Qual é a diferença entre pornografia e erotismo?

'Eros e Psiquê' (1817), de Jacques-Louis David

‘Eros e Psiquê’ (1817), de Jacques-Louis David

“Tenho duas dúvidas em uma. De onde vem a palavra pornografia? E qual a diferença entre pornografia e erotismo?” (Isaías Marques)

A primeira resposta à consulta de Isaías é simples. A segunda, infinitamente complicada.

Pornografia é um termo que nos chegou em fins do século XIX (dicionarizado pela primeira vez em 1899 por Cândido de Figueiredo, segundo a datação do Houaiss) do francês pornographie.

Esta palavra tinha nascido cerca de um século antes, em torno de 1800, inicialmente com um sentido sisudo: estudo (de saúde pública) sobre a prostituição. Foi em meados do século XIX que passou a ser empregada para designar a arte, em especial aquela produzida na antiguidade – a princípio a pintura –, que retratava temas obscenos.

A raiz do termo francês estava plantada no grego, língua que tinha palavras como pórne, “prostituta”, e pórnos, “que se prostitui”, além de pornographos, “autor de escritos sobre a prostituição”. Prostíbulo era porneion.

Todos esses termos traziam embutida a ideia de comércio, de compra e venda. Há etimologistas que, cavando mais fundo, veem neles a raiz indo-europeia per, “vender”, a mesma que está presente no latim pretium, “preço”.

Curiosamente, o vocabulário do latim clássico (conforme registrado pelo referencial dicionário Saraiva) não tinha nenhuma palavra derivada de pórne. Em seu lugar havia prostituta, também um vocábulo de origem comercial, que em seu sentido literal queria dizer “(mercadoria) exposta”.

No verbete pornography, o dicionário etimológico de Douglas Harper oferece um roteiro sucinto da expansão semântica que levou a pornografia a se tornar o que é hoje: em 1859 o termo já era empregado (de forma crítica) em referência a certos romances franceses da época; no início do século XX, chegou às artes visuais contemporâneas.

Quanto ao erotismo, trata-se de uma palavra que também tem origem grega: erotikós, que fez escala no latim eroticus antes de desembarcar aqui ainda no século XVI, significava “que tem amor, paixão ou desejo intenso”.

Termo derivado de Eros, deus grego do amor (Cupido na mitologia romana), nunca teve a carga negativa das palavras derivadas de porné. Também se referia ao desejo sexual, mas aquele ligado ao amor e não ao comércio.

Assim chegamos à segunda dúvida de Isaías. No campo da indústria cultural, que é aquele em que tais palavras conservam grande relevância no mundo contemporâneo, nunca será pacífica a fronteira entre o erotismo e a pornografia. O senso comum costuma traçá-la nas cenas de sexo explícito, que esta teria e aquele não, mas o critério é enganoso: se o erótico também pode ser explícito, nem sempre o pornográfico o é.

Como princípio, pode-se dizer que é erótico um filme, livro ou pintura que dê a seu tema um tratamento artístico (a arte aqui cumpre o mesmo papel que o amor cumpria na distinção original), enquanto a pornografia está interessada apenas em excitar o freguês – e em ganhar dinheiro com isso.

Ocorre, claro, que todo tipo de complicação moral e estética entra em cena na hora de separar uma coisa da outra. O que é erótico para um pode ser – e frequentemente é – pornográfico para outro.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Às segundas e quintas-feiras o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

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  1. Comentado por:

    James

    Muito bom dei valor parabéns ficou bem elucidativo
    pENA QUE A SOCIEDADE ATUAL ESTEJA TÃO PORNOGRAFICA PARA MIM PLAYBOY É ISSO
    NÃO ADIANTA DIZER QUE TEM UM QUê ARTISTICO PODE ATÉ TER MAS O VALOR COMERCIAL FALA MAIS ALTO
    É TRISTE COMO ALGUMAS ATRIZES SE PROSTITUEM E DENIGREM A CLASSE QUE POR MUITO TEMPO LUTOU POR FAZER SE RESPEITAR

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  2. Comentado por:

    Marcus Veras

    Ótimo artigo, só fiquei em dúvida quanto a utilização da expressão “temas obscenos”, a qual me parece pejorativa, principalmente se tratando da arte produzida na antiguidade, ou seja, antes do cristianismo esculhambar com a sexualidade tornando-a “obscena”…

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  3. Comentado por:

    joao roberto catelan

    para mim pornografia é que acontece em brasilia e ponto final, hoje prenderam a famosa jeny (maria da esquina) mary corner, os ratos não durmirão esta noite na capital federal, vem queda de ministro ai logo, logo…

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  4. Comentado por:

    Casca Fina

    O erotismo tem suas raízes no sagrado.
    O pornográfico é alienação e degenerescência.
    Kajuraho não é um templo pornográfico. Suas esculturas retratam o sagrado, à luz do Tantra. O próprio Rabindranath Tagore defendeu a preservação desse e de outros templos onde a sabedoria tântrica é apresentada em forma de arte, quando a ignorância, a estupidez e preconceito dos colonizadores ingleses os quiseram demolir.
    O erótico comporta o amor. É portal para a elevação do Espírito.
    O pornográfico avilta e rebaixa.

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  5. Comentado por:

    Ernani Ssó

    Juan Claudio Lechín, numa entrevista ao jornal Zero Hora, quando do lançamento do seu romance A gula do beija-flor (Bertrand Brasil, 2006), traduzido pelos degas aqui: “No caso norte-americano, que domina a mídia do planeta, o sexo, assim como a morte, é tratado como elemento de impacto. Aparecem mulheres na televisão que mostram os seios, e isso é como uma grande festa. E aparece a morte sem conteúdo e sem história. Quando o sexo não tem história, é pornografia. Quando deixa de estar no contexto de uma história de amor, de roubo, de violação, qualquer uma dessas possibilidades é aceitável desde que dentro de uma história. O mesmo acontece com a morte, que é pornografia se não está inserida em uma história, e cada vez temos mais mortes sem contexto, por estatísticas, e violações por estatísticas”.

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  6. Comentado por:

    Arnando Chaves

    Erotismo é papai e mamãe, pornográfico é 69.

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  7. Comentado por:

    Sherlock

    Sérgio,
    O seu texto, muito esclarecedor, me trouxe outra dúvida. Lê-se ali: “Há etimologistas que, cavando mais fundo, vêm (sic) neles a raiz…”. Curiosamente, na Veja desta semana, também está lá: “Os videogames da nova geração, (…), batalham pela preferência mundial de 1 bilhão de jogadores que vêm (sic) neles uma divertida imitação da vida”.
    Em todas as consultas que fiz, com a revisão ortográfica o verbo VER (quando conjugado na terceira do plural do presente indicativo) perdeu o circunflexo e manteve os dois “ee” (portanto, “veem”). Curiosamente, tanto na Veja impressa quanto no seu texto vejo exatamente o oposto: retirou-se um “e” e se manteve o circunflexo (“vêm”). Desconfio que perdi alguma coisa da reforma. Se puder esclarecer… Grato!
    O nome disso é erro de revisão, Sherlock. Já corrigido, obrigado.

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  8. Comentado por:

    Sherlock

    Olhe como são as coisas: não passou pela minha cabeça que tanto a revista quanto o seu texto pudessem trazer o mesmo equívoco – sinceramente pensei que eu é que estivesse errado. Isso mostra o quanto confio no seu texto! Mas não se preocupe, esse pequeno deslize não abalou a confiança e continuarei sendo frequentador assíduo deste espaço (rs)! Grande abraço.

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