo.

Então, de um salto, chegou mais perto e olhou o rosto vítreo. A boca estava aberta, mostrando os dentes num riso.

Olhando a aba do casaco, aberta ao lado do corpo, o jovem notou que ela parecia ter sido mastigada por lobos.

Voltou-se, pálido e furioso, na direção do campo de batalha. Ergueu um punho ameaçador. Parecia a ponto de disparar um insulto.

“Inferno…”

O sol vermelho estava pregado no céu, como um lacre.

17/06/2013

às 16:14 \ Pelo mundo, Vida literária

Em defesa de Alice Munro

Trata-se de uma espécie de “Sobre a arte de jogar pedra nos clássicos – parte 2”: na revista eletrônica Salon.com, o escritor Kyle Minor sai em defesa da contista canadense Alice Munro (foto), que foi esculachada dos pés à cabeça por uma resenha de Christian Lonrentzen na prestigiosa London Review of Books (os dois textos em inglês, acesso gratuito).

Alice Munro atingiu um lugar de proeminência literária, e quando um escritor atinge um lugar de proeminência literária, pode acontecer que um crítico encarregado de resenhar seu novo livro se sinta tentado a transformar a encomenda numa oportunidade de fazer uma declaração bombástica sobre o tal escritor proeminente – e dessa forma fazer uma declaração bombástica sobre a literatura contemporânea, a cultura literária contemporânea ou a crítica literária contemporânea.

Há dois caminhos comuns pelos quais esse tipo de declaração bombástica pode dar errado – o da santificação e o da iconoclastia. O crítico do tipo santificador despeja sobre o escritor uma ducha de elogios incondicionais, declara-o um gênio e ignora seus defeitos – ou diz que eles são virtudes. O outro tipo de crítico talvez decida que o modo mais seguro de esvaziar o balão de uma reputação hiperbólica não é apenas deixar um pouco de ar escapar. Não, pode ser mais satisfatório – além de chamar mais a atenção – atacá-lo com um lança-chamas.

Christian Lorentzen, um dos editores da “London Review of Books”, usou as cerca de 3 mil palavras que lhe foram encomendadas para a resenha de “Dear life”, a 14ª coletânea de contos de Alice Munro, como uma oportunidade de corrigir o que talvez tenha identificado corretamente como uma cultura de santificação acrítica que hoje parece saudar cada novo livro de Munro. Mas o modo que escolheu para expressar sua correção foi uma resenha cruel e terrivelmente equivocada, um antiquado trabalho de carnificina que desdenha, ridiculariza e cinicamente treslê uma carreira que prospera placidamente há 45 anos.

Minor não precisaria se esforçar muito para conquistar minha simpatia nessa briga. Considero Munro uma baita contista. No trecho abaixo, porém, ele toca no que me parece ser um dos grandes nós do trabalho de apreciação crítica de literatura – mesmo quando o crítico está imbuído do maior espírito de justiça:

Há um ponto em que a resenha de Lorentzen acerta, uma verdade que merece ser apregoada aos quatro ventos: nenhum escritor merece reverência. Um conto ou um romance pode conquistar um tipo de reverência, mas se o ponto de partida crítico é a reverência, torna-se impossível descrever o que, na obra, induziu essa reverência (…) [Mas] a preocupação de Lorentzen se projeta numa direção ligeiramente errada. O problema não começa quando um escritor é “elogiado demais”. O problema começa quando um conto ou romance já não pode ser lido porque o leitor está ocupado demais lendo sua própria ideia preexistente sobre o escritor.

A última frase merece ser impressa e colada na parede diante da mesa de trabalho de todo crítico. Simpáticos ou hostis ao autor até o momento de abrir o livro, o maior desafio de todos nós – talvez até, em determinadas situações, intransponível – será sempre ler o texto, não o escritor.

14/06/2013

às 13:42 \ Pop de sexta

Essa vida dura de escritor, segundo o Monty Python

“O que você sabe sobre acordar às cinco da manhã para voar para Paris?”, pergunta o pai (Graham Chapman), um velho e rude dramaturgo de sucesso, ao filho (Eric Idle), um jovem e polido mineiro de carvão, no calor do bate-boca que deixa a mãe (Terry Jones) aflita.

Sim, alguma coisa está – muito – fora da ordem nessa versão nonsense do imemorial conflito de gerações. Casos de empate são admissíveis em tese, mas dificilmente o truque cômico dos papéis trocados terá sido empregado algum dia com mais eficácia do que em Working-class playwright, esquete (legendas em espanhol) que foi ao ar na temporada de 1969 do Monty Python’s Flying Circus, a primeira do programa de TV que o grupo britânico manteve na BBC até 1974.

“Vou dizer o que está errado com o senhor!”, retruca o filho a certa altura. “Sua cabeça está turvada de romances e poemas. O senhor volta para casa toda noite recendendo a Château Latour. E veja o que fez com a mamãe! Ela está acabada de tanto encontrar estrelas do cinema, frequentar premières e oferecer almoços de gala!”

“Não tem nada errado com almoços de gala, rapaz!”

(…)

“Um dia o senhor vai entender que a vida não é só cultura! Que ela é também sujeira, fumaça e o bom e honesto suor!”

“Vá embora, seu… trabalhador braçal!”

Bom fim de semana a todos.

12/06/2013

às 14:14 \ Posts

O paradoxo do moleque no país do futebol

Pelé apronta uma molecagem histórica com o goleiro uruguaio Mazurkiewicz na Copa de 1970

Molecagem baiana. Capoeiragem pernambucana. Malandragem carioca. “Com esses resíduos”, escreveu o sociólogo Gilberto Freyre, autor de “Casa grande & senzala”, obra clássica sobre a formação da sociedade brasileira, “é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é.” Atenção: o autor pernambucano não estava embriagado pelos vapores de uma grande vitória esportiva quando escreveu isso. O texto é de 1947. Além de ostentar como maior feito internacional um terceiro lugar na Copa do Mundo da França, em 1938, a seleção – algo que hoje parece mais grave – ainda envergava como uniforme uma camisa branca. Ou seja, o “país do futebol” ainda não o era.

Hoje, depois de cinco títulos mundiais e da introdução da camisa amarela como um dos mais poderosos ícones da mitologia esportiva em todos os tempos, o problema é outro. Comenta-se pelas esquinas que o “país do futebol” já era. Será? A possibilidade não deve ser descartada. Dentro e fora do esporte, os destroços de potências decaídas entulham a história. Mas é curioso observar como a velha retórica otimista do sociólogo, com suas “surpresas irracionais” e “variações dionisíacas” (uma referência a Dionísio, deus grego da festa e do prazer), ainda descreve com perfeição o futebol de um garoto paulista nascido há 21 anos em Mogi das Cruzes.

Neymar, criticado com razão por não ter mostrado até hoje na seleção as qualidades exibidas no Santos, terá na Copa das Confederações mais uma chance de queimar a língua de seus detratores. Impossível, claro, prever se fará isso. De uma forma ou de outra, percebe-se ao ler a louvação de Freyre à “molecagem” – publicada como prefácio à primeira edição do livro “O negro no futebol brasileiro”, do jornalista Mario Filho, hoje mais conhecido como o homem que deu nome ao Maracanã – que Neymar se mantém fiel às características que, para começo de conversa, conquistaram para o Brasil o direito ao título “país do futebol”.

Pode-se argumentar que slogans são coisas vazias. Seria mesmo burrice ignorar o cheiro de ufanismo, esse arraigado vício nacional, que exala do bordão. Burrice ainda maior seria negar os fatos que lhe deram origem. A sequência de triunfos enfileirada pela seleção brasileira entre as Copas de 1958 e 1970 (com 1966 como falha grotesca num sorriso cintilante) ocorreu na hora certa, quando o futebol se consolidava como mania global, via televisão. Tal conjuntura ajudou Pelé a se tornar o maior ídolo esportivo da história e deu ao “escrete canarinho” dos locutores do rádio um significado que ultrapassava o campo de jogo.

“Quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?”, escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm em seu clássico “Era dos extremos: o breve século XX”. O estilo peculiar daqueles homens de amarelo ficou conhecido em inglês como beautiful game (jogo bonito) e transformou a seleção brasileira em benchmark inalcançável – até por ela mesma – de um futebol competitivo e, ao mesmo tempo, de alto nível estético. Com a possível exceção da música popular, nenhum outro produto cultural do país atingiu tal padrão de excelência no cenário internacional.

Desde 1970 passou-se quase meio século, mas fenômenos desse tipo não desbotam facilmente. Pelo contrário, tendem a pular fora do tempo, aspirando à eternidade dos mitos. O que pode ser cruel com o presente. Do passado de glórias da seleção brasileira, que até o início de junho amargava um inédito 19º lugar no ranking da Fifa [depois caiu para 22º], a equipe que disputará em casa a Copa das Confederações parece ter herdado apenas o peso de uma comparação que oprime em vez de inspirar. Os prognósticos da maior parte da imprensa esportiva só não são mais sombrios porque a Alemanha – seleção que o ex-craque e atual deputado Romário, concordando com muita gente, elegeu como favorita para a Copa de 2014 – não disputará o ensaio geral. No entanto, Espanha, Itália, Uruguai e México parecem ter força de sobra para estragar a festa dos anfitriões.

Talvez estraguem mesmo. Além dos resultados pífios colhidos pela seleção nos últimos anos, os ventos de baixa auto-estima que varrem o país são movidos pela constatação de que, da Confederação Brasileira de Futebol ao mais modesto clube do interior, toda a infra-estrutura do futebol brasileiro precisa se modernizar, abandonando esquemas carcomidos por clientelismo, corrupção e incompetência administrativa. Algo, aliás, que pode ser dito sobre o Brasil como um todo. “Quando se alterna na televisão os jogos das grandes ligas europeias e do Brasileirão”, escreveu recentemente o cronista musical Nelson Motta, “pela lentidão e violência, pelos gramados carecas, pela pobreza técnica e tática, pelas torcidas selvagens, os nossos parecem jogos da segunda divisão.”

Apesar de tudo isso, não tira a legitimidade das críticas reconhecer que elas sempre acompanharam a seleção. A equipe de 1970, hoje alçada ao Olimpo de melhor da história, foi cruelmente vaiada no Maracanã ao derrotar a Áustria por 1 a 0 na última partida antes do embarque para o México. “Um escrete é feito pelo povo”, escreveu o cronista Nelson Rodrigues. “E como o povo o fez? Com vaias. Nunca houve na Terra uma seleção tão humilhada e tão ofendida.” Em 1958, antes da partida contra a URSS, era comum ver nossa derrota dada como certa diante do “futebol científico dos russos” – uma provável influência do lançamento, um ano antes, do satélite artificial Sputnik, façanha tecnológica inédita. Depois que o Brasil venceu por 2 a 0 com um show extraterrestre de Garrincha, a depressão virou euforia.

Surtos semelhantes de bipolaridade podem ser encontrados em vários momentos da história. O mesmo Nelson Rodrigues que, às vésperas da Copa de 1958, dizia que para triunfar a seleção precisaria superar nosso “complexo de vira-latas”, registrava após o título que “o triunfo embelezou-nos. Na pior das hipóteses, somos uns ex-buchos”. A ciclotimia brasileira não se restringe ao futebol, mas encontra nele uma poderosa caixa de ressonância, encenando no plano esportivo a alegoria de um país que tem confiança ilimitada em seus recursos naturais e talentos humanos, mas vê com frequência essas potencialidades serem derrotadas por mazelas ligadas ao baixo grau de desenvolvimento político, econômico, educacional e social.

Em seu livro “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, de 2008, o crítico cultural José Miguel Wisnik chama tal alternância de humor de “dispositivo doentio segundo o qual o país é ou receita de felicidade ou fracasso sem saída”. E a relaciona ao fato de brotarem no mesmo solo nossas qualidades e defeitos, “a informalidade e a impunidade, o carnaval e o favorecimento ilícito, o estilo versátil e a irresponsabilidade”. Nesse ponto podemos cunhar uma nova expressão e dizer que o futebol brasileiro vive preso – e não é de hoje – no “paradoxo do moleque”. Se vencemos, vencemos porque somos moleques (abusados, criativos, destemidos, originais). Se perdemos, perdemos porque somos moleques (irresponsáveis, indisciplinados, indolentes, sem fibra). A distância entre a soberba e o vira-latismo é tão curta que cabe na mesma palavra.

Se o moleque Neymar e seus companheiros conseguirem a façanha – e nenhum adversário seria tão idiota a ponto de considerá-la impossível – de virar o jogo mais uma vez, catapultando o paciente de uma depressão de dimensões continentais a uma euforia do mesmo tamanho, será importante ter em mente o paradoxo do moleque. Talvez acreditemos então que os problemas do futebol brasileiro estarão resolvidos. Não estarão.

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Ensaio que publiquei no “Guia da Copa das Confederações”, edição especial de VEJA que está nas bancas e que pode ser baixada gratuitamente no tablet.

10/06/2013

às 15:12 \ Pelo mundo

Como a Coreia do Norte salvou a arte alemã e outros links

Um fascinante artigo da Bloomberg Businessweek (em inglês, acesso gratuito) conta como um gigantesco ateliê norte-coreano de escultura e pintura em estilo realista-socialista, o Mansudae (que tem como principal cliente o próprio Estado, claro), foi a melhor opção da cidade de Frankfurt quando, há poucos anos, seus administradores decidiram reconstruir a Fonte do Conto de Fadas (foto), uma extravagância art noveau de 1910 que tinha sido derretida para alimentar a indústria bélica nazista na Segunda Guerra Mundial. Uma fábula real sobre como o tecido da história tem dobras surpreendentes em que o “atraso” estético pode virar vantagem competitiva:

Klaus Klemp, diretor do Museu de Arte Aplicada de Frankfurt, descobriu o Mansudae em 2004 e ficou tão impressionado com a qualidade de seu trabalho que convenceu a burocracia local a contratar o ateliê. “Foi uma decisão puramente técnica”, diz ele. “Os artistas de ponta na Alemanha simplesmente não fazem mais arte realista. Os norte-coreanos, por outro lado, não vivenciaram a longa evolução da arte moderna: estão meio que presos no início do século XX, que é exatamente quando a fonte foi construída.” O preço cobrado pela Coreia do Norte para reconstruir a escultura de bronze também foi atraente: 200 mil euros, transporte incluído.

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No artigo “Jornalismo cultural: promessas e impasses” (o primeiro de uma série), o crítico literário João Cezar de Castro Rocha dá prosseguimento, no jornal “Rascunho”, às mais lúcidas reflexões que tenho visto por aí sobre o momento crivado de sinais contraditórios que vive a cultura brasileira:

De um lado, verifica-se um movimento intenso na área da literatura, em particular, e da cultura, em sentido amplo. Festivais literários se multiplicam; jovens leitores criam blogs e vlogs para discutir suas leituras; autores se desdobram em oficinas e palestras; pequenas editoras surgem com propostas ousadas; o fenômeno da auto-publicação se firma no cenário das letras brasileiras, etc. etc..

De outro lado, escuta-se um coro orquestrado de teóricos, críticos e jornalistas decretando a decadência do momento atual, e, em casos extremos, diagnosticando o “vazio cultural” como a marca-d’água dos tempos que correm.

Ora, em meio ao tiroteio, que partido tomar?

No primeiro momento, partido algum. Trata-se de estudar o presente com uma dupla mirada, destacando as promessas, porém assinalando os impasses.
Em segundo lugar, deve-se analisar, concretamente, a cena contemporânea; caso contrário, como evitar o ridículo de uma frase que se ouve e lê com uma frequência preocupante? Eis: afirma-se que a literatura brasileira contemporânea pouco vale; e a crítica, nada conta. Nesse caso, pergunta-se ao casmurro magistrado: “mas que autores contemporâneos o senhor leu recentemente?”. A resposta, primorosa em sua perversão, encerra o diálogo, como se os famosos antropólogos de gabinete do século 19 retornassem sem constrangimento: “Eu? Nenhum, claro! Pois se a literatura brasileira contemporânea pouco vale…”.

*

Uma imperdível reportagem de Lucas Ferraz na “Ilustríssima” conta a história da maior biblioteca especializada em sexo, drogas e contracultura em todo o mundo, com mais de 50 mil itens, muitos deles raridades. A coleção foi montada ao longo da vida pelo bilionário colombiano Julio Mario Santo Domingo Jr., morto em 2009, e cedida pela família a Harvard.

07/06/2013

às 8:20 \ Pop de sexta

Quando Dickens encontrou Morrissey no portão do cemitério

Isso é Pop Literário de Sexta em sua forma mais acabada e essencial: um brilhante clipe de três minutos em que a vida e a obra do escritor inglês Charles Dickens (1812-1870) são resumidas numa canção pop que parodia o estilo dos Smiths (1982-1987), com destaque para o desempenho impagável do ator e músico Mathew Baynton como Dickens/Morrissey. O clipe foi produzido para um programa infantil – isso mesmo, infantil – da BBC chamado Horrible Histories. Bom fim de semana a todos.

05/06/2013

às 13:08 \ Sobrescritos

O último Sobrescrito

“Lá fora espocam foguetes que choram lágrimas incandescentes”, ele escreveu. “Mas não choram mais que Maria Flor.”

Assim terminava a redação de 1975 que nunca lhe saiu da memória. Tinha treze anos e sua presunção, como toda presunção, era feita metade de coisas sabidas – lágrimas metafóricas! o verbo espocar! – e metade de coisas rotundamente ignoradas. O atraso cósmico, por exemplo.

Transformar a tarefa escolar num esboço de conto regionalista dos anos 30 sobre um coitado, o marido de Maria Flor, que os capangas de um coronel provavelmente nordestino matavam por vagas disputas fundiárias em pleno curso dos festejos juninos era para sempre embaraçoso. Talvez desculpável também. Quem sabe nessa idade o que é clichê ou, mais difícil ainda, purple prose?

A professora de português, que devia saber tudo isso, adorou. Leu a redação em voz alta para a turma e apressou a chegada do arrependimento que ia se agravar com os anos, a ponto de levá-lo a passar a vida inteira, livro após livro – não que tivesse consciência disso, era algo que percebia agora, no leito da UTI – renegando no tutano de cada frase que escrevia a própria possibilidade de foguetes derramarem lágrimas incandescentes e serem suplantados no chororô por aquela ridícula Maria Flor.

Quando enfim foi se juntar ao marido dela, era madrugada e não havia fogos lá fora, só o duro silêncio urbano cortado aqui e ali por buzinas, freadas, palavrões. Houve quem chorasse um choro sem metáfora.

03/06/2013

às 15:46 \ Pelo mundo

Eagleton espanca Coetzee e Auster: só falta o Bono Vox


É uma ilusão romântica supor que escritores devem ter algo interessante a dizer sobre relações raciais, armas nucleares ou crises econômicas pelo simples fato de serem escritores. Não há nenhuma razão para presumir que romancistas ilustres como Paul Auster e J.M. Coetzee tenham uma visão mais sábia da conjuntura mundial do que um físico ou um neurocirurgião, algo que essa correspondência entre eles confirma de modo deprimente. Na verdade, não há razão alguma para que autores tenham algo especialmente marcante a dizer sobre o ato de escrever, muito menos sobre a Caxemira ou o IRA. Seus comentários sobre a própria obra que produziram podem ser ainda mais obtusos que o dos críticos. Se T.S. Eliot acreditava mesmo que “A terra devastada” era apenas um amontoado de resmungos rítmicos, como disse certa vez, nunca deveriam tê-lo condecorado com a Ordem do Mérito.

Os comentários de Coetzee sobre a atual crise econômica não são apenas equivocados, mas levianos. Nada de fato aconteceu com a economia mundial, ele escreve presunçosamente a Auster, a não ser uma reacomodação estatística. É improvável que o Banco da Inglaterra, para não falar das pessoas que viram suas casas e seus sustentos lhe serem roubados por gângsteres financeiros, fiquem extraordinariamente impressionados com seu argumento. A julgar por sua resposta circunspecta, nem Paul Auster ficou, embora respeite demais o colega renomado para dizer isso de forma direta. (…) A verdade é que nenhum dos dois sabe nada de economia, e não existe razão para supor que uma habilidade com as metáforas confira a uma pessoa esse tipo de compreensão. Só quem herdou a crença no artista como sábio, profeta ou visionário achará desconcertante descobrir que nenhum desses liberais ‘bien-pensant’ tem algo de profundo ou original a dizer sobre política.

O crítico inglês Terry Eagleton capricha no veneno em sua resenha (em inglês, acesso gratuito) de Here and now, edição da correspondência que o sul-africano J.M. Coetzee e o americano Paul Auster trocaram entre 2008 e 2011. Publicada pelo Times Literary Supplement, a bordoada vem ancorada em argumentos. O que incomoda Eagleton é o fato de as cartas trocadas pelos colegas ficcionistas passarem longe de se caracterizar como um diálogo realmente artístico – além de terem pouco em comum no campo literário, os dois, sobretudo Auster, estariam cheios de dedos demais para arriscar incursões nesse terreno – ficando no campo da troca de gentilezas e observações genéricas, algo que tem lógica exclusivamente privada. A questão é: direito deles, mas para que publicar essas coisas? O crítico faz duas ressalvas, ambas creditadas ao nobelizado da dupla:

O livro tem apenas dois trechos de interesse literário. Um deles é uma reflexão idiossincrática e levemente gozadora de Coetzee sobre o papel do telefone celular na literatura. Uma vez que a trama tradicional tende a depender tanto da distância quanto da proximidade entre os personagens, como isso foi alterado por um mundo em que todos estão imediatamente acessíveis o tempo inteiro? Como, por exemplo, foi afetado o romance de adultério, uma prática que, na vida real, teve que se adaptar às novas formas de comunicação? Há ainda uma ou duas cartas envolventes de Coetzee, pequenas joias que prometem enlevar os críticos pós-coloniais, sobre sua relação complexa, como africâner, com o inglês como “língua-mãe”. Muitos escritores e intelectuais contemporâneos, assinala, “têm uma relação distante ou interrogativa com o idioma que falam e escrevem”. Quando estava crescendo, observa, sempre achou que o inglês era uma propriedade dos ingleses, não sua. “Os ingleses inventavam as regras do inglês da forma mais caprichosa que quisessem… (enquanto) pessoas como eu seguiam à distância e faziam o que eles mandavam”. Aos vinte e um anos, vivendo na Inglaterra, tinha certeza de falar e escrever melhor do que a maioria dos nativos, mas via-se identificado como estrangeiro no instante mesmo em que abria a boca. Auster entra na conversa com algumas observações bem menos sutis sobre seus avós imigrantes judeus e sua mulher norueguesa.

Eagleton, um dos grandes críticos literários da atualidade, é um pensador marxista fino, avesso a raciocínios mecanicistas, mas derrapa aqui e ali. Como quando critica os missivistas por falarem muito sobre esporte – um dos traços mais interessantes do livro, a meu ver – e, mesmo assim, deixarem de “reconhecer que o esporte, nos dias de hoje, é o ópio do povo”. É como se evitar o velho e desgastado clichê fosse um defeito e não uma qualidade que Coetzee e Auster compartilham em sua tentativa de compreender a profunda ressonância cultural que fundamenta a indústria globalizada em que o esporte se transformou. (Leia aqui, em português, trecho de uma carta “esportiva” de Coetzee, adiantada pelo Todoprosa em março.)

Quando alfineta os autores por seu desprezo aos críticos, Eagleton, sem deixar de ter razão, também dá a impressão de que contrapõe um corporativismo ao outro – o que deixa fora da brincadeira o leitor que não é nem crítico nem escritor. No entanto, a resenha exibe os méritos habituais do autor, raros tanto entre críticos quanto, reconheça-se, entre escritores: a clareza do pensamento, do estilo e do humor. Terminamos com a impressão – no meu caso, surpreendente – de que uma edição da correspondência entre dois ficcionistas respeitáveis pode ser mais um sintoma, ainda que discreto, da mesma patologia cultural que produziu a febre dos reality shows e as colunas online que acompanham minuto a minuto a vida das celebridades.

“Esse livro preenche uma lacuna muito necessária”, dizem que começava assim uma resenha lendária, talvez apócrifa. O mesmo, infelizmente, pode ser dito deste aqui. Fãs de beisebol deverão achá-lo mais satisfatório do que cultores de ficção. Ele nos ameaça com um gênero inteiramente novo em que os leitores se deliciarão com os pensamentos de Martin Amis sobre contabilidade apenas porque foram pensados por Martin Amis, ou farão fila para ouvir Bono discorrer sobre doenças tropicais simplesmente porque ele fez todos aqueles shows. É um alívio, contudo, descobrir que tanto Auster quanto Coetzee acreditam que a resposta adequada a uma crítica negativa é conservar um silêncio orgulhoso, e não enfiar um murro no estômago do crítico. Para este resenhista, trata-se de um dos aspectos mais gratificantes de todo o projeto.

31/05/2013

às 9:47 \ Pop de sexta

Clássicos com capas cretinas, agora em versão ‘pulp’

Juro que não conhecia essa coleção, recém-lançada pela editora londrina Oldcastle Books, quando lancei aqui, há pouco menos de três semanas, a proposta meio séria e meio gozadora de reembalar clássicos da literatura brasileira em capas popularescas e apelativas – numa palavra, cretinas – como forma de atrair leitores fora do gueto literário. Os leitores do Todoprosa responderam com suas próprias e divertidas criações. Agora, vendo as capas do selo Pulp! The Classics, todas inspiradas na arte inconfundível das edições baratas de pulp fiction de meados do século passado, começo a acreditar que alguma coisa no Zeitgeist nos empurra mesmo nessa direção. Bom fim de semana a todos.

29/05/2013

às 11:41 \ Pelo mundo

Literatura acima das nuvens e outros links

A Qantas, companhia aérea australiana, lançou um curioso programa (em inglês, acesso gratuito) de encomenda de livros de ficção e não-ficção para serem distribuídos em seus voos. Os tamanhos são variados como as rotas, mas a ideia é que o volume seja sempre lido entre a decolagem e o pouso. No cálculo, levou-se em conta que o leitor médio dá conta de algo entre duzentas e trezentas palavras por minuto. Os nomes dos autores ainda não foram divulgados.

Por alguma razão, não consigo imaginar Gol ou Tam fazendo isso.

*

Há um ingrediente adicional que torna mais eficaz o recurso ao pensamento esotérico. Para deixá-lo doutrinariamente inofensivo, para despojá-lo de todo perigo satânico, Coelho o combina com doses adequadas de cristianismo tradicional: citações da Bíblia, quadros do Sagrado Coração de Jesus, rezas do Pai Nosso… O público majoritário não se sente em pecado por ler heresias, e o narrador, ao mesmo tempo que se faz passar por alguém dotado de poderes paranormais (capaz inclusive de telepatia), deixa saber que é também um bom cristão, apesar de seus flertes com a magia.

Por que Paulo Coelho é tão ruim, na avaliação de Héctor Abad Faciolince (em espanhol).

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A escrita é uma porta pequena. Algumas fantasias, como peças grandes demais de mobília, não passam por ela.

O blog de Maria Popova traz uma intrigante seleção (em inglês) de anotações de Susan Sontag sobre o ato de escrever, colhidas em seus diários (publicados no livro As consciousness is harnessed to flesh).

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Esta reportagem de Jones Lopes da Silva no jornal gaúcho “Zero Hora”, sobre as seringas compartilhadas que dizimaram quase toda uma geração de jogadores do Gaúcho de Passo Fundo, paga – no conteúdo e na forma – parte daquela dívida que, dizem, a literatura brasileira tem com o futebol.

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Dan Brown, que acaba de voltar ao primeiro lugar nas listas de best-sellers com seu “Inferno”, tem um método peculiar (em inglês) para combater o bloqueio criativo: pendura-se de cabeça para baixo.

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A ideia não é nova, mas nunca ganhou a sustentação de argumentos tão detalhados (em inglês, acesso gratuito): Humbert Humbert, o narrador pedófilo de “Lolita”, de Vladimir Nabokov, era judeu?

 

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