Phapichue, o haitiano da foto acima, tem 18 anos, um par de óculos e nada para fazer. Ele mora em Cité Soleil, o favelão de Porto Príncipe, num barraco erguido sobre os escombros do terremoto. Como a maioria das pessoas por lá, acostumou-se à sede e à fome.
No entanto, quando conheci Phapichue, ao entardecer da última sexta- feira, ele não me pediu água, comida ou dinheiro. Pediu-me livros. “Eu estudava português”, ele me disse, ao descobrir que falava com um brasileiro. Estudava, no passado mesmo. A escola dele desabou.
Tentamos conversar em português. Phapichue sabia poucas palavras: “sim”, “não”, “obrigado”. Compreendia bem, mas se enrolava na hora de falar. Ele insistiu – queria livros. “É a primeira vez que vejo um estrangeiro aqui, que não seja militar. Cité Soleil é longe. A ajuda não chega”, argumentou.
Reparei que ele portava um tocador de MP3. Estranhei: “Se você tem dinheiro para comprar um desses, deve ter para comprar um livro”. Phapichue riu-se todo e disse, apontando para a engenhoca: “Achei esse aqui no lixo”. A risada sublinhava o óbvio: não se acha livros no lixo haitiano.
Expliquei que trouxera apenas dois livros para a viagem – e que, naturalmente, ele teria imensa dificuldade para conseguir lê-los. Phapichue assentiu. “Mas quando você voltar aqui, poderia trazer livros, não?”, ele arriscou. “Não sei se voltarei para cá”, eu disse.
Percebi que ele diminuía ao som das minhas palavras. Perguntei se poderia fazer algo. Phapichue parou, pensou por alguns instantes e respondeu: “Você não é jornalista? Conte o que está acontecendo aqui. Faça a ajuda chegar”.








Infelizmente ele é 1 em 1milhão
E aqui, tanta gente de barriga cheia e cama confortável para dormir, corre dos livros como o diabo corre da cruz!
Diego,
Nestes dias que acompanhei seus relatos, algo em mim também mudou.
A garoto pediu a você: “Conte o que está acontecendo aqui.”.
Não tenha dúvida, você fez isso com maestria.
Mais uma vez, obrigada!
Abraços,
Nossa, dá até um aperto no coração né?
Bem q ele podia pedir algo para o seu susteto fisíco, mas ñ pediu Livros!
E o q ele disso no final foi mais profundo ainda: “Você não é jornalista? Conte o que está acontecendo aqui. Faça a ajuda chegar”.
Cara, Deus abençõe esse povo!
Diego,sei que no meio de tanta tristeza e necessidades ninguém pensa em livros não eh???Mais sera que não haveria um jeito de se mandar livros para eles ou revistas???Afinal sem alimentar a alma,como sonhar com futuro não???Tenho tantas revistas aqui em casa,sei que não falam portugues mais enfim,poderia se tentar…………
Po Diego, dava o livro pro rapaz. Imagina a felicidade do gurizao. Eu nao conseguiria recusar o pedido!
Muitos jogam livros no lixo!!
E ele só queria um livro!
Vc pelo menos fez o que ele pediu.
Gostaria muito de enivar livros a ele.
Triste!
Diego e Gilberto,
Vi comentários em outro blog, referente a parte rica (condomínios, etc..) de Porto Príncipe que não foi afetada e pelo que notei a única atitude foi armar seguranças na porta de entrada. Sabe de alguma coisa nesse sentido? Esse pessoal rico não pensa em ajudar não? Fazer quem sabe uma adoção temporária em conjunto com a ajuda humanitária? Inclusive um engenheiro morador dessas áreas ricas não afetadas disse, abre aspas “Aqui não tem governo” fecha aspas.. realmente acho que o Haiti não tem governo mesmo, porque se tivesse baixaria um decreto emergencial transformando todos esses ricos com seguranças em voluntários para ajudar os necessitados que estão em volta agonizando. Lamentável, pois a comunidade internacional está fazendo a sua parte e essa comunidade local em condições de ajudar vai continuar contratando seguranças e nada mais?
Abraço, Alexandre
Concordo com a Rosmary… vc atendeu ao jovem Phapichue… O horror do Haiti se fez real pelas suas palavras… Mas vc soube escrever sobre o fio de esperança dos que estão lá…
Mas o problema é que nós mesmo sabendo como estão os haitianos não conseguimos faszer chegar até ele as doações…
Tenho uma vontade enorme de ajudar… com o pouco que tenho… mas nao sei como…pq doar dinheiro para enfrentar a burocracia e quase nada chegar ao destino, ao Haiti, me deixa sem esperança…
Chocante! E nosso país, tão privilegiado, longe de desastres como furacões, vulcões, terremotos, tão rico, continua com boa parcela da população sem um ensino básico concluído, sem o interesse pela literatura, e sem mesmo a vontade de conhecer a própria cultura! Deveríamos TODOS seguir o exemplo do seguinte rapaz, que na pior situação vigente se preocupa com o seu aprendizado. Valente, merece os mais sinceros aplausos.