10/04/2011
às 9:00 \ Crônica‘Mondegreen’, virundum: trocando de biquíni sem parar
Um fenômeno linguístico definitivamente menor, mas nem por isso menos divertido, é aquilo que, num artigo de 1954 para a revista “Harper’s”, a escritora americana Sylvia Wright batizou com um neologismo que pegou: mondegreen. Já dicionarizada em inglês, a palavra tem uma tradução brasileira ainda informal que capta bem o espírito da coisa: “virundum” (de “O virundum piranga as margens plásticas” – ou coisa parecida).
Um mondegreen ou virundum é, para resumir, um mal-entendido provocado por semelhança sonora, geralmente num poema ou canção. Wright tirou o nome de uma confusão que a vitimava na infância ao ouvir sua mãe lhe recitar uma balada popular do século 17 chamada “The Bonny Earl O’Moray”. Quando o poema dizia laid him on the green (deitou-o na grama), ela entendia “Lady Mondegreen” – uma confusão intraduzível. Basta entender que os perfis sonoros são quase idênticos.
No tal artigo, Sylvia Wright defendia uma tese provocante: a de que os mondegreens, mesmo errados, são sempre esteticamente superiores ao original e por isso se impõem ao ouvinte. O que é provavelmente um exagero. Quando tomei conhecimento da palavra, veio-me à cabeça uma história do folclore familiar segundo a qual, aos cinco ou seis anos de idade, perguntei a meus pais o que significava “cubrado”. Como eles não soubessem do que se tratava, comecei a cantar o Hino Nacional (ele de novo, fonte inesgotável de mondegreens): “…de um povo herói cubrado retumbante”.
Resisto à tentação de lançar aqui a candidatura de “cubrado”. Virundum, além de ser mais sonoro e ter chegado primeiro, conta até com site próprio, onde são listados os mais clássicos mal-entendidos do gênero na música brasileira. Se não é esteticamente “superior”, o mondegreen/virundum é sem dúvida engraçado, principalmente quando, saindo da esfera do erro particular e intransferível, afeta multidões de ouvintes. Multidões como as que, dizem, ouvem Claudio Zoli cantar aquele seu velho sucesso, “Noite do prazer”, de forma ligeiramente diferente da que ele pretendia ao escrever “tocando B.B. King sem parar”:
Na madrugada, a vitrola rolando um blues/ trocando de biquíni sem parar…
Neste caso eu dou razão a Sylvia Wright: o mondegreen é melhor.
Tags: Claudio Zoli, Harper's, mondegreen, Sylvia Wright, virundum



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12 Comentários
guest
-20/04/2011 às 16:50
agatapirê..
kkkk
Valentim Negrellos
-13/04/2011 às 15:37
No caso da música do Zoli uma possível causa para o virundum é que ninguém tinha a menor idéia de quem era B B King. Eu e a minha turma entendíamos a música assim:
“Na madrugada de Copa, rolando nus,
trocando de biquíni sem parar”
Só muitos anos mais tarde eu descobri que a música não falava de uma orgia na praia.
Inca del Rio
-13/04/2011 às 11:48
Embora tardiamente, pois somente hoje li sua coluna, gostaria de deixar um comentário. Um colega de escola primária, da década de 60,dizia que o Hino da Bandeira tinha sido composto em homenagem ao seu bisavô e quem lhe disse isso foi sua santa avozinha. Enchendo o peito de orgulho ele dizia que o bisavô se chamava Augusto da Paz. (Salve lindo pendão da esperança, Salve símbolo augusto da paz. Tua nobre presença à lembrança, a grandeza da pátria nos traz…)
Ernaninho
-12/04/2011 às 12:22
Tenho um examplo muito bom, o Hino da independencia: Japones da pátria filhos…
Mylena
-11/04/2011 às 13:04
Bom, como péssima católica que sempre fui (hoje, adepta assumida da doutrina espírita), sempre rezava assim na escola, com a turma do catequismo: “Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco; BENDITAS SUAS VOZES entre as mulheres…” e nunca entendia porque Nossa Senhora tinha mais de uma voz… Um dia, durante a quaresma, vi, num cartaz com a oração ilustrada, a grafia correta (… “bendita SOIS VÓS entre as mulheres) e fiquei com cara de tacho olhando o cartaz. Duas amigas minhas chegaram e perguntaram o que eu estava vendo. Quando terminei de explicar minha confusão, elas também fizeram a mesma cara de tacho e confessaram, boquiabertas: “Nooossa… Eu também não sabia que era assim que se rezava…” Então, cheguei à conclusão: graças a Deus (ou à nossa ignorância) eu não era a única a fazer uso do mondegreen.
Bruno
-11/04/2011 às 12:40
Muito bom! Só para registrar, eu sempre cantei a música com “”tocando” de biquíni sem parar” rss
pericles
-10/04/2011 às 21:59
Meu filho quando muito pequeno, ao se machucar pedia o MERCÚRIO CÔMICO (realmente engraçado) e no banheiro pedia o PAPEL GÊNIO.
Joao
-10/04/2011 às 21:39
Nesse linha vai também o nosso “A Flor de Zíaco”, que deve ter nascido como uma
mondegreenização de “afrodisíaco”. E tem uma componente poética quase imbatível nesse gênero.
Vânia Cavalcanti
-10/04/2011 às 19:41
Olá, Sérgio!
O virundum é mesmo muito engraçado e interessante, acho que quase todo mundo tem um caso para contar. Adorei a dica do site, não o conhecia, dei uma olhadinha e já o adicionei aos meus favoritos. Valeu! Um abraço
carlos azevedo
-10/04/2011 às 18:56
Do caramba! Adorei. Parabéns Sérgio!
Sofia Maria
-10/04/2011 às 16:26
Nos anos 80,um “boy”de uma empresa em que eu trabalhava me perguntou o que era “curuvel”.Eu,sem entender nada,lhe perguntei onde ele havia ouvido aquela palavra e ele então me respondeu que era da música do Fagner(fez muito sucesso na época:Coração Alado): ah,coração alado,lálála’…”neste escuro véu” e ele entendia “neste CURUVEL”.
Eu,quando era criança,gostava muito da coroação da Nossa Senhora,no mês de maio.Havia uma música que cantávamos muito,assim:vinde povos trazei flores,cantar hinos de alegria”…eu entendia “vim de Póvus trazer flores” e ficava imaginando onde seria esta cidade Póvus,rs
Cláudia Módolo
-10/04/2011 às 15:03
Este artigo me lembra um fato acontecido na UFPE, em 1980, quando pagava a cadeira de Anatomia I. Numa questão de prova, o professor solicitou o nome dos cinco ligamentos da medula. Minha memória só me permite recordar o nome de dois, pois sou nutricionista e pelo tempo, provavelmente já encontraram outros nomes: a cauda equina e o COXIM ADIPOSO, este último o motivo de meu comentário.
A prova foi realizada em um auditório com muitos alunos de vários cursos da área de saúde. Um destes alunos pediu cola a outro sobre esta questão e o colega forneceu a informação. O professor descobriu que o aluno havia colado pela grafia: em vez de escrever coxim adiposo, o desavisado escreveu “COXINHA DE POUSO”. A semelhança sonora é impressionante. Não é necessário dizer que o aluno tirou zero na referida prova…