
Aconteceu no final da tarde. Nós percorríamos os escombros da rua Monsier Guiyour, no centro de Porto Príncipe, quando nos deparamos com uma operação de resgate. Equipes mexicanas e chinesas buscavam sobreviventes nos destroços de um prédio de dois andares. Havia cães farejadores, transeuntes curiosos, fitas amarelas – todo o aparato que se espera numa situação como essa.
Surpreendi-me ao avistar essa cena. Não havia visto até aquele momento nenhuma equipe de resgate, seja civil ou militar, nas ruas cinzas e poeirentas do centro, onde a destruição é absoluta. Lá, só restam corpos carbonizados, sanduíches gigantes de concreto – e, no meio deles, talvez almas agonizando seus últimos minutos. Os resgates de verdade concentram-se em lugares bacanas como o Hotel Montana, onde a cúpula da ONU e autoridades civis estavam no momento do terremoto.
Essa é uma das faces terríveis da tragédia em Porto Príncipe. Se você é diplomata, tem chances de ser encontrado. Se você é haitiano, fica para depois. Por já ter percebido isso, estranhei o trabalho solitário daquela improvável equipe de resgates.
Aproximei-me dos socorristas, que discutiam a situação. Dois cães haviam farejado pessoas no mesmo ponto dos escombros. “Finalmente vou presenciar um resgate bem-sucedido”, pensei. Os mexicanos diziam que confiavam em seus cães, os chineses concordavam com a análise e… eis que o chefe da equipe chinesa disse, em inglês: “Ótimo, então nos encontramos aqui às sete da manhã”.
Os mexicanos assentiram, retiraram as fitas amarelas e as duas equipes encaminharam-se rapidamente para um microônibus. Alcancei o chefe dos mexicanos e perguntei onde eles estavam indo. “Para o hotel”, ele respondeu. “Já deu seis da tarde.” Provavelmente percebendo minha cara de espanto, o mexicano concluiu, no meio de uma rua em ruínas, vazia: “É uma questão de segurança e de organização”. E subiu no ônibus.
No Hotel Montana, as equipes continuam trabalhando 24 horas por dia.