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Saraiva

26/07/2011

às 12:51 \ Curiosidades etimológicas

Do mercenário grego ao ladrão dos cofres públicos

A palavra que deu origem ao termo ladrão, o latim latro/latronis, foi importada do grego com um sentido diferente: o de soldado mercenário, ou seja, aquele que não devia lealdade a nenhum senhor, mas estava disposto a matar e saquear por quem lhe pagasse mais.

O caráter nefasto de tais indivíduos acabou por gerar no próprio latim uma extensão semântica que logo abarcava os sentidos de “salteador, bandido, bandoleiro, ladrão, malvado” (Saraiva).

Quando a palavra chegou ao português, ainda no século 11, com a grafia ladrones, a memória do mercenário já estava perdida. O ladrão era então, como hoje, “aquele que furta, rouba, se apodera do alheio” (Houaiss).

De todo modo, é uma prova da sutil permanência de certas ideias que políticos ladrões sejam sobretudo os mercenários, aqueles que não devem lealdade a nenhuma ideologia, mas estão dispostos a engordar a base de apoio de quem lhes pague mais.

07/06/2011

às 15:49 \ Curiosidades etimológicas

O procurador procurou?

Se quem procura, acha, será que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, procurou direito?
A frase pode funcionar como piada de salão, mas traz embutida de propósito uma confusão etimológica. Embora sejam derivados no fim das contas do mesmo termo latino, procurare, o substantivo procurador e o verbo procurar, com o sentido de “buscar, empenhar-se em encontrar”, foram se distanciando semanticamente ao longo dos séculos.

O procurador permaneceu próximo do sentido original de procuratoris: “o que está encarregado de alguma coisa, o que tem a seu cargo um cuidado, o que administra”, segundo o dicionário Saraiva. Vêm daí tanto a acepção de “advogado que zela pelos interesses do Estado” – de onde saiu o nome do cargo ocupado por Gurgel – quanto a de “alguém que tem procuração, isto é, autorização para administrar os negócios de outra pessoa”.

Não fica claro quando foi que procurare, que no latim clássico se limitava ao campo semântico acima, acabou por adquirir o sentido que hoje é hegemônico em português. O certo é que ao desembarcar aqui, no século 14, a palavra já tinha esse significado.

Se as datas são nebulosas, não é difícil entender a lógica de tal transformação. O procurador e a procura trazem embutidos o termo latino cura, isto é, “cuidado, zelo, administração, supervisão”. A mesma palavra e a mesma ideia que estão presentes na cura do vocabulário médico, no cura do vocabulário religioso, na curadoria do vocabulário artístico e na curiosidade do vocabulário de todo mundo.

É justamente na curiosidade que, se formos curiosos, vamos encontrar as pegadas deixadas pelo verbo “procurar” ao se distanciar de sua origem administrativa para ganhar o sentido investigativo hoje dominante. Saraiva de novo: curiositatis é “cuidado, diligência em buscar uma coisa… busca, procura cuidadosa… desejo, empenho de saber, conhecer, achar, descobrir”.

Pode-se reformular então a pergunta lá de cima: será que o procurador-geral fez justiça à curiositatis?

22/02/2011

às 17:14 \ Curiosidades etimológicas

O presente que o presente nos dá

No dia do aniversário de uma pessoa para lá de querida, mergulho nos livros para entender por quais caminhos a palavra presente – do latim praesentis, “que está à vista, ao alcance da mão; manifesto, imediato” – chegou a ter sentidos tão diferentes quanto “tempo atual”, que é óbvio, e “oferenda, regalo, mimo”, que é bem menos evidente.

Os etimologistas que consultei, como Antenor Nascentes e Silveira Bueno, não explicam essa ampliação semântica – e o Houaiss, habitualmente um atento compilador etimológico, também se cala. Tais consultas me informaram apenas o que eu já supunha: que a palavra é uma só, com acepções diversas.

Segundo o clássico dicionário Saraiva, não foi no próprio latim que o presente ganhou de presente o sentido de regalo. Sendo assim, é curioso que a palavra present tenha desembarcado no inglês com esse significado mais de dois séculos antes de, por volta de 1500, passar a significar também “tempo atual”.

A explicação parece estar no francês. Data de cerca de 1140 o emprego de présent com o sentido de oferenda, substantivo formado regressivamente a partir do verbo présenter, “apresentar”. Ou seja: tornar presente, por ao alcance da vista e da mão, como se viu no primeiro parágrafo ali em cima.

O que fecha o círculo dos sentidos tão bem quanto um laço de presente.

12/02/2011

às 9:00 \ Palavra da semana

A queda e a queda de Mubarak

O substantivo queda é uma progressão da forma arcaica caeda, particípio de cair – que hoje seria, como de fato é na língua informal, “caída”. Ir ao chão é o sentido primordial do verbo cair desde o latim cadere, mas, enquanto o Egito festeja a queda de seu ditador, vale lembrar que os sentidos figurados desse tombo já estavam presentes na língua de Cícero, como se pode ver no clássico “Dicionário Latino-Português” de Saraiva:

1. Cair, escorregar;
2. Cair no combate, morrer, perecer; ser imolado, sacrificado;
(…)
4. Abaixar, por-se, declinar, descer ao ocaso;
5. Desfalecer, cair sem forças, ficar sem alento; perder o ânimo, a coragem;
6. Cair da dignidade, honra, posição, decair, ficar por baixo; ter mau resultado numa tentativa, sair-se mal dela; decair da causa, da demanda, ficar vencido…

06/11/2010

às 8:30 \ Palavra da semana

A transição é parente da transigência

Iniciada a temporada de passagem de bastão na presidência da República, chamada no vocabulário político de transição, a etimologia nos ajuda a jogar alguma luz sobre as ações que se agrupam em torno do verbo latino transire, que significa “passar de um lugar (ou estado) a outro”. Verbo rico, de cujo tronco brotaram o trânsito (transitus) e a transição (transitionis), ambos com o sentido de “ação de passar, passagem” e ambos sujeitos a engarrafamentos, seja pelo excesso de veículos ou de políticos em busca de cargos no novo governo.

Em campo semântico próximo, encontramos ainda a transigência, do latim transigire, com uma diferença: o sentido que adotamos em português para o ato de transigir – ou seja, ceder para chegar a um acordo, conciliar, acomodar – concentrou-se numa das acepções secundárias assumidas pela palavra na língua de Plínio, o Velho (o erudito romano, não o candidato do PSOL). Transigire era antes de mais nada “varar de lado a lado, traspassar, atravessar”. Transigia-se o peito do inimigo com uma lança, por exemplo. Menos conciliador, impossível.

E como foi que uma palavra tão agressiva chegou a assumir sentido quase oposto? Pela ideia de chegar à conclusão de um processo, de dar fim à desavença entre duas partes, fosse comercial ou jurídica. Atravessava-se o conflito, saía-se do outro lado, o que incluía necessariamente a ideia de concessão que terminou sendo dominante em português. O Dicionário Latino-Português de Saraiva registra transigire usado nesse sentido de concluir uma negociação por Cícero e Quintiliano, entre outros.

Entre a espada no peito e a acomodação, alguém tem dúvida de qual acepção – apesar da desfeita inicial de não convidar seu companheiro de chapa para a primeira reunião de transição – a presidente eleita Dilma Rousseff acabará adotando com o PMDB?

25/09/2010

às 12:35 \ Palavra da semana

Liberdade de imprensa é só liberdade

Os antigos romanos, em cuja libertas o português foi buscar no distante século 14 a palavra liberdade, não julgaram necessário qualificar o substantivo para que ele tivesse o sentido, entre outros, de liberdade de expressão – ou, como também aparece no clássico dicionário latino-português de Saraiva, “liberdade (de falar)… independência de linguagem, franqueza, ousadia, atrevimento (no falar)”. Saraiva informa que o poeta Horácio e o historiador Tácito, por exemplo, empregaram libertas com tal significado. Compreensível. Como dissociá-lo das ideias que formam o núcleo semântico da palavra liberdade – condição de pessoa livre, liberdade política, democracia?

Bom, estava escrito que nada seria tão simples. Assim como a condição de cidadão livre, longe de ser universal, era um privilégio na orgulhosa democracia de Horácio e Tácito, a história da humanidade provou desde então ser necessário lutar de forma constante, jurídica e politicamente, por cada palmo de terreno da ideia de liberdade, inclusive – e talvez principalmente – a de expressão, da qual deriva a de imprensa.

A famosa primeira emenda à Constituição dos Estados Unidos da América, aprovada quatro anos após a promulgação do texto principal de 1787, tratava de resguardar textualmente a liberdade de expressão e de imprensa. Em 1789, na França, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão pregava que “todo cidadão pode falar, escrever e exprimir-se livremente”. A maioria dos países ocidentais seguiu as deixas em suas constituições. Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos voltou a bater na mesma tecla.

De tão reiterada e praticamente unânime, a liberdade de expressão e de imprensa acabou por entrar numa zona de risco que poderia ser chamada de pós-moderna, onde está até hoje. Nesse lugar, belas ideias correm o perigo permanente de virar ornamentos, cascas esvaziadas de substância. No auge da última ditadura brasileira, por exemplo, a Emenda Constitucional de 1969 usou a amplitude das “ressalvas” à liberdade de expressão como veneno liberticida:

É livre a manifestação de pensamento, de convicção política ou filosófica, bem como a prestação de informação independentemente de censura, salvo quanto a diversões e espetáculos públicos, respondendo cada um, nos termos da lei, pelos abusos que cometer. É assegurado o direito de resposta. A publicação de livros, jornais e periódicos não depende de licença da autoridade. Não serão, porém, toleradas a propaganda de guerra, de subversão da ordem ou de preconceitos de religião, de raça ou de classe, e as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes.

Mas o que são, trocando em miúdos, a moral e os bons costumes, ou quaisquer fórmulas genéricas do tipo? O que o tirano da vez quiser que sejam, é óbvio. A liberdade tem a mania de ser uma ideia das mais vigorosas e, ao mesmo tempo, estar sempre por um fio. Como a vida.

21/09/2010

às 14:04 \ Curiosidades etimológicas

Estelionato, uma palavra que muda de cor

Todo estelionatário deve o nome de sua especialidade criminosa ao estelião, um lagarto capaz de mudar de cor para burlar seus inimigos – em analogia clara com o crime de fraude, logro, engodo, também chamado popularmente de 1-7-1 por causa do artigo que lhe coube no Código Penal: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”. Pena: de um a cinco anos de reclusão e multa.

O réptil cujo nome latino era stellio (derivado, por sua vez, de stella, estrela, por conta do formato das pintas que lhe cobrem o corpo) foi associado bem cedo à falsidade humana. No segundo século da era cristã, o escritor Lúcio Apuleio – autor daquele que alguns consideram o primeiro romance da história, “O asno de ouro” – usava a palavra com o sentido figurado de “velhaco, trapaceiro, enganador”, segundo o dicionário latino-português de Saraiva. Mas o vocábulo “estelionato” só desembarcaria em nossa língua no século 17.

Como o sentido figurado é uma força que não pode ser detida, a palavra que saiu do reino animal para virar caso de polícia continua sua marcha rumo a novos horizontes. Hoje é relativamente comum vê-la nomeando certos tipos de enganação que não se enquadram (infelizmente?) no Código Penal, como “estelionato eleitoral”, aquele praticado por candidatos que burlam o eleitor, prometendo o que não pretendem cumprir.

21/08/2010

às 9:35 \ Palavra da semana

O nome disso é Justiça?

A palavra justiça vem do latim justitia, que, além do sentido de “direito escrito, leis”, tinha os de equidade, justeza, exatidão (do peso), bondade, benignidade, afabilidade e brandura, segundo o clássico “Dicionário Latino-Português” de Saraiva. Que acrescenta outra informação curiosa: a palavra derivou do adjetivo justus e não o contrário, o que sugere a existência de um solo intuitivo de percepção daquilo que é justo – que tem a devida medida, conveniente, suficiente, legítimo, como está no dicionário – antes que sobre ele se erguesse a catedral das leis.

Faltando esse solo – que não é de composição muito diferente daquela terra firme chamada bom senso –, a catedral simplesmente desmorona. Está acontecendo agora no Brasil. Ontem fez dez anos que o jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves matou sua ex-namorada Sandra Gomide com dois tiros, o primeiro pelas costas e o segundo na cabeça. Réu confesso, condenado em primeira e segunda instâncias, nunca cumpriu a pena. Aguarda em liberdade o julgamento de seu recurso pelo Supremo Tribunal Federal.

03/08/2010

às 14:09 \ Curiosidades etimológicas

Se propina é suborno, suborno é o quê?

Já que falamos outro dia do processo de corrupção que se abateu sobre a palavra propina, acabando com sua inocência semântica original, vale a pena dar uma olhada na palavra que leva em todos os dicionários o sentido que o português brasileiro, à revelia dos lexicógrafos sonolentos, decidiu dar ao termo: suborno.

A curiosa história do verbo subornar revela um parentesco que pouca gente imagina com o verbo ornar – ele mesmo, sinônimo de enfeitar, adornar, ornamentar. Ambos vêm do latim ornare, que, segundo o clássico dicionário latino-português de Saraiva, quer dizer “ornar, vestir, aprestar, armar, prover”.

E por que o sub antes de ornare? Bem, uma das muitas funções do prefixo latino sub, segundo o Houaiss, é indicar “ação furtiva, oculta” – e um dos exemplos que o melhor dicionário da língua portuguesa cita, ao lado do adjetivo sub-reptício, é exatamente o verbo subornar.

Isso quer dizer que, na origem, subornar o guarda era dar a ele uma pulseira de ouro? Mais ou menos isso. A palavra suborno carrega bem à vista a ideia de um presente furtivo, um agrado que se faz a alguém, com intenção inconfessável, quando ninguém mais está olhando.


 

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