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Arquivo da categoria ‘Sobreviventes’

Acima dos escombros

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 | 7:57

De um dia terrível, no qual deparei-me com duas fogueiras de cadáveres e a miséria em seu estado mais puro, dilacerante, deixo vocês com o único momento de lampejo humano que vivi.

A tarde estava no começo, e o dia ardia sem clemência em Porto Príncipe. Eu e Gilberto percorríamos, acompanhados de nosso guia, Erick Azor, o devastado bairro de Delmas. Avistamos um amontoado de destroços, onde uma escavadeira tentava retirar uma massa de tijolos, telhas, lixo. Haitianos famélicos esgueiravam-se ao redor do maquinário, sob a pilha de concreto, na esperança de conseguir água ou comida.

Descobri que era um supermercado. Subimos – quer dizer, escalamos – os escombros. Lá, vimos a disputa entre as pessoas e a escavadeira. A máquina escavava, retirava pedaços de destroços - e, em seguida, os haitianos corriam ao que sobrava, numa triste dança de desespero e sobrevivência, que me remeteu à cena de uma revoada de moscas em cima de carne podre.

Ao tentar descer dos escombros, junto com os mendigos, escorreguei numa pedra solta. Antes que caísse, senti uma mão segurar minha mochila. Era um haitiano.

A alma haitiana

domingo, 17 de janeiro de 2010 | 15:37

Sob o olhar compassivo e superficial de um estrangeiro, a vida no Haiti hoje parece uma impossibilidade, uma chama frágil prestes a se apagar. Engano. Os haitianos demonstram uma resiliência incomparável. São um povo acostumado a sobreviver – aos furacões, às guerras civis, à elite corrupta, à miséria como rotina. O terremoto é a maior dessas tragédias, sem dúvida, mas quem apostar contra a capacidade da alma haitiana em viver perto da morte pode errar feio.
 
Vejo exemplos disso mesmo nos escombros. Não há apenas corpos e dor. Por difícil que seja compreender, há também vida, em suas formas mais bonitas e banais. Na sexta-feira, quando eu e Gilberto estávamos acompanhando os trabalhos de resgate no Hotel Montana, onde morreram os principais funcionários da ONU, um rapaz haitiano típico, magro e em trapos, abordou-me. 
 
“O senhor pode me emprestar sua caneta e um pedaço de papel?”, ele me pediu gentilmente, num francês perfeito. Entreguei a caneta e um papelzinho. Ele anotou alguma coisa, embrulhou o papel e me devolveu a caneta. Achei que ele havia anotado o nome de um parente desaparecido, ou o contato de uma organização humanitária. Nada isso: “Acabei de conhecer uma mulher linda que está ajudando nas buscas”, disse o rapaz, serelepe que só. Ela me deu o número de telefone!”
 
Ele sorriu, me deu um tapinha nas costas e foi embora, guardando o papel no bolso.