Blogs e Colunistas

16/05/2012

às 12:05 \ Pelo mundo

Fuentes: acima de tudo, agitador cultural do ‘boom’

Carlos Fuentes entre Vargas Llosa e García Márquez no auge do 'boom': o único do trio sem um prêmio Nobel

Escritor multifacetado que gabava-se de reescrever pouco e não saber o que era bloqueio criativo, prolífico articulista de esquerda que nunca se prendeu a dogmatismos partidários, cidadão do mundo de modos aristocráticos, professor universitário e “elegante intelectual público”, segundo o obituário do “New York Times”, Carlos Fuentes morreu ontem deixando uma obra vasta mas, tudo indica, menor que seu papel histórico como agitador do chamado boom latino-americano.

Profundamente identificado com a cultura mexicana, embora nascido no Panamá, Fuentes foi o primeiro dos autores do boom – que nos anos 1960 e 1970 conquistou leitores nos quatro cantos do mundo para a literatura do continente – a expressar como ensaísta, ainda nos anos 1960, autoconsciência sobre um movimento que tinha como combustível, em doses iguais, talento e marketing. Fez pelo arcabouço ideológico e pelo instinto gregário do realismo mágico o que a agente literária espanhola Carmen Balcells fazia por suas estratégias comerciais.

Como costuma ocorrer com agitadores culturais, Fuentes não figura, porém, entre os nomes de maior potência artística do movimento. O colombiano Gabriel García Márquez, que ainda não se pronunciou sobre sua morte, e o peruano Mario Vargas Llosa – que o fez ontem no calor da hora, ainda que dando certa impressão de medir elogios, aqui – já ocupavam tais posições antes mesmo de terem recebido o prêmio Nobel.

“Minha primeira impressão intuitiva”, declarou ao jornal “La Vanguardia” o escritor hondurenho Julio Escoto, “é que a Academia Sueca lhe abreviou a vida ao não lhe outorgar o prêmio Nobel do ano passado.” Algo que, depois de haver premiado Vargas Llosa em 2010, ela não poderia fazer por um bom punhado de anos, segundo seus próprios critérios de diversificação geográfica e cultural – e que por isso mesmo o autor de “A morte de Artemio Cruz” dificilmente estaria esperando. Se decepção tão mortal houve, ela ocorreu em 2010, quando foi anunciado o prêmio para o peruano.

A Bolsa de Valores da literatura sempre estará sujeita a violentas e muitas vezes imprevisíveis oscilações, mas hoje parece justa – e majoritária na América Latina – a impressão de que desta vez o Nobel apostou certo.

14/05/2012

às 15:16 \ Pelo mundo

Você pensa que sabe abrir um livro? Pense de novo

O primitivo infográfico ao lado, chamado “Como abrir um livro novo” e pinçado em velhos arquivos da imprensa americana pela revista The Atlantic, funciona como piada pronta – e de época, ou seja, pronta faz tempo – para quem, ao defender os livros de papel diante dos digitais, argumenta que sua tecnologia é insuperável, intuitiva, descomplicada, perfeita. Não para o consciencioso encadernador que deu as dicas para o passo-a-passo ao lado, pelo qual ficamos sabendo que o simples ato de abrir um livro recém-encadernado oferece perigos inimagináveis: “Apoie o livro numa mesa, com a lombada para baixo. Abaixe a capa. Em seguida, a contracapa. Abra então algumas folhas na parte da frente. Agora abra algumas folhas na parte de trás, e siga alternando a abertura de folhas entre a parte da frente e a parte de trás, pressionando-as suavemente para baixo, até atingir o centro. Repita a operação duas ou três vezes para flexibilizar a costura”. Ligar um iPad não é muito mais fácil?

11/05/2012

às 14:21 \ Mercado, Pelo mundo

Harry Potter ‘de graça’: a nova mágica da Amazon

A partir do dia 19 de junho será possível baixar no Kindle todos os sete livros da série Harry Potter, o arrasa-quarteirão de J.K. Rowling, em cinco línguas (inglês, espanhol, francês, alemão e italiano), sem que o cartão de crédito do usuário seja debitado em um único centavo. Os títulos são a mais nova aquisição da “biblioteca” do Kindle, que permite pegar emprestado até um título por mês. Mais detalhes, em inglês, aqui.

Ora, qualquer um que tenha cinco minutos de familiaridade com um leitor eletrônico sabe que a diferença entre o empréstimo e a compra pode ser meramente teórica no intangível universo digital – mesmo porque a Amazon anuncia que “não há data de devolução” para os livros da biblioteca do Kindle. Onde, então, estará a pegadinha?

A pegadinha, se é que se pode chamar assim, é o amadurecimento de um conceito que já estava embutido no projeto Kindle desde o início: o do dono do aparelho como membro de um clube. A “biblioteca” não é exatamente gratuita no fim das contas: só têm acesso a seus (por enquanto) 145 mil títulos – e a benefícios como entrega rápida de livros físicos sem taxa extra e um acervo de 17 mil filmes e programas de TV para baixar em streaming – quem se torna membro do Amazon Prime, uma espécie de clube de elite dos clientes da Amazon.

A taxa paga por um cliente prime é de 79 dólares por ano. Não por acaso, o mesmo preço da versão mais barata do Kindle no mercado americano. Caso alguém ainda não tivesse percebido, isso deixa muito claro que o negócio da Amazon não é vender engenhocas eletrônicas.

A notícia da adesão de Harry Potter ao projeto coincidiu com a palestra com a qual o peruano Pedro Huerta, o homem do Kindle para a América Latina, encerrou ontem em São Paulo o 3º Congresso Internacional do Livro Digital, queixando-se com humor da dificuldade de negociar com os ressabiados editores brasileiros (Raquel Cozer publicou em seu blog na “Folha” um divertido relato da ocasião).

O Brasil pode estar especialmente atrasado na questão do livro digital, tudo bem, mas não é uma aberração: a maior parte da indústria editorial do mundo morre de medo de ser engolida pela Amazon. O impressionante caso do Harry Potter “gratuito” ajuda a entender por quê.

09/05/2012

às 10:51 \ Pelo mundo

As estantes mais criativas do planeta

Divertidas, as listas fotográficas da Flavorwire já são uma tradição no mundo digital – uma prova de que pouca gente resiste a uma sabedoria de almanaque organizada em tópicos. O tema das estantes criativas, por seu lado, já é uma pequena tradição na blogosfera literária – uma prova de que, embora os livros eletrônicos tenham chegado para ficar, os volumes de papel estão longe de perder seu charme. Juntando as duas coisas temos esta galeria de “30 estantes lindas e inovadoras”.

Recomenda-se uma visita à lista completa, mas, como o tempo é curto e os altos e baixos fazem parte do gênero, o Todoprosa separou aqui algumas de suas preferidas.
.

.

07/05/2012

às 15:23 \ Sem categoria

Que cena! A xícara de café de ‘Dom Casmurro’

Lanço hoje uma nova seção no Todoprosa, chamada “Que cena!”. Durante alguns anos, os “Começos inesquecíveis” – posts em que eu apresentava trechos iniciais marcantes de grandes romances, acompanhados de breves comentários que davam pistas sobre o porquê de sua permanência – foram os mais visitados e linkados do blog.

O sucesso, imagino, teve tanto a ver com a qualidade dos começos em si quanto com a sede de informação de um país que, em grande parte, mal começa a aprender a ler. Os “Começos inesquecíveis” passaram a ser tomados por muita gente como indicadores de leitura, com a vantagem de já virem com amostras do estilo de cada autor.

A seção chegou ao fim naturalmente, de puro cansaço. Seria absurdo sugerir que esgotaram-se os bons começos disponíveis na literatura universal. O que passou perto de se esgotar foi a reserva dos começos que marcaram minha memória de leitor – e a ideia sempre foi partir da experiência pessoal, tentar compartilhar um prazer a quente em vez de ensinar uma matéria a frio.

A seção “Que cena!” se baseia numa ideia semelhante: publicar pequenos trechos especialmente marcantes de grandes livros, agora extraídos de qualquer ponto, começo, meio ou fim. Trata-se daquelas cenas magicamente intensas que se recusam a cair no esquecimento e que, por um momento ou uma eternidade, parecem justificar a existência da própria literatura.

Não imagino cena melhor para abrir a seção do que a composta pelos microcapítulos CXXXVI e CXXXVII (ou seja, 136 e 137) do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, intitulados A xícara de café e Segundo impulso. Poderoso coquetel de melodrama e violência, o trecho começa com o doutor Bento Santiago no auge daquele surto de paranoia e autocomiseração lá dele, recém-convencido de que seu filho, o pequeno Ezequiel, é fruto do caso adúltero de Capitu com seu melhor amigo, Escobar, a essa altura já falecido. Está sofrendo tanto que anuncia a intenção de se matar, o que não lhe atenua o cômico pedantismo classicista que, sob pressão, logo derrete para revelar o sujeito escondido ali embaixo – um covarde abjeto.

O crítico inglês John Gledson, estudioso de Machado, já escreveu longamente e com espanto sobre a incompreensão em que, por décadas a fio, a crítica literária brasileira chafurdou diante de “Dom Casmurro”, simpatizando com Bento Santiago e tomando sua narrativa de marido traído pelo valor de face. Em nenhum momento desse sutil romance, a meu ver, ficam mais escancaradas do que neste trecho a cegueira daqueles críticos e as intenções do escritor por trás do narrador. Se Capitu traiu ou não traiu pode ser mesmo indeterminável, uma ventoinha condenada a girar para sempre no coração do livro. Mas Machado não deixa dúvida de que, se traição houve, o corno a mereceu.

O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la. Até lá, não tendo esquecido de todo a minha história romana, lembrou-me que Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha Platão comigo; mas um tomo truncado de Plutarco, em que era narrada a vida do célebre romano, bastou-me a ocupar aquele pouco tempo, e, para em tudo imitá-lo, estirei-me no canapé. Nem era só imitá-lo nisso; tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele, assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo, para intrepidamente morrer. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. Há muita gente que se mata sem ele, e nobremente expira; mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias, se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. Entretanto, querendo fugir a qualquer suspeita de imitação, lembra-me bem que, para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco, nem ser dada a notícia nas gazetas com a da cor das calças que eu então vestia, assentei de pô-lo novamente no seu lugar, antes de beber o veneno.

O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a mesa onde ficara a xícara. Já a casa estava em rumores; era tempo de acabar comigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara, e comecei a mexer o café, os olhos vagos, a memória em Desdêmona inocente; o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando; lá estava ele, com a mão nas costas da cadeira, a olhar ao longe…

“Acabemos com isto”, pensei.

Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr a mim bradando:

– Papai! Papai!

Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido, mas crê que foi belo e trágico. Efetivamente, a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos pés, como querendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia, puxando-me:

– Papai! Papai!

*

Se eu não olhasse para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas vá lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café.

– Já, papai; vou à missa com mamãe.

– Toma outra xícara, meia xícara só.

– E papai?

– Eu mando vir mais; anda, bebe!

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a entornei, mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio… Mas não sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino.

– Papai! Papai! – exclamava Ezequiel.

– Não, não, eu não sou teu pai!

04/05/2012

às 9:14 \ Pelo mundo

Um belo pôster, um enxame de autores e outros links

O pôster ao lado (“Estes são seus filhos. Estes são seus filhos com livros”) é uma criação do grupo americano de incentivo à leitura Burning Through Pages. Uma beleza, não? Via Galleycat.

*

O romance é escrito frase por frase. Para cada uma delas, qualquer pessoa pode inscrever uma concorrente (até 140 toques). Usuários como você votam então em cada uma das frases inscritas, dando-lhes cotações de +1 ou -1. A que tiver a maior nota torna-se então uma frase do romance, pelo menos até que outra inscrita obtenha uma contagem maior.

Clique aqui para ler mais sobre a ideia, e aqui para conferir a execução.

Ah, sei. Mas já que estamos interativos, proponho outra votação.

Você acha que a “experiência” descrita acima – uma ideia recém-lançada pelo escritor americano Willy Chyr, de Chicago, e já entrando em sua terceira página – vai resultar em:

Ver resultado

Loading ... Loading ...

*

Parece ser parte do espírito do tempo a aposta no coletivismo. Mesmo quando os autores são indivíduos: será que “coletivos” e cooperativas de escritores estão escritos no futuro da autopublicação? Alison Flood, do blog de livros do “Guardian”, acredita que sim (em inglês).

*

O escritor londrino Will Self fez dia desses uma curiosa e enfática defesa das “palavras difíceis”, comparando o gosto de nosso tempo pela facilidade textual com os playgrounds emborrachados das crianças. Vale confrontar com a crônica que publiquei no último domingo no Sobre Palavras, uma condenação do pernosticismo intitulada “Como ser desonesto com as palavras”. Os textos parecem inconciliáveis, mas não creio que sejam. Também acho que a dificuldade vocabular pode ser boa e honesta. O problema é que raramente é.

02/05/2012

às 12:05 \ Pelo mundo

Tudo em 5 capítulos: Julian Barnes na cama com Updike

O site é visualmente modesto, baseado numa ideia simples, e abre mão até de ilustração, que dirá dos recursos multimidiáticos que a internet propicia. Apesar disso – ou por isso mesmo? – o FiveChapters.Com tem um charme dos mais distintos e duradouros da blogosfera literária anglófona. Com curadoria de David Daley, que já andou trabalhando com o pessoal da McSweeney’s, sua proposta é publicar um conto por semana em cinco capítulos, um por dia, de segunda a sexta, e deixar que o talento narrativo de bons escritores faça o resto. Tem sido assim há mais de cinco anos – desde outubro de 2006.

Abaixo, em tradução caseira, uma amostra de “Dormindo com John Updike” (aqui o conto inteiro, em inglês), de Julian Barnes, uma espécie de Sobrescrito psicologicamente sagaz e melancolicamente cômico sobre duas amigas, Jane e Alice, escritoras idosas de sucesso limitado às voltas com suas memórias – entre elas, a do caso que a última teve com o ex-marido da primeira, Derek, muito tempo atrás – no trem em que ambas retornam de mais um festival literário. Elas acabam de se irritar mais uma vez com o tópico eternamente repisado do velho triângulo quando Jane abre um novo horizonte na conversa:

Sem mudar inteiramente de assunto, ela se viu perguntando:

– Você vai escrever suas memórias, aliás?

Alice sacudiu a cabeça:

– Deprimente demais.

– Lembrar de tudo aquilo?

– Não, não lembrar. Nem inventar. Publicar, isso sim: por tudo na rua. Eu mal consigo me conformar com o fato de que um número nitidamente finito de pessoas quer ler meus romances. Agora imagine escrever sua autobiografia, tentando resumir tudo o que você soube e viu e sentiu e aprendeu e sofreu em seus cinquenta e tantos anos…

Cinquenta!

– Eu só comecei a contar aos dezesseis, você não sabia? Antes disso eu não tinha sentimentos, muito menos responsabilidade por aquilo que eu era.

Talvez fosse esse o segredo da infatigável, admirável compostura de Alice. De tantos em tantos anos ela traçava um risco embaixo do que tinha acontecido e se eximia de responsabilidade dali por diante. Como no caso de Derek.

– Continue.

– …só para descobrir que não há uma só pessoa a mais interessada em saber. E talvez haja até um público menor.

– Você poderia encher a coisa de sexo. As pessoas gostam da ideia de…

– Coroas assanhadas? – Alice ergueu uma sobrancelha. – Excêntricas?

– …coroas excêntricas como nós abrindo o jogo sobre sexo. Os velhos parecem fanfarrões quando relembram suas conquistas. As velhas parecem audazes.

– Seja como for, você precisa ter dormido com alguém famoso. – Derek jamais poderia ser acusado de ser famoso. Nem Simon, o romancista, para não mencionar o editor delas. – Ou isso ou ter feito alguma coisa muito repulsiva.

Jane achou que a amiga estava se fazendo de tonta.

– John Updike não é famoso?

*

Amanhã à noite estarei na Bienal do Livro Amazonas, em Manaus, para falar, ao lado da escritora Ana Paula Maia, do tema “Meu livro não é de papel”. Embora a rigor ele seja também.

30/04/2012

às 16:53 \ Sobrescritos

Era uma vez

Eram os dois maiores poetas de seu tempo, um tempo remoto em que os homens morriam cedo, mas em compensação os rios eram cristalinos.

O poeta do reino do norte era rico e famoso. Casado com a mulher mais bela e cobiçada do mundo, que o acompanhava aonde fosse, era autor de odes e epicédios que o rei encomendava para comemorar as datas cívicas e que o povo ouvia em meio a arrepios festivos ou contrito silêncio, conforme o caso, na praça em frente ao palácio.

O poeta do reino do sul, ao contrário, vivia sozinho numa choupana no meio do mato, ignorado por seus conterrâneos e encarado com desprezo ou hostilidade pela corte.

O poeta do norte usava como argamassa de sua obra velhas crônicas de atos heroicos ou traiçoeiros, amores cortesãos mal disfarçados sob pseudônimos burlescos, intrigas filosóficas fermentadas nos grandes centros de saber do reino. Para que a mistura não resultasse pesada, temperava tudo isso com um humor descrente que denunciava o olhar de um verdadeiro cidadão do mundo.

O poeta do sul era um caipira que não se cansava de escrever sobre os mesmos temas bucólicos: o por do sol, o nascer do sol, os cabritos que subiam o morro, depois desciam o morro.

O encontro entre os dois foi promovido por admiradores de ambos, um grupo de professores nativos de um terceiro reino, o do centro, que não tinha um único poeta digno de nota mas se destacava pela hermenêutica da poesia alheia. Foi este reino o campo neutro em que os dois maiores poetas de seu tempo finalmente se encontraram, a convite dos entusiasmados professores, por ocasião de um festival de artes.

O conclave entrou para os anais da época. Literariamente, foi uma catástrofe. O poeta do norte falava demais, o poeta do sul não falava quase nada. Logo na chegada cumprimentaram-se friamente, e não demorou a ficar claro que um nunca tinha lido nem estava interessado em ler o outro. Um dos professores, pressentindo o desastre e em busca de um território comum para onde conduzir o colóquio, perguntou-lhes sobre influências. O poeta do norte citou Homero. O do sul, os caracóis de seu jardim.

O encontro só não passou em branco na história da literatura porque, num lance inverossímil, a bela mulher do poeta do norte se apaixonou pelo poeta do sul e fugiu com ele para seu barracão no meio do mato, loucamente determinada a gastar entre cabritos e caracóis seu patrimônio intangível, mas aromático e curvilíneo, de mulher mais cobiçada do mundo.

Nenhum dos dois poetas nunca mais escreveu um verso que prestasse.

27/04/2012

às 13:30 \ Sem categoria

Pop de sexta: a morte de Diadorim

A narração de Mário Lago e a direção de Walter Avancini fazem desse pequeno clipe – concebido como uma daquelas recapitulações sumárias dos folhetins televisivos, destinadas a situar o espectador na trama antes que comece um novo episódio – uma espécie bastante inspirada de resumo e, claro, também um spoiler de “Grande sertão: veredas”.

Vi na época, em 1985, a minissérie da TV Globo baseada no clássico de Guimarães Rosa. Lembro-me de ficar incomodado com a beleza delicada demais, feminina demais de Bruna Lombardi no papel de Diadorim, que me parecia exigir bem mais ambiguidade, embora aprovasse Toni Ramos como Riobaldo e Tarcísio Meira como um canastroso Hermógenes.

Revendo hoje este trechinho, com sua magia que dura até o surgimento daqueles hediondos créditos globais, até Bruna me pareceu uma escolha iluminada, como iluminada ela surge, nua, no clímax da revelação.

Bom fim de semana a todos.

25/04/2012

às 12:48 \ Resenha

‘A trama do casamento’: Eugenides em queda livre

O escritor americano Jeffrey Eugenides estreou em 1993 com uma obra-prima tão madura e original, o romance-novela “Virgens suicidas”, que a consagração de público e crítica atingida dez anos depois por seu segundo romance, “Middlesex”, ganhador do Pulitzer, pareceu apenas natural. Da geração de David Foster Wallace e Jonathan Franzen, Eugenides parecia destinado a figurar em posição de destaque no primeiro time da “nova geração” americana. Parecia. Mais uma década se passou e seu terceiro romance, “A trama do casamento” (que a Companhia das Letras lança mês que vem, com tradução de Caetano Galindo), é tão fraco que obriga seus admiradores, entre os quais me incluo, a repensar algumas das certezas expostas acima.

Mais (ou menos) que uma resenha, este texto vai procurar elementos para começar a lidar com essa questão triste: a queda livre qualitativa de um escritor que lançou um dos melhores livros de estreia que já cruzaram meu caminho. Primeiro convém falar um pouco de The marriage plot – que li no original, razão pela qual nada direi sobre a tradução.

Desde o título, trata-se de uma tentativa explícita de atualizar (para os anos 1980) os romances românticos que terminavam com o casamento da heroína, à moda de Jane Austen. A heroína neste caso, Madeleine Hanna, é uma jovem meio insossa que se forma em letras na Brown University e que tem como interesse justamente o estudo dos tais romances, enquanto seu coração se divide entre dois colegas.

O primeiro, de ascendência grega como o autor, é o místico e gente-boa Mitchell Grammaticus, que está à procura de Deus e que Madeleine transforma num amigo mais ou menos assexuado. O outro, com quem ela acaba por se casar, é o brilhante mas maluco Leonard Bankhead, escancaradamente moldado – com bandana, tabaco de mascar, genialidade, depressão e impulsos suicidas – em David Foster Wallace.

Haveria uma ou duas coisas a dizer, até em termos éticos, sobre essa exploração da imagem do escritor que se matou em 2008 e cuja mística, impulsionada tanto pela morbidez da cultura de massa quanto por seu brilho literário, não para de crescer. Basta observar que uma óbvia chave de leitura de “A trama do casamento” aponta para rivalidades geracionais – o alter ego do autor disputando com o avatar do colega mais talentoso os favores da fugidia glória literária encarnada pela mocinha rica e bonita – que evidenciam ainda mais o acanhamento do romance. Ah, se fosse DFW a escrevê-lo…

Esse acanhamento se manifesta em diversas frentes: personagens rasos e desinteressantes (com exceção de Bankhead, mas já vimos de onde vem seu charme), prosa realista estilisticamente banal, desenvolvimento arrastado da trama, intrigas secundárias irrelevantes e, no fim das contas, um aproveitamento superficial e sapecado do motivo literário exposto no título e sua suposta dimensão metalinguística. Na primeira parte do livro, passada no campus, a sátira da esterilidade e do ridículo reinantes nos círculos acadêmicos de teoria literária ainda faz menção de decolar, mas acaba soando meio batida – quem ainda defende tais coisas? – e, de todo modo, não demora a ser abandonada.

Em retrospecto, a luz que “A trama do casamento” joga sobre a carreira de Eugenides não poderia ser lisonjeira: até o mais vibrante “Middlesex”, um livro irregular, mas com trechos de grande dramaticidade, exige ser reavaliado com menos condescendência. Afinal, foi ali, naquele ambicioso caldeirão de estilos – fusão da saga de imigrantes gregos com uma investigação científica em tom de pesadelo sobre o hermafroditismo que ela terminou por gerar em um de seus descendentes – que Eugenides trocou o caminho literário que havia dado na magia de “Virgens suicidas” pelo que veio desembocar em “A trama do casamento”.

O estilista nabokoviano do livro de estreia era um surpreendente neo-simbolista, capaz de dizer num volume magro, com seu lirismo mórbido, coisas que nunca haviam sido ditas sobre os aspectos mais cruentos da adolescência. Por alguma razão que pode ter a ver com esgotamento artístico, mas que provavelmente se relaciona também com as expectativas de um mercado editorial marcado pelo sucesso de Jonathan Franzen, essa voz intrigante e ímpar desapareceu para dar lugar a mais um realista de carregação interessado na montagem de “painéis” espalhados por centenas de páginas. Nada contra o realismo em si, mas ele não parece ser o forte de Eugenides, que em “A trama do casamento” faz papel de sub-Franzen. Levando-se em conta que o próprio Franzen não está com essa bola toda, é bem grave.


 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados