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Arquivo da categoria ‘As vítimas’

Quem vive, quem morre

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 | 2:41

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Aconteceu no final da tarde. Nós percorríamos os escombros da rua Monsier Guiyour, no centro de Porto Príncipe, quando nos deparamos com uma operação de resgate. Equipes mexicanas e chinesas buscavam sobreviventes nos destroços de um prédio de dois andares. Havia cães farejadores, transeuntes curiosos, fitas amarelas – todo o aparato que se espera numa situação como essa.

Surpreendi-me ao avistar essa cena. Não havia visto até aquele momento nenhuma equipe de resgate, seja civil ou militar, nas ruas cinzas e poeirentas do centro, onde a destruição é absoluta. Lá, só restam corpos carbonizados, sanduíches gigantes de concreto – e, no meio deles, talvez almas agonizando seus últimos minutos. Os resgates de verdade concentram-se em lugares bacanas como o Hotel Montana, onde a cúpula da ONU e autoridades civis estavam no momento do terremoto.

Essa é uma das faces terríveis da tragédia em Porto Príncipe. Se você é diplomata, tem chances de ser encontrado. Se você é haitiano, fica para depois. Por já ter percebido isso, estranhei o trabalho solitário daquela improvável equipe de resgates.

Aproximei-me dos socorristas, que discutiam a situação. Dois cães haviam farejado pessoas no mesmo ponto dos escombros. “Finalmente vou presenciar um resgate bem-sucedido”, pensei. Os mexicanos diziam que confiavam em seus cães, os chineses concordavam com a análise e… eis que o chefe da equipe chinesa disse, em inglês: “Ótimo, então nos encontramos aqui às sete da manhã”.

Os mexicanos assentiram, retiraram as fitas amarelas e as duas equipes encaminharam-se rapidamente para um microônibus. Alcancei o chefe dos mexicanos e perguntei onde eles estavam indo. “Para o hotel”, ele respondeu. “Já deu seis da tarde.” Provavelmente percebendo minha cara de espanto, o mexicano concluiu, no meio de uma rua em ruínas, vazia: “É uma questão de segurança e de organização”. E subiu no ônibus.

No Hotel Montana, as equipes continuam trabalhando 24 horas por dia.

Magalie, a frentista

domingo, 17 de janeiro de 2010 | 0:04

Conheci a francesa Magalie Brunet hoje de manhã, nos gramados do aeroporto de Porto Príncipe. Eu e o fotógrafo Gilberto Tadday esperávamos – quer dizer, torcíamos – encontrar o piloto que nos levaria de voltar para Santo Domingo, na República Dominicana. Fazia uma hora que aguardávamos nossa carona, observando o sobe-e-desce de aviões e helicópteros militares. Capitão Rodriguez havia nos alertado que poderíamos esperar por horas, em razão da constante proibição de pousos civis. O aeroporto ainda funciona com soluços.

Para nosso alívio, o destemido capitão Rodriguez, sabe-se lá como, chegou no horário combinado. Logo depois, Magalie apareceu. Ela voltaria conosco para Santo Domingo. O piloto conversou rapidamente com a francesa, entregou maços de dólares e correu ao aeroporto, sem explicar por quê.

Aproximei-me dela e perguntei o que todos se perguntam no Haiti, assim que se conhecem: “O que você está fazendo aqui?”. Magalie, uma mulher franzina e pequena, não conseguiu responder. Estava perplexa: “O piloto me deu 200 dólares e me mandou arranjar combustível”. No Brasil, eu riria da piada. No Haiti, eu sabia que era verdade.

Ficamos os três percorrendo os gramados do aeroporto, atrás de um caminhão de combustível. Um piloto me disse que passara quatro horas esperando no dia anterior, até que alguém conseguisse combustível.

Tivemos sorte. Em alguns minutos, um dos pilotos avistou um caminhão, e acenamos até que ele viesse em nosso socorro. Magalie pediu que enchessem o tanque. Sobraram 30 dólares. Eu disse a Magali: “Fique com o troco”. Capitão Rodriguez chegou logo em seguida e seguimos viagem.

Magalie não é frentista. É uma funcionária a serviço de uma empreiteira americana, que estava em viagem ao interior do Haiti quando o terremoto aconteceu. Seus dois colegas, um americano e outro haitiano, estavam num quarto do Hotel Montana, que desabou em poucos segundos. Ambos morreram. Não estivesse em viagem, ela morreria no mesmo quarto.

Os números e o carrinho de bebê

sábado, 16 de janeiro de 2010 | 20:08

Percebo a preocupação do público em saber com precisão o número de mortos e de feridos na tragédia. Pelo o que vi nas ruas de Porto Príncipe, isso é impossível: o país desmoronou. Não há como calcular o número de casas ou de prédios que desabaram, tamanha a destruição. Quanto mais estimar quantos mortos jazem sob as toneladas de tijolos e concreto.

Por enquanto, as melhores estimativas são… estimativas; as piores, meros chutes. Mas talvez a força da tragédia que matou o Haiti esteja na história de quem restou para sofrer as consequências do terremoto. Histórias como a do jovem haitiano que carregava o corpo de uma familiar num carrinho de bebê, zanzando sem direção pelo acostamento da principal pista de Porto Príncipe. Ele não chorava – apenas suava e caminhava, mecanicamente. Pessoas e carros passavam por ele sem estranhar aquela tétrica cena. Era como se o rapaz carregasse um carrinho de supermercado.

A história dessa família não caberia em nenhuma estimativa, assim como nenhuma estimativa caberia na história do que está acontencendo no Haiti.