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24/10/2010

às 15:13 \ Opinião, Séries Anos 2010-2019

Opinião: A Primeira Temporada de Rubicon

Elenco de "Rubicon" (Foto AMC/Divulgação)

Quando o canal AMC começou a divulgar a série “Rubicon”, utilizou o termo thriller (suspense) de conspiração política. Notem que o canal não relacionou o termo thriller com ação ou aventura. Se tivesse feito, estaria fazendo uma propaganda enganosa. “Rubicon” é um drama de espionagem e suspense que acompanha a paranóia coletiva do pós 11 de setembro. Diferentemente de “24 Horas”, por exemplo, que é uma série que se apóia na narrativa de ação para retratar a situação dos americanos vivendo a mesma questão.

A série iniciou sua carreira televisiva nos EUA no dia 13 de junho, mantendo ao longo de sua exibição cerca de um milhão de telespectadores. É evidente que não se trata de uma produção voltada para o grande público. Mesmo a crítica divide-se em relação ao desenvolvimento do conteúdo apresentado, embora seja unânime em reconhecer sua qualidade.

Tendo surgido em 1984, com o intuito de exibir filmes de cinema, o canal AMC já produziu cinco séries: “Remember Wenn”, sobre os bastidores de uma rádio na década de 1940; “The Lot”, sobre os bastidores de um estúdio de cinema na década de 1930; “Mad Men”, sobre o mundo da publicidade na década de 1960; “Breaking Bad”, sobre a transformação de um professor de química em um fabricante de drogas; e “Rubicon”. O canal também lançou duas minisséries: o remake de “O Prisioneiro” e “Broken Trail”, faroeste estrelado por Robert Duvall.

Agora o AMC prepara-se para a estreia de “The Walking Dead”, versão dos quadrinhos “Os Mortos Vivos”. Ele tem, ainda, dois outros projetos ‘no forno’: “The Killing” e “Hell on Wheels”. Aos poucos e com um número mínimo de produções, o canal ‘roubou’ da HBO o status de programação de qualidade.

“Rubicon” é claramente inspirada no livro “Os Seis Dias do Condor”, de James Grady, publicado em 1974, obra que foi levada aos cinemas com o filme “Os Três Dias do Condor”, de Sydney Pollack, com Robert Redford, lançado em 1975. Outros filmes de conspirações da década de 1970 também podem ser utilizados como referência à série, mas a trama, o personagem e até o início e o final da história, foram retirados desse filme.

Atenção: nesta postagem comento livremente sobre o conteúdo desenvolvido na primeira temporada da série criada por James Horwitch. Portanto, para não estragar surpresas e evitar inconveniências, aqueles que não assistiram aos episódios não devem continuar lendo esse texto, a não ser que não se importem em tomar conhecimento sobre o que ocorre ao longo da trama, os famosos spoilers.

(E-D) Michael Cristopher e James Badge Dale (Foto AMC/Divulgação)

“Rubicon”, como a maioria das séries produzidas para os canais a cabo, trabalha a desconstrução. Os personagens são introduzidos como parte de uma situação aparentemente normal: o mundo pós atentados do 11 de setembro. Os ataques terroristas já atuaram como ativador para a desconstrução dos personagens, que agora estão acomodados ao ambiente que surgiu desse fato. Mas, a partir de uma nova situação, eles serão novamente desconstruídos.

“Rubicon” explora delicadamente o ambiente depressivo e paranóico que se formou em uma sociedade constantemente ameaçada pelo terrorismo. Desenvolvendo um roteiro onde muitas mudanças ocorrem sem que muita coisa aconteça, “Rubicon” leva os personagens a compreenderem que estão inseridos em um ambiente muito mais complexo que o ‘simples’ fato de existir uma organização terrorista tentando destruir o império americano.

Nas palavras de Júlio César, Imperador romano, atravessar o rio Rubicon significava não poder mais voltar atrás. O produtor Henry Brondell, ao divulgar “Rubicon”, enfatizou a referência da série à metáfora da travessia do rio, que determinou o fim da República e o início do Império Romano.

Com um texto muito bem conduzido, sem deixar de lado a sensibilidade dos personagens ou da situação, trabalhando favoravelmente com os clichês do gênero, a série apóia-se em questões reais, sem apelar para atos heróicos ou ‘milagres’ de última hora que satisfaçam o ego e a adrenalina do público. A série faz um retrato do ambiente caótico vivido por um grupo à margem de uma sociedade que, por sua vez, sobrevive à sombra de atos terroristas e suas implicações.

A trama introduz três histórias separadas que, ao longo de 13 episódios, convergem, chegando a um final que une todas as pontas. Deixa, porém, algumas situações em aberto pelas quais a segunda temporada poderá existir. Mas se for cancelada, a série terá dado ao público uma história com começo, meio e fim. Basta, para tanto, que o telespectador consiga deixar a ansiedade e a fome por ação e explosões de lado e aceite ao convite de Horwitch e Bronell para acompanhar o desenrolar da série.

James Badge Dale e Miranda Richardson (Foto AMC/Divulgação)

A primeira trama é a história de Will Travers tentando entender o que levou seu amigo e chefe, David Hadas, à morte. A segunda é a história de Katherine Rhumor, que faz o mesmo em relação ao suicídio de seu marido Tom. A terceira trama gira em torno das investigações acerca das atividades de grupos terroristas, realizadas pela American Policy Institute – API, órgão (ficcional) do governo onde Travers trabalha.

Em uma atmosfera apática, as três  histórias se unem, revelando uma quarta trama, que retrata uma das atividades terroristas mais antigas praticadas na sociedade, seja por grupos independentes ou por órgãos do governo: o lucro financeiro a partir do uso de informações privilegiadas ou plantadas. Assim, pessoas são capazes de determinar os rumos da política e economia nacional e internacional. Para a segunda temporada, resta responder algumas questões em aberto, sendo a principal delas: quem são cada uma dessas pessoas e quais as consequências da descoberta de sua existência?

Trata-se do mesmo tipo de trama vista em “Os Três dias do Condor”, sendo que a série termina com o mesmo tipo de frase dita no filme, embora com significados distintos. Enquanto que Truxton pergunta se alguém irá se importar em tomar conhecimento das descobertas de Travers, no filme o personagem equivalente pergunta à Joe (Redford) se ele tem certeza que o jornal irá publicar as informações descobertas por ele.

A série se desdobra como um quebra-cabeças, que não chega a ser tão complicado quando as peças começam a se juntar. Embora não tenha sido montado a tempo, revela um panorama que irá alterar as vidas daqueles que estão envolvidos, em especial a de Will Travers. Como ele irá agir daqui para frente com o conhecimento que tem dos fatos?

A atmosfera proposta pela série é o personagem principal da história. É ela que conduz o desenvolvimento da trama e dos personagens. ‘Atados’ a um lugar, a um pensamento e a um comportamento, eles contribuem com o clima de confusão psicológica e depressiva de um ambiente aparentemente vazio. Com um desenvolvimento que parece congelado entre um minuto e outro, os personagens, sem ação diante de uma situação a qual não sabem de imediato como resolver, agem como se estivessem à ‘espera de Godot’. Tentam adivinhar quem ele é, quando ele chegará e o que fará.

Lauren Hodges (Foto AMC/Divulgação)

Cada um tem suas vidas particulares destruídas pelo trabalho e pelo ambiente em que vivem. Sem compreenderem a razão exata dos motivos que os levam a dar as costas a tudo, uma parte dos personagens, ao longo da série, percorre um caminho que os faz desejarem voltar às suas vidas normais, afastando-se da paranóia em que vivem.

Apesar de desenvolver uma história ambientada nos EUA após os ataques do 11 de setembro, a série oferece um ambiente com cenários e figurinos retrô. Ao longo da história, não vemos a parafernália eletrônica presente na maioria das séries de mistérios, suspense e ação, que geralmente são utilizadas para ‘cortar caminho’, poupando os personagens do ato de pensar, tendo as informações necessárias sendo disponibilizadas por máquinas.

Em “Rubicon”, os cérebros dos personagens, em toda sua capacidade limitada, são as máquinas que calculam, cruzam informações, levantam questões e as respondem, para que heróis de ação tomem atitudes. Fechados em um prédio pequeno, compacto, acessível apenas por uma porta, eles representam as máquinas de computador que fazem ‘milagres’. Mas, podemos dizer que a máquina contém um vírus ou então, que é comandada por uma pessoa que utilizará as informações a seu bel prazer, não sendo, necessariamente, para o bem da humanidade.

O canal AMC encomendou a produção do episódio piloto de “Rubicon” em agosto de 2008. A série surgiu com a proposta de explorar uma abordagem diferente daquela normalmente utilizada pelo gênero espionagem da TV. Ainda não há informações quanto ao seu futuro. Mas certamente a produção já marcou terreno.

O gênero de espionagem começou a ser explorado pela TV ainda na década de 1950, mas foi com o sucesso dos filmes de James Bond nos cinemas que as séries passaram a moldar suas histórias a partir do estilo de aventuras vividas pelo agente 007. Mesmo “Missão: Impossível”, que surgiu no final dos anos de 1960 com a proposta de apresentar histórias mais ‘cerebrais’ e existenciais, não chegou ao nível que seria visto nos filmes do gênero da década de 1970. Essa transformação ocorrida nos cinemas não foi acompanhada pelas séries de TV americana. Nessa época, as produções eram mais voltadas ao gênero policial, com perseguições e tiroteio.

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9 Comentários

  1. Edu Montel

    -

    26/10/2010 às 23:51

    Pra mim a inovação de Rubicon em focar na inteligência e não nas “explosões” já fez dela uma das melhores séries de espionagem, mesmo só com uma temporada. Porque não fizeram isso antes? Espionagem do mundo real tem muito mais a ver com análises e relatórios do que super agentes e parafernálias. Outra coisa que achei genial é que assim como o pessoal da API, nós telespectadores também precisamos analisar constantemente o que vemos para aproveitar o show por completo. AMC realmente está com tudo!

    Adorei a analogia com o prédio da API Fernanda, só achei que faltou falar um pouco mais do vírus (melhor personagem pra mim). Evitando spoilers né? :)
    Você arrisca um palpite se teremos uma 2ª temporada? Obrigado

  2. Cássia

    -

    26/10/2010 às 4:13

    Eu gostei muito da série, muito. Especialmente desse tempo lento, em que vamos descobrindo as coisas aos poucos. E a ausência de alta tecnologia não me incomoda. Afinal, lidam o tempo todo com aquilo que os outros não podem saber e nada melhor para esconder isso que utilizar papel e o armário do banheiro do vizinha. Parece bobagem, mas isso limita qualquer outro tipo de acesso. Achei genial.

  3. Renato

    -

    25/10/2010 às 22:52

    bela análise da série

    acompanhei e gostei bastante, a série lida bastante com o fracasso em diversos níveis, tanto que nem conseguem evitar a ameaça que tentaram tanto evitar e vários personagens deixam de realizar ou conquistar algo, mas a série mostra como cada um lida com seu fracasso particular – uns subindo de cargo, outros largando o emprego…

    o único porém foi inserir a vizinha pintora na trama de espionagem, achava que ela separada disso seria muito melhor, evitando um clichêzão

    espero que haja uma segunda temporada

  4. mj14

    -

    25/10/2010 às 19:30

    Gostei muito da serie espero que tenha segunda temporada, ainda tem muita coisa para ser respondida.

  5. Silvinha

    -

    25/10/2010 às 18:10

    Eu gostei. Mas o início foi muito lento. Até demais. A estrutura da empresa é meio precária pros dias atuais. A menos que a história seja datada, o que eu não percebi. Mas depois da gente entender a trama, a história fica boa.

    Espero que eles tenham aprendido com a situação e deixem a 2a. temporada mais dinâmica. As séries inglesas fazem isso super bem. Não tem que ser CSI, mas pode ser Breaking Bad. Uma boa história muito bem contada.

    Espero um melhor desenvolvimento das personagens. Ficou tudo muito focado no Will.

    Prá mim, neste ano, foi uma bela surpresa, junto com Luther.

  6. Thiago Oliveira de Araújo

    -

    25/10/2010 às 10:34

    Rubicon é um seriado complicado e que exige do telespectador uma participação ativa cerebral para ser entendido e apreciado. Acho que é justamente esse esforço que afastou o público médio, mesmo sendo um canal a cabo. Em um outro gênero, penso que por esse mesmo problema passa nesse momento Caprica, onde todos, absolutamente todos os personagens são antagonistas. Corajosos são os showrunners que estão investindo nesse tipo de produção, porque de fast story estou cheio.

  7. RicarDFT®

    -

    25/10/2010 às 2:24

    Talvez o enredo já tenha se desenrolado todo emapenas uma temporada, mas seria muito bom, ao menos, uma 2ª temporada!!
    Muito acima da média!!

  8. Luiz Castanheira

    -

    24/10/2010 às 17:10

    Minha estréia favorita de 2010, simples assim. É sempre bom ver um mestre, como Henry Bromell, em ação. Boardwalk Empire, a inflacionada estréia (resposta?) da HBO, SIMPLESMENTE não tem como encarar o line-up combinado da AMC… E que venha The Walking Dead (risos).

  9. Estácio Silva

    -

    24/10/2010 às 15:57

    Só sei que, depois de assistir aos episódios da primeira temporada de Rubicon, torço para a vinda de uma segunda temporada.

    Até que enfim puder assistir algo diferente, fora do padrão “24 Horas”.

    Série muito boa!


 

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