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Capitalismo haitiano

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010 | 13:41

Nosso taxista não apareceu ontem – talvez com medo de ter que rodar novamente pelas favelas de Porto Príncipe, ainda mais numa Mercedes quarentona, sem maçanetas. Pagávamos 100 dólares por dia para ele.

Pedimos a um haitiano amigo que conseguisse outro táxi. O sujeito demorou, mas apareceu: camiseta da NBA, óculos escuros, tênis de marca. Dirigia uma carroça pior que a do outro.

Perguntei quanto ele cobraria por duas horas de trabalho:

- Três mil dólares – ele devolveu, na lata.
- Cem – eu disse.
- Fechado – ele respondeu, sorrindo.

Diário do desastre – 3

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010 | 13:15

Abaixo, as ruínas de Porto Príncipe, em HD:

O valor do Haiti

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 | 19:19

Os militares brasileiros e das demais forças de segurança da ONU acordaram cedo hoje, mobilizaram suas forças e saíram numa operação especial de resgate. Foram socorrer os cofres dos bancos que têm filial no Haiti. Aliás, passaram sufoco: muitos bancos não deram o segredo dos cofres.

Certamente os corpos dos haitianos podem esperar.

Diário do desastre – Dia 2

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 | 11:54

Assista abaixo ao segundo vídeo de nosso diário em Porto Príncipe, produzido em HD pelo Gilberto. Aviso: há cenas fortes de destruição.

Susto

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 | 11:46

Amanhecia em Porto Príncipe quando acordei sentindo que o chão se abria embaixo de mim. Estávamos na tenda que serve de abrigo aos jornalistas brasileiros, aqui na base militar do Brasil. Assim que percebi o tremor, ou terremoto, pensei em correr – mas fiquei sem reação, talvez sem saber se era sonho ou realidade.

A portinha da tenda ia e voltava, enquanto o chão de concreto rangia como madeira e os alicerces da barraca davam espamos. Foram poucos segundos, é verdade, mas segundos que se prolongaram como horas.

Ninguém se machucou por aqui. Resta saber lá fora. Mais tarde eu conto.

Contrastes

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 | 2:58

Passei em frente a uma revendedora da Porsche hoje – fechada, naturalmente. Tive que esfregar os olhos para acreditar no que via. O prédio estava intacto.

Poucos minutos depois, mais corpos, mais horror.

Sobre os comentários

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 | 2:51

Peço paciência com a dificuldade em responder aos comentários. Como vocês devem supor, tempo está sendo uma mercadoria escassa nestes dias. Para piorar, só temos acesso à internet no começo da manhã e no final da noite.

Ofereço o Twitter (@diegoescosteguy) como alternativa para responder de modo mais ágil às suas dúvidas e sugestões. Nos últimos dois dias, tenho conversado com os internautas por lá, às 22h, horário de Brasília. Também tenho postado notícias curtas diretamente no Twitter de VEJA.

Quem vive, quem morre

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 | 2:41

haiti_0571

Aconteceu no final da tarde. Nós percorríamos os escombros da rua Monsier Guiyour, no centro de Porto Príncipe, quando nos deparamos com uma operação de resgate. Equipes mexicanas e chinesas buscavam sobreviventes nos destroços de um prédio de dois andares. Havia cães farejadores, transeuntes curiosos, fitas amarelas – todo o aparato que se espera numa situação como essa.

Surpreendi-me ao avistar essa cena. Não havia visto até aquele momento nenhuma equipe de resgate, seja civil ou militar, nas ruas cinzas e poeirentas do centro, onde a destruição é absoluta. Lá, só restam corpos carbonizados, sanduíches gigantes de concreto – e, no meio deles, talvez almas agonizando seus últimos minutos. Os resgates de verdade concentram-se em lugares bacanas como o Hotel Montana, onde a cúpula da ONU e autoridades civis estavam no momento do terremoto.

Essa é uma das faces terríveis da tragédia em Porto Príncipe. Se você é diplomata, tem chances de ser encontrado. Se você é haitiano, fica para depois. Por já ter percebido isso, estranhei o trabalho solitário daquela improvável equipe de resgates.

Aproximei-me dos socorristas, que discutiam a situação. Dois cães haviam farejado pessoas no mesmo ponto dos escombros. “Finalmente vou presenciar um resgate bem-sucedido”, pensei. Os mexicanos diziam que confiavam em seus cães, os chineses concordavam com a análise e… eis que o chefe da equipe chinesa disse, em inglês: “Ótimo, então nos encontramos aqui às sete da manhã”.

Os mexicanos assentiram, retiraram as fitas amarelas e as duas equipes encaminharam-se rapidamente para um microônibus. Alcancei o chefe dos mexicanos e perguntei onde eles estavam indo. “Para o hotel”, ele respondeu. “Já deu seis da tarde.” Provavelmente percebendo minha cara de espanto, o mexicano concluiu, no meio de uma rua em ruínas, vazia: “É uma questão de segurança e de organização”. E subiu no ônibus.

No Hotel Montana, as equipes continuam trabalhando 24 horas por dia.

Diário do desastre – Dia 1

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 | 22:43

Gilberto produziu este vídeo sobre a nossa chegada ao aeroporto de Porto Príncipe, no Haiti, segunda-feira pela manhã. Se houver condições por aqui, pretendemos fazer um relato similar todos os dias, sempre sob algum aspecto do desastre que tenha nos chamado a atenção.

Assista abaixo ao vídeo, produzido em HD. Sugestões e críticas são bem-vindas.

No limite

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 | 12:19

A base militar do Brasil no Haiti precisa com urgência de reforços. Os militares têm capacidade de mantê-la funcionando com até 560 pessoas. Hoje, há aqui cerca de 880 pessoas – entre militares, diplomatas, haitianos, jornalistas.

Reservadamente, alguns militares me informaram que os suprimentos daqui, como água e material sanitário, estão acabando. O inchaço de gente também atrapalha na distribuição de mantimentos. Soldados que poderiam estar escalados para ajudar nos trabalhos em campo são deslocados para atender às necessidades de uma base que funciona no limite.

Diante disso, eu e Gilberto tentamos, na medida do possível, não atrapalhar os militares. Andamos sozinhos durante o dia e não pedimos nada que não seja absolutamente imprescindível.

Quem está aqui espera que o governo e o Congresso se mobilizem rapidamente para enviar reforços. Nós também.