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Guimarães Rosa

19/06/2012

às 15:01 \ Curiosidades etimológicas

Aliança com Maluf? Melhor chamar de pacto

Lula aperta a mão de Maluf: qual é a palavra certa? (Brazil Photo Press/Folhapress)

Quando a palavra aliança foi importada no século 15 do francês alliance, este era um termo de três séculos de idade que tinha sobretudo o sentido de união conjugal, casamento – um significado tão dominante que acabou por dar origem, por metonímia, à acepção “anel que simboliza noivado ou casamento”. Só num segundo momento a palavra passou a ser empregada para designar casamentos simbólicos, de interesse político. Estes se davam a princípio apenas entre Estados soberanos e não era raro que envolvessem também casamentos literais.

Em última análise, o francês tinha ido buscar alliance no verbo latino alligare, com sua penca de sentidos que iam de “atar, ligar, enlaçar, unir” a “prender, imobilizar” e “obrigar, constranger”. Nenhuma surpresa nisso: todo mundo sabe – e se por juventude ou ingenuidade não sabe, vai acabar aprendendo – que o compromisso entre duas partes firmado em qualquer tipo de aliança, ainda que de bom grado e em clima de festa, envolve alguma medida de cerceamento da liberdade.

Uma particularidade interessante da palavra aliança é seu sentido teológico de “acordo entre Deus e os homens” – a Velha Aliança firmada com Adão e renovada com Noé e Moisés, a Nova Aliança estabelecida por meio da morte de Jesus Cristo, em correspondência direta com o Velho e o Novo Testamento.

De modo geral, religiosa ou não, a palavra aliança tende a se revestir de aspectos positivos. Para entendimentos eleitorais como o do PT de São Paulo com Paulo Maluf, seria mais apropriado usar o termo pacto. Do latim pactum, “acordo, contrato”, esta é uma palavra que a literatura consagrou para nomear negociações entre seres humanos e poderes bem distantes da esfera divina. No romance “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, é em pacto que o sertanejo Riobaldo Tatarana fala quando, numa cena de beleza tão intensa quanto ambígua, acaba sem saber se vendeu ou não vendeu sua alma àquele que chama de “o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos”, entre outros nomes.

06/03/2011

às 9:00 \ Crônica

Faz-me-gerado, falmisgeraldo…

Quem quiser pode ir buscar a inspiração para esta crônica no atual protagonismo político de gente como José Sarney, Paulo Maluf e réus do mensalão. Mas ela não deixa de ser também uma pequena fábula sobre o poder das palavras. No caso, do adjetivo famigerado, que tem duas caras: seu significado original é “famoso, notável”, mas é seu sentido corrente, negativo, que se usa “em dia-de-semana”, como diz Guimarães Rosa no delicioso conto Famigerado, do livro “Primeiras estórias”.

O conto começa tenso, com um desconhecido mal-encarado batendo à porta do narrador, homem culto. Os receios do dono da casa crescem quando o estranho se identifica como Damázio, matador famoso naquelas bandas. Após algumas linhas de suspense, o valente revela que deseja apenas consultá-lo sobre o sentido de uma palavra: fasmigerado… faz-me-gerado… falmisgeraldo… familhas-gerado…. “É nome de ofensa?”, quer saber Damázio.

E de repente, mal tendo saboreado seu alívio, o narrador descobre que foi investido do poder de decidir sobre a vida e a morte de um homem. Dependia de sua resposta o destino do coitado que chamara o matador por aquele nome esquisito.

O narrador explica então que famigerado “é ‘importante’, que merece louvor, respeito…”. Damázio fica satisfeito e tudo termina bem. Leitores mais cultos que ele, sabemos que o matador foi enredado numa sutileza semântica. O narrador não mentiu, mas mostrou apenas o lado bom de famigerado, omitindo a face escura que a palavra adquiriu com o tempo: “que tem má fama”.

Uma vitória do conhecimento sobre a força bruta? Sem dúvida, mas uma vitória precária. Para salvar a vida de um desconhecido, o narrador de Rosa hipoteca a sua. E se, após o fim do conto, quando já não estivermos olhando, Damázio descobrir a verdade?

27/01/2011

às 16:02 \ Consultório

História x estória, um conflito histórico

“Oi, Sérgio! Qual sua posição sobre o uso de história x estória? Sei que as duas palavras existem, o Volp aceita ambas igualmente, mas o Aurélio (de antes e depois da reforma) recomenda apenas o uso de ‘história’, tanto para ciência histórica quanto para ficção. Pesquisando na internet, nenhuma outra fonte faz essa recomendação. Trabalho como revisora e tive problemas com isso hoje.” (Licia Matos)

É muito interessante a questão trazida por Licia. Antes de mais nada, minha posição pessoal: nessa eu fico com o Aurélio e com os portugueses. Como quase todos os escritores de qualquer época que conheço, uso apenas história, acho mesmo que nunca escrevi a palavra estória até este exato momento – pelo menos não que me recorde. Por quê? Algo a ver com velhas recomendações de professores, provavelmente, mas nesse caso nunca vi motivos para me rebelar contra eles e abraçar esse brasileirismo de jeitão anglófilo. A verdade é que a fronteira entre história real (história) e história inventada (estória) me parece fluida demais para tornar funcional a adoção de dois vocábulos. Todo mundo sabe – ou deveria saber – que a história, bem espremida, é cheia de “estórias”. E vice-versa. Acho mais inteligente deixar a distinção a cargo do contexto.

Um dado curioso é que, contrariando o que muitos imaginam, estória não é exatamente um anglicismo recente (do século 20), mas uma palavra mais antiga em nosso idioma do que história – e, a princípio, com o mesmo significado. É o que informa o Houaiss: estória foi registrada em Portugal no século 13 e história, no 14. O melhor dicionário brasileiro acrescenta que, como sinônimo perfeito da segunda, a primeira caiu em desuso. Estória sobrevive hoje apenas como uma peculiaridade brasileira que significa “narrativa de cunho popular e tradicional”. O que me parece ao mesmo tempo vago e restritivo.

Na língua real, a acepção de “estória” acaba sendo mesmo a que aponta Licia: história fictícia, frequentemente mirabolante e inverossímil. Resta a questão de sua origem, que o Houaiss, embora situando o fato sete séculos antes do que acredita o senso comum, confirma ser o inglês story, também esta uma palavra do século 13. No entanto, acrescento eu, vale a pena considerar a hipótese de estória ter derivado – do mesmo modo que story, aliás – do francês arcaico storie, entre outras razões por sua razoável precedência: data de 1105.

Os adeptos do uso de “estória” me parecem francamente minoritários. De todo modo, depois que Guimarães Rosa usou a palavra no título de seu livro “Primeiras estórias”, de 1962 – cujo primeiro conto começa com a frase “Esta é a estória” – não se pode dizer que estejam desprovidos de credenciais literárias. No fim das contas, trata-se de mais um daqueles casos em que cada um deve decidir com a própria consciência e o próprio gosto seu caminho no mundo da língua.

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Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

 

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