20/05/2012
às 12:32 \ CrônicaSuper-heróis
Todos frequentavam seus sonhos, Rogerinho que gritou sou imortal antes de se atirar na frente do caminhão a fim de detê-lo com a força das palmas, Tuca que pulou da janela do quinto andar em busca da teia que o transportaria ao outro lado da rua para glória perene sua e de toda a sua família, Lalau que desafiou o mar na ressaca, não qualificaremos a façanha, só o próprio Lalau poderia esclarecer com que heroicos propósitos fez isso, Verinha que se jogou num bueiro para conhecer o povo subterrâneo e ninguém nunca mais viu (deve ter se dado bem com eles, sabidamente tão esquivos), Lara que atacou com valentia o enxame de abelhas africanas brandindo sua Suzy, Baltazar aquele mirradinho que comeu veneno de rato para ressuscitar ao terceiro dia e ainda Pitoco, o louco, que amarrou o irmão recém-nascido à roda traseira do carro porque achou que seria muito divertido vê-lo chorar girando, ou girar chorando, e soltou o freio de mão na ladeira indo bater num ônibus lá embaixo, ainda não falamos do gordo Antônio Carlos, que se matou com um tiro no ouvido porque tirou seis em ciências, nem poderíamos nos esquecer de Vica, de gloriosa memória e extraordinário poder, que naquela manhã bem cedo, tendo chegado ao galho mais alto da mangueira antes de nós, abriu os braços e virou um míssil, capa vermelha esticada ao vento, na direção daquele que será para sempre um lugar de destaque na galeria das crianças encantadas, esses pirralhos vivos apenas em sonhos que emergem de vez em quando, parece que de anos em anos mas é engano, sorriem no fundo da cena diariamente, e apenas quando algum deles avança com seus caniços ralados intactos, seus dentes para sempre de leite, tentamos correr deles com um horror semelhante à vergonha, talvez um sorriso de pena, que num mecanismo clássico de transferência julgamos ser pena deles, mas que é pena de nós, envelhecemos, o mundo não era assim, só para eles era assim, já não dizemos com autoridade agora o mundo era bonito outra vez senão eu paro de brincar, já não brincamos, Vica, Verinha, Tuca, Baltazar, já não brincamos, mas todos frequentavam seus sonhos.





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