De um dia terrível, no qual deparei-me com duas fogueiras de cadáveres e a miséria em seu estado mais puro, dilacerante, deixo vocês com o único momento de lampejo humano que vivi.
A tarde estava no começo, e o dia ardia sem clemência em Porto Príncipe. Eu e Gilberto percorríamos, acompanhados de nosso guia, Erick Azor, o devastado bairro de Delmas. Avistamos um amontoado de destroços, onde uma escavadeira tentava retirar uma massa de tijolos, telhas, lixo. Haitianos famélicos esgueiravam-se ao redor do maquinário, sob a pilha de concreto, na esperança de conseguir água ou comida.
Descobri que era um supermercado. Subimos – quer dizer, escalamos – os escombros. Lá, vimos a disputa entre as pessoas e a escavadeira. A máquina escavava, retirava pedaços de destroços - e, em seguida, os haitianos corriam ao que sobrava, numa triste dança de desespero e sobrevivência, que me remeteu à cena de uma revoada de moscas em cima de carne podre.
Ao tentar descer dos escombros, junto com os mendigos, escorreguei numa pedra solta. Antes que caísse, senti uma mão segurar minha mochila. Era um haitiano.






