Blogs e Colunistas

18/03/2012

às 9:00 \ Crônica

Cuidado: ‘por conta de’ é o novo ‘a nível de’

A locução prepositiva “por conta de” não é um novo animal na floresta da língua. Faz alguns anos que professores de português, conselheiros gramaticais e outros profissionais encarregados de zelar por uma versão limpa e correta do português falado no Brasil vêm advertindo o público dos seus riscos. Não adiantou. A novidade que se anuncia aqui é que esse modismo besta está vencendo o jogo – e de goleada. Se “a nível de” é uma praga que, de tão ridicularizada, entrou em declínio, “por conta de” está em alta. Quem separar uns poucos minutos para folhear com atenção revistas e jornais, navegar na internet ou ouvir TV e rádio – sobretudo este – encontrará uma impressionante variedade de frases sintaticamente mancas, construções rebarbativas e outras bobagens com “por conta de” no meio.

Uma complicação adicional é que nem sempre essa locução agride a gramática e o bom senso, embora o desgaste provocado pela repetição excessiva torne cada vez mais difícil acomodá-la num texto de estilo apurado. Como costuma ocorrer com modismos linguísticos bem-sucedidos demais, os casos mais graves são aqueles em que a expressão fetichista, julgando-se todo-poderosa, transborda do nicho gramatical que lhe foi reservado e passa a atuar como predadora de outras espécies ao seu redor. Mais do que empobrecer o vocabulário em circulação na sociedade, esse espalhamento instaura um vale-tudo em que a muleta linguística faz o papel de curinga chamado a remendar às pressas raciocínios esfarrapados. É o momento em que a inteligência coletiva paga a conta.

Não se trata de exagero. Talvez os danos fossem menores, computados apenas no placar da elegância, se os ataques se restringissem às preposições simples e curtas – como com, contra, por e de – que são as primeiras vítimas de “por conta de”:

● “Corintianos fazem piada por conta da derrota do Santos” (com);

● “Atriz Y. está deprimida por conta de separação” (com);

● “Moradores protestam por conta da situação da estrada” (contra);

● “Escritor X. é processado por conta de plágio” (por);

● “Morreu por conta de câncer” (de).

Nos casos acima, a locução do momento comete um crime típico do bacharelismo brasileiro, a enrolação palavrosa – a mesma que já levou muita gente a acreditar que soava sofisticada ao proferir tolices como “passar mal a nível de estômago”. Diante do que vem depois, porém, isso pode ser considerado secundário. Fortalecido pelas primeiras vitórias, “por conta de” logo se aventura em regiões distantes de seu habitat natural, passando a exterminar e substituir espécies linguísticas com as quais não tem a mais pálida semelhança. É o caso da preposição “sobre”:

● “O craque analisou a equipe adversária, mas por conta da queda do treinador preferiu não fazer comentários.”

E de repente atingimos o ponto culminante na escala da falta de noção: “por conta de” aparece ocupando o lugar de um advérbio como “apesar”, numa construção concessiva como esta:

● “Mesmo por conta da epidemia de dengue, as pessoas continuam deixando recipientes com água no quintal.”

Onde estarão errando os opositores de “por conta de” para serem ignorados de tal forma, inclusive por falantes que, para todos os efeitos, incluem-se entre os praticantes da variedade culta da língua? Curiosamente, seu equívoco parece residir no excesso de rigor e não na leniência – extremos que, como bem sabe quem educa ou já educou filhos, podem produzir resultados igualmente negativos. Ao condenar indiscriminadamente como erro o uso dessa locução prepositiva com o sentido causal que dicionários de qualidade como Houaiss e Aulete (embora não o Aurélio) já reconhecem como um brasileirismo legítimo, tais críticos abrem o flanco a uma desmoralizante acusação de ultraconservadorismo. Qualquer um que, a esta altura dos estudos linguísticos, seja visto como defensor de um impossível imobilismo de idiomas vivos é excluído do jogo com facilidade.

O fato é que o sentido causal de “por conta de” está além da polêmica. Sua origem clara – e castiça – deve ser buscada em “à conta de”, locução prepositiva à prova de controvérsia, embora pouco usada hoje. “À conta de” quer dizer “por causa de, a pretexto de”, informa o Aurélio, dando como exemplo uma frase de Frei Vicente do Salvador (1564-1635), autor do clássico História do Brasil: “…à conta de defenderem a jurisdição de el-rei, totalmente extinguiam a da Igreja”. Para transformar “à conta de” em “por conta de”, basta uma troca de preposição tão simples quanto a que levou o para do início desta frase a suplantar por como indicador de efeito a atingir, numa das evoluções marcantes do português antigo para o moderno analisadas por Said Ali em seus estudos pioneiros de gramática histórica.

No entanto, isso passa longe de esgotar a questão. Enquanto a expressão “por conta de” puder ser trocada por “em razão de”, “em decorrência de” ou “devido a” (que também já foi malvista, mas hoje goza de boa reputação), estaremos diante de uma defensável escolha de estilo, ainda que irreverente se observada por um prisma tradicional. Mas quando, numa língua de cultura como o português, filha legítima do latim, uma peça polivalente qualquer começa a substituir grosseiramente mecanismos programados para estabelecer entre palavras uma malha intrincada de relações lógicas, espaciais e temporais, como são as preposições, vemo-nos no terreno daquele círculo vicioso para o qual o escritor inglês George Orwell chamava atenção ao afirmar que “se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento”. A epidemia do “por conta de” é um sintoma da falência educacional brasileira.

Artigo publicado na edição de VEJA que está nas bancas.

Deixe o seu comentário

Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.

» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA

14 Comentários

  1. carlos II

    -

    19/09/2013 às 20:31

    G1:19/09/2013 14h42 – Atualizado em 19/09/2013 16h38
    ‘Não resta dúvidas’, diz delegado sobre mãe ter matado filhas em SP-”O diagnóstico é de transtorno mental por conta do uso de medicamentos sedativos e hipnóticos.”" não resta dúvidas: foi a mãe que assassinou”( o português,talvez…)”de que a mulher pode ter surtado e, em seguida”:”Possa ter” e “sutado”,Plebeísmo.Existem mais “vítimas” no texto? Completem, por favor.

  2. Assis Utsch

    -

    19/05/2013 às 19:06

    Não deveríamos aceitar o empobrecimento da linguagem como evolução.

  3. Cecília Oliveira

    -

    02/11/2012 às 20:55

    Sérgio, reforço o pedido da Rose Amorim , aqui abaixo. As pessoas não levam a sério professoras aposentadas, em seus comentários e correç
    ões, na maioria das vezes, atualmente. Chamam-nos de ultrapassadas, dizem que “hoje é assim”, que estamos desatualizadas e tal; se tivermos que comprovar algo, tem que ser exibindo um texto de professor em atividade . Dê sua opinião sobre esse modismo também. Obrigada .

  4. Rose Amorim

    -

    24/05/2012 às 22:19

    Boa, Sergio. Não podemos “estar assassinando” a língua só “por conta da” evolução linguistica “a qual”, em tempos “onde” muito se fala muito se enrola. Agora temos o mais novo modismo que é o uso redundante do pronome pessoal ‘ele’ ou ‘ela’ logo após o sujeito (um substantivo)numa frase. E o sujeito, desta vez o falante,todo prosa, ainda faz uma pausinha se achando o mais elegante e culto dos indivíduos. Ex: Nosso método (pausa) ele é inovador porque….
    Ou: As mulheres de meia idade que desejarem (pausa) elas poderão solicitar…. É terrível, mas é o que se ouve agora de 9 entre 10 entrevistados ou palestrantes.Tá na hora de você escrever sobre isso porque esse erro “ele” está me deixando doente.
    Abraços

  5. fpenin

    -

    30/03/2012 às 8:02

    A língua é viva,respira, contorce-se,etc, mas não foge à sua destinação:comunicar.Até meados do século XX, o termo asma era grafado como asthma. Que evolução!

  6. fpenin

    -

    30/03/2012 às 7:48

    Excelente, Sérgio. Navegas sobre este mar revolto com a tranquilidade de um grande timoneiro. O balanço do navio é natural…

  7. fpenin

    -

    30/03/2012 às 7:44

    Em sendo assim, assim sendo,sendo assim…Qual?

  8. Rubens F.

    -

    22/03/2012 às 20:11

    Ouvir rádio, como a CBN, por exemplo, é ficar exposto a um show de vícios de linguagem!

  9. Assis Utsch

    -

    22/03/2012 às 10:31

    O essencial das línguas é que seus falantes possam comunicar seu pensamento adequadamente. E uma das formas perturbadoras ou limitadoras da mensagem é a pobreza do vocábulário. Se um indivíduo diz “não tô legal”, isto pode significar dezenas ou centenas de estados psicológicos, e o ouvinte nunca entende de imediato o significado desse “não tô legal”. Outra restrição são esses modismos da espécie “a nível de”, o “vou estar providenciando”, esse novo “por conta de”, todos evocados em razão das limitações linguísticas do falante.

  10. Juliana

    -

    21/03/2012 às 8:56

    Existe a possibilidade de que a expressão “à conta de”, tal qual usada pelo Frei Vicente do Salvador, apontada por você como exemplo, tenha sido resultado também de um processo semelhante ao descrito para a expressão “por conta de”, isto é, uma deformação da norma com o intuito de aparentar erudição? Por que os nossos processos atuais de transformação da língua são mais condenáveis do que os processos do passado? A simples constatação de que tal expressão foi usada em texto do século XVI é suficiente para materializar uma norma?
    Obrigada pelas análises.
    Juliana, não é esta a questão. O que quer que tenha ocorrido no século 16, a transformação que hoje faz de “por conta de” uma locução prepositiva causal não é “condenável” – nem adiantaria coisa alguma condená-la. Mas repare que eu a defendo. O foco do artigo é outro: o abuso que ela vem sofrendo como pau gramatical para toda obra, um abuso tão grande e tão desajeitado, como acredito ter demonstrado, que termina por tirar de “por conta de” a respeitabilidade que ela poderia reivindicar. Repare que a crítica se dirige a textos profissionais, um universo em que (ainda) cabem critérios de estilo, elegância, propriedade e precisão. Se a moda fosse “por causa de”, usado em frases como “morreu por causa de câncer” ou “mesmo por causa da dengue, as pessoas ainda acumulam água no quintal”, a crítica seria a mesma. Um abraço.

  11. Jilvan

    -

    20/03/2012 às 16:43

    É muito interessante como muitas pessoas estudam tanto a língua e não compreende que a língua e viva e passa por modificações, inclusive os próprios falantes é que vão dizer como a língua é ou tem que ser. É uma vergonha como a gramática, tão antiga, ainda influência muitos. Em questão de “erros”, o português, o francês, o espanhol e afins seriam línguas, totalmente, “erradas”, pois nascem do latim vulgar, ou seja, da grande massa que é o povo. Ainda assim textos como esses aparecem ao longo dos tempos, ainda por cima, termina-se o texto com uma frase puramente ridícula.
    Jilvan, o assunto aqui é a norma culta, pela qual seu comentário foi reprovado em forma e conteúdo. É uma pena que tanta gente use noções de linguística (uma abordagem que pode ser progressista, como ao se fazer presente na minha exposição da transformação de “por conta de” em locução prepositiva causal, reparou?) como álibi para a ignorância e o laissez-faire total. Lamento, mas isso também é um sintoma da falência educacional brasileira.

  12. Felipe

    -

    19/03/2012 às 7:07

    “A epidemia do ‘por conta de’ é um sintoma da falência educacional brasileira.”

    Infelizmente não o único deles.

  13. Luciano

    -

    19/03/2012 às 6:17

  14. Luciano

    -

    18/03/2012 às 11:45

    Eu também ODEIO por conta de, mas parece que eu, você e todos os que não gostam e não usam temos que lidar com isso. Veja:

    http://ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=26241 A consulente é brasileira e o consultor é português.

    Ademais, por conta de parece não ser um brasileirismo, como você indicou, já que este dicionário português o registra sem marca regional:
    http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=conta

    Entretanto, como se pode ver neste corpus, parece ser usado muito mais no Brasil do que em Portugal. Nesta pequena amostra, não encontrei nenhum documento de Portugal em que por conta de possa ser substituído por por causa de: http://corpusdoportugues.org/ Basta escrever por conta de (sem aspas!) e apertar ignorar para não se filtrarem os resultados por época. Também é digno de nota que, o pouco que brinquei com ele, por conta de = por causa de parece ocorrer só a partir do século XX e particularmente na década de 90.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados