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17/04/2014

às 18:32 \ Pelo mundo

Gabo (1927-2014): o legado complexo de um gênio

García Márquez: escritor consagrado, intelectual público polêmico (Yuri Cortez/AFP)

García Márquez: escritor consagrado, intelectual público polêmico (Yuri Cortez/AFP)

A reputação literária do colombiano Gabriel García Márquez, que morreu hoje na Cidade do México, aos 87 anos, está estabelecida faz tempo. Sua cotação na Bolsa de Valores Literários deverá sofrer oscilações no futuro, como a de qualquer escritor que não seja simplesmente esquecido, mas poucas vozes devem se dar ao ao trabalho de lamentar, por exemplo, seu “folclorismo e exotismo realmente desnecessários” como fez o exilado cubano Guillermo Cabrera Infante, um desafeto político morto em 2005. “Cem anos de solidão” é um monumento cravado na história da literatura, ponto. Como seus três ou quatro principais livros depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob os pés do escritor parece firme. No caso de Gabo, como o chamavam os amigos próximos (e os jornalistas de qualquer distância), a reputação que falta fixar é a do homem público, a do “político” – papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982.

Foi essa frente política – ou seriam fundos? – que a crítica internacional atacou com maior apetite na notável biografia autorizada que o inglês Gerald Martin publicou em 2009, após 17 anos de trabalho, lançada no ano seguinte no Brasil: “Gabriel García Márquez: uma vida” (Ediouro, tradução de Cordélia Magalhães). Não adianta dizer que o homem político interessa pouco, que só se deve julgar um escritor por sua obra: García Márquez se impôs no papel não só por sua estética “terceiro-mundista”, influenciadora de gerações de escritores ditos pós-coloniais, mas sobretudo por uma atuação pública de esquerda que sobreviveu à própria ideia de esquerda. Como separar vida e obra de quem prometeu em 1975, após lançar “O outono do patriarca”, que não voltaria a escrever romances enquanto o ditador chileno Augusto Pinochet estivesse no poder – promessa felizmente descumprida?

O calcanhar-de-aquiles mirado preferencialmente pelos críticos tem barba rala e um gosto por uniformes de campanha. Admirador de primeira hora de Fidel Castro e seu amigo desde meados dos anos 1970, o escritor ilustre veio a se tornar também seu maior avalista internacional – disparado – à medida que os novos ares políticos do mundo foram convertendo o ex-líder revolucionário romântico num dinossauro político. Essa amizade custou caro ao conceito de Gabo em certos círculos. Sem esconder sua condição de fã, Gerald Martin encarou o tema de frente, mas mesmo assim levou cascudos da maioria dos críticos por se abster de julgar seu personagem. De fato, o biógrafo jamais se declara contrário a um apoio polêmico que não foi retirado nem quando, no episódio do fuzilamento de presos políticos cubanos em 1989 – entre eles um amigo de Gabo, o general Arnaldo Ochoa –, o mundo intelectual desabou em cima do escritor, Susan Sontag incluída. O ex-amigo e depois inimigo do peito Mario Vargas Llosa lhe deu um cruel apelido, que pegou: “Lacaio de Fidel”. Natural: será sempre alto – e justo – o preço pago por um artista de peso ao endossar um regime ditatorial que passa sentenças de morte por crimes de opinião. Isso não quer dizer que não haja um tipo de coerência na posição de Gabo.

A imagem de García Márquez como intelectual público que emerge de sua biografia é infinitamente mais complicada que a do escritor consagrado: muitas vezes indefensável e maculada por doses maciças de vaidade e fascínio pelo poder, mas ao mesmo tempo corajosa e com traços de ingenuidade – um escritor, talvez o último de sua linhagem, que sonhou influenciar os rumos da humanidade para além dos livros. Basta levar em conta um mínimo de contexto histórico e cultural para deixar evidente o ranço imperialista da resenha sobre o livro de Martin que o escritor Paul Berman publicou no jornal “The New York Times”: “Por que García Márquez escolheu travar tal amizade [com Fidel] é algo que eu não consigo explicar”. Quando tenta, Berman só consegue dizer que o escritor “sempre foi fascinado pelo grotesco, pelo patético e pelo improvável.” A explicação é outra, claro. Do ponto de vista do escritor colombiano, Fidel foi o maior nome da política latino-americana no século XX, líder de uma revolução que, na esteira do bloqueio americano, passou por dificuldades, endurecimentos e erros, mas nada que lhe tirasse o mérito original da autoafirmação de um continente marcado por séculos de servilismo. Isso é García Márquez puro.

Não se trata de defender sua posição, mas de compreendê-la. Quando narra o famoso caso em que o escritor atuou como guarda-costas de Fidel em visita à Colômbia, em 1994, seu biógrafo não foge da informação e ainda acrescenta ao quadro um detalhe fundamental: ao se prontificar a tomar um tiro no lugar do amigo, o que Gabo expunha, mais do que lealdade cega, era o orgulho de quem se considerava inatingível em sua posição de herói popular – ora, que colombiano arriscaria lhe fazer mal? Com exceção dos trechos em que enaltece os méritos literários do biografado, Martin é um narrador sóbrio, embora nunca menos que gentil com seu personagem. Sóbrio a ponto de, quem sabe a despeito de si mesmo, terminar por ser imparcial. Quando García Márquez brincou que “todo escritor deve ter um biógrafo inglês”, talvez não captasse todo o alcance da frase.

Mais embaraçosa sob certos aspectos era sua amizade festiva com Omar Torrijos, ditador populista do Panamá, também detalhada no livro. Desse quebra-cabeça político desponta um García Márquez que, como sua prosa, é mais colorido e barroco do que reto, embora tenda a ser de uma lealdade quase mafiosa a seus amigos – veja-se o modo como se aferrou a Fidel em seus tempos mais difíceis, no momento em que a maré do mundo virava com a ascensão de João Paulo II, Margaret Thatcher, Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev. A defesa politicamente incorreta que fez de seu também amigo Bill Clinton no episódio Monica Lewinsky é mais uma confirmação desse estilo. Personalista e não programático, Gabo cultivou ainda as boas graças dos esquerdistas moderados François Miterrand e Felipe González – e apoiou até um candidato conservador à presidência da Colômbia, Andrés Pastrana. Em compensação, nunca gostou de Hugo Chávez, apesar de compartilharem o antiamericanismo. A vaidade transoceânica era a face menos favorável do baixinho Gabo. Fica óbvio o prazer que ele sentia no papel de mediador universal: o escritor no labirinto de sua própria influência, sob o peso de uma fama achachapante, brincando de resolver os problemas do mundo.

Esta é a segunda metade da biografia, pós-sucesso e sobretudo pós-Nobel. A primeira, que se lê como um conto de fadas, destrincha a intrincada árvore genealógica que García Márquez se dedicou a espelhar e deformar em suas histórias e o segue passo a passo, quase dia a dia, por meio de uma apuração de rigor maníaco: os primeiros anos de menino praticamente abandonado por pai e mãe, a adolescência entre prostitutas, o horizonte curto de um rapaz pobre perdido na zona bananeira da Colômbia que de repente ganhou uma bolsa de estudos salvadora, virou jornalista e casou-se com seu amor de infância, a discreta Mercedes, com quem teve filhos, correu o mundo e passou por situações de extrema penúria. Até que, em 1967, como se fosse uma pedra filosofal levada a Macondo pelo cigano Melquíades, “Cem anos de solidão” transformou a abóbora em carruagem de ouro.

Uma boa ideia do que foi o impacto desse livro pode ser alcançada imaginando-se uma fusão absurda: a de um Charles Dickens moderno com Harry Potter para adultos, temperada por um Jorge Luis Borges que vendesse horrores. Algo que todo mundo era obrigado a ler, que entusiasmava tanto a telefonista do escritório quanto o pós-doutor de Harvard. Nenhum escritor de meio século para cá, talvez mais, chegou perto de operar a mágica desse casamento de alta cultura e cultura de massa com a eficiência e a genialidade de Gabriel García Márquez.

O texto acima é a atualização de um artigo que publiquei na revista “Bravo” em 2010.

12/04/2014

às 9:00 \ Vida literária

Da arte de procurar no lugar errado

philip rothNas entrevistas que tenho dado sobre “O drible”, meu romance mais recente, é comum que me perguntem – em geral de modo positivo, com admiração – sobre como cheguei à tese de que o estilo brasileiro de jogar futebol só se tornou o que é devido à ajuda involuntária dos velhos narradores de rádio, que com sua mania de embelezar exageradamente os jogos, fazendo “qualquer pelada chinfrim disputada em câmera lenta por perebas com barriga d’água” parecer “cheia de som e fúria”, obrigaram os atletas a fazer “um esforço sobre-humano” em campo para ficar à altura de suas mentiras.

Não é tão simples responder a essa pergunta. Em primeiro lugar a tese não é minha: quem a expõe com entusiasmo, “parecendo satisfeito consigo mesmo”, é Murilo Filho, um dos personagens principais de “O drible”. Murilo é um velho e famoso cronista esportivo que, à beira da morte, busca se reaproximar de seu único filho, Neto, com quem brigou há um quarto de século. Trata-se de um excêntrico que Neto suspeita estar gagá e, mais do que isso, um personagem de princípios morais duvidosos (digamos assim, para evitar spoilers). Duvido que algum autor se sentisse confortável de escalar tal figura como porta-voz de suas ideias.

Isso não quer dizer que eu renegue a argumentação de Murilo. Acho a tese do “fermento radiofônico da mentira” engenhosa e divertida. Chego a compartilhar de modo vicário da satisfação do velho cronista com sua autoria. É só. Não sei se chego a considerá-la propriamente plausível e certamente não a sustentaria num texto ensaístico, que exige uma maior responsabilidade intelectual do autor. Ocorre que “O drible” não é um ensaio, é um romance. Alguma irresponsabilidade intelectual – a disposição de correr riscos enormes, saltar de um pensamento a outro sem rede de proteção, em busca de uma compreensão epifânica e totalizante do fenômeno futebolístico e do próprio país – vem a ser um traço fundamental do personagem.

Então vamos ver: autor é autor, personagem é personagem, e um não tem nada a ver com o outro, certo? Errado outra vez. O que torna mais difícil a resposta a quem me pergunta sobre a tese de Murilo Filho como se ela fosse minha – e a todos os que, o tempo todo, se dedicam a buscar nas narrativas inventadas pistas sobre a vida e a cabeça do autor – é o fato de que ela é minha mesmo, mas apenas na medida em que foi fabricada como peça a ser encaixada na máquina de sentido da ficção. Uma peça que, em si, não tem verdade ou valor. A verdade e o valor de um romance, se existirem, não estão nas “ideias” que o autor atribui aos personagens nem em possíveis lances de inspiração autobiográfica ou em suas convicções pessoais de cidadão. Estão cifradas no desenho ficcional como um todo. Moram na linguagem.

Tudo isso me ocorreu lendo “A voz em off”, notável artigo de Emilio Fraia em sua coluna no blog da Companhia das Letras. A mais recente das finas reflexões sobre a arte literária que o autor vem publicando mensalmente naquele espaço cita uma entrevista recente de Philip Roth (foto) a um jornal sueco. Frequentemente atacado por quem aponta o machismo rampante de seus personagens (mesmo quando tudo o que tal postura lhes rende é infelicidade), o escritor americano diz o seguinte:

Qualquer um que procure pelo pensamento do autor nas palavras e pensamentos dos seus personagens está procurando no lugar errado. Procurar pelos “pensamentos” de um autor é violar a riqueza da mistura que é a característica mais essencial de um romance. O pensamento mais importante de um romancista é o pensamento que faz dele um romancista. O pensamento do romancista não está nos comentários feitos pelos seus personagens ou mesmo na sua introspecção, mas sim nas situações que ele inventa para os seus personagens, na justaposição desses personagens e nas ramificações realistas do conjunto que ele cria (…) A ferramenta com a qual o romancista pensa é a escrupulosidade do seu estilo. Em todas essas coisas está concentrada a magnitude que seu pensamento pode alcançar. O romance, então, é, em si mesmo, seu mundo mental. Um romancista não é uma pequena parte na grande engrenagem do pensamento humano. Ele é uma pequena parte na grande engrenagem da chamada literatura de ficção. Fim.

Fim, pois é. Difícil ser mais categórico. Isso não significa supor que, uma vez compreendido o argumento, nós, leitores, vamos parar de procurar o sentido de um romance “no lugar errado”. Não vamos. Desconfio que, mais do que a pressa dos entrevistadores ou a busca de simplificar o complexo que está no cerne do jornalismo, o que incomoda Roth seja uma medida de mal-entendido inseparável da leitura de ficção. Onde está o sentido, afinal? Está, não está: muitas vezes o drible termina com uma botinada do zagueiro. O jogo é perigoso mesmo. E vamos em frente.

05/04/2014

às 15:50 \ Resenha

‘O professor’: ensaio sobre a queda

o professor de tezzaNinguém pode acusar Cristovão Tezza de cair nas armadilhas populistas do sucesso. Com o romance autobiográfico “O filho eterno”, de 2007, o escritor paranaense nascido em Santa Catarina – até então considerado um nome “difícil”, do tipo que a crítica elogia e a grande massa leitora evita – explodiu.

Relato sensível mas inclemente das agruras de um pai para aceitar seu filho com síndrome de Down, o livro pulou o cercadinho onde se reúnem em gueto os poucos milhares de consumidores da literatura brasileira dita séria: virou best-seller, mas sem abrir mão do prestígio crítico que o levou a ganhar todos os prêmios literários mais importantes do país, proeza rara numa sociedade precariamente letrada e que se habituou a ver a lista dos romances mais vendidos loteada por sobrenomes como Green e Brown.

Quem passou a esperar de Tezza o golpe baixo do “novo ‘O filho eterno’”, porém, tem se decepcionado desde então. Ainda bem.

“O professor” (Record; 240 páginas; 32 reais) eleva a aposta do autor em sua literatura realista, historicamente enraizada, mas antinaturalista e rigorosa. Consciente da insuficiência irremediável da própria linguagem que lhe dá corpo, a prosa do romance parece querer desdobrar uma frase de “O espírito da prosa”, defesa ensaística da ficção realista que Tezza lançou em 2012:

Fazer um personagem se levantar da poltrona, dar cinco passos inseguros através de uma sala na penumbra, e, com medo, abrir uma porta, não é jamais um trabalho simples.

No presente da narração, é pouco mais do que isso que faz o catedrático de filologia românica Heliseu da Motta e Silva, 70 anos, viúvo e solitário, na manhã em que acorda, toma café, entra no chuveiro e se veste para ir à universidade, onde receberá a homenagem dos colegas por uma “carreira exemplar”.

Nesse breve período, enquanto tenta matutar um discurso de agradecimento, Heliseu puxa da memória uma série de fios: a morte da mãe e a suspeita de que o pai a tenha matado; o casamento infeliz com Mônica; a relação ruim com o filho gay; a paixão por sua orientanda Therèze; a hostilidade dos colegas num meio acadêmico medíocre; o amor pela formação do português medieval e em especial pela “queda das consoantes intervocálicas”, processo que transformou, por exemplo, luna em “lua”.

Referências ao passado recente do Brasil e do mundo desenham uma moldura histórica que chega a ser brutalmente atual (a presidente Dilma Rousseff, definida como “um bloco de anacolutos”, é acusada pelo professor de comandar o “pior governo brasileiro dos últimos 30 anos”) e contrasta com a inatualidade que Heliseu carrega até no nome.

Com esses fios, cada vez menos desconexos, Tezza tece com vagar, sutileza e precisão uma tapeçaria cheia de desalento sobre o tema recorrente da queda – a das consoantes, a de diversos personagens e a do próprio país. Ao fim da leitura é difícil resistir ao trocadilho com o título: um livro de mestre.

*

Resenha publicada na edição de VEJA que está nas bancas.

29/03/2014

às 9:00 \ Vida literária

Respostas grosseiras para perguntas idiotas

chuck_wendig200Eu nunca tinha ouvido falar de Chuck Wendig (foto). Fui parar em seu blog, Terrible Minds, atraído pela chamada de um post que cruzou meu caminho no Twitter: Stupid answers to common writing questions, “Respostas grosseiras para perguntas literárias comuns”. Bom, encontrei lá o que o título anunciava e um pouco mais.

Descobri que Wendig, escritor americano de fantasia com uma carreira sólida como romancista, roteirista e designer de games, autor de livros como Blackbirds e Double Dead, conseguiu fazer uma crítica feroz – e às vezes hilariante – de uma certa mentalidade de autoajuda e de um certo visgo corporativo que vêm se infiltrando há anos, traiçoeiramente, no mundo florescente do aconselhamento literário.

Como este blog sempre teve um pé em tal mundo, até por exigência dos leitores, recomendo a leitura da diatribe desbocada do sujeito. Concordo com quase tudo o que ele diz. “O monge e o escritor” não tem vez aqui.

Quem puder deve ler o post completo (em inglês). Abaixo, na forma de filezinho aperitivo e em tradução caseira, alguns destaques:

Como eu faço para escrever?

Eu não sei como você faz para escrever. Eu sei como eu faço para escrever. E o que eu faço é enfileirar um punhado de palavras e juntá-las em frases, depois eu junto as frases em parágrafos e empacoto os parágrafos em páginas, páginas em capítulos, capítulos numa história completa. (…) Faço isso pouco a pouco, todos os dias, até terminar, e mesmo quando termino não cheguei ainda a terminar, porque escrever é reescrever é reescrever…

Como eu encontro tempo para escrever?

Você não encontra tempo para escrever. Você faz esse tempo. Você o rouba das mandíbulas de seja qual for a besta temporal que tenha seus minutos e suas horas entre os dentes arreganhados.

Quanto tempo eu devo levar escrevendo meu livro?

Costuma levar algo entre uma hora e uma era glacial. Caramba, eu sei lá. Cada livro tem seu próprio relógio. Sim, eu sei, esta é uma resposta idiota e óbvia, mas é a única resposta possível.

Como eu faço o marketing do meu livro?

Não tenho a menor ideia. Escritores devem ser bons de escrita, não de marketing. Eu não fui treinado nessa disciplina. Acho que perguntar a um escritor como fazer marketing é como lhe perguntar como plantar vagem ou desmontar um chimpanzé mecânico descontrolado.

Como eu construo minha marca?

Você, bem, quer dizer – ah, por misericórdia, não! Bleh. Blargh. Uoashh. E outros ruídos nojentos. Eu tenho um número circense inteiro sobre marcas, que você certamente já viu antes, mas vou apresentá-lo mais uma vez. É o seguinte: uma marca é aquilo que se põe na vaca para assinalar propriedade. (…) Quem quer ler um livro escrito por uma marca? (…) Seja uma pessoa. Encontre sua voz. Deixe sua voz ser aquilo que o identifica. Resista à criação de uma marca e a outros rótulos corporativos ou gerenciais. Seja a melhor versão de você que puder ser. E escreva a porcaria do melhor livro que puder escrever.

Quais são as tendências mais quentes do momento?

Eu não sei, porque não ligo para isso, e você também não deveria ligar. Mais uma vez: este é provavelmente um mau conselho do ponto de vista dos negócios, mas é um excelente conselho criativo. Danem-se as tendências.

22/03/2014

às 9:00 \ Antologia

O que Machado viu primeiro

machadoEm 1881, Machado de Assis publicou na “Gazeta de Notícias” um conto extraordinário chamado Teoria do medalhão, que republicou um ano depois no livro “Papéis avulsos”. Trata-se de um diálogo puro, isto é, sem interferência do narrador, em que um pai zeloso, terminado o jantar em que se comemorou o vigésimo primeiro aniversário de seu filho Janjão, puxa-o de lado para lhe dar conselhos.

O plano do sujeito é transformar o rapagão naquilo que ele mesmo não conseguiu ser, isto é, um “medalhão”, personagem tão venerável quanto oco, capaz de enraizar sua proeminência social na absoluta ausência de ideias originais e determinado a só enfrentar os problemas reais do mundo pela via da platitude, da frase feita, daquilo que dê uma aparência de solução para o que na essência deve permanecer imutável.

A ironia do conto é um pouco mais escancarada do que o habitual em Machado. A “inópia [indigência] mental” que o pai detecta em Janjão assume a forma de elogio, claro, pois é indispensável ao bom medalhão, mas o leitor aprende depressa a inverter todos os sinais do que diz o canalhão.

Num extremo metalinguístico brilhante, o autor leva o pai a proibir expressamente ao rapaz o uso da mesma ironia que encharca o conto, por se tratar, segundo ele, de um recurso retórico “inventado por algum grego da decadência”. Recomenda trocá-lo por “nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca”.

Como é próprio das boas peças de ironia, o riso despertado por Teoria do medalhão é do tipo que machuca. Embora o tal pai não recomende abertamente a roubalheira e o vale-tudo, tenho me lembrado de sua cara-de-pau ao pensar em nossos estádios inacabados, nossos aeroportos indigentes, nossas estatísticas manipuladas, nossa crescente barbárie urbana, nossos discursos oficiais de um otimismo tão falso quanto canhestro.

Como poderia dizer aquele pai: para que ter o trabalho de organizar direito uma Copa do Mundo substantiva, nua e crua, se podemos nos deleitar com a glória adjetiva e metafísica da “Copa das Copas”?

Difícil não ver no medalhão machadiano, mais do que um representante da elite brasileira tipicamente bacharelesca, pomposa, covarde e ridícula do Império, um protótipo da elite brasileira de qualquer época. Abaixo, alguns dos melhores (piores) conselhos do pai:

Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente (…).

Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa (…). Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança.

Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco.

Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das ideias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim.

Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos. (…) De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações (…). Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso arranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes!

Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. Que D. Quixote solicite os favores dela mediante ações heroicas ou custosas é um sestro próprio desse ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um ‘Tratado científico da criação dos carneiros’, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus condidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo.

Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desadjetivados, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o ‘odorífero’ das flores, o ‘anilado’ dos céus, o ‘prestimoso’ dos cidadãos, o ‘noticioso’ e ‘suculento’ dos relatórios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.

Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou convervador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma ideia especial a esses vocábulos (…). Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade. (…) Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.

Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o ‘Príncipe’ de Machiavelli. Vamos dormir.

Assim termina o conto: com um convite ao sono. Mais de um século depois, já passou da hora de acordar.

01/03/2014

às 10:58 \ Posts

ATÉ BREVE!

O colunista está de férias. O Todoprosa volta a ser atualizado no dia 22 de março. Até lá.

22/02/2014

às 9:00 \ Resenha

‘Limonov’: quando o romance não cabe na ficção

O livro...

O livro…

...e o personagem

…e o personagem

O que é um personagem? Vamos aproveitar o espírito questionador para ir mais longe: o que é um romance? O leitor não precisa formular para si mesmo essas perguntas cabeçudas enquanto atravessa “Limonov”, do francês Emmanuel Carrère (Alfaguara, tradução de André Telles, 344 páginas, R$ 44,90).

Dificilmente terá tempo para isso, aliás: o premiado livro que romanceia a biografia do escritor, aventureiro e político russo Eduard Limonov, lançado em 2011 por Carrère, um dos principais nomes da literatura francesa contemporânea, é daqueles em que as páginas parecem virar sozinhas, movidas pelo puro prazer da leitura. Mesmo assim, as perguntas ali de cima estarão à espreita por trás das palavras.

Lançado no Brasil no fim do ano passado e recebido com frieza imperdoável, “Limonov” conta a história de um personagem que dificilmente caberia numa obra ficcional, um russo alucinado que é a melhor prova do acerto daquela tirada de Mark Twain: “Por que a verdade não seria mais estranha do que a ficção? A ficção, afinal, tem que fazer sentido”.

Se um bom personagem fictício deve ser redondo, segundo uma imagem (do inglês E.M. Forster) que pegou, Limonov é um meteorito cambiante e cheio de arestas. Que machucam. Famoso em seu país e praticamente desconhecido fora dele, nasceu num cafundó da URSS no tempo de Stálin e logo se pôs a enfileirar papéis meio incongruentes: poeta dissidente nos primeiros anos da era Brejnev, mendigo e homossexual (com preferência por negros) na Nova York dos anos 1970, mordomo de um milionário na mesma cidade e na mesma época, escritor maldito da moda em Paris nos 80, soldado voluntário pró-Sérvia na guerra dos Bálcãs, ídolo contracultural e líder de um partido de inclinações fascistas, o Partido Nacional-Bolchevique, na Rússia pós-soviética.

Temperamento artístico e militarismo, inteligência aguda e estupidez, sofisticação e grossura, grandeza e ignomínia, nada disso lhe é alheio. Cabe tudo ali, na montanha-russa inverossímil de uma vida cheia de aventuras que ainda não terminou: justamente hoje, 22 de fevereiro (coincidência curiosa que acabo de constatar), Limonov está completando 71 anos e segue na oposição a Vladimir Putin, entre uma temporada e outra na cadeia.

O sujeito é tresloucado até para os padrões russos e, no esquema de Twain, não faz muito sentido. Por isso mesmo – eis a grande sacada de Carrère – acaba fazendo todo o sentido como retrato das transformações que viraram seu país do avesso e de pernas para o ar nas últimas décadas. O autor, que tem antepassados russos, é claramente fascinado pelo personagem, mas ao fascínio se mistura o horror. Carrère não hesita em se deixar ver no quadro que pinta, como Velázquez em “As meninas”.

O episódio em que Limonov, diante da câmera de um cinegrafista, se põe a atirar na direção de passantes nas ruas de Sarajevo, conta o autor, “me esfriou a ponto de eu abandonar este livro por mais de um ano”. Outras vezes o uso da primeira pessoa cumpre a função de contrastar as ultrajantes opções políticas, estéticas e existenciais do personagem com as do próprio narrador, mais moderadas – tão moderadas que caracterizam covardia?

Os momentos de exposição do autor nada têm da autoindulgência e da autocomiseração que assolam com frequência a chamada “autoficção”. Embora tenha nas mãos um personagem com traços vilanescos, Carrère nunca se escala no papel de mocinho. É pelo menos tão cruel consigo mesmo quanto com Limonov. Talvez mais.

Como o Javier Cercas de “Soldados de Salamina” e “Anatomia de um instante”, Carrère emprega um amplo leque de técnicas romanescas para refletir sobre eventos históricos, mas sem transformar a “realidade” em fetiche. Pelo contrário: os fatos são problemas, construções precárias que a narrativa investiga em busca do sentido mais pleno possível: histórico, político, humano, emocional. Nunca chega lá, mas vale a viagem.

O próprio autor, citando Truman Capote, define “Limonov” como um “romance de não-ficção”. O livro é mais do que isso, porém. Se os assassinatos que estão no coração de “A sangue frio” – título para o qual o autor americano cunhou a expressão – tivessem ocorrido apenas em sua imaginação, o romance perderia impacto mercadológico, mas literariamente ficaria em pé do mesmo jeito.

“Limonov”, não. Caso fosse ficção, seria um romance desconexo, forçado, risível. A não-ficção aqui não se limita ao tema, habita cada fibra do texto, e sem ela seria simplesmente impossível dizer o que o livro diz. Ainda assim é sem dúvida um romance, gênero onívoro que alguns críticos gostam de declarar moribundo, mas que obras notáveis como esta sugerem estar apenas atravessando mais uma etapa de sua permanente crise de crescimento.

15/02/2014

às 9:00 \ Vida literária

Amanhã eu escrevo: da arte de procrastinar

procrastinate“Por que escritores são os maiores procrastinadores” é o título de um artigo da revista The Atlantic (aqui, em inglês) em que a autora, Megan McArdle, não prova o que diz. Permanece uma questão aberta se os profissionais da palavra escrita são realmente mais afeitos a adiar o trabalho – e depois adiar mais um pouco, e ainda outro tanto e mais outro – do que os representantes de outras categorias profissionais. Superlativo à parte, suspeito que quase todo mundo que escreve ou gostaria de escrever já tenha se deparado com o problema. Eu certamente já, e foi isso que me levou a continuar lendo o tal artigo, apesar do título bombástico. Quem sabe a autora revelaria uma fórmula mágica para acabar com a procrastinação?

Acredito ser inegável: grande parte dos escritores canaliza pelo menos metade de seus poderes de fabulação para a manufatura de desculpas que expliquem para si e para os outros por que não está escrevendo naquele momento: “Agora não, daqui a pouco sem falta, mas agora não. Primeiro preciso limpar a mesa do escritório. Responder àqueles emails. Levar o cachorro pra passear. Deixar meu pitaco inestimável naquela polêmica facebookiana sobre os prós e contras de sediar a Copa do Mundo no Brasil. Procurar no YouTube aquele vídeo do bebê punk. Ih, chegaram mais emails. Hoje não dá mais, amanhã sem falta, hoje não. Puxa, amanhã tenho médico e depois vou cortar o cabelo, saco, também não vai dar. Semana que vem me aguardem, da semana que vem não passa”. Soa familiar?

Talvez um estudo rigoroso revelasse que escritores são jogadores de várzea da procrastinação perto, digamos, dos parlamentares brasileiros, para citar uma categoria profissional aleatória. Como o que está em jogo não é o troféu da modalidade, pouco importa. O relevante no artigo é a especulação de McArdle sobre as razões desse pendor dos escritores pelo adiamento crônico – um pendor que pode ser doentio, culpado e torturante, mas nem por isso costuma ser totalmente desprovido de um prazer perverso. Resumindo sua teoria: o que está por trás da procrastinação é o medo do fracasso.

A lógica da articulista é que, enquanto a página está em branco, a felicidade autoral é não apenas possível, mas barata. Habitando platonicamente a cabeça ou a alma do escritor, mesmo que na forma de um projeto vago, confuso, a obra sempre pode ser vista como um atestado em potencial de seu magnífico talento. No mínimo pode ser vista assim pelo próprio autor – e em alguns casos, se o marketing for bem feito, também por pessoas à sua volta. Escrever é trocar o potencial acachapante do poema, ensaio, conto ou trecho de romance por sua realidade inevitavelmente mais modesta. Adiar o máximo possível o momento dessa troca será sempre uma perspectiva sedutora.

Que existe um fundo de verdade na argumentação de McArdle é evidente. Mesmo assim fiquei pensando: será que o medo do fracasso explica tudo? Não creio. Parece haver também em tal raciocínio uma dose de menosprezo aos escritores, pintados como criaturas indefesas diante do próprio ego, incapazes de preservar sua autoestima sem o recurso à trapaça bartlebyana do não escrever. Está bem, talvez o medo do fracasso dê conta da procrastinação nos estágios mais verdes de uma carreira literária. Como explicar, porém, que a tentação do adiamento continue a acossar escritores experientes, testados?

Atenção: não estou dizendo que, no caso destes, o ato de escrever deixe de representar aquela troca desvantajosa ali de cima, do potencial magnífico da obra inexistente por sua realidade inevitavelmente mais modesta. De jeito nenhum. A diferença é que, depois de algum tempo, isso deixa de meter medo. Com um pouco de sorte, nosso autor outrora assustadiço chega então a um estágio mais sereno – ou não, mas com certeza menos medroso – em que compreende que só há um jeito de tentar se aproximar daquela promessa exuberante e frustrada: continuar escrevendo, escrever mais, escrever de novo, nunca desistir. Entender que o fracasso não é o fim da picada, mas parte necessária do caminho. A concretização de seu ideal platônico de autor não veio num golpe só? Paciência. Que venha pouco a pouco, à custa de muito trabalho.

É nesse momento que o cara vira escritor de verdade. E mesmo assim, embora tenha se livrado do medo, é bastante provável que nunca se livre por completo da procrastinação. Por quê? Acredito que a resposta, que não está no artigo de Megan McArdle, seja a mais banal das verdades: porque dá um trabalho danado, ora. Porque boa parte do tempo escrever é mais chato do que atender ligação de telemarketing. Porque há momentos de desespero em que o sujeito arranca literalmente os cabelos, quando os tem, desejando do fundo da alma que tivesse escolhido a profissão de catador de lixo enquanto era tempo. Ainda assim é um trabalho que precisa ser feito, claro.

Do mês que vem não passa.

08/02/2014

às 9:00 \ Antologia

Todos os conselhos literários fundamentais

I

Odeie o conforto. Se estiver concentrado demais na história que está escrevendo, ligue a TV, entre num bate-papo virtual. Caso as palavras continuem a lhe jorrar dos dedos, ponha uma música, desligue o ar condicionado, abra a janela para o berreiro de freios, buzinas e motores. Sinta-se incomodado: retarde ao limite do desastre – ou mesmo, havendo disposição e necessidade para tanto, além dele – a hora de ir ao banheiro. Morra de sede, chegue a passar fome. Brigue com a sua mãe. Mande confeccionar para sua cadeira de escritório XTZO-3000 (com amortecedor inteligente) um magnífico assento de tachinhas medievais. Boicote-se: se escrever umas tantas páginas-telas que lhe agradem em particular, dê um jeito de perdê-las, negando-se como um tonto a salvar o arquivo ao fechá-lo. E então esprema a memória para reproduzi-las igualzinho, vírgula a vírgula, exceto por uma palavra que já não achará mais e cuja ausência, se tudo der certo, vai torturá-lo por horas e horas de trabalho ou trabalho nenhum, pois não se pode chamar de trabalho o tumulto de pensamento que o tomará então, o céu a estridular como se fosse partir ao meio e o computador berrando mais do que a cidade e a TV juntas jamais sonharam berrar. Nesse momento, se as instruções tiverem sido seguidas corretamente, a linguagem estará passando por você depressa demais para ser captada, zunindo, turbilhão de luz no hiperespaço. Você terá se infiltrado, como um espião ou um vírus, no coração da máquina que move um mundo de palavras sem tempo de fazer sentido. É horrível. Avance a mão, colha uma ao léu, e então comece.

II

Nunca aceite conselhos, com exceção deste: nunca aceite conselhos. A abertura da exceção destina-se a evitar um curto-circuito lógico que precipitaria o pensamento em abismos semelhantes ao do célebre “paradoxo do mentiroso” de Epimênides ou Eubulides, aquele que diz: “Estou mentindo agora”. Caso aceite este conselho, você vai descobrir que ter aberto tal exceção equivalerá a reconhecer – questão de honestidade intelectual – o princípio de que conselhos podem ser úteis e que, sendo assim, a determinação de nunca aceitá-los é uma estupidez. Um caminho que parece menos traumático é recusar o conselho de nunca aceitar conselhos e permanecer livre para aceitar os conselhos que quiser, repudiando os demais. No entanto, a arbitrariedade dessa discriminação, confundindo-lhe a alma, tenderá a encaminhá-lo para a aceitação do conselho bom ao lado do ruim, qualquer um, na verdade, menos este, o de nunca aceitar conselhos. Aceite todos, portanto, inclusive este, eis o que seria meu principal conselho, se eu não estivesse mentindo agora.

III

Esqueça o famoso conselho: um escritor não precisa escrever sobre o que “conhece bem”. Quase todo mundo, ao escrever sobre o que conhece bem, produz platitudes que o leitor também conhece bem, antes mesmo de ler. Invente, se der na veneta, um mundo pré-colombiano inteiro, mapas e tudo, com nórdicos e ibéricos que a história não registrou se imiscuindo entre os incas, onde uma princesa chamada Aya, cujo amor pelo louro Thür foi condenado por seu pai, o imperador Tapa-Quichuchu, entra nua e magnífica numa banheira de enguias elétricas enquanto na rua o povo comemora a chegada de um novo ciclo lunar fornicando desavergonhadamente pelos cantos, ao som de trompas de chifre e tambores de lhama. Então, no meio daquela zorra, pare um minuto e dê a alguém, um personagem qualquer, um traço seu: a dor de cabeça da noite passada, por exemplo. Um jeito de andar ou falar. Em histórias menos épicas, pode ser a preferência por uma marca de cerveja. Basta: essa gota de verdade pessoal, essa mísera pincelada no formidável painel, num fenômeno alquímico ainda pouco elucidado, torna de repente lancinante o suicídio da bela Aya, imprescindíveis as enguias, trompas, bacanal, América pré-colombiana de araque ou o que quer que se urda com razoável esmero e que por obra daquele detalhe pífio, daquela gota de experiência, vibra agora tão vivo quanto a vida que temos diante do nariz, só que mais excitante. Ou pelo menos é nesse sentido que você encaminha suas preces.

IV

Busque no ritmo das pedrinhas portuguesas a exata ondulação de um capítulo. Abra o dicionário ao acaso para encontrar o adjetivo preciso. Conte o número de carros azuis que avista da janela no prazo de cinco horas para decidir quantas vezes um personagem deprimido tenta se matar antes de ter sucesso. Desventre croissants para estudar camadas de sentido. Aposte contra a máquina no futebol do Playstation o destino – ganhou, apogeu, Fitzgerald; perdeu, decadência, Faulkner – de um protagonista ególatra, seja astro do rock ou imperador da borracha na Manaus do século XIX. Estude doutamente a borra do café, procure ancestrais desígnios pétreos nas dobras do lençol pós-insônia, contemple o ar invisível, sonde as próprias fezes. Faça cada dia de chuva puxar uma pétala do malmequer, e assim, passados sete meses, decida o desenlace romântico de herói e mocinha. Para questões de estilo, prefira roletas e dados.

V

Não precisa ser a primeira preocupação do escritor ao se sentar diante do suporte físico ou etéreo em que gravará suas palavras, mas em algum momento do processo é recomendável que ele tenha em mente a questão do texto que se fagocita contra o texto que se degusta aos poucos, em fatias finas, como um carpaccio. A oposição estabelecida por Andrônico de Rodes, o primeiro editor de Aristóteles, e ampliada por diversos pensadores, dos quais Montaigne não será um dos menos ilustres, vive desde o Modernismo uma crise de cognição. Hoje, quando se refere à questão do texto que se fagocita contra o texto que se degusta aos poucos, em fatias finas, como um carpaccio, o crítico erudito tende a pensá-los como dois países autônomos. Talvez influenciado pela famosa oposição entre intelecto ativo e intelecto passivo proposta pelo Estagirita que Andrônico seguia, imagina cada um desses territórios entregue a seus próprios habitantes, com autores de livros para fagocitar atendendo à demanda de leitores fagocitadores, e produtores de carpaccio à dos apreciadores de fatias finas. Equilíbrio que não deixa de ser precário, como atestam as guerras diplomáticas entre as nações antípodas, mas é, de todo modo, reconfortante. Se retomarmos o fragmento original, porém, veremos que algo importante se perdeu desde a intuição fulgurante do obscuro peripatético: “Histórias comidas com vagar alimentam o intelecto, histórias engolidas de uma vez alimentam a alma”. Ora, o que se perdeu é algo que, ao lançar na arena uma oposição de outro nível epistemológico e moral, descola o humilde Andrônico do campo aristotélico da moderação: o fato bastante óbvio de que o bom leitor (fiquemos em bom, para não invocar um ideal platônico) precisa nutrir tanto cabeça quanto alma, e portanto não se satisfará com uma coisa só. É provável que se torne então um leitor voraz e eclético, do tipo que intercala livros para fagocitar com livros para degustar aos poucos, em fatias finas, como um carpaccio. Mas também pode ser que, não contente com tal arranjo, passe a procurar escritores que revezem como ele os dois estilos, brincando de gangorra com carpaccios e fagocitoses, numa alternância que será o motor da própria escrita, às vezes com bruscas inversões dentro da mesma frase ou, pensando bem, da mesma palavra. O leitor verá que esses escritores não são fáceis de encontrar, mas procurá-los é preciso. O que você tem a fazer é lutar com todas as forças para ser um deles.

VI

Não tenha preguiça de reescrever. O escritor que não reescreve o que acabou de escrever, mesmo que por pura mania, mesmo que para deixar o texto indiscutivelmente pior, não merece ser chamado de escritor. Será, no máximo, um excretor a sujar de palavras fisiológicas em estado bruto um mundo que não precisa de sua contribuição para se assemelhar a um aterro sanitário de símbolos. Se escrever dez linhas, reescreva-as dez vezes em dez horas, e mais dez vezes a cada dez horas dos dez dias seguintes: corte, amplie, pregue, serre, lixe, solde, cole, mude tempos verbais e a ordem dos parágrafos, exercite a sinonímia e a intolerância. (Este conselho, por exemplo, foi reescrito ao longo de nove meses de trabalho diário. Em sua primeira versão, dizia: nunca reescreva o que acabou de escrever.) E caso ocorra a circunstância nada improvável de retornar nesse processo de edição a um texto muito semelhante ao original, ou mesmo idêntico a ele, saiba que a sensação de tempo perdido será uma ilusão e que o fruto da reescritura, como o Quixote de Pierre Menard, terá por trás das mesmas palavras uma densidade incomparavelmente superior. Claro que também é preciso reconhecer o momento de parar de reescrever, aquele ponto a partir do qual, como nas cirurgias plásticas em série, qualquer nova mexida só pode resultar em desastre, mas isso não é tão difícil: ele costuma vir acompanhado do impulso de golpear repetidamente o cristal líquido com o teclado para ver qual quebra primeiro.

VII

Não perca um minuto discutindo com quem prega a morte da narrativa. Evidentemente, o que esse cidadão está tentando fazer é criar uma – sim! – narrativa, aliás ingênua e batida, em que ele próprio é ao mesmo tempo o bandido que mata a velha dama aristocrática chamada Literatura e o mocinho que desvenda o crime, trazendo a boa nova de um futuro em que os narradores serão substituídos por… filósofos da linguagem? Se é verdade que vivemos um tempo de inflação narrativa em que a vida privada se vê transformada em “historinha” de forma instantânea nas redes sociais, a única resposta que a isso pode dar a literatura, arte narrativa por excelência, é narrar melhor. Narrar a narrativa, narrar o processo que fez tudo virar narrativa. Ou criar uma narrativa que dê um jeito de ser tão focada que brilhe em meio à pasta amorfa geral, atingindo o frescor pelo paradoxo da evocação de uma certa luz perdida. Por definição, nunca se pode dizer de onde virá o novo. Mesmo porque a tal inflação não começou há cinco anos, nem há trinta. O modernismo é, entre outras coisas, uma réplica artística à trivialização das histórias promovida por imprensa, rádio e cinema no início do século 20. Parece inegável que a crise se aprofundou e exige novas respostas, mas supor que estas proscreverão sumariamente a pulsão narrativa, mãe de poesia e prosa, é um erro tão simplório que parar para discuti-lo só atrasa a vida – que, como se sabe, é curta. Deixe o cara falando sozinho e vá escrever aquele conto.

VIII

Cultive um amuleto para os momentos de desespero. Pode ser Al Pacino perguntando a Diane Keaton em O poderoso chefão: “Quem está sendo ingênuo, Kay?” (Quem está sendo ridículo, cara?) Pode ser qualquer coisa, a memória do ar frio da madrugada entrando em seus pulmões numa manhã de pescaria na infância, um retrato da sua filha sorrindo com a boca sem dentes toda suja de feijão quando tinha um ano, uma estrofe de Bandeira, um labirinto de Escher, uma foto de Gautherot, qualquer objeto material ou imaterial que tenha algo de imantado e permanente e que, invocado como último recurso, agarrado na vertigem do sorvedouro como as sobrancelhas de Capitu eram agarradas por Bentinho em dias de ressaca, o impeça de cair no ralo que cedo ou tarde tenta nos tragar a todos, aquela contabilidade avara de elogios e críticas e gentilezas e esnobadas e alianças e hostilidades e rancores guardados na geladeira em tupperwares etiquetados, nomes e datas, vinganças agendadas, o ressentimento justificado, o ressentimento injustificado – o ressentimento, só. Quando a corredeira dos egos escoiceantes ameaçar transformá-lo num idiota, num paspalhão, agarre seu amuleto com todas as forças e saia em diagonal, dançando um maxixe com ar distraído, para não ter que admitir nem para si mesmo que disso depende sua salvação.

IX

Pense nas palavras como amantes jogo-duro, seres neuróticos e esquivos que, para cada noite de prazer desbragado a apontar o infinito da posse plena, destinam ao insensato que com elas se envolve trezentas noites de gagueira e frio e fome não saciada, de cabelos puxados no meio do deserto no mais atroz desespero. Desconfie das palavras. Se declaram amor, exija mais, cobre provas, invente caprichos. Se lhe dão as costas, vá atrás. Sendo preciso chegar a tanto, implore, humilhe-se, mas guarde uma secreta porção de orgulho ferido: ela lhe será útil quando, após a próxima reconciliação, vocês brigarem de novo. Se desconfiar que as palavras lhe são infiéis, é porque são mesmo. Entregam-se a qualquer um que as saiba afagar, as vagabundas: o que são os clássicos da literatura universal senão os autos de seu ancestral pendor pela galinhagem? É só você que elas desprezam. Diante de suas cantadas subitamente ineptas, reviram os olhinhos, tingem os lábios de frio desdém. Revirar-lhes os olhinhos de prazer, morder seus lábios gulosos será então, para sempre, a ideia fixa do escritor, o padrão-ouro de sua vida. Coitado. Se tiver habilidade e sorte, conseguirá ter com as palavras uns poucos momentos memoráveis, o que é ótimo, contanto que não lhe suba à cabeça. É importante não esquecer que elas sempre vencem no fim, sempre esnobam, vão se entregar aos outros, ao mundo, a ninguém, deixando atrás de si, como uma cauda de cometa, o mudo turbilhão de indiferença que é a herança de todos os seus amantes.

X

Desista se for capaz. Pode ser que, após ponderar os conselhos anteriores e testá-los em exercícios práticos diários, angustiosos e inconclusivos, você encontre no fundo da última gaveta da alma uma migalha de sanidade e vislumbre, ainda que por meio segundo, a possibilidade de uma vida de plenitude imediata em que escrever não seja necessário, mais até do que isso, em que escrever seja tão inconveniente quanto a música de mau gosto que vaza pela parede do vizinho no meio da noite. Nesse caso, é altamente recomendável agarrar a miragem e trabalhar dia e noite para fazer da fresta um caminho, da centelha uma rota de fuga para um mundo de coisas que existem antes das palavras ou à margem delas: amores sem versos declaratórios de impossível originalidade, luares desprovidos de citações, equações sonoras de Thelonious Monk fruídas com a paz resignada dos que não buscam tradução para o intraduzível. Se for bem sucedido, você verá que esses e outros benefícios superam com folga aquilo que terá deixado para trás: a luta corporal contra o vento, as admirações minadas de ódio, as recompensas risíveis, a certeza do fracasso final e, acima de tudo, o doloroso e progressivo descolamento irônico entre o eu e qualquer ideia possível de eu. Se for capaz de desistir, não pense duas vezes: simplesmente desista. Mas pode ser que a esta altura seja tarde demais, caso em que já não caberão conselhos e só me restará lhe deixar aqui como despedida, semelhante meu, meu irmão, um voto de boa sorte.

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Republicado por motivos médicos.

01/02/2014

às 9:00 \ Vida literária

Tempos e pessoas: viagem ao coração da literatura

Fernando Sabino: curinga na canastra

Fernando Sabino: curinga na canastra

Um dos conselhos literários mais importantes que já recebi – quase tão importante quanto aquele outro, o de desconfiar de todos os conselhos literários – me apareceu quando eu tinha vinte e tantos anos, lendo um artigo de Autran Dourado (citado aqui outro dia) sobre seu método de trabalho. Se a memória não me engana mais do que o habitual, o escritor mineiro revelava, embora não com essas palavras, uma forma de dar vida nova a textos deficientes, insatisfatórios, capengas ou falsos: trocar seu tempo verbal ou a pessoa da narração – ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Ainda não era comum escrever em computador naquela época. O truque, se assim podemos chamá-lo, envolvia um bocado de trabalho pesado: rabiscar tudo com caneta era provavelmente o primeiro passo, mas no fim das contas, para ter um resultado apresentável, restava alimentar a máquina de escrever com papel novo e datilografar tudo outra vez. Da primeira à última palavra. Trocando, por exemplo, “fui” e “tinha” por “vou” e “tenho”. Ou por “vai” e “tem”. E “minha” por “sua”. Etc.

É claro que, tendo feito tudo isso, e ainda que a princípio satisfeito com as mudanças, nada impedia o angustiado autor-datilógrafo de se arrepender no dia seguinte. Por alguma razão ainda pouco explicada, a virada da folhinha tem frequentemente essa capacidade de transformar felicidade autoral na frustração mais amarga. E lá iam tempos verbais e pessoas narrativas de volta ao estado de origem, à custa de mais batuque no teclado.

Divertido? Não, deve haver palavra que qualifique melhor esse tipo de exercício. Naquele tempo, a coisa tinha sem dúvida algo de insano, mas a função localizar/substituir do computador, eliminando como por milagre a maior parte do trabalho braçal, tornou forçado falar em insanidade. Hoje é bem mais fácil alterar o sujeito e os tempos verbais de uma narrativa, mesmo que ela seja um romance de 500 páginas. Claro que ajustes ainda precisam ser feitos manualmente, em flexões e tal, mas é indiscutível que o texto se tornou mais plástico, o caminho entre a cabeça e a página encurtou, a vida ficou mais confortável.

Curiosamente, junto com toda essa facilidade parece ter vindo também uma valorização ingênua de certa “espontaneidade”, ao lado da desconfiança de que exercícios formais como aquela dança de tempos e pessoas – entre outros – não passem de disfarces para a falta do que dizer. Para esses cultores da “expressão pura”, escritores são diferentes de pianistas, por exemplo, que dedicam boa parte da vida à repetição mecânica de escalas: já nascem sabendo tudo.

Sim, é possível que o problema de uma narrativa seja outro e que ela continue a mesma porcaria quando mudamos a narração da primeira para a terceira pessoa. Mesmo em tal caso, porém, o exercício não terá sido em vão. A razão disso é diabolicamente simples: ao brincar com o ponto de vista e o tempo verbal – a voz narrativa, em suma – estamos nada menos do que penetrando o coração dessa brincadeira, tomando posse daquilo que torna a literatura, literatura. Cervantes inventou o romance moderno quando inventou a voz maluca, autoconsciente, de D. Quixote. O resto veio depois.

“As virgens suicidas”, de Jeffrey Eugenides, deve grande parte de seu encanto à opção pela narração na rara primeira pessoa do plural, que torna os vizinhos das irmãs Lisbon porta-vozes de todos os adolescentes apaixonados do mundo. Li há algum tempo uma entrevista em que Daniel Galera contava ter encontrado o tom de “Barba ensopada de sangue” no momento em que trocou a primeira pela terceira pessoa. Em meu romance “O drible”, há trechos narrados em terceira, em primeira e até em segunda pessoa – uma alternância que nada tem de gratuita e que também não surgiu sem uma boa dose de experimentação, de tentativa e erro, em busca da melhor forma de contar aquela história.

É possível escrever tratados inteiros sobre cada pessoa e cada tempo verbal. O que todos têm em comum é o fato de cada escolha dar ao autor uma chave que abre algumas portas ao mesmo tempo que fecha outras. Nem todas as implicações são claras no momento em que se faz a opção. O excelente “O encontro marcado”, narrado numa terceira pessoa colada ao ponto de vista de Eduardo Marciano, conduz Fernando Sabino a um impasse já perto do fim, quando precisa dar ao leitor uma informação (sobre o filho abortado de Marciano) que o próprio personagem, alter ego do autor, não tem. A solução que o escritor encontra é trair por algumas linhas a voz do livro, sujando com um curinga sua canastra de resto perfeita.

 

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