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Review – ‘Call the Midwife’ – 1ª temporada

Call the Midwife estreou na Inglaterra com uma temporada em seis episódios conquistando rapidamente público e crítica. Segundo nota divulgada pela BBC, Call the Midwife conquistou a maior audiência do canal nos últimos dez anos, entre as produções em sua primeira temporada. Ela registrou a média de 8.7 milhões de telespectadores ao vivo (chegando a 10.25 milhões com as reprises) o equivalente a cerca de 29.6% da audiência em seu horário. Para se ter uma ideia, a primeira temporada de Sherlock, uma das maiores audiências de estreia do canal até então, registrou cerca de 8.27 milhões ao vivo e 28% do público.

A série é uma adaptação de Heidi Thomas(Cranford) para a trilogia autobiográfica de Jennifer Worth, falecida em 2011, vítima de câncer, quando a produção teve início. Em seus livros, Jennifer faz um relato de sua experiência como enfermeira e parteira no final da década de 1950 na Inglaterra.

(E-D) Trixie, Chummy, Jenny Lee e Cynthia Miller

Essa era uma época em que as mulheres de classe baixa não confiavam ou não tinham condições de frequentar hospitais, preferindo ter seus filhos em casa, mesmo que isto significasse um risco à sua saúde e à do bebê. Com pouco conhecimento sobre higiene ou os cuidados necessários durante a gestação, elas mantinham uma qualidade de vida variada. Elas eram donas de casa, feirantes, faxineiras, cozinheiras, operárias e empregadas domésticas que contavam com o auxílio das freiras do convento mais próximo. Já as freiras eram mulheres que, conscientes das restrições do ambiente, abriram suas portas para oferecer atendimento pré-natal, serviço de parteiras e acompanhamento nas primeiras semanas após o parto.

Este também era o período pré-pílula anticoncepcional. Com o fim da 2ª Guerra Mundial, milhares de soldados voltaram para casa. Alguns se casaram com suas antigas namoradas, outros voltaram para suas esposas e ainda tinham aqueles que buscavam o conforto nas camas de prostitutas, as quais, geralmente, escolhiam entre o aborto e a entrega de seus filhos para adoção.

Em seu livro, Jennifer menciona que, como parteira, ela e seu grupo chegavam a realizar cerca de 800 partos por mês, apenas na área em que o Convento atendia. As mulheres começavam a parir aos 14 anos, chegando aos 20 anos com quatro ou cinco filhos, em média.

Em um dos episódios da série vemos uma das parteiras tentando explicar às mulheres reunidas em um salão a importância da pílula e do preservativo masculino, que estão recém sendo introduzidos para aquelas pessoas.

Mas apesar de todos os problemas de saúde e financeiros pelos quais elas passavam, essas pessoas seguiam em frente, pois para elas essa era a única vida que conheciam. Os livros de Jennifer retratam essas mulheres como heroínas que sobreviveram ao ambiente e aos obstáculos, mantendo a cabeça e o espírito sempre erguidos.

(E-D) Monica Joan, Evangelina, Julienne e Bernadette

Tal qual os livros, a série é um melodrama leve, que traz uma narrativa em tom de crônica.

Mantendo um olhar romântico sobre o período e as pessoas retratadas, a produção acompanha a vida de jovens parteiras que moram e trabalham em um convento, auxiliando um grupo de freiras no atendimento de grávidas da classe operária, que vivem em um bairro perto das docas de Londres.

Dentro desta proposta, Call the Midwife traz uma boa construção de personagens e ambiente, que até mereciam ser desenvolvidos com mais profundidade, embora perceba-se não ser este o objetivo da série.

Em sua primeira temporada, a série se propõe a apresentar duas situações por episódio.

Os personagens fixos iniciam atuando como coadjuvantes dos atores convidados mas, ao longo dos episódios vão gradualmente ganhando maior presença, se estabelecendo como protagonistas no final.

Com isso, a série dá atenção aos dois lados da história: o lado que apresenta as situações vividas pelas grávidas e outros pacientes, e aquele que mostra como as enfermeiras que atuavam como parteiras conseguiam equilibrar seu trabalho com sua vida pessoal.

O texto, embora previsível e sem grandes reviravoltas, traz boas situações desenvolvidas de forma simples e direta. Sem a intenção de debater ou solucionar os problemas sócio-culturais do período, a série se limita a introduzir essas questões para que o público possa compreender o comportamento dos personagens.

O texto abaixo contém spoilers.

No primeiro episódio conhecemos Jenny Lee (Jessica Raine), personagem que representa a autora do livro. Deixando para traz o conforto de seu lar e da família, tentando esquecer sua paixão por um homem casado, ela chega no convento Nonnatus disposta a permitir que suas novas experiências a façam esquecer seus próprios problemas. Sem saber que viveria e trabalharia em um convento, Jenny chega no local achando que tinha sido designada para uma clínica particular. Logo ela é apresentada às freiras que mantêm o local.

Jenny Lee e a irmã Monica Joan

O grupo é formado pela irmã Julienne, interpretada por Jenny Agutter, que ficou conhecida pelos fãs de ficção científica pelo filme da década de 1970 Logan’s Run.

Julienne é a freira que está no comando do convento. Serena e compreensiva, porém firme, Jullienne tem sempre uma palavra sábia ou uma opinião clara sobre as situações que se apresentam ou sobre as pessoas.

Irmã Evangelina (Pam Ferris, de Little Dorrit) é a freira com um olhar prático da vida e das pessoas. Mantendo uma postura de bulldog, ela é um cão que ladra mas não morde.

Irmã Bernadette (Laura Main, de Murder City) é a mais jovem do grupo. Ainda insegura, ela precisa dos conselhos e das orientações das demais freiras, embora consiga realizar seu trabalho de forma objetiva.

A personagem protagoniza uma bela cena em um dos episódios. Depois que as enfermeiras, tendo passado horas se arrumando, saem para uma noitada na cidade, Bernadette volta para o quarto, agora vazio, e ao se olhar no espelho, retira os óculos e o hábito, admirando a mulher que existe por baixo do véu de freira.

O grupo se completa com a irmã Monica Joan (Judy Parfitt, de Little Dorrit e Plantão Médico/ER), a mais velha das freiras, que começa a apresentar os primeiros sintomas de demência. Irreverente, esperta e bem humorada, ela gosta de provocar a revolta da irmã Evangelina tomando atitudes contrárias àquelas que a colega espera dela. Até que chega o momento das demais freiras questionarem se a atitude faz parte da personalidade irreverente de Monica Joan ou se este seria um sintoma de senilidade.

Nos dois primeiros episódios, Jenny conhece as outras jovens enfermeiras que, como ela, vivem no convento trabalhando como parteiras. Trixie Franklin (Helen George) faz o estilo Marilyn Monroe. Preocupada com a aparência e apaixonada pela vida, da qual ela espera um dia tirar melhor proveito, Trixie tem um único sonho imediato: pintar as unhas sem a preocupação de estragá-las com o uso excessivo de luvas. É ela quem ensina a Jenny pequenos truques para manter a boa aparência em um lugar tão depressivo, como por exemplo utilizar  comprimidos para dor de cabeça como botão para prender a meia nylon no elástico. Apesar de seu aparente comportamento fútil e distanciado dos problemas de suas pacientes, Trixie tem uma visão muito clara do sofrimento que a cerca e de sua responsabilidade para com as pessoas que ela atende.

Outra colega de Jenny é Cynthia Miller (Bryony Hannah, vista em Above Suspicion), uma jovem romântica e tímida que com sua aparência frágil revela ter uma grande força de caráter. Capaz de se identificar com os problemas de seus pacientes, a ponto de se envolver emocionalmente, Cynthia se torna confidente de Jenny.

Jenny Lee

O grupo de enfermeiras se completa com a chegada de Chummy, apelido de Camilla Fortescue-Cholmondeley-Browne (Miranda Hart, da sitcom Miranda).

Filha de uma mulher da alta sociedade que passa a maior parte do tempo no exterior, Chummy é uma jovem que passou a vida lutando contra o preconceito das pessoas em relação à sua aparência.

Sua estatura grande, tanto em altura quanto no peso, e desajeitada a levou a ter baixa autoestima. Mas ao invés de manter uma postura amarga diante da vida, Chummy prefere olhar sempre o lado positivo.

Por isso não se deixa abater quando a irmã Evangelina coloca em dúvida sua capacidade de se tornar uma boa parteira.

Para exercer o cargo, Chummy se vê obrigada a se adaptar ao ambiente, aprendendo uma rotina de vida com a qual não está acostumada. Entre elas, aprender a andar de bicicleta para poder atender suas pacientes com mais rapidez.

No convento também vive Fred (Cliff Parisi), o caseiro, jardineiro e faz tudo do local. Bem humorado e com sonhos de ficar rico, ele está sempre buscando investir em novas formas de ganhar dinheiro, algumas das quais podem ser considerados ilegais, dependendo do ponto de vista.

O elenco da série se completa com Ben Caplan (Band of Brothers), que interpreta o oficial Peter Noakes, que se apaixona por Chummy; Stephen McGann, marido da roteirista, como o Dr. Turner, que atende na clínica montada pelas freiras; e George Rainsford (Waking the Dead/Despertando os Demônios), como Jimmy, jovem apaixonado por Jenny.

De longe as freiras são as melhores personagens da série. Com personalidades distintas e irreverentes, elas são consideradas excêntricas para a época. A roteirista soube dosar sua presença na trama. Nos primeiros episódios elas estão praticamente em terceiro plano, atrás das pacientes retratadas em cada episódio e das jovens parteiras. Mas conforme a temporada progride, elas ganham maior espaço, tal qual as parteiras, chegando ao ponto de estrelar o último episódio.

As situações apresentadas na série são as mais diversas, sendo que em alguns episódios vemos as enfermeiras cuidando de outras pessoas, não apenas as grávidas, simplesmente porque elas não tinham a quem recorrer.

Chummy e uma de suas pacientes

A temporada inicia apresentando ao público a história de uma mulher espanhola que está em sua 23ª gravidez.

A situação desta mulher soa meio forçada, mesmo que possa ser verdadeira, já que ela vive na Inglaterra desde seu primeiro filho e até agora não fala uma única palavra em inglês. O mesmo vale para o marido dela, um britânico que até agora não sabe nada de espanhol. Para se comunicar a mulher conta com a ajuda da filha mais velha, que atua como intérprete. Também no primeiro episódio vemos Pearl, uma grávida que não percebe sofrer de uma doença venérea.

Ao longo da temporada conhecemos outros casos, como a de uma prostituta grávida acolhida por um padre, que tem seu bebê entregue à adoção sem seu consentimento, algo que era considerado uma prática comum; um ex-combatente de guerra que perdeu esposa e filhos e agora vive sozinho, na imundície e na doença; uma mulher de quarenta e poucos anos que se casou com um homem mais velho apenas para ter segurança financeira e acaba tendo um filho de outro homem; uma mulher que passa por depressão pós-parto agravada com o sequestro de seu bebê; e um jovem casal, formado por almas gêmeas, que se vê separado pelo destino quando a mulher grávida entra em coma. Todas as histórias são apresentadas com uma abordagem leve, com soluções vistas no mesmo episódio em que são introduzidas.

Os dois últimos episódios da temporada dão à série um outro ritmo, visto que as situações apresentadas estão diretamente relacionadas aos personagens do elenco fixo. Jenny precisa definir sua relação com Jimmy, de quem ela deseja apenas amizade, e Chummy precisa enfrentar sua mãe e suas neuroses quando o oficial Noakes lhe propõe casamento. O último episódio é estrelado pelas freiras, que se surpreendem ao descobrir que a senilidade da irmã Monica Joan a levou a praticar pequenos roubos.

O penúltimo episódio traz uma situação interessante. Nele vemos Jenny ajudando as freiras a cuidar do irmão de Peggy, faxineira do convento. Ele sofre de câncer no pâncreas e está à beira da morte, fato que Peggy não consegue aceitar. Durante os cuidados do paciente, Jenny descobre que os irmãos vivem como marido e mulher, dormindo na mesma cama. Entre todas as situações propostas ao longo da série, o final desta história foi a única que surpreendeu.

Esta é uma série que soube equilibrar o ambiente histórico cultural com o estilo narrativo escolhido pela produção. Equilíbrio que faltou na série americana Pan Am, por exemplo, que optou por glamourizar o período e as pessoas retratadas na trama, o que levou ao esvaziamento dos personagens e das situações propostas. Call the Midwife optou pela idealização, sem se afastar demais da realidade. Com isso, o ambiente, que ficou em segundo plano em relação aos personagens, consegue se estabelecer como base referencial de comportamento.

Call the Midwife é uma série indicada para pessoas que não gostam ou já estão cansadas de assistir a dramas que só valorizam a luta pelo poder, os desejos de vingança, as famílias disfuncionais, os criminosos e os assassinos ou as conspirações políticas.

Já renovada para sua segunda temporada, que será composta de oito episódios, a série ainda não tem previsão de quando será exibida no Brasil, estando disponível no mercado internacional.

Cliquem nas fotos para ampliar.

Fernanda Furquim: @Fer_Furquim

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1 Comentário

  1. Sam

    -

    25/02/2012 às 18:46

    Gostei dessa serie! Jenny Lee eh LINDA DEMAIs! Gamei! Haha

 

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