15/09/2012
às 10:00 \ Palavra da semanaNo fundo do fundamentalismo
Fanatismo seria uma solução, mas faz pouco tempo que a palavra foi abordada aqui, no artigo chamado “Fanatismo religioso já foi uma redundância”, em que se pode ler o seguinte: “Já no latim clássico, a ideia original – e a princípio positiva – do fanaticus como inspirado (pela chama divina) não demorou a abrir caminho para sentidos negativos que prenunciavam o futuro da palavra: como se sabe, é tênue a fronteira entre o inspirado e o possuído”.
Também já cuidei em outra ocasião do nome do profeta Maomé e da controvérsia que o cerca. No caso, trata-se da controvérsia linguística em torno da melhor forma de grafar em português uma palavra que nasceu em outro alfabeto – e não do clima de não-me-toques que o fundamentalismo islâmico criou em torno de sua figura. Em todo caso, também nesse caso haveria alguma medida de redundância.
Os diplomatas, principal alvo da fúria dos manifestantes islâmicos (embora uma filial do Kentucky Fried Chicken em Trípoli também tenha sido atacada), mereceram recentemente um post no qual eu lembrava uma frase espirituosa do general Charles de Gaulle que, diante dos acontecimentos dos últimos dias, soa mais sinistra do que engraçada: “Os diplomatas são úteis apenas com tempo bom. Assim que começa a chover, eles se afogam em todas as gotas”.
Sendo assim, o que resta? O próprio fundamentalismo que permite a encenação de uma peça desse quilate, é claro. O termo surgiu no interior do protestantismo americano para nomear a onda conservadora que, no início do século 20, se opunha a diversos movimentos modernizadores propondo um retorno aos “fundamentos” religiosos – entre eles, em posição de destaque, o apego ao sentido literal das escrituras. Isso foi só o começo.
Fenômeno típico do nosso tempo, o fundamentalismo logo passou a nomear movimentos semelhantes surgidos no islamismo, no judaísmo e no catolicismo. De modo figurado, terminou por ir além dos limites da fé: há quem chame – obviamente com intenções críticas – de “fundamentalismo de mercado” o liberalismo econômico mais agressivo. Faz algum sentido.
Quando uma palavra passa a ter emprego genérico demais, é raro que a inteligência coletiva se beneficie. Mesmo assim, deve-se reconhecer que os fundamentalismos do parágrafo anterior têm pelo menos dois aspectos em comum: a aceitação plena e sem questionamentos de uma verdade “revelada” e a determinação de não perder tempo negociando tal verdade com o que a vida tem de complexo, relativo, contingente – ou seja, aquilo que o humanismo secular nos legou de mais precioso. E mais difícil de administrar.






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5 Comentários
Humberto
-17/09/2012 às 10:38
Permita-me uma pequena correção em seu ótimo texto: o movimento contra o qual o fundamentalismo evangélico americano primeiramente se levantou é melhor caracterizado por “liberal” e não “modernizante”, e isso por uma questão teológica. A Teologia Liberal Protestante, que influenciou fortemente a igreja já no final do século XIX, ensinava basicamente que os relatos bíblicos não eram verdadeiros, mas apenas mitos inventados por seus escritores. A reação foi reafirmar os fundamentos da Fé. A questão não era sobre costumes, como a palavra “modernizante”, pelo menos a mim, daria a entender, mas, sim, essencialmente teológica.
Oliveira Jr
-16/09/2012 às 21:26
“Revelada”, entre aspas, significa que trata-se de uma mentira ou algo não tão crível. Sugiro ao autor que leia o livro “As chaves do inconsciente” de Renate Jost de Moraes, no qual as verdades reveladas pela mente humana mostram-se como um padrão que confirma a verdade “revelada”, a qual ele parece desconhecer na origem.
francisco
-16/09/2012 às 14:42
fundamentalismo:um bando de mente adolescente e loucos descontrolados sem pai e mae e controlados pela religiao debil de lideres debeis.
IEDA
-16/09/2012 às 7:24
Entre inspirado e possuído há uma grande diferença e generalizar o sentido é um perigo para a humanidade. Todo cuidado é pouco.
RONALDE
-15/09/2012 às 16:32
Gostei do seu artigo, é muito esclarecedor. Logicamente, governos que se mantém sob o manto do fundamentalismo religioso, principalmente os muçulmanos, têm facilidade imensa de governar baseados na “constituição” formulada por Maomé. O islamismo é irreversível no Oriente Médio e a chamada “Primavera Árabe”, crendo na democracia a surgir após a derrubada dos ditadores é puro sonho. O Islã não é democrata, seus povos não imaginam o que vem a ser democracia.