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Até a próxima

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010 | 11:55

Encontro-me agora no conforto de minha casa em Brasília, de onde me despeço deste espaço e, sobretudo, de vocês, leitores que embarcaram comigo e com o Gilberto nessa fugaz imersão na tragédia haitiana. Foi uma experiência difícil, inesquecível – em mais sentidos do que eu poderia imaginar.

Peço desculpas por não ter conseguido responder aos comentários deixados no blog. Em Porto Príncipe, faltava tempo e condições técnicas para isso. Meu silêncio, contudo, não significa que tenha deixado de ler todas as mensagens.

De cada uma delas, mesmo das mais ásperas, extraí lições. Algumas me mostraram o que vocês realmente esperam de nós, jornalistas. Outras, mais duras, revelaram-me as (muitas) falhas de minhas apurações em campo.

Desde o princípio dessa jornada, meu objetivo, especialmente neste blog e no Twitter, resumiu-se a isto: relatar, do modo mais franco e humano possível, o que eu estava vendo nas ruas de Porto Príncipe. Tentei não comunicar respostas simplistas. Preferi compartilhar fatos e incertezas. O resultado, naturalmente, cabe a vocês avaliar. Para mim, valeu a pena.

Deixo aqui um muito obrigado a todos. Seguem juntos meus superlativos agradecimentos à equipe de VEJA On Line, que soube coordenar essa experiência digital com agilidade e esmero. Registro ainda meus parabéns ao trabalho impecável do Gilberto, meu companheiro nessa improvável aventura.

Ao povo haitiano, que muito me ensinou sobre as infinitas possibilidades da experiência humana, envio daqui um abraço, talvez tão afetuoso quanto irrelevante.

Ruínas que falam

terça-feira, 26 de janeiro de 2010 | 13:10

Abaixo, o slideshow preparado em HD pelo Gilberto, com a competência de sempre. Nele, tentamos fazer algum sentido da nossa experiência em Porto Príncipe.

O ABC do Haiti

terça-feira, 26 de janeiro de 2010 | 8:31

cite soleil

Phapichue, o haitiano da foto acima, tem 18 anos, um par de óculos e nada para fazer. Ele mora em Cité Soleil, o favelão de Porto Príncipe, num barraco erguido sobre os escombros do terremoto. Como a maioria das pessoas por lá, acostumou-se à sede e à fome.

No entanto, quando conheci Phapichue, ao entardecer da última sexta- feira, ele não me pediu água, comida ou dinheiro. Pediu-me livros. “Eu estudava português”, ele me disse, ao descobrir que falava com um brasileiro. Estudava, no passado mesmo. A escola dele desabou.

Tentamos conversar em português. Phapichue sabia poucas palavras: “sim”, “não”, “obrigado”. Compreendia bem, mas se enrolava na hora de falar. Ele insistiu – queria livros. “É a primeira vez que vejo um estrangeiro aqui, que não seja militar. Cité Soleil é longe. A ajuda não chega”, argumentou.

Reparei que ele portava um tocador de MP3. Estranhei: “Se você tem dinheiro para comprar um desses, deve ter para comprar um livro”. Phapichue riu-se todo e disse, apontando para a engenhoca: “Achei esse aqui no lixo”. A risada sublinhava o óbvio: não se acha livros no lixo haitiano.

Expliquei que trouxera apenas dois livros para a viagem – e que, naturalmente, ele teria imensa dificuldade para conseguir lê-los. Phapichue assentiu. “Mas quando você voltar aqui, poderia trazer livros, não?”, ele arriscou. “Não sei se voltarei para cá”, eu disse.

Percebi que ele diminuía ao som das minhas palavras. Perguntei se poderia fazer algo. Phapichue parou, pensou por alguns instantes e respondeu: “Você não é jornalista? Conte o que está acontecendo aqui. Faça a ajuda chegar”.

Diário do desastre – 6

domingo, 24 de janeiro de 2010 | 12:53

Na sexta-feira, acompanhamos o Exército brasileiro numa patrulha pelas ruas de Cité Soleil, a maior favela de Porto Príncipe e uma das regiões mais violentas da capital. Por precaução, tivemos que usar coletes e capacetes. Apesar do aparato, fomos bem recebidos.

Cité Soleil é um esgoto, no qual não há hierarquia entre porcos, cachorros e seres humanos. Todos convivem como iguais: partilham da mesma água, da mesma terra, da mesma comida. Lá, onde humanos alimentam-se de barro e de esperança, descobre-se a resiliente força do espírito haitiano.

Abaixo, o sexto e último vídeo do nosso diário:

Diário do desastre – 5

sábado, 23 de janeiro de 2010 | 20:19

Em Porto Príncipe, a noite manda no dia. Rodem conosco pela escuridão haitiana, em HD:

Cenas da tragédia

sábado, 23 de janeiro de 2010 | 18:49

Confiram uma seleção das melhores fotos do meu colega de viagem, Gilberto Tadday:

http://veja.abril.com.br/galeria-de-imagens/haiti-caos-depois-tragedia-528235.shtml

Em VEJA desta semana: o caos depois do desastre

sábado, 23 de janeiro de 2010 | 10:29

clarence-johnny

Sob as trevas da noite o pavor aumenta. Os raros focos de luz são dos faróis de carros, dos postes de quartéis com geradores e das fogueiras… Assustadoras fogueiras alimentadas por escombros e corpos. Do Hospital-Geral de Porto Príncipe emergem urros de dor de pacientes. Com os primeiros raios de sol chega a notícia do resgate de uma criança com vida e a esperança renasce. Abarrotado pelo volume colossal de feridos em estado grave, o Hospital-Geral tornou-se o maior centro de amputação de Porto Príncipe. Um lugar de horrores, onde se aguarda a vez de morrer, ao lado de cachorros, lixo e do odor onipresente da gangrena. No pátio do hospital, feridos tentam sobreviver em colchonetes, ao ar livre e sob tendas. Num deles, Widlyn Pierre, uma jovem e bela haitiana, grita de dor.

Em Porto Príncipe, os vivos dormem nas ruas; os mortos, nos escombros. Os números da catástrofe já parecem não fazer nenhum sentido. Foram 75.000 corpos lançados em fossas, mas quem os contou? Praticamente inexistente, o governo anuncia planos de transferir 400 000 desabrigados da capital para acampamentos organizados nas imediações da cidade destruída. Como? Quando? Por enquanto, dorme-se sob o céu negro e o calor asfixiante do Caribe, sentindo-se o cheiro fétido das fogueiras humanas. São os momentos mais perigosos para a sobrevivência dos haitianos, quando os mais fortes encontram a cumplicidade da noite para atacar os mais fracos. Brigam por comida, água, remédios – ou mesmo por bonés e óculos velhos, o tipo de farrapo que alguns haitianos ainda possuem.

Há troca de socos até por restos dos destroços. Nenhum haitiano parece aceitar que outro tenha mais do que ele, ainda que esse mais se resuma a lixo. Em regiões miseráveis, como o bairro de Delmas, os desabrigados acampados nas praças e ruas improvisaram fogueiras, feitas de tudo o que se pode encontrar: lixo, corpos, pedaços de madeira. Em outras, como Bel Air, a escuridão da noite mistura-se com a poeira dos destroços ainda pairando no ar. O Haiti, que sempre viveu próximo da barbárie, agora se queima por completo nela.

Leia o relato e a reportagem completa sobre a tragédia do Haiti em VEJA desta semana (na íntegra somente para assinantes).

Joseph

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 | 15:45

Dos muitos rostos haitianos que levarei comigo, um dos mais comoventes não está aqui. Joseph, ele se chama.

Nossos destinos encontraram-se na quinta-feira da semana passada, quando desembarquei em Miami, buscando uma conexão para Santo Domingo, na República Dominicana. Esperei alguns minutos na fila da Imigração. Na minha vez, Joseph me atendeu.

Era um negro alto, corpulento, de olhos pequenos e molhados. Ele estava paralisado, quase catatônico. “Passaporte, por favor”, ele disse, mecanicamente. Apresentei o documento. Como havia saído às pressas do Brasil, levara apenas meu visto americano de turista. Tinha medo de ser barrado – os americanos exigem visto de trabalho, mesmo para conexão.

“Onde você vai ficar aqui”, ele perguntou. Expliquei que era jornalista, estava em conexão para Santo Domingo, e que tentaria chegar ao Haiti.

Joseph desabou. “Haiti?”, ele disse, surpreso. “Sou haitiano. Minha família toda está lá: mãe, pai, minha irmã. É uma tortura, não consigo falar com eles.” Enquanto a fila atrás de mim crescia, Joseph contava sua trajetória, tão comum entre seus conterrâneos: a busca por uma vida decente fora do Haiti, as saudades da família, da música, do sol. Ele não falava para mim. Contava a própria história a si mesmo, tentando não chorar: “Se eles estiverem mortos, não quero ir. Não quero ir”.

“Sinto muito”, foi tudo o que consegui dizer.

Ele carimbou meu passaporte, sem fazer mais perguntas.

Diário do Desastre – 4

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 | 14:00

Registramos em vídeo a frágil esperança de que possa haver futuro no Haiti. Em meio ao cenário de guerra do Hospital-Geral de Porto Príncipe, entre amputações, grangrenas, morte e dor, descobrimos, sob o céu negro do desastre, a seguinte história:

Mais um

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010 | 14:57

A terra acaba de tremer intensamente agora. É a segunda vez em menos de dois dias.

Estou na base do Brasil, escrevendo a matéria para a próxima edição de VEJA. Alguns militares assustaram-se e saíram correndo da sala.

Eu fiquei. Já estou me acostumando. E tenho que entregar a matéria daqui a pouco.