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Combate no Vietnã

06/07/2010

às 14:35 \ Televisão

Breve Histórico da Guerra do Vietnã nas Séries de TV

Hoje, às 20h, o canal TCM estreia a série “Combate no Vietnã”, primeira produção que se propôs a explorar o dia a dia de um pelotão americano em plena guerra do Vietnã. Os EUA se envolveram diretamente no conflito entre os anos de 1965 e 1975, sendo que os problemas tiveram início nos anos 50 como consequência à declaração de independência do Vietnã em relação ao domínio francês.

Temendo que o país se tornasse comunista, os EUA entraram no conflito, que gerou altos índices de rejeição por parte do povo americano. Em função disso o tema foi raramente introduzido nas séries de TV. Os canais poderiam ter optado por lançar séries ufanistas sobre o tema, mas o período não permitia esse tipo de abordagem; os anos 60, e posteriormente os anos 70, viram nascer o início das produções seriadas que questionavam as ações do governo e/ou da sociedade.

Para piorar a situação do governo em relação ao público, a guerra do Vietnã aconteceu para os americanos na mesma época em que surgiu a TV a cores. Com uma cobertura jornalística ao vivo e colorida (comparável à cobertura da Guerra do Golfo pela CNN), a situação de guerra tornou-se mais real para a população, até então acostumada a imagens em preto e branco de filmes bélicos antigos, nos quais o soldado americano sempre se sobressaía como herói.

Mesmo assim, a idéia da guerra já se fazia presente na TV americana com produções que focavam suas atenções no conflito da 2ª guerra mundial, com séries como “Combate”, “Inferno nos Céus/12 O’Clock High” ou “Guerra, Sombra e Água Fresca”, que estrearam antes dos EUA entrar no conflito bélico contra o Vietnã. Na segunda metade dos anos 60, a situação do Vietnã pôde ser vista em episódios de algumas séries que abraçaram o movimento da contracultura da época.

A primeira série que se tem notícias de ter mencionado a guerra do Vietnã foi “Além da Imaginação/Twilight Zone”, no episódio “In Praise of Pip” no qual o filho de Max (Jack Klugman) está lutando nessa guerra. A ficção científica também abordou o tema com a série “Jornada nas Estrelas” no episódio “Guerra Particular/ A Private Little War”, no qual temos a tripulação da Enterprise oferecendo armamento para um povo de um planeta que está em luta contra outro grupo, o qual recebe armamentos dos Klingons.

Outras séries do início dos anos 60 também tiveram episódios que mencionaram a existência dessa guerra, como por exemplo “O Agente da UNCLE“, no episódio “The Hong Kong Killing Affairs”, onde o ator convidado Glenn Corbett interpreta um militar que lutou no Vietnã. O mesmo ator substituiu George Maharis em “Rota 66” interpretando Lincoln Case, um militar recém chegado do Vietnã.

A série “Mod Squad” colocou-se ostensivamente contra o conflito. Estrelada por três personagens representantes da contracultura, a série defendia a paz e os direitos humanos, bem como apoiava a opção de algum jovem que escolhesse não participar do conflito. Já “Room  222” era uma dramédia que surgiu do sucesso de “Ao Mestre com Carinho/To Sir with Love”, na qual temos um professor negro dando aulas em uma escola de classe média baixa. Temas polêmicos como preconceito, gravidez na adolescência e a guerra do Vietnã figuraram entre os roteiros produzidos no final dos anos 60.

Na década de 70 surgiram as topical sitcoms, subgênero dentro do gênero comédia, no qual as séries têm como objetivo debater temas polêmicos. Entre seus principais representantes estão as séries “Tudo em Família” e “Mash”. Na primeira, o conflito no Vietnã chegou a ser debatido entre Archie, representante dos Republicanos, e seu genro, Mike, representantes dos Democratas. Na segunda, vemos o dia-a-dia de uma unidade médica durante a Guerra da Coréia. Apesar de ser uma guerra diferente, era à do Vietnã que o público associava quando assistia à série. Colocando-se contra a guerra, a série despertou o interesse de uma grande audiência.

Ao longo dos anos 70, as séries policiais que buscavam retratar o lado realista do combate ao crime chegaram a introduzir episódios nos quais soldados que voltaram da guerra do Vietnã agora viviam à margem da sociedade;  alguns apresentavam distúrbios mentais, os quais poderiam ser a causa do aumento da criminalidade. Em 1971, estreou a série “Nichols”, com James Garner. Situada em 1914, a história apresenta um ex-soldado que se torna xerife de uma pequena cidade americana. Por ser pacifista e não acreditar no uso de armas, Nichols é pouco respeitado pelos moradores, que vêem nos membros da dominadora família Ketcham os verdadeiros responsáveis pela cidade.

Em 1980, “Barney Miller“, sitcom sobre o dia a dia de uma delegacia de polícia, trouxe um episódio no qual é apresentado um veterano de guerra que teria se tornado um criminoso psicótico em função de sua exposição ao agente Laranja.

A presença do conflito do Vietnã somente ganharia maior abertura nas séries de TV a partir do início da década de 80. Em 1978 estreou nos cinemas o filme “Franco Atirador/The Deer Hunter”, produção estrelada por Robert De Niro cujo sucesso deu início à uma série de filmes retratando os veteranos desse conflito; em 1979, o filme “Apocalypse Now” daria abertura às produções sobre a própria guerra do Vietnã. A partir daí, o cinema produziria outros filmes que influenciariam o surgimento de “Combate no Vietnã, “Vietnam War Stories” e “China Beach”, as três únicas séries que de fato exploraram o tema.

A primeira tentativa ocorreu em 1980 pela rede NBC, que chegou a produzir cinco episódios da série “The Six O’Clock Follies”. A sitcom girava em torno de uma equipe de jornalistas das Forças Armadas, que apresentavam um noticiário televisivo em 1967 na cidade de Saigon. A proposta era algo parecido com o que foi feito em 1987 pelo cinema com o filme “Bom Dia Vietnã”. Em uma época em que as séries ainda eram produzidas com o objetivo de explorar a imagem de um herói ou trazer histórias que pudessem ser aprovadas pela família americana, o tema se tornou maldito também para a ficção televisiva, sendo qualificado como comercialmente inviável.

Mas em 1980 surgiu “Magnum”, série criada por Don Bellissario e Glen A. Larson, que caiu nas graças do público e da crítica, apresentando um veterano da guerra do Vietnã que agora vive de favor na casa de um famoso escritor de mistérios. Trabalhando como detetive particular no Havaí, Magnum mantém contato com dois colegas de pelotão, que o ajudam quase que por obrigação ou por meio de chantagem emocional. A maneira como produtores e roteiristas da série apresentaram o personagem e seu histórico (o qual vez por outra interferia em seu tempo presente), fez com que os veteranos desse conflito passassem a ser vistos de forma positiva, fugindo do estigma de personagem marginalizado pela sociedade ou psicologicamente perturbado.

“Magnum” abriu as portas para que outras séries introduzissem outros personagens também veteranos da guerra do Vitenã em seu elenco fixo, como por exemplo “O Esquadrão Classe A/The A-Team“, criada por Stephen J. Cannell em 1983. A série gira em torno de um grupo de militares falsamente acusados de crimes que teriam cometido durante a guerra do Vietnã. Tendo fugido de uma prisão militar, o grupo passa a viver às escondidas colocando seus serviços à disposição de quem puder lhes pagar. Cannel também lançou “Tempo Quente/Riptide“, em 1984, na qual temos três veteranos atuando como detetives particulares na ensolarada Califórnia.

No mesmo ano, Bellisario lançaria outro veterano do Vietnã com a série “Águia de Fogo/Airwolf“, que trouxe uma abordagem mais pesada para o tema do que foi feito com “Magnum”. Nessa série, temos Stringfellow Hawk, piloto que rouba o protótipo de um avançado helicóptero de guerra, projetado por uma agência secreta do governo. Sendo o único capaz de pilotá-lo, String faz um acordo com a agência: localizar seu irmão desaparecido no Vietnã em troca do aparelho. Enquanto isso, ele concorda em realizar missões secretas para o governo utilizando o Águia de Fogo, que é mantido escondido em uma montanha.

Quando o ator Jan-Michael Vincent saiu da série, um episódio de duas parte introduziu o irmão de String, que passaria a estrelar a produção. Nesses episódios, vemos o resgate do soldado aprisionado em um campo no Vietnã. Bellisario retornaria com outro personagem veterano, em 1989, com a série “Contratempos/Quantum Leap“, em que temos Al Calavicci ajudando Sam Beckett, um viajante do tempo. Tal qual foi feito em “Magnum”, alguns episódios de “Contratempos” chegaram a retratar situações ocorridas durante a guerra.

Essas produções conseguiram estabelecer uma visão positiva do veterano do Vietnã, possibilitando trazer abordagens sobre o tema no tempo presente, valorizando, principalmente, a lealdade e a amizade surgidas entre os soldados que lutaram juntos no Vietnã.

Colocando-se como adeptos da política de paz e de justiça, ou contrários a superiores que posam como ditadores, além de evitar discussões políticas, abordando superficialmente os traumas gerados pelas experiências que tiveram na guerra, os personagens conseguiram criar um vínculo afetivo com o público da televisão. Assim sendo, abriram um espaço que seria explorado por outras séries que dariam a visão política ausente nessas primeiras produções.

Em 1987 a HBO produziu a primeira tentativa de narrar histórias sobre o conflito do Vietnã, com “Vietnam War Stories“, série antológica (sem atores ou personagens fixos) com cinco episódios inspirados em conflitos reais e escritos por veteranos da Guerra. Os roteiros abordavam os conflitos e as relações pessoais que surgiram da guerra. No ano seguinte, o canal compilou três episódios transformando-os em telefilme, lançados em video com o mesmo título.

No mesmo ano surgiu pela rede CBS a série “Combate no Vientã” que, em três temporadas, apresentou histórias situadas em períodos históricos importantes: os conflitos no Camboja, Saigon e Hanoy. Em 1988 é a vez do canal ABC apresentar sua visão da guerra do Vietnã com “China Beach”, série que apresentou uma unidade médica, na qual vemos o dia-a-dia de um grupo de enfermeiras. A série também explorou em sua linha narrativa da última temporada histórias que ocorriam simultaneamente em duas linhas de tempo, algo introduzido em “Kung Fu” e que foi popularizado recentemente por “Lost”.

A segunda produção teve melhor receptividade de público do que a primeira, pois tratavam de dramas humanos sem a presença direta do conflito bélico. Apesar do reconhecimento crítico de “Combate no Vietnã”, a série não conseguiu estabelecer uma linha de produção como ocorreu com a 2ª guerra mundial, da mesma forma que “Mash” também não promoveu o surgimento de novas séries que retratam a guerra da Coréia. Desta forma, a guerra do Vietnã ainda não fez surgir uma série que explorasse as questões políticas de sua formação, nem tampouco de sua duração. O conflito ainda é visto como pano de fundo nas histórias de séries situadas no período em que a guerra ocorreu, como por exemplo “Anos Incríveis”, “American Dream” ou “The Sixties“.

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Fernanda Furquim: @Fer_Furquim

 

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