Saudade ou saudades? Felicidade ou felicidades?

Comumente ouço as palavras saudade, ciúme e felicidade sendo empregadas no plural. Confesso que acho estranho por não conseguir imaginar como possa haver mais de uma felicidade, ou como alguém possa sentir mais de um ciúme… Por isso sempre digo que estou com saudade, ou desejo felicidade no aniversário de alguém. Qual a forma mais adequada? (Rodrigo Bersot)

Em primeiro lugar, Rodrigo, você tem o direito de ser fiel ao singular das palavras saudade, felicidade e ciúme. Não há erro nisso. Mas saiba que também não haveria erro se você as empregasse no plural.

A condenação dos tradicionalistas a uma flexão consagrada como “saudades” se baseia num único argumento: a palavra exprime uma “noção abstrata” e, como tal, não é enumerável. Isso é uma ideia tão antiga e furada – e contrariada por séculos de uso – que até um prócer do conservadorismo gramatical como Napoleão Mendes de Almeida (1911-1998) mostrou-se em dúvida sobre ela.

Em seu “Dicionário de questões vernáculas”, o famoso professor observou que ia ocorrendo com saudade o mesmo que ocorrera com parabém e pêsame, palavras cujo singular caiu em desuso e que hoje só existem no plural. “Já não dizemos que um dia só o plural se venha usar”, concluiu, “mas por ora nada há que opor ao emprego da flexão numérica.” (Sobre isso, vale a pena ler o que diz o professor Paulo Hernandes, discípulo de Napoleão, aqui.)

Tudo resolvido, então? De certa forma, sim. Como ficar à direita de Napoleão Mendes de Almeida em questões gramaticais acarreta a desclassificação sumária do debatedor, poderíamos passar ao próximo item da conversa. Mesmo assim, vale a pena falar um pouco mais sobre essa história.

A “regra” de não levar para o plural substantivos que exprimem “noções abstratas”, se pensarmos bem, é inaplicável de saída: tais substantivos – como a maioria das palavras – tendem a um certo esparramamento semântico sobre a superfície das coisas. No caso do substantivo liberdade, ideia pura, a concretização do plural é clara e pode evocar desde ares escandalosos, libertinos (“tomou liberdades com a jovem”) até o verniz jurídico de cláusulas num contrato político-social (“liberdades civis”). No caso da palavra amor, que nomeia ainda o objeto do amor, também soa natural a flexão: “fulano estava dividido entre dois amores”. Até aí os tradicionalistas vão. O problema, segundo eles, são os abstratos que permanecem abstratos.

O problema verdadeiro, claro, são os tradicionalistas. Porque simplesmente não existe um dique capaz de separar abstração e concretude com tanta segurança. “Felicidades” pode querer dizer “votos de felicidade”. E não é difícil perceber que saudades podem ser enumeradas: de você, das crianças, dos nossos passeios dominicais, da infância, da comida da vovó…. Essa expansão do sentido nuclear das palavras se dá por metonímia e é tão banal – e incontrolável – que tende a passar despercebida.

Isso bastaria para fazer picadinho de uma regra besta, mas nem sempre a lógica da metonímia está por trás do plural de substantivos abstratos. Um outro caminho é o da fórmula convencional, que cristaliza a palavra numa dureza de lugar-comum, moedinha que as pessoas trocam várias vezes ao dia. Foi o que ocorreu com pêsames e parabéns, como observou o professor Napoleão, e é o que ocorre em frases como “mando lembranças”, “estou com saudades”, “desejo felicidades”. Um intuito de intensificação por multiplicação parece estar na origem de tal uso, mas o clichê tem o efeito oposto, de atenuamento. Declarar saudades, num plural difuso, compromete menos do que se dizer com saudade, no singular pessoal. E desejar felicidades talvez soe mais elegante e discreto do que desejar felicidade (como se alguém pudesse saber o que é a felicidade para o outro). Etc.

O plural de ciúme, também bastante usado, é um caso curioso em que as duas tendências, a da metonímia e a da fórmula, parecem se fundir, negando-se mutuamente. Não sendo bem um lugar-comum da convivência social, ciúme no plural ainda assim tem algo de clichê, de marcação dramática. E não sendo coisificado pelo objeto, como amor, quem pode garantir que não guarde um eco da multiplicidade de faces do ciúme, de seu jeito infinito-enquanto-dure de doer?

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  1. Comentado por:

    Brazilian

    Reconhece-se aqui pelos comentários o nível(louvável) de quem acessa esse site. Pena (e muita) que nossos estudantes não sabem ou não querem saber da riqueza disponível para enriquecer a nossa comunicação.

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  2. Comentado por:

    Giovanna

    Adorei a maneira como abordam as questões. Sempre considerei fundamental mostrar as diferentes visões e interpretações de uso de certos termos,que, apesar de já consagrados na linguagem informal, ainda nos deixam em dúvida sobre a sua correção.

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  3. Comentado por:

    Nelson Teixeira

    Qual amor mora em seu coração, suas almas?
    Parece pouco?
    É muito.
    Compreendeu?

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  4. Comentado por:

    Maria de Fátima Santos Rocha

    Hoje pela primeira vez estou acessando esta página. Gostei muito. Vivendo e aprendendo.

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  5. Comentado por:

    Cyro Passos

    Sempre li esta questão de Saudade ou Saudades, Felicidade ou Felicidades tomando como base que “não se pode haver plural quando se trata de estado de espírito”. Pensem nisto.

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  6. Comentado por:

    JoseMoreira

    Não concordo com a tendência da análise. Para mim não é mesmo correto saudades nem felicidade. Não vou explicar o porque, pois iria só gastar tempo. Continuarei a cantar ” muita felicidade, muitos anos de vida”.

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  7. Comentado por:

    JoseMoreira

    iva lopes – 09/09/2014 às 8:41
    Adorei esse site,(trocar por ponto) encontrei por acaso no google e já adicionei como favorito. (inserir espaço)Aprender sempre é meu lema .(tirar o espaço) Qual foi o erro em meu comentário (acrescentar vírgula)por favor ?

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  8. Comentado por:

    Walter Faria

    Gostaria de saber se escrevo” que saudades ou que saudade de voces”? isso é um slogan para uma camiseta.

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  9. Comentado por:

    Danilo

    “Mas eu me mordo de ciúmes (8)”

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  10. Comentado por:

    JAIR SANTANA

    Qual seria o correto dizer: “fulano não corre risco de morte” ou “fulano não corre risco de vida”?
    Nenhum dos dois está errado, Jair. “Risco de vida” é preferível. Tratei disso aqui: http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/risco-de-vida-ou-risco-de-morte/

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  11. Comentado por:

    Hugo Gattoni

    Um dos melhores artigos que encontrei na Rede. Claro, objetivo e muito bem fundamentado. Parabéns (no plural!).

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  12. Comentado por:

    Geraldo Fraga

    Muito bom!

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  13. Comentado por:

    josé regis paz delira

    Bem, não tenho tanto domínio sobre a língua portuguesa, ao ponto de concordar ou discordar de outrens, à respeito da palavra “saudade, com ou sem plural” Na minha concepção, desde que aprendi à ler e escrever, que só uso a palavra “saudade”, no singular, pois no plural, me soa falso, como se realmente seja errado. Então, continuarei até morrer, falando ou escrevendo a palavra “saudade” no “SINGULAR”.

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  14. Comentado por:

    graça

    Desde sempre, aprendi que tanto a palavra saudade quanto felicidade não vão para o plural.Vou continuar escrevendo e falando estas palavras no singular.
    Certo, Graça. É como eu disse logo no início do texto: “Em primeiro lugar (…) você tem o direito de ser fiel ao singular das palavras saudade, felicidade e ciúme. Não há erro nisso. Mas saiba que também não haveria erro se você as empregasse no plural”. Um abraço.

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