Blogs e Colunistas

23/05/2015

às 9:00 \ Antologia

Três histórias de crítica e fogo

fogoFLAME WAR

Diante de seu computador velhusco, Adolfo Pinho Rosa, o famoso crítico literário, bufava. Maxilar rangendo, testa vincada de rugas profundas, olhar de maluco, dedilhava sua última bomba atômica na épica batalha internética que vinha travando há mais ou menos duas horas contra Berilo di Carlo, o jovem escritor. Flame war era como chamavam em latim contemporâneo aquilo em que se entretinham madrugada adentro, além de Berilo e ele, diversos internautas de nome inventado, alguns tomando um partido ou outro, a maioria só se divertindo com variantes do incentivo à pancadaria que aglomerações humanas tendem a jubilosamente manifestar.

E Adolfo Pinho Rosa escreveu:

“Para encerrar esta novela e irmos todos dormir, eu quero dizer o seguinte: Berilo di Carlo não chega a ser um escritor. Gostaria muito, se esforça de forma até comovente para isso, mas não chega. Falta-lhe o talento para transformar seu escasso mas (vá lá) intenso conhecimento literário em literatura. Falta gás. Seus romances, tanto Lava fria quanto Os estranhos habitantes de Marte, são patéticos simulacros de romance. Os personagens não convencem como gente, a prosa claudica, sintaxe e vocabulário abusam das contorções exibicionistas e se estrepam, a escolha do detalhe descritivo oscila entre o clichê e a originalidade inepta, as imagens não colam, o diálogo dá vontade de cortar os pulsos – enfim, um acidente ferroviário pavoroso é o melhor símile para cada uma das duas narrativas longas de ‘ficção’ que Berilo teve a imprudência de publicar (os contos são um pouco melhores, porque duram menos). Claro que nada disso o impede de continuar tentando: não faltam desses escritores de mentirinha por aí, e sempre haverá leitores de ouvido de lata para gabar, em troca de um interesse ou outro, seus méritos fulgurantes. Boa sorte ao ‘escritor’ Berilo di Carlo. Só não me venha posar de sabichão aqui no blog, viu, escritor de mentirinha, porque eu sou um crítico de verdade que gosta de literatura de verdade e tem um nome respeitável e não tem tempo a perder com eunucos intelectuais da sua laia.”

Releu, trocou “eunucos intelectuais” por “anões intelectuais”, ampliando dramaticamente o alcance estatístico da minoria que ofendia, e publicou o comentário.

Decidido mesmo a dormir, desligou o computador e se meteu na cama. Meia hora depois estava religando o computador e lendo os três comentários postados após o seu: “menos, adolfinho, menos: o berilo não é tão ruim assim, embora seja péssimo”, “issssaaaaa agora só no brasso!!!”, “Quem esse pedante f.d.p. pensa que é, Antonio Candido?”. Apagou correndo o terceiro: palavrão não. Estranhou o relativo silêncio, nem sinal de Berilo, e passou as próximas horas olhando para as brasas moribundas da sua flame war, lendo os comentários sem relevância que chegavam e lambendo um a um todos os que tinha postado, em especial o último, que releu setenta vezes. O dia já clareava quando desistiu de esperar a reação de seu oponente, certamente adormecido àquela altura, e foi dormir.

Passava do meio-dia quando o telefone o acordou, um amigo lhe dizendo que Berilo di Carlo tinha se matado aquela madrugada. Como? Cabeça no forno, e deixou um bilhete. Um bilhete? Um bilhete, e sabe o que ele diz? “Adolfo Pinho Rosa tem razão. Dedico a ele, com solenidade, a minha morte. Possa este último golpe narrativo finalmente impressionar Adolfo Pinho Rosa: neste livro, pestilenta criatura, você carrega meu cadáver na consciência até morrer”. O quê! Você só pode estar brincando comigo. Não brincaria com uma coisa dessas. Fala sério, o que o Berilo diz no bilhete de suicida dele? Espera aí, e se tudo for uma brincadeira, hahaha? Vem cá, o Berilo se matou mesmo? Lamento muito, Adolfo. Publicaram o bilhete na internet, já está com mais de quinhentos comentários. Ah, meu Deus. Cuidado, meu amigo. Eu não recomendo ler o que o pessoal está escrevendo a seu respeito, sabe como é a internet.

Leu tudo, absorveu tudo: cada insulto desmoralizante, cada imperativo escabroso, cada viscoso palavrão. Cada ameaça de morte. O suicídio de Berilo di Carlo e a implicação do crítico Adolfo Pinho Rosa na tragédia eram o assunto preferido da blogosfera brasileira e começavam a ganhar projeção internacional. Antes de cair a noite, #berilolives tinha emplacado como trending topic mundial do Twitter e, no Orkut, a comunidade “Morte ao crítico Adolfo Pinho Rosa” angariava adeptos em velocidade inédita. Logo apareceu alguém para encontrar em seu texto uma sugestão claríssima de suicídio com a cabeça no forno: “Falta gás”, frase que Adolfo, claro, tinha empregado de forma tão inocente quanto lhe permitia seu ódio de então, querendo dizer que faltava fôlego, capacidade. Mas o diabo da frase elevou ainda mais a altura das chamas que o mundo alimentava na ágora digital, onde um crítico literário de ex-excelente reputação ardia agora em mudo estupor.

Adolfo Pinho Rosa passou uma semana no inferno antes que Berilo di Carlo viesse a público para revelar a fraude. Hoax era como chamavam em inglês. Estava de férias em Jericoacoara, onde escrevia seu terceiro romance, e ria: “Primeiro de abril! kkkkkk, vê lá se eu vou me matar por causa de um mané desses”. Só então Adolfo foi prestar atenção na data daquela guerra, primeiro de abril, ora veja. Sentiu-se esvaziar de tudo num jorro, feito um saco rasgado de feijão. Era um alívio, sem dúvida, mas acabou oco. Boçal. Uma certeza solar iluminava as gargalhadas nervosas que subiam da ágora: sua ex-excelente reputação estava perdida para sempre.

*

UMA TARDE NA VIDA DO CRÍTICO

Dagoberto Castro de Menezes fechou seu Ovídio magro ricamente encadernado e o pousou na banqueta Joaquim Tenreiro ao lado da bergère, de onde tomou da xícara fumegante de darjeeling e de um Agamben que lia com apetite cada vez mais magalizesco, para citar Maurício.

Leu concentradamente por quarenta e oito minutos. De repente pôs o livro de lado e pulou da poltrona pensando no homo sacer. A tarde envelhecia. Puxou uma cordinha. Um minuto depois, quando o mordomo apareceu, comandou a carruagem para as seis em ponto. O recital seria às oito e meia, queria jantar antes.

A hora e tal que lhe restava ao ócio Dagoberto, ou Castro de Menezes, como ele preferia, a empregou em seu passatempo predileto, pequena extravagância que um dia, em momento de exasperação, tivera a fortuna de criativamente improvisar: dar de comer à lareira sólidos toros de literatura brasileira contemporânea.

Deitados lânguidos ao fogo, os livros iam mudando de estado no mundo da matéria num belo espetáculo de chamas coloridas, e Dagoberto Castro de Menezes (usemos o nome todo, para evitar confusão) se deu conta de que aquilo era puro homo sacer, sim, claro! Ficou feliz com a ideia, era isso mesmo: a literatura brasileira contemporânea é o homo sacer, o santo às avessas. Aquele que é tão desprezível que não tem direito nem à própria vida, qualquer um pode matá-lo impunemente, como ele fazia agora. Mas que nunca poderá ser morto em ritual sagrado no altar dos mais supinos valores críticos, sob pena de danação para o crítico e toda a humanidade que este representa. Ao fogo, pois, que assim ninguém corre riscos.

Uma hora depois, como sempre ocorria após uma sessão daquilo que havia batizado Bibliofilia Paradoxal Pírica, BPP, Dagoberto Castro de Menezes III, PhD, sentia-se leve e excitado. Pelo iPhone confirmou que Thiago, seu aluno mais burrinho e mais bonito, iria ao recital. Falaria do homo sacer a Thiago, ele como sempre não entenderia nada, mas falaria mesmo assim, para humilhá-lo. Será que Joaquim Nabuco também estaria lá? Uma foto ao lado de Nabuco na coluna do Joaquim, o outro, não faria mal à sua carreira.

Dagoberto Castro de Menezes, CEO de ONG, 1,67m, dago@hotmail.edu, consultou seu Patek Philippe: cinco e dez. Tempo para um breve banho de imersão com o prodigioso sel de bain à la menthe poivré de Marius Fabre. Depois, a carruagem, a noite, a vida!

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DOS ELOGIOS INCONDICIONAIS

Valério Schlondorf está relendo pela quinta vez a resenha que acabou de escrever. A caneta esferográfica em sua mão direita aplica rabiscos ocasionais nas folhas de papel sobre a mesa. Como sempre faz na hora de revisar seus escritos, tratou de imprimir este primeiro: apesar de jovem o bastante para ser considerado um dos valores da “nova geração de escritores brasileiros”, o capixaba Schlondorf é suficientemente velho para achar mais fácil flagrar deslizes, rimas indesejáveis, ideias inconsistentes e frases truncadas quando lê no papel, como se a fluidez da tela do computador mascarasse defeitos. Defeitos que, diga-se de passagem, ele não encontrou no romance que acaba de criticar. Nem para remédio: a resenha é francamente elogiosa.

Seu problema passa a ser então moderar os elogios para, num paradoxo apenas aparente, deixá-los mais potentes. Sabe que as pessoas desconfiam de loas demasiado rasgadas e não é para menos – no ambiente de compadrio, hipocrisia e baixo apreço ao profissionalismo crítico em que chafurdam as letras nacionais, faz bem o leitor em se precaver. Assim, em vez de “divisor de águas na literatura brasileira contemporânea”, Schlondorf opta pela sobriedade firme de “livro fundamental na literatura brasileira contemporânea”. No lugar de “gênio”, vai de “talento maior”, e “prosa em chamas” vira “prosa vívida”. Finalmente, ao trocar “o grande nome de sua geração” por “um dos grandes nomes de sua geração”, parece se dar por satisfeito. Repousa a caneta sobre a mesa e, batucando no teclado, transfere rapidamente as alterações para o computador. Em seguida alcança o telefone:

– Alô, Rafinha? Tô com o texto pronto aqui. Estou mandando neste minuto pra você e você encaminha pro editor como da outra vez, tudo bem? Isso, já vai com a sua assinatura. A grana é sua, claro, pena que seja aquela merreca de sempre, o pessoal é muito mão de vaca. De todo modo obrigadíssimo, amigão, fico te devendo mais uma. O título? Coisa singela: “A consagração de Valério Schlondorf”. Hehe, pois é. Mas isso nunca se sabe, às vezes eles mexem no título por problemas de espaço. Sabe como é jornal, é a ditadura do espaço, a honestidade intelectual que se dane. Este mundo tá perdido, Rafinha!

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Os contos acima foram publicados pela primeira vez na seção Sobrescritos deste blog, separadamente, entre agosto de 2010 e setembro de 2011.

16/05/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! A boiada de José J. Veiga

José J. VeigaTrazer para a seção “Que cena!” o escritor goiano José J. Veiga (1915-1999) é uma forma de acenar para o adolescente que eu fui. O livro de contos “Os cavalinhos de Platiplanto”, de 1959, e o romance “A hora dos ruminantes”, de 1966 – ambos relançados recentemente pela Companhia das Letras em caprichadas edições de capa dura – me deram mais do que prazer de leitura naquele miolo da década de 1970 em que chegaram às minhas mãos. Veiga parecia apontar um rumo. Um modo possível de escrever.

De tão singelo, nem chega a ser embaraçoso que, ao ter um conto publicado numa edição de província, aos 17 anos, eu me definisse como “influenciado por Kafka, José J. Veiga e Poe”. Nessa ordem.

Meu gosto juvenil pelo fantástico não tem nada de surpreendente, mas, pensando nisso agora, acho sintomático que o escritor nascido na pequena Corumbá de Goiás ocupasse aquela posição central em minha trindade de cultores do esquisito. O modo como o cara incorporava à sua ficção acontecimentos insólitos, inexplicáveis – como a ocupação de uma cidadezinha do interior por uma multidão de bois na terceira parte de “A hora dos ruminantes”, que começa com a cena abaixo – era tão familiar, caseiro e interiorano que, para o garoto interiorano que eu era, parecia um salvo-conduto: “Ah, isso eu consigo fazer!”. Claro que não conseguia, mas o que vale é o estímulo.

A prosa de Veiga me parece ainda hoje uma façanha estilística. De sintaxe cristalina e ritmo suavemente coloquial, com poucos e certeiros regionalismos dando apenas a cor local suficiente a um português brasileiro de ambição universal, é curioso notar seu gosto pelo pretérito imperfeito – o tempo verbal com o qual recordamos nostalgicamente as coisas que duravam, que permaneciam – mesmo quando, como ocorre abaixo, narra a ruptura.

O pretérito imperfeito e a ação centrada na coletividade, com personagens individualizados se destacando apenas momentaneamente da paisagem humana homogênea, situam Veiga numa tradição arcaica de causos e histórias populares moralizantes contados à beira do fogo. A pequena Manarairema que a avalanche bovina desfigura é um lugar idílico, à margem do tempo histórico: pobre mas quase sem conflito, atrasado mas habitado por gente de bem. Até que chegam os invasores.

Na primeira parte do romance, são os forasteiros caladões que, com pinta de virem da cidade grande, acampam do outro lado do rio. Na segunda, os cachorros. Na terceira, os bois. Como “A hora dos ruminantes” chegou ao público dois anos depois do golpe militar de 1964, as leituras que o tratam como alegoria da ditadura são inevitáveis – e interessantes, ainda que um tanto óbvias.

Naturalmente, seria empobrecedor ficar só nelas. O livro mais famoso de José J. Veiga também não faz feio como representação da traumática metamorfose brasileira, em curso naquela época, de país majoritariamente rural em país esmagadoramente urbano. Ou, em escala microscópica e condizente com o tempo em que o li, como um flagrante do massacre da inocência quando os hormônios escoiceantes invadem a infância feito bois desgovernados.

Fazia dias que os bois vinham aparecendo aqui, ali, nas encostas das serras, nas várzeas, na beira das estradas, uns bois calmos, confiantes, indiferentes. As marcas que mostravam nada esclareciam, ou eram desconhecidas na região ou muito apagadas, difíceis de ser recompostas. Bom: são bois vadios, desgarrados de boiadas; qualquer dia os donos vêm buscar, ou eles mesmos desaparecem assim como vieram – sem aviso, sem alarde.

Isso pensava-se, mas não foi o que aconteceu. Longe de ir embora, os bois se chegaram mais e em grande número. Ganharam as estradas, descendo. Atravessaram o rio, de um lado, o córrego, de outro, convergindo sempre. Em pouco já lambiam as paredes das casas de arrabalde, mansos, gordos, displicentes. Encheram os becos, as ruas, desembocaram no largo. A ocupação foi rápida e sem atropelo; e quando o povo percebeu o que estava acontecendo, já não era possível fazer nada: bois deitados nos caminhos, atrapalhando a passagem, assustando senhoras. As entradas do largo entupidas e mais bois chegando, como convocados por uma buzina que só eles ouviam; os que não cabiam mais no largo iam sobrando para as ruas de perto, para os becos e terrenos vazios. Abria-se uma janela para olhar o tempo e recebia-se no rosto o bafo nasal de um boi butelo. Uma pessoa ia ao quintal, entrava distraída numa moita, levava o maior susto da vida ao assustar um boi, que saía de arranco pisando plantas, arrastando ramos pendurados nos chifres. Dobrava-se uma esquina com pressa, caía-se de braços abertos nos chifres de um boi imprevisto.

Durante o resto do dia e ainda por toda a noite mais bois chegaram, pisando em tudo, derrubando casas de pobres, invadindo corredores de ricos, espremendo-se uns contra os outros, as cabeças levantadas para os chifres não embaraçarem, sem espaço nem para erguer o rabo na hora de defecar, a matéria saindo forçada pelas pernas abaixo, breando tudo.

Não se podia mais sair de casa, os bois atravancavam as portas e não davam passagem, não podiam; não tinham para onde se mexer. Quando se abria uma janela não se conseguia mais fechá-la, não havia força que empurrasse para trás aquela massa elástica de chifres, cabeças e pescoços que vinha preencher o espaço.

Frequentemente surgiam brigas, e seus estremecimentos repercutiam longe, derrubavam paredes distantes e causavam novas brigas, até que os empurrões, chifradas, ancadas forçassem uma arrumação temporária. O boi que perdesse o equilíbrio e ajoelhasse nesses embates não conseguia mais se levantar, os outros o pisavam até matar, um de menos que fosse já folgava um pouco o aperto – mas só enquanto os empurrões vindos de longe não restabelecessem a angústia.

Nas ladeiras os bois mais fracos caíam de puro cansaço com o esforço de se manterem de pé contra a avalanche que vinha forcejando de cima, caíam e iam rolando por baixo dos outros, derrubando mais alguns até alcançarem o amparo de um muro, um barranco, uma árvore, e aí ficavam moídos, quebrados, gemendo. As cercas e muros dos quintais, que resistiram bem nas primeiras horas, com o aumento da pressão acabaram cedendo; e como água represada que arrebenta comporta, os bois se despejavam para dentro aos trambolhões, pinotes, testadas, ávidos de espaço, arrasando plantações, espantando porcos e galinhas.

Nem dentro de casa as pessoas ficavam tranquilas. Aqueles que não tiveram a prevenção de fechar as janelas logo no início – a maioria – agora eram obrigados a viver e fazer tudo observados por dois, três pares de olhos bovinos, e às vezes ainda precisavam empurrar um chifre para um lado para poder abrir uma gaveta ou um armário.

Se não fosse a diligência dos meninos, que inventaram um jeito de andar por cima dos bois, as famílias teriam ficado sitiadas em casa, sem meios de comunicação com parentes e amigos. Descalços e munidos de uma vara tendo numa ponta uma plaquinha acolchoada, os meninos subiam numa janela, daí passavam para o lombo de um boi, e utilizando a vara como escora iam navegando por cima deles, transmitindo e recebendo recados e encomendas, apostando corridas uns com os outros. De vez em quando um menino pisava em falso, ou o boi se mexia ao ser pisado, e lá ia o menino para o fundo. Alguns conseguiam engatinhar por entre o crivo de patas, sujando-se nas bozerras, molhando-se nas poças de urina, sangrando as mãos e os joelhos nas pedrinhas do chão até alcançar o abrigo de uma vala ou os degraus de um portal; mas muitos se desorientaram, perderam o rumo, caíram no choro, assustaram os bois e acabaram esmagados por aquelas mãos de pilão de muitas arrobas de peso.

09/05/2015

às 9:00 \ Vida literária

O jogo do Rogério

rogério durstAcredito ter sido, no fundo, o inconformismo com o fato de literatura e vida parecerem habitar duas dimensões tão separadas da existência o que nos levou a inventar um jogo intrincado que misturava folhetim com uma espécie primitiva de RPG – este, embora já existisse, estava longe de fazer sucesso no Brasil e não pode ser considerado uma influência.

Estávamos na primeira metade dos anos 1980 e éramos quatro amigos formandos ou recém-formados em jornalismo. Todos apaixonados por literatura, estávamos meio perdidos e talvez assustados (eu pelo menos sim) com as promessas de tédio infinito e massacre cotidiano da criatividade e da alegria que o mundo do trabalho remunerado parecia estender horizonte adentro, a perder de vista.

Houve um tempo em que, zeloso de uma coisa arcaica chamada vida privada, eu não nomearia – ou nomearia com pseudônimos – os outros três daquela turma. Hoje esse tempo parece distante, talvez porque eu esteja sob a influência da furiosa evasão de privacidade promovida por Karl Ove Knausgård. De todo modo, não há nada que comprometa ninguém nessas memórias: nem o professor Luiz Carlos Mansur, nem o roteirista David França Mendes, nem o crítico de cinema e escritor Rogério Durst (foto).

Além do mais, qual seria o sentido de esconder os personagens se só estou me lembrando disso agora porque o Rogério morreu, de insuficiência cardíaca, na quarta-feira da semana passada, aos 54 anos?

Embora tenha tocado ao Mansur o papel perfeitamente adequado de Deus, foi o Rogério quem acabou se saindo como senhor absoluto daquela brincadeira. Devíamos ter desconfiado que seria assim. Antes, porém, que isso possa começar a fazer sentido, é preciso explicar em linhas gerais a mecânica do jogo literário que nós inventamos.

A ideia era ter, no fim das contas, um romance policial. Um romance policial escrito a oito mãos, com três autores respondendo cada um por um personagem-jogador e um deles no papel divino de moderador e senhor do universo.

Ao Mansur, então um futuro crítico musical que acabaria se mandando do Brasil para virar acadêmico em Portugal, coube criar o mundo, estabelecendo as bases da história: o elenco de personagens secundários e os conflitos principais.

Os mortais, isto é, os jogadores propriamente ditos, deveriam, antes de escrever seus capítulos semanais, interagindo com a paisagem proposta por Deus num esforço permanente para assar suas próprias sardinhas na brasa da história, agendar com Ele o “uso” de determinados personagens e cenários, marcando dia e hora para evitar superposições.

Ah, sim: só Deus lia o que os mortais escreviam, embora tivesse também a missão de passar a todos um resumo da semana em que a maior parte das atividades de cada personagem-jogador era relatada – com o veto estratégico de apenas duas informações cruciais por cada um. Uma a critério do autor, a outra a critério do próprio Deus.

Parece uma confusão dos infernos, não? Era bem pior que isso. Era totalmente absurdo, inviável, e em poucas semanas tínhamos na mão, não um romance, mas um desastre ferroviário pavoroso. Tremenda falta do que fazer. Foi divertidíssimo.

O texto do Rogério, futuro crítico de cinema que marcaria época no jornalismo carioca com suas sinopses mordazes de filmes na TV (uma pequena amostra aqui), jantou os nossos porque ele era àquela altura o escritor mais maduro da turma. Não na idade, mas no encontro de certa voz personalíssima.

Enquanto nós (eu pelo menos sim) cometíamos o erro óbvio de entrar no jogo tateantes, tentando ganhar tempo, aprendizes à procura de um estilo, o Rogério trazia pronta a mistura coloquial, engraçada e rigorosa de literatura noir com carioquice popular que ia desenvolver em livros como “Madame Satã – Com o diabo no corpo”, perfil publicado pela coleção Encanto Radical da editora Brasiliense, e o delicioso romance “Anjo caído” (Xenon).

Aprendi com ele que a literatura é um pega-pra-capar como qualquer outro ramo da existência – nem tão distante da vida, afinal. A diferença é que os personagens que morriam aos borbotões em nossa história policial insana não deixavam um vazio tão grande na paisagem afetiva dos mortais sobreviventes quanto a morte do Rogério deixa agora na minha.

O Arthur Dapieve – que então ainda não conhecíamos, mas que logo ia se juntar àquela turma de escritores aspirantes – escreveu ontem em sua coluna no “Globo” um texto de despedida bem melhor, mais sensível e sensato do que este, que comete o erro óbvio de falar mais de um joguinho literário menor do que do amigo maior que pretendia homenagear.

Acho que vou precisar de mais tempo. Talvez não aprenda nunca.

02/05/2015

às 9:00 \ Resenha

Knausgård: o inesperado poder da hiperbanalidade

Karl Ove Knausgard in Helsinki, Finlnad - 29 Sep 2011Por que alguém leria milhares de páginas autobiográficas de um escritor norueguês que levou e leva uma vida nada excepcional? Páginas centradas em experiências comuns como os problemas de relacionamento de um filho sensível com o pai fechadão e o medo que ele tem de repetir o modelo paterno desastroso quando se encontra por seu turno às voltas com fraldas e mamadeiras, enquanto se angustia por ver escorrer entre os dedos como areia (com clichê e tudo) o tempo que preferiria investir na produção de uma obra literária capaz de dar sentido a uma vida gratuita?

Boa pergunta. Talvez porque o sujeito drible poeticamente a banalidade, transfigurando o cotidiano por meio de uma linguagem espetacularmente inventiva? Não, pista falsa: a banalidade pinga de cada página como o óleo esverdeado de um arenque em conserva. O fato é que com tudo isso – e ainda com os repulsivos ecos hitleristas do título – a série “Minha luta”, de Karl Ove Knausgård, tornou-se um fenômeno de popularidade na Noruega, onde vendeu perto de meio milhão de exemplares (número quase ofensivo se levamos em conta que o país tem pouco mais de cinco milhões de cabeças), e um modismo intelectual no restante da Europa e nos Estados Unidos.

Faz sentido? Faz, mas não é fácil dar conta dele. Às vésperas do lançamento, pela Companhia das Letras, de “A ilha da infância”, o terceiro dos seis volumes não cronológicos de “Minha luta” (os primeiros são “A morte do pai” e “Um outro amor”), vale a pena tentar entender por que ler Knausgård é uma experiência tão forte, em que o aborrecimento luta o tempo inteiro contra o fascínio – e perde. Acho que falo por uma legião quando concordo com a fórmula sucinta do crítico James Wood: “Mesmo quando eu estava entediado, eu estava interessado”.

Logo no início do segundo volume, o narrador, que volta e meia aparece no ato de escrever (e refletir sobre) o livro que estamos lendo, diz que a “busca de uma coisa diferente” deve ser a preocupação número um de todo escritor: “Essa era a única obrigação na literatura, em todos os outros aspectos ela permanecia livre, mas não nesse, e os escritores que o negligenciavam não mereciam nada além de desprezo”. Digamos que seja possível concordar sem reservas com tal afirmação. O modo como Knausgård vai buscar sua “coisa diferente” é que é, ele mesmo, diferente do modo como a diferença vem sendo buscada.

Quem já esteve à frente de uma oficina de “escrita criativa” ou no júri de um prêmio literário conhece bem um defeito comum em textos imaturos, aquela doença infantil do realismo em que o narrador se julga obrigado a contar tudo. Alguém entra no botequim. “Bom dia”, diz o homem atrás do balcão. “Bom dia”, responde o recém-chegado. “Parece que vai chover”, diz o dono da birosca. “Parece mesmo.” “Quer o de sempre?” “Não, hoje estou com pressa. Só um café preto, por favor.” “Sem açúcar, certo?” “Certo, obrigado.” “No copo ou na xícara?” “Pode ser no copo.” Diálogos como esse podem se estender por muitas páginas tediosas, sem propósito algum além de marcar o tempo transcorrido entre o momento em que o homem entra no botequim e aquele em que, saindo, vai cruzar na calçada com a linda estranha que acabará levando ao altar na página 120.

O remédio mais óbvio contra a doença da prosa banal é a edição, a elipse, o enxugamento, tudo o que reduza a narrativa ao essencial: um encadeamento de momentos significativos. (Sim, um diálogo vadio com o dono do botequim tem lugar aqui, desde que de alguma forma deixe pistas sutis, hemingwayanas, sobre a solidão do herói, o estado de vulnerabilidade emocional que vai se escancarar em seguida diante da mulher na calçada.) Tudo deve se dar numa velocidade suficiente para desafiar a lei da gravidade, ou seja, para que o leitor não tenha tempo de perceber que a prosa, ao contrário da poesia, é por definição prosaica, pedestre, pouco inclinada ao sublime – aquilo que o poeta Paul Valéry satirizou notoriamente na frase “A marquesa saiu às cinco horas”.

Há também remédios menos óbvios, e a história da literatura no século XX pode ser vista como uma longa prateleira de farmácia onde eles se enfileiram. São variados, mas com um objetivo comum: por meio do fluxo de consciência, do recurso a neologismos, do surrealismo, da estilização radical ou de outras formas de experimentalismo vocabular e sintático, trata-se de dar à linguagem uma densidade e uma estranheza que façam cada palavra brilhar como se estivesse sendo pronunciada pela primeira vez. Ou seja, trata-se de aproximar a prosa da poesia.

Knausgård não faz nem uma coisa nem outra. De gosto estético francamente passadista, os caminhos da arte moderna o deixam frio, como confessa na página 242 do primeiro livro: “Eu havia estudado história da arte, e estava habituado a descrever e analisar a arte. Mas jamais escrevi sobre o mais importante, a experiência da arte para mim. Não apenas porque não seria capaz, mas também porque os sentimentos que as pinturas despertavam em mim iam de encontro a tudo o que eu aprendera sobre o que era arte e para que ela servia (…) A arte contemporânea, em outras palavras, a arte que em princípio deveria ter importância para mim, não levava em conta os sentimentos produzidos por uma obra de arte”.

É o “sentimento”, palavra fora de moda, que o escritor norueguês persegue: a transcendência, o enlevo, o desejo de “estar dentro da inexaurabilidade”, coisas que já não cabem em nosso vocabulário estético mais sofisticado senão como ideias cafonas. Acredito ser essa ânsia que o leva a buscar um efeito literário novo por meio de dois movimentos contraintuitivos: em vez de narrar menos, fugindo do banal, ele narra mais, muito mais do que jamais sonhariam ser possível aqueles novatos da oficina mencionados ali atrás, inaugurando uma espécie de hiperbanalidade; e em vez de revestir palavras e frases de um verniz poético, estetizante, segue em frente numa prosa aparentemente descuidada, corriqueira, que não rejeita lugares-comuns e reiterações e muitas vezes se aproxima do ingênuo.

Isso acaba se revelando um achado por mais de uma razão. A linguagem afrouxada, que de naïf não tem nada, leva muitas cenas a se desenrolar em ritmo arrastado, cheio de horas mortas, o que imprime à leitura uma sensação meio entorpecedora de “tempo real”, de vida-como-ela-é. É como se o autor tivesse realizado a aspiração impossível da linguagem como transparência perfeita, que nada refrata da experiência real – um artifício, claro. A mesma pegada frouxa lhe dá toda a corda do mundo para se extraviar, fazer digressões de dezenas de páginas, misturar pequenos ensaios sagazes com o mais sólido senso comum, ir e voltar no tempo ao sabor da memória. Parece caber tudo ali, sem filtro. Como na vida?

A armadilha no caminho do leitor é camuflada com engenho. A descrição minuciosa de atos cotidianos como preparar um chá exige sempre muitas linhas, como se a cada vez o leitor fosse um ET com amnésia que tivesse que ser apresentado a xícaras, saquinhos, água quente e o modo como tais elementos interagem. Isso poderia – e pode – ser chatíssimo. Mas também poderia – e pode – ser visto como uma volta à infância da linguagem, recuperação de um tempo de frescor em que as relações entre as coisas do mundo ainda não tinham se revestido, pela repetição, de uma pátina de enfado. As cenas capitais do romance, sombrias ou mesmo terríveis, recebem tratamento idêntico, mas a essa altura é tarde para recuar: quem tomou o chá já não pode recusar a cicuta.

*

Falo mais de Knausgård, ao lado de Carlos Graieb e Jerônimo Teixeira, no Clube do Livro de TVEJA que entrou no ar esta semana.

25/04/2015

às 9:00 \ Antologia, Vale a pena ler de novo

Três histórias de antigamente

Elizabethan LoversERA UMA VEZ

Eram os dois maiores poetas de seu tempo, um tempo remoto em que os homens morriam cedo, mas em compensação os rios eram cristalinos.

O poeta do reino do norte era rico e famoso. Casado com a mulher mais bela e cobiçada do mundo, que o acompanhava aonde fosse, era autor de odes e epicédios que o rei encomendava para comemorar as datas cívicas e que o povo ouvia em meio a arrepios festivos ou contrito silêncio, conforme o caso, na praça em frente ao palácio.

O poeta do reino do sul, ao contrário, vivia sozinho numa choupana no meio do mato, ignorado por seus conterrâneos e encarado com desprezo ou hostilidade pela corte.

O poeta do norte usava como argamassa de sua obra velhas crônicas de atos heroicos ou traiçoeiros, amores cortesãos mal disfarçados sob pseudônimos burlescos, intrigas filosóficas fermentadas nos grandes centros de saber do reino. Para que a mistura não resultasse pesada, temperava tudo com um humor descrente que denunciava o olhar de um verdadeiro cidadão do mundo.

O poeta do sul era um caipira que não se cansava de escrever sobre os mesmos temas bucólicos: o pôr do sol, o nascer do sol, os cabritos que subiam o morro, depois desciam o morro.

O encontro entre os dois foi promovido por admiradores de ambos, um grupo de professores nativos de um terceiro reino, o do centro, que não tinha um único poeta digno de nota mas se destacava pela hermenêutica da poesia alheia. Foi este reino o campo neutro em que os dois maiores poetas de seu tempo finalmente se encontraram, a convite dos entusiasmados professores, por ocasião de um festival de artes.

O conclave entrou para os anais da época. Literariamente, foi uma catástrofe. O poeta do norte falava demais, o poeta do sul não falava quase nada. Logo na chegada cumprimentaram-se friamente, e não demorou a ficar claro que um nunca tinha lido nem estava interessado em ler o outro. Um dos professores, pressentindo o desastre e em busca de um território comum para onde conduzir o colóquio, perguntou-lhes sobre influências. O poeta do norte citou Homero. O do sul, os caracóis de seu jardim.

O encontro só não passou em branco na história da literatura porque, num lance inverossímil, a bela mulher do poeta do norte se apaixonou pelo poeta do sul e fugiu com ele para seu barracão no meio do mato, loucamente determinada a gastar entre cabritos e caracóis seu patrimônio intangível, mas aromático e curvilíneo, de mulher mais cobiçada do mundo.

Nenhum dos dois poetas nunca mais escreveu um verso que prestasse.

*

A VERGONHA DO REI

O rei tinha vergonha de escrever versos. A atividade lhe parecia claramente indigna de um monarca: catar palavras que andavam aos pinotes por aí, debochadas, malucas, incursas em crime explícito de lesa-majestade, e convencê-las sabe-se lá a que preço a contar em jogral tosco, num palco de palito e papel, o que era indizível de saída. Ocupação nada real, evidentemente. Vício de duque ou visconde, vá lá: que mal podia haver num soneto que rimava rosa com vaporosa se se perdoavam fraquezas até maiores nos nobres, havendo os mais fracos entre eles que davam mesmo para devassos, ladrões, assassinos, por que não poetas? Rei era diferente. Civilizar o mundo, manter coesa a massa dos homens para mais bem erguê-los da barbárie, isso era trabalho de rei. Anexar terras, matar a mancheias, ofuscar o sol era trabalho de rei. Só que o rei, mesmo morrendo de vergonha, não parava de escrever versos.

O rei tinha vergonha de sentir vergonha de escrever versos. A vergonha, sentimento de escravo, não ficava bem num rei. Este nada deve temer, nada falsear de sua natureza, pois esta cria a própria lei que rege o reino. Não se envergonhe o rei de nada do que sente, pois o que sente é justo e bom, ainda que mau na cartilha corrupta de bispos e filósofos. Nada o coage: imagine-se, por absurdo, o monarca de uma ilha do Pacífico que pratique o canibalismo ritual, alimentando-se exclusivamente, em quatro refeições diárias, de súditos e súditas assados lentamente em espeto giratório no pátio do palácio. Pois nem este monstro terá nada de que se envergonhar se for legítima sua coroa, bordada fibra a fibra na história de sua gente a grandeza augusta de sua casa, suas armas, seu sangue. O rei acreditava mesmo nisso. Não sabia por que, então, se envergonhava de ser poeta. Envergonhava-se de se envergonhar, o que, naturalmente, não o fazia se envergonhar menos, mas em dobro. Escrevia escondido.

Embora o rei seja por definição o mais solitário dos homens, porque ímpar, não são muitos os momentos de solidão literal em sua vida. A borboletear à sua volta há sempre uma nuvem de camareiros, conselheiros, pajens, lacaios, adulões, louvaminheiros. Querem vesti-lo, distraí-lo, dar-lhe de comer, banhá-lo em óleos aromáticos, manipular-lhe os divinos bagos. A solidão para rabiscar versos tinha que ser conquistada às cotoveladas, idiossincrasias de soberano: o rei fazendo questão de caçar absolutamente só na floresta, ele e a mata, deixando nobres e guardas a centenas de passos de distância por três horas, quatro horas, enquanto escrevinhava entre grunhidos, rubores de euforia e puxadas agônicas de cabelo um épico sangrento ou uma balada clássica de amor. Aqui e ali, descia dos andaimes da obra para disparar um tiro a esmo. Depois fazia uma fogueira e voltava sempre de mãos vazias, caçar não estava entre os talentos reais.

Também escrevia em seus aposentos, mas eram sessões mais nervosas, intermitentes. Os pajens e a rainha não ofereciam risco: o rei tomava graves apontamentos administrativos, era o que talvez imaginassem, o pajem comum e a rainha extraordinária, analfabetos ambos, se ao menos tivessem imaginação. Na cama ou no banho o rei pegava então uma folha, arriscava um verso ou uma estrofe, mas tinha que estar alerta para a irrupção inopinada de um ministro, um conselheiro, um arquiduque qualquer que, pousando os olhos na lâmina de papel em que seus dedos se crispavam, decifrassem num instante a imensidão do seu opróbrio. Era o papel que o condenava, a materialidade porosa daquela pasta vegetal seca, com seu condão de existir para além do ato, futuro adentro, posteridade afora, multiplicando por milhões as oportunidades de flagrante. Eis por que, tanto em casa como na floresta, e ainda mal nascidos, as chamas consumiam todos os poemas do rei.

Naquela tarde, absorto sobre sua escrivaninha, o rei buscava a chave de ouro de um soneto quando ouviu a voz atrás de si: “Que bonito! Vossa majestade é um grande poeta!”. Voltou-se lívido, o sangue empedrado nas veias: reconheceu um fidalgote chamado Robledo, que vinha a ser contraparente da rainha por intermédio de um tio-avô empobrecido. Recém-chegado de uma temporada boêmia em Veneza, o que fazia o jovem em seus aposentos? Lembrou-se vagamente: por instâncias de sua caridosa mulher, o chefe de cerimonial do palácio tinha acabado de empregá-lo como camareiro, lambe-botas ou coisa parecida. Estendeu-lhe a folha de papel:

“Me ajuda com o fecho, Robledinho? Empaquei.”

O fidalgote pareceu radiante. Murmurou um quem-sou-eu, mas tomou do poema com a mão direita, enquanto a esquerda se punha imediatamente a contar sílabas. O rei se ergueu da cadeira e caminhou até o quarto ao lado, de onde voltou com a espingarda carregada. Dessa vez não havia como errar.

*

O CURIOSO CASO DO PADRE SIMÃO

A dar fé ao viajante inglês William Boyd Sennett, que em 1819 teria tido diante dos olhos as memórias posteriormente perdidas do então recém-falecido bispo Antônio Simão das Neves

(e não vejo por que não lhe dar mais fé do que à arenga anticlericalista e factualmente vaga que no fim daquele século publicaria em São Paulo o anarquista Vicenzo Cucco, outra fonte habitualmente consultada pelos estudiosos da história de Simão),

a dar fé a Sennet, como eu ia dizendo, no rigoroso inverno mineiro de 1777 o então jovem padre baiano viu-se com a alma “toda em farrapos”, numa crise de fé que teria como fulcro o amor (se platônico ou carnal, nunca se pôde comprovar) por dona Maricota, esposa de um comerciante de pedras preciosas de Vila Rica chamado Olegário,

o que bem poderia configurar incidente banal ou ao menos não muito destoante das provações sensuais enfrentadas por tantos homens de batina ao longo dos séculos, porém

(ai, porém),

naquele instante demoníaco o futuro bispo se pôs a febrilmente deitar palavras ao papel em surto logorreico de todo semelhante a um transe de possessão, ao qual não faltavam olhos revirados, gemidos de dor excruciante e uma espuminha a borbulhar nas comissuras da boca,

episódio aterrador e jamais explicado pela ciência que durou (o relato do ilustre estrangeiro é preciso neste ponto) três meses, dezessete dias e nove horas, com breves intervalos para sono e alimentação, resultando nos quatro livros hoje lendários que implicariam gravemente o padre Simão com o Santo Ofício,

livros sequenciais que levavam, segundo Sennett, os títulos enigmáticos de Romanticismo, Modernismo, Post-Modernismo e Óbito da literatura

e que, se terminaram por não custar ao seu autor a morte na fogueira, tendo Simão escapado no último minuto graças a poderosos e insuspeitados pistolões, não puderam evitar as chamas eles mesmos e logo eram cinzas dispersas pelos ventos de Minas,

a que os poetas chamam postilhões de Éolo,

tudo o que restou de tais obras sendo a reminiscência fantasmal de um bispo arrependido em suas memórias de idoso, estas por sua vez também desaparecidas e conservadas apenas na lembrança de um viajante inglês, motivo pelo qual não estamos certos de haver fundamento na tese hoje sustentada por um ou dois eruditos mais trêfegos de que, tivesse aquela tetralogia de Antônio Simão das Neves sobrevivido à Inquisição,

seria inteiramente outra a história da literatura brasileira e universal.

*

Os contos acima foram publicados pela primeira vez na seção Sobrescritos deste blog, separadamente, entre abril e dezembro de 2012.

18/04/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! Os ecos de Juan Rulfo no país da Santa Muerte

juan rulfo“Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo.” Assim começa, inesquecivelmente, o único romance escrito pelo mexicano Juan Rulfo (1917-1986). Precisava mais?

“Pedro Páramo” (Record, 2004, tradução de Eric Nepomuceno), publicado em 1955, é uma obra-prima de escassas 150 páginas que projeta uma sombra gigante na paisagem da literatura latino-americana, multiplicando-se em ecos numa infinidade de outros livros – como as vozes dos mortos ecoam pelas ruas áridas das ruínas de Comala, a cidadezinha aonde chega Juan Preciado em busca de notícias do pai que não chegou a conhecer, o terrível Pedro Páramo.

Preciado segue instruções da mãe recém-falecida, que na juventude foi abandonada pelo poderoso proprietário da fazenda Media Luna pouco tempo depois de um casamento motivado por interesse financeiro. Chega tarde: Pedro Páramo também está morto. O roteiro dessa busca e a história do pai, que se confunde tragicamente com a do lugarejo, são narrados por uma multiplicidade de vozes mais ou menos incorpóreas. O clima é crescentemente onírico e o cenário, fantasmagórico sem deixar de ser muito concreto, numa mescla que talvez só pudesse existir no México, país em que a devoção à Santa Muerte, condenada pela Igreja Católica, é abraçada por milhões de pessoas.

Na cena abaixo, Juan Preciado conversa com a velha Damiana Cisneros, que trabalhou como cozinheira na Media Luna e conheceu sua mãe.

– Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso. Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão.

Isso era o que Damiana Cisneros vinha me dizendo enquanto atravessávamos a cidade.

– Teve um tempo em que andei ouvindo durante muitas noites o rumor de uma festa. Os ruídos chegavam até a Media Luna. Cheguei perto para ver aquela algaravia e vi isto: o que estamos vendo agora. Nada. Ninguém. As ruas tão solitárias como estão agora.

“Depois deixei de ouvir a festa. É que a alegria cansa. Por isso não estranhei quando aquilo terminou.

“Sim – tornou a dizer Damiana Cisneros. – Esta cidade está cheia de ecos. Eu já não me espanto. Ouço o uivo dos cães e deixo que uivem. Nos dias de brisa a gente vê o vento arrastando folhas das árvores, quando aqui, como você vê, já não há árvores. Existiram em algum tempo, porque se não tivessem existido de onde essas folhas sairiam?

“E o pior de tudo é quando você ouve as pessoas falarem, como se as vozes saíssem de alguma fenda, e ainda assim tão claras que dá para reconhecê-las. Sem tirar nem pôr, agora que eu vinha vindo, encontrei um velório. Parei para rezar um pai-nosso. E nisso estava eu, quando uma mulher se afastou das outras e veio me dizer:

“– Damiana! Roga a Deus por mim, Damiana!

“Soltou o xale e reconheci a cara da minha irmã Sixtina.

“– O que você está fazendo aqui? – perguntei a ela.

“Então ela correu para se esconder entre as outras mulheres.

“Minha irmã Sixtina, se por acaso você não sabe, morreu quando eu tinha 12 anos. Era a mais velha. E na minha casa fomos dezesseis de família, daí dá para você fazer as contas do tempo que ela está morta. E olha ela aí até agora, ainda vagando por este mundo. Por isso não se assuste se ouvir ecos mais recentes, Juan Preciado.

– A senhora também recebeu aviso de minha mãe dizendo que eu ia vir? – perguntei.

– Não. E aliás, o que foi feito da sua mãe?

– Morreu – disse.

– Já morreu? E de quê?

– Eu não soube de quê. Talvez de tristeza. Suspirava muito.

– Isso é ruim. Em cada suspiro é como se a gente se desfizesse de um sorvo de vida. Quer dizer que morreu?

– Morreu. Achei que a senhora tinha ficado sabendo.

– E por que eu haveria de saber? Faz muitos anos que não sei de nada.

– E então como é que a senhora deu comigo?

– …

– A senhora está viva, dona Damiana? Diga, Damiana!

E de repente me encontrei sozinho naquelas ruas vazias. As janelas das casas abertas ao céu, deixando aparecer os talos ressecados do capim. Paredes esfoladas que mostravam seus adobes revirados.

– Damiana! – gritei. – Damiana Cisneros!

O eco me respondeu: “…ana… neros…! …ana… neros…!”

11/04/2015

às 9:00 \ Sobrescritos, Vida literária

Literatura brasileira contemporânea, um diálogo crítico

o gordo e o magro– A literatura brasileira contemporânea é uma imensa montanha de cocô. Não produz nada que chegue aos calcanhares da potência de Machado, Rosa ou Clarice.

– Pra que ir tão longe? Vamos combinar que também não chega aos pés de Raduan ou do Rubem Fonseca dos bons tempos.

– Exato. A literatura virou um espetáculo cheio de som e fúria, mas sem sentido. A tal vida literária tem mais importância do que a arte literária propriamente dita (e impropriamente exercida). Esse circo de festivais, feiras, prêmios, traduções, viagens, oficinas, blogs, networking e o diabo cria uma ilusão de movimento e um verniz de profissionalismo, entre aspas, que encobrem a irrelevância fundamental do ofício.

– Eu diria mais: que mascaram um tédio de cemitério. Por que será assim?

– Porque tudo já foi dito, ora. Como esperar algo revolucionário ou pelo menos renovador num cenário em que os escritores são robôs teleguiados pelo mercado, aprendem meia dúzia de truques, dominam uma técnica mas não comovem ninguém, não arriscam o pescoço, não incomodam, não acessam o novo? Não têm, em suma, nada a dizer? Não admira que o público ignore esses farsantes.

– É o que eu sempre digo. A literatura brasileira contemporânea é pouco lida? Não, a literatura brasileira contemporânea é lida até demais, considerando-se sua ruindade.

– Sabe uma coisa que eu não entendo? Por que esse pessoal não para de escrever e vai fazer algo útil da vida. Por que insistem esses escritores (e todo dia surge mais um lote, meu Deus!) em ignorar meu juízo magnífico, como se eu mesmo fosse tão irrelevante quanto eles.

– E o meu também, o meu também! Ignoram completamente.

– Como isso me irrita, viu? Será que os caras esperam que eu e meus colegas, quer dizer, os dois ou três que não são bestas quadradas… hum, isso inclui você, tá?

– Obrigado.

– Será que esperam realmente que eu me dedique a ler as pilhas de livros que eles produzem, ou antes que se reproduzem feito células cancerosas em plena metástase, para buscar nesse megatumor chamado literatura brasileira as improváveis células sadias que poderiam apontar um futuro menos apocalíptico para as letras pátrias? Hahahaha!

– Hehehe. Só rindo mesmo da pretensão dos coitados. Mas essa frase aí ficou danada de bonita.

– Tomar cada livro em seus próprios termos, dizem. Eu não preciso ler nada, imbecis! Não é que eu não precise ler sem preconceitos, com olhos livres, como recomendava aquele bom samaritano do John Updike. Não é que eu não precise compreender o que cada um está dizendo em sua exasperante especificidade, cada um com suas qualidades e limitações peculiares, para só depois, evitando generalizações grosseiras e sempre provisoriamente, arriscar algumas conclusões sobre um momento de efervescência ímpar na história da literatura brasileira. Não! Tenho pena dos nossos colegas, cada vez mais numerosos, que caem nessa esparrela. Eu não caio: não preciso ler, ponto!

– Apoiado. Não precisamos ler.

– Não preciso ler pra saber o que vocês estão fazendo, seus idiotas: estão sendo previsivelmente idiotas. E ainda por cima ignorando a minha crítica.

– E a minha, e a minha!

– Sou eu que amo de verdade a Literatura, eu que me casei com essa dama ilustre (e agora estou viúvo, que dor), enquanto vocês não passam de cafetões de uma prostituta vagamente parecida com minha amada inesquecível, entenderam?

– Eu também me casei!

– Como? O que você está dizendo, cara?

– Hã, que concordo com você, ué. Estamos juntos nessa revolta.

– Juntos, um cazzo! Quem se casou com a Literatura fui eu, paspalhão. Recolha-se à sua irrelevância, seu resenhista patético de três parágrafos!

04/04/2015

às 9:00 \ Vida literária

Literatura de A a Z

Capitulares da designer Jessica Hische para uma coleção da Penguin

Capitulares da designer Jessica Hische para a coleção DropCaps da Penguin

Acorde pensando no livro.

Banhe-se pensando no livro.

Coma pensando no livro.

Durma pensando no livro.

Evite reler o resultado de um bom dia de trabalho mais de sete milhões de vezes.

Fracassou? Se fracassou melhor do que antes (crédito para o Beckett), está no caminho certo.

Guarde no fundo da gaveta os melhores elogios que receber, para esquecê-los meticulosamente no dia a dia – até precisar deles como agasalho quando vier (virá) a estação dos ventos hostis.

Hostis são aqueles ventos que uivam nos ouvidos como as sereias e que, como elas, só matam os que lhes dão ouvidos.

Ignore a dor de continuar: continue.

Já não sabe por que começou? Bem-vindo ao clube. Avance dez casas.

Kafka esteve aqui. Em frente.

Leia tudo o que lhe faltava ler da literatura universal antes do jantar, parando para cotejar edições e tomar notas nas margens.

Mapeie, por puro espírito lúdico, rotas de fuga imaginárias em direção ao silêncio, mesmo sabendo que é infinito o labirinto de palavras em que se meteu.

Negue o que afirmou antes.

Obtempere bem.

Pode ir ao dicionário agora.

Quaquaquá!

Rir será, muitas vezes, a única salvação. Lembre-se de que o mesmo vale para o leitor.

Saiba ser a síntese da soberba dos sábios siríacos com a simplicidade dos servos sandeus – mas cuidado com as aliterações!

Toque fogo no manuscrito de mil páginas que acabou de imprimir. Certifique-se de manter as chamas longe do HD.

Uive para a lua por setecentas noites.

Volte vinte mil casas.

What now?, pergunte com sotaque britânico à diáfana Virginia quando ela aparecer para o chá. (Finja não ver seus bolsos cheios de pedras.)

Xá? Eu disse “chá”, animal. Encontrar e substituir.

Yo, vocifera um sujeito parecido com o Quixote, no acepto tus órdenes, cabrón.

Zeros, zeros em profusão lançados para o alto, eis a literatura: se cairão à esquerda ou à direita de quem os atirou, não sabemos ainda. É preciso esperar, dormir, acordar, dormir. Volte à letra A.

28/03/2015

às 9:00 \ Vida literária

ATÉ LOGO

Tirei umas breves férias desta coluna – e do Sobre Palavras – para participar do Salão do Livro de Paris, que este ano teve o Brasil como país homenageado, e atender a outros compromissos de lançamento da tradução francesa de “O drible”. Sábado que vem estarei de volta com novidades. Até lá!

21/03/2015

às 9:00 \ Antologia

Que cena! O delírio de Brás Cubas

machado de assis caricatura do jovemA estreia da seção Que cena!, em maio de 2012, foi apropriadamente entregue ao maior escritor brasileiro da história: A xícara de café de “Dom Casmurro” trazia um trecho notável – caseiro, objetivo, melodramático e totalmente aterrorizante – do mais importante romance de Machado de Assis.

É justo, portanto, que seja Machado o primeiro autor a se repetir neste espaço, agora com um excerto da famosa cena do delírio do narrador em “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de 1880. Este é um naco de texto desbragado e furioso que elege o universo como palco e a história da humanidade como enredo – uma ousadia que, mesmo tendo fundo humorístico ou talvez por isso mesmo, fez a provinciana literatura brasileira amadurecer dois ou três séculos em poucos minutos.

Curiosamente, sendo diferente em tudo, tom e intenção, daquela cena realista em que Bentinho cogita assassinar o filho, o delírio de Brás Cubas também se sente à vontade acompanhado de adjetivos como “melodramático” e “aterrorizante”.

Para não poucos críticos, “Memórias póstumas…” disputa centímetro a centímetro com “Dom Casmurro” o posto de obra-prima machadiana. Pelo menos num aspecto sua primazia é indiscutível: o cronológico. Quinto romance de Machado, foi o relato da vida fútil de Brás Cubas feito por ele mesmo em tom burlesco que marcou a virada decisiva entre o romantismo convencional da juventude do autor e aquilo que os professores de português, escravos da lógica classificatória e à falta de nome melhor, chamam de “realismo” da maturidade – embora, especialmente neste livro, Machado seja tão realista quanto setecentista e pós-moderno.

(…) Caiu do ar? Destacou-se da terra? Não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio.

– Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das cousas externas.

– Não te assustes – disse ela –, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo.

– Vivo? – perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência.

– Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.

– Entendeste-me? – disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.

– Não – respondi –; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? A Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?

– Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?

– Sim; o teu olhar fascina-me.

– Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.

– Pobre minuto! – exclamou. – Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

– Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu? E, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

– Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma cousa única. Imagina tu leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das cousas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação, mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias –, desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. (…)

 

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