Blogs e Colunistas

24/01/2015

às 9:00 \ Antologia, Vale a pena ler de novo

Merchandising literário, uma modesta proposta

livro com dinheiro– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Mas só comecei a acertar mesmo quando troquei o velho trabuco por esta Taurus aqui, arma de grande maravilha. O senhor espie. Hem? Hem?

*

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Nada que a agência de detetives Labanca & Irmãos não resolva em uma semana, com resultados comprovados e sigilo garantido.

*

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar.

O doutor que a atendeu
Não tardou a receitar
Óc’los da Ótica Fiel
Pra vista dupla acabar.

*

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo…
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! que chás espetaculares!

*

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Se os tivesse, não hesitaria em escolher o conforto e a segurança da Maternidade Nossa Senhora do Bom Parto, que tem convênio com todos os planos de saúde.

*

Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
melhor que Tramontina.

*

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Mas um dia hei de ir – nas asas da Air France, ça va sans dire!

*

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Ao pé deles, degustariam com delícia sua cota de Maxi Goiabinha.

*

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja de Zippo enquanto dure.

17/01/2015

às 9:00 \ Vale a pena ler de novo, Vida literária

1975: o ano em que a literatura explodiu

Nada a ver com saudosismo. Eu mal entrava na adolescência, e os livros que lia na época eram bem diferentes dos que vou citar aqui. Apenas aconteceu que, intrigado por uma coincidência flagrada casualmente, comecei a puxar um fio na estante e acabei com uma pilha de evidências de que a safra de 1975 foi gloriosa para a literatura brasileira – a última de nossas safras gloriosas, como se depois disso a terra tivesse secado, tornando as colheitas mais espaçadas.

Antes de tentar explicar a generosidade literária daquele tempo – e a relativa sovinice dos anos seguintes –, convém justificar a tese. Para tanto basta dizer que 75 trouxe à luz, de uma só vez, duas obras-primas espantosas e cabais: “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, e “Lavoura arcaica”, de Raduan Nassar (eis a coincidência em que reparei por acaso). Só isso já seria histórico. Tem mais.

De saída, que tal juntar à pilha o “Zero” de Ignácio de Loyola Brandão? A qualidade é desigual, eu sei. Talvez o confuso “Zero” nem faça muito sentido lido fora da moldura de um regime autoritário, mas, censurado, converteu-se em livro-símbolo de um tempo. Ou seja: entre méritos literários e históricos, entre texto e contexto, temos um trio de marcar época. Aqui um mais rumoroso, ali um mais perene – de ambos os tipos se faz uma literatura.

Completam o quadro um punhado de livros recebidos com menos fanfarra, mas que, tomados em conjunto, valem por um atestado impressionante de vigor (na dúvida, é só comparar com as listas de finalistas do Jabuti nas últimas décadas): Caio Fernando Abreu lançou “O ovo apunhalado”, Sérgio Sant’Anna publicou “Confissões de Ralfo”, Roberto Drummond estreou com “A morte de D.J. em Paris”, Dalton Trevisan reafirmou sua maestria com “A faca no coração”. Todos de 1975.

(Aliás, encontro num prefácio de Caio à terceira edição revista de “O ovo…” a prova de que a exuberância daquele ano não passou despercebida na época: “Ele [o livro] foi publicado em 1975, ano marco daquela coisa confusa, gostosa e passageira que batizaram como boom da literatura brasileira”, escreve o autor de “Morangos mofados”, com cacófato e tudo. )

É coisa à beça, mas afrouxando um pouquinho os limites cronológicos ainda se pode acrescentar à safra três livros marcantes terminados em 1975, embora só fossem chegar ao público no ano seguinte: “Reflexos do baile”, de Antônio Callado, “Essa terra”, de Antônio Torres, e “A festa”, de Ivan Ângelo.

Antes que denunciem a trapaça de jogar 1976 no pacote, pergunto: por que os parâmetros deveriam ser intocáveis se o próprio critério cronológico é enganoso? “Zero”, por exemplo, foi concluído em 1969, e o fato de só ter sido publicado em 75 tem mais a ver com política do que com literatura: nenhuma editora quis comprar a briga enquanto a ditadura atravessava seu período mais truculento. Finalmente, a pequena Brasília/Rio topou a parada – apenas para ver o livro ser proibido pela censura no ano seguinte. Destino semelhante teve “Feliz ano novo”. O brilhante – e injustamente esquecido – “A festa” também tem uma história marcada pelo autoritarismo: Ivan Ângelo começou a escrevê-lo em 1963 e parou no ano seguinte, quando veio o golpe militar, de puro bode. Só em 74 se animou a retomá-lo.

O papel da política nessa história é marcante, e não só porque a ditadura decidia o que podia ser lido – e visto, e ouvido – no Brasil. O próprio clima de liberticídio dava um tom de urgência e combate a boa parte dos livros daquela safra. Alguns deles, como “Reflexos do baile” e “A festa”, tematizam diretamente o período. Só não vale concluir que 1975 é a prova de que a ditadura fazia bem à literatura brasileira, por lhe dar um inimigo contra o qual lutar ou qualquer coisa assim. O mesmo já foi dito da MPB. É um raciocínio torto.

Torto e autossabotador: se o país precisasse de um ditador de plantão para ter boa literatura, seria melhor nos contentarmos com Paulo Coelho. Prefiro pensar na safra de 75 como um mistério, um feliz ponto de convergência – e um desafio. Qualquer dia vamos ter outra dessas.

*

Publiquei o artigo acima neste blog no assustadoramente distante ano de 2006 (!) – o ano em que o Todoprosa estreou em sua primeira casa, a revista eletrônica “NoMínimo”. Quem quiser acompanhar a animada discussão que o texto provocou na época entre os leitores, muitos deles trazendo novos nomes e títulos para jogar no caldeirão, pode clicar aqui. Graças àquela conversa, a tese de 1975 como uma espécie de ano mágico para a literatura brasileira ganhou pelo menos um reforço de peso, que nem havia entrado no radar do artigo por ser uma obra de poesia, mas que mesmo assim merece menção por ser uma obra-prima: “Poema sujo”, de Ferreira Gullar.

No entanto, o que para mim tornou mais interessante a releitura do texto, nove anos depois, não foi qualquer novidade no modo de encarar a produção setentista e sim a ligeira mas indiscutível melhora ocorrida na atmosfera dominante na ponta de cá, a da contemporaneidade. Quem acompanha a atual literatura brasileira sem os antolhos da má vontade ou da marquetagem apocalíptica saberá reconhecer que, se não se pode dizer que vivamos um novo boom, o número de livros importantes surgidos desde 2006 na ficção nacional faz parecer tímido demais o otimismo tateante expresso no fim do meu artigo.

10/01/2015

às 9:00 \ Vida literária

A lição de Ishiguro: quanto menos vida real, melhor

kazuo ishiguroEntre os temas sobre os quais os escritores são chamados a responder com frequência, o da “rotina de trabalho” deve estar no topo da lista ou bem perto dele. São muitas as perguntas que cabem nessa categoria. Você escreve todos os dias? Tem uma meta de produção? Um número fixo de horas? Manhã, tarde ou noite? Observa algum ritual, alguma superstição? Desconecta-se da internet para escrever? Desliga o celular?

Sim, o interesse por tal tipo de informação sobre os bastidores da escrita é em grande parte fetichista, uma forma de atribuir à criação literária uma aura mágica (“Como você consegue?”), recusando a ideia de que escrever é nada mais que um trabalho – com suas peculiaridades, claro, mas um trabalho. Como ocorre em todo ofício, cada trabalhador deve encontrar os métodos e rotinas que mais lhe convenham.

O risco do fetichismo é levar os incautos a se fixar no acessório e descuidar do principal. Dizem que Ernest Hemingway gostava de descascar um certo número de laranjas antes de começar a escrever, mas pode-se afirmar com absoluta certeza que nenhuma atividade envolvendo frutas cítricas jamais levou ninguém a desenvolver um estilo tão cortante e conciso quanto o do autor de “Por quem os sinos dobram”. Descascar lápis e mais lápis, apontando-os para escrever e reescrever até os dedos doerem, sim.

Em 2013, comentei aqui no blog um divertido texto em que a escritora inglesa Zadie Smith contava ter recebido de uma amiga, em seus tempos de aspirante, a informação de que Ian McEwan limitava sua produção diária a escassas quinze palavras. Era uma informação falsa, claro, mas Zadie ficou muito impressionada com aquilo. O limite absurdo a angustiou por anos a fio.

Nada disso quer dizer que não haja informações aproveitáveis nos bastidores da criação literária. O blog da Companhia das Letras publicou esta semana um texto fascinante do escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro (foto acima), chamado “Como escrevi ‘Os resíduos do dia’ em quatro semanas”, que recomendo a todos. Não se trata de receita: além de não haver dois escritores iguais, não há dois livros iguais do mesmo escritor, o que complica o jogo ao infinito. Mas o artigo tocou numa corda que para mim soou profundamente verdadeira.

Com o apoio de sua mulher, Ishiguro decidiu levar adiante o plano ousado de, por quatro semanas, isolar-se de tudo – telefone, correspondência, contato com amigos, afazeres domésticos – e escrever todos os dias, de segunda a sábado, das 9h às 22h30, parando uma hora para o almoço e duas para o jantar. A ideia era atingir “um estado mental em que o meu mundo fictício seria mais real para mim do que o real de fato”. Deu certo.

Reconheci imediatamente esse estado mental estranho como algo que experimentei nos momentos mais ricos da minha própria experiência de escrita: as semanas de férias que passei sozinho numa casa na serra fluminense, sem trocar uma palavra com ninguém, quando escrevi “As sementes de Flowerville” e, mais tarde, “Elza, a garota”; e sobretudo os quinze dias de solidão numa pousada em Paraty, entre setembro e outubro de 2012, que deram forma definitiva à maçaroca desconexa que “O drible” tinha se tornado.

Os livros não foram inteiramente escritos naqueles dias de isolamento – o de Ishiguro também não. Mas foi em tais momentos de atenuação induzida da realidade, de volume do mundo reduzido ao quase inaudível, que tive os maiores acessos de lucidez e tomei as decisões mais importantes sobre eles. Uma medida de desconexão com o real parece ter sido necessária para que eu mesmo passasse a acreditar nos meus “mundos fictícios”, deixando-os quase ao alcance dos sentidos – e se nem o autor acredita neles, como esperar que o leitor o faça?

Sem querer romantizar nada, muito menos a loucura, acho que o escritor americano E.L. Doctorow não se refere a nada diferente disso quando diz que “escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia”. É possível que contistas e poetas tenham histórias diferentes para contar. No caso dos romances, com o fôlego longo que exigem, fico tentado a enunciar uma lei universal: a de que alguma medida de alienação controlada é imprescindível ao processo criativo. Como conciliar isso com as demandas da vida real, eis o problema que cada um precisa resolver sozinho.

03/01/2015

às 9:00 \ Os mais lidos de 2014

Um ano em cinco tempos

machado2Machado: ‘Reescrevam-me à vontade, mas…’

Reescrevam-me à vontade, caros compatriotas; cancelem palavras raras e chistes eruditos; amputem postilhões de Éolo, hidras de Lerna e asas de Ícaro; aplainem sem piedade as ordens inversas, as ousadias sintáticas, todas as cousas grandes ou miúdas. Depois de certa adaptação de Dom Casmurro para aquilo a que chamam TV, e que aqui captamos na parabólica, creio poder afirmar que já nada me fará mossa. Se de resto me agastar algum aspecto dessa faina, pago-lhes com um piparote, e adeus. (Leia mais.)

chuck_wendig200Respostas grosseiras para perguntas idiotas

“Como eu construo minha marca?” Chuck Wendig, escritor americano de fantasia com uma carreira sólida como romancista, roteirista e designer de games, autor de livros como Blackbirds e Double Dead, conseguiu fazer uma crítica feroz – e às vezes hilariante – de uma certa mentalidade de autoajuda e de um certo visgo corporativo que vêm se infiltrando há anos, traiçoeiramente, no mundo florescente do aconselhamento literário. Em forma de filezinho aperitivo, aqui vão alguns de seus achados. (Leia mais.)

american psycho x infinite jestPor que o Google Ads é coisa de psicopata

“O psicopata americano”, o romance mais conhecido do escritor americano Bret Easton Ellis, é um livro detestável na opinião de seu compatriota David Foster Wallace, com a qual concordo. Mas é um livro detestável que, de uma forma que seria até desonesto não considerar brilhante, conseguiu ficar na história como o melhor retrato de uma época e uma cultura detestáveis – o yuppismo dos anos 1980. O livro curioso que dois designers desentranharam dele deixa isso muito claro. (Leia mais.)

silêncioA eloquência do silêncio

Tudo aquilo que não é dito oferece à imaginação do leitor – coautor pouco comentado de qualquer obra literária – espaço para se espraiar, ligar os pontinhos, produzir e não apenas decifrar sentido. Se o silêncio que antecede a primeira palavra de uma história costuma passar despercebido, aquele que vem depois do ponto final é de uma eloquência ensurdecedora. Dificilmente haverá um escritor que não tenha, em algum momento, se deparado com esta queixa, que por sinal é muitas vezes infundada: “Mas a história não termina…”. (Leia mais.)

Autran Dourado por Ana Carolina Fernandes FolhapressTempos e pessoas: viagem ao coração da literatura

Aprendi com Autran Dourado, há muito tempo, um truque para dar vida nova a textos deficientes, insatisfatórios, capengas ou falsos: trocar seu tempo verbal ou a pessoa da narração – ou as duas coisas ao mesmo tempo. Parece pouco, mas ao fazer isso estamos nada menos do que penetrando o coração dessa brincadeira, tomando posse daquilo que torna a literatura, literatura. Cervantes inventou o romance moderno quando inventou a voz maluca, autoconsciente, de D. Quixote. O resto veio depois. (Leia mais.)

27/12/2014

às 9:00 \ Os mais lidos de 2014

Um ano de grandes despedidas

gabriel garcía márquez yuri cortez afpGabriel García Márquez

“Cem anos de solidão” é um monumento cravado na história da literatura, ponto. Como os três ou quatro principais livros que o escritor colombiano publicou depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob seus pés parece firme. A reputação que falta fixar é a do homem público, a do “político”, papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982. A vaidade transoceânica era um dos lados menos favoráveis do baixinho Gabo. É óbvio o prazer que ele sentia no papel de mediador universal: o escritor no labirinto de sua própria influência, sob o peso de uma fama achachapante, brincando de resolver os problemas do mundo.(Leia mais.)

joão ubaldoJoão Ubaldo Ribeiro

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1993 e vencedor do Prêmio Camões em 2008, o escritor baiano era “imortal” apenas no título honorífico. Seu principal romance, “Viva o povo brasileiro”, é imortal literalmente. Épico da nacionalidade, com sua narrativa espalhada por quatro séculos de história e amarrada com o fio mítico, lírico, cômico e irreverente da reencarnação dos personagens segundo a compreendem as religiões afro-brasileiras, esse romanção é provavelmente a última – e brilhante – tentativa feita por nossa literatura de dar conta do país como um todo, respondendo artisticamente à pergunta que instigou os grandes intérpretes do Brasil no século XX: o que vem a ser este país enorme, ao mesmo tempo fascinante e infantiloide, generoso e cruel? (Leia mais.)

ariano suassunaAriano Suassuna

Não é fácil dar conta da sensação – que é sobretudo de um certo vazio, mas eu não estaria exagerando se acrescentasse à mistura notas de luto e desamparo – provocada pela morte de Ariano Suassuna. O homem era ultraconservador, mas desconfio que andei errado ao supor que o “Romance d’A Pedra do Reino”, um dos maiores romances brasileiros do século XX, fosse uma obra-prima apesar do ideário estético de seu autor. No oceano de geleia que é a cultura globalizada contemporânea, a perda de Suassuna – e de João Ubaldo – torna o Brasil indiscutivelmente mais burro, mais amorfo e mais desgovernado. Nosso lastro cultural não é tão grande assim para que a gente o saia dispensando de forma perdulária. (Leia mais.)

20/12/2014

às 9:00 \ Vida literária

Sobre línguas e catedrais: uma conversa com Amós Oz

amos oz“Não sou chauvinista com meu país, mas sou chauvinista com a língua hebraica.”

Estou conversando com o escritor israelense Amós Oz num canto tranquilo de um dos amplos espaços vazios do segundo andar do aristocrático hotel Copacabana Palace. Depois de muitas perguntas sobre literatura e política (que renderam essa entrevista), o papo desagua com naturalidade na língua, como se fosse um rio que corresse para o mar.

Conversamos em latim contemporâneo, isto é, inglês. Sei tanto de hebraico, clássico ou moderno, quanto Amós Oz sabe de português – talvez um pouco menos. No entanto, já tendo me deparado muitas vezes com a metáfora do idioma como instrumento musical que todo escritor precisa dominar, entendo o brilho nos olhos do homem quando ele se derrama todo por uma língua antiga que por pouco não ficou congelada nos textos sagrados, perfeita e morta como o latim num poema de Ovídio.

Salva há pouco mais de um século de um declínio que parecia inexorável, a língua em que escreve Oz vem se firmando nas últimas décadas, como o próprio Estado de Israel, sobre um ato de vontade política.

“O hebraico moderno é um instrumento tremendo, porque é ao mesmo tempo antigo e moderno”, ele diz. “É cheio de ecos da antiguidade, os salmos e profetas estão todos lá, e no entanto é uma língua contemporânea, parecida em certo sentido com o inglês elisabetano, sobre a qual escritores e poetas ainda podem legislar. Uma língua em construção, que muda um pouco com cada leva de imigrantes que chega a Israel: ganha nova sintaxe, novo vocabulário, novas gírias.”

Depois de uma breve pausa para o humor – “quando comparo o hebraico moderno ao inglês elisabetano, é claro que não estou dizendo que todos os nossos poetas são Shakespeare: não devemos ter mais de meia dúzia desses em Tel Aviv hoje” –, chegamos a um momento mágico em que a conversa parece se fundir com o cenário.

“É preciso ter muito cuidado com esse instrumento maravilhoso, como quem toca órgão numa catedral, para não conjurar ecos monstruosos”, prossegue Oz. “O hebraico antigo ainda está muito presente no moderno. Se você tocar sem querer certas cordas bíblicas, soa grotesco, ridículo. Isso é ótimo para a paródia e a ironia, mas você precisa saber o que está fazendo. É um campo minado.”

O pé direito alto do salão vazio em que nos encontramos parece ilustrar esse bonito argumento. Me ocorre então um pensamento que, embora talvez óbvio, recebo como uma revelação: toda língua é, em alguma medida, uma caixa de ressonância e um campo minado. Se um escritor de língua portuguesa dificilmente evocará profetas, pode, de propósito ou não, conjurar num único texto os fantasmas de Camões, Vieira, Machado, Bandeira, Vinicius. Ou Didi Mocó.

É a tradição literária acumulada e o peso que ela tem na cultura geral, dependente do grau de letramento da sociedade, que vai determinar no fim das contas a intensidade dessa reverberação – a altura do pé direito, por assim dizer, que tanto pode ser o de uma catedral magnífica como o de uma capelinha de província.

Sentado ao órgão, o escritor produz a música que seu talento lhe sopra, claro, mas também aquela que sua caixa de ressonância lhe permite produzir. Ao mesmo tempo, ao contrário do que ocorre no mundo físico – o que demarca o limite da metáfora oziana –, os acordes que saem dos tubos têm o potencial de sustentar o teto, impedindo que ele desabe e até, nos casos mais felizes, ajudando a elevá-lo.

*

O artigo acima foi publicado em novembro de 2011 em minha outra coluna, Sobre Palavras, e estava inédito aqui no Todoprosa – um blog no qual, pela temática, pelo tom, pelas referências, me parece claro que o texto se sente muito mais à vontade e pode conversar com mais gente do que em sua casa original. Curioso que eu tenha levado mais de três anos para me dar conta disso. Problema resolvido.

13/12/2014

às 9:00 \ Vida literária

Por que Sammy Davis Jr. não está no ‘Drible’

davis-jr-sammy-photo-sammy-davis-jr-6233615O Grande Prêmio Portugal Telecom conferido esta semana a meu romance “O drible” me deu vontade de compartilhar com os leitores, além da alegria por esse reconhecimento, algum tipo de presente que expressasse minha gratidão pelo carinho com que o livro foi recebido desde seu lançamento, em setembro do ano passado.

Acabei indo buscar no almoxarifado aqui do computador uma cena que excluí da edição final e que, com um pouco de sorte, pode ter alguma graça como curiosidade para os leitores do livro, como uma faixa-bônus naquelas edições comemorativas dos discos de antigamente.

Mais do que mera curiosidade, é possível que a cena seja também, no espírito das reflexões sobre o ofício de escrever que costumam frequentar este espaço, ilustrativa da importância de um certo desapego na hora da edição final de uma história.

Eu gostava muito do personagem secundário que contracena com Neto, uma das figuras centrais de “O drible”, no trecho abaixo. Descrito como parecido com Sammy Davis Jr. ou Dom Pixote – o que é condizente com as imagens de cultura pop e lixo televisivo antigo que enchem a cabeça de Neto –, o pedreiro Sebastião surgiu para fazer uma ponta, mas chegou com força impressionante.

Uma tarde, acredito que dois ou três dias depois de escrever a cena em que Sebastião nasce, entrando pela porta do apartamento de Neto para examinar uma mancha de umidade na parede, atendi o interfone e ouvi o porteiro do prédio me perguntar se podia mandar subir o pedreiro indicado pelo condomínio para resolver um pequeno problema na varanda. “O nome dele”, ouvi estarrecido, “é Sebastião.”

Julguei ter entendido mal. “Como?”

“Sebastião. Seu Sebastião. Está subindo.”

Ainda não tinha assimilado a coincidência espantosa quando a campainha tocou e eu pensei, pelo puro prazer de flertar com o absurdo: “Agora só falta o sujeito ser a cara do Sammy Davis Jr.”.

Era.

Que conclusão tirar disso? Que coinciências realmente incríveis acontecem? Que coincidências não existem – são apenas a face visível de mecanismos ocultos que passamos longe de compreender? Mais inclinado ao ceticismo, o que pensei a princípio foi que Sebastião tinha vindo para ficar.

E apesar disso ele não está no livro. Sua cena, concebida para enfatizar o dom-juanismo meio covardão de Neto com as moçoilas pobres da vizinhança, acabou me parecendo supérflua. Quebrava o ritmo, atrasava o andamento numa altura em que se exigia aceleração, conduzia a história por uma subtrama – que chegou a ter mais páginas escritas – condenada a ficar um tanto desamarrada na estrutura final do livro.

Mesmo assim, como eu disse, sempre gostei de Sebastião. Ainda gosto. Fico contente de ter a chance de tirá-lo do almoxarifado.

A porta do apartamento – que ninguém jamais atravessava além dele mesmo e de Neucy, a diarista – se abriu para um homem franzino de meia idade vestido mais como contínuo do que como pedreiro: calça cinza de tergal, camisa social branca. Tinha uma cara alongada e olhos compridos e pendurados que lembravam personagens antigos como Sammy Davis Jr. e Dom Pixote. Mal trocaram uma palavra. Sebastião podia ser calado mas era curioso. Encompridou mais ainda os olhos na direção dos objetos de época que decoravam a sala: toca-discos de pés-palitos, televisão redonda de astronauta, duas cadeiras de acrílico de frente para o sofá de zebra acima do qual reinavam os pôsteres de Lost in Space e The Time Tunnel. Parado ali de boca aberta, dava a impressão de que poderia ficar assim por horas.

Lá dentro, resmungou Neto, fazendo com o braço um movimento de varredura, e o arrastou até a parede doente. Ficaram olhando para a mancha em silêncio por um minuto inteiro antes que Sebastião esticasse um dedo para sondar a superfície úmida. Mais um minuto e perguntou quando aquilo tinha começado. Neto não tinha uma resposta precisa. Faz um tempo, disse.

Quando o homem pediu licença para entrar no banheiro a fim de verificar a situação do outro lado da parede, onde os azulejos decorados fora de moda não exibiam dano algum, Neto aproveitou para sair de perto. Na cozinha pingou detergente na esponja e atacou a montanha de louça suja dentro da pia, que tinha desabado feito uma torre de Pisa cansada de suspense sobre a bancada de mármore à espera da visita semanal de Neucy. Três copos, dois pratos e meia dúzia de talheres depois, calculando que o pedreiro já teria chegado a um orçamento, abandonou o resto da sujeira.

O homem estava de novo no corredor, mas agora dava as costas para a mancha e examinava com seus olhos desabados a parede oposta, onde Neto tinha um quadro de metal cheio de fotos presas com pequenos ímãs coloridos.

Seu coração deu uma pancada forte, uma só. Sentiu que as entranhas se retorciam em lenta expectativa. Parou no meio do corredor apertando o pano de prato com as duas mãos e esperando que Sebastião se encabulasse de bisbilhotar daquele modo descarado a vida alheia. O homem não tinha como não perceber que ele estava ali, mas continuou fixado nas fotos, de queixo caído.

Achou outra infiltração aí?

Só então o cara desviou o olhar da galeria das namoradas de Neto – duas décadas de Dayannes, Gislleynes, Jéssykas, Emmanuellys, Brittneys e Marayahs, além de uma ou outra Bruna ou Maria, exceções batizadas por pais fora de sintonia com seu tempo – e transferiu pachorrentamente o foco para o dono da casa. Por trás de sua película nublada de indolência ou alcoolismo, aqueles olhos tinham agora uma fagulha de confusão, talvez de mágoa.

São amigas do senhor?

Não é da sua conta.

Pois é, aí que está.

Não entendi.

O senhor tem uma foto da minha sobrinha. Por quê?

Mais uma pancada violenta, desta vez seguida de outras também fortes. Mediu o intruso e calculou que, embora não fosse alto, ganhava de Sebastião por meio palmo, além de ser mais jovem e aparentar um pouco mais de vigor. Claro que a vantagem podia acabar se revelando ilusória no embate entre um revisor de texto e um trabalhador braçal. Mesmo assim julgou-se em segurança pelo menos momentânea.

Quem é a sua sobrinha?

Sebastião apontou uma foto no canto inferior esquerdo do mural.

A Miquélly, disse. Auxiliar de enfermagem. Mãe do Luan. Casada com o Hudson, sargento da PM.

Mas olha que coincidência. Mundo pequeno.

Miquélly era uma Grace Jones de olhos pendurados – pois é – com quem Neto tinha saído por não mais de três semanas, cerca de sete anos antes. Por azar, sua foto pertencia à seção mais comprometedora da galeria. Com as pupilas vermelhas cravadas na câmera e a ponta da língua se projetando obscena entre os dentes, a moça bem que tinha tentado cobrir os seios pontudos com o lençol, seu braço direito fora de foco era puro movimento, mas o fotógrafo havia sido mais rápido. A cama pertencia a algum motel, embora fosse difícil dizer qual. O flash tinha estourado na parede espelhada do fundo. Era uma foto cheia de problemas técnicos mas interessante, com um clima de sensualidade crua que Neto apreciava.

Faz tempo, disse. Muitos anos, não lembro bem. Nunca mais vi a Miquélly. Diz que eu mandei um abraço.

Num lampejo que o breu não demorou a engolir ouviu uma gargalhada e viu a correntinha dourada de tornozelo, pés grandes e ossudos com unhas cobertas de esmalte branco descascado. Caixa no café de uma livraria do Shopping da Gávea, Miquélly discorria com voz de contralto sobre o sonho de ser aeromoça. Era mais que memória, era uma visão, dois segundos depois já não estava lá.

O pedreiro fitou por mais algum tempo a foto da sobrinha. Ao se virar para o dono da casa já não parecia confuso nem magoado. Parecia triste.

Ela podia ser sua filha.

Não podia, respondeu Neto. Para isso, você teria que ser meu irmão ou meu cunhado, e as duas coisas estão fora de questão.

06/12/2014

às 14:55 \ Pelo mundo

Soy latino-americano – e como me engano!

Lançamento de 'El regate' na Feira de Guadalajara, com Gustavo Pacheco e a jornalista mexicana Mariana H.

Lançamento de ‘El regate’ na Feira de Guadalajara, com Gustavo Pacheco e a jornalista mexicana Mariana H.

Leu-se no jornalão mexicano “El Excelsior” que a morte do comediante Roberto Bolaños deixou multidões de luto “em toda a América Latina, no Brasil e na Espanha”. Foi o adido cultural brasileiro no México, Gustavo Pacheco, quem me chamou a atenção para o detalhe, daquele tipo em que o diabo gosta de morar: pela lógica do jornal, que espelha uma percepção bastante comum, nosso país não está contido no conjunto “América Latina” e precisa ser nomeado à parte.

À parte, pois é. Por acaso não será assim que gostamos de nos ver? Se é evidente que, histórica e politicamente, isso é só um erro de classificação, há vetores culturais poderosos que apoiam tal ideia. Isso ficou muito claro para mim na espetacular Feira do Livro de Guadalajara na última quinta-feira, quando me vi dividindo uma das mesas do programa Latinoamérica Viva com um escritor uruguaio, um argentino, um chileno e uma equatoriana.

A língua é o que primeiro nos separa, claro – e certamente aquilo que mais dificulta a vida de um imprudente como eu, que decidi não levar nenhum texto pronto, ponderado e revisado para ler diante do público, como fizeram o chileno Nicolás Poblete e a equatoriana Maria Fernanda Ampuero. Preferi confiar no improviso e nisso tive a companhia do uruguaio Mario Delgado Aparaín e do argentino Rodrigo Fresán, com a diferença de que minha jam session, numa língua que adoro falar mas que toco de ouvido, equivalia a um triplo mortal carpado sem rede. Não me arrependi. Para tocar no nervo que me interessava tocar, simular uma situação de conforto seria encenar uma mentira.

Comecei contando o pequeno caso ali de cima, o da notícia da morte de Chaves no “El Excelsior”, que expõe algo de periclitante em nossa condição – inegável, mas complicada – de latino-americanos. Acabei falando do episódio em que uma gentil repórter da revista New Yorker, me entrevistando por telefone há alguns anos sobre o fenômeno Paulo Coelho, disse algo que nunca vou esquecer. Eu tinha afirmado que Coelho não pertence à “tradição da literatura brasileira” e ela me perguntou com candura, sem intenção de ofender: “Mas a literatura brasileira tem uma tradição?”. Se estivesse falando com um argentino, um colombiano, um mexicano, um peruano, é claro que não pisaria na bola desse jeito.

O que uma anedota tem a ver com a outra? Acredito que as duas ilustrem o isolamento brasileiro, o misto de autossuficiência (orgulhosa) e solidão (dolorida) deste país gigantesco. Para o olhar estrangeiro isso se traduz de diversas formas: desde uma boa dose de desconhecimento e dificuldade de nos classificar, como no caso dos outros países latino-americanos, até aquela ignorância completa e alvar que a pergunta da jornalista americana, empregada em uma das revistas mais inteligentes do mundo, evidencia. Em termos culturais o Brasil sempre soube se projetar como um personagem vagamente simpático, mas a historinha que conta não costuma levar ninguém além da página cinco.

Não temos um Instituto Machado de Assis. As ações governamentais de inserção internacional são erráticas: basta, por exemplo, que se deixe definhar o programa de bolsas de apoio à tradução da Biblioteca Nacional, um raro golaço nessa área, para que nossa literatura, hoje em fase animada aqui dentro e colhendo promissores sinais de degelo lá fora, volte a ser um segredo restrito aos brasileiros – e nem tantos assim de nós. Infelizmente, o risco de que isso ocorra parece bem concreto.

O veterano Mario, que falou antes de mim, citou Guimarães Rosa entre suas referências na literatura da América Latina. Achei isso comovente, mas não pude deixar de apontar o caráter de exceção de tal escolha numa mesa em que foram citados trocentos autores de língua espanhola. A assimetria da relação que mantemos com nossos vizinhos, observei, é flagrante. Seria difícil encontrar um jovem escritor brasileiro digno desse nome que não tenha lido Jorge Luis Borges ou Juan Rulfo. Tão difícil, talvez, quanto encontrar um jovem escritor hispano-americano que tenha lido Rosa ou Graciliano. (Para sermos justos, registre-se que Clarice Lispector eles conhecem razoavelmente bem.)

Não se trata de homenagear o cronista e compositor Antônio Maria e começar a cantar aqui “Ninguém me ama”. Longe disso. Apenas de reconhecer que, por sobre as inevitáveis diferenças regionais, a literatura hispano-americana forma uma comunidade autêntica em que as informações circulam velozmente e há o reconhecimento de um patrimônio comum. A base dessa comunidade é linguística: como destacou Fresán, existe um “espanhol internacional”, de sabor mexicano mas cosmopolita, que foi criado de forma deliberada no século XX e consolidado em dublagens e traduções literárias de ampla circulação. O autor de “Jardins de Kensington” afirmou escrever em tal registro.

É esse espanhol sem fronteiras – perfeitamente válido também, segundo o escritor argentino, para olhos e ouvidos europeus – que torna natural a participação da pátria-mãe na brincadeira, como centro aglutinador e caixa de ressonância. Metade dos autores de língua espanhola da mesa de quinta (Frésan e Ampuero) vive na Espanha. Também mora lá o tradutor de “O drible”, Juan Pablo Villalobos, escritor mexicano responsável pela qualidade excepcional da edição da Anagrama, editora barcelonesa, que com o nome de El regate tem livre trânsito na América Latina e me levou a Guadalajara. Neste ponto a assimetria que mencionei ali em cima atinge níveis mais dolorosos: Portugal vive hoje um momento de especial indiferença à literatura escrita no país que concentra a imensa maioria dos humanos lusoparlantes.

E apesar dos obstáculos, da distância e da eterna necessidade de tradução, com todas as inevitáveis traições e mal-entendidos que isso envolve, ter sido acolhido no México com tanto carinho, interesse e profissionalismo para falar de um livro profundamente brasileiro como “O drible” me faz voltar da viagem (o verbo está no presente porque escrevo no avião) envolto numa nuvem de calor e otimismo parecida com a que proporcionam duas ou três doses de mezcal.

Nos lançamentos de meu livro na Cidade do México e em Guadalajara, nas palestras sempre lotadas para estudantes de literatura e estudantes secundaristas, na mesa igualmente concorrida que dividi na Feira do Livro com os colegas brasileiros Ana Paula Maia, Luiz Bras e Paloma Vidal, o clima de boas-vindas ao visitante era tão caloroso que à primeira vista parece difícil entender por que Juan Villoro, um dos maiores nomes das letras mexicanas neste século e meu generoso anfitrião na noite de autógrafos no Distrito Federal, afirmou em entrevista dada esta semana que seu país está “em decomposição”.

Ocorre que o México que encontrei conserva a beleza, a alegria e o espírito festeiro do país que conheci em 1986, quando lá estive para cobrir a Copa do Mundo, mas está gravemente ferido. Mais ferido do que, naquela época, havia ficado com o terremoto do ano anterior. A dor agora é mais funda porque é espiritual. O assassinato monstruoso dos 43 estudantes normalistas de Iguala por policiais-narcotraficantes, a mando de políticos-narcotraficantes, expôs com nitidez quase insuportável o grau de corrupção a que pode chegar um Estado criminoso. Na mesa de quinta, um homem da plateia, de cerca de setenta anos, nos perguntou com lágrimas nos olhos se alguém enxergava saída para seu país, porque ele já não via nenhuma.

Não duvido que tal solução – que eu, claro, enxergo ainda menos que aquele homem – esteja num futuro em que não ocorrerá a ninguém dizer que o Brasil é uma coisa e a América Latina, outra. Mesmo porque, se nesse futuro não nos irmanarmos na solução, certamente nos igualaremos na tragédia das sociedades fundadas numa desigualdade de pesadelo – e habituadas a administrá-la com violência de pesadelo.

29/11/2014

às 9:00 \ Pelo mundo

Até breve!

Meus blogs deixarão de ser atualizados nos próximos dias, quando estarei no México para lançar a tradução de meu romance “O drible” (El regate) e participar da Feira do Livro de Guadalajara. Volto ao Todoprosa no dia 6 de dezembro e ao Sobre Palavras no dia seguinte.

22/11/2014

às 9:00 \ Sobrescritos, Vale a pena ler de novo

Três histórias de amor e literatura

mulherlendo2POR GLORINHA

Maria da Glória Fagundes, conhecida como Glorinha, nascida no Irajá, não era muito inteligente mas era linda, linda. A coisa mais linda do mundo. O escritor, que até aqui não sabia ser escritor, se apaixonou por sua boca e seus cílios e seus tornozelos. Tinha quinze anos e desabrochou poeta romântico.

O jovem escritor recitava ribombantes versos de amor e morte para Glorinha, coisas de estremecer estátuas, mas ela achava pouco.

Então foi estudar. Em poucos anos tinha um título de bacharel em Direito e um romance realista urbano cheio de arestas e reentrâncias que alguns críticos enalteceram, falando em pós-noir. Glorinha Fagundes não se impressionou. Pós-noir é fácil, quero ver poesia provençal, disse uma tarde, distraída, comendo uvas.

Custou ao escritor nove anos de trabalho duro tornar-se a maior autoridade brasileira nos arcanos trovadorescos, com estudos publicados na Europa e nos EUA. Mas a essa altura a Srta Fagundes já tinha virado a Sra Wilson, mulher do famoso professor de semiótica, e estava em outra, vidrada nos irmãos Campos. Foi assim que o escritor se viu contando letras concretas para em alguns anos construir uma obra que se convencionou chamar pós-concreta e que, sendo absolutamente ilegível, fez grande sucesso com críticos universitários.

Assim, de fase em fase, o escritor foi se fazendo notar. Ao sabor dos caprichos de Glorinha, escreveu comédias teatrais de sucesso, adaptou clássicos da literatura de cordel para séries de TV, arquitetou ensaios profundos sobre política e estética, depois largou tudo e se dedicou a ser um místico, um mago, e vender milhões. Ficou muito rico.

E a outra lá, a essa altura separada e galinhando à beça, sempre achando pouco.

Nas décadas seguintes, Glorinha comandou do escritor poemas épicos e fesceninos, romances satíricos e formalistas, contos longos e contos curtos, novelas, noveletas, panegíricos, sermões, limericks, bruscas vinhetas com estética de pichador de rua, uma epopeia pós-modernista de novecentas páginas escrita de trás pra frente, tendo por tema central a cárie que duelava com o escritor por seu canino direito, e um compêndio de frases de filósofos clássicos segundo a neurolinguística corporativa – este, Se Platão trabalhasse para você, tornou-se seu livro mais vendido, superando os do mago. Agora o escritor está arquimilionário.

E Glorinha, evidentemente, nem aí. Não é com ela. Diz, por exemplo: Drama sueco, a perfeita tradução em prosa de um certo clima bergmaniano, isso sim é que é o bicho! Como não pensei nisso antes?

O escritor respira fundo, que remédio, e põe mãos à obra.

*

AQUELA TARDE EM LISBOA

Não era incomum que Esperidião Bastos, o poeta baiano, contasse sua vida a uma puta. Gostava disso, e como elas costumavam retribuir de bom grado com suas histórias lacrimosas, ocorria frequentemente um desabafo geral, caloroso e desprovido de riscos, que lhe dava algum conforto. Aquela tarde em Lisboa, no quarto de hotel ao lado de uma rameira bonita e não muito velha, morena magra com cara de moura, tudo parecia seguir como sempre. Depois de se aliviar, Esperidião recuperou o fôlego e, com a carcaça de meia-idade estirada na cama, barriga volumosa virada para o teto onde rangia um ventilador que já devia ter sido aposentado há anos, desatou a falar de Yolanda, das formas bafejadas pelos deuses de Yolanda, do fogo primordial que brincava nos cabelos rubros de Yolanda e do futuro comum que tinham planejado – futuro que ele mapeara em fina linguagem lírica na página de poesia d’O Berro dos Grotões, onde era sempre o convidado principal.

Foi quando apareceu o tal Medrado. Um forasteiro, cara do Sul – de origem incerta, portanto. Gerente comercial. Tinha um pente Flamengo no bolso e sabia assobiar inacreditavelmente alto com os dois indicadores nos cantos da boca. Viera trabalhar n’O Berro dos Grotões cercado de alguma fama angariada em revistinhas da metrópole. Foi o próprio Esperidião quem, desavisado, os apresentou num sarau: “Seu Medrado, minha Yolanda”. E a imediata faísca no olhar daqueles dois não lhe escapou, ou quase não lhe escapou, embora terminasse lhe escapando – por algum tempo, não quis acreditar. Como podia acreditar? Não quis, escolheu não.

Foi obrigado a acreditar quando Medrado estreou na página de poesia d’O Berro com “Meu ursinho panda”:

Ó Yolanda,
Você é meu ursinho panda.
Nosso casamento vai ser chique
Vai ter guirlanda
E empadinhas
E vamos gerar pandinhas!

Foi isso, sem dúvida, que o derrubou – o opróbio de ser preterido por um subliterato de quinta, de ver a joia de seus pentâmetros iâmbicos clássico-contemporâneos trocada por miçangas que um índio pré-colombiano recusaria. Sim, deve ter sido isso que tornou incurável sua maleita. Não era normal aquilo. Homem de recursos, artista consagrado num círculo certamente provinciano, mas nem por isso pouco influente, muitas mulheres já tinham entrado e saído de sua vida. Por que, então, não se curava de Yolanda?

Pandinhas gerou mesmo o impensável casal – um par de gêmeos nascido seis meses após as apressadas núpcias, o terceiro dois anos mais tarde. Enquanto isso, os amigos do poeta baiano cumulavam-no de receitas inúteis – religião, filatelia, política, outras mulheres, ioga, xadrez, pescaria – para a doença crônico-aguda que sequelara sua vida. Era um poeta incapaz de um único verso, um ex-poeta miserável a vagar de porre em porre, de bordel em bordel, buscando a sombra de Yolanda em tantas Madalenas de peitos tristes.

Estava ferrado, eis a verdade. Tinha dado àquela musa ruiva o que não se dá a ninguém: sua vida, a fonte mesma de sua energia vital. Sem Yolanda, nada jamais faria sentido. Esperidião Bastos contou então à puta de Lisboa ter levado anos para compreender isso. Viajou pela Europa, logo se entediou, esticou na Grécia, onde quem sabe conseguiria retomar na raiz o gosto por uma arte que já não lhe significava nada. Tudo em vão. Homero? Chato. Shakespeare? Engodo. Camões? Dava-lhe náuseas. Se a própria encarnação do Belo era capaz de, tendo escolha, se entregar inteira a um cantor tão primitivo e tão canhestro quanto Medrado, então todos os compêndios de estética eram excremento e a vida, uma piada sinistra.

– Vai daí que eis-me aqui – disse Esperidião, concluindo com um floreio seu relato. – Descrente da vida, despido de tudo, conversando com uma puta semianalfabeta de Lisboa.

Então a mulher, que até aquele momento estivera calada, falou:

– Se Camões te dá náusea, consulta um médico ou toma uma pílula. Eu por mim não me canso de navegar naquele oceano de linguagem, aquilo para mim tem uma qualidade amniótica.

E começou a vestir o sutiã. O poeta, de queixo caído, reparou que seus peitos não eram tristes, eram até bem alegrinhos.

– Mas esta é outra história. No teu caso – a mulher prosseguiu – o erro é supor que arte e vida possam ser refundidas de alguma forma, o poema equivalendo à sedução, a sedução encarada como arte e esta vista como razão de ser, raison d’être. Não é mais possível isto, naturalmente. Tal saber ficou perdido no Jardim do Éden ou na cultura clássica, como diria o Goethe. O pensamento moderno não tem acesso a este quintal.

Já de blusa e minissaia, calçou as compridas botas pretas de pistoleira e fechou cada uma delas com um movimento brusco do zíper dourado:

– Como tampouco tem acesso, o pensamento moderno, à grande tragédia, que ele deu um jeito de transformar em drama. É isto então, meu infeliz amigo: crês que protagonizas uma tragédia e só consegues, mal e mal, galvanizar a lâmpada circense de um dramazinho cômico.

– Espera aí – ocorreu a Esperidião protestar – dramazinho cômico também não!

– Burlesco – disse a puta – patético. Achas mesmo que só porque és melhor poeta vais ganhar a mulher? Sabes nada de mulher, não é verdade?

– Não foi o que pareceu meia hora atrás – ele replicou, simulando uma expressão entre a indignação e a mágoa, mas na verdade não sentindo nem uma coisa nem outra. Estava inteiramente submetido ao sortilégio da puta com PhD, pensando, será de Coimbra? Não teve tempo de lhe perguntar, ela já tinha catado a bolsa e se punha de pé.

– Queres saber? Para mim, o que fez a diferença foi o assobio.

– O quê?

– O assobio incrivelmente alto do Medrado – e deu um sorriso triste. – Estou a ir-me.

O poeta Esperidião Bastos não sabia o que dizer. Improvisou:

– Não vai querer receber em sonetos, suponho.

Cash – disse a mulher, calma.

– Seriam belos sonetos – ele encolheu os ombros, alcançando a carteira sobre o criado-mudo.

*

ESTUDO EM SOLFERINO

Se você acreditasse numa palavra do que está lendo, saberia que a escadaria era alta e larga, de mármore, e no centro dela descia lambida uma língua púrpura de veludo que vinha morrer aos pés de um cântaro de ouro velho, um tipo de cântaro de cintura alta que foi moda no Ancien Régime ou coisa assim, era o que estava escrito no verso do postal, mas cito de memória porque o postal se perdeu, Smirna o enfiou em sua famosa bolsa sem fundo e o levou, quando saiu da minha vida.

Agora, por um instante, você talvez considere a possibilidade de acreditar no que está lendo, mas que nada, logo fica esperto: Smirna é um nome tão inverossímil, só faltam lúgubres bares búlgaros, encontros em vielas de Saigon, ou fazer dela uma puta de luxo especializada naquele último grito da perversão – a tonushka dentata.

E no entanto, distante de todos esses lugares, atividades, a Smirna que eu conheci, que mergulhou em Fernando de Noronha, que fez concurso para a Receita Federal e não passou, essa Smirna levou para sempre o postal da escadaria de mármore lambida de um rútilo solferino que Smirna ou uma mulher muito parecida com ela descia lentamente, heráldica, com seu salto stiletto.

A caligrafia do postal corre na página diante de seus olhos incrédulos, e você se surpreende ao notar que as maiúsculas têm volutas de época e a tinta roxa da caneta cheira a bala de alcaçuz, embora você não faça a menor ideia de como cheiram balas de alcaçuz, enquanto Smirna, porque só pode ser Smirna, desce a escadaria hemorrágica em câmera lenta, ganhando tempo, punhal na mão.

E aí você entende e ao mesmo tempo perde por completo a capacidade de entender. Smirna é ela – é Ela. O brilho intuído da lâmina tira fino do seu gogó. Você acredita por fim.

*

Os contos acima foram publicados pela primeira vez na seção Sobrescritos deste blog, separadamente, entre setembro de 2010 e janeiro de 2011.

 

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