Risco de vida ou risco de morte?

“Vejo (inclusive na revista VEJA) e ouço falar muito na seguinte expressão: ‘Ele corre risco de vida’. O certo não seria ‘Ele corre risco de morte’? Qual é o correto?” Adriano Frederico, de Congonhas (MG).

Entende-se a angústia de Adriano. A pressão social pelo uso de “risco de morte”, expressão emergente, como se houvesse algo errado no consagrado “risco de vida” que herdamos de nossos tataravós, é uma questão com que se defronta qualquer pessoa menos distraída no Brasil de hoje. É também o maior exemplo de vitória do besteirol sabichão que temos na língua.

A questão tem cerca de dez anos, talvez quinze. O certo é que quando Cazuza cantou, em 1988, “o meu prazer agora é risco de vida” (na canção Ideologia), ainda não passava pela cabeça de ninguém corrigi-lo. Mais tarde, professores de português que exerciam o cargo de consultores em redações conseguiram convencer os chefes de determinados jornais e TVs de sua tese tolinha: “Como alguém pode correr o risco de viver?”, riam eles.

Era um equívoco. Julgavam ter descoberto uma agressão à lógica embutida no idioma, mas ficaram na superfície do problema, incapazes de fazer uma análise linguística mais sofisticada e compreender que risco de vida é risco para a vida, ou seja, risco de (perder a) vida. O que, convenhamos, nem teria sido tão difícil.

Muita gente engoliu desde então o risco de morte. De tanto ser martelada em certos meios de comunicação, inclusive na TV Globo, a nova forma vai sendo adotada por multidões de falantes desavisados. O que era previsível, mas não deixa de ser meio constrangedor.

Não se trata de dizer que risco de morte seja, como alegam seus defensores a respeito de risco de vida, uma expressão “errada”. Não é. De gabinete, sim, mas não errada. Pode-se usá-la sem risco para a adequada comunicação de uma mensagem. Se seus adeptos se contentassem em fazer tal escolha de forma discreta, sem apontar agressivamente o dedo para quem não concorda com ela, a convivência das duas formas poderia ser pacífica.

Se não pode ser pacífica é porque o risco de morte, mais que um caso linguístico, apresenta-se como um problema cultural, criação artificial de gente que mal ouviu o galo cantar e saiu por aí exercitando o prazer de declarar ignorante quem, mergulhado no instinto da linguagem de que fala Steven Pinker, já nasceu sabendo mais do que eles.

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  1. Comentado por:

    ANA MARIA DOBNER

    Caro colega, não concordo com você, pois se eu digo que fulano “corre risco de vida”, ela já está vivo e o único risco que ele corre é de morrer, portanto fico com a expressão “risco de morte”, ele está vivo e corre o risco de morrer.
    Um abraço

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  2. Comentado por:

    ADY JUNIOR BUENO

    Significado de Risco
    s.m. Perigo; probabilidade ou possibilidade de perigo: estar em risco.Se alguem está com a vida correndo perigo,esta pessoa pode morrer não é verdade?Então o que está correndo risco ou perigo é a vida!

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  3. Comentado por:

    Gerson Augusto Gastaldi

    Amigos! A princípio de se estabelecer um parâmetro nesta regra esdrúxula para o risco de vida ou risco de morte, compreendamos que antes de tudo é necessário definir o que seja um “risco” propriamente dito. Tal verbete pode ser classificado como um traço, uma linha ou sinal, sendo compreendido como um substantivo. Mas adjetivamente, um risco é uma probabilidade futura, visto que todos morreremos. Quando se diz que alguém corre o risco, isto não quer dizer que tal aconteça no presente. Sendo assim, o risco seria uma probabilidade temporal. Mas se colocarmos um complemento adverbial ao risco, por exemplo: (de) morte, isto significa que o risco seja agregado ao substantivo vida. Portanto, nesse caso pressupõe-se que, alguém ou algo, esteja exposto a um perigo que possa sofrer um dano ou uma perda importante, ou seja: a vida. Então o risco seria de se perder a vida. No caso do risco “de” vida, não seria possível, visto que a vida não pode sofrer risco algum, mesmo porque ela não depende da morte. Isso quer dizer que a morte não agrega esse adjetivo de probabilidade. Por conseguinte, ela é que incorre no risco de renascer, sofrendo a imposição da vida que pode ressuscitá-la. Como exemplo temos a história de Lázaro morto. Ele não corria o risco de vida e morreu. Porém, ele readquiriu a vida sem risco algum, visto que a morte não pode se contrapor à vida. Igualmente, Jesus Cristo vivo, que ao morrer subjugou a morte, pois ressuscitou à vida. Isto quer dizer que a morte não ofereceu risco algum à vida. Já um feto no ventre da sua mãe correria o risco de vida com a probalidade de não ser gerado. Ora, se o feto gerar e formar-se uma criança e nascer, ele não corre risco algum, pois tornou-se vida latente. Mas se o feto abortar ele já é considerado morto, portanto sem o risco de morte também. Estas patologias são alquímicas e possuem um grande mistério que está além da nossa compreensão no Santo Graal da eternidade.

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  4. Comentado por:

    Stéphane

    O ridículo de todas as baboseiras em volta da expressão “risco de vida” reside no simples facto dos praticantes da língua de Camões serem sempre preguiçosos. Passo a explicar: se se utilizasse a expressão “risco para a vida” não existia qualquer dúvida e talvez se atingisse o equilíbrio mencionado. Scribi…

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  5. Comentado por:

    Geones Laguna

    Na minha opinião Risco e ruim: Risco de quebrar a perna, de cair, de ficar doentr

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  6. Comentado por:

    Beatriz

    A morte não é uma eventualidade. É um fato, incerto quanto ao prazo, mas um fato, não é uma hipótese nem uma probabilidade. Risco é uma hipótese associada a uma probabilidade. Corre-se o risco, a depender de certa probabilidade de o evento acontecer (pode acontecer ou não) Assim, o que está sujeito a probabilidade do risco é a vida. A morte não está sujeita a essa probabilidade: ela ACONTECERÁ por menos que se queira ou se saiba quando!

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  7. Luciano Orestes de Moura

    Só colocamos em risco aquilo que possuímos…quando estamos vivos não possuímos a morte, mas possuímos a condição de morrer…portanto “correr risco de morte” é errado, mas “correr risco de morrer” está certo. Podemos usar a frase “correr risco de viver”, mas de forma irônica, por exemplo: “se você chegar armado no meio dos bandidos, pode até correr o risco de viver”…o que significaria que é difícil, mas pode acontecer. Já, “correr risco de vida” está certo, pois estaremos pondo em risco a nossa vida, que possuimos…”risco de choque” é certo, pois há eletricidade e poderá haver choque…a palavra “correr” nos remete a um futuro, ou o que poderia ter acontecido…a palavra “risco” representa “arriscar”, e frisando novamente, só arriscamos o que possuímos, o que certamente não é a morte, pois quando possuimos ela não possuímos mais nada…

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  8. Ao pé da letra: risco de vida = vida em perigo. Risco de morte = morte em perigo. Será que as duas coisas são iguais? Só na cabeça de deturpadores da língua. Afinal as pessoas que dizem risco de morte também querem que a morte seja destruida e assim poderão viver para sempre.

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  9. Wellington Bernieri de Carvalho

    Cade texto grande defendendo uma lógica de peixe beta, aquela que o peixinho fica dando vários voltas no aquário e não chega a lugar nenhum e não entendeu nada do exposto no texto. O texto está bem explicado. Risco de vida (de perder a vida) e risco de morte – risco de vir a falecer, consequentemente, perder a vida da mesma forma e jamais a lógica absurda de ser risco de perder a morte. Risco de perder a morte? Sério? Alguém usou esse raciocínio alí em cima, ual que brilhante!

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