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Arquivo da categoria Curiosidades etimológicas

13/03/2012

às 13:30 \ Curiosidades etimológicas

Do subsolo de Roma para o mundo, uma ascensão grotesca

Gravura grotesca do artista flamengo Cornelis Floris (1556)

Numa das acepções para as quais seu sentido acabou por transbordar – de coisa bizarra, ridícula, caricata, repulsiva, monstruosa – a palavra grotesco, substantivo e adjetivo, tem, como se sabe, vasta aplicação na vida contemporânea. Sua origem, porém, é antiga e se situa no campo restrito do vocabulário das artes: o termo italiano grottesco ou grottesca data do Renascimento, ali por meados do século 15, e a princípio nomeava os murais e afrescos descobertos nas escavações da Roma Antiga ocorridas naquela época. A palavra era derivada do italiano grotta, “galeria escura, subterrâneo, caverna”, que também passaria à nossa língua como grota, de sentido correlato.

As velhas pinturas encontradas no subsolo de Roma acabaram por impulsionar o surgimento de um novo estilo que se espalharia pelo restante da Europa, levando com ele a palavra, que penetrou no francês (na época com a grafia crotesque) em 1526 e, por meio deste, no inglês (grotesque) por volta de 1560. A data para o primeiro registro em português é 1548, segundo o Houaiss. Já então o espírito do grotesco era menos renascentista e mais maneirista, no entendimento da maioria dos modernos historiadores da arte, com sua representação de visões fantásticas em que se misturavam formas humanas e animais em cenários de flora extravagante.

Os sentidos expandidos de grotesco, que levaram o termo para passear fora do terreno da arte, surgiram nos séculos imediatamente posteriores. Para Douglas Harper, o termo só ganharia valor pejorativo em inglês ali por meados do século 18, sendo até então empregado apenas como sinônimo de “fantasioso, imaginativo”. Em francês, porém, é certo que a palavra já fosse usada um século antes disso com o sentido pouco lisonjeiro de “que faz rir pela extravagância”, ou seja, ridículo, segundo o Trésor de la Langue Française.

06/03/2012

às 16:05 \ Curiosidades etimológicas

Na origem da covardia, o ‘rabo entre as pernas’

A palavra covarde é uma prova de que não faltam histórias pitorescas no mundo da etimologia séria, o que torna um tanto supérflua a insistência, compartilhada por tantos divulgadores do tema, em espalhar lendas etimológicas por aí.

O vocábulo chegou ao português ainda no século 13, vindo do francês antigo cuard (hoje couard), um termo surgido em torno do ano 1100 com o mesmo sentido. Cuard era derivado de cüe ou coue (atualmente queue), isto é, “cauda, rabo”.

A ideia inicial era, literalmente, a de um animal que, dominado pelo medo, traz a cauda baixa. Ou como se diz ainda hoje em português, numa expressão popular: o covarde é aquele que tem “o rabo entre as pernas”.

28/02/2012

às 14:04 \ Curiosidades etimológicas

Ciganos x Houaiss: faltam judeus, baianos, japoneses…

A palavra de hoje, cigano, está aqui menos pela curiosidade etimológica do que por razões antropológicas. Sua origem guarda algum interesse, mas não tanto quanto o triste destino que acabou tendo em nosso país: o de pivô numa ação grotesca em que o Ministério Público Federal pede a apreensão do dicionário Houaiss por trazer, entre as acepções do vocábulo, esta, devidamente identificada como pejorativa: “que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador”.

Supor que dicionários inventem os sentidos das palavras, em vez de simplesmente registrar com o maior rigor possível os usos decididos coletivamente por uma comunidade de falantes ao longo de sua história, é uma crença obscurantista e autoritária. Sua origem deve ser buscada no cruzamento entre a velha ignorância e uma doença intelectual mais recente: a ilusão politicamente correta de que, para consertar as injustiças do mundo, basta submeter a linguagem à censura prévia.

A ação partiu de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. A última do gênero a ter repercussão semelhante – e que felizmente não deu em nada, como esta também não deve dar – originou-se há cerca de dez anos em Campinas (SP), iniciada por cidadãos de origem judaica contra o mesmo dicionário, que no verbete judeu registra a acepção pejorativa de “pessoa usurária, avarenta”.

Não deve ficar nisso. O Brasil é um país vasto, e, como se sabe, tem poucos problemas verdadeiros, o que deixa ao MPF tempo de sobra para garimpar outros verbetes insultuosos no melhor, mais completo e mais rigoroso dicionário da língua portuguesa. Seguem algumas ideias para poupar aos esclarecidos procuradores parte do trabalho:

1. Baiano – tolo, negro, mulato, ignorante, fanfarrão etc.

2. Japonês – indivíduo estranho, forasteiro ou parasita.

3. Francês – falsamente delicado; hipócrita, fingido.

4. Polaca – mulher da vida, meretriz.

E isso é só o começo! Esses lexicógrafos deviam estar todos atrás das grades, não?

Quanto à etimologia: importamos a palavra cigano no início do século 16 do francês antigo cigain, mas sua raiz mais profunda deve ser buscada no grego athígganos (“intocável”), que o Houaiss define como “nome dado a certo grupo de heréticos da Ásia Menor, que evitava o contato com estranhos, a que os ciganos foram comparados quando de sua irrupção na Europa Central”.

21/02/2012

às 16:55 \ Curiosidades etimológicas

Tanto bate até que batuca

De onde vem a batucada? Da rua ao lado? Da TV? Do coração mesmo das coisas? Só sei que de repente me acorda, a batucada, e resiste aos truques habituais como janela fechada e ar condicionado ligado. A cama treme, o quarto inteiro treme. Indefeso, eu lhe pergunto então: de onde vens, ó batucada? Mas mesmo isto é nebuloso. Certamente a África tem algo a ver com teu passado, certo?

Bem, dificilmente. Parece provável que o verbo bater, do latim battere, esteja no coração do batucar, embora a origem da palavra não seja pacífica. Junte-se à ideia da batida a terminação verbal ucar, a mesma de cavoucar ou cavucar (também esta, veja bem, uma ação repetida, à beira da compulsão), e pronto.

De uma forma ou de outra, o certo é que a palavra batucar vem de longe, pelo menos desde o pioneiríssimo dicionário de Rafael Bluteau, no início do século 18. Do verbo fez-se mais tarde o batuque e a batucada.

14/02/2012

às 15:50 \ Curiosidades etimológicas

De bermuda nas Bermudas

Embora pareça ter sido feita sob medida para o verão brasileiro, a peça de vestuário conhecida como bermuda – ou bermudas – deve seu nome às ilhas Bermudas (em inglês, mais conhecidas como Bermuda, no singular). Trata-se de um pequeno território britânico localizado no Atlântico Norte, a cerca de mil quilômetros da costa dos Estados Unidos, num dos vértices do famoso Triângulo das Bermudas. As ilhas, por sua vez, receberam tal nome por terem sido descobertas (em 1505) pelo navegador espanhol Juan de Bermúdez.

Consta que calças velhas cortadas na altura dos joelhos eram os trajes típicos das turistas americanas que visitavam as Bermudas no século passado. Alguns atribuem o sucesso desses calções a uma lei ou costume local que proibia as mulheres de exibir mesmo uns poucos centímetros das coxas.

Segundo o dicionário etimológico de Douglas Harper, o primeiro registro escrito da expressão Bermuda shorts apareceu no romance The long goodbye (“O longo adeus”), do escritor policial Raymond Chandler, em 1953.

Registre-se como curiosidade que o Houaiss, mesmo reconhecendo que importamos a palavra do inglês americano, situa sua chegada ao português em 1951, dois anos antes da publicação do romance de Chandler. Ou seja: um dos dois dicionários está errado.

07/02/2012

às 15:59 \ Curiosidades etimológicas

Aeroportos são assombrados por velhos galeões

O aeroporto – palavra que um espírito afeito à poesia poderia decompor em algo como porto aéreo, ancoradouro do ar, cais dos ventos – carrega em seu nome para sempre o fantasma do mar que era indissociável do latim portus (“porto, abra, abrigada, enseada, angra, barra”), local seguro para os barcos ancorarem. Não há nada de surpreendente nisso: a própria ação de embarcar num avião continua a pagar tributo às velhas embarcações.

Existe alguma controvérsia sobre qual teria sido a primeira língua a unir o elemento indicador de ar (no caso do português, o antepositivo de origem grega aeros, “relativo à atmosfera”) à palavra porto, a fim de nomear essas grandes estações de embarque e desembarque que agora começam a ser privatizadas no Brasil.

O inglês americano reivindica o pioneirismo: a palavra airport teria aparecido em 1919 para se referir ao campo de aviação Bader Field, fundado em 1910 em Atlantic City. No francês, o primeiro registro de aéroport data de 1922, mas a palavra não seria um anglicismo e sim um neologismo criado por lá mesmo, segundo o Trésor de la Langue Française. De acordo com o filólogo Antenor Nascentes, nosso aeroporto, um termo de 1932, foi decalcado do francês e não do inglês.

31/01/2012

às 13:50 \ Curiosidades etimológicas

A língua, a bunda e a ‘língua bunda’ de Lobato

“A bunda, que engraçada”, já sabia Drummond. “Está sempre sorrindo, nunca é trágica.” Dividida ao meio, tem uma nádega apoiada na linguagem chula e a outra na mais cândida intimidade. Informal sempre, deve-se evitá-la em discursos educados: preferir um clínico glúteos, um anódino nádegas, um inocente traseiro, um tatibitate bumbum, um cômico fundilhos, um pândego pandeiro, um pedante derrière ou mesmo um regionalista tundá – entre outras opções disponíveis num vocabulário vasto.

Afinal, não estamos falando de um “nome feio”? O mais risonho e infantil dos palavrões, mas ainda palavrão? Bem, quase isso. Bunda é um vocábulo que ainda não entregou suas últimas reservas de crueza ao sistema – ao sistema da língua asséptica, polidinha, carimbada. A população brasileira em peso sabe que, no fundo, é bunda mesmo a palavra definitiva para aquele volume musculoadiposo que os seres humanos têm na parte de trás do quadril, em graus variados de proeminência, ao sul de quem é dono dela. Por que, então, o vocábulo conserva-se maliciosamente sorridente, como queria Drummond?

Trata-se de um brasileirismo de origem africana. Veio do quimbundo mbunda, “quadris, nádegas” (sentido que tem também em Angola), e tomou em nosso vocabulário sócio-erótico-anatômico um assento que em condições normais estaria reservado a um filho do latim culus, como ocorreu em Portugal. O pioneiro no registro do vocábulo originado no quimbundo foi o dicionário Constâncio de 1836, o que quer dizer que a bunda já devia saracotear por aí sem certidão de nascimento pelo menos desde o século 18.

Como curiosidade, registre-se o uso que o escritor Monteiro Lobato (foto) gostava de fazer da expressão pejorativa “língua bunda” para designar o português inculto falado pela maioria da população brasileira – em consonância com o sentido de “ordinário, de baixa qualidade” que a palavra conserva até hoje.

Num dos contos de “Urupês”, Lobato menciona jornais populares nos quais “se estampam em língua bunda as facadas que Pé Espalhado deu no Camisa Preta…”. A expressão volta a aparecer em sua correspondência com Godofredo Rangel, reunida em “A barca de Gleyre”, onde a escritora Ana Maria Gonçalves encontrou recentemente uma coleção de declarações abertamente racistas do criador de Narizinho – racismo que tudo indica estar também na origem da locução “língua bunda”.

24/01/2012

às 13:28 \ Curiosidades etimológicas

Pirata: no mar das línguas, o empreendedor sem bandeira

O debate sobre as propostas de legislação antipirataria em discussão no Congresso dos EUA (leia um apanhado geral aqui) pôs em evidência um sentido relativamente novo para uma palavra antiga: pirata. Mas como foi que o corsário, o bucaneiro, bandido temido por séculos nos oceanos do mundo e que tem sua encarnação pop mais famosa no Jack Sparrow da série cinematográfica “Piratas do Caribe” (foto), como foi que o filibusteiro se transformou no pirata da era eletrônica?

Por metáfora, claro. Ou melhor, por uma série de metáforas, uma expansão gradual de sentido que teve como motores as ideias de rapinagem, ilegalidade, ousadia e oportunismo. Antes mesmo de se estabelecer no mundo digital, o sentido hoje em evidência estava maduro: o termo pirata passou a designar em algum momento do século 20 a atividade de copiar analogicamente obras artísticas – discos, livros etc. – sem o pagamento de direitos autorais. Antes ainda, já se registravam em português as acepções de ladrão (genérico), trapaceiro, malandro, arrivista e até namorador.

Todos esses sentidos são derivados do significado original de aventureiro dos mares com o qual a palavra desembarcou em nossa língua em princípios do século 16 – e quem quiser imaginar um desembarque de espada nos dentes, pode. Após uma tabelinha com o italiano pirata, ela vinha em última análise do grego peirates, “aquele que tenta (um golpe), que se arrisca” – palavra que, assim como os vocábulos perigo, perícia e experiência, tem relações de parentesco com o grego peirá, “tentar, empreender”.

Quer dizer que bem no fundo do pirata dorme um empreendedor? É curioso que, falando de pirate, o American Heritage Dictionary destaque entre seus traços distintivos o fato de que ele matava e pilhava por conta própria, isto é, sem estar a serviço de uma “nação soberana”. Ou seja: o que fazia do pirata um bandidão não eram propriamente suas ações, mas a falta de uma bandeira que as legitimasse.

17/01/2012

às 13:46 \ Curiosidades etimológicas

Wiki é um sucesso. Mas o que é wiki?

A esta altura do pagode digital, todo mundo que tenha um mínimo de experiência com a rede mundial de computadores sabe o que é a Wikipedia, e mesmo quem ainda vive num mundo exclusivamente analógico dificilmente terá conseguido escapar das polêmicas notícias recentes sobre o WikiLeaks. Nada disso, porém, torna menos enigmático para a maioria o significado daquilo que os dois sites citados acima, entre muitos outros, têm em comum: a palavra wiki.

No mundo da computação, wiki passou a ser usado como nome genérico de websites colaborativos, ou seja, aqueles cujo conteúdo pode ser modificado pelo usuário. O termo foi criado em 1994 pelo programador americano Ward Cunningham, que desenvolveu o primeiro software wiki e o batizou de WikiWikiWeb. Note-se que as iniciais dialogam com o www de world wide web (rede mundial de computadores), mas Cunningham garante que sua inspiração foi mais prosaica: limitou-se a copiar o nome dos ônibus expressos do aeroporto de Honolulu, Wiki-Wiki, uma expressão regional havaiana que significa “rapidinho”. Cunningham queria destacar a rapidez e a simplicidade de seu programa.

De interesse restrito a programadores em seus primeiros anos, o conceito e suas aplicações tiveram uma explosão de popularidade a partir de 2001, quando foi lançada a Wikipedia. Desde então, uma grande quantidade de empreendimentos digitais tem usado a palavra como elemento de composição para criar suas marcas – como, a partir de 2006, o WikiLeaks. Em 2007, o verbete wiki estreou na versão online do dicionário Oxford.

10/01/2012

às 16:07 \ Curiosidades etimológicas

A hipocondria mora na boca do estômago

A hipocondria, como se sabe, não escolhe nenhuma parte específica da anatomia para atacar: como condição patológica que leva suas vítimas a se preocuparem obsessivamente com a própria saúde, à procura de problemas que muitas vezes acabam se manifestando por meio de sintomas desprovidos de causas orgânicas, ela pode se estender dos pés à cabeça. Etimologicamente, porém, a hipocondria tem residência fixa: localiza-se na parte superior do aparelho digestivo.

A palavra nos chegou no século 18 e é descendente, por meio do latim hypochondria, do vocábulo grego hypokhóndrion, de hypo (“sob, debaixo de”) + khóndrion (“cartilagem” – no caso, a do esterno, osso frontal do tórax). Na antiguidade, acreditava-se que fosse esta a morada da melancolia.


 

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