28/01/2012
às 9:00 \ Palavra da semanaEdifício, ou o samba do etimologista doido
– Caiu um edifício! – gritou alguém.
Vinha dos lados do Municipal uma nuvem de poeira fina, parecendo lunar, a cobrir carros e turvar a atmosfera. As luzes dos postes boiavam fantasmagóricas dentro dela. O etimologista ficou em pé sobre sua cadeira.
– Aedificium – pontificou – é o que foi edificado. De aedificare, aedis + facio, ou seja, casa + fazer: casafazer, fazer casa!
Ninguém lhe deu bola, evidentemente. Pessoas corriam de um lado para o outro, vozes se entrecruzando confusas, abafadas. Mesmo quando perplexas ou em desespero, abafadas: até o ruído do mundo parecia embaçado pelo pó verde e frio. Aqui e ali, destacava-se um grito de dor. Ouviu-se o som aquático de uma sirene.
Com a sanidade inteiramente desmoronada, o etimologista desceu da cadeira, sentou-se e ficou resmungando sozinho, nariz quase enfiado na tulipa meio vazia:
– Aedis é base, pouso, ninho, residência. Como em edícula: edícula é casinha! Junte-se a isso o facio, facere, e está feito: fazer, fabricar, executar, cumprir uma ordem, dar forma a um projeto. Facio, matriz do fato e da fazenda, do ofício, do magnífico e também do malefício.
– Caiu um edifício! – gritaram de novo.
Porque na hora pensou-se que fosse um. Quem seria doido de imaginar três, se um já era o fim da picada? Nem mesmo o etimologista.




Deixe o seu comentário
Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.
» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA
16 Comentários
Heitor
-30/01/2012 às 6:43
Catei o uiquipédia:
‘Aedes (Stegomyia) aegypti (aēdēs do grego “odioso” e ægypti do latim “do Egipto”) é a nomenclatura taxonômica para o mosquito que é popularmente conhecido como mosquito da dengue’ (…)
Arquimedes Bufão (ph.D. em etimologia)
-30/01/2012 às 2:23
Mario, que tristeza e que comoção social?? Você deve estar assistindo muito a rede globo… acorda, você vive num dos países onde mais mata-se com arma de fogo, cujo índice de homicídio ultrapassa os 40 mil por ano. Se você quiser, ainda posso te dar mais dados que realmente são dignos de “grande tristeza e comoção social”…
mario
-29/01/2012 às 10:39
Entendo que este artigo se coloca de uma forma inapropriada e de profundo mal gosto em um periodo de grande tristeza e comocao social.
Francisco Jose Ivantes
-29/01/2012 às 10:24
Para relaxar um pouco.
Na verdade dois gajos tiveram uma idéia para chegar ao céu. era fazer uma casa em cima da outra até atingir o céu. É claro que chegou a um ponto que não dava mais para continuar com os recursos daquela época.
Então eles puseram uma placa na entrada: É difícil.
Dalton Luis dos Santos
-29/01/2012 às 10:10
Você poderia me indicar um dicionário etimológico de boa qualidade. Adquiri o de Antonio Geraldo da Cunha, mas ele se limita a expor a origem da palavra e não fala sobre as partes que a compõem como você fez nesse caso de “edifício”.
Caro Dalton, minha recomendação é que você compre o Houaiss. Se já o tem, que preste atenção ao show discreto da sua dimensão etimológica. A origem da palavra vem no fim do verbete, letrinhas miúdas, mas em português, dos livros que conheço, é o que melhor resolve o problema num único volume. Para tratar das “partes”, nem sempre será suficiente, mas aí já é preciso correr atrás de dicionários em outros idiomas (vivos e mortos). Um abraço.
Helio C Pereira
-29/01/2012 às 7:44
Num tempo em que so se ve, comentarios vazios, ou carregados de opinioes pobres, eh bom ler algo que acrescenta mais ao mesmo.
Felipe
-29/01/2012 às 7:19
Interessante é que quando morava no interior tinha uma edícula no fundo do quintal. Sempre achei meio hermético esse nome e achava legal quando minha mãe falava coisas como “Ah, isso fica na edícula…” em vez de mim, que usava, e depois eu soube que acertadamente, casinha.
Teobaldo Penha-Longa
-29/01/2012 às 7:02
Ainda não refeito do impacto triste e emocional causado pela tragédia no centro do Rio de Janeiro, fica o ensinamento de que devemos ser mais zelosos com nossos patrimônios e para com as nossas próprias vidas.Precisamos estar sempre vigilantes com quaisquer obras e/ou reformas nos prédios onde residimos.Portanto, ao perceber barulhos ou movimentos direcionados à obras, entrar em contato imediatamente com a Defesa Civíl, Prefeitura e/ou Órgãos competentes,certificando-nos se os serviços executados, estão corretamente periciados e liberados por quem de direito e com dever para tal.Nunca é tarde para se colocar a tranca na porta.Chega de tragédias pré-anunciadas.Fiquemos alertas.
Arquimedes Bufão (ph.D. em etimologia)
-29/01/2012 às 0:47
Desconsiderem as truanices etimológicas escritas pelo senhor “Erivaldo Duarte”, que é na verdade um parlapatão! Eu, porém, sou ph.D. em “Etimologia das línguas indo-européias”. Asseguro, pois, com toda a autoridade que me é de direito, que a origem etimológica real do termo é esta: “Tendo um engenheiro romano desenvolvido um projeto arquitetônico quase impraticável para a época, foi ele tomar uma segunda opinião de outro igualmente notável engenheiro daquele tempo. Perguntou então o dono do projeto, estendendo ao outro um largo pergaminho: “É possível?” – “É difícil!” exclamou o outro engenheiro.
Daí em diante esse termo começou a significar “prédio”, “construção” etc…
ricco
-29/01/2012 às 0:41
Desde quando esse texto leva ao gracejo? Como tem gente equivocada no mundo. É apenas um relato, educativo por sinal.
Sildes Camila
-28/01/2012 às 23:56
Texto maravilhoso. O autor detalhou muito bem o desespero das pessoas que passaram por essa triste situação no Rio de Janeiro
Ananias de Souza Mendes
-28/01/2012 às 21:55
Valeu foi uma boa aula, de culturae conhecimento
Erivaldo Duarte
-28/01/2012 às 21:34
No que pese o caos advindo de uma tragédia dessa, ainda é possível explicar-se a verdadeira origem da palavra edifício. Ei-la, pois.
Inicialmente um sujeito mal educado construiu um pavimento térreo numa área pertencente a terceiro. Esse terceiro, injuriado com invasão da sua propriedade, decidiu construir outro pavimento em cima do primeiro. Aí continuou essa batalha de construção, de maneira que os contendores foram parar na justiça. Lá chegando, alguém indaga ao juiz se ele conseguirá parar essa briga, aliás, esse arranha-céu, ao o magistrado responde: É DIFÍCIL.
MeL David
-28/01/2012 às 21:08
Caramba!!!… Parabéns Marcelo!… (Foi Ele mesmo não é?!) Excelente descrição: Dramática sem deixar de ser divertida, Sensível, Profunda… Quase Sinfônica! Bethoven ou Arquimedes devem ter passado por momentos assim, para terem gerado suas tais Grandes Obras! Adorei o texto!
José Antônio
-28/01/2012 às 18:57
Fazer graça com tragédia não me parecia o seu estilo, Sérgio.
Klerianne Ribeiro
-28/01/2012 às 12:49
Com a enxurrada de reportagens, só me vinha na cabeça “quantas pessoas por ali, quantas estórias perdidas… imagino que escritores nesse momento poderiam pensar o mesmo. Quem sabe não escrevem algo assim”.
Bom, acho que não demorou muito e alguém pensou algo parecido mesmo.